informações sobre ações culturais de base comunitária, cultura periférica, contracultura, educação pública, educação popular, comunicação alternativa, teologia da libertação, memória histórica e economia solidária, assim como noticias e estudos referentes a análise de politica e gestão cultural, conjuntura, indústria cultural, direitos humanos, ecologia integral e etc., visando ao aumento de atividades que produzam geração de riqueza simbólica, afetiva e material = felicidade"
terça-feira, 21 de setembro de 2021
*A COISA É MAIS FUNDA. UMA NOTINHA* - O Bolsonarismo é maior do que Bolsonaro.
segunda-feira, 20 de setembro de 2021
A VIDA E A VIDA DE PAULO FREIRE. NOTA SOBRE O CENTENÁRIO
“E no entanto, refaço minhas asas
Cada dia. E no entanto, invento amor
Como as crianças inventam a alegria.”
Hilda Hilst
Pelo menos desde 2013, o educador e filósofo Paulo Freire vem sendo atacado da maneira mais baixa e covarde como nunca visto nesse país. Xingamentos, impropérios, insultos vulgares, desrespeito à obra e acusações sem o mínimo fundamento... Quase tudo inicialmente orquestrado pelo astrólogo pé-na-cova Olavo de Carvalho e sua turma de discípulos. Uma gente desqualificada acadêmica e politicamente. Uma direita que vive de palavrões e ataques em redes sociais. Quando saem as ruas é para demonstrar o quanto são ignorantes, tolos e medíocres. Uma gente com baixa formação intelectual, ressentida e que ganhou visibilidade com o crescimento de um bolsonarismo selvagem e negacionista incomum na história do Brasil. Alguns intelectuais de renome nacional e internacional foram escolhidos de propósito por esta gente para se tornaram o bode expiatória da miséria intelectual deles. Mas, sem dúvida, Paulo Freire foi o mais atacado quase que diariamente que já conta quase uma década.
2021 seria o ponto mais alto dessa gente. Mas eles não contavam com a reviravolta da história e da força das ideias de Paulo Freire. Com a exposição diária das contradições e da incompetência completa do governo Bolsonaro, essa turminha ficou mais encolhida. Tá perdendo seu “mito” inventado nas brumas de uma “fakeada” e no esgoto de uma direita sem rumo e sem tradição. Queriam enterrar a obra de Paulo Freire no ano de seu centenário. O que ocorreu? Exatamente o contrário. As homenagens no mês de nascimento do educador (setembro de 2021) apareceram de todos os cantos e de várias formas: lives aos montes, Palestras, simpósios, cursos, encenações, documentários reexibidos, depoimentos, artigos, coletâneas... No Brasil, na América Latina... No mundo. A direita ficou sem discurso ou apenas requentando as ofensas de sempre e sem palanque. Não conseguiram deslegitimar a obra de Freire. A grande maioria dessa direita brasileira tem deficiência de leitura e de escrita. Mal sabe comentar um texto simples e jamais compreenderia uma obra como a: “Pedagogia do oprimido”. Obra refinada conceitualmente e que vem com um já clássico prefácio do gaúcho Ernani Maria Fiori que abrilhantou a obra de maneira incontornável. Temos nessa obra um inédito projeto pedagógico-político em que os de baixo retomam sua palavra e se tornam educandos, protagonistas, leitores do mundo... Em Paulo Freire, o oprimido tem a condição e a urgência libertadora. A educação em Freire faz do oprimido agente fundamental de transformação do mundo.
