segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Luiz Vieira - Estúdio F

Luiz Gonzaga o batizou de Príncipe do Baião. Pernambucano radicado no Rio e dono de mais de 500 composições, foi parceiro de João do Vale.

Eduardo Weber29/12/11 20:00 - Atualizado em 29/12/11 20:00
Detalhe da capa do álbum \"Luiz Vieira\" lançado em 1974. (Reprodução)
O texto de apresentação do programa comandado por Paulo César Soares apresenta Luiz Vieira como um poeta que traz o Nordeste na alma e o Brasil no coração. Um artista com mais de 500 composições, com diversidade de ritmos e letras que falam de amor, do necessitado e das coisas do Brasil.
Luiz Vieira tem longa carreira no rádio, na TV e na música. Começou na Rádio Clube do Brasil no “Programa Zé do Norte”, passando depois para a Tamoio e em seguida para a Tupi.  Nesse período, primeira metade dos anos 1950, recebeu de Luiz Gonzaga o título de “Príncipe do baião”. Mas não foi o único.
Nascido em Caruaru em 1928, desde os três anos Luiz Vieira foi criado pelo avô na cidade de Alcântara, Estado do Rio de Janeiro, após o falecimento de sua mãe. Apesar de tão distante de seu Pernambuco, a cultura nordestina sempre esteve muito presente em sua obra, sendo conhecido por seu público como “advogado do nordeste”, em razão de muitas músicas suas que falava da situação da região, o que lhe causou várias investidas da censura federal e da polícia em sua residência nos anos de chumbo do regime militar.
O Estudio F apresenta um amplo painel das gravações de Luiz Vieira, a começar pelas primeiras: “Há um pouco de você” e a divertida “Pagando o pato”. Presenças também obrigatórias de seus grandes sucessos, como “Menino de Braçanã” (em parceira com Arnaldo Passos), “Na asa do vento” (com João do Vale) e “Prelúdio pra ninar gente grande”, popularmente conhecida como “Menino passarinho”.
O programa apresenta as guarânias “Da saudade” e “da Lua nova”, os forrós “Do tio Augusto” e “Do Chico moço” e as músicas “Estrada da saudade”, “Os olhinhos do menino”, “Retirandus”, “Paz do meu amor” e “Maria Filó”, uma das muitas parcerias com o maranhense João do Vale.
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Estúdio F – Momentos Musicais da Funarte
Luiz Vieira

Apresentado na RCB em 27 de dezembro de 2011
Apresentação: Paulo César Soares

Roteiro: Cláudio Felício
Produção: Rádio Nacional – Rio de Janeiro 

É TARDE, EU JÁ VOU INDO. É PRECISO IR EMBORA...








Ao contrário do que se fala, Luiz Vieira não tinha ligação afetiva alguma com Caruaru porque saiu de lá aos 4 anos e não aos 10. Foi criado em Alcântara, município de São Gonçalo, depois se mudou para o RJ. Sua produção musical mais marcante se enquadra como toada sertaneja, não necessariamente nordestina, cantigas, prelúdios, assim como guarânias (de origem paraguaia). Ele até ridicularizava do rojão, que no seu entender era embolada. Como grande pesquisador que sempre foi, descobriu-se poeta e compositor não urbano dos maiores que este país viu nascer. Mas é claro que a música do Nordeste o contagiou (fez baiões e xotes) até porque conviveu com Luiz Gonzaga. O seu imenso repertório é brejeiro, melodioso e poético e trata de um Brasil que já havia morrido muito antes dele partir deste mundo em 16/01/2020. 

‘Menino de Braçanã’ é uma de suas canções mais lindas e é dele somente porque Arnaldo Passos era um cara conhecido por se infiltrar em emissoras de rádio e gravadoras até conseguir que seu protegido conseguisse gravar ou divulgar alguma obra. As parcerias dele nasceram dessa habilidade como intermediário que ele tinha e não se restringem somente a Luiz Vieira. 

Até hoje muita gente pergunta o que seria Braçanã. Pois é, é uma das serras não muito altas que podem vistas no município fluminense de Itaboraí, que em linguagem tupi significa ‘rio da pedra bonita’.  

Bethânia incluiu Menino de Braçanã num DVD que tem, mais ou menos, cinco anos de gravado e essa gravação é para mim o registro sonoro mais impressionante desta música. 

Luiz Vieira viveu 91 anos. Quantos de nós chegarão lá? Mas queríamos mais. Das suas guarânias, a da lua nova, é a que mais me impressiona. Das suas cantigas, a que fez para Ribeirão Preto, cidade com a qual tinha profunda ligação, é poesia pura. Seu repertório guarda coisa bem caipira e bem humorada como ‘A Troco de Quê’, gravada por Inezita Barroso, de quem era muito amigo, em 1960. ‘Chá pra Lombriga’, de 1986, é outra que demonstra o lado humano bem gozador de Vieira. 

Das suas parcerias reais (e não aquelas que deu) destaca-se aquela feita com João do Vale da qual surgiu, como exemplo, ‘Na Asa do Vento’, gravada por Fagner, Caetano Veloso e muitos outros. 

E para provar que Vieira é permanente no cenário musical brasileiro, ao contrário de outros que aparecem por modismo e somem, o jovem talento Ayrton Montarroyos gravou recentemente ‘Guarânia da Saudade’. 

