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Ran (1985), dirigido por Akira Kurosawa, é um épico de drama histórico franco-japonês considerado uma das maiores obras-primas da história do cinema.
Ran: Filme de Akira Kurosawa retorna aos cinemas brasileiros em 4K
Versão remasterizada chega em outubro, comemorando seus 40 anos.
Jean Clemente | 17 de setembro de 2026 às 19:24
O clássico de Akira Kurosawa faz aniversário e quem ganha os presentes são os fãs. Para marcar os 40 anos da estreia de Ran (completados de fato no ano passado), o filme voltará aos cinemas brasileiros remasterizado em 4K. A estreia está marcada para o dia 1º de outubro.
Adaptação da peça Rei Lear, de William Shakespeare (1564-1616), com elementos da história do daimyô Mori Motonari (1497-1571), Ran teve parte de sua produção realizada também na França, sendo lançado em 1985 e estrelado por Tatsuya Nakadai (que também foi protagonista em Kagemusha, do mesmo diretor). No Oscar, ganhou o prêmio de Melhor Figurino, além de concorrer nas categorias de Direção, Fotografia e Direção de Arte.
Na história, acompanhamos os desdobramentos da decisão do chefe de um clã, Hidetora, que elege um de seus três filhos para ser seu sucessor no controle de suas terras. Os demais herdeiros ficam com alguns bens menores e devem obediência ao irmão que se tornou chefe. Saburu Naotora é um dos filhos que ficou com o “resto” da herança e se revolta com a decisão, sendo expulso do feudo, enquanto seu pai vai sendo tomado pela insanidade ao se ver isolado do império que tinha ajudado a criar.
O filme atualmente se encontra disponível no streaming Belas Artes à la Carte, onde chegou recentemente junto de um documentário que acompanha a produção do longa. É o próprio À La Carte quem está por trás da nova distribuição nos cinemas.
Ebert vai além de dizer que Ran é uma adaptação de Rei Lear: ele percebe no filme uma espécie de reflexão de Kurosawa sobre sua própria vida e sobre o poder, observando a relação entre o velho senhor Hidetora e o próprio diretor, então com 75 anos. Para uma leitura mais política, isso é especialmente fértil: guerra, poder, vaidade, envelhecimento, violência e a tentativa de construir uma ordem que termina produzindo o caos.
O BFI publicou “Kurosawa vs Shakespeare”, de Ben Nicholson, que discute justamente como Kurosawa transforma Shakespeare ao incorporar tradições japonesas, sobretudo o teatro Nô, e como seus filmes utilizam a narrativa para fazer comentários sobre ganância, corrupção e poder.
A Folha de S.Paulo, em texto de Inácio Araújo, publicou em 1994 uma pequena, mas interessante crítica sobre Ran. Ele chama atenção para o paradoxo de um filme construído em torno do desequilíbrio dos personagens, mas que alcança uma espécie de equilíbrio cinematográfico entre beleza e tragédia.
Pensar Ran não apenas como adaptação de Rei Lear, mas como um filme sobre a decomposição de uma ordem política fundada na guerra, na concentração do poder e na incapacidade de transmitir esse poder sem transmitir também os conflitos acumulados pelo velho senhor. O próprio Criterion destaca Ran como uma reflexão sobre a guerra e o desmoronamento de uma família sob o peso da traição, da ganância e da busca insaciável pelo poder.
Isso permitiria inclusive aproximar Ran de uma questão bastante contemporânea: o que acontece quando uma geração que construiu sua autoridade pela disputa e pela guerra tenta deixar como herança uma ordem que já não consegue controlar?
Terra em Transe (1967), dirigido por Glauber Rocha, é uma das obras-primas do Cinema Novo e um dos filmes mais importantes da história do cinema brasileiro.
Para aprofundar
“Diálogos entre Walter Benjamin e Glauber Rocha: uma leitura alegórica de Terra em Transe e o mito fundador do Brasil”, publicado nos Cadernos Benjaminianos, da UFMG.
