sábado, 24 de outubro de 2026

ELEIÇÃO 2026 - O CORAJOSO DOM LIMACÊDO, OS BISPOS DA CARTA E OS ACOVARDADOS BISPOS DO BRASIL: A IGREJA E O PERIGO DO "COMPLEXO DE CASSANDRA" -Padre Gegê (*)

 

"Em artigo dirigido aos bispos do Brasil, um padre preto e periférico afirma que “silenciar também é tomar partido” e cobra do episcopado coragem profética diante do avanço da extrema-direita e do segundo turno das eleições presidenciais, defendendo posicionamento claro em favor dos pobres, da democracia e da vida em todas as suas dimensões. O texto evoca Guimarães Rosa, Dom Helder Câmara, os papas Francisco e Leão XIV e a carta de bispos católicos sobre o pleito."


“O que a vida quer da gente é coragem", escreveu João Guimaraes Rosa. E disse jesus: “Não tenhais medo!”. Dependendo da gravidade da situação, um bispo que não "toma partido" não deixa de ser bispo, em perspectiva sacramental, mas desmerece o seu ser paternal que habita em sua alma. E podem sim deixar terríveis dúvidas quanto ao exercício da paternidade na fé e na responsabilidade para com a vida integral do rebanho.

Quantos pais ausentes conhecemos? 

Dizer-se pai é coisa séria demais! É coisa tão séria que diz a Escritura: "A ninguém chameis de pai". Psicologicamente, "Pai" e "Mãe", além de figuras carnais, são arquétipos poderosíssimos do Inconsciente Coletivo. 

 Em nossa reflexão, falo da coragem requerida para todos os bispos/pais do Brasil que exercem, como São José, uma função paternal de real grandeza. Trato, evangelicamente falando, da coragem do pastor que não foge, covardemente, quando o lobo aparece; atitude própria dos mercenários que não se interessam pelas suas ovelhas. Coragem é a força interior que faz agir em perigoso tempo; isso implica "tomar partido", posicionamento e, consequentemente, correr riscos. Adverte padre Júlio Lancelotte: "Quem se mistura com os que apanham, vai apanhar também". 

É necessário registrar que o Brasil conta com uma plêiade valorosa de bispos cujas trajetórias gozam de exemplaridade para toda Igreja. Não podemos deixar de fazer memória dessa nuvem de pais na fé que não deixaram seus filhos e filhas lançados à própria sorte. Entre outros: Dom Helder Câmara, José Maria Pires (Dom Zumbi), Luciano Mendes, Paulo Evaristo Ars, Ivo Locheider, Adriano, Waldir Calheiros, Mauro Moreli, Pedro Casaldaliga... Os bispos de hoje não são "pais sem pais", "pais sem avôs"... É preciso honrar a multidão de testemunhas que com seus báculos sustentaram a defesa da vida em todas as suas dimensões. A CNBB, com avanços e recuos, nunca deixou de levantar a bandeira da dignidade humana. É uma trajetória honrosa. De Medellin à V Conferência Episcopal Latino-Americana em Aparecida, bispos corajosos sustentaram (e sustentam) uma Igreja fiel à opção preferencial pelos pobres ancorada no Evangelho. É um caminho sem volta.

Por que muitos bispos desprezam essa trajetória magnífica animada e sustentada pelo Espírito de Deus?

Não tenho interesse de pautar questões eclesiológicas. Tenho sim o confessado desejo de tomar a simbólica do bispo como pai, "especialmente dos pobres", como afirma a V Conferência de Aparecida, como razão pela qual nenhum bispo pode, por força de seu ministério paternal, descuidar da sorte dos desvalidos. E escrevo na posição filial. No contexto da V Conferência de Aparecida, afirmam os bispos: 

"Para todo povo de Deus, em especial para os presbíteros, procuramos ser pais, amigos e irmãos, sempre abertos ao diálogo". Minha escrita está situada neste plano. É, pois, a voz filial e fraternal de um padre preto e periférico endereçada aos bispos do Brasil – pais na fé e filhos preciosos da Mãe Igreja.  A Igreja (Povo de Deus, como enfatiza o Concílio Vaticano II), não se reduz   ao episcopado; mas não se diz sem ele.

O sacramento da ordenação imprime caráter indelével ("ex opere operato"), mas este reclama uma personalidade suficientemente capaz de suportar o peso das opções fundamentais do Evangelho e da caminhada da Igreja. Por vezes, uma coisa são os documentos e suas deliberações, e bem outra são as ações concretas. 

Os bispos, na compreensão profunda da Igreja, não são figuras decorativas ou notas de rodapé na obra salvífica/libertadora de Deus no coração da história. São pais na fé e, sobretudo em tempos desafiadores, como o segundo turno das eleições para presidente do Brasil (25), não podem deixar de exibir uma “coragem criativa”, nos termos da Carta Apostólica "Patris corde” (“Coração de pai”) do Papa Francisco. A propósito, escreveu Francisco em tom comprometedor: "São José é invocado como protetor dos miseráveis, necessitados, exilados, aflitos, pobres e moribundos. E pela mesma razão a Igreja não pode deixar de amar em primeiro lugar os últimos, porque Jesus conferiu-lhes a preferência ao identificar-Se Pessoalmente com eles”. Então, nos corpos flagelados destes, segundo Francisco, encontramos sempre “o Menino e sua mãe”. José tomou partido! 

Estão os bispos dispostos a "tomar partido" contra o perigo da ascensão da extrema-direita? Estão dispostos, à luz do Evangelho, a apontar sistemas políticos de poder pautados na violação dos direitos e na sacralizacão do ódio e da violência?

Por que muitos preferem o silêncio e a falsa neutralidade?

O que realmente ganham com isso? Que privilégios não estão dispostos a perder?

Silenciar também é tomar partido!

Quando digo "tomar partido" me refiro a posicionamentos concretos na defesa dos pobres e vulnerais à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja. Papa Francisco deixou um extraordinário legado no horizonte da defesa da vida. Papa Leão, na mesma direção, segue “tomando partido” diante dos que promovem a guerra, o terror e o ódio.

Ancorado nos valores do Evangelho, não teve e não tem medo de Trump! O Papa "tomou partido"! Apareceu ao mundo como um pai responsável. 

