domingo, 28 de maio de 2023

A esquerda brasileira não entendeu a mensagem da Teologia da Libertação (série - trabalho de base 3)

Toninho Kalunga - Ex-vereador do PT em Cotia. Foi coordenador Estadual de Formação Política do Diretório Estadual do PT/SP. Cristão católico ligado aos Orionitas no Santuário São Luís Orione

O PT abriu mão da formação de base, abriu mão dos núcleos de base, abriu mão da relação com os movimentos que ousavam questionar a governabilidade

Uma das razões - entre tantas outras - que explicam a dificuldade da esquerda brasileira em compreender o fenômeno da votação da extrema direita, é o afastamento da esquerda das bases religiosas. Até aqui, a esquerda consegue chegar e até reconhece isso. Mas não consegue avançar a partir desta premissa. 

Então, como não compreendem, também não conseguem associar, que o afastamento destas bases, que foram fundamentais na organização dos primórdios do PT e nesse sentido, das esquerdas no pós golpe de 1964, geram um vácuo no alicerce entre a esquerda e a organização popular nas periferias, deixando uma estrada livre para a direita “pintar e bordar”, como dizia minha amada avó. 

Então, quem não é ligado a essa questão, faz valer uma visão estereotipada e generalista sobre evangélicos e católicos, deixando de enxergar que os religiosos têm uma relação umbilical com a organização popular nas periferias e que, sem eles, não se consegue mobilizar as massas populares, no campo e na cidade. 

Após o surgimento do PT, todos os outros partidos de esquerda, que nasceram das entranhas do PT, como exemplo o PSTU em 1992 e o PSOL em 2005 são casos clássicos do afastamento desta relação com a religiosidade. Com a diferença de que o PSOL tem uma nova geração que vem retomando, com muita qualidade, o contato com a religiosidade do povo, haja vista a presença de lideranças como o Pastor Henrique Vieira no Rio de Janeiro, várias lideranças jovens em São Paulo e o engajamento político de muitos militantes da PJMP (Pastoral da Juventude do Meio Popular) no norte e nordeste e PJ (Pastoral da Juventude) no sudeste brasileiro, além da identificação com as religiões de matizes africanas. 

Para compreender isso mais claramente, a última geração religiosa formada no PT, que ocupa cargos de direção nas instâncias partidárias ou tem cargos eletivos, é uma geração formada nos anos 90, portanto, tem entre 45 e 55 anos de idade. As outras lideranças que fazem parte da fundação do PT e são as mais expressivas, têm entre 55 e 75 anos de idade, logo foram formadas entre os anos 60 e 80 do século passado. 

Ou seja, a partir dos anos 2000, o PT, ao mesmo tempo que se distanciou dos católicos, não conseguiu se aproximar dos evangélicos e de quebra não conseguiu renovar suas lideranças que compunham o campo religioso do partido. 

A tão necessária governabilidade foi um dos fatores mais relevantes para esta situação. Ao final do governo Lula 2, a popularidade dos governos do PT eram tão altas que era comum ouvir lideranças do partido dizer que a relação com a sociedade não dependia mais de organização religiosa ou movimentos populares. Era uma relação direta do governo com o povo. Deu no que deu. O PT abriu mão da formação de base, abriu mão dos núcleos de base, abriu mão da relação com os movimentos que ousavam questionar a governabilidade.

Aliás, para muitos, em nome desta governabilidade movimentos populares como o MST e MTST, ao agir para reivindicar direitos ocupando fazendas ou prédios abandonados, “atrapalhavam o governo”. O mesmo acontecia com sindicatos, particularmente dos servidores públicos e dos trabalhadores rurais. Basta ver a situação do sindicalismo brasileiro para entender as consequências desta visão política. Pois, estas mesmas lideranças fizeram acreditar que os ganhos - que foram reais - do poder de compra dos salários dos trabalhadores e a melhoria de vida “da soleira pra dentro” (lembram dessa frase) das casas, seria o suficiente para que a classe trabalhadora reconhecessem o PT como sua proteção integral. 

O que não percebiam, embora tenham sido avisados, é que no campo religioso, desde o primeiro governo de Lula, setores conservadores da extrema direita, jamais deixaram de atacar, mentir e usar a fé do povo como instrumento de luta política. As fake news contra o PT, com relação a um suposto comunismo, fechamento de Igrejas entre outras sandices, jamais teve respostas no campo da formação de base do PT. Havia respostas indignadas contra a mentira que religiosos perpetuam desde o início do século XIX, mas formação de base, não. 

Retomar esta discussão sobre a importância de dialogar com os setores religiosos da sociedade é, então, uma das tarefas mais importantes que o PT e os partidos de esquerda precisam fazer para combater o bolsonarismo reinante entre os mais pobres, que são as mais afetadas pela falta de políticas públicas e assim desmascarar as falsidades dos religiosos que agem como fariseus, vendendo o povo para os poderosos. 

Para isso, é necessário ouvir coletivamente e não apenas indivíduos. O PT precisa fazer o que o Papa Francisco está fazendo. Um processo de escuta. Para superar essas visões individualistas, é necessário ouvir o conjunto dos religiosos, que vão desde os militantes de base, passando pelos simpatizantes e chegando aos que são contrários ao PT ou à esquerda, dando ênfase particularmente à juventude que está inserida no meio religioso. 

As gerações religiosas dos anos 70,80 e 90, que militam no campo de esquerda, tem uma visão de mundo e por consequência da Igreja, que já não existe mais. Nem aquela Igreja, nem aquele mundo. Portanto, também não temos mais “aquele PT”. Aliás, o próprio comunismo se reformulou, haja vista, o sistema econômico chinês. 

