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O documentário “Uma história de silêncios”, produzido pelas estudantes Ísis Leites Regina, Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos, do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foi um dos três trabalhos reconhecidos pelo 15º Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, projeto liderado pelo Instituto Vladimir Herzog.
O filme discute como o nazismo, banido e condenado internacionalmente após a Segunda Guerra Mundial, fez e faz parte da história de Santa Catarina. Após encontrarem quadros com a bandeira nazista expostos no hall da Secretaria de Educação de Dona Emma – município com cerca de 4 mil habitantes, localizado no interior do estado –, as estudantes perceberam que parte dos moradores naturalizaram o passado local e decidiram entrevistar autoridades e moradores da região para entender esse fenômeno.
As cidades Dona Emma, Timbó e Ibirama, no Alto Vale do Itajaí, são o foco da produção, que envolveu mais de sete horas de entrevista, apesar de poucos moradores estarem dispostos a falar sobre o assunto na região. Por que o assunto tem ressurgido? Como o jornalismo deve cobrir casos nazistas em uma região que evita relembrar o passado? O documentário tenta trazer à tona essas questões, orientado pela pauta proposta pelo prêmio: “A banalização do nazismo em cidades do interior de Santa Catarina e os desafios enfrentados pela cobertura jornalística destes casos”.
O material produzido pelas estudantes foi orientado pela professora Stefanie Carlan da Silveira, com mentoria da jornalista e documentarista Bianca Vasconcellos. A produção está disponível no canal do Youtube do Instituto Vladimir Herzog e pode ser acessada aqui.
O prêmio
A entrega dos prêmios aos participantes ocorreu na última segunda-feira, 23 de outubro, no Itaú Cultural, em São Paulo (SP). Durante a cerimônia foram exibidos três minidocumentários, resultantes de pautas relacionadas ao tema “Novas e velhas lutas: qual o papel do jornalismo na reconstrução do Brasil?”. As três melhores propostas, dentre elas a do curso de Jornalismo da UFSC, foram selecionadas pelo Instituto Vladimir Herzog e receberam uma bolsa e orientação de jornalistas profissionais.
O prêmio é uma homenagem ao jornalista Fernando Pacheco Jordão, que sempre se preocupou com o desenvolvimento dos jovens profissionais de imprensa. Falecido em 2017, Pacheco Jordão atuou na redação de importantes veículos da imprensa nacional, incluindo emissoras de rádio, de televisão e jornais de circulação nacional.
Uma história de silêncios: a banalização do nazismo em cidades do interior de Santa Catarina
Em “Uma História de Silêncios”, adentre o passado nazista escondido nas sombras da região colonizada por alemães no Alto Vale do Itajaí, Santa Catarina. Nos últimos anos, casos associados à ideologia ganharam destaque na mídia e, hoje, o estado lidera o avanço do neonazismo no Brasil. Por que o assunto tem ressurgido? Como o jornalismo deve cobrir casos nazistas em uma região que evita relembrar o passado? O documentário tenta trazer à tona essas questões, quebrando um silenciamento histórico.
Quem são os outros? Por isso, volto ao pedido da criação de um fundo a ser criado com a participação de centrais sindicais, abong, MST, parlamentares de esquerda, ICL e etc., para criar uma plataforma destinado a denunciar e registrar os votos dos parlamentares contrários aos interesses da classe trabalhadora e dos segmentos vulneráveis e marginalizados da população brasileira....
Zezito de Oliveira
Outra pergunta? E como deve estar se sentindo àquele militante do movimento negro que anos atrás apresentou argumentos a favor do voto em Laércio de Oliveira?
Esses são os senadores que são CONTRA inclusão e igualdade e votaram pela EXTINÇÃO das cotas raciais para pessoas com deficiência.