Terra em Transe não seria apenas uma alegoria do Brasil imediatamente anterior ao golpe de 1964, mas uma representação de ciclos históricos que se repetem, nos quais o país passa de uma crise a outra procurando um salvador e reproduzindo as condições que produziram a própria crise. O artigo aproxima Glauber de Walter Benjamin justamente para pensar essa circularidade histórica.
“Estética e política no Brasil contemporâneo: Terra em Transe e Maranhão 66 revisitados”, de Alexandre Fernandez Vaz.
O autor retorna aos dois filmes para observar como suas formas estéticas continuam produzindo sentido diante dos impasses políticos posteriores. A leitura coloca em relação o Brasil dos anos 1960 e desenvolvimentos políticos posteriores, tratando os filmes como obras que amadurecem historicamente.
“A autocrítica do intelectual militante no cinema político: Terra em Transe e Lutas na Itália”, publicado pela UFMG.
Ele examina Paulo Martins, o poeta-jornalista interpretado por Jardel Filho, como figura do intelectual que quer intervir na política, mas também se confronta com seus próprios limites e contradições.
Paulo Martins não é simplesmente o intelectual que denuncia a política; ele está dentro do transe político que pretende compreender e transformar. Isso permite discutir uma questão muito atual: o que acontece quando artistas, intelectuais, jornalistas e militantes tentam falar em nome do povo sem conseguir estabelecer uma relação efetiva com ele?
Escrevi o artigo abaixo depois do primeiro debate com os presidenciáveis no primeiro turno, e agora com o cancelamento do último retomo o mesmo artigo, os argumentos continuam valendo. ZdO
Quando o espetáculo devora a democracia
O que aconteceu com os grandes festivais de música dos anos 1960 pode nos ajudar a compreender o desgaste que começa a aparecer no formato dos debates eleitorais?
Este artigo parte de um paralelo entre dois momentos distintos, separados por décadas, mas atravessados por uma questão semelhante: o que acontece quando a lógica do espetáculo passa a ocupar o lugar central de uma disputa que deveria produzir reflexão, confronto de ideias e participação pública?
Os festivais que mobilizaram multidões, torcidas e paixões políticas também foram, pouco a pouco, transformados pela própria lógica televisiva que ajudou a torná-los populares. O artigo pergunta se algo semelhante pode estar acontecendo com os debates eleitorais, quando a provocação, o conflito e a performance passam a disputar espaço com a discussão sobre projetos e propostas.
Não se trata de comparar simplesmente música e política, mas de observar como um formato de comunicação pública pode ser desgastado quando a audiência passa a ser mais importante do que aquilo que deveria estar sendo debatido.
Uma reflexão sobre festivais, televisão, política, espetáculo e democracia.
👉 Leia o artigo completo no Blog da Cultura:
Sobre o primeiro debate com os presidenciáveis, que não assisti ontem na Band, um paralelo com o que aconteceu com os festivais de música na década de 1960.
Causa-nos espécie como um candidato com a vida pregressa de Flávio Bolsonaro, e pela forma como se comporta na campanha — e, para completar, com o escândalo-bomba que estourou no dia de hoje —, ainda esteja com os atuais índices de preferência do eleitorado, ameaçando até ser eleito presidente da República.
Se fosse um candidato do PT, bastaria 10% de tudo o que esse candidato tosco e rastaquera fez e faz para os índices terem baixado à metade do que esta figura detém, fazendo da eleição um passeio neste domingo para o principal adversário.
O jornalista Moisés Mendes apresentou, com o comentário abaixo na manhã de hoje pelo facebook , uma das principais razões para isso.
Moisés Mendes
"Se o Brasil vivesse sob normalidade, a reportagem do PlatôBR sobre o filho ungido teria acabado com a candidatura do sujeito. O texto está sendo compartilhado pelos sites progressistas, mas não será lido nos jornalões. É assustador até para a extrema direita."
Essa opinião faz coro com o que escreveu, em 1904, o jornalista Joseph Pulitzer na revista acadêmica e política The North American Review:
"Uma imprensa cínica, mercenária e demagógica produzirá, com o tempo, um povo tão vil quanto ela mesma."
