terça-feira, 26 de setembro de 2023

Relato da roda de conversa Cultura Viva: A política de base comunitária do Sistema Nacional de Cultura - 26 de Setembro de 2023

 


1ª parte

Breve apresentação sobre o escritório estadual por Denio Azevedo – Formado por três pessoas. Thiane Araújo (coordenadora), Luciana -------(servidora pública federal – recém chegada de Minas Gerais) e Denio Azevedo (servidor público federal)

O escritório estadual do MINC é vinculado a Secretaria de Comitês de Cultura, por meio da diretoria de articulação e governança, que faz a representação institucional e suporte operacional e logístico.

O que compete ao escritório estadual do MINC? – solicitar texto da apresentação ao  escritório

Tarefa prioritária para os próximos meses - Mobilização para os municípios organizarem as conferências municipais de cultura

Endereço - escritório.se@cultura.gov.br

2ª parte

Juliana Caetano – diretora do Cultura Viva

O que é o Cultura Viva? Inicia perguntando ao auditório. Apenas cinco pessoas souberam responder. Em um auditório com cerca de 50 pessoas, maioria formada por professores e alunos da UFS e alguns agentes do campo da cultura...

O que é o Cultura Viva? O conceito principal  é o estado não levar a cultura, como comumente se costumava falar ou até fazer, mas ao contrário, conforme o ex-ministro da cultura Gilberto Gil, o estado deve estimular, massagear, fazer o do-in antropológico, para favorecer ações já existentes a partir das iniciativas locais.

Uma das perspectivas do programa, embora não realizadas em sua inteireza foi a gestão compartilhada.

Por outro lado, a partir da aprovação da Lei Cultura Viva, LEI Nº 13.018, DE 22 DE JULHO DE 2014. alguns avanços foram alcançados como a criação do cadastro nacional dos pontos de cultura, inclusive por meio de auto-declaração, a prestação de contas a partir do objeto ou produto cultural e etc..

A Lei Aldir Blanc 2 prevê o fomento a editais para Pontos de Cultura com destinação de percentual de 30%.

Em termos “emergenciais” o ministério da cultura está colocando para este a ano o edital de premiação a pontos e pontões, sendo este último não um ponto grande ou maior, mas um ponto que se dedica a articulação, formação e mobilização.

Um alerta importante. Engajamento dos presentes em torno das conferências de cultura e a revisão do plano de cultura atual

A minha fala, Zezito de Oliveira

O programa Cultura Viva é um dos programas mais estudados pela academia, a começar pelo próprio idealizador do mesmo, Célio Turino, o qual publicou um livro sobre os pontos de cultura no Brasil e outro sobre os pontos de cultura na AL. Este programa está na base da construção e do conceito das leis Cultura Viva, Aldir Blanc e Paulo Gustavo.

Sugestões de leitura:

CÉLIO TURINO - Ponto de Cultura_o Brasil de baixo para cima, 2ª Edição - São Paulo. Anita Garibaldi, 2010. Baixe AQUI

POR TODOS OS CAMINHOS: Pontos de cultura na América Latina. Compre AQUI 


Redesenho do Programa Cultura Viva - IPEA - Baixe AQUI

PONTOS DE CULTURA : uma tentativa de mapeamento do Estado de Sergipe AQUI

Entretanto, por ser um programa bem amplo, por trabalhar a cultura em três dimensões -  simbólica, cidadã e cultural -  muito ainda há para ser conhecido, ainda mais com a retomada da cultura neste governo.

Neste sentido sugiro, apoio e fortalecimento para  cursos de politicas/gestão/ação cultural,  lato-sensu (especialização)  e stricto sensu  (mestrado e doutorado)

Assim também como apoio financeiro para publicação de pesquisas e estudos originadas dos cursos acima ou já produzidas, mas sem conhecimento do grande público.

Virginia Lúcia, atriz, professora e mestranda do curso de cinema  lembrou a necessidade da politica cultural ir aonde as crianças e os velhos estão, escolas, orfanatos  e asilos, em especial por causa do abandono cultural em que estes dois últimos se encontram, assim também como a necessidade de formação especializada no Cultura Viva para quem for participar de editais referentes a esta politica pública

Como resposta Juliana afirmou o seguinte:

No geral tem ampla concordância com as falas

No caso da formação será preciso articular com Alexandre Santini, presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa e considera ser bastante promissor.

Brevemente haverá um curso de extensão sobre o Cultura Viva na  Escola Nacional de Administração (ENAPE) no sistema EAD

Está sendo produzido um mapa georeferencial cruzando indicadores socio-econômicos, sociais, de violência e etc., com a presença de equipamentos culturais para inserir a presença dos agentes culturais do cultura viva nos territórios com menor presença destes últimos.

Uma constatação é que onde se produziram movimentos mais significativos no campo cultural, foi com politicas de fomento a longo prazo, portanto será preciso caminharmos nesta direção , sem ficarmos presos tão somente a editais pontuais ou sazonais.

Espaços culturais e Pontos de Cultura – Não deve haver oposição entre um conceito e outro. É necessário pensar em um sistema de complementariedade.


segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Como o governo federal está se preparando para enfrentar o controle das mentes e corações por parte do neoliberalismo e do neofascismo. A resposta do Ministro Macedo


 
Participei neste 25 de Setembro de 2023, da entrevista com o ministro Márcio Macedo ( Chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República). A entrevista comandada por Narcizo Machado foi ao ar pelo programa Jornal da Fan.

Transcrevo abaixo a pergunta que fiz, a qual pode ser ouvida no áudio abaixo, assim como a resposta do ministro. Também faço a réplica aqui no blog.

Posicione o cursor em 2:03:48 a 2:09:10

https://www.youtube.com/watch?v=hBA3WL8K6D4


Bom dia Narcizo, ministro Márcio Marcedo e os ouvintes do programa Jornal da Fan.