Leia também:






É tarde eu já vou indo, preciso ir embora… e lá se vai Luiz Vieira

E tantos artistas gravaram Luiz Vieira, tantas vozes compondo o coro deste legado. Caetano Veloso, Taiguara, Pery Ribeiro, Nara Leão, Agnaldo Rayol, Elba Ramalho, Luiz Gonzaga, Rita Lee, Maria Betânia, e tantos outros.








   
OUÇA TAMBÉM:

Luiz Vieira - Estúdio F

Luiz Gonzaga o batizou de Príncipe do Baião. Pernambucano radicado no Rio e dono de mais de 500 composições, foi parceiro de João do Vale.


Abilio Neto



Pernambucano, 70 anos, é memorialista e pesquisador musical, além de  pequeno colecionador de discos. Seu arquivo contém algumas obras que se tornaram preciosas na música brasileira diante do mau gosto popular nessas duas primeiras décadas do século XXI. São frevos, sambas, maracatus, forrós, xotes, polcas, toadas, marchinhas, merengues e choros. Tem mais de 400 artigos escritos sobre música que foram publicados em sites da internet, ‘terreno’ que se notabiliza pela impermanência. Seus artigos provam que a História também se conta através da música.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Nazifascismo em alta no Brasil. Quem poderia imaginar? O que fazer? Fazer o que?



Socorro Lira
17 de janeiro - Publicado originalmente no facebook


A QUEM INTERESSAR POSSA...

Temos a solidariedade e a esperança do nosso lado
Esperança do verbo esperançar, não esperar
Vamos nos apoiar mutuamente! Humildemente, reconheçamos que precisamos dos povos indígenas, a quem devemos apoiá-los nas aldeias e comunidades
Nunca o MST foi tão necessário. Façamos o esforço de irmos às feiras e armazéns da agricultura familiar orgânica comprar nossa comida, e menos aos super mercados
Vamos fortalecer as iniciativas de artistas, coletivos e espaços de arte e cultura onde os melhores valores que queremos são cultivados
Vamos criar feiras de livros, incentivar a boa leitura e o pensamento crítico
Vamos fazer rodas de conversa, de história, de poesia e audição de música
Vamos descer do pedestal e fazer show nos lugares que nos abrem as portas; o ego fica pra depois de nos salvarmos física, emocional e espiritualmente
Vamos gastar nosso dinheiro em lugares dignos
Vamos ajudar quem precisar a se levantar pra fortalecer a luta
Vamos fazer as melhores escolhas e quando estivermos em risco, recuemos um passo, pois a hora é de perigo
Como disse o Veríssimo, temos a razão mas eles têm as armas...
Entretanto, se eles têm a pior morte, nós temos a vida!
Viver na matrix e não ser da matrix. Ou como disse certo revolucionário, estar no mundo e não ser do mundo
Vamos fazer nossos poemas, nossas canções, vamos falar a nossa língua para confundi-los e despitá-los. Nossa linguagem é o amor e disso essa gente é seca
Nossa riqueza é a criatividade e não a esperteza
Não faz muito tempo usávamos o método "ver, julgar e agir" sugerido por Paulo Freire, e funcionou. Quem sabe é hora de usarmos de novo.

Editado: não creio em luta armada, guerra é do patriarcado. Creio na revolução da consciência.
A política e as eleições são a saída, penso.  


Paulo Victor Melo
17 de janeiro - Publicado originalmente no facebook

Zezito de Oliveira 
Perfeito! Paulo Victor Melo.  Uma dica para começar a preparação é fazer uma viagem as memórias dos anos de 1960. CPC da UNE, MCP Recife e etc...Mas os sindicatos e os mandatos populares de esquerda precisam dar a sua contribuição.

Qual resposta?

Assisti, agora pela manhã, o pronunciamento oficial do Secretário Especial da Cultura do atual governo do Brasil, feito ontem.
Para além da crítica à escancarada reivindicação da concepção nazista sobre arte (presente na fala de Roberto Alvim, na trilha sonora do vídeo e na ideia geral exposta), é preciso afirmar: a melhor resposta a esse terror pode vir justamente dos/as trabalhadores/as da cultura e das artes.
Não é uma ótima oportunidade para artistas comprometidos/as com a democracia e as liberdades criarem um movimento que percorra o país levando as diferentes manifestações culturais e denunciando, com a potencialidade de diálogo que têm as linguagens artísticas, o que estamos vivendo?
No vídeo, Alvim apresenta um prêmio para várias categorias (ópera, teatro, pintura, escultura, literatura, música, quadrinhos).
Imaginemos, então, como resposta, a força de uma movimentação nacional coletiva de artistas de cada uma dessas diferentes áreas e de todas as regiões do país. Ou vamos dialogar com o povo, onde o povo está, ou continuaremos a perder muitas batalhas...  