E assim, mais uma vez, voltamos à nossa velha cantilena — e à de muitos outros brasileiros.
O provável governo Lula 4 precisa dedicar uma atenção prioritária à questão da comunicação, tanto em termos da macropolítica como da micropolítica, do contrário não tem como essa país dar certo.
E se quiser saber como: Convide as melhores cabeças pensantes acerca da questão, e não são poucas..
A VIDA PRIVADA DE FLÁVIO BOLSONARO (antes de Jesus)
Página Anarcomiguxos VIII em 30/09/2026
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Disse tudo. A real crise é o quarto poder (imprensa) em conluio com o agro rentismo (que sempre foi de extrema-direita), sob as ordens do trumpismo.
Gonzaguinha escreveu “Pense N’eu”, música que Luiz Gonzaga gravou em 1984, numa parceria de pai e filho que carrega, por trás de uma aparente simplicidade, uma pergunta que continua atual: onde estamos, onde estaremos, se sorrindo ou se chorando?
A canção pede que alguém seja lembrado “vez em quando”, mas, à medida que avança, o pensamento deixa de caber apenas na relação entre duas pessoas e se abre para uma dimensão coletiva, para a gente, para o povo, para o país, para a esperança de fazer tudo melhor e para a ideia de união. É justamente esse movimento que me interessa recuperar agora, quando mais uma vez somos chamados a tomar decisões políticas que terão consequências para a nossa vida coletiva.
Por isso, talvez seja bom pensar n’eu, pensar em nós e pensar no país, não apenas durante o período eleitoral, mas também depois dele.
Pensar antes de decidir. Pensar enquanto decidimos. E continuar pensando, de vez em quando, naquilo que decidimos e nas consequências dessas decisões.
É com esse espírito que convido você a ler o texto abaixo. Não como uma tentativa de dizer em quem votar, muito menos como uma fórmula pronta para orientar sua escolha, mas como um convite para pensar sobre o que entendemos por política, que lugar atribuímos à cultura na construção da sociedade e que tipo de participação queremos exercer na vida pública.
Talvez uma das tarefas mais importantes de uma cultura democrática seja justamente esta: ajudar-nos a pensar antes de escolher e, sobretudo, não deixar que o pensamento termine no momento em que depositamos o voto na urna.
Porque democracia não começa e termina na eleição.
Ela continua quando acompanhamos o que os eleitos fazem, quando cobramos compromissos, quando participamos das decisões públicas, quando preservamos a memória das experiências vividas e quando procuramos compreender as razões pelas quais nossa sociedade toma determinados caminhos.
É nesse sentido que proponho a leitura deste texto:
Politizar a cultura, culturalizar a política
Há uma frase que, de tão simples, pode parecer apenas um slogan: politizar a cultura, culturalizar a política. No entanto, quando olhamos para a trajetória da Ação Cultural e para aquilo que vem sendo construído, registrado e debatido ao longo dos anos no Blog da Cultura, percebemos que ela pode ser mais do que uma frase de efeito. Pode ser uma chave para compreender uma determinada maneira de pensar e fazer cultura, política e participação social.
Mas é preciso começar por uma distinção. Quando falamos em politizar a cultura e culturalizar a política, não estamos falando de transformar a cultura em instrumento de propaganda partidária, nem de submeter a produção cultural aos interesses de governos, partidos ou candidatos. Estamos falando de política no sentido mais nobre da palavra, como espaço de construção da vida coletiva, de disputa democrática de projetos de sociedade, de participação nas decisões que afetam a comunidade e de reconhecimento de cada pessoa como sujeito de direitos.
É nesse sentido que a trajetória registrada pelo Blog da Cultura ganha importância.
O próprio Blog já fez uma síntese bastante direta dessa perspectiva ao afirmar: “Culturalizar a política. Politizar a cultura.” A formulação aparece associada à necessidade de aproximar processos de formação, pedagogias críticas, criação cultural e capacidade de incidência social e política. Não se trata, portanto, de acrescentar um pouco de política à cultura ou um pouco de cultura à política, mas de compreender que as duas dimensões estão profundamente relacionadas.