O projeto freiriano tá mais vivo do que nunca. Uma tradição de lutadores e lutadoras populares acordaram e avançaram na defesa da honra e da obra de Paulo Freire. Não se deixa companheiro para trás e nem à sorte dos lobos. MST, MTST, Universidades, Partidos de esquerda, grupos de Igrejas, educadores populares de todas as matizes, artistas, intelectuais de projeção nacional e internacional vieram na trincheira da batalha das ideias defender e rememorar a obra de Paulo Freire. Foi bonito e digno ver as redes sociais multiplicando textos, frases, comentários, indicações de leituras, fotos, charges, falas raras... Tudo em homenagem a Paulo Freire. O nome do educador pernambucano brilhou mais uma vez e como deve ser na trajetória de pessoas que deram sua vida a uma causa e a causa dos de baixo. Paulo Freire: o escritor, o educador (sempre), o gestor, o internacionalista... O amigo de Antonio Candido, Florestan Fernandes e Dom Paulo Arns... O marido de Elza Maria Costa (primeiro casamento) e Nita Freire (esposa dos últimos dias). A memória se fez justiça. Viva Paulo Freire.
Romero Venâncio (Professor de Filosofia na Universidade Federal de Sergipe)
Mais textos interessante sobre Paulo Freire aqui no blog.
quinta-feira, 16 de setembro de 2021
‘Paulo Freire: a prática da liberdade, para além da alfabetização”. Um exemplo, na Aracaju dos anos de 1980.
Um dos equívocos que atrapalhou maior difusão do pensamento de Paulo Freire no Brasil, foi a redução do seu significado a “método de alfabetização de adultos”, sem negar que isso foi um elemento bastante importante na trajetória do mestre, porém, quem se debruçar sobre os seus escritos e entrevistas em meio audiovisual, perceberá uma filosofia e uma pedagogia que oferece contribuições a uma série de ramos do conhecimento, além da própria filosofia e da pedagogia, também a comunicação, a cultura, a arte-educação, a saúde, a teologia, ao direito, ao serviço social, ao extensionismo rural, a economia solidária, a psicologia e etc..
Neste sentido, o livro do professor Venício Artur de Lima é uma ferramenta que vem em boa hora, e colaborará na ampliação da visão de muitos brasileiros sobre o legado de Paulo Freire. O que fica claro a partir do próprio nome ‘Paulo Freire: a prática da liberdade, para além da alfabetização”.
O professor Venício é um dos pioneiros no estudo da obra de Freire, enfatizando as relações com a cultura e a comunicação. Neste centenário de Paulo Freire, o livro é um convite a refletir sobre sua obra e os tempos atuais. O livro é fruto de uma coedição entre a Fundação Perseu Abramo e a Editora Autêntica. A versão digital está disponível no portal da @fpabramo https://fpabramo.org.br/publicacoes/wp-content/uploads/sites/5/2021/09/Paulo-Freire-web.pdf e os exemplares impressos são distribuídos pela @autenticaeditora https://grupoautentica.com.br/autentica/livros/paulo-freire-a-pratica-da-liberdade-para-alem-da-alfabetizacao/2013
Em Outubro também estaremos
lançando o livro “AMABA: O Esquecido Circulo de Cultura da Aracaju dos anos de1980" É um livro sobre práxis freireana no bairro américa, o qual foi também influenciada
na época por leituras do campo da Teologia da Libertação e dos estudos
culturais, em especial os ligados a ação
cultural, como é o caso de Teixeira Coelho, Edgar Rodrigues e Jorge Cláudio.
Sobre o conceito de práxis em Paulo Freire, vale a pena lermos a definição cunhada no artigo abaixo, da autoria de Sandra Maria Gadelha de Carvalho e Paulo Martins Pio
“A práxis em Freire remete à ideia de um conjunto de práticas visando à transformação da realidade e à produção da história. O que nos leva a crer que é sobre o tripé formado pela transformação de uma realidade injusta, pela transformação baseada na crítica dessa realidade e pelo seu conhecimento que Freire, a exemplo de Sánchez Vázqeuez (1977), elabora uma noção de práxis histórica e social.”