Raimundo Venâncio
19 de Janeiro de 2020 - Publicado originalmente no facebook
“ARTISTA SERGIPANO É DESPOLITIZADO!” QUER DIZER, SALVO EXCEÇÕES...
Podemos buscar em todos os fundamentos filosóficos as várias explicações para o sentido da Arte, e, lá, a gente vai encontrar em todos eles a força transgressora e transformadora que ela tem. Portanto, deixa eu explicar, mais uma vez, para os que ainda insistem em seguir falando abobrinhas sobre a Arte, em menor ou maior grau, como é o caso deste estúpido que tornaram “presidente” do Brasil: NÃO EXISTE ARTE DE DIREITA E ARTE DE ESQUERDA. ARTE, POR SER ARTE SÓ O É DE ESQUERDA!!! Por que, de novo? Porque está na sua origem, na sua raiz; a sua essência é toda revolucionária, é toda inquietante, subversiva, rebelde, transgressora, livre!!! E a Aristocracia, a Burguesia, que por todo o sempre, amém!, sempre ocuparam o espaço do lado oposto, ou seja, o da DIREITA, por sua essência e característica natural nunca precisaram ser revolucionárias, transgressoras, livres, subversivas, inquietantes, rebeldes, afinal, sempre detiveram o PODER do ESTADO, o VIL METAL nas mãos!!! Dá pra entender? Portanto, o ARTISTA - obviamente me refiro ao que verdadeiramente tem plena consciência de sua existência ao longo da História, e não aos politicamente alienados e oportunistas - deve, como tal, ter o direito de fazer a sua arte do jeito que ele bem quiser! Deverá ter a liberdade de dizer o que quiser, de quem quiser, inclusive dele mesmo. Qualquer outra coisa que não seja assim, não é ARTE! Por isso, a Arte, evidentemente, não deve comungar com ideias autoritárias, como estas atualmente vigentes e emergentes que os famigerados do Fascismo, travestidos religiosamente de homens bons e inigualáveis, querem nos impor! A Arte nunca está do lado do opressor; a Arte está sempre a favor dos ventos da liberdade, da via das minorias, dos fracos, dos oprimidos, dos miseráveis, dos sem alma e até dos sem cultura, mas NUNCA do lado de quem oprime! E, principalmente, dos que estão à deriva e a margem das sociedades, em todo o planeta. Qualquer outra coisa que não seja assim, não é ARTE! E é por isso, e tão somente por isso, que a Arte e o Artista incomodam tanto, são tão perseguidos - sempre o foram, e sempre o serão. Todas as vezes em que os regimes totalitaristas e repressores à liberdade emergirem das profundezas de suas ignorâncias sempre colocarão a Arte e os Artistas como primeiros adversários a serem eliminados. Foi sempre assim, ao longo da História, e assim sempre será. O que estamos vivenciando, hoje, com esse Governo escroto que está instalado no Brasil, onde a guerra aos artistas, à Arte e à cultura é explícita e abjeta, aconteceu em outros lugares do planeta. A Arte foi perseguida e artistas foram mortos. Os exemplos mais emblemáticos são os do músico Víctor Jara, no Chile, e do poeta e dramaturgo García Lorca, na Espanha, brutalmente assassinados pelos regimes totalitários, à época, além de outros milhares de artistas anônimos. E o que os artistas do Brasil estão fazendo? Tirando a meia-dúzia de gatos pingados, os mesmos de sempre, que se manifestam da forma que podem e sabem, estão fazendo NADA! De resto, não se ouve absolutamente nada desses artistas, parecem estar surdos, porque mudos já estão. Por que será? Isso é um fenômeno no Brasil, e em Sergipe não é diferente. É impressionante a mudez dos artistas sergipanos em relação ao que está acontecendo com a Arte e a cultura brasileira! Não têm posicionamento, não têm indignação, não têm porra nenhuma mais! Estamos vendo e ouvindo colegas de trabalho sendo agredidos e desrespeitados cotidianamente, nossa Arte sendo tratada como lixo, museus sendo fechados, o cinema sendo vilipendiado a todo momento, profissionais da cultura sendo demitidos em massa, como um verdadeiro desmonte da Arte Brasileira, e eu não vejo quase nenhum artista sergipano falar nada! Não sai de seu confortável lugar de inércia, de neutralidade, de cima do muro. Não vai nem pra direita, nem pra esquerda, nem pro centro, pra lugar nenhum! A não ser a meia-dúzia de gatos pingados, aqueles artistas de sempre, como já mencionei. O sumiço dessa galera diante de quadro tão assustador faz surgir vários grupos de artistas, aqueles desprezíveis: os traidores da Arte e de sua essência; os pseudo-artistas, que votaram nesse esterco sem utilidade e de validade vencida, e que agora não aparecem, porque estão envergonhados e com os seus rabos entre as pernas; os artistas de ocasião, aqueles que dançam conforme a música, e se movimentam conforme as ondas das marés; os oportunistas; os intrujões da Arte, que não aparecem, porque estão à espreita do melhor momento, a fim de se adaptarem à nova vigência; os alienados por convicção e escolha, que apesar das inúmeras oportunidades que tiveram, das experiências que vivenciaram, dos alertas historicamente contextualizados que ouviram, ainda assim, se fizeram de ouvidos moucos; os egocêntricos; os que se amarram aos seus projetos pessoais, e que têm a Arte apenas como utilitarista, experimentalista; os dependentes do Estado, dos editais, e das políticas de Governo, enfim. Esses não falam nada, porque acham que irão sobreviver à bancarrota, apenas pela sua vontade egocêntrica, não percebem que têm de sair de seu covarde casulo e correr pra guerra; os que fazem Arte, mas não são Artistas, e os que não estão nem aí, porque de fato não carregam a Arte na alma. Os que acham tudo normal, que tudo é igual, e com isso justificam a sua completa ausência nos processos democráticos, é porque NÃO SÃO ARTISTAS! Eu só quero ver qual vai ser a hora em que os ditos ARTISTAS SERGIPANOS, aqueles que não falam nada, não se manifestam nunca, vão se posicionar sobre o que está acontecendo com a Arte e a cultura neste Brasil que flerta com o FASCISMO! Pois eu digo que nenhuma Arte e nenhum Artista, no Brasil atual, sobreviverá ao desastre constituído. A não ser aqueles “artistas” que têm seus empregos garantidos, e, portanto, não vivem exclusivamente do fazer artístico, da Arte que diz produzir. Os demais inertes, que vivem de Arte, e se orgulham por se considerarem “apolíticos”, como se da “Política” não dependessem, não sobreviverão! Estes eu não sei ainda como denominar.

Zezito de Oliveira
  Raimundo Venâncio -  Há tempos, percebo essa questão da despolitização como parte do processo de formação que começa lá atrás, quando os futuros, agora atuais, começaram. Nesse caso há que ver como foi e está sendo o processo formativo na UFS, na Valdice Teles, no Imbuaça. Em que pese, isso acontece com os outros cursos também. Quem for estudar, vai encontrar lá atrás, quando Paulo Freire, Augusto Boal, Brecht, Gramsci deixaram de ser considerados. Dando espaço a teóricos fracamente politizadores. Isso também em nome da sobrevivência, porque artista politizado fica muito "chato". Com isso ameaçando o lugar dos mestres eternos e dos gestores incompetentes ou desqualificados..


É tempo de se aquilombar

Joselicio Junior: “O aquilombamento é uma necessidade histórica, é um chamado, uma reconexão com nossa ancestralidade para atuar no presente, é construir esperança, é construir força, é construir sonho, é construir um futuro melhor!”

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

ARTE É PRA QUEM TEM ALMA


Abílio Neto




Se você está naquela situação que Chico narrou numa música ‘tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu’, não pense que é com Marília Mendonça, Gustavo Lima ou Luan Santana que vai melhorar seu estado de espírito. 

Ouço muita gente reclamar que a música do Brasil vai de mal a pior. Concordo, mas é aquela que ocupa a mídia. Procure coisa boa que você ainda acha. A cena musical de Pernambuco, por exemplo, é rica demais. Ouça Martins, Almério, Geraldo Maia, Zé Manoel, Ylana e outros. São feras! 

2020 não chegou muito legal para mim, porém espanto meus grilos com ME DÊ, de Martins, tanto na versão dele (voz e violão) como na outra feita pelo pessoal do frevo de bloco, grupo Malassombro, que fez uma ligeira adaptação na melodia. 

“Se você tiver de sobra um pra me subverter, meu bem/ Me dê, me dê, me dê/ Eu que nunca fui tão certo faço pose de quem não te lê/ Mas eu leio sim eu só não sei se você quer/ Tu que tens essa manobra e eu não sei corresponder, meu bem/ Me dê, me dê, me dê/ Um motivo mais concreto pra eu não ter que ter que amar você/ Mas eu quero sim eu só não sei se você quer/ Minha configuração, meu lar, meu sal minha consignação, meu ritual/ Eu não sou mais minha solidão/ Você me traz continuação/ Este teu ar de me engolir/ Que eu tenho olhos pra te ver e mãos pra te aplaudir.” 


Para. Pense. Reflita! 

Mando pra vocês os dois vídeos. Se não gostarem, o povo que escuta sertanejo está certo e eu todo errado. 






Pernambucano, 70 anos, é memorialista e pesquisador musical, além de  pequeno colecionador de discos. Seu arquivo contém algumas obras que se tornaram preciosas na música brasileira diante do mau gosto popular nessas duas primeiras décadas do século XXI. São frevos, sambas, maracatus, forrós, xotes, polcas, toadas, marchinhas, merengues e choros. Tem mais de 400 artigos escritos sobre música que foram publicados em sites da internet, ‘terreno’ que se notabiliza pela impermanência. Seus artigos provam que a História também se conta através da música.

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Música e sociedade, música e política, música e afeto, amizade, alegria e prazer. Uma delícia quando lemos o texto de uma pessoa que sabe fazer essa combinação. É o que faz Abilio Neto, o qual conhecemos nos anos do Overmundo, entre 2006 e 2011, primeiro portal nacional de internet dedicado a difusão  da  cultura independente, das periferias, dos sertões,   dos que mesmo produzindo com qualidade e compromisso, não conseguiam espaços para fazer divulgação nos cadernos culturais dos grandes jornais.
Ler o texto do Abilio Neto é como conversar ao cair da tarde em um alpendre de varanda das casas coloniais, cercados pela brisa suave que sopra das árvores, grandes e pequenas que cercam o redor da casa. Ou então,  é como conversar em uma barraca de praia, sentindo o vento que vem do mar soprando em nossas caras, bebendo uma boa caipirinha, intercalando com água de coco.

Abilio Neto passa a ser colaborador eventual do blog da Ação Cultural a partir desse mês de dezembro de 2019. Vida longa parceiro! 

Zezito de Oliveira

A melancolia de esquerda: marxismo, história e memória




Traverso, Enzo
A melancolia de esquerda: marxismo, história e memória
TRAD. André Bezamat
Âyiné • 492 pp • R$ 79,90

Eis aqui o tempo da melancolia. Para os europeus, a data marcante é 1989, quando o Muro de Berlim caiu e o ideal do comunismo desmoronou definitivamente no meio dos escombros do socialismo “real”. Para os brasileiros, 1989 marca, ao contrário, uma esperança democrática, com a entrada no jogo livre das eleições de um operário metalúrgico — e isso depois de mais de vinte anos de ditadura. Não saberíamos dizer se tal esperança nascida com o lulismo acabou desabando no momento do escândalo do mensalão, dos processos por corrupção, do impeachment de Dilma Rousseff, da prisão de Lula, do fracasso do pt nas últimas eleições — ou, mais profundamente, com a degradação de um projeto político realmente emancipador e igualitário pelo país. Seja como for, a esquerda experimenta hoje uma profunda ressaca. A recente produçao cinematografica do pais é testemunha disso, particularmente o filme de Petra Costa, Democracia em vertigem, que pode ser visto como o sintoma de uma melancolia de esquerda à brasileira.

Melancolia de esquerda nasce de uma aposta desafiadora: fazer do afeto melancólico o motor dos movimentos sociais do presente. Neste livro, lançado originalmente em 2016, na França, o historiador italiano Enzo Traverso mobiliza uma memória revolucionária na qual se acumulam as camadas de esperança de uma outra sociedade, mais justa e solidária. O historiador das ideias recolhe os sonhos de nossos pais e avós, que se concretizaram não somente em discursos e manifestos, em levantes políticos ou reformas sociais, mas também em obras de arte.

Eis o socialismo (ou comunismo) como hipótese, então, na qual as pessoas possuem capacidades emancipadoras que não foram ainda realizadas — não estamos longe de Alain Badiou, o “materialista platônico” que recolocou, com Slavoj Žižek e outros mais, o comunismo na moda. Não se trata, contudo, de uma fidelidade a uma ideia abstrata, a um ideal geométrico em política, mas sim a promessas emancipadoras não cumpridas, a um desejo que ficou parado no passado, a um passado cheio de desejos.

Traverso passa em revista a diversidade dos meios nos quais se cristalizou esse conjunto de imagens-desejo do coletivo, depositadas em obras dispersas no tempo e no espaço. São pinturas, naturalmente, mas também gravuras e cartazes, edifícios e instalações e, sobretudo, filmes. Tal como um fotógrafo na câmara escura, Traverso, também um crítico da cultura, revela a força de uma “tradição escondida” que corre subterraneamente do século 19 ao 21. Causa perplexidade, no entanto, a valorização de um conceito de conotação negativa ou patologizante — a melancolia — como categoria operatória e força inventiva a serviço de um projeto revolucionário. Por que, afinal, “melancolia” de esquerda? A esquerda não necessitaria, antes, de coragem, euforia ou até mesmo de cólera e ebriedade? Do ponto de vista clínico, o melancólico não seria o que se encontra incapaz de fazer o luto, de se desfazer do objeto amado (nesse caso, um ideal de justiça social) para finalmente viver sua vida? Não é verdade que seu desejo de fusão com o objeto idealizado só poderia se realizar verdadeiramente na morte?

Já do ponto de vista político, cabe a pergunta: o melancólico de esquerda não seria esse marxista de retaguarda que se vê ultrapassado pelos movimentos sociais atuais, minorias e revoluções culturais? Não se tornaria a caricatura de si mesmo, eterno nostálgico da boa e velha luta de classes alimentada pela justa consciência operária? Estaria ele limitado a sua posição de homem branco, heterossexual, ocidental, desorientado pela extinção de seu ideal universal? Tornado um melancólico, o revolucionário de outrora não viraria um reacionário, entrando em pânico diante dos assaltos das minorias raciais e sexuais que defendem um militantismo particularizante? Ou, para se salvar com cinismo, ele se transformaria nesse intelectual dândi que estetiza a miséria dos marginalizados (sejam proletários, sejam populações racializadas) para poder melhor vender suas mercadorias, livros, teorias, fotografias e filmes?

De fato, é nesses termos que Freud ou Benjamin poderiam recusar tal projeto. Se Freud reconhece que a identificação com um objeto amado poderia ser também coletiva (podemos estar em luto tanto pela pátria vencida como por um ideal político), ele desqualifica a melancolia como sendo um afeto altamente destrutivo. Quanto a Benjamin, se foi o primeiro a forjar a expressão “melancolia de esquerda”, era para criticar alguns intelectuais que, como Erich Kästner ou os fotógrafos da Nova Objetividade, estetizam a miséria e o povo para se moldar ao ar do tempo e fazer escoar sua mercadoria: uma velha demagogia que não teria levado em conta a radical transformação de seus próprios meios de produção, de sua técnica de criação artística e de sua maneira de compartilhar o mundo sensível.

Desalento produtivo

A cientista política Wendy Brown retomou recentemente essas críticas para entender a impotência de nosso presente, afirmando que uma melancolia de esquerda seria necessariamente conservadora, “incapaz de visão e de espírito crítico”. Freud, no entanto, reconhece em Michelangelo um visionário capaz de sublimar sua melancolia em inovações extraordinárias para a humanidade; e Benjamin reconhece no socialista exaltado Charles Péguy, dotado de uma “fantástica melancolia dominada”, um crítico implacável da ordem estabelecida. Nesse sentido, como produção cultural (e não categoria clínica), a melancolia poderia ser produtiva, reveladora e até revolucionária.

Enzo Traverso não menciona esses exemplos, mas também não ignora as possíveis resistências a seu projeto. De um lado, em diálogo com a psicanálise, ele mostra que não se trata, como no luto bem-sucedido, de se separar do objeto amado para poder viver sem ele, mas de se transformar ao contato da imagem de sua ausência. De outro, em resposta à denúncia da mercantilização da miséria, o autor valoriza a melancolia autêntica (e não estetizante) do filósofo-trapeiro, catador revolucionário que recolhe os sonhos perdidos no asfalto. A melancolia não é uma postura mórbida ou uma demagogia clientelista, mas uma aposta de que a esperança vale mais do que a resignação, a utopia mais do que o cinismo. Trata-se de uma aposta alçada a um nível coletivo: se apostamos na possibilidade (secular) de redenção, temos tudo para ganhar; se nos resignamos a este mundo sem alternativa, rumamos ao desastre.

O livro assinala o marxismo como o grande ausente da virada memorial simultaneamente política e epistemológica do final do século 20. Frente às lembranças das vítimas por muito tempo injustamente esquecidas da Shoah, no Ocidente, do socialismo real, na Europa do Leste, e da escravidão, nos países do Sul, o marxismo como esperança socialista tinha que recuar — ele que fora tão ativo no anticapitalismo e no anti-imperialismo. Os vencidos da história, portadores de outros projetos políticos, desapareceram atrás das vítimas dos Estados opressores, reclamando reparação. Não é a legitimidade de tal reivindicação que Traverso questiona, mas o fato de que a fixação nas políticas reparadoras contribui para a invisibilização de outras trajetórias históricas que foram interrompidas, e que morrem assim uma segunda vez.

Essa morte política é também epistemológica: ante a explosão acadêmica das pesquisas sobre a Shoah, dos balanços sobre o comunismo de Estado e dos estudos sobre gênero e raça, a análise em termos de lógica de classe se perde, e com ela se perde também uma ferramenta valiosa para afrontar as contradições capitalistas, que atingem hoje seu apogeu. Traverso não nega a necessidade de tais estudos, que celebra no livro e com os quais já contribuiu amplamente (como autor de obras sobre antissemitismo e stalinismo, exilados e párias), mas tampouco deixa de criticar as ciências sociais e os ativismos políticos que se tornaram mais cultuais do que combativos, mais preocupados em reparar o passado do que em abrir o futuro — como se um não andasse com o outro.

Os eclipses político e metodológico do socialismo e do marxismo têm sido acompanhados por um terceiro, que o livro tenta remediar: o eclipse imaginário que fez desaparecer o conjunto de imagens dos combates do passado em benefício do retrato das violências do terrorismo de Estado. Amparado na história conceitual, Traverso defende que os ganhos de conhecimento histórico não provêm dos vencedores, que se comprazem na celebração teleológica de sua própria honra, mas dos vencidos, cuja pena melancólica é afiada pelo fracasso e pela tristeza dos mundos submersos. A vantagem dos vencidos não se limita à classe operária, com a qual Marx se solidarizou ao escrever sobre o triunfo da burguesia no século 20, mas compreende qualquer derrotado da história.

Por meio de imagens, o livro reintroduz o marxismo na libido mnemônica que domina a ordem do dia. Coleta, primeiramente, as imagens fixas dos lutos coletivos e das lembranças exaltantes, circulando entre fotografias, instalações, gravuras e pinturas, do francês Gustave Courbet ao mexicano Diego Rivera, passando por inúmeros criadores russos e italianos. Depois, faz desfilar as imagens-movimento, reescrevendo uma história surpreendente do cinema conforme o princípio da “tradição escondida”. Sucedem-se, assim, as alegorias dos fracassos da esquerda na visão de Luchino Visconti, os contratempos trágicos da revolta nos irmãos Taviani, os arquivos visuais da efervescência revolucionária da França e da Espanha, com Chris Marker e Ken Loach.

A análise mais exemplar é, provavelmente, a de uma sequência de Um olhar a cada dia (Theo Angelopoulos, 1995), na qual a cabeça cortada de Lênin navega no Danúbio após o desmantelamento do comunismo na Europa do Leste. Contrastando com a cabeça cortada do tsar nos filmes épicos de Serguei Eisenstein do início do século, essa sequência melancólica do cineasta grego assinala, em fins do século 20, o sonho despedaçado de um ideal. À imagem dos homens que se descobrem, silenciosos, diante da passagem do barco, a ideia do socialismo desfila sob o olhar estupefato dos espectadores que somos, permanecidos na margem.

Galeria de revolucionários

O autor reforça esse vaivém entre seu princípio epistemológico e sua galáxia visual construindo, sob o nome de “boêmia”, uma galeria de revolucionários melancólicos. Misturam-se e se olham, num jogo de espelhos, o pintor Courbet, o militante Trótski e o filósofo Benjamin. Se a boêmia era, para a ortodoxia marxista, uma classe ambígua e hesitante que sofria de impureza revolucionária, Traverso a reabilita. Ao armazenar imagens de combates perdidos, a boêmia coloca-as a serviço do evento revolucionário futuro — um modo de continuar a luta sem cair na cilada das ilusões do progresso.

Mesmo falando do passado, Traverso toca frequentemente o presente, e se faz performativo quando parece encenar sua própria melancolia perante os encontros fracassados e as ocasiões perdidas da história. É com talento que encena em particular o desencontro entre o marxismo cultural e o anticolonialismo. Nessa ocasião, toma o exemplo da tentativa de diálogo entre Adorno e C. L. R. James. O primeiro, intelectual judeu emigrado da Alemanha, interpretava as produções culturais a partir de uma teoria crítica inspirada em Marx revisitado por Freud; o segundo, intelectual negro emigrado das Antilhas, aplicava à história colonial um método marxista deslocado por seu olhar estrangeiro. Herbert Marcuse, que organizou a reunião nos efervescentes anos 1960 nos Estados Unidos, esperava muito dessa união para beneficiar os movimentos estudantis e o futuro do marxismo. Lamentavelmente, o encontro entre os autores das duas das maiores obras antitotalitárias do século 20, A dialética da razão (1947) e Marinheiros, renegados e outros párias (1950), deixou só perplexidade e incompreensão.

Entendemos, então, a melancolia de Traverso ante os desgastes ocasionados por essa separação de dois continentes: uma teoria crítica assombrada pelo inconsciente colonial do Ocidente e ainda incapaz de afrontar os problemas raciais gerados pela globalização capitalista; e os estudos pós-coloniais surdos às perspectivas emancipadoras da crítica cultural, desqualificada por eles como eurocêntrica. Uma tristeza similar parece dominar o historiador no momento de apresentar a correspondência entre Adorno e Benjamin: quando, por razões editoriais e financeiras, a relação entre aluno (Adorno) e mestre (Benjamin) se inverte, é toda uma metodologia antropológica e micrológica que se encontra impedida. Outro diálogo frustrado que poderia ter transformado os métodos e a visão da esquerda radical até hoje.  

É a esses diálogos perdidos que Traverso sustenta outro, post mortem, com o filósofo francês Daniel Bensaïd, ao final do livro. É toda uma geração que se destaca da figura de Bensaïd: essa que, introduzida à política em maio de 68, permaneceu fiel a seus sonhos sem ceder nem às sereias do capital, nem aos encantos da renegação no momento em que a revolta saiu de moda. Bensaïd era mais do que o simples militante que pretendia ser, mais do que o escritor que sua pena deixava adivinhar, mais ainda do que o filósofo das intermitências revolucionárias que se tornou. Era um transmissor entre gerações e correntes de pensamento, que aliava marxismo militante e marxismo cultural, tentando atualizar as novas lentes de leitura, como o pós-estruturalismo, sem perder de vista as coordenadas universais da emancipação. Ele é o exemplo de uma resistência ao discurso autoritário dos anos 1980 para o qual não havia alternativa à economia de mercado. No entanto, não fazia parte dos esquerdistas eternamente prostrados na melancolia, nostálgicos da grandiloquente retórica revolucionária. Tinha por modelo, assim como Benjamin, a melancolia lúcida de Péguy, e espreitava, com uma “lenta impaciência”, o momento no qual os lençóis profundos da memória coletiva poderiam emergir, indo ao encontro da tempestade eletrizante do evento histórico.

Ao fechar o livro, o leitor se surpreende ao cogitar uma nova distinção conceitual que permitiria salvar a melancolia daquilo que a ameaça: seja seu caráter potencialmente autodestrutivo, seja a desqualificação de sua potencial força para um projeto de esquerda. Não se trata, então, da oposição entre uma tristeza fecunda, capaz de fazer o luto e de voltar à vida, e uma melancolia estéril, fixada numa repetição tão mórbida quanto arrogante. Não se trata, tampouco, de opor uma melancolia das profundezas, autenticamente ligada a seu objeto, a uma melancolia de vitrine, disponível para seus compradores no mercado dos afetos. Essas oposições são ainda insuficientes, e o percurso de Traverso sugere outra ainda mais operante, entre pulsão e desejo melancólicos. Deve-se rejeitar, sim, a pulsão melancólica, que goza de seu objeto “perdido”, no qual o sujeito se reconhece narcisicamente (como o apego excessivo a uma ortodoxia fora de moda, incapaz de se aproximar do novo, desconectada do mundo). Mas é preciso defender um desejo melancólico, que tece sua relação com o mundo a partir de um objeto “faltante”, no qual o sujeito reconhece somente a imagem da ausência, aquilo que não teve ainda lugar, como uma série de utopias que o autor recolhe e revela a partir de múltiplas figuras. As imagens recolhidas no livro não seriam nada mais do que a refração indireta desse lugar faltante.

É com essa melancolia desejante que é tecido o livro de Traverso. A travessia da memória dolorida proposta por ele só tem valor porque, ao final, ressuscita uma memória da felicidade. A melancolia de esquerda é enfim menos a expressão de uma tendência mórbida do que de uma saudade, no sentido pleno do termo: a lembrança é tingida de um lamento, mas é ele que retém as horas felizes da ação coletiva. Como a análise das sequências dos filmes de Angelopoulos e Einsenstein faz ver, a tristeza melancólica do primeiro não deixa de evocar a euforia revolucionária do segundo. É nesse sentido que o livroo poderia vir acompanhado por esta frase de Frantz Fanon: “O mergulho no abismo do passado é condição e fonte de liberdade”.