Curiosamente, o Papa atual é mais “progressista” até mesmo que parte da base progressista da Igreja e tem mais coragem em enfrentar os conservadores da Igreja em discussões como da diversidade sexual e temas como Terra para os agricultores, Teto para as famílias e Trabalho para os pobres e é o mais eloquente defensor de sair deste lugar comum de demonizar o suposto comunismo que não existe mais.

Diante deste diagnóstico, pelo lado da Sé Romana neste mesmo período, passou Igreja Católica, os Papas João Paulo II e Bento XVI, que em razão de suas experiências pessoais que testemunharam os horrores das guerras em solo europeu, decidiram combater com a mesma ênfase com que combateram o comunismo ditatorial do Leste Europeu, combate as CEB´s no Brasil e a Teologia da Libertação na América Latina. 

Então a premissa - que é verdadeira - que o mundo que existiu nos anos 70 e 80, não existe mais, o mesmo se aplica e deve ser ouvido também pela Igreja, pois CEB´s, CEBI, CJP, Pastorais Sociais, como Pastoral da Ecologia Integral, do Menor, da Criança, Carcerária, da Terra, da Mulher Marginalizada, dos Negros e Negras e tantas outras, são a base mais coerente que esta Igreja tem com o Evangelho, que leva e levou necessariamente a defesa dos direitos dos trabalhadores e excluídos, ontem e hoje e continuará assim, no amanhã.

E esta é uma tarefa de esclarecimento e educação política que cabe aos setores de formação da esquerda como um todo e do PT em particular, em compreender, estudar e formar no sentido de combater a mais duradoura fake news política que temos na América Latina. Eis aqui, outra premissa cristã. Onde há escuridão, que se leve à luz.

O PT, que foi fruto desta Teologia da Libertação, tinha uma proposta clara para responder os anseios do povo brasileiro tendo como uma de suas bases, a religiosidade do povo. A Teologia da Libertação continua firme e se atualizou. 

O PT, neste ponto, ainda não. A TdL inseriu e aprofundou temas como Ecologia Integral, mundo do trabalho, economia solidária, inserção da diversidade religiosa e acolhimento da diversidade humana, nos campos da moralidade, sexualidade, conceitos de evolução e vem dialogando cada vez mais nas dimensões das periferias geográficas e humanas do nosso povo, inclusive para além do cristianismo, e assim tem aprendido com a teologia indigena, africana e oriental, buscando assim o amor universal, pois como diz a canção de Taizé:

“Onde reina amor, fraterno amor.

Onde reina amor, Deus aí está”.

O PT e sua direção, por alguma razão, com suas raras e essenciais exceções, em algum momento entendeu que não precisava mais destas reflexões da tridimensionalidade humana, onde o intelecto, a matéria e a fé se juntam. Acabou ficando na dependência do centrão com seu setor religioso venal e corrompido dos valores mais elementares do Evangelho e de todas as religiosidades do nosso povo, que buscam compreender e se comprometer com essa tridimensionalidade. 

O que substituiu isso foi a promessa da obscuridade trazida pela teologia da prosperidade, que tem como resultado um povo passa fome porque seus pastores e lideranças se transformam em lobos.  

O efeito político e religioso do encontro de Lula com o papa

https://www.dw.com/pt-br/os-efeitos-pol%C3%ADticos-e-religiosos-do-encontro-entre-lula-e-o-papa/a-52373604

Para saber mais sobre Teologia da Libertação mediada pela sétima arte, recomendamos a live abaixo:

LIVE CINEMA E INTERPRETAÇÃO DO BRASIL

A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO NO CINEMA. SOBRE QUATRO FILMES

- Frei Tito. Marlene França, 1983

- Igreja da libertação. Silvio Da-Rim, 1985

- Igreja dos oprimidos. Jorge Bodanzky, 1986

- Fé/Pé na caminhada. Conrado Berning, 1987

Com Romero Venâncio (UFS)

29/5. Segunda. as 19h. no Instagram romerojunior4503

KONRAD BERNING & A VERBO FILMES. UMA MEMÓRIA DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Konrad Berning foi missionário, comunicador, profeta e parceiro das grandes causas dos excluídos da América Latina. "Verbita" (Congregação religiosa que fez parte) de pura cepa, ele viveu os últimos anos e faleceu na cidade de Münster, Alemanha. Por coincidência, o mesmo local onde estudou e foi ordenado Na Congregação do Verbo Divino, família à qual ele pertenceu. Konrad trabalhou diocese de Santo Amaro, SP, e por lá viveu por muitos anos e alavancou muitos sonhos que se fizeram realidade em imagens e vozes que alimentaram a caminhada da Igreja no Brasil, na América Latina e no mundo ao longo dos últimos 40 anos. Ele soube detectar, selecionar e ir ao encontro de tantas vidas que se colocaram a serviço de uma Igreja construtora do reino da justiça, da verdade e da paz, conforme o impulso dado pelos padres conciliares durante o Concilio Vaticano II. Ao longo de sua vida Konrad mostrou-se um missionário Brasileiro e Latino Americano (nascido na Europa) que partilhava em forma de imagens e vozes, a paixão e o vigor da Igreja na América Latina pós Vaticano II. Animado pelo espirito do Concilio e pelas recomendações dos Capítulos Gerais da Congregação do Verbo Divino e pela teologia da libertação demonstrou seus talentos de educador e comunicador já no inicio de sua missão em Curitiba e Foz do Iguaçu como formador e vigário paroquial.