Frei Betto em entrevista a revista online da Universidade Vale dos Sinos no RS afirmou o seguinte:

“Há muito a fazer para conscientizar, organizar e mobilizar o povo brasileiro. Recursos existem. E há vontade politica por parte de Lula e da Secretária Geral da Presidência da República, monitorada pelo  ministro Márcio Macedo. Faltam apenas maior empenho, produção de material para os veículos de comunicação social e verba para que o governo disponha de uma rede de educadores populares de, no mínimo, 50 mil pessoas”

Diante disso, o que efetivamente está sendo feito pelo governo neste sentido? 

A réplica (Zezito de Oliveira)  - Além do ministério da educação, a proposta de Frei Betto´é interministerial, em especial, além do ministério da educação, o da cultura, direitos humanos, SECOM, meio ambiente....

Uma proposta para Frei Betto, Pedro Pontual, Renato Simôes e etc.,  encaminhar ao ministro chefe da secretaria geral da presidência da  república. 

 Promover uma reunião com os titulares  dos ministérios citados acima, entre outros, juntamente com assessoria técnica para apresentar conceitos básicos de Educação Popular, com Frei Betto, João Pedro Stédile, Moacir Gadotti, Mário Sérgio Cortella e ete...

Para ler sobre Educação Popular na Aracaju nos anos de 1980, cidade de residência do ministro Márcio Macedo, recomendo o primeiro volume da trilogia AMABA/Projeto Reculturarte, em especial o capitulo IX. O PDF pode ser baixado AQUI


domingo, 24 de setembro de 2023

A SUBVERSIVA "CONTABILIDADE" DIVINA: OS ÚLTIMOS SERÃO OS PRIMEIROS! Chico Alencar.

 (Breve reflexão para crentes ou não)

Nesse último domingo de setembro ecoa, em milhares de comunidades de fé, mais uma parábola de Jesus (Mt, 20, v. 1 a 16).

Mateus 20

A parábola dos trabalhadores na vinha

1 Porque o Reino dos céus é semelhante a um homem, pai de família, que saiu de madrugada a assalariar trabalhadores para a sua vinha.

2 E, ajustando com os trabalhadores a um dinheiro por dia, mandou-os para a sua vinha.

3 E, saindo perto da hora terceira, viu outros que estavam ociosos na praça.

4 E disse-lhes: Ide vós também para a vinha, e dar-vos-ei o que for justo. E eles foram.

5 Saindo outra vez, perto da hora sexta e nona, fez o mesmo.

6 E, saindo perto da hora undécima, encontrou outros que estavam ociosos e perguntou-lhes: Por que estais ociosos todo o dia?

7 Disseram-lhe eles: Porque ninguém nos assalariou. Diz-lhes ele: Ide vós também para a vinha e recebereis o que for justo.

8 E, aproximando-se a noite, diz o senhor da vinha ao seu mordomo: Chama os trabalhadores, e paga-lhes o salário, começando pelos derradeiros até aos primeiros.

9 E, chegando os que tinham ido perto da hora undécima, receberam um dinheiro cada um;

10 vindo, porém, os primeiros, cuidaram que haviam de receber mais; mas, do mesmo modo, receberam um dinheiro cada um.

11 E, recebendo-o, murmuravam contra o pai de família,

12 dizendo: Estes derradeiros trabalharam só uma hora, e tu os igualaste conosco, que suportamos a fadiga e a calma do dia.

13 Mas ele, respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço injustiça; não ajustaste tu comigo um dinheiro?

14 Toma o que é teu e retira-te; eu quero dar a este derradeiro tanto como a ti.

15 Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?

16 Assim, os derradeiros serão primeiros, e os primeiros, derradeiros, porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos.

O pedido dos filhos de Zebedeu

17 E, subindo Jesus a Jerusalém, chamou à parte os seus doze discípulos e, no caminho, disse-lhes:

18 Eis que vamos para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, e condená-lo-ão à morte.

19 E o entregarão aos gentios para que dele escarneçam, e o açoitem, e crucifiquem, e ao terceiro dia ressuscitará.

20 Então, se aproximou dele a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, adorando-o e fazendo-lhe um pedido.

O Mestre, pedagógico, compara o Reino de Amor, Justiça e Plenitude, aspiração de todo ser humano, a uma vinha cujo dono vai contratando trabalhadores para o cultivo.

Ele combina o pagamento e os camponeses vão  chegando em diferentes horários para a jornada.

Ao fim do dia, os primeiros  percebem que receberam o mesmo que os desempregados chamados por último. 

Claro que os que "ralaram" o dia inteiro, "na fadiga e no calor", reclamaram. 

Mas o dono da vinha disse a um deles: "amigo, não estou sendo injusto, pois paguei o acordado. É meu direito dar aos que chegaram por último a mesma coisa. Está com inveja porque fui bom?".

E Jesus, na contramão do pensamento dominante (da época e de hoje), conclui: "os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos".

Ele falava de um Deus generoso, que acolhe a tod@s. E chacoalha as hierarquias: tem predileção pelos deserdados, abandonados, esquecidos, invisibilizados. 

Ele falava, e segue nos alertando, sobre os excluídos da (des)ordem injusta, os largados nas praças sem trabalho e sem direitos, o(a)s discriminados de todo jeito.

E dá a eles, na parábola, condições de dignidade e sobrevivência, para escândalo dos que se julgavam melhores, com privilégios na Terra e cadeira cativa no Céu...