Morador do Rio revela extensão do poder das milícias no estado
“Até a água que a gente bebe é determinada, às vezes, pela milícia. É muito complicado, complicado até de falar. É um silêncio que parece calma, mas é medo”, disse ele
25 de outubro de 2023, 04:17 h Atualizado em 25 de outubro de 2023, 04:19
Agência Brasil – “O transporte público sendo queimado é só a ponta de um problema gigantesco que a gente vive na zona oeste”, diz um morador* desta região do Rio de Janeiro onde 35 ônibus e um trem foram queimados na segunda-feira (24) pela maior milícia do estado. Ele conta que, no dia a dia, paga mais caro por itens como galões de água e botijão de gás, além de não poder escolher serviços de internet ou de TV a cabo, sendo obrigado a contratar aqueles que são controlados pelas milícias.
“Até a água que a gente bebe é determinada, às vezes, pela milícia. Eu posso comprar no raio da minha casa por um valor. Se eu trabalho em outro bairro mais distante, e lá for mais barato, eu não posso levar para onde eu moro por risco de sofrer alguma violência. Eles impactam muito o ir e vir das pessoas. É muito complicado, complicado até de falar. É um silêncio que parece calma, mas é medo”, afirma.
Na segunda-feira, os veículos foram queimados em reação à morte de Matheus da Silva Rezende, o Faustão, ligado à milícia e que foi morto pela polícia. A reação do crime organizado é considerada pela Rio Ônibus o maior ataque à frota da cidade já realizado em um único dia. A ação, classificada de terrorista pelo governo do estado, chamou a atenção para as milícias, cujo domínio cresce no Rio de Janeiro.
Atualmente, cerca de 20% da área da região metropolitana do Rio de Janeiro é controlada por algum grupo armado, e as milícias dominam metade dessas áreas, conforme o Mapa dos Grupos Armados, lançado nesta terça-feira (13), em uma parceria do Instituto Fogo Cruzado com o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, da Universidade Federal Fluminense (GENI-UFF). Em 16 anos, as áreas dominadas pelas milícias cresceram 387%.
De forma geral, as milícias são grupos paramilitares formados tanto por servidores públicos da área de segurança quanto por civis da área de segurança. Segundo o professor José Claudio Sousa Alves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, as milícias desenvolvem-se a partir dos grupos de extermínio, que se formaram a partir dos anos 1990. As relações foram se tornando mais complexas e, de acordo com Alves, há acordos de milícias inclusive com facções do tráfico. Não se trata de uma única milícia, são grupos que inclusive rivalizam entre si. Por terem surgido de dentro do estado, são organizações que guardam proteção e influência tanto dentro das forças de segurança quanto na política.
Para Alves, os ataques aos veículos mostram a amplitude das áreas sob domínio de tais organizações, que “vêm crescendo e aprofundando a capacidade de atuação e estão sendo capazes de alterar o cenário muito rapidamente, de fazer alianças e continuar com estrutura de poder”. “O poder miliciano está muito mais amplo e muito mais penetrado na estrutura social e geográfica de todo esse eixo da Zona Oeste, de Santa Cruz, Recreio, Barra, passando todos esses territórios, manifestando o seu poder agora, poder muito mais consolidado”, acrescenta o professor.
Aumento da violência
A tensão nos territórios controlados por esses grupos prosseguiu nesta terça-feira. “Enquanto a gente está falando, a polícia está passando. É tensão que não cessa. Estão mandando o comércio fechar. Os comerciantes, além de pagar sobretaxa, sofrem violências, e esse tensionamento agora interfere na vida econômica das famílias. Quem tem comércio, quem vende um lanche, quem tem sorveteria, uma coisa pequena, está fechado neste momento. Bem cruel a nossa vida nesse cenário”, diz o morador da zona oeste.
A apreensão permanece no dia a dia, quando as pessoas precisam pagar uma taxa mensal para que seja feita a segurança local. “As pessoas das casas pagam taxa mensal de segurança, que a gente não sabe que segurança que é, na verdade. É o inverso disso. Pagam uma taxa para não sofrer uma violência de quem lhes cobra.”