A "Verbo Filmes" foi fundada em 1979 por Konrad Berning que tinha formação na Academia de Cinema da Alemanha. Konrad dirigiu a produtora até 1994, sendo ganhador de vários prêmios nacionais e internacionais, com os filmes de longa-metragem produzidos em 35 mm : "Pé na Caminhada", "Ameríndia" e "O Anel de Tucum". Em 1994 a direção da produtora ficou a cargo do cineasta e missionário verbita, Cireneu Kuhn. A grande variedade de produções da Verbo Filmes tem alcançado um lugar de destaque no âmbito das comunidades eclesiais, das dioceses e das escolas, pela alta qualidade técnica e pelo bom conteúdo de seus produtos. Dom Ivo Lorscheider, então presidente da CNBB, no dia da fundação da VF aconselhou: “... procurem criar e evangelizar com imagens nossas, do Brasil e da América Latina; com imagens que o povo entenda e assimile com facilidade, em vez de trazê-las de fora e simplesmente traduzi-las”.  

Hoje, segunda,  29 de maio de 2023, as 19h. no Instagram romerojunior4503 teremos uma live sobre A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO NO CINEMA onde voltaremos a falar da "Verbo Filmes" como produtora fundamental no trabalho popular da Igreja católica no Brasil... Será uma homenagem a Konrad Berning.

sábado, 27 de maio de 2023

Da série: Falar em necessidade de trabalho de base é fácil..... (2)

O desafio é fazer muitos da esquerda entender o quanto de energia em forma de conhecimentos, tempo, recursos financeiros, pacîência e etc., serão necessários para melhorar este cenário.. Tudo que não foi feito há tempos atrás ou que foi realizado com pouca energia...

terça-feira, 5 de abril de 2022

Falar em necessidade de trabalho de base é fácil, mas fazer.....

 Para surgir um vigoroso e permanente movimento de massas é necessário um trabalho de base de anos, feito por um grupo insistente de pessoas com muita confiança no porvir...

Não é uma ação educativa e politica realizada por gente que espera resultados de curto prazo, e expressos em votos para àqueles que doam a vida em prol do povo mais pobre, excluído, marginalizado.



O SOPRO DIVINO EM NÓS! A maravilhosa crônica dominical do Chico Alencar acrescido com canções e missa do Pe.Júlio Lancellotti

Chico Alencar

Escritor, professor e deputado federal eleito com 115.023 votos (PSOL-RJ)

(Breve reflexão para crentes ou não)
Hoje celebra-se a festa de Pentecostes. A palavra vem do grego e quer dizer "quinquagésimo". Estamos no 50º dia após a Páscoa, cujo ciclo se encerra hoje, no calendário litúrgico das maiores igrejas cristãs.
O Antigo Testamento relata comemorações de Pentecostes (ou Dia das Primícias dos Frutos) relacionadas ao fim da colheita (em gratidão pela comida que sustenta) e também por Moisés receber, após a travessia do deserto, saindo da escravidão dos faraós do Egito, as Tábuas da Lei (Dez Mandamentos).
No Brasil, a tradição popular, vinda da colonização portuguesa, celebra a Festa do Divino Espírito Santo, que se encerra hoje. É um festejo, em diversas cidades, cheio de cores, tambores, canções, barraquinhas de comes e bebes e orações. Em louvor ao Espírito Santo, simbolizado pela pomba branca da Paz.
Importa muito, porém, sabermos como temos recebido o dom divino que nos habita - e, tantas vezes, fica embotado, escondido, abafado.
João conta, no seu Evangelho (20, 19-23), a chegada de Jesus entre os discípulos (amedrontados, com as portas fechadas), "no anoitecer do primeiro dia da semana". O Ressuscitado lhes saúda com o terno desejo de Paz e sopra sobre eles: "recebam o Espírito Santo".
Trata-se do Espírito da Vida: a inspiração, o entusiasmo (Deus dentro de nós), a luz, o êxtase com o dom maravilhoso de existir, o imanente encharcado do transcendente, "a eternidade penetrando nas artérias do tempo" (Emmanuel Mounier, 1905-1950). Espírito da percepção do "universo num grão de areia" (Walt Whitman, 1819-1892).
Somos todos... pentecostais, isto é, aptos a receber o Espírito que arrebata, anima, nos convoca a viver em plenitude - como a formiguinha do caminho, como a flor que, em botão ou desabrochada, se oferece, como a estrela no céu.
Espírito da integridade: "para ser grande, sê inteiro, nada teu exagera ou exclui. Põe o quanto és no mínimo que fazes" (Fernando Pessoa, 1888-1935).
Deixa o Espírito entrar, parceira(o)! São as línguas de fogo que nos dão o dom das línguas, da compreensão, da comunicação com o diferente - dons não para acumular, entesourar, mas para distribuir!
Dons da paciência, da generosidade, da fome e sede de Justiça! Da mística que nos conduz à ânsia de igualdade!
Espírito (ânima, alma) que nos coloca na luta em defesa dos pequeninos (como nossos irmãos indígenas atacados em seu direito de ser o que são em suas terras - cf site www.pl490nao.com.br) e dos biomas ameaçados (como, agora, a Mata Atlântica). Por direitos e trabalho digno para tod@s!
Recebamos os dons do Espírito: sabedoria, entendimento, fortaleza, conselho (discernimento), ciência, piedade (humildade e solidariedade) e amor a Deus - indissociável do amor ao próximo.
Deixemo-nos invadir pelo que dá alegria e sentido à vida! Charles Beaudelaire (1821-1867), propondo a "heroicização da vida cotidiana", na sua boemia e na inspiração de sua poesia, recomenda: "Perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que roda, a tudo o que canta e fala (...) e eles vos responderão: 'é hora de vos embriagardes! Para que não sejais os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, ao vosso gosto!' ".
Viva o espírito do Divino Espírito Santo em nós! Saiamos em missão, por um mundo transformado "em festa, trabalho e pão"!