Esta passagem é um chamamento para que olhemos à nossa volta, e não para o próprio umbigo. Para que superemos a "religiosidade de mercado", tacanha, egoísta, da salvação individual. Ou a prática - que o capitalismo estimula - de só cuidarmos dos nossos próprios interesses. Para percebermos a alteridade, a diversidade do semelhante, e sua condição inaceitável de marginalização - que atinge povos, segmentos e pessoas, a multidão dos "últimos".

Ao ler essa parábola, que intrigou os discípulos, lembrei de uma canção de Gilberto Gil, "Copo Vazio":

É sempre bom lembrar

que um copo vazio

está cheio de ar

É sempre bom lembrar

que o ar sombrio de um rosto 

está cheio de um ar vazio

vazio daquilo que no ar do copo

ocupa um lugar

É sempre bom lembrar

guardar de cor

que o ar vazio de um rosto sombrio

está cheio de dor

Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho

Que o vinho busca ocupar o lugar da dor

Que a dor ocupa uma metade da verdade

a verdadeira natureza interior

Uma metade cheia, uma metade vazia

Uma metade tristeza, uma metade alegria

A magia da verdade inteira, o todo poderoso Amor!



Aborto: Uma legislação em defesa da vida - Frei Bett0

 


É espantoso que, às portas do século XXI, haja questões tão sérias, como o aborto, que ainda são consideradas tabus indiscutíveis, escreve Frei Betto, em artigo publicado por O Globo, 05-08-2018 e reproduzido no blog Caminho Pra Casa, 09-08-2018. 

Eis o artigo

Ao contrário do psicanalista ou da psicóloga que se depara com o drama de mulheres que abortaram, como religioso tenho sido solicitado por aquelas que, diante de uma gravidez indesejada, sofrem a atroz angústia da dúvida. E raramente elas chegam acompanhadas por seus parceiros – o que não deixa de ser um preocupante sintoma. 

É espantoso que, às portas do século XXI, haja questões tão sérias, como o aborto, que ainda são consideradas tabus indiscutíveis. O capitalismo erotiza a cultura, através da reificação das relações humanas subjugadas aos imperativos do consumo, e por isso mesmo mantém a censura em torno do tema da sexualidade.

Para o sistema, que depende da exacerbação do imaginário coletivo, só é real o que não é racional. Seria inquietante se, por exemplo, os movimentos feministas começassem a questionar o uso da mulher na publicidade. Pelo mesmo motivo, impede-se que nas escolas se trate de questões de gênero e de educação sexual (quando muito, há aulas de higiene corporal para se evitar doenças sexualmente transmissíveis).

Devo acrescentar que lamento as dificuldades que a Igreja impõe à discussão em torno do aborto. Se a Teologia é o esforço de apreensão racional das verdades de fé, o teólogo tem, por dever de ofício, de se manter aberto a todos os temas que dizem respeito à condição humana, mormente quando encerram implicações morais. Aquilo sobre o qual ninguém fala ou escreve, não existe – diz um personagem de Érico Veríssimo em Incidente em Antares.

Por isso mesmo, as instituições autoritárias preferem cobrir de silêncio questões polêmicas que refletem incomensuráveis dramas humanos. A própria Constituinte evitou o tema, preferindo adiá-lo para as leis complementares. Embora eu seja contra o aborto, admito a sua descriminalização e sou plenamente a favor da mais ampla discussão sobre o assunto, pois se trata de um problema real, grave, que afeta a vida de milhares de pessoas. Desconfio, entretanto, que há algo de verdade neste provérbio feminista: Se os homens parissem, o aborto seria um sacramento.

A posição da lei brasileira

Ninguém aborta pelo prazer de fazê-lo. É sempre uma opção difícil, traumática, sob toda sorte de pressões e angústias. Dados da Pesquisa Nacional do Aborto (PNA), divulgada em 2016 (O Globo, 1.8.2018) indicam que 503 mil mulheres realizaram aborto no Brasil em 2015. Costuma-se afirmar que, desses milhares de abortos praticados a cada ano no Brasil, a consequência imediata seria a morte de inúmeras mulheres, em geral negras e pobres.

Se infelizmente existem casais – pois o aborto não é uma questão exclusiva da mulher – que comparam o aborto a uma extração de dente, não há dúvida de que ele deixa sequelas físicas, psíquicas e morais em inúmeras pessoas. A atual legislação brasileira (artigos 124 a 128 do Código Penal) o considera crime – tanto da parte da gestante, quanto dos médicos, das enfermeiras e das curiosas que dele participam. A lei faz exceção aos casos de gravidez decorrente de estupro ou agressão sexual, bem como por razões terapêuticas quando há risco de vida para a mãe (cardiopatias e tuberculose, por exemplo).

A posição da Igreja

No decorrer de sua história, a Igreja Católica nunca chegou a uma posição unânime e definitiva. Oscilou entre condená-lo radicalmente ou admiti-lo em certas fases da gravidez. Atrás dessa diferença de opiniões situava-se a discussão sobre qual o momento em que o feto pode ser considerado um ser humano. Até hoje, nem a ciência, nem a teologia, têm uma resposta exata. A questão permanece em aberto.

Santo Agostinho (sec. IV) dizia que só a partir de 40 dias após a fecundação, quando se pode falar em pessoa (unidade corpo-espírito). Assim mesmo para os fetos masculinos, já que se considerava que a hominização do feto feminino exigia o dobro do tempo...

Santo Tomás de Aquino (séc. XIII) reafirmou que não se pode reconhecer como humano o embrião que ainda não completou 40 dias, quando então lhe é infundida a “alma racional”. Esta posição virou doutrina oficial da Igreja Católica a partir do Concílio de Trento (encerrado em 1563).

Mesmo assim, sempre foi contestada por outros teólogos que, baseados na autoridade de Tertuliano (séc. III) e de Santo Alberto Magno (séc. XIII), defendiam a hominização imediata, ou seja, desde a fecundação trata-se de um ser humano em processo.