A cultura não acontece fora da sociedade. Ela nasce das relações sociais, das experiências, das memórias, dos conflitos, das esperanças e das formas pelas quais homens e mulheres procuram dar sentido à própria existência. Por isso, quando uma comunidade cria um cineclube, organiza uma apresentação teatral, preserva sua memória, realiza uma oficina de audiovisual, constrói um Ponto de Cultura ou participa de uma audiência pública, não está simplesmente fazendo cultura. Está também produzindo conhecimento, vínculos, consciência, pertencimento e capacidade de intervenção.
É aí que começa a politização da cultura.
Politizar a cultura é deixar de enxergá-la apenas como entretenimento, espetáculo, evento ou programação. É perguntar quem produz, quem acessa, quem decide, quem fica de fora, que memórias são preservadas, quais narrativas circulam, quais territórios são reconhecidos e que sujeitos conseguem transformar suas experiências em linguagem pública.
Uma política cultural, nessa perspectiva, não pode ser avaliada apenas pela quantidade de eventos realizados, pelo número de artistas contratados ou pelo volume de recursos movimentados. Essas informações são importantes, mas não esgotam a questão. É preciso perguntar também qual sociedade está sendo produzida por determinada política cultural.
É justamente esse deslocamento que aparece em diferentes momentos da trajetória do Blog da Cultura.
A discussão sobre a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, por exemplo, não se limita (ou deveria se limitar) à existência dos recursos ou à execução financeira. A preocupação recorrente é com a participação social, o controle público, a continuidade das políticas, o fortalecimento dos agentes culturais e a capacidade de transformar recursos temporários em processos permanentes de cidadania cultural.
Da mesma forma, a experiência dos Pontos de Cultura aparece não apenas como uma política de financiamento de iniciativas culturais, mas como possibilidade de organização social, formação, articulação em rede e participação. Em 2025, por exemplo, o Blog registrava a necessidade de discutir coletivamente a Lei Cultura Viva, a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, os mecanismos de participação e controle social e a própria organização da Rede Sergipe de Pontos de Cultura.
Isso é politizar a cultura.
Mas existe o movimento inverso: culturalizar a política.
Culturalizar a política significa compreender que a disputa política não acontece somente nos parlamentos, nos governos, nas eleições ou nos partidos. Ela acontece também no terreno dos símbolos, das narrativas, da memória, dos afetos, da identidade, da linguagem e do imaginário.
Uma sociedade não se transforma somente porque uma lei foi aprovada. Ela se transforma também quando as pessoas passam a enxergar sua própria história de outra maneira, quando uma comunidade reconhece seu patrimônio, quando jovens aprendem a produzir imagens sobre seu território, quando moradores conseguem narrar seus problemas, quando grupos historicamente silenciados conquistam espaço para dizer quem são e como querem ser vistos.
O audiovisual realizado com celular por jovens da periferia pode ser uma prática cultural, mas pode também se transformar em instrumento de leitura crítica do território. O próprio projeto da Ação Cultural registra explicitamente essa possibilidade ao definir o audiovisual como ferramenta para evidenciar problemas da comunidade e mobilizar discussões sobre direitos e políticas públicas.
É aí que cultura e política deixam de ser dois departamentos separados da vida social.
O cineclube pode ser espaço de fruição estética, mas também de conversa sobre a realidade. O teatro pode ser expressão artística, mas também exercício de leitura do mundo. A memória pode ser preservação do passado, mas também instrumento para compreender o presente. Uma mostra cultural pode apresentar obras, mas também criar encontro entre pessoas que dificilmente se encontrariam em outros espaços.
O Cineclube Realidade é um exemplo bastante concreto dessa concepção. O projeto articula sessões de cinema com rodas de conversa, oficinas de audiovisual, teatro popular, formação em educação popular, ação cultural e participação social.