https://www.scielo.br/j/rbeped/a/zpsDMKRZvTM3BwNSZLb8Cqp/?lang=pt
Os dois trabalhos dialogam na medida em que o livro do professor Venicio desce a reflexão em camadas mais profundas acerca das relações existentes entre o trabalho de educação, cultura e comunicação, o que é apresentado no livro da nossa autoria com grande descrição, com seus avanços e dificuldades, assim como uma uma reflexão inicial, em alguns casos realizada no próprio calor dos acontecimentos.
sábado, 11 de setembro de 2021
Em Pré Venda o livro AMABA: O esquecido círculo de cultura da Aracaju dos anos 1980
Um livro para quem quer saber como esse país pode dar certo! Para ler depois de ouvir Go Back de Torquato Neto e Banda Titãs. Um livro para quem quer conhecer a filosofia e pedagogia de Paulo Freire em ação, para além do método de alfabetização! Um livro para quem quer conhecer uma experiencia de trabalho de base como sucesso! Um livro importante para o atual momento social, politico e cultural de um Brasil em transe!
O Lançamento do livro AMABA: O esquecido círculo de cultura da Aracaju dos anos 1980, acontecerá no dia 15 de OUTUBRO de 2021 (dia do professor), às 19 horas, no canal do livro no Youtube.
https://www.youtube.com/channel/UCVLN2_8Ikkavb5rPfVvbB1g/about
Clique, assista os conteúdos do canal e se inscreva no mesmo.
Com a diminuição satisfatória da pandemia do coronavírus, de olho na chamada variante delta, realizaremos lançamento no formato presencial em novembro ou dezembro de 2021 (data a confirmar).
O primeiro volume cobre os acontecimentos do período de 1983 à 1990 que tiveram o Bairro América como palco e cenário (luta contra a poluição da fábrica de cimento, abertura da Rua E, atualmente Rua Francisco Alves, urbanização e entrega de casas para os "invasores" do atual Conj. Res. Maria do Carmo, luta pela melhoria do transporte públic0, luta pela pavimentação das ruas e pelo saneamento básico, palestras educativas e cidadãs, arraial do Alto do Miolo, Semana de Arte, Grupo teatrais Aruanna e Pipiri, Grupo Capoeira Mocambo, Inicio do Projeto Reculturarte e etc..).
O segundo volume trará os acontecimentos que tiveram lugar no período de 1991 à 1996, com ênfase para o projeto Reeducação, Cultura e Arte (Reculturarte), o qual ampliou, aprimorou e consolidou o trabalho social-educativo com linguagens artísticas que já vinha sendo realizado desde o inicio da AMABA, ao mesmo tempo que inspirou algumas associações comunitárias ou de promoção humana a investirem em iniciativas semelhantes.
O preço do livro para a venda é 35 reais. Os interessados em fazer a compra antecipada junto com o segundo volume, terão direito a desconto nos dois volumes. Nesse caso deverá ser depositado R$60.00 na chave PIX zezitodeoliveira@gmail.com. Além do acréscimo de R$20.00 para cobertura de despesas com o correio, totalizando R$80.00. Cada volume fica custando então R$30.00.
Para quem quiser fazer o depósito em conta utilize: Opção 1 - Agência 0001 - Conta corrente 75253805-9 - Banco 0260 - Nu Pagamentos S.A (Nubank). Nome: José de Oliveira Santos.
Opção 2 - Banco do Brasil - Agência 1603-9 - Conta corrente 135811-1 - Banco do Brasil - Nome: Irene do S. Smith Correa.
O pagamento antecipado do segundo volume é para colaborar com um fundo financeiro destinado a cobrir as despesas com a produção do mesmo, tendo em vista a incerteza de um segundo edital como o da Lei Aldir Blanc ou semelhante. Agradeço imensamente a quem puder fazer assim.
Quem quiser comprar apenas o volume 1 nesse momento, acrescenta mais R$10.00 das despesas postais ao valor do livro que é R$35.00, perfazendo o total de R$45.00.
Quem comprar dois exemplares do volume 1 receberá um desconto. Os dois livros sairão por R$60.00, mais R$ 10.00 de despesas postais..