Sobre o avanço da extrema direita, disse corajosamente, Leão XIV que os ideários que carregam não constituem expressões autênticas do cristianismo. Isso é "tomar partido", assumindo inúmeras críticas e ataques. É necessário lembrar o testemunho de Dom Helder Câmara.  Diz o bispo, pai e profeta: "Eu não tenho medo quando dizem: 'A Igreja está se metendo em política'". E continua o bispo: "depende do que se entende como política.  Se política é sinônimo de preocupação com o bem comum, é preocupação com os direitos fundamentais da criatura humana. Política, neste sentido, não é só um dever da Igreja, é uma obrigação da Igreja".

Há tipos de bispo/pais aprisionados no mundo institucional e burocrático da Igreja. Vivem sim confinados em seus palácios, alheios aos gritos e dores do mundo. Não são bispos/pais "em saída".  Afirma Dom Helder: "Partir é não ficar apenas em volta dos problemas das instituições a que pertence. Por mais importantes que sejam, maior é a humanidade a quem nos cabe servir".

Há bispos/pais que, contraditoriamente, nutrem uma defesa seletiva da vida: aparecem como tigres ferozes quando o assunto é aborto e sexualidade, mas se mostram gatos mansos, no espriquiçamento contínuo dos seus corpos, quando o assunto é genocídio, chacina e racismo estrutural. 

Importante dizer que a palavra "covardia" vem de "coda"=calda, que vai significar "ter calda abaixada"; ou mais popularmente, aquele que põe o rabo entre as pernas. 

No contexto do segundo turno do pleito eleitoral, que elegerá não só um presidente do Brasil, mas definirá rumos de nossa pátria, as palavras corajosas de Dom Limacêdo, bispo de Afogado de Ingazeira (PE), em 11 de outubro, devem, ser consideradas não como uma "politicagem" barata e com motivações ideológicas, como muitos incomodados querem fazer crer. São sim um alerta profético de um bispo que assume no concreto da vida o lugar de pai responsável e profetados pobres. Diz o negro/bispo/pai:

"O que está em jogo não são duas pessoas, é um modelo de sociedade. É muito mais amplo do que duas pessoas. Corremos o risco de enfrentar uma ditadura. Digo sem medo de dizer isso. Tenho a responsabilidade em dizer. Se eu não disser, eu estou pecando diante de Deus e diante de vocês. Eu, que sou o pastor dessa diocese, não posso me dispensar desse anúncio”. 

E o bispo/pai disse o que eu considerei mais forte e belo: “Não seria fiel aquilo que eu prometi quando fui ordenado padre, quando fui ordenado bispo”. 

Eis, pois, a voz de um bispo/pai "em saída". 

"Sair" exige, por vezes, enlamear-se, pondo em risco o próprio nome ou reputação; é pôr a cara à tapa, assumindo o peso da decisão. Ao contrário há bispos que vivem, como diz o teólogo Ronilso Pacheco na obra “profetismo: utopia & insurgência”, para "'sacralizar a reputação', mesmo quando, ao invés de usar este termo, a expressão mais utilizada seja mais palatável, como 'equilíbrio', 'ponderação', 'saberia', 'discernimento' ou 'precaução'".

Em posição contrário, estão os corajosos bispos do Brasil que, no dia 22 de outubro, escreveram e assinaram a histórica e profética CARTA DE BISPOS CATÓLICOS AO POVO DE DEUS DIANTE DO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAS DE 2026. Segundo a Carta, a Igreja não pode ficar do lado que "ameaça frontalmente diversos pontos centrais da Doutrina Social da Igreja DSI), a existência da democracia, da soberania nacional e a prática do bem comum". 

Mas, a bem-aventurada Carta começa lembrando as desconcertantes palavras do Papa Leão XIV em sua primeira encíclica. Afirma o Papa:

"Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros...". 

Minha escrita versa sobre isso. Por essa razão, é voz de um filho aos pais.

Em linguagem simbólica, na minha compreensão, os padres não somos "edipianos", isto é, não desejamos a morte do pai (bispo) para desposarmos a mãe (Igreja). Somos, na minha acepção psicomitológica, muito mais telemaquianos, isto é, somos o Telémaco que, na Odisséia de Homero, procura desesperadamente o rosto e a voz do pai-Ulisses. Em outros termos, sobretudo em momentos sombrios e desafiadores, sempre esperamos o rosto e a voz dos bispos, a voz do pai – ainda que este se encontre engolindo seus próprios filhos, por conta do carreirismo e do poder, como o Cronos devorador da mitologia grega; ou distante como  Ulisses na Odisséia; ou como Agamenon que, na Ilíada,  mata sua própria filha (Ifigênia) por causa do triunfo da guerra; ou vivo/morto como o pai do conto "A terceira margem do rio" de Guimarães Rosa; ou realmente morto, como o Rei Hamlet de Shakespeare. 

Onde estão os pais? O que fazem agora?

Todo grito pelo pai, sobretudo dos desesperados, ao fim e ao cabo, de uma forma ou de outra, reedita na história o grito de Jesus pendente no madeiro: "Eli, Eli, lama sabactáni"?

É importante ressaltar que, no que se refere a Cristo, todos estamos no mesmo barco. Mas, na vida concreta, há bispos e cardeais (e padres também) que vivem confortavelmente nos seus "iates" palacianos, teológicos e doutrinários, enquanto grande parte do povo (e dos padres) atravessam perigosos mares sem um pedaço de madeira para se agarrar. Lembra oportunamente o teólogo Leonardo Boff: "Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam".

Para vergonha do Evangelho, há autoridades da Igreja mais preocupadas em defender os privilégios dos que dominam do que os direitos dos vulneralizados. São eles, sempre, eclesiasticamente, bajulados e blindados, mas insensíveis e infelizes pastores que, vendo as ovelhas em risco de morte, ainda assim, nelas só conseguem enxergar a carne, o couro e a lã.

Afirma, magistralmente, o pretíssimo teólogo Ronilso Pacheco: "Os palácios escolheram seus profetas e os (pseudo) profetas escolheram os seus palácios". 

Para um exame de consciência eclesial, a partir de cima, são bem-vindas as palavras de Dom Helder Câmara, por mais que possam doer aos ouvidos dos filhos e filhas da Santa Madre Igreja. Diz com extraordinário realismo o bispo/pai/ - irmão dos pobres, como o chamou São João Paulo II: 

"A Igreja não é sempre tão bela, tão pura, tão corajosa e sincera como ela deveria, e mesmo como ela o queria ser".

