sábado, 29 de março de 2008

Produção cultural também é questão do Estado

Alê Barreto · Porto Alegre (RS)

Uma sugestão para as eleições de 2008
Ao assistir os meus primeiros debates sobre cultura em Porto Alegre, sempre percebi que os discursos seguiam, em sua maior parte, ideologias político-partidárias. Achava que isto estava errado e que os assuntos do campo cultural não deveriam estar associados a assuntos do campo político.

Com o tempo, percebi que estava cometendo um equívoco. Se o mundo é um sistema e a maior parte dos problemas ambientais que assistimos ocorrem justamente pela excessiva visão fragmentada dos fenômenos, não teria cabimento eu querer separar cultura de política.

Apareceu então o seguinte problema: como vou me posicionar? Como vou agir? Pensei então que precisava conhecer as diretrizes e programas dos diferentes partidos e saber como agiam seus membros, para somente então assumir publicamente uma posição e ser coerente com minha opção.

Percebi que em geral, pelo menos aqui no RS, os partidos assumem três posições: 1) achar que no mercado está a solução de tudo; 2) achar que todos os problemas do mundo (inclusive os da cultura) têm sua origem no mercado; e 3) defender qualquer uma destas posições, no período que antecede as eleições e depois nada fazer. Aliás, “não fazer nada” depois que acabam as eleições é um fato comum nos candidatos que assumem as posições 1 e/ou 2.

Entendida esta questão, pensei em assumir uma das três posições. Depois vi que não concordo com nenhuma delas, pois o entendimento da dinâmica do campo cultural vai além de incluí-lo ou excluí-lo do contexto do mercado. Por fim, desanimei. Como em Porto Alegre (será só aqui?) a maioria das pessoas que trabalham com cultura se conhece, pensei que não valia a pena me expor publicamente apoiando iniciativas político-partidárias em prol da cultura, prevenindo assim desgastes posteriores, prováveis boicotes dos futuros partidos que viessem a assumir a administração municipal ou estadual.

O que ganhei com isso? A sensação de que algo precisava ser feito e que a minha posição “confortável”, à prova de conflitos, havia me engessado.

Pensando sobre isso lembrei da vídeo conferência de Debra Rowe, professora do Oakland Community College (EUA), durante o Simpósio A Universidade frente aos Desafios da Sustentabilidade em 2004, sobre mobilização estudantil para cobrar a implantação de uma política de desenvolvimento sustentável nas universidades americanas. Cheguei a conclusão que podia fazer algo.

Em 2006 constitui com músicos da banda com quem trabalhava o Coletivo Tarrafa, que desenvolveu atividades até julho de 2007.

Também comecei a produzir conteúdo para reflexão e organização do setor cultural. Primeiramente publiquei o artigo "Vamos Educar as Pessoas para a Produção Cultural?" para mostrar a lacuna imensa que temos em termos de formação para produção cultural. Na sequência, disponibilizei publicamente minha pesquisa sobre financiamento da música. Depois escrevi artigos falando da relação entre educação e a canção, do exercício da atividade de produção cultural e compartilhei informações sobre cultura colaborativa e software livre.

Minha última ação no sentido de contribuir para o desenvolvimento da cadeia produtiva da cultura foi a publicação do livro Aprenda a Organizar um Show.

A partir disso, comecei a receber e-mails de várias pessoas me dando um retorno de que estão lendo estes conteúdos, que situações parecidas ocorrem em suas cidades.

Acredito na importância de se educar as pessoas para a produção cultural. Quando falo em “educar para produção cultural”, não estou restringindo a aprender a encaminhar projetos para leis de incentivo. Me refiro a necessidade de se estruturar métodos de ensino que permitam aos jovens se interessar pelo trabalho com a cultura desde o ensino fundamental, se profissionalizarem no ensino médio e desenvolverem conhecimento de ponta em âmbito universitário.

Mobilize pessoas influentes em seu bairro, cidade ou região para pressionar candidatos a incluir educação para produção cultural em seus programas políticos e projetos de governo.

Feito isso, redija um documento e peça para que o candidato leia e assine.

Veja um exemplo:


COMPROMISSO PÚBLICO DE CANDIDATO


Eu, _______________________________, brasileiro, residente a

________________, portador de RG nº_________,

candidato a _____________________no município de

_______________________________,

pelo partido ____________________, me


comprometo publicamente a cumprir rigorosamente os compromissos a seguir:

• Apoiar, propor e votar em projetos de lei que destinem valores do orçamento público para criação e manutenção de projetos, programas, cursos, centros comunitários, escolas, centros de ensino técnico e universidades, voltados para formação de profissionais que trabalhem com produção cultural, em toda sua diversidade;

• Apoiar, propor e votar em projetos de lei que destinem valores do orçamento público para formação de professores da rede pública para atuarem como sensibilizadores para o trabalho com produção cultural no ensino fundamental;

• Apoiar, propor e votar em projetos de lei que destinem valores do orçamento público para capacitação de profissionais de produção cultural para atuarem como professores na formação técnica em produção cultural no ensino médio;

• Apoiar, propor e votar em projetos de lei que destinem valores do orçamento público para criação e manutenção de cursos de graduação e pós-graduação em áreas que abranjam a produção cultural e que atendam as demandas do Sistema Nacional de Cultura;

• Apoiar, propor e votar em projetos de lei que destinem valores do orçamento público para criação de editais para financiamento de publicações didáticas voltadas para o ensino de produção cultural;

• Apoiar, propor e votar em projetos de lei que destinem valores do orçamento público para criação de cursos de capacitação empresarial para profissionais de produção cultural atuarem como empreendedores, utilizando os conceitos da economia solidária.


Isso é somente um modelo. Você pode adaptá-lo ao contexto de sua cidade.

Mas o que realmente importa é fazer. Eu tenho certeza que não tomará tanto tempo do seu presente, mas pode mudar muito o nosso futuro.

Mesmo sendo a produção cultural "também" uma questão do Estado, cada indivíduo pode ser um agente de transformação para auxiliar a criar condições que ampliem nosso desenvolvimento através da cultura.

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