SIMONE ☆ BANDEIRA DO DIVINO com IVAN LINS, JORGE VERCILO e ZIZI POSSI ☆ DVD CANTANDO HISTÓRIAS








sábado, 27 de maio de 2023

Da série: Falar em necessidade de trabalho de base é fácil..... (2)

O desafio é fazer muitos da esquerda entender o quanto de energia em forma de conhecimentos, tempo, recursos financeiros, pacîência e etc., serão necessários para melhorar este cenário.. Tudo que não foi feito há tempos atrás ou que foi realizado com pouca energia...


AS BASES DE CONSTRUÇÃO DA BARBÁRIE CONTEMPORÂNEA EXPRESSA POLITICAMENTE COMO NEOLIBERALISMO E NEOFASCISMO

alienação cultural, fundamentalismo religioso  e alto consumo de drogas, tanto faz se legais ou ilegais.  Logo o entorpecimento mental é uma realidade, não apenas fisico. E para tratar e curar , haja "Canção da Redenção" 

https://www.youtube.com/watch?v=XzEJdfDbkZE





O que fazer? Lenin escreveu um livro no inicio do século com este título. Depois, Gramsci também nos ajuda a refletir... E segue a sucessão de autores da esquerda marxista que se detiveram no problema... Mas o tempo passou e a esquerda roots ou raiz não consegue mais juntar tanta gente como antes e quando consegue não consegue prosseguir. Por que? Uma canção nos dá a dica.. 






  • O desafio é fazer muitos da esquerda entender o quanto de energia em forma de conhecimentos, tempo, recursos financeiros, pacîência serão necessários para melhorar este cenário.. Tudo que não foi feito há tempos atrás ou que foi realizado com pouca energia...

Papa Francisco: a Igreja precisa da arte de poetas e escritores

Francisco, reunido com os participantes de uma conferência da revista italiana 'La Civiltà Cattolica' e da Universidade de Georgetown, dos Estados Unidos, exorta os narradores engajados em várias frentes de criatividade a sugerir visões que "ajudem a ler o mistério da vida humana": não deixem que a imaginação seja domada, ela ajuda o homem a sonhar.

Manoel Tavares - Vatican News
O Papa Francisco recebeu na manhã deste sábado, 27, no Vaticano, os participantes de um congresso promovido pela revista italiana “La Civiltà Cattolica” e a Universidade de Georgetown, dos Estados Unidos. A audiência contou com a presença, inclusive, do cineasta e produtor norte-americano, Martin Scorsese, e família.
A literatura que conduz à contemplação

Em discurso, Francisco ser dirigiu a poetas, escritores, roteiristas e diretores de várias partes do mundo que participam do evento em torno do tema da “imaginação poética e inspiração católica”. Com a iniciativa, disse o Papa, os participantes refletiram sobre os modos de como a fé questiona a vida contemporânea, buscando responder à “fome de sentido”.

Aqui, o Papa disse que, em sua vida, gostou de muitos poetas e escritores, entre os quais, de modo particular, Dante, Bloy, Dostoiévski e outros. Com seus alunos do Colégio da Imaculada Conceição, em Santa Fé, na Argentina, teve a oportunidade de compartilhar suas leituras ao ensinar literatura. E acrescentou:

“As palavras dos escritores ajudaram-me a entender a mim mesmo, o mundo e meu povo; mas também a perscrutar o coração humano, minha vida pessoal de fé e a ação pastoral, e, agora, também meu ministério petrino. Por isso, a palavra literária é como um espinho no coração, que nos impele à contemplação e indica o caminho.”

A importância de sonhar

Partindo desta sua experiência pessoal, Francisco compartilhou com os presentes algumas condirerações sobre a importância do seu serviço ministerial. A primeira é: “vocês são os olhos que veem e sonham. Logo, não olhar somente, mas também sonhar”.

A esse respeito, citou um escritor latino-americano que dizia: “temos dois olhos: um de carne e outro de vidro. Com o da carne, olhamos o que vemos; com o de vidro, olhamos o que sonhamos. Coitados de nós se deixarmos de sonhar”! E o Papa explicou:

“O artista é o homem que, com os olhos, vê e sonha ao mesmo tempo; vê mais a fundo, profetiza, anuncia um modo diferente de ver e compreender as coisas, que estão diante dos nossos olhos. Na verdade, a poesia não fala da realidade a partir de princípios abstratos, mas observa a realidade, como o trabalho, o amor, a morte e tantas outras coisas da vida.”

A Igreja precisa da arte

Neste sentido, afirmou o Papa, ajuda-nos a “entender a voz de Deus, também a partir da voz do tempo”. E, citando Paul Claudel, disse: “vocês são um olho que escuta. A arte é um desafio à nossa imaginação, ao nosso modo de ver e compreender as coisas. O próprio Evangelho é um desafio artístico, uma carga 'revolucionária' que vocês são chamados a expressar, graças ao seu gênio. Hoje a Igreja precisa do seu gênio”!