Santo Afonso de Ligório (+1787) admitia o aborto terapêutico, caso a vida da mãe corresse risco imediato. Contudo, essa discussão sobre feto “inanimado” (que ainda não teria alma) ou “animado” (já com alma), encerra-se oficialmente com a divulgação da Apostolica Sedis, em 1869, na qual o papa Pio IX condena toda e qualquer interrupção voluntária da gravidez.

No século XX, introduz-se novamente a discussão entre aborto direto e indireto. Roma passa a admitir o aborto indireto, em caso de gravidez tubária ou de câncer no útero. Mas não admite o aborto direto nem mesmo em caso de estupro. E não fez exceção quando um grupo de freiras do Congo sofreu violação. A posição atual dos teólogos mais qualificados não coincide com a de Roma.

O redentorista Bernhard Haering, um dos mais renomados moralistas católicos, admite o aborto quando se trata de preservar o útero para futuras gestações ou quando o dano moral e psicológico causado pelo estupro impossibilita a mulher de aceitar a gravidez. É o que a Teologia Moral denomina ignorância invencível. Nem a Igreja tem o direito moral de exigir sempre de seus fiéis atitudes heróicas. É o que a ética chama de conflito de valores e deveres. E o próprio papa reconhece que, inclusive na questão do aborto, a responsabilidade moral pertence, em última instância, ao inviolável reduto da consciência humana e só pode ser julgado por Deus.

Limites da posição da Igreja

Roma é contra a descriminalização do aborto, baseada no princípio de que não se pode legalizar algo que é ilegítimo e imoral: a supressão voluntária de uma vida humana. Mesmo defendendo tal princípio, a história demonstra que nem sempre a Igreja o aplicou com igual rigor a outras esferas do conflito social. Defende a legitimidade da “guerra justa” e da revolução popular em caso de tirania prolongada e inamovível por outros meios. É o princípio tomista do mal menor. Em muitos países, a Igreja aceitava ainda a pena de morte para criminosos comuns e políticos, posição somente agora revogada pelo papa Francisco, até porque se a pena de morte não existisse Jesus não teria sido executado na cruz. E a própria Igreja já patrocinou, na Inquisição, a eliminação física de pessoas consideradas hereges ou inimigas da fé católica.

Embora a Igreja defenda a sacralidade da vida do embrião em potência, a partir da fecundação, jamais comparou o aborto ao crime de infanticídio e nem prescreveu rituais fúnebres ou batismo in extremis para os fetos abortados.

O direito ao uso do próprio corpo

É preciso encarar com muita seriedade as razões que induzem uma gestante ao aborto. Ao falar do direito ao uso do próprio corpo, nem todas as mulheres são movidas pela racionalização burguesa semelhante à concepção do direito de propriedade, ius utendi et abutendi (direito de uso e abuso). É bem conhecido o resultado de tal concepção…

Assim como o direito de propriedade encerra uma intrínseca função social, o direito sobre o corpo não pode prescindir de sua natureza social. Este é um dos princípios que fundamentam o movimento ecológico, pois homem algum é uma ilha. Não há nada que uma pessoa faça com o seu próprio corpo que não tenha reflexos em seu relacionamento social. Até o modo como o alimentamos ou vestimos influi em nossa postura em relação aos outros. Do ponto de vista moral, não se pode aceitar, como direito, a autodestruição física ou psicológica.

A opção de abortar é moral e política. Pode ser encarada pelo ângulo do poder do mais forte sobre aquele que é completamente frágil. Tão frágil que podem ser encontradas justificativas científicas para negar-lhe o título de humano. Para a genética, o feto é humano a partir da segmentação. Para a ginecologia-obstetrícia, desde a nidação, a implantação no útero. Para a neurofisiologia, só quando se forma o cérebro. E para a psicosociologia, quando há relacionamento personalizado.

Em suma, o fato é que o feto é uma espécie de subproletário biológico. Tão reduzido à sua impotência, que não tem como protestar ou rebelar-se. A Bíblia adverte que a grande tentação do ser humano é querer “fazer de sua força a norma da justiça” (Sabedoria 2, 11). E, em muitos casos de aborto, o feto paga pela rejeição que a mulher tem ao homem que a fecundou ou pelos preconceitos que a atemorizam e a tornam tão escrava de conveniências sociais que, paradoxalmente, ela decide extraí-lo em nome de sua suposta liberdade. Liberdade que ela teme e da qual foge quando se trata de admitir uma relação adúltera, assumir-se como mãe solteira ou exigir de seu parceiro, ainda que casado com outra mulher, que ele seja companheiro e pai face à evidência de uma vida em processo.

Há casos em que o aborto é a culminância de um ciclo desprovido de coerência moral. Vive-se uma ambiguidade que nega o mínimo de respeito à dignidade alheia. A falsidade como cúmplice da conveniência. Homens que na vida social defendem as mais avançadas ideias, quando confrontados com uma inesperada gravidez reagem com uma covardia inominável, como se o problema fosse exclusivo da mulher. E, o que é pior, há mulheres coniventes com a omissão masculina, não raro por se verem tendo que optar entre o feto e o afeto…

Engels, em A Origem da Família, do Estado e da Propriedade Privada, denuncia o mercantilismo que afeta as relações humanas nas classes dominantes, onde as pessoas valem pelo que têm e não pelo que são. Quem se empenha na transformação da sociedade capitalista deve saber que o único capital que jamais pode ser perdido é o moral. Pode-se perder a liberdade e, inclusive, a vida. A perda da moral implica o descrédito da própria causa que se defende e representa, de fato, uma vitória do inimigo.

