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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Quais indicios apontam para quem quer tirar o titulo de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil e usar a religião para obter vantagens materiais indevidas?

 


Para compreender por que a associação entre Flávio Bolsonaro e uma eventual mudança no título de Nossa Senhora Aparecida encontrou tanta repercussão, talvez seja necessário voltar um pouco mais no tempo e lembrar o espaço que determinadas lideranças evangélicas conquistaram durante o governo Jair Bolsonaro.

Não se trata de falar genericamente em “os evangélicos”. Milhões de evangélicos brasileiros não participaram desse processo e não podem ser responsabilizados pelas ações de determinadas lideranças. A questão é outra: quais pastores e dirigentes religiosos conquistaram acesso ao poder público, como esse acesso funcionou e o que aconteceu quando algumas dessas relações foram colocadas sob investigação?

O caso mais emblemático foi o Ministério da Educação.

Durante o governo Bolsonaro, os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, embora não ocupassem cargos no governo, passaram a circular com extraordinária frequência pelo Ministério da Educação, pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e pelo próprio Palácio do Planalto.

Levantamento da Folha de S.Paulo, baseado em registros obtidos pela Lei de Acesso à Informação, contabilizou 127 visitas dos dois ao MEC e ao FNDE. No Palácio do Planalto, foram registradas outras 45 entradas entre 2019 e 2022. Arilton Moura esteve 90 vezes no MEC e 21 no FNDE. Gilmar Santos esteve 13 vezes no MEC e três no FNDE.

A situação chamou atenção porque os dois religiosos passaram a atuar como intermediários na relação entre prefeitos e o Ministério da Educação, especialmente em torno da liberação de recursos do FNDE.

Prefeitos relataram que os pastores teriam pedido vantagens indevidas para intermediar a liberação de recursos públicos. O episódio provocou uma investigação sobre suspeitas de corrupção e levou à prisão temporária dos pastores e do então ministro da Educação, Milton Ribeiro. A investigação permaneceu aberta posteriormente.

Um áudio de Milton Ribeiro tornou o caso ainda mais grave. O então ministro afirmou que havia um pedido especial do presidente Jair Bolsonaro relacionado ao pastor Gilmar e que haveria uma prioridade para pessoas ligadas a ele. O episódio terminou com a saída de Ribeiro do Ministério da Educação.

O que o caso do MEC revelou foi a existência de um canal de influência de líderes religiosos sem cargo público sobre decisões relacionadas à distribuição de recursos federais.

E esse precedente é importante para a discussão atual porque mostra que a aproximação entre religião e poder, durante o governo Bolsonaro, não ficou restrita a discursos eleitorais ou fotografias em igrejas.

Ela chegou ao interior da máquina pública.

De Brasília ao Banco Master

As investigações da Operação Compliance Zero, conduzidas pela Polícia Federal e acompanhadas pelo Supremo Tribunal Federal, atingiram o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e outras pessoas suspeitas de participação em um esquema de fraudes. A investigação é criminal e seus envolvidos continuam submetidos ao devido processo legal.

Entre os personagens alcançados pela investigação está Fabiano Zettel, pastor da Igreja Batista da Lagoinha e cunhado de Daniel Vorcaro.

Em setembro de 2026, veio a público um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras mostrando que uma conta da Igreja Batista da Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte, movimentou R$ 57,1 milhões em operações consideradas atípicas entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025. O valor era muito superior ao faturamento anual presumido da unidade, estimado em aproximadamente R$ 950 mil.

Segundo os dados divulgados, Zettel realizou 26 lançamentos que somaram R$ 19,2 milhões. O relatório também apontou transferências envolvendo pessoas ligadas à família Vorcaro e recursos destinados a construtoras e incorporadoras. O Coaf considerou que as operações poderiam indicar tentativa de ocultação da origem ou destino dos recursos.

Zettel  foi preso no âmbito da Operação Compliance Zero e é apontado pelos investigadores como integrante da estrutura financeira investigada. Sua defesa tem direito de apresentar sua versão e o caso ainda depende do devido processo judicial.