Por fim, o que, filialmente, digo vale para toda Igreja (e ultrapassa o pleito eleitoral): do divórcio, por vezes escandaloso, entre o falado e o vivido, é que penso no perigo do Complexo de Cassandra".  

Na mitologia grega, Cassandra fez um pacto com o deus Apolo, a partir do qual recebeu o dom de profetizar.  Mas, como não honrou o combinado, recebeu a terrível maldição: embora profetizasse a verdade, ninguém acreditaria em suas palavras.  Por exemplo, Cassandra alertou aos troianos quanto ao perigo do "cavalo de Tróia" pensado pelo astuto Ulisses, mas ninguém deu crédito às suas palavras. Ela disse a verdade, mas ninguém acreditou!

Os heróis gregos, então, por conta do cavalo, atravessaram a muralha e venceram a guerra. 

Cassandra é, pois, em minha particular reflexão, imagem adequada da profecia desacreditada e, consequentemente, fracassada, em virtude da contradição interna daquele ou daquela que a profere. 

Pode a Igreja sofrer o "complexo de Cassandra"?

Que cada um responda por si. Da minha parte, deixo as palavras desconcertantes de Dom Helder Câmara. E quem tiver ouvidos para ouvir, ouça.  

Adverte o bispo/pai/profeta: a massa ou o povo vai despertar: com a Igreja, sem a Igreja ou contra a Igreja. 

E se o povo, olhando para trás, tiver a percepção de que a Igreja não teve coragem de defendê-lo, conclui o bispo vermelho: "então, acabou o cristianismo"!

"Veni creator Spiritus" - Vinde, Pai dos pobres!

(*)  Doutor em Ciência da Religião pela PUC-SP, Mestre em Teologia Sistemática e psicólogo clínico pela PUC-RJ e pós-graduado em Teoria Junguiana pelo IBMR.


quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Mensagem do Blog da Cultura aos cristãos católicos e de outras denominações com os bispos da CNBB e com o Papa Leão XIV para as eleições de 25 de Outubro de 2026



quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Neste Brasil em transe, muitas canções nos consolam, nos ensinam e nos incentivam a seguir lutando.

 Seguem algumas canções que nos conectam a esta quadra histórica que estamos vivendo — uma possibilidade de trilha sonora para o roteirista desta epopeia que chamamos Brasil, pensada para ajudar a atravessar esse acontecimento histórico referente ao 4 e ao  25 de outubro.



A primeira  “Será”, do Legião Urbana, para as cenas de reações de surpresa e decepção com o resultado do primeiro turno das eleições em 4 de outubro; seguida de “Coração Civil”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, para introduzir um respiro de esperança e levantar o astral. A seguir, para lembrar que será uma luta bastante difícil e que o resultado pode ser desfavorável, entra “Roda Viva”, de Chico Buarque; já para a possibilidade de vitória, para desejar e comemorar, caso provavelmente aconteça: “Nem Cinco Minutos Guardados”, dos Titãs. Perpassando todo o enredo, “É”, de Gonzaguinha. E, logo depois da vitória, para comemorar “Maria, Maria”, de Milton Nascimento,  e Credo,  também de Milton Nascimento e Fernando Brant “Tenha fé em nosso povo, que ele resiste”.




Mais canções para uma segunda play list , esta acima. Para a irrupção do povo nas ruas "amar e mudar as coisa me interessam mais" de Belchior. Também para a multidão nas ruas , Chame Gente , de Moraes Moreira e "Eu quero botar o meu bloco nas ruas." de Sérgio Sampaio. Para recomendar a não eleição de Flávio Bolsonaro, "meninos mimados  não podem reger a nação" de Criolo. Para comemorar a vitória de Lula "pro dia nascer feliz" de Cazuza.

Mensagem do Blog da Cultura aos cristãos católicos e de outras denominações com os bispos da CNBB e com o Papa Leão XIV para as eleições de 25 de Outubro de 2026

 



Sem citar Flávio Bolsonaro, 60 bispos católicos divulgam carta sobre 2º turno e criticam 'políticas de devastação que caracterizaram o Governo de seu pai'


A carta não cita nominalmente Lula nem Flávio Bolsonaro. No documento, os religiosos afirmam que "o cenário é muito grave" e que a eleição pode representar "uma mudança profunda nos rumos da nação". Procurada pelo g1, a CNBB reafirmou a defesa da democracia, do respeito aos resultados das urnas e da participação consciente dos eleitores no segundo turno.
Por Camila da Silva, g1 — São Paulo

23/10/2026 - atualização pelo blog da cultura em 12:14

Um grupo de 60 bispos católicos de 19 estados brasileiros divulgou, nesta quinta-feira (22), uma carta sobre o segundo turno das eleições presidenciais de 2026.

"O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI [Doutrina Social da Igreja], a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum", afirma um trecho.
Intitulada "Carta de Bispos Católicos ao Povo de Deus diante do Segundo Turno das Eleições Presidenciais de 2026", a manifestação reúne nomes de 47 bispos, arcebispos e bispos eméritos de diferentes dioceses e arquidioceses brasileiras.

O texto não menciona nominalmente o presidente Lula (PT) nem o senador Flávio Bolsonaro (PL), que disputam o segundo turno.

No entanto, faz referências ao governo do pai de um dos candidatos. Ao abordar o acesso a armas, por exemplo, os religiosos afirmam que "um dos candidatos promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu Governo".

Os religiosos afirmam que pretendem contribuir para a decisão dos eleitores católicos a partir dos ensinamentos sociais da Igreja.

"Queremos auxiliar os católicos em sua decisão, apontando alguns pontos de antagonismo entre o ensinamento social da Igreja e uma das candidaturas em disputa", diz a carta.

O documento também faz uma comparação com experiências autoritárias do século XX e afirma que a eleição pode representar uma mudança profunda nos rumos do país.

"Não se trata apenas de uma escolha eleitoral, tantas vezes já praticada no Brasil, mas da possibilidade de uma mudança profunda nos rumos da nação, cujos exemplos na história do século XX deixaram cruéis e amargas lembranças", afirmam.
Procurada pelo g1, a CNBB reiterou o posicionamento divulgado na quarta-feira (21), em defesa da Constituição, do Estado Democrático de Direito, do respeito aos resultados das urnas e da participação consciente dos eleitores no segundo turno. A entidade não se manifestou especificamente sobre a carta dos 47 bispos.