Após o lançamento virtual do livro em outubro, o mesmo estará disponível em livrarias de Aracaju e em outros pontos de venda que serão comunicados via redes sociais.
Quem realizar o pedido e 0 pagamento agora, meados de setembro e até outubro, receberá o livro no final de outubro e inicio de novembro.
O livro AMABA:Circulo de Cultura, também será publicado no formato e-book. O preço para a venda neste caso é R$20.00 . A partir de outubro estará disponivel na Amazon.
No Facebook e Youtube procure pelo nome Livro AMABA/Projeto Reculturarte, curta a página e se inscreva no canal.
No Instagram @acaoculturalse
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terça-feira, 31 de agosto de 2021
Zezito de Oliveira: Da intubação ao reconhecimento
Para encerrar nossa Domingueira, um exemplo de vida e de motivação. José de Oliveira Santos, o Zezito. Professor da rede estadual de ensino, recebeu esta semana o prêmio Destaque organizado por Jorge Lins, em homenagem a sua dedicação e incentivo à cultura nas escolas. Zezito ainda se recupera de uma das mais severas apresentações da Covid-19. Foram meses no hospital, da intubação para uma enfermaria e, por fim, a vinda para casa só conquistada sob a condição de uma equipe médica e homecare. Enquanto estava internado, perdeu a mãe para a covid-19, sem chances de despedidas. Zezito, que ainda se recupera, é daqueles brasileiros natos, não desiste nunca, sonha e se dedica em um dia ver um Brasil mais justo. Mereceu a homenagem e nós merecemos esta inspiração. Desistir? Nunca!
Narcizo Machado
domingo, 29 de agosto de 2021
NAMASTÊ: A ESCOLA-EMPRESA E O PROFESSOR GRATILUZ
Por Jornal GGN O jornal de todos os Brasis -23 de agosto de 2021
Por Plínio Gentil[1]
Do Coletivo transforma MP
Aqueles integrantes de carreiras jurídicas que, como eu, há décadas construíram também uma carreira como docentes nas faculdades de Direito, puderam perceber a virada da educação superior, de um direito para um serviço. O motor dessa virada foi a transformação da escola-instituição em escola-organização, ou escola-empresa, sem enraizamento social ou histórico, movida pelos ideais de gestão, controle, êxito e lucro, estimulada pela competição. Seu motivo é o que muitos chamam de reforma empresarial da educação, fruto de um movimento do capital internacional, a partir da década de 1990, que se voltou para a exploração da educação como mercadoria, impondo, sobretudo nos países periféricos, a lógica do Consenso de Washington.
Portanto era preciso padronizar os conteúdos escolares, formação de professores e critérios de avaliação, pois o capital trabalha com horizontes claros e odeia correr riscos. Assim vieram programas, diretrizes e recomendações de organismos supranacionais, cujas intenções declaradas eram melhorar a qualidade do ensino, acabar com a evasão escolar e democratizar a escola, “preparando os países subdesenvolvidos para um salto que os capacitaria a responder aos desafios do século XXI”. Todo esse palavrório representa, por óbvio, um eufemismo para edulcorar a exploração da educação como mercadoria no terceiro mundo, criando oportunidades para sócios locais, com a adesão, é claro, dos respectivos governos.
Mudado o ambiente escolar, muda também o perfil do professor. Educação converte-se em aprendizagem, o educador torna-se uma espécie de tutor. Assim, nesse novo cenário, a figura de um professor tarefeiro, sem empáfia nem glamour, vai substituindo, nas faculdades de Direito, aqueles doutores de antigamente, tornados professores mais por seus títulos que por suas qualidades para a docência. Mas, ao contrário do que se pode pensar, isso não representa evolução alguma: na verdade troca-se um problema por outro e o professor com algum brilho, capaz de provocar inquietação no aluno, continuará opaco e nivelado pela ditadura dos itens e planilhas de uma avaliação padronizada, que produz robôs tarefeiros, de quem apenas se pede o cumprimento das metas da organização, num horizonte em que a pesquisa instigante e a inútil igualam-se completamente.