A seguir, Francisco compartilhou um segundo pensamento: “vocês representam a voz das preocupações humanas. Vocês sabem que a inspiração artística também é inquietante, porque apresenta as realidades belas e trágicas da vida, de ontem e de hoje, como as guerras, conflitos sociais, nosso egoísmo pessoal”.

Daí, o Papa exortou os presentes a “ultrapassar as fronteiras fechadas e definidas, com criatividade”. Eis o trabalho dos poetas e artistas: dar vida e formar o que o ser humano vê, sente, sonha, sofre, criando harmonia e beleza. Esta é uma obra evangélica, que nos ajuda a compreender melhor também Deus, como o grande poeta da humanidade. Enfim, o Santo Padre propôs um terceiro ponto de reflexão:

“Vocês são os que moldam nossa imaginação. Hoje, precisamos do gênio de uma nova linguagem, de histórias e imagens fortes, de escritores, poetas, artistas capazes de anunciar ao mundo a mensagem do Evangelho, que nos faz ver Jesus.”

O Papa concluiu seu discurso, recordando o desafio da imaginação católica do nosso tempo, que nos é confiado: “não dar explicação sobre o mistério de Cristo, que é inesgotável, mas tocá-lo, senti-lo, e transmiti-lo como uma realidade viva, apreendendo a beleza da sua promessa, que ajuda a nossa imaginação de encarar a vida, a história e o futuro da humanidade de uma maneira nova!".

Crianças e jovens da Paraíba apresentam espetáculo para o papa Francisco

Os jovens estão em turnê pela Europa com espetáculo que trata de ecologia e arte baseado numa Encíclica do Pontífice

Polyanna Gomes

Brasil de Fato PB| João Pessoa | 27 de Maio de 2023 às 11:44

Jovens do CEFEC Marcos Moura reunidos com Papa Francisco - Divulgação - @baimadanca


Na ultima quarta-feira (24), um grupo formado por 21 crianças e jovens do bairro de Marcos Moura, da cidade de Santa Rita (PB), participaram de um encontro com o papa Francisco, na Praça de São Pedro, no Vaticano.

Na ocasião, o grupo que veio do CEFEC, o Centro de Formação Educativo Comunitário de Marcos Moura, apresentou para o papa um pouco das danças que fazem parte do espetáculo Espaço da Vida na Terra, 'Laudato si': um espetáculo de ecologia e arte, que trabalha como base um texto em defesa da Amazônia e da cultura dos povos originários e que divulga o tema da ecologia integral.

O espetáculo leva o nome de uma encíclica do papa e tem como diretor, coreógrafo e roteirista o jovem maranhense, que hoje é educador no CEFEC de Santa Rita, Rodrigo Baima.

“Esse espetáculo pertence ao CEFEC, e traz o que esse centro nos proporciona que é a dignidade na vida de tantas crianças e jovens, o centro é um misto de emoções, é sobre dignidade humana”, afirma o diretor.

Rodrigo Baima conta que para a construção do espetáculo viajou para a Amazônia buscando ter contato e referências etnográficas para deixar o espetáculo mais fidedigno. "Eu viajei quatro vezes para a Amazônia, especificamente para a cidade de São Gabriel da Cachoeira, considerada a cidade mais indígena do Brasil, para buscar entender aspectos e identidades desses povos originários, além da Amazônia, o 'pulmão amazônico' que me deu inspiração para construir esse espetáculo, que possui dois atos e traz nele identidades e marcas num misto de teatralidade, história, dança, percussão, abarcando toda nossa brasilidade", explica. O espetáculo contou com vinte pessoas, entre jovens e crianças de 11 a 20 anos. 

De acordo com Rodrigo Baima, o encontro foi realizado através de uma ponte com a documentarista italiana e diretora de cinema, Lia Beltrami.  Os jovens e crianças levaram os instrumentos para a praça de São Pedro, onde não só se apresentaram para o papa, mas também para milhares de pessoas do mundo todo ali presentes.

"Uma curiosidade sobre isso é que diante de todo o histórico papal, é a primeira vez que um grupo de brasileiros – e esse de paraibanos – se apresentou na praça de São Pedro, e ali estava o mundo inteiro acompanhando as nossas manifestações artísticas, a dança afro-brasileira e também a capoeira, que faz parte da nossa identidade", disse Rodrigo Baima. 

O diretor conta ainda que os jovens estavam bem entusiasmados e o papa demonstrou muita afetividade e alegria em recebê-los. “Todos ficamos muito emocionados, e muitas jovens choraram de alegria em ver o papa Francisco, ali, perto da gente, somos do Marcos Moura e, mesmo diante dos desafios, conseguimos transmitir força e superação através da arte, a arte que é libertadora e transforma vidas”, completou  Rodrigo. 

O diretor ainda conta que o Papa Francisco já o recepcionou sabendo seu nome e que isso mostra o carinho e a dignidade que o papa deu aos jovens de Marcos Moura. 

Após a apresentação, o pontífice se dirigiu aos jovens para cumprimentá-los. “Que bonito e que força ver tantos jovens dançando alegres. Vocês não cansam? (Risos) Continuem porque é muito bonito, jovens com essa vida, essa força, esse entusiasmo”, disse o papa. Baima ainda contou que o papa abençoou o grupo de paraibanos e presenteou cada jovem com um rosário. 

