sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Para quem é de esquerda, mas é contra uma certa cultura predominante na esquerda.


Um grito de Carnaval
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Os donos do mundo têm um ano inteiro para chamar de seu. Via de regra, os poderosos fazem e acontecem, sem dar nenhuma satisfação a ninguém. O pai do sambista estava coberto de razão, o brasileiro médio é mesmo um homem cordial. À parte as conversas em mesa de bar, um post aqui, outro ali, apesar de todos os escândalos, não se ouve bater de panelas, nem um pio.
No Carnaval, ao contrário, a voz do povo finalmente ganha volume e berra mais alto, como se fosse de fato a própria voz de Deus. O corpo fala. Além de se cobrir com todas as cores para tomar as ruas em alvoroço, o folião muitas vezes aproveita para ir à forra e faz da farra um grandiloquente ato político.
Nos dias de festa, a ordem treme. A caretice, o moralismo e até o poder recolhem-se ao escuro de suas tocas, com o rabo entre as pernas. O escracho é a única norma. Qualquer um com culpa no cartório tem motivo de sobra para temer o confete, a serpentina e o apito.
O sumido Queiróz, por exemplo, pode até driblar o Ministério Público, escorado na força da grana, fruto das relações pouco republicanas mantidas com a família Bolsonaro, como fez até agora, impunemente. Mas não será poupado pela fuzarca. Henrique Teles (Maria Scombona), Julio Andrade (The Baggios) e Alex Sant'Anna, três compositores da língua grande, botaram o amigo do presidente na roda, sem um pingo de dó.
‘Cadê Queiróz?’, um frevo embalado a toque de caixa e guitarra fuzz, é desde já o grande hit do bloco cibernético Unidos do Laranjal, disposto a congestionar os caminhos pavimentados do ambiente virtual com o repique de uma pergunta inconveniente, que não pode se calar.
Publicado no Jornal do Dia, 19 de fevereiro.






  • "Mas a esquerda segue meio perdida, reativa e sem imaginação. Onde é preciso ouvir, muita pregação. Onde falta interlocução, mais pregação. Onde precisa de base, decisões da liderança. Precisa achar, cultivar e fomentar experiências que apontem para fora deste atoleiro."
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    "Fui a três atos dos funcionários municipais que estão em greve por causa da imposição de um plano de previdência péssimo: o Sampaprev. A mobilização parece que está boa, maior que a do ano passado, que logrou barrar o decreto temporariamente. A Prefeitura não está negociando e o movimento tenta se manter na rua. Do ponto de vista da rua, as manifestações obedecem a um padrão bem clássico: concentração com carro de som, votação por aclamação, passeata. Tudo de bom ao movimento, mas fiquei de novo com aquela sensação de que é preciso renovar as formas de atuar em público. Por ora, parece que a sociedade não se sensibiliza com atos de rua."
    Leia mais: AQUI    

     Fonte:
     





    • O texto de Frei Betto serve não só de conselhos, mas também de auto-avaliação.
      Temos que ter clareza de quem somos!!!!

      Dez Conselhos para militantes de esquerda

      1. Mantenha viva a indignação.
      Verifique periodicamente se você é mesmo de esquerda. Adote o critério de Norberto Bobbio: a direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda a encara como uma aberração a ser erradicada.

      Cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus social-democrata, cujos principais sintomas são usar métodos de direita para obter conquistas de esquerda e, em caso de conflito, desagradar aos pequenos para não ficar mal com os grandes.

      2. A cabeça pensa onde os pés pisam.
      Não dá para ser de esquerda sem "sujar" os sapatos lá onde o povo vive, luta, sofre, alegra-se e celebra suas crenças e vitórias. Teoria sem prática é fazer o jogo da direita.

      3. Não se envergonhe de acreditar no socialismo.
      O escândalo da Inquisição não faz os cristãos abandonarem os valores e as propostas do Evangelho. Do mesmo modo, o fracasso do socialismo no Leste europeu não deve induzi-lo a descartar o socialismo do horizonte da história humana.

      O capitalismo, vigente há 200 anos, fracassou para a maioria da população mundial. Hoje, somos 6 bilhões de habitantes. Segundo o Banco Mundial, 2,8 bilhões sobrevivem com menos de US$ 2 por dia. E 1,2 bilhão, com menos de US$ 1 por dia. A globalização da miséria só não é maior graças ao socialismo chinês que, malgrado seus erros, assegura alimentação, saúde e educação a 1,2 bilhão de pessoas.

      4. Seja crítico sem perder a autocrítica.
      Muitos militantes de esquerda mudam de lado quando começam a catar piolho em cabeça de alfinete. Preteridos do poder, tornam-se amargos e acusam os seus companheiros (as) de erros e vacilações. Como diz Jesus, vêem o cisco do olho do outro, mas não o camelo no próprio olho. Nem se engajam para melhorar as coisas. Ficam como meros espectadores e juízes e, aos poucos, são cooptados pelo sistema.

      Autocrítica não é só admitir os próprios erros. É admitir ser criticado pelos (as) companheiros (as).

      5. Saiba a diferença entre militante e "militonto".
      "Militonto" é aquele que se gaba de estar em tudo, participar de todos os eventos e movimentos, atuar em todas as frentes. Sua linguagem é repleta de chavões e os efeitos de sua ação são superficiais.

      O militante aprofunda seus vínculos com o povo, estuda, reflete, medita; qualifica-se numa determinada forma e área de atuação ou atividade, valoriza os vínculos orgânicos e os projetos comunitários.

      6. Seja rigoroso na ética da militância.
      A esquerda age por princípios. A direita, por interesses. Um militante de esquerda pode perder tudo: a liberdade, o emprego, a vida. Menos a moral. Ao desmoralizar-se, desmoraliza a causa que defende e encarna. Presta um inestimável serviço à direita.

      Há pelegos disfarçados de militante de esquerda. É o sujeito que se engaja visando, em primeiro lugar, sua ascensão ao poder. Em nome de uma causa coletiva, busca primeiro seu interesse pessoal.

      O verdadeiro militante, como Jesus, Gandhi, Che Guevara, é um servidor, disposto a dar a própria vida para que outros tenham vida. Não se sente humilhado por não estar no poder, ou orgulhoso ao estar. Ele não se confunde com a função que ocupa.

      7. Alimente-se na tradição da esquerda.
      É preciso oração para cultivar a fé, carinho para nutrir o amor do casal, "voltar às fontes" para manter acesa a mística da militância. Conheça a história da esquerda, leia (auto) biografias, como o "Diário do Che na Bolívia", e romances como "A Mãe", de Gorki, ou "As Vinhas de Ira", de Steinbeck.

      8. Prefira o risco de errar com os pobres a ter a pretensão de acertar sem eles.
      Conviver com os pobres não é fácil. Primeiro, há a tendência de idealizá-los. Depois, descobre-se que entre eles há os mesmos vícios encontrados nas demais classes sociais. Eles não são melhores nem piores que os demais seres humanos. A diferença é que são pobres, ou seja, pessoas privadas injusta e involuntariamente dos bens essenciais à vida digna. Por isso, estamos ao lado deles. Por uma questão de justiça.

      Um militante de esquerda jamais negocia os direitos dos pobres e sabe aprender com eles.

      9. Defenda sempre o oprimido, ainda que, aparentemente, ele não tenha razão.
      São tantos os sofrimentos dos pobres do mundo que não se pode esperar deles atitudes que nem sempre aparecem na vida daqueles que tiveram uma educação refinada.

      Em todos os setores da sociedade há corruptos e bandidos. A diferença é que, na elite, a corrupção se faz com a proteção da lei e os bandidos são defendidos por mecanismos econômicos sofisticados, que permitem que um especulador leve uma nação inteira à penúria.

      A vida é o dom maior de Deus. A existência da pobreza clama aos céus. Não espere jamais ser compreendido por quem favorece a opressão dos pobres.

      10. Faça da oração um antídoto contra a alienação.
      Orar é deixar-se questionar pelo Espírito de Deus. Muitas vezes, deixamos de rezar para não ouvir o apelo divino que exige a nossa conversão, isto é, a mudança de rumo na vida. Falamos como militantes e vivemos como burgueses, acomodados ou na cômoda posição de juízes de quem luta.

      Orar é permitir que Deus subverta a nossa existência, ensinando-nos a amar, assim como Jesus amava, libertadoramente.





    • O que é a nova esquerda -

      André Jacobina e Leonardo Attuch debatem sobre a nova esquerda e figuras como Bernie Sanders, Alexandra Ocasio Cortez e Fernando Haddad.
       
       Afinal, o que querem os partidos-movimento?

      Eles prometem uma nova esquerda, indispensável. Mas, como mostra Alexandria Ocasio, talvez seja a hora de construir programas claros, e uma estrutura orgânica que vá além da eterna “consulta às bases”





      SINOPSE: "O Ponto de Mutação é um livro de Fritjof Capra publicado em 1983. Uma cientista (Liv Ullmann), um político (Sam Waterston) e um poeta (John Heard) - discutem a "perspectiva da crise atual", que vem da descoberta, na física, de que o velho modo "mecaniscista" de olhar a vida (pensando sobre a existência das coisas em termos de seus componentes) poderia ser substituído por uma visão mais holística. "O filme aborda um dialogo de três pessoas que embora tenham estilos de vida e pensamentos diferentes, são abertas a novas idéias. O dialogo dos personagens acontece em um castelo medieval na França. Essas pessoas são americanas e fazem partes de núcleos sociais diferentes. O primeiro ator é um senador e ex candidato a presidência da republica (político). Ele se sente desmotivado com a política, argumentado não ter discurso próprio, tendo que repetir os discursos que seus assessores escrevem ou dizer o que as pessoas querem ouvir. O segundo ator é um professor de literatura e escritor (poeta) que se sente na crise de meia idade. Ele veio para a França para fugir da competitividade das grandes cidades. A terceira é uma cientista especialista em Física que vive uma crise existencial ao ver a intenção do uso militar em sua pesquisa...."




  • PSOL recebe Bolsonaro no Congresso com laranjas na mão



    Manifestantes entregando folhetos de conscientização da reforma da previdência, com uma fruta simbólica.

    Clique AQUI para assistir ao vídeo.


    Terça valente em BH - Evento periódico que acontece desde setembro/2016 para debater Política.



    Pepe Escobar fala sobre Rússia, Venezuela e guerra

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Afinal, o que querem os partidos-movimento?

Eles prometem uma nova esquerda, indispensável. Mas, como mostra Alexandria Ocasio, talvez seja a hora de construir programas claros, e uma estrutura orgânica que vá além da eterna “consulta às bases”
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O núcleo de qualquer projeto hegemônico efetivo tem que ser uma nova economia política que ancore a revolução nos valores que os populistas de esquerda estão, corretamente, interessados em atingir. Nesse sentido, Margaret Thatcher foi uma gramsciana muito melhor do que muitos de seus epígonos quando explicou as premissas básicas de seu projeto político: “economia é o método; o objeto é mudar o coração e a alma”.
The Digital Party, de Paolo Gerbaudo
Foi o trecho acima — de um artigo de Chris Maisano publicado em 11 de fevereiro passado pela revista Jacobin — que me levou a aceitar de vez o desafio do editor do Outras Palavras, Antonio Martins: escrever uma coisa meio inusitada, a resenha de uma resenha de um livro que não li. Ambos havíamos gostado muito do texto de Maisano, mesmo sem poder confrontá-lo com a obra resenhada – The Digital Party: Political Organization and Online Democracy, de Paolo Gerbaudo. Antônio me convenceu que valia a pena tentar. Que os leitores julguem o resultado da invenção.
O título da resenha já provoca: The Party Has Logged On (O Partido Se Conectou, em tradução muito livre). E Maisano se dedica, muito bem, a desenvolver ideias próprias, a partir de pontos de relevância que identifica no trabalho de Gerbaudo. A análise se concentra no surgimento – e, principalmente, nas contradições e problemas – de formações políticas com concepções e estruturas radicalmente diversas dos clássicos partidos de massas e quadros da esquerda. O foco está nos Partidos Piratas (Escandinávia, Alemanha, Holanda, Leste europeu); no Movimento Cinco Estrelas (Itália); no Podemos (Espanha); no França Insubmissa; no Momentum, do Partido Trabalhista britânico; nos Socialistas Democráticos da América (EUA).
A premissa de que parte Gerbaudo, segundo Maisano, é que, independentemente de seu posicionamento ideológico, esses novos partidos (que denominam “digitais”) compartilham um compromisso com a “democracia real”, expressa na transparência, na participação direta e na “proximidade” viabilizada pelas plataformas digitais. No entanto, mesmo buscando responder aos desafios contemporâneos e à insatisfação generalizada com os partidos tradicionais, os “digitais” compartilham também sérias fragilidades.
Há uma consequência não pretendida no uso reiterado de mecanismos de consulta direta a filiados e simpatizantes por parte dos partidos “digitais”: a extinção dos quadros intermediários que, nos partidos tradicionais, sempre fizeram a mediação entre direção central e bases e, muitas vezes, atuaram como elemento de redução de tentações “caudilhescas” das principais lideranças partidárias.
“A análise de Gerbaudo indica que esses processos, ostensivamente mais horizontais, participativos e democráticos, frequentemente fortalecem a posição dos líderes partidários em relação aos demais membros do partido. (…) [Sem uma estrutura intermediária], como Gerbaudo aponta, [os partidos] se arriscam a criar uma ‘aristocracia da participação’, na qual membros com mais tempo ou outros recursos disponíveis desfrutam de influência desproporcional na vida organizativa”, afirma Maisano.
Os partidos “digitais” se apoiam em uma base social bem diferente dos partidos tradicionais. “Enquanto os clássicos partidos de massas estavam umbilicalmente ligados a classes sociais bem definidas, os partidos digitais buscam uma base de suporte muita mais amorfa e instável. Gerbaudo os chama de ‘Povo da Rede’, uma massa de “outsiders conectados’, cujo níveis de educação relativamente altos são confrontados com uma precariedade econômica persistente e com uma sensação generalizada de alienação em relação à política tradicional e às instituições. Eles tendem a ser jovens, não organizados em sindicatos, partidos ou outras organizações sociais e extremamente confiantes nas tecnologias de comunicação digital e nas plataformas de mídia social.”
A obsessão pela participação direta, no entanto, tem levado a uma preponderância de forma sobre conteúdo e mascarado o surgimento de novas hierarquias internas, ainda mais verticalizadas. “Todos os novos partidos digitais são intimamente associados a uma liderança carismática, cujo nome é virtualmente sinônimo da própria organização. Como Gerbaudo argumenta, esses partidos são definidos por uma dinâmica organizacional bem distinta, que ele denomina ‘centralização distribuída’: um ‘hiperlíder’ cercado por uma pequena coterie no topo e, embaixo, uma ‘superbase’, engajada mas principalmente reativa. (…) Na visão de Gerbaudo, a mediação, longe de ter sido eliminada, tornou-se mais disfarçada e mais centralizada.”
Gerbaudo argumenta que o carisma pessoal do “hiperlíder’, a despeito de seus óbvios riscos, pode oferecer uma solução temporária para a fraqueza – ou mesmo desmonte – das organizações coletivas dos trabalhadores, provocada pela onda liberal, Diz Maisano: “Atualmente, figuras de liderança continuarão a jogar um papel decisivo, dando voz ao descontentamento generalizado e arregimentando pessoas de posições sociais disparatadas em torno de um projeto político mais coerente.”
As novas formações partidárias têm tentado uma “engenharia reversa”, oposta à tradição de longa construção dos antigos partidos de massas da esquerda: chegar ao poder de Estado o mais rapidamente possível para, a partir dele, consolidar sua base de apoio na sociedade.
Como escreve Maisano, há lógica nessa estratégia, mas também há um risco considerável de “deixar suspenso no ar” um governo de esquerda, sem força social real, como tristemente exemplificado pelo Syriza na Grécia. As experiências de Jermy Corbyn (Reino Unido) e Bernie Sanders (EUA) seriam movimentos no sentido contrário, buscando ter uma base social mais orgânica e com um núcleo de classe mais definido.
A “transversalidade” social dos partidos “digitais” busca ganhar apoio em todo o espectro da sociedade. Tem sido bem sucedida como tática eleitoral mas, ao dar pouca importância aos interesses materiais e ao buscar representar “todos que concordam”, torna-se politicamente incoerente e tem grande dificuldade em explicitar o que exatamente o partido fará se e quando chegar ao poder de Estado.
Para Maisano, apesar dos partidos associados a um “populismo de esquerda” reivindicarem seguidamente a herança de Gramsci, é difícil conciliar tais afirmações com a recusa a uma política de classe. Afinal, foi o sardo quem escreveu, nos Cadernos do Cárcere: “a reforma intelectual e moral tem que estar ligada a um programa de reforma econômica – de fato, o programa de reforma econômica é precisamente a forma concreta pela qual toda reforma intelectual e moral se apresenta.”
Como aspecto positivo, Maisano identifica movimentos no rumo de uma política de classe mais explícita tanto no Podemos espanhol como, principalmente, no “New Deal Verde”, proposto pela deputada estadunidense Alexandria Ocasio-Cortez, que articula a luta contra o aquecimento global a um programa econômico centrado nos interesses materiais dos trabalhadores.
Que Maisano também feche esta resenha da resenha do livro que não li.
“Os velhos partidos de massas da Esquerda se enfraqueceram não somente por terem estruturas organizacionais antiquadas, mas porque implementaram políticas que atacaram e desorganizaram sua base tradicional. Atualizar a forma partido, para que se adeque ao momento presente, é um aspecto indispensável de reconstrução de uma alternativa política ao capitalismo. Porém, se os novos partidos digitais da Esquerda não se comprometerem com um projeto de reorganização da classe trabalhadora que vá ao encontro dos interesses dela, eles poderão se apagar tão rapidamente quanto surgiram.”
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Zé Vicente: “o que está passando na Amazônia é um termometro para o planeta em profunda crise"






O cantor das  CEBs afirma: "A música mostra a relação com o mistério de Deus"
"Graças a Deus o Papa Francisco é maior que a igreja católica. É uma referência para toda a humanidade."

Cantar uma canção que fala de nossa esperança, da nossa ecologia, dos nossos direitos, da nossa alegria e da nossa união, dos nossos defeitos, do nosso grito, do nosso clamor, é exatamente cantar a nossa alma com o povo.  Essa é a minha concepção da minha esperança ao povo.

Zé Vicente é alguém que fez da música uma maneira de expressar toda a vida que tem dentro, porque ele mesmo reconhece que sua vida está ligada à música. Sempre muito próximo do povo, da região Nordeste onde nasceu e mora, sente-se próximo ao povo nordestino, lutador e sofredor, mas que mantém a esperança.

Ele canta desde uma experiência de fé, uma experiência mística, de um Deus que o inspira. Ele sabe que hoje os caminhos da música católica no Brasil são diferentes, deixando-se influenciar pela lógica do mercado, de onde sempre esteve distante.

Muitos o definiram como o cantor das comunidades eclesiais de base, um rótulo com o qual ele não se sente à vontade, porque sua experiência eclesial e social é muito mais ampla. A este respeito, salienta a importância que teve e tem em sua vida Monsenhor Antônio Fragoso, um dos Padres conciliares que assinaram o Pacto das Catacumbas, que defendeu uma Igreja pobre e para os pobres, que quer fazer realidade o Papa Francisco, a quem ele define como referência para toda a humanidade.

Sempre preocupado com a questão ecológica, Zé Vicente acompanha com interesse o desenvolvimento do Sínodo para a Amazônia, região sobre a que se abate a cobiça dos poderosos do mundo.

O que significa a música em sua vida?

Eu acho que significa a vida, a minha vida ligada à música, mas é a música não só que eu sonho, mas que eu verbalizo, que eu toco, que eu componho, mas é a música que eu guardo na alma, desde as canções da infância da minha mamãe, do meu papai, até as músicas dos passarinhos que eu escutei desde criança, esse é o meu alimento de cada dia.

Nas suas letras sempre aparece a vida do povo, o que significa essa vida? Quem cantam desde um sentimento de fé, deve reproduzir essa vida do povo?

É que é a minha vida, imaginar a vida do povo como se fosse fora de mim, seria um equívoco, não é. Eu que venho da roça, filho de agricultor, que desde pequeno eu volto lá cada mês e eu tento manter esse laço, então eu sou esse povo. Cantar uma canção que fala de nossa esperança, da nossa ecologia, dos nossos direitos, da nossa alegria e da nossa união, dos nossos defeitos, do nosso grito, do nosso clamor, é exatamente cantar a nossa alma com o povo, a nossa essência com o povo, porque a esse povo que eu pertenço, o povo sertanejo, nordestino, das periferias, o povo que luta, lutador e sofredor, mas que guarda esperança. Essa é a minha concepção da minha esperança ao povo.

Na Bíblia, sobretudo nos Salmos, aparecem essas músicas e essas letras que surgem da vida do povo. A gente poderia dizer que você tenta trazer para hoje aqueles salmos escritos muitos séculos atrás, os novos salmos de hoje em dia?

Eu sigo toda uma unidade, eu tento ser porta-voz, a Bíblia me alimenta, os salmos me alimentam, mas eu acho que a gente é porta-voz da hora presente, da humanidade e do povo. Se essa minha experiência de fé, se essa minha experiência mística, de cantante, de cantador, de salmista, for realmente entendida assim, vivenciada assim, ótimo. A minha intenção é que seja exatamente um alimento de esperança, uma veia de mística, da nossa relação com o Mistério profundo de Deus que nos move com seu sopro cada dia, com suas rações mais inexplicáveis e misteriosas. Então, eu tenho que ser sério comigo e com as inspirações que me vem.

Depois do Concilio Vaticano II, nas décadas de setenta a noventa, nem só você como outro músicos aqui no Brasil, tentaram fazer uma música de baixo para cima. Hoje a música católica voltou a ser de cima para baixo, por que foi se perdendo essa música que nasce do povo, da realidade, uma música mais profética, mais comprometida?

Eu não diria que ela se perdeu, ela está um pouco invisível, porque a mídia centrada no Sudeste do Brasil é uma mídia porta-voz de certos setores da classe média, é uma música ligada ao mercado. Mas isso, não só na música católica, a música popular brasileira no geral. Eu estou muito ligado, eu moro em Fortaleza, onde tem o grande mercado da música do forró, mas como a música sertaneja são ondas que o mercado cria, e é muito complicado investir numa música que abre a consciência, que critica, que faz uma crítica social, que critica inclusive os senhores do mercado, transformar essa música em um produto do mercado, para eles não é interessante, mas é interessante uma música, religiosa ou não, que cultive as relações intimistas, individualistas e egoístas. Isso dá cada vez mais dinheiro no mercado e um ego doentio, que es espalha cada dia, que é o estrelismo.
Na mídia brasileira dos artistas, dos atores, de todos aqueles que tem esse apelo da comunicação social. Isso vai criando uma demanda, no me u entendimento, de consumo e ao mesmo tempo de consumirmos uns aos outros, pelas figuras que são, pela idolatria que se faz. Eu não uso a palavra show, eu uso a palavra encontro musical, para diferençiar um pouco dessa coisa de mercado mesmo, onde o artista é dono do palco, tem um produto para vender. Sempre escorreguei um pouco dessa visão que não condiz com a visão profunda que eu tenho de fé, mas também de cidadania. Eu acho que todo momento que você centraliza e vende os produtos daquelas estrelas, daqueles figurões, não tem futuro nem como Igreja, nem como sociedade, nem como política, nem como cultura.

Você é considerado como um dos grandes cantores das comunidades eclesiais de base, o que tem representado na sua vida de fé, na sua vida como cantor, como artista, essas comunidades?

A minha experiência original não é bem na comunidade, é um pouco nesse catolicismo ainda familiar, mas já muito alegre, porque era de uma família que fazia ponte entre o cordel, a poesia nordestina, e as devoções populares. Depois eu vou e minha primeira experiência é com o grupo de jovens de arte, de teatro, já foi nesse campo. Quando eu fui viver na diocese de Crateús por dez anos, uma diocese com uma experiência profunda de comunidades eclesiais de base, então eu mergulho profundo nessa experiência, que alí, naquela diocese tinha um rosto social, comprometido, de luta de compromissos políticos, de tomada de posição, de luta pela terra, de sindicalismo, de associação, e tudo mais, e de comunicação. Então fui ligado a essa experiência de comunidade.


Me incomoda um pouco essa visão de que eu sou um cantor da CEBs. Eu sou um cantor nas CEBs, mas comecei na Pastoral da Juventude, nos movimentos populares e sociais, como o Movimento dos Trabalhadores sem Terra, Sem Teto, dos povos indígenas. Onde eu chego, que essa canção encontra um eco, um respaldo, eu vou sinceramente e humildemente, e vou somando, vou somando. Agora, a experiência da comunidade, para mim, é fundamental para o cristão, porque sem comunidade, sem missão, o que é o cristianismo, me explica.


Você falou de Crateús, onde conviveu com Dom Fragoso, padre conciliar e um dos assinantes do Pacto das Catacumbas, um homem muito comprometido, que tentou vivenciar o Concilio numa época em que não era fácil levar tudo isso para frente, o que aprendeu com ele?

Eu estou aprendendo cada dia com ele, Fragoso para mim é um anjo vivo, profeta que me acompanha, e as vezes vejo que ele sopra no meu ouvido, aquilo que ele dizia para todos nós, no tempo de agentes de pastoral, na diocese, nas coordenações do serviço de rádio, onde eu ajudei, na coordenação da CPT (Comissão Pastoral da Terra), na animação das comunidades, bem no fundo daquelas coisas, ele dizia sempre, falem simples, quando vocês falam simples, os que não estudaram, vão todos entender, e os que estudaram também. Se vocês falarem complicado, só os que estudaram vão entender. Isso eu tenho como mandamento, que as vezes ele me sopra aqui no ouvido.
Está mais vivo hoje do que nunca, cada dia que passa eu sinto mais essa presença amorosa, mas ao mesmo tempo muito clara. Ele foi uma pessoa que se apaixonou logo desde o começo pela música que eu compus lá, e espalhou dizendo que essa coisa que estava vivendo ali, fazendo ali, o Zé Vicente com eles, ia dar o que falar. Isso me disseram depois em outros lugares, e eu acho que é assim, e cada vez eu agradeço a Deus por ter me colocado no caminho de Iguatu, com Dom Mauro, também bispo conciliar, de um diálogo mais manso e um profeta bravo e amoroso com o povo.

Você fala do Concilio, de simplicidade de vida, alguém que desde a simplicidade de vida tenta trazer de volta o Concilio é o Papa Francisco. O que é que o Papa Francisco representa para a Igreja e a sociedade do século XXI?

Graças a Deus, o Papa Francisco é maior do que a Igreja católica, do que o catolicismo, hoje ele é uma referência para a humanidade toda, em todos os setores, onde tiver alguém de bom coração, de boa vontade, vai saber que o que ele diz hoje, o testemunho deste homem, é um testemunho para todas as pessoas, os seres humanos de boa vontade que querem seguir o novo caminho e ter uma nesga de luz para o futuro do Planeta e da humanidade.
Então, eu vejo o Papa Francisco como essa figura, e eu acho que se a Igreja não entender isso, os setores da hierarquia, aqueles que tentam se aliar e estão na oposição ao Papa Francisco, é porque estão na oposição de Jesus de Nazaré, de Francisco de Assis e de outros que foram fundantes e mestres desse caminhar da humanidade ao encontro com seu Deus e seu Reino.


Você é leigo e o Papa Francisco insiste muito na importância do leigo na Igreja, e no ano passado foi celebrado no Brasil o Ano do Laicato. Como leigo, como você se sente dentro da estrutura eclesial? Realmente pensa que o Papa Francisco está ajudando a dar o valor que os leigos merecem, o valor que o Vaticano II enfatizou para o laicato, mas que depois se perdeu durante um tempo?

Eu acho que com certeza. No meu caso, eu sou leigo, mas eu sou um artista, e o artista circula um pouco por meio dos leigos, mas ao mesmo tempo eu me sinto consagrado, eu me sinto muito próximo dos religiosos. Muitas vezes recebo abraços e declarações de reconhecimento e amizade de muitos bispos e padres, de pastores. A arte vai levando a gente, como brincava o povo antigo, artista e doido tem passagem livre.


A gente está na Amazônia, que está dentro de um processo sinodal, que busca novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral. Como pensa que isso pode repercutir na vida do Planeta e na vida da Igreja?

Eu quero acompanhar cada dia mais de perto esse processo do Sínodo para a Amazônia, porque eu penso que como no passado já teve um momento desses aqui, um grito dos profetas da Amazônia para toda a Igreja, tem um eco, uma repercussão importante. Hoje, nas minhas preocupações de quando eu vou dormir, a Amazônia é uma também, porque o que está acontecendo aqui, é um termômetro do Planeta na sua crise profunda, seja na parte humana, seja nas belezas naturais que têm aqui. A cobiça dos poderosos do mundo que se abate sobre esse coração do Planeta, sobre esse pulmão, como foi classificado, é uma coisa desenfreada, e é uma coisa muito mais grave do que a gente imagina. Eu acho que a Palavra do Papa, a experiência dessa reflexão, desse contemplar orante, clamante, e de compromisso com a memória da terra, das águas, e a sua importância para a vida humana e planetária aqui da Amazônia é uma coisa que eu quero acompanhar de perto, e que minha canção possa animar também.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Encontro de estudos sobre Midias Sociais e a Biblia


É uma proposta realizada com a metodologia da leitura popular da Biblia e inspirada na Teologia da Libertação e nos ensinamentos do Papa Francisco.

Há uma taxa de inscrição no valor de R$50.00, mais contribuição em alimento. O facilitador da oficina é o Ariel Ortiz Gomes, natural de Campo Grande – MS. Docente na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, atua nas áreas de Engenharia e Economia Ambiental. Militante na Pastoral da Juventude (PJ). É facilitador no Centro de Estudos Bíblicos – CEBI.

A proposta da oficina se propõe a pensar sobre questões abordadas na postagem abaixo,tendo como base o estudo biblico e o debate atual sobre midias socias, fakenews e etc.

Duas postagens que aborda a necessidade desse estudo e debate.
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Em Aracaju - SE.
 
 

Papa Francisco e os meios de comunicação.

 Fake news: redescobrir o valor do jornalismo

O Papa Francisco publicou a sua Mensagem para o LII Dia Mundial das Comunicações Sociais que se celebra no domingo, 13 de maio de 2018. O título é: “ ‘A verdade vos tornará livres’ (Jo 8, 32). Fake news e jornalismo de paz”. Refletimos aqui sobre a Mensagem do Santo Padre.
Rui Saraiva – Porto

A 24 de janeiro, memória litúrgica de S. Francisco de Sales, padroeiro dos jornalistas, foi publicada a Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais que se celebra no domingo dia 13 de maio. O título é:“ ‘A verdade vos tornará livres’ (Jo 8, 32). Fake news e jornalismo de paz”.
O Santo Padre aborda a particularidade jornalística das notícias falsas (fake news), assumindo a atualidade deste tema e sublinhando os seus danos. Francisco exorta os media a viverem a liberdade da verdade.
No preâmbulo da sua mensagem deixa claro o seu grande objetivo: “contribuir para o esforço comum de prevenir a difusão das notícias falsas e para redescobrir o valor da profissão jornalística e a responsabilidade pessoal de cada um na comunicação da verdade” – escreve o Papa.
Notícias falsas revelam atitudes intolerantes
Está no Livro do Génesis a “primeira fake news“– diz-nos o Santo Padre na sua mensagem propondo um “discernimento profundo e cuidadoso”. Desde logo, essa fake news apresenta uma específica técnica de implementação: “camuflar e morder em qualquer lugar” – escreve Francisco. Trata-se da estratégia utilizada “pela serpente”: “… a qual se tornou, nos primórdios da humanidade, artífice da primeira fake news, que levou às trágicas consequências do pecado” – assinala o Papa recordando o texto bíblico.
Apresentando uma argumentação com uma “aparência credível” – sublinha o Papa – “o tentador” do episódio do texto sagrado demonstra que “nenhuma desinformação é inofensiva; antes pelo contrário, fiar-se daquilo que é falso produz consequências nefastas. Mesmo uma distorção da verdade aparentemente leve pode ter efeitos perigosos” – escreve Francisco.
Na sua mensagem o Papa Francisco sublinha as notícias falsas como sendo “hábeis a capturar a atenção dos destinatários” baseando-se em “estereótipos” e “explorando emoções imediatas”. Notícias que podem ter objetivos económicos ou até políticos.
Em particular, o Santo Padre destaca a difusão de fake news em “ambientes digitais homogéneos”, nos quais é difícil desvendar e erradicar a sua eficácia devido ao facto de serem ambientes, muitas vezes, “impermeáveis a perspetivas e opiniões divergentes”.
Desta forma, as notícias falsas podem promover uma “lógica de desinformação” que provoca “o descrédito do outro” apresentando-o como “inimigo” dando espaço ao fomento de “conflitos” – salienta o Papa concluindo que “as notícias falsas revelam a presença de atitudes simultaneamente intolerantes e hipersensíveis, cujo único resultado é o risco de se dilatar a arrogância e o ódio. É a isto que leva, em última análise, a falsidade” – escreve Francisco.
A liberdade da verdade
“O antídoto mais radical ao vírus da falsidade é deixar-se purificar pela verdade” – afirma o Papa assinalando que “na visão cristã, a verdade não é uma realidade apenas conceptual”, não é apenas “desvendar a realidade”, mas “a verdade tem a ver com a vida inteira” – diz o Santo Padre na sua mensagem – “a verdade é aquilo sobre o qual nos podemos apoiar para não cair”.
Único “verdadeiramente fiável e digno de confiança” – lembra Francisco – é Jesus “o Deus vivo” que nos diz: “Eu sou a verdade”. “Sendo assim, o homem descobre sempre mais a verdade, quando a experimenta em si mesmo como fidelidade e fiabilidade de quem o ama. Só isto liberta o homem” – afirma o Papa.
“Libertação da falsidade e busca do relacionamento: eis aqui os dois ingredientes que não podem faltar, para que as nossas palavras e os nossos gestos sejam verdadeiros, autênticos e fiáveis” – escreve o Santo Padre sublinhando que “para discernir a verdade, é preciso examinar aquilo que favorece a comunhão e promove o bem e aquilo que, ao invés, tende a isolar, dividir e contrapor.” A verdade nasce – segundo o Papa – “de relações livres entre as pessoas, na escuta recíproca”.
Jornalismo de paz
Francisco, na sua mensagem centra a sua atenção no jornalista chamando-lhe “guardião das notícias”. “No mundo atual” – escreve o Papa – o jornalista desempenha não apenas “uma profissão”, mas uma “verdadeira e própria missão”. “No meio do frenesim das notícias” – diz Francisco – o jornalista “tem o dever de lembrar que, no centro da notícia, não estão a velocidade em comunicá-la nem o impacto sobre a audience, mas as pessoas” – afirma.
Desta forma, o Papa Francisco na sua mensagem aos media salienta a “precisão das fontes” e a “custódia da comunicação” como verdadeiros “processos de desenvolvimento do bem, que geram confiança e abrem vias de comunhão e de paz”.
Francisco propõe, assim, um “jornalismo de paz” que não seja “bonzinho” mas “hostil às falsidades”. Um jornalismo que “não se limite a queimar notícias”, que assuma as causas dos que “não têm voz”, desenvolva um registo de compromisso “na busca das causas reais dos conflitos” e que seja “feito por pessoas para as pessoas” propondo “soluções alternativas” à “violência verbal”.



No projeto de Deus, a comunicação humana é uma modalidade essencial para viver a comunhão. Imagem e semelhança do Criador, o ser humano é capaz de expressar e compartilhar o verdadeiro, o bom e o belo. É capaz de narrar a sua própria experiência e o mundo, construindo assim a memória e a compreensão dos acontecimentos. Mas, se orgulhosamente seguir o seu egoísmo, o homem pode usar de modo distorcido a própria faculdade de comunicar, como o atestam, já nos primórdios, os episódios bíblicos dos irmãos Caim e Abel e da Torre de Babel (cf. Gn 4, 1-16; 11, 1-9). Sintoma típico de tal distorção é a alteração da verdade, tanto no plano individual como no coletivo. Se, pelo contrário, se mantiver fiel ao projeto de Deus, a comunicação torna-se lugar para exprimir a própria responsabilidade na busca da verdade e na construção do bem. Hoje, no contexto duma comunicação cada vez mais rápida e dentro dum sistema digital, assistimos ao fenómeno das «notícias falsas», as chamadas fake news: isto convida-nos a refletir, sugerindo-me dedicar esta Mensagem ao tema da verdade, como aliás já mais vezes o fizeram os meus predecessores a começar por Paulo VI (cf. Mensagem de 1972: «Os instrumentos de comunicação social ao serviço da Verdade»). Gostaria, assim, de contribuir para o esforço comum de prevenir a difusão das notícias falsas e para redescobrir o valor da profissão jornalística e a responsabilidade pessoal de cada um na comunicação da verdade.

Que há de falso nas «notícias falsas»?

A expressão fake news é objeto de discussão e debate. Geralmente diz respeito à desinformação transmitida online ou nos media tradicionais. Assim, a referida expressão alude a informações infundadas, baseadas em dados inexistentes ou distorcidos, tendentes a enganar e até manipular o destinatário. A sua divulgação pode visar objetivos predefinidos, influenciar opções políticas e favorecer lucros económicos.
A eficácia das fake news fica-se a dever, em primeiro lugar, à sua natureza mimética, ou seja, à capacidade de se apresentar como plausíveis. Falsas, mas verosímeis, tais notícias são capciosas, no sentido que se mostram hábeis a capturar a atenção dos destinatários, apoiando-se sobre estereótipos e preconceitos generalizados no seio dum certo tecido social, explorando emoções imediatas e fáceis de suscitar como a ansiedade, o desprezo, a ira e a frustração. A sua difusão pode contar com um uso manipulador das redes sociais e das lógicas que subjazem ao seu funcionamento: assim os conteúdos, embora desprovidos de fundamento, ganham tal visibilidade que os próprios desmentidos categorizados dificilmente conseguem circunscrever os seus danos.
A dificuldade em desvendar e erradicar as fake news é devida também ao facto de as pessoas interagirem muitas vezes dentro de ambientes digitais homogéneos e impermeáveis a perspetivas e opiniões divergentes. Esta lógica da desinformação tem êxito, porque, em vez de haver um confronto sadio com outras fontes de informação (que poderia colocar positivamente em discussão os preconceitos e abrir para um diálogo construtivo), corre-se o risco de se tornar atores involuntários na difusão de opiniões tendenciosas e infundadas. O drama da desinformação é o descrédito do outro, a sua representação como inimigo, chegando-se a uma demonização que pode fomentar conflitos. Deste modo, as notícias falsas revelam a presença de atitudes simultaneamente intolerantes e hipersensíveis, cujo único resultado é o risco de se dilatar a arrogância e o ódio. É a isto que leva, em última análise, a falsidade.

Como podemos reconhecê-las?

Nenhum de nós se pode eximir da responsabilidade de contrastar estas falsidades. Não é tarefa fácil, porque a desinformação se baseia muitas vezes sobre discursos variegados, deliberadamente evasivos e subtilmente enganadores, valendo-se por vezes de mecanismos refinados. Por isso, são louváveis as iniciativas educativas que permitem apreender como ler e avaliar o contexto comunicativo, ensinando a não ser divulgadores inconscientes de desinformação, mas atores do seu desvendamento. Igualmente louváveis são as iniciativas institucionais e jurídicas empenhadas na definição de normativas que visam circunscrever o fenómeno, e ainda iniciativas, como as empreendidas pelas tech e media company, idóneas para definir novos critérios capazes de verificar as identidades pessoais que se escondem por detrás de milhões de perfis digitais.
Mas a prevenção e identificação dos mecanismos da desinformação requerem também um discernimento profundo e cuidadoso. Com efeito, é preciso desmascarar uma lógica, que se poderia definir como a «lógica da serpente», capaz de se camuflar e morder em qualquer lugar. Trata-se da estratégia utilizada pela serpente – «o mais astuto de todos os animais», como diz o livro do Génesis (cf. 3, 1-15) – a qual se tornou, nos primórdios da humanidade, artífice da primeira fake news, que levou às trágicas consequências do pecado, concretizadas depois no primeiro fratricídio (cf. Gn 4) e em inúmeras outras formas de mal contra Deus, o próximo, a sociedade e a criação. A estratégia deste habilidoso «pai da mentira» (Jo 8, 44) é precisamente a mimese, uma rastejante e perigosa sedução que abre caminho no coração do homem com argumentações falsas e aliciantes. De facto, na narração do pecado original, o tentador aproxima-se da mulher, fingindo ser seu amigo e interessar-se pelo seu bem. Começa o diálogo com uma afirmação verdadeira, mas só em parte: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?» (Gn 3, 1). Na realidade, o que Deus dissera a Adão não foi que não comesse de nenhuma árvore, mas apenas de uma árvore: «Não comas o [fruto] da árvore do conhecimento do bem e do mal» (Gn 2, 17). Retorquindo, a mulher explica isso mesmo à serpente, mas deixa-se atrair pela sua provocação: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: “Nunca o deveis comer nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis”» (Gn 3, 2-3). Esta resposta tem sabor a legalismo e pessimismo: dando crédito ao falsário e deixando-se atrair pela sua apresentação dos factos, a mulher extravia-se. Em primeiro lugar, dá ouvidos à sua réplica tranquilizadora: «Não, não morrereis» (3, 4). Depois a argumentação do tentador assume uma aparência credível: «Deus sabe que, no dia em que comerdes [desse fruto], abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal» (3, 5). Enfim, ela chega a desconfiar da recomendação paterna de Deus, que tinha em vista o seu bem, para seguir o aliciamento sedutor do inimigo: «Vendo a mulher que o fruto devia ser bom para comer, pois era de atraente aspeto (…) agarrou do fruto, comeu» (3, 6). Este episódio bíblico revela assim um facto essencial para o nosso tema: nenhuma desinformação é inofensiva; antes pelo contrário, fiar-se daquilo que é falso produz consequências nefastas. Mesmo uma distorção da verdade aparentemente leve pode ter efeitos perigosos.
De facto, está em jogo a nossa avidez. As fake news tornam-se frequentemente virais, ou seja, propagam-se com grande rapidez e de forma dificilmente controlável, não tanto pela lógica de partilha que carateriza os meios de comunicação social como sobretudo pelo fascínio que detêm sobre a avidez insaciável que facilmente se acende no ser humano. As próprias motivações económicas e oportunistas da desinformação têm a sua raiz na sede de poder, ter e gozar, que, em última instância, nos torna vítimas de um embuste muito mais trágico do que cada uma das suas manifestações: o embuste do mal, que se move de falsidade em falsidade para nos roubar a liberdade do coração. Por isso mesmo, educar para a verdade significa ensinar a discernir, a avaliar e ponderar os desejos e as inclinações que se movem dentro de nós, para não nos encontrarmos despojados do bem «mordendo a isca» em cada tentação.

«A verdade vos tornará livres» (Jo 8, 32)

De facto, a contaminação contínua por uma linguagem enganadora acaba por ofuscar o íntimo da pessoa. Dostoiévski deixou escrito algo de notável neste sentido: «Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras, chega a pontos de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo nem ao seu redor, e assim começa a deixar de ter estima de si mesmo e dos outros. Depois, dado que já não tem estima de ninguém, cessa também de amar, e então na falta de amor, para se sentir ocupado e distrair, abandona-se às paixões e aos prazeres triviais e, por culpa dos seus vícios, torna-se como uma besta; e tudo isso deriva do mentir contínuo aos outros e a si mesmo» (Os irmãos Karamazov, II, 2).
E então como defender-nos? O antídoto mais radical ao vírus da falsidade é deixar-se purificar pela verdade. Na visão cristã, a verdade não é uma realidade apenas conceptual, que diz respeito ao juízo sobre as coisas, definindo-as verdadeiras ou falsas. A verdade não é apenas trazer à luz coisas obscuras, «desvendar a realidade», como faz pensar o termo que a designa em grego: aletheia, de a-lethès, «não escondido». A verdade tem a ver com a vida inteira. Na Bíblia, reúne os significados de apoio, solidez, confiança, como sugere a raiz ‘aman (daqui provém o próprio Amen litúrgico). A verdade é aquilo sobre o qual nos podemos apoiar para não cair. Neste sentido relacional, o único verdadeiramente fiável e digno de confiança sobre o qual se pode contar, ou seja, o único «verdadeiro» é o Deus vivo. Eis a afirmação de Jesus: «Eu sou a verdade» (Jo 14, 6). Sendo assim, o homem descobre sempre mais a verdade, quando a experimenta em si mesmo como fidelidade e fiabilidade de quem o ama. Só isto liberta o homem: «A verdade vos tornará livres» (Jo 8, 32).
Libertação da falsidade e busca do relacionamento: eis aqui os dois ingredientes que não podem faltar, para que as nossas palavras e os nossos gestos sejam verdadeiros, autênticos e fiáveis. Para discernir a verdade, é preciso examinar aquilo que favorece a comunhão e promove o bem e aquilo que, ao invés, tende a isolar, dividir e contrapor. Por isso, a verdade não se alcança autenticamente quando é imposta como algo de extrínseco e impessoal; mas brota de relações livres entre as pessoas, na escuta recíproca. Além disso, não se acaba jamais de procurar a verdade, porque algo de falso sempre se pode insinuar, mesmo ao dizer coisas verdadeiras. De facto, uma argumentação impecável pode basear-se em factos inegáveis, mas, se for usada para ferir o outro e desacreditá-lo à vista alheia, por mais justa que apareça, não é habitada pela verdade. A partir dos frutos, podemos distinguir a verdade dos vários enunciados: se suscitam polémica, fomentam divisões, infundem resignação ou se, em vez disso, levam a uma reflexão consciente e madura, ao diálogo construtivo, a uma profícua atividade.

A paz é a verdadeira notícia

O melhor antídoto contra as falsidades não são as estratégias, mas as pessoas: pessoas que, livres da ambição, estão prontas a ouvir e, através da fadiga dum diálogo sincero, deixam emergir a verdade; pessoas que, atraídas pelo bem, se mostram responsáveis no uso da linguagem. Se a via de saída da difusão da desinformação é a responsabilidade, particularmente envolvido está quem, por profissão, é obrigado a ser responsável ao informar, ou seja, o jornalista, guardião das notícias. No mundo atual, ele não desempenha apenas uma profissão, mas uma verdadeira e própria missão. No meio do frenesim das notícias e na voragem dos furos, tem o dever de lembrar que, no centro da notícia, não estão a velocidade em comunicá-la nem o impacto sobre a audiência, mas as pessoas. Informar é formar, é lidar com a vida das pessoas. Por isso, a precisão das fontes e a custódia da comunicação são verdadeiros e próprios processos de desenvolvimento do bem, que geram confiança e abrem vias de comunhão e de paz.
Por isso desejo convidar a que se promova um jornalismo de paz, sem entender, com esta expressão, um jornalismo «bonzinho», que negue a existência de problemas graves e assuma tons melífluos. Pelo contrário, penso num jornalismo sem fingimentos, hostil às falsidades, a slogans sensacionais e a declarações bombásticas; um jornalismo feito por pessoas para as pessoas e considerado como serviço a todas as pessoas, especialmente àquelas – e no mundo, são a maioria – que não têm voz; um jornalismo que não se limite a queimar notícias, mas se comprometa na busca das causas reais dos conflitos, para favorecer a sua compreensão das raízes e a sua superação através do aviamento de processos virtuosos; um jornalismo empenhado a indicar soluções alternativas às escaladas do clamor e da violência verbal.
Por isso, inspirando-nos numa conhecida oração franciscana, poderemos dirigir-nos, à Verdade em pessoa, nestes termos:

Senhor, fazei de nós instrumentos da vossa paz.
Fazei-nos reconhecer o mal que se insinua em uma comunicação que não cria comunhão.
Tornai-nos capazes de tirar o veneno dos nossos juízos.
Ajudai-nos a falar dos outros como de irmãos e irmãs.
Vós sois fiel e digno de confiança;
fazei que as nossas palavras sejam sementes de bem para o mundo:
onde houver ruído, fazei que pratiquemos a escuta;
onde houver confusão, fazei que inspiremos harmonia;
onde houver ambiguidade, fazei que levemos clareza;
onde houver exclusão, fazei que levemos partilha;
onde houver sensacionalismo, fazei que usemos sobriedade;
onde houver superficialidade, fazei que coloquemos interrogações verdadeiras;
onde houver preconceitos, fazei que despertemos confiança;
onde houver agressividade, fazei que levemos respeito;
onde houver falsidade, fazei que levemos verdade.
Amen.

Vaticano, 24 de janeiro – Memória de São Francisco de Sales – do ano de 2018.
FRANCISCO