Não é por acaso que a expressão educação popular, ação cultural e participação social tenha aparecido reunida no próprio projeto. Há aí uma compreensão de que essas três dimensões podem constituir partes de um mesmo processo.
A educação popular ajuda a compreender a realidade, a ação cultural cria possibilidades de expressão e criação, e a participação social permite que os sujeitos intervenham na realidade que ajudaram a compreender.
Essa relação aparece de forma ainda mais explícita no texto do Seminário de Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social publicado pelo Blog em setembro de 2026. Ali se afirma que uma oficina, um cineclube, uma apresentação artística, uma mostra cultural ou uma reunião comunitária podem constituir espaços de exercício da cidadania quando articulados a processos de formação e participação.
Essa talvez seja uma das formulações mais importantes para compreender o sentido de culturalizar a política.
Porque significa reconhecer que a política também pode aprender com os processos culturais, com a escuta, a criação coletiva, a diversidade, a memória, a capacidade de conviver com diferentes linguagens, a construção horizontal de conhecimentos e a valorização dos saberes produzidos nos territórios.
E, sobretudo, pode aprender que participação não é apenas estar presente em uma reunião ou votar em uma eleição. Participar é também produzir conhecimento, formular perguntas, criar propostas, disputar prioridades, acompanhar decisões, exercer controle social e construir coletivamente os sentidos daquilo que é público.
Nesse ponto, a trajetória da Rede Sergipe de Pontos de Cultura oferece outro exemplo. As reuniões registradas no Blog mostram uma preocupação que vai muito além da organização de eventos: discutir governança, formação, participação, comunicação, democracia cultural, controle social e capacidade de incidência.
O evento é importante, mas o que acontece antes e depois dele pode ser ainda mais importante. Quem participa da construção? Quem decide? Como as decisões são registradas? Como os resultados retornam para a comunidade? O que permanece? Que rede foi fortalecida? Que novos sujeitos apareceram?
Essas perguntas ajudam a distinguir uma política cultural baseada apenas na programação de uma política cultural baseada em processos de cidadania.
Talvez por isso a memória ocupe lugar tão importante nessa trajetória.
O próprio Blog reconhece sua função como guardião de parte da memória das políticas culturais, da gestão, da produção e da ação cultural em Sergipe. Em publicação de 2026, ao fazer um balanço de sua trajetória, identifica uma passagem da divulgação cultural para a reflexão crítica sobre a cidade, chegando à participação cidadã e à memória coletiva.
Essa passagem é reveladora.
Guardar memória também é fazer política, não a política partidária, mas a política como disputa sobre aquilo que uma sociedade considera digno de lembrar, preservar e transmitir às novas gerações.
Quando uma experiência desaparece porque ninguém a registrou, uma parte da história social desaparece com ela. Quando uma experiência é documentada, organizada e disponibilizada, ela pode voltar a ser interrogada, reinterpretada e utilizada por outras gerações.
Por isso, cultura digital também pode ser política de memória.
O Blog da Cultura é, nesse sentido, mais do que um arquivo de notícias. Ele funciona, ainda que de maneira incompleta e em permanente construção, como uma espécie de arquivo vivo de experiências culturais e políticas de Sergipe.
E talvez seja justamente aí que a ideia de politizar a cultura e culturalizar a política encontre sua expressão mais profunda.
Não se trata de escolher entre cultura e política, mas de superar essa falsa separação.
Porque uma política sem cultura pode até administrar recursos, organizar instituições e executar programas, mas corre o risco de perder a capacidade de compreender os significados, os afetos, as memórias e os imaginários que movem uma sociedade.
E uma cultura que se recusa a reconhecer sua dimensão política pode produzir obras, eventos e experiências importantes, mas corre o risco de não perceber as condições sociais que determinam quem pode criar, quem pode acessar, quem pode circular e quem permanece excluído.
Politizar a cultura é perguntar pelo poder que atravessa a cultura. Culturalizar a política é perguntar pela cultura que atravessa o poder.
Entre essas duas perguntas existe um vasto território de possibilidades.