"Reafirmamos a importância da defesa da Constituição, do Estado Democrático de Direito e do respeito aos resultados legítimos das urnas, expressão da liberdade de escolher os que governam. Encorajamos a participação consciente de todos neste segundo turno das eleições", afirma a mensagem oficial.




Leia abaixo a íntegra da carta e a relação dos nomes apresentados como signatários.

CARTA DE BISPOS CATÓLICOS AO POVO DE DEUS DIANTE DO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2026.

22 de outubro de 2026

O Senhor Deus falou, quem não profetizará? (Am 3,8)

O papa Leão XIV, em sua encíclica Magnifica Humanitas, diz: “Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros nem é suficiente pensar ‘não ser cúmplice’” (216).

Nós, bispos católicos de diversas dioceses do Brasil em comunhão com a CNBB, alinhados com a Mensagem do Conselho Permanente ao Povo Brasileiro, de 21/10/2026, acreditamos ser necessário e urgente, aplicarmos ainda mais em nossas preces pelo País e multiplicar mensagens para ajudar nos discernimentos, já que vivemos no Brasil uma dessas situações mencionadas pelo Papa Leão XIV, diante do cenário eleitoral dado, que exige tomar posição em nome do Santo Evangelho e da Doutrina Social da Igreja (DSI).

“O anúncio do Evangelho não pode esquecer a vida concreta dos povos” (Rerum Novarum, 15). O católico e a católica devem exercer a sua cidadania inspirados pela DSI e decidir o seu voto à luz de seus ensinamentos. Devem deixar “que o Evangelho [...] avalie as estruturas econômicas e políticas que, como viria a recordar São João Paulo II, podem tornar-se verdadeiras e próprias ‘estruturas de pecado’, para que nenhuma pessoa e nenhum povo sejam vistos como prescindíveis nos processos de desenvolvimento (Magnifica Humanitas, 36)


Duas candidaturas estão colocadas. Independentemente de votarmos ou não, um dos candidatos será o próximo presidente do Brasil. Mas é preciso votar. Votem para fazer a diferença. O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI, a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum. Não se trata apenas de uma escolha eleitoral, tantas vezes já praticada no Brasil, mas da possibilidade de uma mudança profunda nos rumos da nação, cujos exemplos na história do século XX deixaram cruéis e amargas lembranças.

Queremos auxiliar os católicos em sua decisão, apontando alguns pontos de antagonismo entre o ensinamento social da Igreja e uma das candidaturas em disputa.

As mudanças tecnológicas do mundo atual “não podem ser avaliadas apenas em termos de eficiência, mas a partir da dignidade do trabalhador, do direito a uma remuneração suficiente e da efetiva possibilidade de participar na vida social” (Magnifica Humanitas, 37). A candidatura que sempre foi contra o fim da escala 6x1 e propunha pagar o salário por hora trabalhada, não reconhece a dignidade do trabalhador e poderá voltar a este tema.

“A promoção do bem comum nunca pode ser separada do respeito pelo direito dos povos a existir [...]. Qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, por isso, inaceitável (Magnifica Humanitas, 64). Um dos candidatos promete submissão do Brasil aos Estados Unidos (EUA), fez parte de uma conspiração para taxar produtos brasileiros, defende a intervenção estrangeira em nossas eleições e promete entregar nossas terras raras à exploração dos EUA.

A exortação apostólica Dilexi Te (Eu te amei, sobre o amor para com os pobres) critica os que pensam que “seria melhor deixar [os pobres] na miséria e ensinar-lhes antes a trabalhar” e que “a liberdade do mercado levará naturalmente à solução do problema da pobreza” (114). O partido de um dos candidatos sempre foi publicamente contrário aos programas sociais e de combate à pobreza, por desconhecerem as causas da miséria no Brasil, mesmo que agora o seu candidato diga que vai continuar alguns programas sociais. Estão, portanto, em contradição com a evangélica opção preferencial pelos pobres, reafirmada nos principais documentos de nossa Igreja.

A DSI propõe o desarmamento e diz que “o enorme aumento das armas representa uma ameaça grave para a estabilidade e a paz” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 508). Um dos candidatos promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu Governo.

O cuidado com a Ecologia Integral é hoje elemento central da DSI. A Laudato si’ critica “as atitudes que barram os caminhos de solução” que “vão da negação do problema à indiferença" (14). Um dos candidatos não reconhece a crise climática, nega os problemas ecológicos e quer dar continuidade às políticas de devastação que caracterizaram o Governo de seu pai e a atuação de seu partido no Congresso. Lembremo-nos da “Lei da Devastação” (nº 15.190/2025) aprovada no ano passado.

“O discípulo de Cristo rejeita todo recurso [à tortura], de modo algum justificável” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 404). Um dos candidatos é publicamente favorável à tortura e sua família fez homenagens a um dos maiores torturadores da ditadura brasileira, o general Brilhante Ustra, que matou muitas pessoas.

“A Igreja encara com simpatia o sistema da democracia [...]; ela não pode, portanto, favorecer a formação de grupos restritos de dirigentes, que usurpam o poder do Estado a favor dos seus interesses particulares ou dos objetivos ideológicos” (Centesimus Annus, 46). Um dos candidatos é filho do presidente que foi condenado e preso por atentar contra a democracia e segue suas ideias. Fez várias declarações de ameaça à ordem constitucional e, se eleito, governará com maioria absoluta no Congresso Nacional e no STF, criando as condições para uma usurpação do poder e submissão do país à sua ideologia.

Por outro lado, temos outra candidatura que, embora também esteja sujeita a críticas, sempre manifestou responsabilidade com os pobres e com a Casa Comum e atuou dentro dos limites da ordem democrática, respeitando a Constituição. Gostar ou não do atual Governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja.

Diante desses e inúmeros outros elementos, não podemos nos manter neutros, a fim de que nossa consciência ou a história não nos condenem no futuro. Quem se calou diante das ameaças totalitárias que se concretizaram na Europa do século XX deixou uma herança vergonhosa para as gerações seguintes.

Conclamamos a todos os católicos para que não deixem de exercer seu direito e votem no dia 25 de outubro, em defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos de nossa Igreja.

Que Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, ilumine a mente de cada um e cada uma de nós.