Dados do Instituto Fogo Cruzado mostram que o número de mortos a tiros na zona oeste mais do que dobrou, registrando aumento de 127% de 2022 para 2023. De janeiro a outubro deste ano, foram 248 mortes, contra 109 no mesmo período de 2022. O número de tiroteios aumentou 55%: foram 475 de janeiro a outubro de 2022, e 737 de janeiro a outubro de 2023.
De acordo com o instituto, as chacinas também dispararam. Foram quatro chacinas entre janeiro e outubro de 2022, que deixaram 12 mortos. No mesmo período deste ano, foram oito casos, com 50 mortos. Enquanto, em 2022, houve uma chacina policial, com três mortos, em 2023, foram oito chacinas policiais, com 28 mortos.
Segundo o coordenador do Instituto Fogo Cruzado no Rio de Janeiro, Carlos Nhanga, a relação entre a milícia e o Estado é o que mais dificulta o combate a esses grupos. “O fato dela estar intrinsecamente ligada ao Estado hoje é o maior problema do enfrentamento às milícias e ao crime organizado como um todo. Você tem agentes com informações privilegiadas do poder público cedendo essas informações para o crime organizado. É muito difícil imaginar que haja um combate de fato efetivo para frear a atuação da milícia”, diz Nhanga.
Combate as milicias
Após os ataques, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, determinou que toda a força policial do estado esteja nas ruas, com o uso de viaturas, carros blindados, helicópteros e drones. Após os incêndios criminosos de segunda-feira, 12 pessoas foram detidas. Segundo Castro, seis foram liberadas por ausência de “indício de autoria e materialidade”.
De acordo com a polícia, o homem morto, que desencadeou os ataques, conhecido como Faustão, era o número 2 na hierarquia da milícia em Santa Cruz e Campo Grande, na zona este. O líder Zinho (Luis Antônio da Silva Braga), líder da mesma organização, Tandera (chefe de outra milícia) e Abelha (líder do Comando Vermelho) são procurados pela polícia, informou o governador.
Tanto Alves quanto Nhanga defendem ações estruturais para enfrentar o crime organizado.
A busca por líderes de determinadas organizações não vai, sozinha, solucionar a questão, afirma Nhanga. “Ano após ano, tanto o Estado quanto a imprensa elegem ali o bandido mais procurado e mais perigoso do Rio de Janeiro e, como consequência disso, temos várias operações, tiroteios, mortes, impactos nos serviços públicos durante essa caça a um título que se renova anualmente”, diz. “São diferentes nomes, mas sempre com o estado operando como mesmo método, individualizar, personificar toda uma estrutura criminosa numa mesma pessoa para dar uma sensação de combate ao crime organizado.”
Segundo o coordenador do Instituto Fogo Cruzado, dados como os levantados pela instituição podem ser úteis para desenhar políticas públicas voltadas para as áreas de maior crescimento do crime organizado e para traçar tendências que podem ajudar o estado.
O professor Alves diz que, para haver uma solução, primeiro, seria necessário reconfigurar a estrutura da segurança pública, indo além do conflito bélico, que, segundo ele, tem sido a política pública praticada. “Tem que mudar a raiz dos confrontos, tem que dialogar com a população de cada região. As pessoas têm que se transformar, elas próprias, em autoras de políticas públicas que vão ajudar a resolver seus problemas. Não podem ser meramente massa de manobra eleitoral. É preciso mudar a forma de lidar com a população, transformá-la em uma população ativa.”
Alves defende ainda políticas voltadas para a cultura, para atividades que deem perspectiva de vida e de renda aos jovens, especialmente nas regiões mais pobres. Isso fará com que eles sejam menos cooptados pelo crime organizado. “Se não caminha nessas direções, não vai resolver esse problema nunca. Pode matar quantos você quiser dizendo que está resolvendo o problema. Isso é uma balela, é uma mentira. Você está é empurrando o problema, ampliando o problema”, diz o professor.
EXCLUSIVO: Delegada Martha Rocha detalha esquema da milícia no Rio, intima governador e muito mais
A alegria de ouvir Bebeto, lembrar meu velho pai, músico de conjunto de baile no Rio de Janeiro dos anos de 1970 e a tristeza pelo que acontece no Rio de Janeiro de agora.
Mas a luta para que o crime organizado por dentro e por fora do estado recue não pode deixar de seguir. Mesmo que seja uma luta demorada, renhida e perigosa em muitas situações... E não é só pelo Rio de Janeiro.
"Pense em um lançamento esperado, aguardado, pela classe artística". Pense!!! Confira como foi o lançamento no auditório da Prefeitura de Aracaju.
Esperamos muito, trabalhamos muito, para buscar diálogo com a gestão da Funcaju e Prefeitura de Aracaju, para que o Edital da Lei Paulo Gustavo realmente contemplasse o audiovisual da capital. Porém, a prefeitura ignorou tudo e resolveu "desenhar" um edital recheado de ilegalidades, autoritarismo e irresponsabilidades.
No link na bio você pode acessar a Carta aberta produzida pelo Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe, na qual pontuamos detalhadamente os erros no Edital da Lei Paulo Gustavo, lançado na última sexta-feira, 20, pela gestão.
Linda Brasil denúncia irregularidades no edital da Lei Paulo Gustavo lançado pela Funcaju 🚨📑
Nessa terça-feira, 24, Dia da Sergipanidade, data em que se celebra a luta, história, identidade, cultura do povo sergipano, a deputada estadual Linda Brasil (Psol), no pequeno expediente da sessão plenária da Assembleia Legislativa de Sergipe (Alese), denunciou o certame divulgado, na última sexta-feira, 20, pela Prefeitura de Aracaju relacionado à Lei Paulo Gustavo (Lei Complementar nº195, de 8 de julho de 2022), que dispõe sobre ações emergenciais destinadas ao setor cultural a serem adotadas em decorrência dos efeitos econômicos e sociais provocados pela pandemia da covid-19. A deputada levou ao conhecimento da Casa Legislativa a denúncia feita pelo Fórum Permanente do Audiovisual Sergipe e pelos demais artistas da capital sergipana, que identificaram falhas graves no edital lançado pela Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju).
Política pública só se faz com participação popular!
Temos acompanhado com atenção e preocupação o lançamento do edital que visa atender a Lei Paulo Gustavo em Aracaju. Recebemos uma série de denúncias sobre inconsistências da chama pública e reclamações quanto a critérios que, embora tenham sido colocados pelas trabalhadoras e trabalhadores da cultura nas oitivas realizadas pela gestão municipal, não estão contempladas no edital.
▶️ Seguiremos dialogando o assunto com especial atenção na Educação, Cultura, Esportes, Lazer e Turismo, que atualmente presido. Também seguiremos pautando junto à Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju) um edital que realmente contemple a categoria e uma política pública efetiva.
Após protestos sobre a morosidade para o lançamento de editais da Lei Paulo Gustavo (LPG) em Sergipe, o setor audiovisual emite nota contra o edital abusivo da Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju) que, dentre outras coisas, retém os direitos autorais dos fazedores de cultura.
Após manifestações cobrando o lançamento de editais e com cobrança da aplicação de 5% dos recursos da LGP para operacionalização dos editais, incluindo a realização de busca ativa, o setor foi surpreendido com um edital que foge do que fora debatido e que possui inconsistências que, no entendimento do Fórum Permanente de Audiovisual de Sergipe (FPA), “ferem tanto a Lei de Direitos Autorais (n.º 9.610/1998) quanto a própria Lei Paulo Gustavo”.
[...]
O FPA acompanhou os debates e criou uma comissão para construir uma proposta que refletisse as necessidades do setor audiovisual local, tendo sua proposta aprovada em reunião geral do fórum em janeiro deste ano. Em março, o FPA entregou a proposta ao presidente da Funcaju, Luciano Correia, e, novamente em julho, durante o processo oficial de debates realizados pela Funcaju
Um dos temores do setor era que a demora para o lançamento dos editais era que estes fugissem do debatido com os fazedores de cultura e os responsáveis usassem o curto período para aplicação como forma de seguir com algo que não contempla satisfatoriamente o setor. Neste caso específico, em uma extensa carta aberta, o setor cobra que a Funcaju realize revisão e adequação do edital contemplando o que foi debatido com o setor.
A carta se divide em 24 pontos, passando pela retenção dos direitos autorais, pré-definição de temáticas, o que não respeita a liberdade artística e corrompe o intuito de fomento artístico, discrepância entre os valores das diversas categorias, possibilidade de redução dos valores e a vedação de inscrição dos interessados em mais de uma categoria e outros pontos que inviabilizam ou dificultam que a LPG cumpra sua finalidade de ajudar o setor respeitando sua liberdade artística.
"Gritos do Sul" é um filme de suspense que tem como contexto a pandemia e a ascensão do fascismo na região Sul do Brasil. A história acompanha um casal e seu bebê, que decidem passar alguns dias em um chalé na serra. Ao chegar lá, notam que o casal proprietário e seu filho tem um "ar" questionável.
Pré-estreia “Gritos do Sul”: porque fazer cinema
Eu raramente falo sobre o que faço, e isso pode ser um erro. Mas, é uma característica minha e se é considerado um erro pelos outros, não penso que devo mudar somente por isso.
Porém, hoje vim falar sobre o curta-metragem “Gritos do Sul”, e não digo “meu” porque cinema é arte coletiva e, apesar de assinar roteiro, direção e produção executiva, a obra não é só minha. Porém, eu que dei à luz a esta história que é tão importante pra mim e acredito que para mais pessoas (talvez até para esta cidade).
De cada história que eu crio, posso passar horas falando de cada detalhe, de onde veio cada personagem, cada fala, da narrativa, dos cenários. Seria entediante, imagino, por isso normalmente não falo. A obra nunca é “minha”, ela é de quem a consome.
“Gritos do Sul” é um curta-metragem que escrevi o roteiro ano passado, há pouco menos de um ano, durante a pandemia já naquele período que o pessoal tinha ligado o dane-se – alguns, né, porque muitos nunca deram a devida atenção a ela. Ele surgiu de uma imagem, a fotografia de um chalé que meu professor de Francês mostrou em uma aula, para onde ele iria com a família num fim de semana depois de meses isolados no apartamento onde moravam. Aquela fotografia povoou meu imaginário e não conseguia tirá-la da cabeça porque o local me pareceu assustador, uma decoração hiponga no meio do mato, que não me passou nenhuma confiança. Daria uma boa história de terror? Certeza.
Depois me veio um personagem, masculino, que encarnaria o pior que há nos homens, que ainda tentam (ou fingem que tentam) ser homens do mundo contemporâneo, como pais e maridos, que dividem o trabalho da casa (pero no mucho), que amam, mas vivem da grosseria sua de cada dia. Eu amo meus personagens masculinos porque acho que tenho um bom conhecimento sobre eles e consigo transmitir isso. Era algo que naquele momento também consumia meus pensamentos, como os homens tentam, mas não vão muito além dos homens do século passado – e como nós mulheres temos que, enfim, aceitar isso se quisermos nos relacionar com eles. (Ou não, meninas, exijam mais.)
Esse personagem masculino teria uma característica clássica dos homens: a agressividade que pode ser despertada por alguns fatores como a bebida alcoólica, a competição entre homens, etc., aquele homem que mede na força a sua vontade. Ainda não conheci um que não fosse assim, mesmo que em graus diferentes.
Mas, o que me interessava era a mulher que estaria ao lado desse homem, uma mulher como todas nós: forte de verdade, sem precisar testar nem provar nada pra ninguém, destemida, mãe e esposa, que trabalha, cuida da casa, da família, dirige, assume o controle de tudo a sua volta e ainda suporta relacionamentos ruins porque quer se realizar enquanto mulher na vida. Esse era um ponto importante para a história, quem prestar atenção ao filme, vai entender.
E eis que um dia, ainda às voltas com esses personagens, fui podar as árvores do jardim e decidi que queria uma motosserra na história. Quando escrevemos roteiros a qualidade mais importante é essa: ser decidida. Dúvida nenhuma escreve bons roteiros. Bem, a história estava pronta, o chalé, o casal e a motosserra. Gênero: suspense (ou o novo terror, porque hoje tudo é terror; sou filha dos anos 1990 e seu bom e velho suspense). Faltava um contexto e o conflito. Aí foi fácil.
O contexto seria o mundo pandêmico do Brasil que nunca saberemos o que deveríamos temer mais: o vírus da COVID ou o vírus da ignorância alimentado pelo governo. A escolha foi rápida. O conflito? A realidade ao meu redor. Dificilmente conseguiria imaginar algo mais aterrorizante do que o que eu via todo dia nas notícias, na fala e atitude das pessoas. E aí se justifica o título (sou péssima com títulos, mas nesse acertei em cheio): os gritos que estão aqui no sul, nesse sul que se diz tão europeu, tão elitizado, tão melhor que o “resto” do país.
Assim nasceu o “Gritos do Sul”, uma história que não fala sobre a pandemia de COVID, pois ela é o contexto que serve de estopim para o drama, mas que fala das profundezas da nossa realidade aqui onde as ideologias ganharam proporções de uma violência destemida e doentia. “Gritos do Sul” é um filme político que se posiciona de acordo com o que convencionou-se chamar, nos dias de hoje, de antifacista. Ele não trata de nenhuma ficção fantástica para falar da realidade, ele tem personagens desenhados pelo que vemos no dia a dia.
Sobre posicionar-se, nunca abri nem abrirei mão. Toda arte é política, blá-blá-blá, é sim. Tem um gosto especial produzir cinema no Brasil, com posicionamento político não alinhado ao governo atual, que combate certas características culturais que corrompem quem poderíamos ser. “Gritos do Sul” foi um projeto aprovado no SIMDEC Apoio 2021 em primeiro lugar, com uma pontuação muito boa, foi produzido com equipe majoritariamente composta por mulheres e homens não heteros e todos profissionais de Santa Catarina, a maioria graduados e graduandos do curso de Cinema. É uma prática de fomentar, formar, qualificar e profissionalizar cada vez mais a nossa área, em Joinville, principalmente, que não se exime de mostrar a real importância das políticas públicas para a Cultura. Tudo isso é o discurso político do Gritos do Sul – é o nosso grito coletivo.
Não é só um curta antifacista, é um espaço de mudança e resistência. E resistimos inclusive à falta de interesse da imprensa e outros órgãos em divulgar o trabalho dos artistas de Joinville, pois não temos um centavo investido em divulgação e vamos trabalhar no “boca a boca”, no compartilhamento nas redes sociais, no contato direto com as pessoas que apreciam arte e cinema, que se interessam por valorizar quem resiste a esses tempos sombrios. Uma ópera de fora de Joinville, por exemplo, com ingressos a cem reais, a ser apresentada no local cultural mais elitizado da cidade tem espaço nas rádios e nos meios de comunicação, apoio de pessoas dos órgãos culturais, nós não. O grito do “Gritos do Sul” se fará ouvir, a contrapelo de alguns, quiçá da história, como diria aquele filósofo.
Nosso curta está forte, agoniante, eu diria. Está na última etapa da pós-produção e já tem data de pré-estreia, que será no SESC de Joinville, espaço parceiro do cinema local, pois a cidade não possui sequer uma sala pública de cinema. Teremos ingressos para o público em geral e para quem quiser acompanhar recomendo o Instagram da produtora @oficina_producoes.