É nele que podemos situar a Ação Cultural.
Uma organização que nasceu do encontro entre artistas, produtores culturais e educadores, que passou por dança, teatro, audiovisual, cineclube e hip-hop, que trabalhou com crianças, adolescentes e jovens das periferias, que participou da construção de redes e Pontos de Cultura e que mantém no Blog uma parte significativa dessa memória, não precisa inventar artificialmente uma teoria para justificar sua trajetória.
A teoria pode ser encontrada, em grande medida, nas próprias práticas.
Ela está na oficina que vira espaço de formação, no cineclube que vira roda de conversa, no audiovisual que vira ferramenta de leitura do território, na memória que vira instrumento de compreensão do presente, no Ponto de Cultura que vira espaço de organização comunitária, na audiência pública que deixa de ser mera formalidade e passa a ser espaço de disputa democrática, na rede cultural que procura não apenas existir, mas construir capacidade de incidência.
E está também no próprio Blog da Cultura, quando ele transforma acontecimentos culturais em perguntas sobre a cidade, a democracia, a memória e as políticas públicas.
Talvez seja por isso que politizar a cultura e culturalizar a política possa ser entendido não como uma palavra de ordem, mas como uma perspectiva de trabalho.
Uma perspectiva que recupera a política em seu sentido mais nobre: a construção coletiva da vida comum.
Uma política que não reduz o cidadão ao eleitor, uma cultura que não reduz o cidadão ao público e uma ação cultural que não reduz as pessoas ao papel de beneficiárias.
Porque, no final das contas, democratizar a cultura não é somente fazer com que mais pessoas tenham acesso aos bens culturais. É criar condições para que mais pessoas possam criar, interpretar, participar, decidir e transformar.
E talvez seja justamente isso que significa, no sentido mais profundo, politizar a cultura e culturalizar a política.
E depois da leitura, fica o convite que a própria canção nos inspira a fazer: não deixe esse pensamento terminar aqui. Leve-o para a conversa com os amigos, para a família, para os espaços de participação, para a decisão que cada um tomará nas eleições e, principalmente, para depois delas. Porque talvez a democracia precise menos de certezas definitivas e mais de cidadãos dispostos a pensar, repensar e continuar pensando, de vez em quando, sobre aquilo que fizeram, sobre aquilo que escolheram e sobre o país que estão ajudando a construir.
Pense n'eu
Pense n'eu
Pense n'eu quando em vez coração
Pense n'eu vez em quando
Onde estou, como estarei
Se sorrindo ou se chorando
Se sorrindo ou se chorando
Pense n'eu vez em quando
Pense n'eu vez em quando
Pense n'eu quando em vez coração
Pense n'eu vez em quando
Onde estou, como estarei
Se sorrindo ou se chorando
Se sorrindo ou se chorando
Pense n'eu vez em quando
Pense n'eu vez em quando
'To na estrada, 'to sorrindo apaixonado
Pela gente e pelo povo do meu país (olêlê)
'To feliz pois apesar do sofrimento
Vejo um mundo de alegria bem na raiz (vamos lá)
Alegria muita fé e esperança
Na aliança pra fazer tudo melhor (e será)
Felicidade o teu nome é união
E povo unido é beleza mais maior
Pense n'eu quando em vez coração
Pense n'eu vez em quando
Onde estou, como estarei
Se sorrindo ou se chorando
Se sorrindo ou se chorando
Pense n'eu vez em quando
Pense n'eu vez em quando
'To na estrada, 'to sorrindo apaixonado
Pela gente e pelo povo do meu país (olêlê)
'To feliz pois apesar do sofrimento
Vejo um mundo de alegria bem na raiz (vamos lá)
Alegria muita fé e esperança
Na aliança pra fazer tudo melhor (e será)
Felicidade o teu nome é união
E povo unido é beleza mais maior
Pense n'eu pense n'eu
Pense n'eu pense n'eu
Pense n'eu pense n'eu
Para continuar pensando
1. Refundação da Ação Cultural
Apresenta a concepção de Teixeira Coelho sobre ação cultural como criação das condições para que pessoas e grupos possam inventar seus próprios fins no universo da cultura. É a porta de entrada conceitual para toda a reflexão.