Assinam:

Dom Adolfo Zon Pereira, SX, Bispo da Diocese do Alto Solimões AM

Dom Adriano Ciocca Vasino, Bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia MT

Dom Benedito Araújo, Diocese de Campo Maior PI

Dom Edmilson Tadeu Canavarros dos Santos, Bispo da Prelazia de Itacoatiara AM

Dom Edson Damian, Bispo Emérito de São Gabriel da Cachoeira AM

Dom Egidio Bisol, Bispo Emérito da Diocese de Afogados da Ingazeira PE

Dom Evaldo Carvalho dos Santos, Bispo da Diocese de Viana MA

Dom Eugênio Rixen, Bispo Emérito de Goiás

Dom Evaristo Pascoal Spengler, Bispo da Diocese de Roraima

Dom Flavio Giovenale, Bispo da Diocese de Cruzeiro do Sul AC


Dom Francisco Cota de Oliveira, Bispo da Diocese de Sete Lagoas MG

Dom Frei Pedro Cesário Palma OFMCap, Bispo de Jardim MS

Dom Frei Samuel Ferreira de Lima, OFM, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Manaus AM

Dom Geraldo dos Reis Maia, Bispo da Diocese de Araçuaí MG

Dom Giovane Pereira de Melo, Bispo de Araguaína TO

Dom Giuseppe Luigi Spiga, Bispo da Diocese de Grajaú MA

Dom Itacir Brassiani, Bispo da Diocese de Santa Cruz do Sul RS

Dom João Batista de Oliveira, Bispo da Diocese de Corumbá MS

Dom João Muniz Alves, OFM, Bispo da Diocese de Xingu-Altamira PA

Dom Joaquim Hudson de Souza Ribeiro, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Manaus AM

Dom Joel Maria dos Santos, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte MG

Dom José Albuquerque de Araújo, Diocese de Parintins AM

Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, SDV, Bispo Presidente da CPT Comissão Pastoral da Terra

Dom Jose Luiz Ferreira Salles, Bispo da Diocese de Pesqueira PE

Dom Jose Mario Stroeher, Bispo de Rio Grande/RS

Dom José Reginaldo Andrietta, Bispo da Diocese de Jales SP

Dom Lauro Sérgio Versiani Barbosa, Bispo da Diocese de Colatina ES

Dom Lucio Nicoletto, Bispo da Prelazia de São Felix do Araguaia MT

Dom Luiz Antonio Lopes Ricci, Bispo de Diocese de Itapetininga SP

Dom Luiz Fernando Lisboa, Arcebispo da Diocese de Cachoeiro do Itapemirim ES

Dom Luiz Gonzaga Fechio, Bispo da Diocese de Amparo SP

Dom Manoel João Francisco, Bispo Emérito da Diocese de Cornélio Procópio PR

Dom Mauro Montagnoli. Bispo Emérito de Ilhéus BA

Dom Nereudo Freire Henrique, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife PE

Dom Norberto Foerster, Bispo da Diocese de Ji-Paraná RO

Dom Otair Nicoletti, Bispo da Diocese de Coxim MS

Dom Paolo Andreolli, Bispo da Diocese de Ponta de Pedras PA

Dom Paulo Mendes Peixoto, Arcebispo da Arquidiocese de Uberaba MG

Dom Pedro José Conti, Bispo Emérito de Macapá AP

Dom Raimundo Possidonio Carrera da Mata, Bispo da Diocese de Bragança do Pará

Dom Roque Paloschi, Arcebispo da Arquidiocese de Porto Velho RO

Dom Sebastião Lima Duarte, Bispo da Diocese de Caxias do Maranhão

Dom Silvio Guterres Dutra, Bispo da Diocese de Vacaria RS

Dom Vanthuy Neto, Bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira AM

Dom Vicente de Paula Ferreira, Bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora BA

Dom Zanoni Demettino Castro, Arcebispo da Arquidiocese de Feira de Santana BA

Dom Zenildo Lima da Silva, Bispo Auxiliar de Manaus AM


Mateus 13:16 

― Mas bem-aventurados os olhos de vocês, porque veem, e os ouvidos de vocês, porque ouvem.








Leia aqui a entrevista completa do Papa onde essa questão foi abordada. 

Ludwig Ring-Eifel (KNA) Hoje estivemos em Metz, muito perto da fronteira alemã, mas, até agora, o senhor ainda não foi à Alemanha. Portanto, minha pergunta básica é: quando podemos esperá-lo do outro lado da fronteira? E isso tendo como pano de fundo dois fenômenos que talvez também o preocupem: o declínio constante da Igreja Católica na Alemanha e o surpreendente crescimento de partidos extremistas no país, que ameaçam romper o consenso em torno da Europa, sobre o qual o senhor falou hoje em Metz.

Com toda a humildade, direi que sou Papa há apenas cerca de quinze meses. Há muitos lugares que ainda não visitei. Tenho, sim, um convite. Espero voltar à Alemanha — quero dizer, já estive lá antes, mas não como Papa — e espero visitar a Alemanha, assim como espero visitar muitos outros lugares. Mas ainda não tenho uma programação definida. Ainda estou trabalhando na agenda do próximo ano, e a única viagem definitivamente programada é a Jornada Mundial da Juventude, na Coreia. Portanto, aos poucos estamos chegando lá. Mas obrigado pela paciência e pela pergunta. Sobre a expressão que o senhor usou, de que “a Igreja está morrendo na Alemanha”, ou sobre a diminuição dos números: as pessoas já disseram isso sobre a França no passado e, no entanto, vimos o que aconteceu ao longo destes últimos quatro dias. Acredito que, se encontrarmos o verdadeiro espírito missionário e a maneira adequada de colocá-lo em prática, ainda existem muitas, muitas pessoas na Alemanha que desejam viver e celebrar sua fé cristã e católica. Portanto, sou otimista em relação a isso, embora reconheça os problemas e as diferentes causas que atingiram duramente a Igreja. Mas isso também atingiu duramente — por assim dizer — a Igreja evangélica ou protestante e afetou a sociedade praticamente da mesma maneira. Mas espero poder me aproximar dessa realidade. Espero continuar trabalhando com os responsáveis pela Igreja na Alemanha e encontrar maneiras de responder a essa situação. Seria interessante estudar e analisar se existe, e de que maneira poderia existir, uma relação, por exemplo, entre o crescimento desses grupos de extrema direita. A própria extrema direita está se fragmentando agora, como se pode observar: um determinado grupo está se tornando ainda mais extremista em relação a outros grupos considerados de extrema direita. Ao mesmo tempo, vemos também algumas manifestações que combinam essas posições de extrema direita com um determinado tipo de religião. E não é apenas a minha opinião: tanto os líderes da Igreja Católica quanto os da Igreja Protestante na Alemanha já se pronunciaram a respeito, afirmando que isso não constitui uma expressão autêntica do cristianismo. E, mais uma vez, voltamos aos valores do Evangelho, que não são valores de ódio e divisão, mas de compreensão, compaixão e acompanhamento.

Espero profundamente — e espero que a Igreja também possa contribuir para isso — que possamos encontrar maneiras de nos aproximar da maioria das pessoas de boa vontade, que compreenderão a importância de seu compromisso, inclusive por meio da participação nos processos políticos, para que possam fazer escolhas claras em favor do bem comum, e não de ideias extremistas que talvez possam causar danos muito maiores do que aqueles dos quais temos consciência neste momento. Portanto, penso que todos nós devemos encorajar nessa direção. Mais uma vez, de nossa parte, como Igreja, por meio da Doutrina Social da Igreja, cabe-nos falar, ensinar e pregar aquilo que acreditamos serem valores que promovem a vida, e não a destruição, a divisão e o ódio.

Para saber o que é Extrema Direita no Brasil.

Como a extrema direita conquistou o Brasil? O que faz pessoas com interesses, valores e visões de mundo tão diferentes se unirem em torno de um mesmo projeto político? Como o medo, a religião, a defesa da família e o discurso anticorrupção ajudaram a construir o bolsonarismo?

Saiba mais AQUI 

MENSAGEM DO CONSELHO PERMANENTE DA CNBB AO POVO BRASILEIRO POR OCASIÃO DO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES NACIONAIS DE 2026

“Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6,33)
Às vésperas do segundo turno das eleições, dirigimo-nos ao povo brasileiro com fraterna estima. O Brasil, como país soberano, necessita de trabalho digno, alimentação, moradia, saúde, educação e segurança de qualidade. Precisa cuidar do meio ambiente, garantir os direitos humanos e promover a paz. O desenvolvimento deve assegurar vida digna e justa a todos e oportunidades às novas gerações. Espera-se que todos(as) os(as) eleitos(as) assumam esses compromissos com determinação.
Reafirmamos a importância da defesa da Constituição, do Estado Democrático de Direito e do respeito aos resultados legítimos das urnas, expressão da liberdade de escolher os que governam. Encorajamos a participação consciente de todos neste segundo turno das eleições.
O voto é livre e secreto. Ameaçar ou pressionar eleitores bem como negociar votos são práticas inadmissíveis. Governos recebem mandatos, os cidadãos conservam a responsabilidade de participar, fiscalizar e reivindicar. A crítica responsável e o diálogo franco fortalecem a democracia. Essa tarefa exige informação confiável, liberdade de expressão e proteção para quem denuncia injustiças.
Cada eleitor(a) é convidado(a) a considerar a trajetória dos candidatos, suas práticas e seus compromissos com a democracia e com as condições de vida do povo. Nossa esperança em Jesus Cristo nos chama ao compromisso com o Reino de Deus. Atentos aos pobres, aos ameaçados e aos que trabalham pela justiça, continuemos responsáveis uns pelos outros e pelo nosso país.
Que Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, interceda por nós e ajude-nos a vencer a indiferença e a construir uma convivência fundada na verdade, na fraternidade e na paz.
Brasília - DF, 21 de outubro de 2026
Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB




quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Se a canoa Brasil não virar, é Olê, Olê, Olê, Olá, Lula lá, Lula lá! E depois?

"Na reta final do segundo turno das eleições presidenciais, a presença de artistas nas mobilizações, a circulação de vídeos que estimulam a reflexão crítica e os encontros culturais em defesa da democracia revelam possibilidades de aproximar comunicação, cultura e participação popular. Essas experiências também apontam desafios para um eventual quarto governo Lula: incorporar a Educação Popular, a Ação Cultural e a Participação Social como práticas permanentes de formação política, mobilização cidadã e fortalecimento da democracia, tanto nos territórios quanto nas redes digitais." 

 Se a canoa Brasil não virar por completo neste segundo turno, com uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, será preciso que um possível governo Lula 4 leve bastante a sério os conceitos e as práticas de Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social, tanto nos formatos presenciais quanto nos digitais. Será por necessidade, não por escolha.

A reta final desta campanha eleitoral oferece exemplos que merecem ser observados não apenas pelo seu impacto imediato na disputa, mas também pelo que revelam sobre as possibilidades de formação crítica, mobilização e participação popular na sociedade brasileira.

1 – A forte presença dos artistas e da arte nesta campanha. Não apenas dos artistas mais conhecidos, mas também de uma multidão de pessoas que se apropria das linguagens artísticas para se expressar, comunicar sentimentos e afirmar um jeito de ser e estar no mundo. Isso é Ação Cultural em movimento mil grau, misturando o conceito com uma gíria atual. A arte não entra apenas para animar a campanha: ela ajuda a construir vínculos, traduzir sentimentos e dar forma pública a valores e projetos de sociedade.


2 – O desafio lançado em torno da abertura do sigilo. Aqui, vale observar algo que também faz parte da Educação Popular: lançar perguntas em vez de apresentar afirmações fechadas ou respostas prontas. A pergunta pode provocar, desestabilizar certezas e abrir espaço para que cada pessoa examine as próprias convicções. É uma estratégia que exige disposição para o diálogo e capacidade de problematizar a realidade, especialmente quando a polarização eleitoral parece reduzir tudo a respostas automáticas.