As situações-limites

Permanece em aberto a discussão sobre o momento em que o feto pode ser considerado humano. Partilho a opinião de que, desde a fecundação, já há vida com destino humano e, portanto, histórico. Sob as óticas cristãs e marxistas, a dignidade de um ser não deriva daquilo que ele é e sim do que pode vir a ser. Por isso, cristianismo e marxismo defendem os direitos inalienáveis dos que se situam no último degrau da escala humana e social.

É interessante observar que, na história, sempre se pôs em xeque a plena dignidade de pessoas que eram mantidas na opressão: índios, mulheres, negros… Hoje, o debate sobre se o ser embrionário merece ou não o reconhecimento de tal dignidade, não deve induzir ao moralismo intolerante, que ignora o drama de mulheres que optam pelo aborto por razões que não são de mero egoísmo ou conveniência social. Trata-se de mulheres muito pobres, que objetiva e subjetivamente não têm condições de assumir aquele filho, naquele momento; de menores de idade que sofrem violação, como aconteceu no Recife com uma menina de 9 anos; de mulheres mentalmente enfermas, incapacitadas para cuidar de uma criança; ou de mulheres que engravidam involuntariamente após os 40 anos, quando a possibilidade de nascer um filho com sequelas aumenta de 1/2500 para 1/100, sendo de 1/45 para mulheres que já atingiram 45 anos.

Enfim, há uma série de situações humanamente dramáticas, geradas por pobreza, ignorância, opressão social, violência, que não podem ser encaradas sob o olhar altivo do moralismo farisaico.

Em princípio, devemos lutar para que tais situações não se apresentem no futuro, erradicando suas causas sociais. E pouco adiantam os remendos legais que procuram encobrir suas contradições. Por esta via, em breve se discutirá o projeto de lei de eliminação dos mendigos, como hoje se discute a redução da maioridade penal.

Frente à gravidade de inúmeros casos atuais, não basta aguardar aquele futuro em que as mulheres não temerão pelo nascimento de seus filhos e quando o aborto já não será necessário. Não se deve também ceder à hipocrisia da direita, interessada em manter a criminalização do aborto para favorecer as “fábricas de anjinhos” – as clínicas clandestinas que fazem a fortuna da máfia de branco, inclusive fornecendo fetos às indústrias de cosméticos, onde são aproveitados como matéria-prima dos produtos de beleza.

A descriminalização do aborto

É a defesa do sagrado dom da vida que levanta a pergunta se é lícito manter o aborto à margem da lei, pondo em risco também a vida de inúmeras mulheres pobres que, na falta de recursos, tentam provocá-lo com chás, venenos, agulhas ou a ajuda de curiosas, em precárias condições higiênicas e terapêuticas. É possível que uma legislação em favor da vida faça este problema humano emergir das sombras para ser adequadamente tratado à luz do Direito, da Moral e da responsabilidade social do poder público.

Um dos principais especialistas em Teologia Moral e Ética Médica no Brasil, o padre Hubert Lepargneur, admite que “devemos reconhecer, por desagradável que nos seja, a tendência dos países civilizados em considerar legal a operação, sob restrição de um mais ou menos rigoroso condicionamento, para que se controle um ato grave, individual e socialmente, uma operação que precisa de cuidados sanitários à altura das exigências modernas de saúde” (O aborto voluntário , Paulinas, São Paulo, 1983, p. 47).

O teólogo e jesuíta espanhol González Faus é de opinião que “mais do que o moralista, a existência de situações-limites deve ser contemplada pelo legislador civil, que não está obrigado a assegurar toda a moralidade e sim a convivência pacífica, nem está obrigado a prescrever a heroicidade ou a procurar um ‘melhor’ inimigo do bem, senão que muitas vezes há de contentar-se em evitar o mal maior. E é possível que, nas atuais circunstâncias de nossa sociedade, a descriminalização legal do aborto seja um mal menor, enquanto todos nós não trabalharmos por uma sociedade em que o aborto já não seja necessário” (Este es el hombre, Ed. Cristandad, Madri, 1986, pp. 277-285).

Por que alguns se opõem de maneira tão violenta ao debate sobre a descriminalização do aborto? Não se trata dos mesmos setores que proíbem a educação sexual nas escolas, defendem a “escola sem partido” e a pena capital, e aplaudem a eliminação sumária de supostos bandidos e traficantes? Ora, para tais setores, a descriminalização do aborto poderia trazer à tona o que se passa entre executivos e secretárias, entre patrões e empregadas, além do risco de ter que dividir a herança com o filho bastardo. A morte clandestina no ventre elimina qualquer risco à propriedade e à imagem pública do proprietário. Para este, aliás, não há ilegalidade nesta matéria. Basta embarcar a gestante para um país que não criminaliza o aborto, e tudo estará resolvido de acordo com a lei.

Mas como ficam as mulheres pobres que não podem ter filhos, senão sob o risco de perderem o emprego e deixarem a família na miséria? São inúmeras as mulheres que, para obter um trabalho, se vêem obrigadas a esconder que são casadas e a impedir ou interromper a gravidez.

Se tais setores fossem sinceramente contra o aborto, lutariam para que não se tornasse necessário. Para que todos pudessem nascer em condições sociais seguras, numa sociedade sem profunda desigualdade social, na qual todos pudessem viver com dignidade. Como não estão dispostos a isso, o mais cômodo é exigir que se mantenha a penalização do aborto. Mas como fica a penalização de políticas econômicas que resultam no aumento da mortalidade infantil?

Uma legislação a favor da vida

Está comprovado que a descriminalização, aprovada em vários países, não reduz o número de abortos clandestinos. Muitas mulheres continuam a preferir o anonimato, para evitar danos à sua imagem social e/ou à do parceiro. O que diminuiu foi o número de óbitos de mulheres em consequência do aborto. E inúmeras gestantes que procuraram os serviços sociais de atendimento foram convencidas a ter o filho – o que não ocorreria se vigorasse a criminalização do aborto.

