domingo, 10 de setembro de 2017

Cultura além do consagrado

O Brasil mudou e mudou também a forma de ver e fomentar a cultura, incluindo aí tudo que se produz, desde o artesanato até os grupos tradicionais de forró, passando pela união de forças entres descendentes de quilombolas e pomeranos no Sul do país.


Em Janduis (RN) ponto de cultura “Em Cena Ação” durante espetáculo
Em Janduis (RN), ponto de cultura “Em Cena Ação”, durante espetáculo
Foto: Divulgação



Falar sobre Pontos de Cultura – capítulo importante do programa Cultura Viva do Ministério da Cultura – sempre rende conversas longas, relatos variados e conclusões diversas, mas há um consenso: a experiência pode mesmo fomentar o que já existe e estimular o surgimento de variadas formas de expressão cultural do Brasil.

De 2003 a 2009, foram 7 mil projetos financiados em mais de duzentos editais públicos – que antes não existiam. É nesse contexto que nasce o programa e os pontos, tendo como pano de fundo a diminuição da segregação social no país, multiplicando os espaços e as chances reais de milhões de pessoas.

Condição para ser um ponto de cultura é estar em rede, a fim de trocar informações, experiências e realizações. Segundo as regras publicadas no site do MinC, organizações e entidades interessadas “devem solicitar a criação da rede de Pontos de Cultura ao MinC, indicando o número de pontos a serem selecionados (uma rede é constituída por, no mínimo, quatro Pontos) e dispor de contrapartida financeira mínima de um terço do valor total do convênio a ser firmado”.

Mas o ponto não tem um modelo único, nem exige instalações físicas, programação ou atividade. Um aspecto comum a todos é a transversalidade da cultura e a gestão compartilhada entre poder público e comunidade.

A diversidade brasileira

Os exemplos são variados, já existe bibliografia sobre o tema, que também é objeto de teses acadêmicas. O programa possibilitou, em um dos exemplos mais citados, Vídeo nas Aldeias, o desenvolvimento de um projeto de inclusão digital de aldeias indígenas. Instituído desde 2005, esse ponto conseguiu colaborar com a formação de cineastas, roteiristas, diretores e editores índios. “O índio na frente e atrás das câmeras”, explica Vincent Carelli, realizador desta ação. É a continuidade da cultura tradicional por meio da utilização de técnicas e ferramentas digitais.

  

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva explicou os Pontos de Cultura como “espaços permanentes de experimentação, encanto, transformação e magia”. São produtores de conhecimento, do moderno ao tradicional, englobando tudo que se possa alocar debaixo do guarda chuva da diversidade.

Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura, falava que os pontos eram “uma espécie de ‘do-in’ antropológico, massageando pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou adormecidos, do corpo cultural do país”.

Para além da experiência de criar políticas de Estado, são resultado dos debates ocorridos na preparação da campanha presidencial de 2002, que culminou em momento importante da história do avanço das políticas culturais.

 A ação do MinC muda o foco, levando em consideração que em cada lugar remoto do país existe quem crie cultura de alguma forma e por isso o Estado deveria reconhecer e dar sustentabilidade ao que já exista, porém até aquele momento, desprovido de qualquer apoio.

Em 2003, Célio Turino levou sua experiência na Secretaria de Cultura do município de Campinas (SP) para a Secretaria de Programas e Projetos Culturais do Ministério da Cultura. Entusiasta e um dos responsáveis pelo início de tudo, Célio desenha uma equação para explicar os pontos: PC = (a + p”) = E. Traduzindo: ponto de cultura é o resultado da soma autonomia mais protagonismo elevado à potência, ou seja, é igual a empoderamento/emancipação. Muito mais do que só cultura.

Em 2004 havia R$ 5 milhões para os pontos de cultura. Esse valor passou a R$ 55 milhões em 2005, graças a uma emenda parlamentar inédita em termos de investimento na área. O primeiro edital conveniou 210 inscritos, passando a 400, em 2005; 700 em 2006; mais de 2 mil em 2007, e em 2011 são mais de 3 mil conveniados pelo Brasil afora, atuando em redes sociais, estéticas e políticas. Segundo os cálculos de Turino, são 8 milhões de pessoas envolvidas ao custo mensal de R$ 5 mil.