3 – Os vídeos do projeto Revelando, realizados pela equipe do podcast Calma Urgente, sob a liderança de Alessandra Orofino, com apoio e colaboração do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), da Mídia Ninja e da produtora 342 Artes. A experiência merece atenção quando o conteúdo audiovisual ultrapassa a função de informar ou sensibilizar e contribui para a formação crítica, a construção coletiva do conhecimento e a participação das pessoas na vida pública. Em uma campanha marcada pela disputa de narrativas, importa não apenas o que se comunica, mas também a capacidade de ajudar o público a compreender os interesses, os contextos e as contradições em jogo.    https://www.youtube.com/@revelando_br

4 – O canal Brasil Fora das Cavernas. Entre os formatos de vídeo utilizados pelo canal, um deles me chamou a atenção: as entrevistas nas ruas, com perguntas problematizadoras dirigidas a eleitores . É uma experiência interessante para pensar as possibilidades e os limites da Educação Popular no ambiente digital. Quando os entrevistados não conseguem se desvencilhar das armadilhas lógicas em que estão mergulhados, isso fica exposto para quem acompanha o diálogo com disposição crítica e compromisso democrático. Mas o desafio educativo vai além de mostrar contradições: consiste também em compreender como determinadas convicções se formam e como é possível abrir brechas para a reflexão.  https://www.youtube.com/@BrasilForadaCaverna

5 – O Manifesto Cultural — A Cultura Também é Campo de Luta! promoveu um encontro gratuito na ONÇA — Casa de Cultura e Arte, em Aracaju, reunindo artistas, educadores, comunicadores e representantes de coletivos juvenis em uma roda de conversa sobre cultura, democracia e estratégias de mobilização, seguida de shows e exposição artística. A iniciativa valorizou a arte como expressão política, espaço de diálogo, fortalecimento de redes e instrumento de resistência e transformação social.
A experiência aproxima-se da Educação Popular freireana ao transformar o espaço cultural em lugar de diálogo, consciência crítica, reconhecimento de saberes e articulação política. A cultura não aparece apenas como produto artístico ou entretenimento, mas como prática educativa e instrumento de participação cidadã. É nesse encontro entre reflexão, expressão e ação coletiva que se manifesta seu potencial transformador.

Esses exemplos, observados nesta reta final do segundo turno, ajudam a perceber que a disputa eleitoral não se resume à escolha entre candidaturas. Ela também revela como as pessoas constroem suas opiniões, compartilham informações, expressam sentimentos, reconhecem pertencimentos e participam da vida pública.

Se a democracia está em disputa, não basta esperar que as pessoas reconheçam o melhor argumento. É preciso criar condições para que possam construir seus próprios argumentos, confrontar informações, reconhecer interesses e se tornar protagonistas da vida pública.

Por isso, se houver continuidade do projeto político representado por Lula, Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social não poderão permanecer restritas aos discursos, aos programas institucionais ou aos períodos eleitorais. Precisarão integrar uma política permanente, articulando territórios, movimentos sociais, escolas, universidades, Pontos de Cultura e redes digitais.

A lição que esta campanha deixa é que não basta disputar votos: é preciso fortalecer, todos os dias, a capacidade coletiva de compreender e transformar o Brasil.



O que faz da série de vídeos Revelando uma experiência de educação popular?

 O projeto Revelando, realizado pela equipe do podcast Calma Urgente, sob a liderança de Alessandra Orofino, com apoio e colaboração do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), da Mídia Ninja e da produtora 342 Artes, pode ser compreendido como um exemplo de educação popular por meio digital quando o conteúdo audiovisual ultrapassa a função de informar ou sensibilizar e passa a contribuir para a formação crítica, a construção coletiva do conhecimento e a participação das pessoas na vida pública.

Essa compreensão dialoga com o pensamento de Paulo Freire, para quem a educação popular não consiste em transmitir conhecimentos prontos a pessoas tratadas como receptoras passivas, mas em criar condições para que os sujeitos compreendam criticamente a realidade em que vivem e se reconheçam como capazes de transformá-la. Nessa perspectiva, o meio digital não é apenas um canal de distribuição de vídeos: pode se tornar um espaço de diálogo, mobilização, produção de sentidos e aprendizagem compartilhada.

A série apresenta reportagens audiovisuais sobre acontecimentos e problemas históricos que continuam influenciando o Brasil contemporâneo. O primeiro episódio, por exemplo, aborda a eugenia, as esterilizações forçadas e a permanência dessas ideias em discursos atuais na internet.


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1 - O que faz da série de vídeos  Revelando uma experiência de educação popular?

1. Parte de questões que afetam a vida concreta das pessoas

A educação popular ganha força quando trata de questões que atravessam a vida cotidiana, os direitos, as desigualdades e as relações de poder. Ao relacionar acontecimentos históricos com problemas atuais, o projeto oferece elementos para que o público compreenda que muitas situações do presente têm raízes sociais e políticas profundas.

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2. Transforma informação em possibilidade de leitura crítica

O audiovisual pode tornar assuntos complexos mais acessíveis, articulando pesquisa, narrativa, imagens e apresentação. Quando contextualiza os acontecimentos e explicita suas conexões, ajuda o espectador a ultrapassar a informação fragmentada e a formular perguntas sobre quem exerce poder, quem é beneficiado e quem sofre as consequências de determinadas decisões.

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3. Amplia o acesso ao conhecimento por meio das redes

A publicação gratuita dos episódios no YouTube e sua circulação nas redes sociais permitem que pessoas fora dos espaços tradicionais de ensino e debate tenham acesso aos conteúdos. A série também aborda temas ligados a direitos e decisões políticas, como a controvérsia sobre a chamada PEC das Praias.

2. A relação com Paulo Freire e a educação popular

O diálogo com Paulo Freire permite compreender melhor tanto as possibilidades quanto os limites dessa experiência. Na perspectiva freireana, educar não significa apenas oferecer informações corretas, mas favorecer a leitura crítica do mundo, reconhecendo a experiência dos sujeitos e sua capacidade de produzir conhecimento.

O projeto Revelando pode contribuir para esse processo em pelo menos quatro dimensões:

  • Conscientização: oferece informações que podem ajudar a reconhecer desigualdades, interesses e relações de poder que nem sempre aparecem nas narrativas mais difundidas.

  • Problematização: apresenta questões que convidam o público a rever explicações simplificadas e a relacionar passado e presente.

  • Democratização do conhecimento: utiliza uma linguagem audiovisual capaz de alcançar públicos diversos, para além de cursos, universidades e publicações especializadas.

  • Mobilização para o diálogo: os vídeos podem servir de ponto de partida para conversas em escolas, associações comunitárias, Pontos de Cultura, coletivos juvenis e movimentos sociais.

É importante, porém, fazer uma distinção: um vídeo acessível e bem pesquisado não se transforma automaticamente em educação popular. Na concepção de Paulo Freire, o processo educativo se completa quando o conhecimento entra em diálogo com a realidade dos sujeitos, suas experiências, suas dúvidas e suas possibilidades de ação.