Eis que, como uma subespécie do professor tarefeiro, surge o professor gratiluz. Dócil, feliz, acredita que é quase um sócio da organização escolar que o emprega. Convencido pela pregação neoliberal, acha que a ciência é neutra, acredita na imparcialidade das instituições e na sacralidade do direito. Na sua vida pessoal, se algo não lhe saiu bem, entende que foi por sua própria culpa.
O professor gratiluz é, ao mesmo tempo, uma vítima e um produto da reforma empresarial da educação, que formou a escola-empresa. Como não se sente pertencendo a uma categoria, dirige-se aos colegas sempre os chamando de ‘professor’, evitando intimidades. Sem o perceber, nega-lhes pessoalidade, reduzida a um crachá, e interdita o companheirismo. O fato de compartilharem o balcão da cantina e as exigências da coordenação e da secretaria não o faz sentir-se parte de um grupo que possa, em bloco, reivindicar alguma coisa, parecendo-lhe natural que qualquer questão há de ser tratada individualmente com a organização. Uma modalidade mais radical do professor gratiluz, ao referir-se a si mesmo, fala suavemente com os alunos na terceira pessoa do singular, neles projetando uma infantilização que reflete sua própria visão pueril do processo de ensino-aprendizagem. Um infantilismo produto, em parte, da própria organização, ao tratar alunos como clientes que não devem ser desagradados, especialmente com notas baixas e registro de faltas.
Na escola-empresa as demissões ocorrem fria e mecanicamente, nada mais significando, aos olhos do professor gratiluz, que uma reposição de peças numa engrenagem; tanto que, sobre os colegas descartados, esse professor, agradecido por sua sobrevivência, vai aderir a um pacto geral de silêncio. Demitidos e recém contratados não lhe despertam saudades nem júbilo e o professor gratiluz adestrou-se para não sentir emoções inconvenientes. Diferente do oportunista, que monta um negócio no entorno da escola-empresa, e do militarista assumido, que grita contra a universidade pública e os direitos humanos e apoia o escola sem partido, o professor gratiluz habita uma espécie de mundo esotérico, no qual uma relação entre energias cósmicas, fé e trilhas na mata faz todo o sentido. Seu repertório emocional externa-se em palminhas no grupo de whatsapp e saudações metafísicas em que esbanja gratidões e enaltece um mundo de luz, flores, pássaros e corações. Exalando uma humildade sem sentido concreto, escreve ‘namastê’ e clica enviar. Dessa maneira exterioriza um intimismo que só encontra espaço numa dimensão imaterial, contra o qual ninguém haverá de se insurgir, justamente porque situado para além de uma existência real.
Acata agradecido tudo que a organização lhe passa e, mesmo oprimido pela gradual e constante imposição de novas tarefas, espalha nas redes carinhas de contente e disponível. Ante a súbita obrigação de navegar em intrincadas plataformas, legendadas em inglês, que a reforma empresarial da educação introduziu, especialmente durante a pandemia do coronavírus, sente-se genuinamente feliz, quase orgulhoso, quando percebe que, depois de horas e horas não remuneradas diante do próprio computador, consegue dominar, mesmo precariamente, algo daquele universo virtual. O professor gratiluz vê oportunidade nesse aprendizado de outras tarefas e não uma nova modalidade de superexploração, graças à qual a organização economiza recursos, quer deixando de contratar, quer demitindo funcionários especializados.
Aceita integrar grupos e redes por meio dos quais será cobrado em tempo integral e em prazos exíguos, como uma espécie de Diário Oficial acelerado, sem limite de horas ou fins de semana. É a organização que, criando à sua revelia um e-mail institucional, lhe determina o lugar em que receberá correspondências, contrariando aquela regra da natureza de que é o morador quem fornece o endereço de sua casa. Para atender exigências dos medidores de qualidade das escolas, precisadas de bom nível no ranking, concordará em se inscrever em eventos pagos de seu bolso, assim como agrupar-se com colegas para uma pesquisa de duvidoso interesse científico, cuja publicação pagará para algum veículo parte dessa indústria da publicação que surgiu nas imediações da educação mercantilizada.
