Para compreender por que a associação entre Flávio Bolsonaro e uma eventual mudança no título de Nossa Senhora Aparecida encontrou tanta repercussão, talvez seja necessário voltar um pouco mais no tempo e lembrar o espaço que determinadas lideranças evangélicas conquistaram durante o governo Jair Bolsonaro.
O caso mais emblemático foi o Ministério da Educação.
Durante o governo Bolsonaro, os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, embora não ocupassem cargos no governo, passaram a circular com extraordinária frequência pelo Ministério da Educação, pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e pelo próprio Palácio do Planalto.
Levantamento da Folha de S.Paulo, baseado em registros obtidos pela Lei de Acesso à Informação, contabilizou 127 visitas dos dois ao MEC e ao FNDE. No Palácio do Planalto, foram registradas outras 45 entradas entre 2019 e 2022. Arilton Moura esteve 90 vezes no MEC e 21 no FNDE. Gilmar Santos esteve 13 vezes no MEC e três no FNDE.
A situação chamou atenção porque os dois religiosos passaram a atuar como intermediários na relação entre prefeitos e o Ministério da Educação, especialmente em torno da liberação de recursos do FNDE.
Prefeitos relataram que os pastores teriam pedido vantagens indevidas para intermediar a liberação de recursos públicos. O episódio provocou uma investigação sobre suspeitas de corrupção e levou à prisão temporária dos pastores e do então ministro da Educação, Milton Ribeiro. A investigação permaneceu aberta posteriormente.
Um áudio de Milton Ribeiro tornou o caso ainda mais grave. O então ministro afirmou que havia um pedido especial do presidente Jair Bolsonaro relacionado ao pastor Gilmar e que haveria uma prioridade para pessoas ligadas a ele. O episódio terminou com a saída de Ribeiro do Ministério da Educação.
O que o caso do MEC revelou foi a existência de um canal de influência de líderes religiosos sem cargo público sobre decisões relacionadas à distribuição de recursos federais.
E esse precedente é importante para a discussão atual porque mostra que a aproximação entre religião e poder, durante o governo Bolsonaro, não ficou restrita a discursos eleitorais ou fotografias em igrejas.
Ela chegou ao interior da máquina pública.
De Brasília ao Banco Master
As investigações da Operação Compliance Zero, conduzidas pela Polícia Federal e acompanhadas pelo Supremo Tribunal Federal, atingiram o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e outras pessoas suspeitas de participação em um esquema de fraudes. A investigação é criminal e seus envolvidos continuam submetidos ao devido processo legal.
Entre os personagens alcançados pela investigação está Fabiano Zettel, pastor da Igreja Batista da Lagoinha e cunhado de Daniel Vorcaro.
Em setembro de 2026, veio a público um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras mostrando que uma conta da Igreja Batista da Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte, movimentou R$ 57,1 milhões em operações consideradas atípicas entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025. O valor era muito superior ao faturamento anual presumido da unidade, estimado em aproximadamente R$ 950 mil.
Segundo os dados divulgados, Zettel realizou 26 lançamentos que somaram R$ 19,2 milhões. O relatório também apontou transferências envolvendo pessoas ligadas à família Vorcaro e recursos destinados a construtoras e incorporadoras. O Coaf considerou que as operações poderiam indicar tentativa de ocultação da origem ou destino dos recursos.
Zettel foi preso no âmbito da Operação Compliance Zero e é apontado pelos investigadores como integrante da estrutura financeira investigada. Sua defesa tem direito de apresentar sua versão e o caso ainda depende do devido processo judicial.
A Lagoinha e André Valadão
A dimensão religiosa do caso aparece porque Zettel era pastor de uma unidade da Igreja Batista da Lagoinha, denominação presidida nacionalmente por André Valadão.
Quando o caso veio a público, Valadão gravou uma mensagem dirigida aos fiéis na qual pediu perdão pelo envolvimento da unidade da igreja e afirmou ter confiado em pessoas que posteriormente o surpreenderam por situações de suas vidas que, segundo ele, não conhecia.
A Lagoinha Global, por sua vez, afirmou que as unidades possuem autonomia administrativa e financeira e que os valores movimentados pela unidade de Belvedere não eram de conhecimento da direção nacional. André Valadão também afirmou que a instituição nacional não captou, administrou ou recebeu aqueles recursos.
Quando religião, política e negócios se encontram
O caso fica ainda mais complexo porque a Lagoinha não é apenas uma denominação religiosa com presença nacional. Ela também se tornou um espaço importante de circulação de figuras políticas conservadoras.
O ambiente da igreja recebeu políticos identificados com o bolsonarismo. André Valadão manifestou posições políticas públicas durante o ciclo eleitoral anterior e seu espaço religioso foi frequentado por figuras como Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira.
Renato Teixeira - Romaria (part. Chitãozinho & Xororó, León Gieco, Pena Branca e Joanna)
O que tudo isso tem a ver com Nossa Senhora Aparecida?
À primeira vista, nada.
E é exatamente aí que a discussão precisa ficar mais cuidadosa.
A história que viralizou nesta semana — a de que Flávio Bolsonaro retiraria Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil — não foi comprovada. O projeto utilizado para sustentar a afirmação é o PL 2.623/2007, de Victório Galli, arquivado em 2008. A própria Câmara confirma isso.
Mas Galli era pastor evangélico, autor daquele projeto e posteriormente ocupou cargo no governo Jair Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, o próprio Flávio Bolsonaro afirmou em agosto de 2026 que, caso eleito, um de seus primeiros atos seria decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
E sua campanha mantém relações públicas com lideranças evangélicas.
É esse conjunto de fatos que explica por que a declaração atribuída a setores evangélicos encontrou terreno fértil.
O problema não são os evangélicosNão há nada de ilegítimo em um evangélico participar da política. Nem em um pastor apoiar um candidato. Nem em um católico defender Nossa Senhora Aparecida.
O problema começa quando a autoridade religiosa se transforma em acesso privilegiado ao Estado, quando relações religiosas servem de ponte para negócios pouco transparentes ou quando a fé é utilizada como argumento para estabelecer quem pertence ou não pertence à nação.
O caso do MEC mostrou uma situação em que pastores sem cargo público adquiriram acesso extraordinário à estrutura federal e foram acusados por prefeitos de intermediar recursos mediante pedidos de vantagens indevidas.
O caso Banco Master, já em outro contexto, mostra investigadores examinando movimentações financeiras atípicas de dezenas de milhões de reais em uma igreja ligada a um pastor que também tinha vínculo familiar com o principal personagem da investigação.
E talvez seja justamente essa a discussão que a polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida acabou trazendo de volta.
Não sabemos se existe um plano para mudar o título da Padroeira do Brasil.
Sabemos, porém, que existe uma disputa real sobre o lugar da religião na política brasileira.
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