Hoje, muitas opiniões autorizadas na Igreja admitem que não se pode tratar a matéria com intolerância, supondo que numa sociedade culturalmente diversificada, plural e laica, haja valores morais universalmente aceitos.

“No plano dos princípios – declarou monsenhor Duchène, presidente da Comissão Espiscopal Francesa para a Família – lembro que todo aborto é a supressão de um ser humano. Não podemos esquecê-lo. Não quero, porém, substituir-me aos médicos que refletiram demoradamente sobre o assunto em sua alma e consciência e que, confrontados com uma desgraça aparentemente sem remédio, tentam aliviá-la da melhor maneira, com o risco de se enganar” (La Croix, 31/3/79).

E em abril do mesmo ano, o bispo francês manifestou que uma pessoa que aborta “não comete sempre uma culpa grave. Não levamos em conta aquilo que se passa nas consciências de certas pessoas envolvidas em situações aparentemente sem saída” (Le Monde, 25/4/79).

Uma legislação em favor da vida deve obrigar o poder público a promover amplas campanhas sobre o aborto, esclarecendo suas implicações morais, físicas e psicológicas, como ocorre na China; prever severas sanções às empresas e aos empregadores que recusam mulheres casadas ou não dão suficiente apoio às gestantes; criar postos de atendimento às gestantes que pensam em abortar, onde médicos, psicólogos, assistentes sociais e, inclusive, ministros da confissão religiosa da interessada, procurem convencê-la a assumir o filho, demovendo preconceitos e barreiras, como acontece na França; ampliar a rede de Casas da Mãe Solteira (como já existe em São Paulo, por iniciativa particular), de modo a evitar que as gestantes solteiras sejam induzidas ao aborto por desamparo afetivo, moral ou econômico; prever a objeção de consciência do pessoal terapêutico convocado a atuar nos casos de exceção previsto pela lei; garantir o salário maternidade e multiplicar o número de creches; criar o sistema telefônico de atendimento às mulheres angustiadas por gravidez imprevista, como o SOS-Futuras Mães, da França, que dispõe de postos de recepção telefônica; oferecer ajuda financeira às famílias que adotam crianças rejeitadas por suas mães.

Em resumo, deve-se assegurar o direito à vida do embrião e amparo moral, psicológico e econômico à gestante, bem como prescrever medidas concretas que socialmente venham a tornar o aborto desnecessário.

Leia mais

São Paulo na luta pra revogar os editais na Lei Paulo Gustavo

No Estado de SP  A Lei Paulo Gustavo (LPG), não cumpre NENHUM dos princípios básicos pelos quais lutamos há anos para a política cultural como um todo e nos anos de construção dessa lei e regulamentação: 

- Não desconcentra (pelo contrário);

- Não descentraliza (pelo contrário);

- Não desburocratiza (pelo contrário).

Mais de 80% dos trabalhadores da cultura não terão suas idéias nem analisadas como idéia, porque estão sendo alijados do seu direito de concorrer aos editais, que mais do que nunca, “É DI TAIS!”.

Se ainda pensamos em dar uma basta na situação, amanha, dia 25/09, a partir das 10h30, na frente da Sala São Paulo, prédio sede da Secretaria, talvez seja nossa ultima chance, pelos próximos 04 anos. 

Não há revisão ou ajuste, pois o problema não é de gramática, e sim de objeto que estão colocados nos editais. A solução é #revogajálpgsp!!!! 

https://www.instagram.com/p/CxlCutUChrG/

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Como previsível, e até inevitável, confirmada a primeira Ação Judicial contra os Editais da LPG no Estado de SP, ante o conjunto dos desvirtuamentos de muitos dos princípios e fundamentos da própria Lei Paulo Gustavo, cujos recursos precisam ser executados de forma acessível, transparente, participativa e democratizante, conforme determina a Lei, sem cláusulas de barreiras draconianas e excludentes (sobretudo para quem está sob emergência cultural e socioeconômica) nem medidas/modalidades de editais tão concentradoras, como muitas das apresentadas até aqui no Estado de SP.

Segue abaixo para conhecimento de tods deste Comitê SP da LPG a primeira Ação Popular, com pedido de Tutela de Urgência, contra os editais da LPG no estado de SP, protocolada pela Bancada Feminista do PSOL na ALESP, Bancada Estadual que também está reforçando a convocatória, junto a uma série de outras organizações e movimentos culturais do Estado de SP, para um ATO DE PROTESTO na Segunda-feira (25/9), a partir das 10h30, na frente da Sala São Paulo / Secretaria da Cultura, Economia e Indústrias Criativas de SP.

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Compartilhamos um trecho da fala importante do Pedro Vasconcelos do @minc na Audiência pública sobre a implementação absurda da Lei Paulo Gustavo em SP.

https://www.instagram.com/reel/Cxfm-v-rbvG/?igshid=MzRlODBiNWFlZA%3D%3D

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DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO

Publicado em: 21/09/2023 | Edição: 181 | Seção: 3 | Página: 23

Órgão: Ministério da Cultura/Gabinete da Ministra

COMUNICADO CGLPG/MINC Nº 4/2023

RECOMENDAÇÕES SOBRE EXECUÇÃO DE EDITAIS DE FOMENTO - LEI PAULO GUSTAVO (LPG)

O Comitê Gestor da Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura, no sentido de orientar a

execução de editais em consonância com a legislação vigente e as boas práticas da gestão pública, vem, por meio deste Comunicado, alertar gestoras e gestores quanto à necessidade de observância das seguintes diretrizes e princípios:

I - A Lei Complementar nº 195/2022 foi regulamentada pelo Decreto nº 11.525, de 11 de maio de 2023, que trouxe disposições específicas sobre a execução de recursos de que trata a Lei Paulo Gustavo (LPG), e pelo Decreto nº 11.453, de 23 de março de 2023. Ambos os decretos são de observância obrigatória nos editais de fomento à cultura, conforme pactuado com os entes federativos no item 1 do Termo de Adesão assinado na Plataforma Transferegov;

II - Os editais de fomento à cultura devem ser precedidos de escutas e consultas públicas e

devem prever mecanismos de democratização, desconcentração territorial, busca ativa, estímulo à participação e ao protagonismo de grupos sociais minorizados e simplificação de procedimentos de inscrição, sendo vedado o estabelecimento de critérios que impliquem restrições injustificadas ou limitem a participação de agentes culturais (pessoas físicas ou jurídicas) potenciais beneficiários das ações previstas na legislação;

III - As Leis nº 14.133/2021 e nº 8.666/1993 não se aplicam aos editais de fomento à cultura, pois não se tratam de contratação de serviços. Assim, os estados, Distrito Federal e municípios devem abster-se de utilizar esses dispositivos para a execução das seleções públicas de fomento cultural previstas na LPG, podendo utilizá-las apenas no caso de contratações de serviços e aquisições de bens, a exemplo daquelas destinadas à operacionalização da Lei, conforme dispõem os arts. 17 e 18 do Decreto nº 11.525/2023;

IV - Os agentes culturais contemplados com recursos da LPG por meio de editais de fomento devem prestar contas à Administração Pública nos termos dos arts. 23 e seguintes da Lei Complementar nº 195/2022, com foco no cumprimento do objeto. A exigência de relatório de execução financeira é medida excepcional, conforme incisos I e II do art. 26 da citada lei;

V - Os editais de fomento podem ser objeto de controle social pela sociedade civil, inclusive por meio dos conselhos municipais, estaduais e distrital de cultura. A prática de irregularidades, que porventura sejam comprovadas, são passíveis de responsabilização do gestor;

VI - Encerrado o prazo de execução dos recursos, os estados, o Distrito Federal e os municípios apresentarão, por meio da plataforma Transferegov.br, o relatório final de gestão, conforme modelo fornecido pelo Ministério da Cultura, com informações sobre a execução dos recursos recebidos e as justificativas para as escolhas técnicas utilizadas na implementação da LPG;

VII - O Ministério da Cultura, a fim de orientar os entes federativos quanto à correta aplicação dos dispositivos legais, permanece à disposição para sanar dúvidas e reforça que seguirá zelando pelo fiel cumprimento das normas, princípios e diretrizes que regem a Lei Paulo Gustavo.

MÁRCIO TAVARES DOS SANTOS

Ministro de Estado da Cultura substitutoPresidente do Comitê Gestor da Lei Paulo

Gustavo




PASSO A PASSO

PEDIDO DE AÇÃO DO MP SOBRE A APLICAÇÃO DA LPG PELO ESTADO DE SÃO PAULO

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sábado, 23 de setembro de 2023

Eleição de Conselho Tutelar revive disputa presidencial

 Por Alexandre Medeiros - Publicado: 22 Setembro 2023

https://www.adufrj.org.br/index.php/pt-br/noticias/?option=com_content&view=article&id=5107

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Pouca gente se dá conta, mas no próximo dia 1º de outubro o Brasil voltará às urnas. Em um cenário que reproduz a dicotomia entre os campos progressista e conservador, os eleitores escolherão os novos conselheiros tutelares que serão responsáveis, nos próximos quatro anos, pela garantia de direitos de crianças e adolescentes de todo o país. Na eleição de 2019, o avanço das forças ultraconservadoras sobre os conselhos, sobretudo das denominações evangélicas mais retrógradas, como a Universal, ligou o sinal de alerta. Este ano, o campo progressista tem se mobilizado para levar os eleitores às urnas e reafirmar a necessidade de eleger conselheiros comprometidos com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
“As eleições para os Conselhos Tutelares deste ano assumem uma relevância sem precedentes. Além de ser uma oportunidade para escolhermos representantes dedicados à defesa dos direitos das crianças e adolescentes, é também um momento de reafirmarmos nosso compromisso com a democracia, que esteve sob ameaça nos últimos anos”, argumenta a pesquisadora Miriam Krenzinger, professora da Escola de Serviço Social da UFRJ. “Em um cenário onde segmentos partidários e religiosos ultraconservadores estão se apropriando de espaços institucionais de poder e promoção da cidadania, é essencial que a sociedade se mobilize. Escolher representantes alinhados com os direitos humanos e os princípios democráticos é mais do que uma pauta, é um dever cívico”.

GARANTIA DE DIREITOS
Criados na esteira da redemocratização do país pós-ditadura militar, os Conselhos Tutelares foram instalados a partir de 1990, logo depois da aprovação do ECA. Os conselheiros atendem reclamações, reivindicações e solicitações feitas pelas crianças, adolescentes, famílias, comunidades e cidadãos. Agem também de forma preventiva, atentos a qualquer sinal de violência — física, psicológica ou sexual —, abandono, negligência ou situações de risco.
Os eleitores irão às urnas para escolher 30.500 representantes em 6.100 Conselhos Tutelares. De acordo com o ECA, cada município brasileiro deve ter ao menos um Conselho Tutelar, composto por cinco conselheiros. O Estatuto prevê a proporção mínima de um conselho para cada 100 mil habitantes. Mas alguns municípios — como o Rio de Janeiro — estão longe da composição ideal.
“A cidade do Rio de Janeiro tem 19 conselhos e deveria ter, no mínimo, 63. Como cada conselho tem cinco integrantes titulares, a cidade não tem nem 100 conselheiros”, observa a professora Miriam Krenzinger. “Temos então aqui no Rio um déficit de garantia desses direitos. Isso é também reflexo da ausência ou do não cumprimento da defesa dos direitos da criança e do adolescente como uma questão central das políticas públicas”.