2. Pontos de Cultura: uma tentativa de mapeamento do Estado de Sergipe
Uma pesquisa que ajuda a compreender a experiência concreta dos Pontos de Cultura em Sergipe, suas dificuldades, seus impactos nas comunidades e os desafios para a organização em rede.
Mostra, na prática, como cinema, audiovisual, teatro e formação podem ser articulados à reflexão cidadã e à participação comunitária, particularmente junto a crianças, adolescentes e jovens do Bairro Industrial.
4. A questão da participação e controle social dos fazedores de cultura em razão da Política Nacional de Cultura Aldir Blanc
Coloca diretamente em discussão quem participa das decisões sobre as políticas culturais, como os representantes são escolhidos e quais condições são necessárias para que a participação e o controle social sejam efetivos.
5. Cultura, Educação Popular e Participação Social: Construindo Cidadania nos Territórios
É a formulação mais recente e talvez a que melhor sintetize a perspectiva apresentada no artigo: educação popular, ação cultural e participação social como dimensões de um mesmo processo de construção da cidadania cultural.
Ontem, domingo, 27/09, fui mais uma vez assistir ao documentário Gonzaguinha – Da Maior Liberdade no Cinema do Centro. E posso garantir: é da maior necessidade, para um povo que se vê mais uma vez em uma encruzilhada para escolher seu destino como nação — e não será a primeira vez. Foi assim em 2022, está sendo assim neste ano e, com a provável vitória de Lula, será assim novamente em 2030. Talvez com uma intensidade menor do que foi em 2022 e agora, a depender da prioridade a cultura, a educação e a comunicação popular , inclusive a cultura digital e a midia livre, em um provável governo Lula 4,
No caso de derrota do projeto civilizatório e soberano representado por Lula e de vitória do projeto de barbárie e recolonização representado por Flávio Bolsonaro, dificilmente o Brasil reunirá as condições para sair do abismo a que será lançado.
Mas, assistindo a Gonzaguinha e pensando ao final, para diminuir a intensidade desse sentimento de angústia e sofrimento que vivemos em 2022 e agora, reiteramos como uma mantra, será preciso uma real compreensão da importância da cultura, da educação e da comunicação popular para alcançarmos esse intento. E aqui, três medidas são urgentemente necessárias:
1) O apoio maciço, com orçamento, à democratização da produção e da circulação do audiovisual brasileiro. Muitos exemplos reforçam este apelo, como a incrível quantidade de bons filmes brasileiros que tem sido lançados nestes primeiros anos da retomada da democracia e do investimento em arte e cultura como realizado no governo Lula 3, mas é preciso mais. E, no caso da circulação, especial atenção à construção e manutenção das salas de cinema de rua, à criação e manutenção de cineclubes e ao reforço da divulgação do streaming público "Tela Brasil", em especial junto aos professores, estudantes e beneficiários dos programas sociais. No caso das escolas, uma atenção muito especial à exibição da nossa produção audiovisual, o que exige não apenas formação dos professores, desde a graduação, mas também investimento em salas e equipamentos de qualidade para exibição dentro das escolas e com protagonismo dos estudantes.
2) Retomada urgente do caminho de soberania digital, iniciado nos dois primeiros governos do presidente Lula, quando nem mesmo a palavra soberania estava na ordem do dia, mas, para além da retórica, os fatos correspondiam à ideia, lembrando Cazuza.
Dessa maneira, das ações micro, como o letramento digital, às ações macro, como a regulação das grandes plataformas e a construção de uma rede de internet soberana, com envolvimento do maior número de pessoas nessa discussão, faz-se urgente e necessário.
E, para isso, é preciso trazer para o centro do debate e das decisões ativistas e/ou pesquisadores que atuam de forma qualificada e engajada com a cultura digital — e temos mais de uma centena no Brasil.
De volta a Gonzaguinha - Da Maior Necessidade, em termos da motivação para assistir ao filme pela segunda vez, o que me levou a isso foi a forma como a diretora e a equipe do filme souberam captar os momentos difíceis de um tempo de ditadura, com tudo de ruim que isso pode significar — como a censura que atingia de forma ridícula jornalistas, intelectuais e artistas como Gonzaguinha, como é tão bem demonstrado no filme —, mas ao mesmo tempo a alegria de viver, de resistir, de burlar a tirania, de se divertir, em meio ao clima de perigo reinante. Enfim, personagem e filme que bem retrataram o espírito de um tempo.
E, para sintetizar com um pensamento bem formulado acerca da maior necessidade a que me refiro na introdução desta nota, trago o que afirmou o professor Romero Venâncio (UFS):
"Uma esquerda que não sabe organizar sua memória e aprender com a memória dos de baixo sofrerá num eterno presente e frustrará o futuro..."
Em um momento decisivo do processo eleitoral, um programa para a autonomia tecnológica do país, em busca do compromisso de candidatos nestas eleições.
Cultura Digital: O que foi, o que será.
Por Célio Turino.
Num poema político, a história interrompida de um Brasil-vanguarda. Software livre, jovens hackers, pontos de cultura. Um dos semeadores desta época reconstitui a efervescência das redes – hoje “fio partido” que precisa ser reconstruído.
O filme é apresentado como parte de uma retomada da memória recente do Brasil, ao lado de Anistia 79. O artigo chama atenção para o fato de o documentário transformar Gonzaguinha em personagem político e libertário e relaciona sua obra à necessidade de enfrentar a “crônica falta de memória” brasileira.
Um eixo importante é a música “Pequena Memória para um Tempo sem Memória”, utilizada como chave para pensar o filme e a própria disputa pela memória histórica.
2. “Por que assistir a cinebiografia sobre o genial Gonzaguinha: Da maior liberdade. Melhor doc. do Festival de Cinema de Gramado?”
Destaca a repercussão do documentário no 54º Festival de Cinema de Gramado, incluindo o Kikito de Melhor Longa-Metragem Documentário. A publicação reúne informações sobre o filme e várias músicas de Gonzaguinha, entre elas “Comportamento Geral”, “Pequena Memória para um Tempo sem Memória”, “Caminhos do Coração”, “E Vamos à Luta” e “É”.
O texto também coloca em primeiro plano a pergunta sobre que artista é Gonzaguinha para o Brasil de hoje, aproximando sua obra da memória política e cultural brasileira.
3. “Por que devemos lotar a sala Walmir Almeida / Cinema do Centro para assistir Gonzaguinha – Da maior liberdade?”
Apresenta Gonzaguinha como um dos principais artistas da geração dos festivais e reúne informações sobre sua trajetória, sua relação com a música de protesto e a ditadura.
Além da análise do filme, o artigo cumpre uma função de mobilização do público para o Cinema do Centro, chegando a informar sessões e também outras cidades brasileiras onde o documentário estava em cartaz.
4. “Dicas do Blog da Cultura para este sábado e domingo em Aracaju...”
Aqui Gonzaguinha aparece dentro de uma agenda cultural de fim de semana, com destaque para a exibição do documentário no Cinema do Centro. A publicação retoma a informação de que o filme recebeu o Kikito em Gramado e apresenta a crítica publicada no G1, que caracteriza Gonzaguinha como um artista político e libertário.
O texto articula o filme com Anistia 79 e com a ideia de que o cinema pode contribuir para combater a perda da memória histórica brasileira.
Uma publicação posterior
“(4) Lula na ONU e as músicas ‘Comportamento Geral’ e ‘É’ de Gonzaguinha como duas das 13 para pensar o Brasil que merecemos depois do dia 04 de outubro” — 23 de setembro de 2026.
Este texto já ultrapassa o filme propriamente dito. Gonzaguinha passa a ser utilizado como referência para pensar o Brasil contemporâneo, especialmente através de “Comportamento Geral” e “É”.