No Almanaque Cultura Viva, editado pelo MinC, com o balanço das ações do programa, na apresentação o então ministro Juca Ferreira escrever que “o governo compreendeu que a Cultura é uma ferramenta poderosa para a redução das desigualdades e para a universalização de conquistas de qualidade de vida, permitindo ao cidadão comum o desenvolvimento de suas capacidades, da inventividade e do senso crítico. Estratégica para a economia, tanto na participação do PIB nacional, quanto na inserção global do país no mercado internacional”.

Redesenhar o programa

Marta Porto foi secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC até o dia 1º de setembro. Sua demissão estava em vias de ser anunciada oficialmente quando finalizamos este texto. Mas antes disso, ela e sua equipe ficaram dois meses trabalhando e discutindo as soluções de problemas e a ampliação do programa Pontos de Cultura.

Em setembro será divulgado o resultado da segunda fase do termo de cooperação assinado com Ipea, englobando estudos sobre os pontos de 2008 a 2010. O levantamento foi feito diretamente com os pontos e a partir das respostas obtidas será apresentada proposta de andamento do programa.

Marta havia adiantado o compromisso e prioridade para os temas voltados para questões da gestão administrativo-financeira dos pontos e acelerar a força tarefa, que já está trabalhando, para colocar em dia as prestações de contas com problemas, e assim finalizar os pagamentos pendentes.

A então secretária, que integrou o conselho consultivo do programa Cultura Viva em seu começo, falou que, do ponto de vista político, o governo federal espera introduzir em todas as suas áreas ações de combate à miséria, que é o carro chefe do governo Dilma. E a cultura não fica fora disso.

“Em conjunto com outros programas, de outros ministérios, vamos atuar no fortalecimento dos pontos de cultura como espaços nos quais os agentes culturais são protagonistas que podem articular políticas setoriais”, explicou Marta, ponderando que há uma variedade imensa de pontos de cultura. O próximo passo será fazer levantamento de toda tipologia existente entre os pontos.

Redesenhar o programa, assim Marta Porto descreveu o futuro dos pontos. “São três compromissos básicos: definição do que fazem os pontos e sua atuação, política de fomento mais apropriada, levando em conta as características regionais e dos projetos de forma a pensar alternativas de sustentabilidade, além da implantação real do pacto federativo são apresentados por Marta como o que virá para o futuro. E, também, a consolidação de legislação para garantir as iniciativas que expressem a diversidade nacional”.

O programa Cultura Viva fica com R$ 80 milhões dos R$ 800 milhões do orçamento do MinC. Foi feito investimento nas regionais e contratação de mais dois profissionais por região para acelerar os processos. Além de ampliar e implantar novos pontões a partir de ação conjunta com estados e municípios, o MinC pretende lançar novas redes e vem atuando em ações interministeriais. Nesse sentido, Marta anunciou várias atividades e editais com as secretarias de Direitos Humanos, de Juventude e de Políticas para as Mulheres.

Demanda da sociedade

O Coletivo Digital, grupo de São Paulo, foi idealizado no final de 2004 para levar adiante a experiência de seus integrantes nas áreas de inclusão digital, disseminação e utilização do software livre, e do conhecimento colaborativo.

Os jovens do Coletivo Digital contam que o surgimento dos pontos de cultura, em 2003, foi resultado de pressão para que o governo investisse no que já estava em andamento, apoiar o que já acontecia, respeitando a diversidade brasileira. A gestão de Gilberto Gil apostou nas “pequenas” ações culturais, fazendo o país descobrir várias experiências, do rock ao candomblé.

Ponto de cultura parte do princípio que se o governo investe, fazendo girar o ecossistema cultural das comunidades, gera cultura e público. O pessoal do Coletivo Digital vê os pontos de cultura “como resultado das demandas da sociedade civil e da coragem de Gil, que entrou no ministério para comprar brigas”. Mas relatam problemas, como atraso no repasse das verbas, dificuldades nas prestações de conta e, com o início da atual gestão, pouco acesso aos gestores no MinC. Para o Coletivo, o ministério precisava avançar na continuidade do projeto e também encaminhar questões que são caras ao movimento de cultura. Entre eles, a reforma da Lei Rouanet e o projeto de lei de direitos autorais, que ainda não foi apresentado.

O livro mais recente de Célio Turino, “um radical, utópico e comunista”, como ele mesmo se define, “Ponto de Cultura – O Brasil de baixo para cima”, apresenta uma sensível radiografia de como são e o que fazem os pontos de cultura de Norte a Sul, de Leste a Oeste, exemplos variados e que de fato “des-silenciam” os facetados brasis que se espalham pelo enorme território nacional.

Um livro que emociona pela simplicidade do relato e pela profundidade do significado da ação dos pontos, que podem ser pautados pelos interesses e cultura indígena, de idosos, culinária, religião e até manicômios. Os pontos, para Célio e outros entusiastas, provam que a cultura é diversa e não tem cercas.

Além de escrever (e muito) sobre pontos de cultura, Turino tem sempre o que contar. Entre exemplos da vida real, como do nada um grupo ergue um super projeto que atenda a juventude nas periferias, ou como idosos encontraram em um ponto a forma de mostrar à comunidade sua vida, dá também a receita de como resolver os problemas administrativos do projeto.

Além de serem espaços de continuidade cultural, de construção ou aglutinação de pessoas e ideias, Turino também defende que os pontos têm dimensão econômica e cita como  exemplo o Vale do Araripe, Ceará, onde a pré-história, as pinturas rupestres e os fósseis fazem  parte da vida da comunidade. A movimentação é grande, os jovens produzem de música a exposições e para a economia da cidade, com a demanda de turistas, também gerou dividendos para Nova Olinda.

Para ele, seria simples dar continuidade ao projeto dos pontos. Lembrando que há problemas somente em 15% do total do projeto, Turino defende a proposta de algo como o programa bolsa família. “Os pontos são como as famílias que o Estado deve amparar. Um cartão de micro financiamento, com prestações de contas a partir dos resultados e não da burocracia procedimental”, propõe.

Ocupando a América Latina

Há dúvidas sobre como ficarão os pontos de cultura, mas isso é só no Brasil, porque outros países da América Latina, como Guatemala, Costa Rica, Argentina e Peru, já estão colocando o projeto em ação.

Billy Ochoa, gestor cultural comunitário do Colectivo Caja Lúdica, da Guatemala, relata com animação a construção da proposta para fora do Brasil. “Estamos iniciando esta construção na Guatemala e na América Central. Estamos dando os primeiros passos e iremos ao Fórum de Política, Cultura e Juventude levar esta ideia”.

No Peru, Paloma Carpio, do projeto Mundo Tarumba, vai na mesma direção. E já há muita coisa acontecendo, apesar do pouco tempo: no último dia 21 de agosto, ocuparam as ruas do bairro onde atuam, Nova Lima, e levaram aos vizinhos e crianças espetáculos de teatro e música. “Cultura Viva para Nova Lima é o programa cultural central mais importante da atual gestão. Esperamos fortalecer a produção artística existente na cidade e contribuir para a construção de uma maior consciência cidadã na capital”, defende Paloma.

Todos os contatos procurados retornaram mostrando não só entusiasmo, mas projetos e propostas e pelo visto se encaminha para ser um projeto de todo Mercosul.


Fernanda Estima é editora assistente de Teoria e Debate



Referências





Quando predomina o predador por causa do atual silencio das panelas e de manifestações ruidosas contra a corrupção. falta



 

Outros mundos são possíveis. Outros olhares são necessários. Outras atitudes são urgentes.

Na música Brasil com P, o rapper Gog pergunta no final. Por que predominou o predador? 

No Brasil de Temer e seu bonde de golpistas, a pergunta é porque silenciaram as panelas e as manifestações ruidosas contra a corrupção, se temos agora o governo verdadeiramente mais corrupto da história.

Um bom tema para investigação acadêmica. Caso alguém conheça trabalhos já realizados com base no argumento principal apresentado abaixo, por gentileza indique nos comentários. A reflexão abaixo tenta acrescentar o olhar sob a vista de outro ponto, diverso do autor do texto, mas não antagônico. "Por que as panelas bateram contra Dilma e não batem contra Temer? de Alexandre Tambelli.

Uma das razões que explicam o distanciamento ou descolamento do PT das bases e o papel pouco politizador de muitas politicas públicas aplicadas durante a Era Lula/Dilma, tem a ver com o extrato social de origem dos principais lideres que ocuparam a máquina partidária e governamental, os quais estavam/estão ligados ao mundo acadêmico e sindical, estes dominados em demasia por uma visão “burguesa” da realidade. Sem esquecermos aqui, a correlação de forças politicas dentro do governo e a influência do poder econômico dentro das estruturas do aparelho de estado.

Já os setores ligados ao mundo das comunidades, ao mundo da educação de base, ao mundo da economia solidária, nunca conseguiram por razões óbvias e até mesmo , porque não estavam tão preparados ou preocupados com isso, galgar posições de poder e/ou de comando mais proeminentes.
Isso pode ser uma das explicações para a dificuldade de mobilização dos setores populares para a reação ao golpe, pois a forma com que as politicas sociais foram desenhadas e aplicadas, não consideraram um papel mais ativo ou protagonista dos coletivos e organizações sociais. Salvo um ou outro programa, como o Cultura Viva- Pontos de Cultura, mesmo com limitações.

Um exemplo de um programa que teve isso, mas que ficou muito aquém foi o Minha Casa, Minha Vida, cujos projetos de construção de moradias, ficou na mão de empresas privadas em sua grande maioria. Já o número de projetos de construção que ficaram sob a responsabilidade de cooperativas formadas por setores ligados ao movimento de moradia, foram muito menores, ouso dizer, quase infimos.

Uma das formas defendidas como um grande canal de diálogo com a sociedade foram as conferências de politicas públicas, sem querer aqui negar a importância das mesmas, também estas tiveram limitações e foram se acentuando com o tempo, mais especificamente por conta da obstrução que foram aumentando gradativamente, para uma participação mais real e efetiva dos extratos mais baixos da população, isso por conta de alguns vícios das lideranças populares ou dos “donos da comunidade” ou “donos de movimentos” em muitos casos, assim como por causa de um modelo vertical de organização destas conferências.

Mais uma vez, o ministério da cultura inovou e apresentou algumas possibilidade de superação deste modelo.

O debate e a investigação sobre isso, faz-se necessário não apenas em termos acadêmicos, como também para apontarmos os rumos que precisamos para reconstruímos ou fortalecermos as bases de luta e de resistência contra o atual estado de coisas, o qual não está sendo realizado para permanecer durante pouco tempo.

Por outro lado, independente da esquerda galgar ou não, mais espaços dentro das estruturas do estado brasileiro , especialmente no parlamento e nos executivos estaduais e federais, a situação de crise permanente do sistema é a tônica que dominará nosso modo de vida para as próximas décadas, o que pode ser agravado ainda mais no caso de uma guerra mundial de proporções devastadoras.

Neste sentido, é fundamental a preparação para sabermos viver também fora do sistema. Dentro e fora, junto e separado. Neste caso, educação e cultura popular e economia solidária passam a ter um papel importante em nossas vidas. Mas isso é tema para um outro texto. 

Quem quiser conversar mais sobre isso, é só nos procurar inbox
P.S.: O link de um texto, uma observação, as músicas que lembrei ao escrever esse texto e uma pesquisa de referência.
1 - Por que as panelas bateram contra Dilma e não batem contra Temer? Por Alexandre Tambelli - http://jornalggn.com.br/…/por-que-as-panelas-bateram-contra…
2 – A observação sobre “cultura popular”. Utilizo um conceito de cultura popular pouco ortodoxo. Funk e pornografia, por exemplo, é considerado aqui como cultura popular.
3 - Brasil com P - GOG Part. Maria Rita https://www.youtube.com/watch?v=6v0oXz499xg

Uma música para lembrar os  “donos da comunidade”, mas de forma positiva.
4- O CANTO DA CIDADE-DANIELA MERCURY-VIDEO ORIGINAL-ANO 1992 https://www.youtube.com/watch?v=B7XaHLJFS28
 
PERCEPÇÕES E VALORES POLÍTICOS NAS PERIFERIAS DE SÃO PAULO



 
Quem é de Ribeirão Preto sabe o quanto o Palloci desmoralizou o PT na cidade, com repercussão para toda a esquerda, mesmo aquela não comprometida com a gestão do então prefeito. Quem esteve no governo Lula também sabe o mal que ele fez para políticas sociais. Por vezes eram decisões incompreensíveis do ponto de vista técnico, que só beneficiavam a Banca e os poderosos, fruto de uma equipe que tinha ojeriza por políticas sociais mais avançadas (e se jactavam deste pensamento neoliberal). 

Houve uma concessão para o Bolsa Família e pequenos aumentos orçamentários em políticas inovadoras, mas que só deslancharam depois da saída dele. A equipe da Fazenda comandada por ele tornava muito difícil conseguir alguma possibilidade de execução orçamentária minimamente racional. 

Lembro de um ano em que o programa Cultura Viva só teve liberação para empenhos no dia 17 de dezembro. Trabalhamos como loucos e, no dia 31/12, conseguimos empenhar todo o recurso; mas, evidentemente, se houvesse um mínimo de racionalidade e abertura para políticas sociais, seguramente a qualidade do trabalho teria sido melhor. 

Também recordo de um dia, em reunião do secretariado do MinC, em que fiz um desabafo e acabei falando muito mal da gestão da Fazenda, do ponto de vista técnico e ético, fui duro na fala, inclusive me referindo ao ministro de forma depreciativa, no que resultou um grande silêncio na sala.

 Mas, enfim, ele era o todo-poderoso no governo e teria sido o candidato a presidente, caso não tivesse havido o episódio do "caseiro" (e todas as falcatruas que já apareciam). Mesmo assim ele volta com muito poder, mobilizando arrecadação de recursos na campanha de 2010 e como ministro da Casa Civil em 2011, no que ele não consegue se sustentar, em função dos vários problemas éticos.

 Por que escrevo isso? Porque era previsível o comportamento que ele está tendo agora e quem quiser saber o que acontecera com o PT, basta ver o que aconteceu em Ribeirão Preto. Também é clara a blindagem que sempre recebeu da Mídia oligopolista e do mercado financeiro, e, agora, igualmente, ele receberá a mesma proteção (até porque sabe das falcatruas destes, que, continuaram impunes).

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Conversas com quem compreende ou quer compreender o conceito de Cidade Educadora

CIDADE EDUCADORA PARA QUE?

O conceito de Cidade Educadora não deixa de considerar a escola como um espaço de educação privilegiado, porém insuficiente. 

As mudanças ocorridas nos últimos anos, em especial no campo dos avanços tecnológicos e dos meios de comunicação e de transporte, fazem com que a situação de confinamento ao mundo fechado da escola, não seja mais possível. 

Em que pese o acesso ao mundo externo da educação “positiva” extramuros seja desigual, a depender das condições socioeconômicas, localização territorial e etc.

Em muitas regiões do Brasil esse entendimento é transformado em politica pública. Aqui em Aracaju e nos demais municípios sergipanos não conheço algo desse tipo. Se isso ocorrer, será bom para as escolas e para os espaços e iniciativas culturais. 

Os primeiros tem um grande público, mas sedentos de uma educação mais viva. Os segundos tem arte e cultura pulsante, mas não tem público suficiente, na maioria das vezes.

Enquanto isso não acontece, como professores do ensino regular, muitos de nós acompanhamos alunos para fazer visita a museus e centros históricos e , enquanto agentes culturais, quando é o caso, acompanhamos aprendizes crianças, adolescentes e jovens dos Pontos de Cultura e outras iniciativas semelhantes, para participarem de uma série de atividades extramuros, como passeios fotográficos, idas a cinema de arte ou cinema “cultural”, como um deles afirmou recentemente, entrevistas com mestres da cultura popular, ida a debates com temáticas ligadas ao campo da cultura, educação e cidadania e etc.

Que não demore a compreensão de nossos dirigentes politicos, gestores, técnicos e colegas professores acerca da importância desse tipo de ação, para que mais estrutura e recursos possam ser destinados a ações que considerem a cidade como espaço educativo, podendo também ser um lugar terapêutico, porque não. 

Pode estar nisso, uma das grandes possibilidades para começarmos a diminuir a violência nas escolas e em nossas comunidades. E muito mais.

P.S.: Detalhe importante, como toda "boa idéia" no Brasil, pode ocorrer um desvirtuamento dessa proposta, quando os dirigentes politicos e/iu gestores escolares, utilizam essa estratégia como medida de compensação para o não investimento na estrutura fisica ou material das escolas. Neste sentido, a idéia de cidade educadora não pode ser para dividir pobreza, mas para somar riquezas. Por exemplo: A escola não possui quadras de esporte e nem busca investimentos para isso, então se improvisa utilizando a única quadra do entorno da escola, cheia de problemas, podendo até expor alunos e professores a situações de vulnerabilidade, dependendo do contexto. Fazendo isso utilizando o conceito de cidade educadora, de forma empobrecida e reduzida. Fazendo com que este deixe de ser potência de expansão, para ser compensação limitadora.

Zezito de Oliveira - Educador e Agente/Produtor Cultural

Leia também:  

CONSTRUINDO PONTE E VIADUTOS MENTAIS PARA APROXIMAR A CIDADE PARTIDA

 Circulando por diversos territórios de nossa cidade partida, no dia de ontem, sábado, 26/08/2017, periferia, centro e zona sul. Construindo ou reforçando pontes ou viadutos no plano cultural, a começar por dentro de mim.

De manhã no Conj. Jardim acompanhando o último ensaio/encontro da oficina de teatro do Ponto de Cultura Juventude e Cidadania, nesta fase da parceria com a Secult-Se e MINC.

Pela tarde, fazendo uma visita rápida a oficina de RAP e acompanhando 5 meninos (as) para assistir a estréia nacional de “Filme de Cinema", no Cine Vitória. São egressos da oficina de audiovisual já encerrada, mas retroalimentada através de ações como essa.

A noite na Reciclaria, espaço cultural alternativo localizado na zona sul de Aracaju ,assistindo ao show do excelente The Baggios, com a participação de Joésia Ramos, Patricia Polayne e Alex Santana, outros excelentes artistas sergipanos convidados. Com direito a Fora e Morra Temer! Mas sem a resposta magnifica que veriámos em outros locais, por razões óbvias. 

Este última ação, na companhia da amada companheira. Revejo pessoas legais conhecidas, vejo muitas que não conheço e até uma pessoa que me conheceu nos tempos de jovem, lá pelas bandas do Bairro América, como ativista social e cultural nos idos dos anos de 1980 e 1990. Esta pessoa morou fora de Aracaju durante um bom tempo. 

Isso de circular por diversas territórios da "cidade partida", na feliz expressão do jornalista e escritor carioca Zuenir Ventura, começa antes do bairro américa e merece texto a parte.

Nossos agradecimentos especiais a amiga Maria Rosali que colaborou com a cessão dos 5 ingressos para o Cine Vitória. 

Quem for parceiro do Cine Vitória por meio do cartão fidelidade e quiser colaborar com doação de ingressos, estará participando desse esforço de aproximar os Brasis.

E assim, vamos fazendo desse lugar um bom país, esperando a mudança dos ventos de Brasilia, Mas que não mudará se não começarmos a fazer isso em nossos bairros e cidades. 

Quem foi citado direta ou indiretamente aqui nesse texto já faz isso. Lembrando um poema de Fernando Pessoa
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”


Zezito de Oliveira - Educador e Agente/Produtor Cultural


http://educacaointegral.org.br/glossario/cidade-educadora/


Cidade Educadora



A concepção de Cidade Educadora remete ao entendimento da cidade como território educativo. Nele, seus diferentes espaços, tempos e atores são compreendidos como agentes pedagógicos, que podem, ao assumirem uma intencionalidade educativa, garantir a perenidade do processo de formação dos indivíduos para além da escola, em diálogo com as diversas oportunidades de ensinar e aprender que a comunidade oferece.

Movimento das Cidades Educadoras
Este conceito ganhou força e notoriedade com o movimento das Cidades Educadoras, que teve início em 1990 com o I Congresso Internacional de Cidades Educadoras, realizado em Barcelona, na Espanha. Neste encontro, um grupo de cidades pactuou um conjunto de princípios centrados no desenvolvimento dos seus habitantes que orientariam a administração pública a partir de então e que estavam organizados na Carta das Cidades Educadoras, cuja versão final foi elaborada e aprovada no III Congresso Internacional, em Bolonha, na Itália, em 1994.
A carta é ainda hoje o referencial mais importante da Associação Internacional de Cidades Educadoras, que reúne mais de 450 cidades em 40 países do globo.
O movimento compreende a educação como um elemento norteador das políticas da cidade e o processo educativo como um processo permanente  e integrador que deve ser garantido a todos em condições de igualdade e que pode e deve ser potencializado pela valorização da diversidade intrínseca à vida na cidade e pela intencionalidade educativa dos diferentes aspectos da sua organização: do planejamento urbano, da participação, do processo decisório, da ocupação dos espaços e equipamentos públicos, do meio ambiente, das ofertas culturais, recreativas e tecnológicas.
Leia também: 19 elementos que você pode encontrar em uma cidade educadora
Na Carta, o movimento afirma:“A cidade educadora deve exercer e desenvolver esta função paralelamente às suas funções tradicionais (econômica, social, política de prestação de serviços), tendo em vista a formação, promoção e o desenvolvimento de todos os seus habitantes. Deve ocupar-se prioritariamente com as crianças e jovens, mas com a vontade decidida de incorporar pessoas de todas as idades, numa formação ao longo da vida. As razões que justificam esta função são de ordem social, econômica e política, sobretudo orientadas por um projeto cultural e formativo eficaz e coexistencial”.

  • Créditos: RA2 Studio/FotoliaImagem: RA2 Studio/Fotolia
Ainda para o importante teórico do movimento, Jaume Trilla Bernet, em uma perspectiva educadora, a cidade pode ser considerada a partir de três dimensões distintas, mas complementares: “Em primeiro lugar como entorno, contexto ou contida de instituições e acontecimentos educativos: “educar-se ou aprender na cidade” seria o lema que descreve esta dimensão.Em segundo lugar, a cidade é também um agente, um veiculo, um instrumento, um emissor de educação (aprender da cidade). E em terceiro lugar, a cidade constitui em si mesma um objeto de conhecimento, um objetivo ou conteúdo de aprendizagem: aprender a cidade. De fato se trata de três dimensões conceitualmente diferentes e que em algumas ocasiões convém diferenciar por motivos metodológicos, mas que na realidade se dão notavelmente mescladas: quando aprendemos de e na cidade aprendemos simultaneamente a conhecê-la e a usá-la”.
Assim, o movimento de Cidades Educadoras confere centralidade à educação como elemento norteador das ações e políticas de todas as áreas, na medida em que é compreendida como basilar para o desenvolvimento humano e social.
Referências bibliográficas
APRENDIZ, Associação Cidade Escola.Entrevista com Ladislau Dowbor. In:
Pesquisa-ação comunitária, São Paulo: Editora Moderna, 2011.
ARROYO, Miguel.O direito a tempos-espaços de um justo e digno viver. In: MOLL, Jaqueline (org.), Caminhos da educação integral no Brasil: direito a outros tempos e espaços educativos. Porto Alegre: Penso, 2012.
BERNET, J. T.Introdução. In: E. A. Educadores, La Ciudad Educadora = La Ville Éducatrice Barcelona, Barcelona: Ajuntament de Barcelona, 1990 (pp. 6-21). Carta das cidades Educadoras.Acesso online em  24/04/2012.
TEIXEIRA, Anísio. O ensino cabe à sociedade. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v.31, n.74, 1959. p. 290-298.




Para saber mais

Portal Aprendiz, site que reúne notícias e textos opinativos sobre experiências de educação na cidade.

Cidades Educadoras, programa da Cidade Escola Aprendiz.



Site da Associação Internacional de Cidades Educadoras, com informações e notícias sobre a organização e sobre o tema.

Banco de Documentos
de Cidades Educadoras, indicando experiências realizadas pelos municípios associados em diferentes países do globo.

A relação escola-cidade garante uma Cidade Educadora?, texto da Diretora geral da Associação Cidade Escola Aprendiz sobre o tema.

 OUÇA A PLAYLIST.
A ARTE DE VIVER DA ARTE.  AQUI

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Textos para quem já está fazendo desse lugar um bom país.


Leia também: 

OUTRO BRASIL? SOMENTE COM PARTICIPAÇÃO E ARTE.

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BIOGRAFIA DE FREI BETTO. Para ajudar a quem quer entender como e porque o Brasil chegou a esta encruzilhada histórica e as saídas possiveis e necessárias. No ano de 2006 escrevi sobre os riscos e os perigos. A experiência de Frei Betto nos dois primeiros anos da primeira gestão do presidente Lula, reforça ainda mais o argumento principal do artigo da minha autoria . “Tudo pelo povo, mas com o povo. Se este não for protagonista, os direitos politicos, econômicos e sociais podem ser perdidos como o roubo do picolé da mão do menino pequeno. A arte e a cultura podem colaborar para o protagonismo popular, porém é preciso um projeto de poder comprometido com outra cultura politica ”-----------------------
Américo Freire e Evanize Sydow revelam o significado histórico da vida e do trabalho de Carlos Alberto Libanio Christo, o “Frei Betto”, em meio às transformações político-sociais que ocorreram no Brasil e nos demais países da América Latina a partir dos anos 1960.