MOBILIZAÇÃO
Os setores progressistas têm se engajado para tentar barrar o avanço do campo ultraconservador. No Rio, foi criada uma plataforma que conecta eleitores com candidatos comprometidos com o ECA (veja link ao fim do texto) e debates e lives na internet têm alertado para a necessidade de se eleger conselheiros defensores de direitos humanos.
“A influência de valores conservadores e igrejas neopentecostais, em especial da Igreja Universal, nas eleições para o Conselho Tutelar pode ter sérias consequências. Esses grupos muitas vezes promovem uma visão moralista que pode ser prejudicial para a diversidade de identidades e realidades das crianças e jovens, especialmente aqueles que pertencem a grupos marginalizados, como LGBTQIA+, negros, indígenas ou com algum tipo de deficiência”, alerta a advogada Leticia Teles, integrante do Ocupa Tijuca, coletivo que tem se empenhado na mobilização.
O Ocupa Tijuca vai promover duas rodas de conversa na região da grande Tijuca sobre a importância dessa eleição: domingo (24), às 10h, na Praça Xavier de Brito, e sábado (30), às 10h, na Praça Afonso Pena.
Leticia Teles e o psicólogo Caíque Azael, membro do Dicionário de Favelas Marielle Franco, publicaram um texto na internet em que ressaltam a importância das eleições do dia 1º. “Essas eleições desempenham um papel crucial na proteção dos direitos das crianças e adolescentes, bem como na luta contra a influência de valores conservadores e igrejas neopentecostais. Os eleitores têm o poder de escolher candidatos comprometidos com uma abordagem inclusiva e respeitosa dos direitos humanos, garantindo que nossas crianças e jovens cresçam em um ambiente que promova a igualdade, a diversidade e o respeito pelos seus direitos fundamentais”, diz o texto.
Caíque Azael chama atenção para outro aspecto peculiar desta eleição: “As eleições para o Conselho Tutelar também são uma oportunidade de fortalecer a separação entre Estado e religião. Em um Estado laico como o Brasil, é vital que as decisões relacionadas aos direitos das crianças e adolescentes não sejam influenciadas por crenças religiosas específicas, garantindo que todos os indivíduos tenham seus direitos respeitados independentemente de sua religião ou orientação espiritual”.
O psicólogo ressalta também a importância dos Conselhos em comunidades onde as violações de direitos de crianças e adolescentes são mais incisivas. “No contexto de favelas e periferias, onde atuo mais fortemente, essa discussão é central porque esses direitos são frequentemente violentados, inclusive pelo próprio Estado. Quando ocupado por pessoas comprometidas com o ECA, o Conselho Tutelar pode ter um papel fundamental na articulação em rede e na defesa de direitos. Um conselho que veja essa juventude como um sujeito de direitos e não como um inimigo a ser aniquilado”, destaca Caíque.
Coordenadora-geral do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe-RJ) e integrante do grupo Sementes do Salgueiro, Sabrina Damasceno vivencia no dia a dia essas violações. “Temos sérios problemas de alfabetização no Salgueiro, o que foi agravado pela pandemia. E muitos problemas de saúde, principalmente relacionados à falta de estrutura adequada de água e esgoto. Há vários pontos da comunidade com esgoto a céu aberto, e isso acarreta problemas, sobretudo para as crianças, com um ambiente insalubre. Precisamos de pessoas no Conselho Tutelar que nos ajudem nessas questões, que sejam parceiras da comunidade. São crianças e adolescentes expostas a situações mais vulneráveis”, diz ela.

PLURALIDADE
Procurador da República no Rio de Janeiro, Julio José Araujo Junior, destaca que o respeito à pluralidade é fundamental na ação dos conselheiros tutelares. “Nós, do Ministério Público, acompanhamos de perto a necessidade de cumprimento do ECA, do respeito à legalidade, à Constituição. Temos forte interação com os Conselhos Tutelares. Os conselheiros eleitos têm que ter preparação e atenção para respeitar a pluralidade de atores, de famílias, de modos de vida em nossa sociedade. Isso é fundamental para que a gente não vitimize sobretudo a população mais vulnerável com a prática de arbitrariedades”, pontua Julio, que é procurador regional dos Direitos do Cidadão no MP-RJ.
Muitas vezes, a prática de arbitrariedades citada pelo procurador parte de quem seria responsável por combatê-la. Na quarta-feira (20), um pastor evangélico, então assessor parlamentar da Câmara de Vereadores de Nossa Senhora do Socorro (SE), foi preso preventivamente e indiciado pela Polícia Civil por estupro de vulnerável contra uma adolescente. A vítima é filha da namorada do pastor. Detalhe: o criminoso era candidato ao Conselho Tutelar da cidade.
“Precisamos eleger pessoas que não reproduzam uma lógica racista, criminalizadora, misógina. Essa pessoa eleita vai ficar quatro anos incidindo diretamente na vida de crianças e adolescentes. É um poder imenso de entrar na vida das famílias e nos territórios. Esse poder pode ser usado para promoção e defesa, numa ação preventiva, mas pode ser utilizado com uma visão punitivista”, compara a professora Miriam Krenzinger.
O voto para os Conselhos Tutelares não é obrigatório. Mas, como se vê, é um voto fundamental. Ensinam os dicionários que o verbo tutelar, em seu sentido mais sublime, significa amparar, proteger, defender.

MAIS INFORMAÇÕES

Consulta aos locais de votação (Rio de Janeiro – RJ):

Conselhos Tutelares na cidade do Rio de Janeiro:

Plataforma de candidaturas alinhadas ao ECA: