quinta-feira, 14 de março de 2019

Olhando a chacina de Suzano sem os chavões e clichês recorrentes. Mesmo que alguns façam sentido.

      foto Werther Santana
    Jornalista André Ortega
    A tragédia que aconteceu em uma escola num bairro de Suzano (essa de video de youtube falando "Escola Suzano" já é sintoma da banalização) merece o título de tragédia por sua profundidade, que vai além da superficialidade dos debates políticos que estão canibalizando o acontecimento.
    Vejo vários comentários que tentam emprestar a legitimidade de áreas como a sociologia e a psicologia, mas no fim mais se afastam do que se aproximam do problema.
    A esquerda tem esse vício do discurso com pretensão científica, o que ao invés de desvelar as interações que formam o fenômeno as encobre com alguma simplificação.
    É como o clichê de falar que tudo é "construção social", colocando alguma determinação unilateral por cima da da interações que formam o sujeito (nem consideram "sujeito"). No fim é forma insidiosa de reabilitar a falácia naturalista, "construção social" vira uma espécie de chave metafísica que explica tudo ("clavis aurea").
    Na sua especificidade, esse problema é um problema que diz respeito a área de estudos em comunicação.
    Isso é um fenômeno comunicacional internacional, que tem suas origens em fóruns nos Estados Unidos.
    Existem fóruns, grupos, ambientes comunicacionais em que esses jovens interagem, produzem e reproduzem signos com SOLIDEZ E CONSTÂNCIA, criando símbolos e cultura própria. Especificamente, eles criam uma pseudo ciência e uma narrativa que explica a situação de sofrimento dos membros, oferece identidades e noções éticas (extremamente distorcidas, mas prescritivas).
    É claro que existe um problema social, psicológico. Esses lugares virtuais não flutuam no nada e são formados por pessoas reais. A "civilização capitalista" dissolve laços de socialização, dissolve comunidades e cria indivíduos cada vez mais atomizados, ao mesmo tempo que os violenta e cria poucos parâmetros de referência além do consumismo - todos os valores fora do consumo (que é uma categoria extra-econômica, é antropológica) estão em crise.
    A sociedade não oferece valores tão sólidos. O individualismo é mais forte do que a socialização. De certa forma, não se oferece oportunidade para as pessoas fazerem algo pela sociedade, pelo coletivo. Não existem grandes referências, grandes acontecimentos.
    (jovens em situações de vulnerabilidade e pobreza mas que estão em comunidades são menos suscetíveis a esse tipo de coisa, mesmo que ali exista uma outras criminogenia - mesmo a máfia é uma forma de acolhimento)
    Tratar como um simples problema de "transmissão de ideologias", "ah o bolsonarismo, a extrema direita" é perder de vista uma realidade muito contemporânea. Estão presos no século XX, é uma resposta funcionalista, igual a conversa de culpar viodegame, como se as pessoas funcionassem assim como receptores passivos e determinados.
    Não tem medida administrativa, panaceia humanista ou aumento de gasto que vá fazer mágica.
    Não se resolve com materialismo de farmácia.
    (nisso eu incluo clichê noventista sobre "bullying")

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    A PROPÓSITO DO QUE ACONTECEU NA ESCOLA EM SUZANO NO DIA DE ONTEM (13/03/2019). O QUE ALGUMAS PRÁTICAS DEMONSTRAM SOBRE O QUE PODE CONCORRER PARA TRANSFORMAR DE FORMA SADIA E SAUDÁVEL O AMBIENTE E O CLIMA ESCOLAR. FAZENDO REPERCUTIR ATÉ NO CLIMA E AMBIENTE DAS FAMILIAS E DAS COMUNIDADES.
    Gestão democrática de " verdade", imprescindível para avançar nessa proposta de comunidade terapêutica. E aqui, antes que digam que professor não é psicólogo, não me refiro aqui ao termo terapêutico "stricto sensu". Me refiro a combinação da gestão democrática “de verdade”, da interdisciplinaridade, do esporte, dos saraus, cineclubes, das oficinas culturais, das aulas-passeio, das caminhadas em grupo, dos retiros/acampamentos , dos grupos de debates, não apenas de temas pedagógicos e políticos, mas também de questões ligados ao campo das emoções, dos sentimentos, das identidades, das fragilidades, dos temas tabus e etc.. e etc. Junto e misturado. Bem na linha do que meninos e meninas apontaram no movimento de ocupação de escolas e que Frei Betto propõe no texto ao final desse post.
    PROSSEGUINDO A DISCUSSÃO GERADA PELOS DOIS PEQUENOS TEXTOS REPUBLICADOS NO DIA DE ONTEM NO FACEBOOK. (leia no final desse post)
    Abaixo: Uma experiência bem sucedida na rede pública do Estado de São Paulo , mas destruída pelos militares.

    Com projeto de formação crítica, Ginásios Vocacionais foram extintos pela ditadura

    Aqui: O que tem sido feito de melhor hoje, na perspectiva defendida nos termos de comunidades terapêuticas de base.
     

     Sementes da Educação

    Série documental sobre iniciativas transformadoras na educação pública do Brasil.
     

    “ No decorrer da caminhada matinal do dia 15/01/2019, a lembrança de um país cheio de gente pirada, de gente maluca, inclusive ocupando a presidência e alguns ministérios.
    Daí me ocorre a idéia de comunidades terapêuticas de base, como podemos definir o que foi a AMABA/Projeto Reculturarte.
    Nas entrevistas com os que participaram dessa iniciativa sociocultural nos anos de 1990 no bairro américa, periferia de Aracaju, salta aos olhos o quanto as ações culturais, esportivas e de reforço escolar, colaboraram com a auto estima, o sentido de pertencimento e coesão, o centramento, a construção de sentido e projeto de vida, a consciência cidadã, a alegria, o bem viver.
    Portanto, precisamos ir além da discussão sobre o investimento em comunidades terapêuticas para tratar de dependentes químicos, assim como da discussão sobre a redução da maioridade penal, o que fará entupir os presídios e empurrar mais jovens para os braços do crime organizado.
    O mais necessário é evitarmos a necessidade disso, de gente pirada, de gente maluca, elegendo gente igual. E para tal, precisamos de mais comunidades terapêuticas de base. O que pode também prevenir a quantidade de adolescente paajovens enredados no crime e na violência.” 
    Professor Zezito de Oliveira 
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    "Dois jovens entram numa escola, saem atirando e se matam.
    Precisamos cuidar da saúde mental dos nossos jovens, precisamos dar mais atenção as emoções.
    "-Mas se tivessem penas mais duras? "
    Eles se mataram! Não faria diferença!
    " Mas isso é culpa dos jogos q assistem"
    Se eles se inspiraram num jogo, quer dizer q não sabem diferenciar realidade de fantasia. Falta saúde mental.
    Vamos cuidar do emocional uns dos outros. Que as escolas não sejam depósitos de gente e sim onde se cresce como ser humano. Cada jovem morto e cada funcionário foi uma vida que se foi, foram sonhos e famílias enterradas...
    Mais amor por favor... Tá bom2019.
    "

    Professora Carol Loureiro

    A escola dos meus sonhos Frei Betto

    leia também:

    Dogolochan: até quando ‘mascus’ vão destilar ódio, ameaças e marcar hora para matar?


    Massacre de Suzano foi celebrado em fórum acessado na deep web, mas não foi a primeira vez que um crime foi anunciado no grupo.

      O atirador de Suzano. Reportagem da Folha entrevistou familiares de Guilherme Taucci Monteiro, um dos atiradores do massacre ocorrido em escola na cidade de Suzano, no interior de São Paulo, e traz detalhes sobre a vida do jovem: bullying, obsessão por jogos e abandono dos pais.  Fonte dessa nota. Agência Pública

quarta-feira, 13 de março de 2019

Play list para os filhos (as) Santo Amaro da Purificação e para todos (as) que se sentem irmanados (as).

No domingo passado, dia 03 de março, eu e minha esposa Margarette fomos assistir ao documentário “Fevereiros”, em seu último dia de exibição, no Cine Vitória (na Rua do Turista), e posso garantir que o filme foi uma experiência mais que prazerosa, foi uma bênção, um grande presente de Deus, dos Orixás. Um presente, aliás, não só para mim, mas também para Margarette que, encantada com a produção do filme, já teve a feliz oportunidade de conhecer Santo Amaro da Purificação —minha cidade natal — em seus dias de alegria e de sagrada festividade, quando de nossas viagens ao recôncavo baiano.

Para essa afortunada ocasião, aproveitamos para convidar minha mãe, minhas duas irmãs e um irmão, que haviam chegado recentemente da Bahia (assim como eu, eles também são filhos de Santo Amaro) para nos acompanhar na sessão, uma obra que tem tudo a ver com eles também, com nossa história, com nossas origens. Puderam, inclusive, reconhecer amigos e conhecidos atuando naturalmente em meio à narrativa como coadjuvantes. Importante perceber que muitas outras pessoas, simples, humildes, mas que contribuem para a riqueza cultural e artística da cidade, estado e país foram lembradas durante a produção. Foi realmente um grande privilégio ter podido prestigiar aquele lindo filme, expressão audiovisual repleta de singularidades culturais e artísticas daquele povo abrilhantada pela voz da conterrânea Maria Bethânia e de seu Irmão Caetano Veloso.

Senti-me bastante contemplado e ambientado por tão ricas e pertinentes manifestações de nossa gente, de nossas belezas e raízes! Toda essa magia e encanto presentes em cada palavra, verso ou canção traduzem-se como marcas indeléveis que carrego aonde quer que eu vá, como parte imprescindível de mim.

E todo esse sentimento me faz perceber essa forte conexão entre Rio e Bahia, entre Fé e Carnaval, entre Música, História e Folclore. Assim como o Brasil se redescobre em cada uma dessas manifestações, assim também cada um de nós se redescobre ao vislumbrar e reconhecer sua própria história e seu povo sendo retratados por pessoas tão ilustres e talentosas, dedicadas à arte e ao fomento da paz, da cidadania e do amor que integra independente de tons, cores e matizes. Que venham outros fevereiros!

Viva à Maria Bethânia (a Menina de Oyá) e família Veloso, viva a Santo Amaro e à Nossa Senhora da Purificação e ao Carnaval, viva ao Rio de Janeiro e à Mangueira, viva à Iansã e a todos os Orixás! Viva à Arte!

Maxivel Ferreira

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019


"Fevereiros" com Maria Bethania apresenta um dos melhores "pedaços" de um Brasil despedaçado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A politização do carnaval e a culturalização da politica e da educação de base.(8)

LIGANDO OS PONTOS. UM MOMENTO FORTE DO PROJETO RECULTURARTE EM 1990 COM O CARNAVAL 2019.

Bastante curioso como os  dois tempos em que  estou imerso nesse momento, dialogam  de forma intensa. O  ano de 1990, quando escrevo sobre a organização do primeiro encontro de menores do bairro américa e a passeata  de protesto “culturalizada”,  realizada como culminância do referido encontro que aconteceu neste ano, e o tempo propriamente em que estou inserido agora, o ano de 2019  com seu  carnaval, considerado um dos mais politizados.


Da parte dos setores mais tradicionais e conservadores  de direita,  leio critica quanto aos aspectos imorais e violentos do carnaval, resumindo o carnaval a isso, tão somente. 


Como é do conhecimento de quem nos lê, o  exemplo mais eloquente  nesse sentido foi a postagem do vídeo pornográfico realizada pelo presidente Bolsonaro, como resposta a avalanche de criticas que recebeu dos  foliões de norte a sul do país. 


Também quem assistiu a cobertura do  carnaval 2019 realizado pela  TV Record, só viu cenas de violência associadas aos  festejos de Momo.  


Já do lado dos setores mais tradicionais e conservadores de esquerda, leio a reiteração da antiga  critica aos aspectos alienantes e de fuga do carnaval, resumindo o carnaval a isso, tão somente.

Como exemplo, temos a postagem abaixo que recebi no whatzap, compartilhada depois por mim com o adendo que está ao final.


“Já que o Carnaval acabou, vamos acordar pra vida.

"Vamos amigo, lute!
Vamos amigo, ajude!
Senão
A gente acaba perdendo o que já conquistou...
Vamos levante e lute!
Vamos levante e ajude!
Vamos levante e grite!
Vamos levante agora!
Que a vida não parou
A vida não pára aqui
A luta não acabou
E nem acabará
Só quando a liberdade raiar... "

(Edson Gomes) Lutar com arte! O carnaval 2019 deu a pista. Mas não esqueçamos o investimento necessário. ZdO


Também no rol de acontecimentos  próximos da semana do carnaval 2019, incluímos o gesto “carnavalizado” do ator José de Abreu que se autoproclamou presidente do Brasil, mesmo que este não   tenha sido parte da programação para este período, mas que acabou se conectando.  


E esse gesto “carnavalizado” recebeu criticas, à direita, ameaça de processo por parte de Bolsonaro e à esquerda, com comentários do tipo:   “A esquerda é  capaz de lotar um aeroporto pra brincar de “ Zé de Abreu na presidência”, mas não consegue  lotar as ruas  do Rio para protestar contra o Bozo e a Reforma da Previdência. Estamos bem! Bom sábado a todos.”


E o que tem a ver o micro  acontecimento, com alguns pormenores apresentado  abaixo, cuja pesquisa e escrita do texto foi concluída no dia de hoje, 10 de março de 2013, com o macro acontecimento do carnaval de 2019?


O depoimento de Paulo Sergio, na época educador e coordenador administrativo do projeto Reculturarte, nos mostra o quanto  a metodologia utilizada, se assemelha  ao processo pedagógico e cultural da construção de um carnaval de escola de samba ou de bloco afro.

Encontro que marcou o lançamento do projeto Reculturarte em Sergipe e da campanha nacional "Não Matem Nossas Crianças."

“O encontro muito bonito aconteceu no Bairro América,  na Escola Santa Rita de Cássia nos dias 23 , 24 e 25 de novembro de 1990. Depois, abrindo a programação do dia 26, tivemos a  missa que deu o ponta pé da mobilização de rua . Esta foi  celebrada pelo Pe. Didiu e pelo Pe. Gabriel, que eram salesianos,  na Igreja de São José,   o que  foi muito bom. Assim como foi  toda a concentração na Pça. Tobias Barreto, em frente a Secretaria de Segurança que ficava próximo a igreja, depois tivemos a caminhada até o centro da cidade, nos levando a crer que as autoridades de Sergipe iriam tomar posição  em relação as chacinas de crianças, ainda mais com o envolvimento do procurador geral da república,   na época Aristides Junqueira, da Anistia Internacional e da secção sergipana da  OAB, que  entrou de cheio, com o presidente Clóvis Barbosa. Naquela época a OAB era mais envolvida com a questão social. Depois,  continuando uma caminhada muito boa pelas ruas do centro da cidade. Me  recordo da presença de  Ivanir Santos, que era o coordenador do Centro de Apoio às Populações Marginalizadas (CEAP) do Rio de Janeiro  e que  veio a Aracaju lançar a campanha nacional “Não Matem Nossas Crianças”. Sobre o primeiro encontro,  acolhemos pela manhã as crianças e  os pais, a educadora Rosangela Souza  cantou, teve a palestra com Rosana do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, Zé da Guia e Zezito de Oliveira fizeram a abertura,  representando o CESEP e a AMABA respectivamente.  Frei Florêncio Pecorari, o pároco da Igreja São Judas Tadeu,  apareceu, deu uma palavrinha.  Teve  uma apresentação do próprio projeto  Reculturarte, por meio de um esquete de teatro e uma apresentação do grupo de dança FAMA, cujo responsável era o professor Henrique. Teve também  gincanas e brincadeiras, e  não poderia faltar o lanche e o  almoço. O almoço me marcou, porque quase todas as crianças do nosso projeto passavam por situações difícieis ,  por necessidade,  e algumas até  fome e o almoço foi bom, porque vimos a alegria e a felicidade dos pais dizerem, poxa em nosso bairro  tem uma entidade que promoveu um encontro esclarecedor, de educação, sobre cultura,  nos oferece um lanche e um  almoço desse. Estamos  num bairro bom. Não existia somente a guerra da maconha, razão,  segundo a policia, da morte de tantos  adolescentes e jovens.  Também existia projetos sociais que precisavam ser vistos pela comunidade, para estimular a comunidade a resistir, para  levantar a auto estima da comunidade e o encontro serviu para isso. Foi  graças ao encontro que  tivemos sucesso com a caminhada no centro. O encontro foi em três dias e no encontro mobilizamos toda comunidade para participar da caminhada. Muitas crianças que estavam na caminhada, eram do projeto Reculturarte, e já estavam participando de atividades como teatro, capoeira, escolinha de esporte e lazer, cooperativa dos guardadores de carros.  O encontro fez  o  lançamento da caminhada acontecer em grande estilo.”

Cena da caminhada de protesto contra o assassinato de crianças e adolescentes por grupos de exterminio em 1990.


Em síntese, preparação de uma caminhada de protesto em alguns dias,  imersos em um local, mesmo que não totalmente, já que as pessoas iam dormir em casa, e contando com estrutura  de apoio e formação pedagógica e cultural. 

E depois isso prossegue  de maneira permanente, não mais episódica ou pontual, isso por conta do apoio financeiro e técnico recebido das  agências  de cooperação Coordenadoria Ecumênica (CESE) e Visão Mundial e que se estenderam até o final da década de 1990. As oficinas culturais e a criação de grupos culturais, assim como o reforço escolar e a escolinha de esportes. Os  retiros/acampamentos como   momentos privilegiados para a formação humana integral.  Os encontros para formação de educadores com base na pedagogia de Paulo Freire. Os encontros com pais e familiares dos educandos. Os  festivais infantis e a festa Kizomba, momento anual de apresentação dos trabalhos produzidos pelos grupos culturais, que lembravam um pouco o clima e a apoteose que significa um desfile de grandes blocos ou escolas de samba.


E isso não lembra o  barracão e a quadra?  Espaços que escolas de samba e alguns blocos carnavalescos dispõem,  com a estrutura mínima necessária para que pessoas possam estudar, debater e criar materiais cênicos e cenográficos, entre outros tipos, para narrar uma história ou para construir uma espécie de ópera popular.


Mas há que querermos sempre mais , como bem disse a colega ativista e pesquisadora  do campo das culturas populares,  Marina Ribeiro, respondendo à  uma questão proposta pelo colega também pesquisador e ativista cultural, Jhonatam Vasconcelos. Disse Marina Ribeiro: “o desfile é emocionante,  mas não sei se os bastidores daquela construção também é. Conheço pouco do carnaval carioca, mas, do pouco que sei, cada vez menos cargos de comando são de pessoas pretas ou de pessoas da comunidade; as rainhas de baterias que muitas vezes têm que ser artistas; carnavalecxs tão distantes do berço do samba; necessidade de se ter muito muito, muito dinheiro para competir com o samba-enredo, etc etc etc. Não sei como estas críticas sociais desfilando na avenida são vividas no dia-a-dia das escolas e, principalmente, da comunidade que a escola ocupa. O quanto realmente se investe na comunidade para que seus/suas moradorxs possam ocupar (voltar a ocupar) espaços de lideranças, criação, de decisão, de poder dentro do núcleo ativo das escola/comunidade. Não sei mesmo sobre o carnaval carioca. Mas o canto de Nelson Sargento pra mim está sendo superior aos emocionantes desfiles: "mudaram toda sua estrutura, te impuseram outra cultura e você não percebeu" (Samba, Agoniza Mas Não Morre, 1978).”


E foi por isso não ter sido feito suficientemente, que a AMABA/Projeto Reculturarte chegou ao fim. Porém,  mais detalhes, tanto sobre isso, como a respeito do encontro e caminhada constarão no livro.


Não fosse assim,  a AMABA/Projeto Reculturarte, como tantas outras iniciativas de base comunitária que não conseguiram sobreviver, poderiam estar dando nesse momento  importantes contribuições para enfrentarmos os monstros e vampiros que querem devorar os nossos direitos e a nossa dignidade.


Mas ficaram as lições e resta-nos aprender. Tanto  a ´partir das que sucumbiram, como das que não sucumbiram. Por isso, vale conhecer, registrar, sistematizar, estudar, recuperar a história e difundir as melhores iniciativas dentre milhares de caráter social, educativo e cultural que colaboraram/colaboram  para os avanços e as conquista obtidas pelo povo brasileiro.


Como diz os palavras iniciais do capitulo 3 do livro bíblico Eclesiastes. “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu."  Decerto,  nestes tempos da onda conservadora fascista que pensa poder nos afogar, uma outra maneira de utilizar o tempo, para quem quer combate-la é viajar ao passado, tanto distante, como recente, para descobrir as luzes que ajudaram a descortinar os sóis do direito, da justiça,  da esperança, da alegria, do bem viver. E se puder,  transformar isso em uma grande narrativa de resistência e de superação como fizeram as escolas de samba Paraiso do Tuiuti e Mangueira.



quinta-feira, 7 de março de 2019

Roda de Dança Circular em Março de 2019 (1)


As Danças Circulares são uma expressão artística que sempre esteve presente na história da humanidade - nascimento, casamento, plantio, colheita, chegada das chuvas, primavera, morte - e refletiam a necessidade de comunhão, celebração e união entre as pessoas. Foi Bernhard Wosien (1908-1986), bailarino clássico, coreógrafo, pedagogo e pintor que, nas décadas de 50/60, percorreu o mundo recolhendo e resgatando as danças de diferentes povos. Em 1976, visitou a Comunidade de Findhorn, no norte da Escócia e, a pedido de Peter Caddy, um dos seus fundadores, ensinou pela primeira vez uma coletânea de danças folclóricas para os residentes.    Leia mais...

Abaixo reportagem da TV Tribuna - Santos (SP)

Dança circular é alternativa para quem busca equilíbrio do corpo e da mente

Não será hora de aprendermos a pedagogia da escola de samba?



"Uma vez eu disse, em um seminário com muitos doutores, que existia uma escola onde não há bullying, repetência, onde todos aprendem com alegria, e que esta seria a escola que queremos. Quando falei que era a escola de samba houve muito protesto. Enfim, existe uma efervescência na cultura brasileira, e é preciso e possível utilizar isso para uma educação integral, integradora e transformadora." 

Para Tião Rocha, cultura é matéria-prima da educação

A cidade de Curvelo, no sertão de Minas Gerais, ficou conhecida internacionalmente ao ser proclamada pelo escritor Guimarães Rosa (1908-1967) como “capital de minha literatura”. Pois na mesma Curvelo exaltada pelo autor de “Grande Sertão: Veredas” o educador Tião Rocha iniciou na década de 1980 um projeto fundamentado na cultura popular, que se tornou referência em inovação pedagógica.
Tião Rocha gosta de lembrar que a caminhada começou debaixo de um pé de manga. Com o sucesso da pedagogia da roda, como ele batizou os encontros em que as crianças conversam sobre tudo, e também decidem tudo, o educador foi consolidando a sua convicção de que a educação do futuro será praticada em vários espaços de aprendizagem, sempre tendo como base a cultura, o espelho da alma de um povo, de uma comunidade.
Antropólogo de formação, ex-professor universitário, Tião Rocha é presidente do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCP) e do Banco de Êxitos S/A. Nesta entrevista ao Compromisso Campinas pela Educação (CCE), o educador mineiro comenta momentos e aspectos de sua experiência e identifica alguns desafios que considera essenciais para a renovação da educação, e sobretudo do sistema escolar, no Brasil.
CCE – Você sempre destaca a importância da cultura popular para o processo educacional. Por que esta convicção?
Tião Rocha – Sempre parto do princípio de que a cultura é a matéria-prima da educação e do desenvolvimento. A educação pensada como processo de geração de aprendizagens e troca de saberes, fazeres e quereres. A cultura espelha o que as pessoas sabem, fazem e querem. É nessa troca que acontece o processo educativo, da mesma forma que é a base para um projeto de transformação e desenvolvimento.
CCE – A escola pública brasileira está aberta para esse conceito, de considerar a cultura como matéria prima para o processo educacional?
Tião Rocha – Infelizmente a escola pega pedaços da cultura que muitas vezes dizem muito pouco para as pessoas que estão na escola.  Os meninos levam os seus saberes para a escola, mas a escola muitas vezes não sabe de onde ele vem, a sua formação, a sua base cultural. A escola usa como critério de avaliação o valor que ela elegeu para si como culturalmente mais importante, independentemente de onde a criança vem. Aí é imposto um currículo, uma grade, um conteúdo, uma linguagem que não consideram o que a criança traz. Então fica um buraco e os buracos muitas vezes não são ocupados. Ou seja, a escola segue uma lógica que está na contramão da valorização cultural. Esta situação gera uma defasagem, um choque, e os meninos acabam detestando a escola porque ela não considera o lugar de onde ele vem. A criança adora a rua, as brincadeiras, as coisas que ela cria, o que o seu grupo faz. Ela tem um pertencimento. A cultura construída na infância faz sentido para ela. Como a escola não considera essa história, ela entende que o menino não gosta de estudar. Falta sensibilidade.
CCE – Você considera que é possível transformar este cenário?
Tião Rocha – É possível mudar, se a escola sair da própria caixa, da forma. Ela reproduz um conteúdo cultural que na maioria das vezes não faz sentido para as crianças. Se ela se abrir, deixar de ser uma instituição de “ensinagem”, para se transformar em uma instituição de aprendizagem, ela pode mudar. Se aprender com a realidade, considerar a realidade como cimento da transformação. É possível e já existem exemplos bem sucedidos nesse sentido. É fundamental descentralizar as decisões e considerar a educação como um exercício diário de busca de novos caminhos. A escola ainda tem medo da inovação, e aí fica fechada em si mesma.
CCE – Você considera que o novo Plano Nacional de Educação, que entrou em vigor recentemente, pode contribuir para a renovação da escola?
Tião Rocha – Quando estes planos são formulados, geralmente se pensa na escolarização. Mas a educação é um fim, a escola é apenas um meio. Um meio a serviço dos fins e não o contrário. É importante não confundir as coisas. Então às vezes acontece um equívoco no nascedouro de um plano, pois não se pensa no que a escola deve estar comprometida, qual a sua função social, para que ela serve. Ela deve ajudar a formar melhores cidadãos, dignos, felizes e honestos, ou somente para formar mão de obra para um mercado que às vezes não é ético? Então é essencial pensar o papel da escola.
CCE – Qual a sua visão sobre educação integral?
Tião Rocha – Está havendo uma confusão entre educação integral com escola em tempo integral. É outro equívoco. Toda educação deve ser integral e integradora. E temos a vida inteira para aprender. Devemos entender que a educação apenas acontece no plural, ela não existe no singular, o pressuposto é a pluralidade de aprendizagem. Isso é educação integral. Então é um equívoco considerar que o menino deve ficar oito horas ocupado na escola porque na rua ele estaria ocioso, fazendo coisas que não são boas. Ou seja, seria uma forma de tirar os meninos da rua. Mas eles devem ocupar a rua também. A rua da construção da comunidade, da cidadania. Com esta visão equivocada a escola pode virar uma prisão. Se o menino tiver disciplinas do currículo pela manhã e aulas de tambor ou capoeira à tarde, da mesma forma que ele aprende aquelas disciplinas, ele vai acabar achando o tambor e a capoeira chatos. Para que estamos formando os meninos? Esta deve ser a pergunta.
CCE – Você acha que o futebol, um dos patrimônios culturais brasileiros, pode ser uma ponte importante no processo educacional?
Tião Rocha –  Pode e deve. Existe uma enorme potencialidade no futebol, assim como no Carnaval. No caso do processo da Copa do Mundo no Brasil, muita gente disse que “não vai ter Copa”. Mas o povo assumiu a Copa porque gosta de futebol e ponto. Há 30 anos fizemos uma experiência com futebol em Curvelo, como um canal para o fortalecimento da cidadania ativa. Mas o menino queria ir lá para jogar futebol, para brincar. Uma experiência foi amarrar um menino no outro para formar um time. Então tínhamos 40 no campo e não somente 22. Um podia jogar com a perna direita e outro com a esquerda. Então era uma questão de equilíbrio, de trabalho realmente em equipe. Era muito divertido. Os primeiros jogos terminavam em zero a zero. Com o tempo aprenderam a jogar assim. Foi uma oportunidade para discutir muita coisa. Se mergulharmos a fundo na cultura brasileira, há inúmeras oportunidades para o processo educacional. Também existe o potencial do Carnaval. Uma vez eu disse, em um seminário com muitos doutores, que existia uma escola onde não há bullying, repetência, onde todos aprendem com alegria, e que esta seria a escola que queremos. Quando falei que era a escola de samba houve muito protesto. Enfim, existe uma efervescência na cultura brasileira, e é preciso e possível utilizar isso para uma educação integral, integradora e transformadora.



Um sermão de Carnaval – Frei Betto
Por Frei Betto –
Festejai! Dançai! Diverti ó nobres pecadores! Trazei às ruas vossas fantasias, as que se abrigam nos baús e as que fervilham em vossas mentes! Eis que chega o Carnaval! E, agora, toda carne se fará verbo.
Não fujais à alegria de Momo. A vida é breve, os dias árduos, os sofrimentos frequentes e as dores, muitas. Sobrepairam tempos sombrios de mentiras oficiais, de esperanças minguadas, de direitos castrados. Não percais o ânimo de escalar o apogeu. Entoai alvíssaras do alto dos morros e do cume dos prédios!
Não vos omitais da euforia popular. Nuvens carregadas insistem em cegar o sol e coturnos pesados esmagam o asfalto. Tempestades brotam até do chão, em forma de lama. Portanto, não deixeis de se incorporar aos cordões que volteiam alegres às vossas portas. Lançai serpentinas e confetes por vossas cabeças e inebriai de êxtases os vossos corações.
Integrai-vos todos – crianças, idosos, abastados e desdentados -, aos blocos que colorem de cantos e encantos todos os recantos da cidade. Não permitais que nos roubem o júbilo, a exaltação do espírito, a euforia que se apodera de razão e propaga emoção. Não deis espaço ao desalento, desacreditai a tristeza, impedi que as más notícias soneguem o júbilo do pierrô e da colombina.
Evocai os deuses, os orixás e os espíritos benfazejos para que nos festejos reine a mais irrevogável democracia, na qual as antinomias se fundem, as contradições se volatilizam, o futuro se avizinha quando o ajudante de pedreiro exibe sua majestade encimada pela coroa dourada e a faxineira descida da favela se revela rainha no cortejo triunfal.
Ide todos aos desfiles! Juntai-vos à multidão daqueles que tanto incomodam aos arautos ressentidos do moralismo exacerbado: homossexuais, travestis, indígenas, quilombolas, moradores de rua, comunistas e adeptos do papa Francisco. Proclamai o direito à diferença sem que prevaleça a divergência. Fazei vibrar os dedos das mãos sobre vossas cabeças, qual revoar de abelhas besuntadas de mel, antes que o indicador e o polegar se paralisem em simulacro bélico.
Não ocultais sob a vergonha o que Deus não se envergonhou de ter criado. Reverenciai a sacralidade da nudez, a do corpo e a da alma, para que a transparência predomine sobre a obscuridade. Tende em conta que a indecência não reside no que se expõe à vossa frente, e sim em vossos olhos desviados da inocência. Ousai todos manifestar a soberania da arte, livre de todas as amarras da censura.
Desfilai pelo sambódromo e exibi, na suntuosidade dos carros alegóricos, a pujança da Amazônia ameaçada pela voracidade do lucro; as alegorias dos casais que se unem por amor, alforriados da ditadura hétero; as utopias libertárias do século XX, que induziram tantos jovens a se viciarem em utopia, livres das sombras necrófilas de supostas filosofias eivadas de ódio; a bateria rítmica que celebra com seus tambores o direito à vida dos rejeitados pelo crivo assassino da desigualdade social.
Vinde todos entoar o samba-enredo da magia carnavalesca nessa quarta-feira de cinzas iniciada desde o primeiro dia do ano. Na festa de Momo são exaltados os humilhados, celebrados os descartados, reverenciados os ofendidos. Limpai vossas gargantas, apurai vossas vozes, cantai a plenos pulmões para que o Carnaval se dissemine por corações e mentes e se prolongue por dias e anos vindouros.


O Carnaval dá a pista. Com criatividade, irreverência e humor a massa vai às ruas para protestar e o país "freve".




06 de março de 2019, 18h07 - Revista Fórum

Vitória da Mangueira sacramenta derrota de Bolsonaro no Carnaval

Enquanto nas ruas os protestos contra Bolsonaro dominaram os blocos, na Sapucaí a Estação Primeira de Mangueira lavou a alma dos brasileiros ao desconstruir os heróis e as ideias defendidas pelo presidente e contar a verdadeira história do país

Foto: RioTur
A Estação Primeira de Mangueira conquistou, nesta quarta-feira (6), seu 20º título do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro.

A  vitória da escola de samba sacramentou a derrota do presidente Jair Bolsonaro neste Carnaval. Enquanto nas ruas os protestos contra o presidente dominaram os blocos, transformando a festividade em um verdadeiro ato nacional de resistência ao governo autoritário, a Mangueira, na Sapucaí, lavou a alma dos brasileiros ao desconstruir os heróis e as ideias defendidas pelo presidente e contar a verdadeira história do país. 

 A agremiação, com o enredo “História pra ninar gente grande”, fez um desfile histórico em que homenageou heróis esquecidos como lideranças negras, indígenas e mulheres – segmentos que Bolsonaro historicamente procura marginalizar. 

 Entre os “heróis esquecidos” homenageados pela escola, estão, por exemplo, o lendário Sepé Tiaraju, guerreiro indígena que lutou contra a dominação portuguesa e espanhola no Brasil, e mulheres negras do Quilombo dos Palmares, como Acotirene e Dandara. 

 A homenagem a Marielle Franco, citada no enredo, foi um dos destaques do desfile. O rosto da vereadora e ativista dos direitos humanos foi estampado em bandeiras e faixas na última ala, que contou com a presença, na avenida, do deputado federal Marcelo Freixo e do vereador Tarcísio Motta, ambos do PSOL, partido de Marielle, além da viúva da vereadora, a arquiteta Mônica Benício. 

Outro destaque do desfile da verde e rosa foi o carro que representou os assassinatos e                                perseguições da ditadura militar, em uma verdadeira provocação ao capitão da reserva que, além de um entusiasta do período, tem entre seus ídolos militares torturadores.

Representando a memória dos mortos e desaparecidos da ditadura, estava a jornalista Hildegard Angel,  filha de Zuzu Angel e irmã de Stuart Angel, ambos assassinados pelo aparelho repressor dos anos de chumbo. Ela estava em cima de um livro gigante e a frente de um em que se lia “ditadura assassina”.

Em tempos de “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, a Mangueira ainda ousou ao apresentar uma bandeira do Brasil com as cores da escola onde, no lugar de “Ordem e Progresso”, se lia “Índios, Negros e Pobres”.

“Na luta é que a gente se encontra”, dizia o enredo da escola de samba. De fato, o Brasil se encontrou na luta deste carnaval.


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