“É uma marca que entra para nossa história, é muito emocionante porque o papa mesmo debilitado – ele está com um problema no quadril e usando cadeira de rodas – fez questão de levantar e disse 'quero tirar uma foto com vocês', e ainda teve a gentileza de abraçar cada jovem ali; nossa comunidade está em festa, Marcos Moura está radiante porque jovens da comunidade estiveram com o papa, eu soube que as pessoas comentam em todo canto, nas praças, nas ruas, no café da manhã...”, afirmou o jovem.

FESTIVAL DE CANNES

Rodrigo Baima é também protagonista do filme-documentário Amazonia. The Space of Life on Earth,  dirigido pela italiana Lia Beltrami que contará a trajetória de vida de Baima. O documentário tem previsão de ser lançado em janeiro de 2024 e, Rodrigo e Lia Beltrami estiveram em Cannes, na França, no Festival de Cinema, para divulgar o trailer da produção. 

"O filme é baseado na história da minha vida, mas perpassa pela história de tantos meninos e meninas que tiveram uma vida muito parecida com a minha, porque eu sou fruto, fui educando da instituição (CEFEC) e me formei, cresci, hoje sou educador, coreógrafo, diretor, e dou este exemplo que através da arte podemos transformar vidas", afirmou Rodrigo.

Em Cannes, o grupo e a diretora estiveram reunidos com a ministra dos Povos Originários, Sonia Guajajara, e também com o ator Leonardo Di Caprio. "Algumas cenas não posso destacar, mas em breve teremos mais informações e já adianto que o lançamento será feito em Santa Rita, no bairro do Marcos Moura, com a presença da equipe toda do filme, dos italianos produtores", conta Baima.

SOBRE O CEFEC

O Centro de Formação Educativo Comunitário (CEFEC) promove atendimentos educativos, sociais, preventivos e profissionais a crianças, adolescentes, jovens e adultos em situação de risco e vulnerabilidade social. Está situado na Rua Gov. João Agripino, s/n – Jardim Carolina, Marcos Moura, Santa Rita-PB.

O Centro já atendeu aproximadamente 10 mil crianças, adolescentes, jovens e famílias, bem como promoveu a formação de diversos educadores sociais, tornando-se assim, um núcleo necessário à promoção da comunidade.

Surgiu a partir da necessidade de dar uma resposta contra a violência, abuso e exploração sexual, exploração do trabalho infantil, entre outros fatores contra os princípios humanos e tem por finalidade a Promoção e Defesa da vida.

Para conferir mais informações sobre o espetáculo, acesse as redes sociais @baimadanca / @laudatosi.espetaculo

 Fonte: BdF Paraíba

https://www.brasildefato.com.br/2023/05/27/criancas-e-jovens-da-paraiba-apresentam-espetaculo-para-o-papa-francisco?fbclid=IwAR3snd5gEt8dD0tIr-Bi5G5atnhYYbZ-xGwJg1kgZUyPoe_PbbYF_bLMewk

Edição: Cida Alves

O Brasil encanta o Papa na Audiência Geral com dança e capoeira

Leia a cobertura do Vatican News..


Ação Cultural, Esportiva e Social do Papa Francisco com a Juventude. Leia o arquivo do blog

Enciclica Laudato Si no arquivo do blog

https://www.youtube.com/watch?v=z6u7ebQ3k2E


PAN-AMAZÔNIA ANCESTRAL

https://www.youtube.com/watch?v=PLsAtfUGcHU


Assista quando puder.....

https://www.youtube.com/watch?v=RTe_HmiELNk






sexta-feira, 26 de maio de 2023

Retirãncia - A PAIXÂO DE TITO

 Peça teatral sobre Frei Tito 

Amigos e amigas, convido para participarem da apresentação da peça "A paixão de Tito", com o ator Gabriel Cavalcante, que recorda a vida do meu confrade Tito de Alencar Lima. Será na igreja de São Domingos, rua Caiubi, 164, nesta sexta-feira dia 26 de maio, às 19h30. Não percam!

A peça será reapresentada na Escola Nacional Paulo Freire, rua São Daniel, 119, Ipiranga, neste sábado dia 27 de maio, às 16h00. Aproveitem para visitar e conhecer a Escola Paulo Freire. Não percam!

Frei Betto








RESISTÊNCIA

Sakamoto: torturado, frei Tito foi perseguido por fantasma de delegado Fleury até sua morte

Torturador e sádico, delegado Sérgio Fleury foi responsável pela morte de frei Tito

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'Minha vida, ninguém tira, é minha. Eu a estou entregando', diz Frei Tito que se tornou símbolo de resistência. - Reprodução

Importante investigação do UOL, publicada no dia 14 de junho, revelou 24 casos de presos políticos que foram internados pela ditadura militar em instituições psiquiátricas, a grande maioria após ser vítima de tortura pelo regime.

Torturas que levavam a alucinações, confusão mental, depressão profunda, ideias suicidas. Torturas, aliás, que continuam sendo aplicadas nas periferias e nos grotões do campo pelos herdeiros daquela violência estatal.

Frei Tito não foi internado em um manicômio judicial, como as histórias contadas nessa reportagem, mas é um caso emblemático de como a tortura pode "quebrar" uma pessoa por dentro, levando-a à loucura, até que ela resolva por fim à própria vida.

Leia também: De Fleury para Frei Tito: SP troca nome de rua de torturador por torturado na ditadura

O cearense Tito de Alencar Lima foi encontrado enforcado no dia 10 de agosto de 1974, durante seu exílio na França, como consequência da tortura que sofreu pelas mãos dos agentes da ditadura militar brasileira.

Em 1969, ele foi um dos religiosos dominicanos presos pelo torturador Sérgio Paranhos Fleury, delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Os religiosos haviam sido acusados de apoiar as ações da resistência contra a ditadura. O calvário de Tito, da prisão ao suicídio, tornou-se um dos símbolos da luta contra o autoritarismo.

Para entender pelo que ele passou, nada melhor do que resgatar suas próprias palavras. Abaixo, um trecho do seu testemunho à Justiça Militar, em 1969, em que conta como foram as sessões de tortura, que faz parte de ação movida pelo Ministério Público Federal contra torturadores:

"Na quarta-feira, fui acordado às 8 horas, subi para a sala de interrogatórios, onde a equipe do capitão Homero me esperava. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, ou recebia cuteladas na cabeça, nos braços e no peito. Neste ritmo prosseguiram até o início da noite, quando me serviram a primeira refeição naquelas 48 horas. (?)

Na quinta-feira, três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão, cercado por uma equipe, voltou às mesmas perguntas. 'Vai ter que falar, senão, só sai morto daqui', gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça: era quase uma certeza. Sentaram-me na 'cadeira de dragão' (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos e na orelha esquerda.

 

A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse decompor.

 

Da sessão de choques, passaram-me ao pau-de-arara. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo sangrando e todo ferido, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me à outra sala, dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse 'antes de morrer'. Não chegaram a fazê-lo.

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Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatórias. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais: tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais. Restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos."

'Minha vida, ninguém tira, é minha. Eu a estou entregando'

O francês Xavier Plassat, frei dominicano, membro da Comissão Pastoral da Terra e residente no Brasil há mais de três décadas, foi a última pessoa a ver Tito com vida antes do suicídio. Algum tempo atrás, ele me fez um relato daqueles últimos dias e das feridas nunca cicatrizadas de Tito deixadas pela tortura:

"Convivi com frei Tito na comunidade dominicana de L'Arbresle, na França. Foram duas primaveras, dois verões, mas um só outono e um só inverno. Ele com seus 27 anos e eu, meus 23. Ali, surgiu entre nós uma relação feita de cumplicidade e de amizade, de sorrisos e de raivas, de luta e de fé, enfrentando o [Sérgio Fernando Paranhos] Fleury, que, por dentro do Tito, continuava sua tortura destruidora, partindo-lhe a alma entre resistência e desistência.

Resistência era quando Tito formava projetos, tocava violão, abraçava o amigo, brincava com as crianças, rezava, sorria. Desistência era quando obedecia cegamente à intimação alucinante da voz que atormentava sua mente sem parar, fugindo para onde mandava que fosse, ou afundando-se em impenetráveis prantos ou desesperados silêncios.

Lembro como se fosse ontem: o dia era 11 de setembro de 1973. As rádios anunciavam o golpe de Pinochet. Ao chegar de longa viagem, achei Tito prostrado e gemendo ao pé de uma árvore, no estacionamento frente à portaria de La Corbusière, nosso convento.

Assim estava desde cedo. Ninguém entendia seu choramingo incessante e assustador. Sentei e fiquei ao lado, horas a fio, procurando abrigar o amigo da chuva intermitente. Pelas altas horas da noite, a duras custas, incrédulo, eu comecei a perceber do que Tito tremia e a quem implorava por piedade: era o Fleury, vociferando em (imaginário) alto-falante localizado do outro lado do vale.

Enquanto torturava um após o outro cada um dos seus irmãos, ele bradava insultos contra o Tito: 'comunista, traidor, terrorista, a igreja te jogou fora, você não pisará mais neste chão sagrado, não há mais como tu escapar de mim'. Enquanto ele não se entregasse, continuaria a tortura da família por inteiro: os dez irmãos, o pai, a mãe. E Tito, o caçula, escutava soluços dos seus, entre gritos e imprecações. Desse dia em diante, Tito pendularia entre o entregar-se e o resistir, como que acuado entre as paredes deste novo 'corredor polonês': morrer vivendo, viver morrendo.

Desse dia em diante, Tito pendularia entre o entregar-se e o resistir, como que acuado entre as paredes deste novo 'corredor polonês': morrer vivendo, viver morrendo.

Cumpria-se a louca promessa que recebeu durante as sessões reais de tortura. Em suas próprias palavras, em depoimento: Quiseram-me deixar dependurado toda a noite no pau-de-arara. Mas o capitão Albernaz objetou:

'Não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia'

Até que um dia (era em agosto de 1974, na semana de São Domingos), Tito resolveu livrar-se definitivamente do torturador e da loucura que este pretendia infundir-lhe. Neste instante longamente preparado, num último mistério de resistência e de fé, Tito derrubou lhe a pretensão de poder continuar, dia após dia, roubando a sua vida.

Melhor morrer do que perder a vida. Opção 1: corda (suicídio, Vejube). Opção 2: tortura prolongada, Bacuri', foram umas das últimas palavras que rabiscou no papel. Entendi assim: minha vida, ninguém tira, é minha. Eu a estou entregando. Prova de amor, maior não há. Se os discípulos se calarem, as próprias pedras gritarão."

Entendi assim: minha vida, ninguém tira, é minha. Eu a estou entregando. Prova de amor, maior não há. Se os discípulos se calarem, as próprias pedras gritarão."

'Devo confessar que não acredito que sejamos da mesma raça humana'

Em 1977, três anos depois do suicídio de Tito, a Ação Cristã pela Abolição da Tortura (Acat), organização internacional com presença em vários países, escreveu a 20 policiais brasileiros que torturavam sob a justificativa de defender o Brasil em nome da fé cristã.