O professor gratiluz, totalmente de bem com a vida, não desenvolverá qualquer percepção estrutural dessa sua condição, nem de sua precariedade. Vendo profissionalismo nesse alheamento e proclamando-se apolítico, seguirá contente, como um profissional good vibes, que aprendeu a sentir-se parte da escola-empresa, ao invés da categoria laboral que integra. Insciente do papel que ele próprio poderia representar no antagonismo entre capital e trabalho, serve a um modelo em que vai aos poucos sendo substituído por plataformas de ensino, ou vídeo aulas, onde o que menos importa é justamente a figura do professor. Crente que seu mérito individual o distinguirá frente ao empregador, repudia qualquer sinal de vida associativa. É uma peça moldada pela escola-empresa, que o faz personagem de uma narrativa modernosa, destilada pela mídia corporativa. Assim, sua ínfima relevância para o modelo é adornada pela imagem de um colaborador, não mero empregado: um predestinado luminoso, dotado de tamanha grandeza, que não lhe fica bem ocupar-se com quinquilharias como acúmulo de funções ou reduções indiretas de salário e mais besteiras desse naipe.
A palavra namastê, em sânscrito, designa um sentimento de respeito obsequioso, e deve ser pronunciada com as mãos postas e uma ligeira curvatura de cabeça: isso possui um sentido real, apropriado a certas relações interpessoais nas culturas indiana e nepalesa. Fora de contexto, utilizada naquela dimensão metafísica em que o professor tutor tarefeiro gratiluz proclama aos céus a alegria de ser explorado, insistindo em se manter ingenuamente alheio a essa realidade, namastê representa o coroamento do sucesso, para o capital, da reforma empresarial da educação, que desmobiliza a reivindicação e deslegitima sindicatos e associações em sua luta secular por redução do abismo social entre a propriedade e o trabalho. Esse namastê dirige-se, na verdade, à escola-empresa, à qual é dito ‘eu humildemente me curvo e a saúdo’. Difícil, muito difícil, fazer cumprir-se dessa maneira o papel histórico da educação, incorporado no texto constitucional (art. 205), que é emancipar de toda opressão.
……………………………………..
[1] Professor universitário. Integrante do Grupo de Pesquisa Educação e Direito (UFSCAR)
segunda-feira, 2 de agosto de 2021
Lembrando o bem viver com o LP Em Canto lançado em Sergipe no ano de 1993 em Propriá.
A transmissão na tarde do sábado, 31/07/2021, do encontro musical de celebração dos trinta anos do lançamento do LP Em Canto, reavivou a memória de muita gente espalhada Brasil a fora que tiveram contato com esta obra, além de alguns países do exterior.
O trabalho de Zé Vicente e Babi Fonteles foi lançado em um
momento bem difícil para nós
brasileiros, com muitas semelhanças com o momento atual. Lembro de ter
visto o LP pela primeira vez em uma manhã de segunda feira na sede da
Associação dos Moradores do Bairro América (AMABA).
Naquele tempo, ano de 1993 , a AMABA era o cenário e palco
principal de um intenso trabalho de arte-educação popular, um trabalho
social-educativo com linguagens artísticas realizado com crianças e
adolescentes de um importante bairro da periferia de Aracaju.
O LP me foi apresentado por Emanuel Rocha, então coordenador
geral do Projeto Reculturarte (Reeducação, Cultura e Arte), o qual foi
acompanhado até a cidade de Propriá, por sete pessoas,
entre jovens como ele e adolescentes, todos educadores do Reculturarte, além de educadores e militantes de organizações e movimentos sociais de Aracaju, alguns nascidos em Propriá, e um amigo residente
na cidade baiana de Camaçari, Francisco Glória, educador popular que veio se
encontrar com a caravana de Aracaju rumo ao show Em Canto em Propriá.