Beano de Borbujas 

“Melancolia de esquerda nasce de uma aposta desafiadora: fazer do afeto melancólico o motor dos movimentos sociais do presente. Neste livro, lançado originalmente em 2016, na França, o historiador italiano Enzo Traverso mobiliza uma memória revolucionária na qual se acumulam as camadas de esperança de uma outra sociedade, mais justa e solidária. O historiador das ideias recolhe os sonhos de nossos pais e avós, que se concretizaram não somente em discursos e manifestos, em levantes políticos ou reformas sociais, mas também em obras de arte.
Não saberíamos dizer se tal esperança nascida com o lulismo acabou desabando no momento do escândalo do mensalão, dos processos por corrupção, do impeachment de Dilma Rousseff, da prisão de Lula, do fracasso do pt nas últimas eleições — ou, mais profundamente, com a degradação de um projeto político realmente emancipador e igualitário pelo país. Seja como for, a esquerda experimenta hoje uma profunda ressaca. A recente produçao cinematografica do pais é testemunha disso, particularmente o filme de Petra Costa, Democracia em vertigem, que pode ser visto como o sintoma de uma melancolia de esquerda à brasileira.
[...]
Traverso passa em revista a diversidade dos meios nos quais se cristalizou esse conjunto de imagens-desejo do coletivo, depositadas em obras dispersas no tempo e no espaço. São pinturas, naturalmente, mas também gravuras e cartazes, edifícios e instalações e, sobretudo, filmes. Tal como um fotógrafo na câmara escura, Traverso, também um crítico da cultura, revela a força de uma “tradição escondida” que corre subterraneamente do século 19 ao 21. Causa perplexidade, no entanto, a valorização de um conceito de conotação negativa ou patologizante — a melancolia — como categoria operatória e força inventiva a serviço de um projeto revolucionário.
Por meio de imagens, o livro reintroduz o marxismo na libido mnemônica que domina a ordem do dia. Coleta, primeiramente, as imagens fixas dos lutos coletivos e das lembranças exaltantes, circulando entre fotografias, instalações, gravuras e pinturas, do francês Gustave Courbet ao mexicano Diego Rivera, passando por inúmeros criadores russos e italianos. Depois, faz desfilar as imagens-movimento, reescrevendo uma história surpreendente do cinema conforme o princípio da “tradição escondida”. Sucedem-se, assim, as alegorias dos fracassos da esquerda na visão de Luchino Visconti, os contratempos trágicos da revolta nos irmãos Taviani, os arquivos visuais da efervescência revolucionária da França e da Espanha, com Chris Marker e Ken Loach.
A análise mais exemplar é, provavelmente, a de uma sequência de Um olhar a cada dia (Theo Angelopoulos, 1995), na qual a cabeça cortada de Lênin navega no Danúbio após o desmantelamento do comunismo na Europa do Leste. Contrastando com a cabeça cortada do tsar nos filmes épicos de Serguei Eisenstein do início do século, essa sequência melancólica do cineasta grego assinala, em fins do século 20, o sonho despedaçado de um ideal. À imagem dos homens que se descobrem, silenciosos, diante da passagem do barco, a ideia do socialismo desfila sob o olhar estupefato dos espectadores que somos, permanecidos na margem.
[...]
Walter Benjamin, foi o primeiro a forjar a expressão “melancolia de esquerda”, para criticar alguns intelectuais que, como Erich Kästner ou os fotógrafos da Nova Objetividade, estetizam a miséria e o povo para se moldar ao ar do tempo e fazer escoar sua mercadoria: uma velha demagogia que não teria levado em conta a radical transformação de seus próprios meios de produção, de sua técnica de criação artística e de sua maneira de compartilhar o mundo sensível. [,,,] Benjamin reconhece no socialista exaltado Charles Péguy, dotado de uma “fantástica melancolia dominada”, um crítico implacável da ordem estabelecida. Nesse sentido, como produção cultural (e não categoria clínica), a melancolia poderia ser produtiva, reveladora e até revolucionária.
====> Enzo Traverso não menciona esses exemplos, mas também não ignora as possíveis resistências a seu projeto. De um lado, em diálogo com a psicanálise, ele mostra que não se trata, como no luto bem-sucedido, de se separar do objeto amado para poder viver sem ele, mas de se transformar ao contato da imagem de sua ausência. De outro, em resposta à denúncia da mercantilização da miséria, o autor valoriza a melancolia autêntica (e não estetizante) do filósofo-trapeiro, catador revolucionário que recolhe os sonhos perdidos no asfalto. A melancolia não é uma postura mórbida ou uma demagogia clientelista, mas uma aposta de que a esperança vale mais do que a resignação, a utopia mais do que o cinismo. Trata-se de uma aposta alçada a um nível coletivo: se apostamos na possibilidade (secular) de redenção, temos tudo para ganhar; se nos resignamos a este mundo sem alternativa, rumamos ao desastre.” < =====
Duas canções a qual a leitura acima me remete... Zezto de Oliveira