A Lagoinha e André Valadão

A dimensão religiosa do caso aparece porque Zettel era pastor de uma unidade da Igreja Batista da Lagoinha, denominação presidida nacionalmente por André Valadão.

Quando o caso veio a público, Valadão gravou uma mensagem dirigida aos fiéis na qual pediu perdão pelo envolvimento da unidade da igreja e afirmou ter confiado em pessoas que posteriormente o surpreenderam por situações de suas vidas que, segundo ele, não conhecia.

A Lagoinha Global, por sua vez, afirmou que as unidades possuem autonomia administrativa e financeira e que os valores movimentados pela unidade de Belvedere não eram de conhecimento da direção nacional. André Valadão também afirmou que a instituição nacional não captou, administrou ou recebeu aqueles recursos.

Quando religião, política e negócios se encontram

O caso fica ainda mais complexo porque a Lagoinha não é apenas uma denominação religiosa com presença nacional. Ela também se tornou um espaço importante de circulação de figuras políticas conservadoras.

O ambiente da igreja recebeu políticos identificados com o bolsonarismo. André Valadão manifestou posições políticas públicas durante o ciclo eleitoral anterior e seu espaço religioso foi frequentado por figuras como Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira.

Renato Teixeira - Romaria (part. Chitãozinho & Xororó, León Gieco, Pena Branca e Joanna)


Ouça outra bela canção de Roberto Malvezzi (Gogó) em homenagem a Padroeira do Brasil,  Senhora Aparecida. AQUI

O que tudo isso tem a ver com Nossa Senhora Aparecida?

À primeira vista, nada.

E é exatamente aí que a discussão precisa ficar mais cuidadosa.

A história que viralizou nesta semana — a de que Flávio Bolsonaro retiraria Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil — não foi comprovada. O projeto utilizado para sustentar a afirmação é o PL 2.623/2007, de Victório Galli, arquivado em 2008. A própria Câmara confirma isso.

Mas Galli era pastor evangélico, autor daquele projeto e posteriormente ocupou cargo no governo Jair Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, o próprio Flávio Bolsonaro afirmou em agosto de 2026 que, caso eleito, um de seus primeiros atos seria decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

E sua campanha mantém relações públicas com lideranças evangélicas.

É esse conjunto de fatos que explica por que a declaração atribuída a setores evangélicos encontrou terreno fértil.

O problema não são os evangélicos

Não há nada de ilegítimo em um evangélico participar da política. Nem em um pastor apoiar um candidato. Nem em um católico defender Nossa Senhora Aparecida.

O problema começa quando a autoridade religiosa se transforma em acesso privilegiado ao Estado, quando relações religiosas servem de ponte para negócios pouco transparentes ou quando a fé é utilizada como argumento para estabelecer quem pertence ou não pertence à nação.

O caso do MEC mostrou uma situação em que pastores sem cargo público adquiriram acesso extraordinário à estrutura federal e foram acusados por prefeitos de intermediar recursos mediante pedidos de vantagens indevidas.

O caso Banco Master, já em outro contexto, mostra investigadores examinando movimentações financeiras atípicas de dezenas de milhões de reais em uma igreja ligada a um pastor que também tinha vínculo familiar com o principal personagem da investigação.

E talvez seja justamente essa a discussão que a polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida acabou trazendo de volta.

Não sabemos se existe um plano para mudar o título da Padroeira do Brasil.

Sabemos, porém, que existe uma disputa real sobre o lugar da religião na política brasileira.


Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida: Entenda a polêmica envolcendo o senador e os católicos





Marco Feliciano, aliado do clã Bolsonaro, chamou Igreja Católica de “religião morta e fajuta”; veja vídeo

Aliado histórico do clã Bolsonaro, Feliciano diz em vídeo que a Igreja Católica é o "avivamento de Satanás", incita evangélicos contra católicos e diz que "Jesus não foi feito para ser enfeite de pescoço de homossexual, pederasta e lésbica".

https://revistaforum.com.br/politica/marco-feliciano-bolsonaro-igreja-catolica-de-religiao-morta-e-fajuta/?utm_source=dlvr.it&utm_medium=facebook#google_vignette


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