Não consigo imaginar nada melhor do que fazer cinema e sou feliz por esta ser minha vida. Trabalhar com cinema em Joinville é uma realização pessoal que, felizmente, eu compartilho com bastante gente, inclusive com o público. Quem sabe em breve eu fale mais sobre o “Gritos do Sul”, mas só vai entender quem assistir.
A Mangue Jornalismo com essa série de matérias baseadas no relatório da comissão sergipana da verdade traz o lado B da nossa Sergipanidade, Nordestinidade e Brasilidade. Quando apenas trazemos o lado A, a melhor pARTE, criamos uma falsa ilusão...A falsa ilusão de uma gente que pensa viver em um estado e em um país de gente feliz, pacifica, não racista e respeitada em todo o tempo na sua dignidade humana. Precisamos de mais artistas e comunicadores agindo assim, mostrando o lado luminoso de nossa cultura, como também o lado sombrio ou tenebroso.... Ou, "de uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta." Maria, Maria - Milton Nascimento e Fernando Brant.
A Mangue Jornalismo continua publicando reportagens a partir do relatório final da Comissão Estadual da Verdade/Sergipe. Hoje, mergulhamos nos casos de perseguições, prisões e repressões contra estudantes, jornalistas, educadores, sindicalistas e religiosos em Sergipe ligados ao Movimento de Educação de Base.
Na lista dos perseguidos estavam Dom Távora, então arcebispo de Aracaju, e o bispo de Propriá, Dom Brandão de Castro, ambos acusados de “comunistas”. Contudo, o padre João de Deus e Dom Luciano Cabral, que substituiu Dom Távora na Arquidiocese de Aracaju, são apontados como simpatizantes e colaboradores da ditadura.
Esta é a 5ª reportagem dessa série especial da Mangue Jornalismo sobre o período do terror em Sergipe. Nela, veja a lista das 13 pessoas interrogadas pelo Exército sobre Movimento de Educação de Base em Sergipe.
🌱 Até sexta-feira passada, apenas 16 dos 75 municípios sergipanos haviam lançado os tão aguardados editais da Lei Paulo Gustavo, que transfere milhões de reais em verbas federais da Cultura para cidades e Governo do Estado. Aracaju ficou meses em silêncio sobre esses editais e, às pressas, liberou na tarde de sexta-feira, 20, mas os prazos de inscrição para pleitear a verba são inferiores a 20 dias.
O Governo do Estado não lançou os editais, apesar de uma promessa feita pela responsável pela Cultura, Antônia Amorosa, em 9 de outubro. Para artistas e produtores culturais escutados pela Mangue Jornalismo existem falta de vontade política e desconhecimento de gestores sobre os editais.
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Produzir arte e cultura em Sergipe del-Rei não é e nunca foi fácil. Como diz a canção “Bomfim” da Banda Naurêa “é muito pedir, é muito desdém” .
Já ouvi direta e indiretamente de gestores e técnicos culturais que falta preparo e conhecimento adequado a muitos artistas e/ou produtores culturais.
Mas, como profissionalizar os agentes da cadeia produtiva da cultura sem uma politica de fomento por meio de fundo público e por meio da renúncia fiscal, tanto via estado, como via municipios? Como bons projetos poderão vir a serem elaborados e aprimorados sem uma legislação municipal e estadual própria e capacitação técnica continua, não pontual, voltado a artistas e/ou produtores culturais sergipanos?
E para começar a responder a essas questões temos as Leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2, as quais se constituem em um mecanismo que integra legislação, fundo público e capacitação técnica, mas para isso se tornar mesmo realidade também depende do preparo técnico e de condições mínimas estruturais para o funcionamento dos órgãos de gestão cultural do estado e dos municpios, inclusive com a realização de concurso público.
Sem contar que estas leis de fomento no âmbito federal são apenas o começo ou o recomeço da nossa jornada rumo a sociedade do conhecimento, sociedade cuja base econômica não é mais a produção agrícola ou a produção industrial. Ou para quem já sabe que nós sergipanos e brasileiros podemos mais, muito mais.