Nessa cidade havia um
bispo católico progressista, Dom José Brandão de Castro, em atuação desde a década de 1960, isso favoreceu
bastante a presença de Zé Vicente, Babi
Fonteles e as canções do Em Canto.
Quando soube da disposição dos educadores do Reculturarte em
participar do show de lançamento em Propriá fiquei muito feliz, porque como um dos
fundadores e dirigente da AMABA, assim como um dos principais idealizadores do Projeto
Reculturarte, sempre busquei conhecer pessoas e iniciativas socioculturais
semelhante a proposta do Reculturarte, assim como favorecer o mesmo aos
educadores do Reculturarte. O que não era tão fácil em nosso entorno, tendo em vista não haver iniciativas semelhantes em
Aracaju e cidades próximas, salvo por um
período curto de tempo no inicio dos anos de 1960 com o trabalho desenvolvido
pelo Movimento de Educação de Base (MEB), mas que as perseguições da ditadura civil-militar de 1964 e as disputas
ideológicas internas da igreja católica levaram
ao fim no final dos anos de 1960 e apagamento de uma parte significativa da memória.
Clique em cima das frases em azul para ter acesso a mais informações.
Zé Vicente. Quem é este cantor
Livro AMABA/Projeto Reculturarte no facebook
No ano de 2020 recolhendo material documental para a escrita do livro sobre a AMABA/Projeto Reculturarte, chegou até minhas mãos um conjunto de fotografias que avivou a memória pessoal acerca do lançamento de Em Canto em Propriá. Estas fotografias chegaram em minhas mãos por intermédio de Crécia Paixão, uma das adolescentes que estiveram presentes ao acontecimento.
Também vieram fotografias da participação de Emanuel Rocha e Maria Cleia no Curso de Inverno em João Pessoa na Paraíba. Cleia veio a ser sua
namorada e esposa. Fez parte da equipe de educadores do Reculturarte, tendo infelizmente falecido no ano de 2005, após ter dado importante
contribuição para o sucesso das oficinas culturais, atividades educativas e
mostras culturais do projeto.
Foi no Curso de Inverno no inicio da década de 1990,
destinado a formação integral de educadores, agentes culturais e religiosos
ligados a teologia da libertação, todos com atuação em comunidades que Emanuel
e Cleia tiveram o primeiro contato com Zé Vicente e sua arte, assim como a arte
de outros artistas populares ligados as comunidades eclesiais de base e a
iniciativas culturais de base comunitária.
Em meados da década
de 1990, também me recordo em Recife ,
ter participado com imenso prazer de uma coreografia com uma das músicas
emblemáticas de EnCanto, “Companheira”, organizada por um grupo de mulheres
residentes em Fortaleza, tratava-se de um seminário/oficina acerca da questão de gênero, organizado para
um publico misto de educadores (as) populares na linha do mesmo espirito dos
Cursos de Inverno na Paraíba. A promoção foi do Centro Nordestino de Animação
Popular (CENAP).
Ouça aqui as canções de Em Canto
Em 23 de setembro de 2005, cantei “Companheira” junto com
Rosângela Souza, ex-educadora do Reculturarte, na missa de sétimo dia do falecimento
de Maria Cleia.
Junho de 91.
Era inverno no litoral
A banda juvenil “Flor da Pele”
Meninos lindos, plenos de audácia e alegria!
Ana Diniz, a Bisquí, presente
A vocês, cambada querida,
Noite adentro,
Coisas da vida!
Tem mais gente se “em cantando”
Luis Carlos Fonteles e tantos outros
Nossos queridos Zé Maria, Lúcia, Durval, Geosa
E sussurramos ao coração:
A hora exige