Aliás, era muito comum haver crucifixos em salas de tortura. Sim, faz 44 anos, mas parece hoje.

O advogado Guy Aurenche, presidente da Acat França na época, escreveu um texto este ano sobre as cartas. Segundo ele, elas denunciavam a prática dos torturadores e afirmavam que o vínculo com a fé cristã era um completo escândalo.

Tentaram usar argumentos questionando seu comportamento pessoal, frisando que também os viam como seres humanos, capazes de amar seus filhos, ou como crentes. Trago alguns trechos do texto de Aurenche:

"Contra todas as expectativas, recebemos uma resposta do delegado Fleury, o carrasco de Tito, datada de 9 de novembro de 1977. A carta começava com comentários insultuosos denunciando nossa fé, bem como nossa pretensão de defender os direitos humanos. 

O delegado Fleury nos contou uma história que dizia ter lido em um livro e de que gostou muito: 'Uma águia estava chocando ovos e dos ovos saíram pintinhos. Desesperada, ela foi tentada de devorá-los. Após reflexão, a compaixão prevaleceu, na esperança de que um dia, do batalhão de galinhas míopes e cacarejantes, surgisse uma águia para acompanhá-los'.

Fleury se comparava à águia que defende a população brasileira contra as ameaças do comunismo internacional. A história foi escrita por Wilhelm Reich, um autor de origem alemã que se refugiou nos Estados Unidos, descrevia os mecanismos nazistas de superioridade e desumanização. Aos 30 anos e a 8 mil km de distância, o nazismo habita.

O pós-escrito desta carta é o mais fascinante: 'Devo confessar que não acredito que sejamos da mesma raça humana (quero dizer a raça dos homens)', escreveu Fleury. Em qualquer ato de tortura ou desumanidade, expressa-se a ideia de que a vítima não é mais um ser humano, mas um delinquente, um oponente político, um herege.

Em qualquer ato de tortura ou desumanidade, expressa-se a ideia de que a vítima não é mais um ser humano, mas um delinquente, um oponente político, um herege.

O rótulo colado nessa pessoa permite que o torturador a 'torça', já que ela está desumanizada.

Para Fleury, os membros da Acat, assim como as pessoas que ele torturava, não eram mais humanos. Eles pertenciam a uma sub-raça. Assim, tornou-se possível desprezá-los, torturá-los sem escrúpulos e sem hesitação.

'Não consigo, até agora, entender de onde vinha tanto, tanto ódio'

Durante as sessões de tortura realizadas no 36º Distrito Policial (local que abrigou a Oban (Operação Bandeirante) e, posteriormente, o DOI-Codi, na capital paulista), durante a ditadura, os vizinhos do bairro residencial do Paraíso reclamavam dos gritos de dor e desespero que brotavam de lá. As reclamações cessavam com rajadas de metralhadora disparadas para o alto, no pátio, deixando claro que aquilo continuaria até que o sistema decidisse parar. Mas o sistema não parava. O sistema nunca para por conta própria.

A tortura firmava-se como arma da disputa ideológica. Era necessário "quebrar" a pessoa, psicologicamente e fisicamente, pelo que ela era, pelo que representava e pelo que defendia. Não era um ser humano que sofria cada pancada. Era um "sub-humano" impuro, que trazia uma visão de mundo que precisava ser destruída junto com ele. Ainda hoje, Maria Aparecida Costa tenta entender o que ocorreu. "Tinha mais alguma coisa. Claro que a justificativa era ideológica. Mas tinha mais alguma coisa."

"Porque eles sentiam prazer de verdade no que faziam. Prazer de verdade em torturar."

A noite de Cida Costa, cuja história já contei aqui outras vezes, durou três anos e meio, dos quais dois meses torturada naquele local. "O ódio. Eu não consigo, até agora, entender de onde vinha tanto, tanto ódio."

O Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna DOI-Codi era integrado por membros do Exército, Marinha, Aeronáutica e policiais. E a metodologia desenvolvida durante aquele período e a certeza do "tudo pode" continua provocando vítimas em outras delegacias espalhadas pelo país e nas periferias das grandes cidades.

Muitos dos carrascos, como Fleury, não acreditavam simplesmente estar em uma guerra. Se assim fosse, haveria protocolos internacionais proibindo o que foi feito. Achavam estar em uma missão. O que havia nas celas era, para eles, a representação do mal. E sua missão era extirpar o mal.

Tal qual ouvimos hoje: que há pessoas ou grupos que representam o mal e precisam ser extirpados. Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo e, em seguida, à ignorância sobre o outro. Ignorância que não é fruto de um vazio de sentidos, mas de uma construção repleta de preconceitos.

Décadas depois, há quem tente provar que a história se repete sim, não como farsa, mas como delírio. Pois Cida é torturada todos os dias no Brasil sob outros nomes, crenças, gêneros ou cores de pele. Normalmente, jovens, negros e pobres. Sub-humanos. E Tito morre novamente e novamente, "suicidado" como consequência de tortura de agentes do estado, "suicidado" em celas e camburões, "suicidado" em comunidades e assentamentos de todo o país.

Já o torturador Fleury foi encontrado morto em 1979, aos 45 anos. Especula-se que foi "queima de arquivo", pois estaria ganhando dinheiro de empresários e com o crime organizado, não respondendo mais às estruturas de poder. Se vivesse hoje, seria.