3. Do vídeo à práxis: como transformar a experiência digital em educação popular?

É aqui que o exemplo do Revelando se torna especialmente interessante para a atuação de organizações culturais e comunitárias. Os vídeos podem ser utilizados como disparadores de processos formativos que articulam comunicação, cultura e participação social.

Etapa 1 — Assistir e compreender

Exibir um episódio, presencialmente ou por celular, e identificar o problema central, os acontecimentos apresentados, as fontes e os diferentes sujeitos envolvidos.

Etapa 2 — Dialogar e relacionar com a realidade

Promover uma roda de conversa: onde esse problema aparece em nossa comunidade? Que experiências conhecemos? Quais grupos são mais afetados? O que ainda precisamos investigar?

Etapa 3 — Investigar e produzir conhecimento

Consultar documentos, comparar fontes, ouvir moradores e especialistas e confrontar as informações do vídeo com a realidade local. Os participantes deixam de ser apenas espectadores e se tornam investigadores.

Etapa 4 — Criar e compartilhar

Produzir vídeos curtos, podcasts, depoimentos ou pequenos documentários que expressem as conclusões do grupo e apresentem questões relevantes para outras pessoas da comunidade.

Etapa 5 — Agir sobre a realidade

Organizar uma atividade pública, uma campanha de conscientização, uma reunião comunitária ou um diálogo com gestores públicos. A aprendizagem passa a orientar uma ação coletiva.

Esse percurso aproxima o audiovisual digital da práxis da educação popular: reflexão e ação articuladas na busca pela transformação da realidade.

4. O que o Revelando ensina aos Pontos de Cultura?

Para iniciativas como o Ponto de Cultura Juventude e Cidadania e outras experiências da Ação Cultural, a principal contribuição está em perceber que a tecnologia digital pode ampliar o alcance da ação cultural sem substituir o protagonismo das comunidades.

O Revelando oferece uma referência de linguagem, narrativa e circulação de conteúdos. Os Pontos de Cultura podem se apropriar dessas possibilidades para trabalhar com a memória dos territórios, a história das comunidades, os direitos culturais, a juventude, as desigualdades sociais e os problemas que afetam a população.

A diferença fundamental está na relação entre quem produz e quem recebe o conteúdo. Em uma comunicação vertical, a comunidade é tratada como audiência. Em uma experiência de educação popular, ela também participa da escolha dos temas, da pesquisa, da interpretação dos problemas e da produção de respostas.

Por isso, o celular, a edição de vídeos e as plataformas digitais não são apenas recursos técnicos. Quando apropriados coletivamente, tornam-se instrumentos de expressão, formação crítica e participação cidadã.

Síntese

O projeto Revelando pode ser considerado uma referência de educação popular via meio digital porque articula jornalismo audiovisual, contextualização histórica, acesso público à informação e circulação de questões relevantes para a sociedade. Seu potencial educativo se amplia quando os conteúdos estimulam o pensamento crítico e alimentam processos de diálogo, investigação e ação coletiva.

A lição para a Ação Cultural é que não basta ensinar jovens a filmar, editar e publicar vídeos. É preciso criar condições para que aprendam a ler criticamente o mundo, narrar a própria realidade, disputar os sentidos da informação e participar da transformação de seus territórios. É nesse encontro entre comunicação, cultura e organização comunitária que o audiovisual digital pode se tornar uma ferramenta efetiva de educação popular.

Referências para aprofundar: o canal do Revelando no YouTube, onde estão publicados os episódios da série, e a obra Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, para fundamentar a dimensão dialógica, crítica e transformadora dessa proposta.

Artigo produzido com suporte do Chat GPT

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O FILHO DO RIOCENTRO - BERNARDO MELLO FRANCO - O GLOBO - 18/10/2026

 

E pensar que eu estava no Riocentro naquele show... poderia nem estar aqui para votar agora #boraLula - ZdO

Em 30 de abril de 1981, um capitão e um sargento do Exército cruzaram o Rio em missão secreta. Transportavam duas bombas para causar terror e pânico num show que reunia milhares de jovens em comemoração ao Dia do Trabalhador. O plano era culpar a esquerda e sabotar o processo de redemocratização do país.

Em 30 de abril de 1981, um tenente que amava a ditadura, mas era tido pelos superiores como "excessivamente ambicioso", assistiu em Resende ao nascimento do primeiro filho. Tempos depois, ele entraria na política como porta-voz dos porões.

Ninguém escolhe o dia em que vem ao mundo, e Flávio Bolsonaro não tem culpa de ter nascido no dia do atentado do Riocentro. No entanto, todos são responsáveis pelas escolhas feitas na idade adulta. Entre a democracia e a ditadura, Flávio sempre marcou a segunda opção.

No livro "Mito ou verdade", o senador expõe seu ideário sem disfarces. No texto, ele exalta o golpe de 1964 e o regime autoritário que perseguiu, prendeu e matou opositores políticos. "Ao invés (sic) de marginalizados, deveriam ser ser tratados como heróis nacionais", escreve, sobre os agentes da repressão.

A exemplo do pai, Flávio glorifica o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que levava crianças para assistirem à tortura dos pais. Descreve o militar como "homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria" e teria sido "massacrado pela mídia".

O filho de Jair acusa a Comissão da Verdade, criada para apurar crimes da ditadura, de "tentar reescrever a História à luz da visão dos terroristas". Ele ataca a memória de vítimas do regime e chega a sugerir que o ex-deputado Rubens Paiva, assassinado no DOI-Codi, teria sido morto por grupos de esquerda.

O livro foi lançado em 2017, quando Flávio ensaiava concorrer ao Senado. Estava no fim do quarto mandato na Assembleia Legislativa do Rio, onde se notabilizou por subir à tribuna todos os anos para festejar o 31 de março, data cultuada pela extrema direita como aniversário da ditadura.

"Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que tivemos", discursou, em 2004. "Para mim, é motivo de muito orgulho e agradecimento aos militares", reforçou, em 2009.

"A esquerda, hoje no poder, insiste em falar que houve um golpe", prosseguiu, em 2010. No ano seguinte, ele celebrou a "data especial" e disse que era preciso combater "a mentira de que houve um golpe militar". "Todos já conhecem o posicionamento da família Bolsonaro", acrescentou. Quem haveria de discordar?

Desde que entrou na política, o patriarca do clã milita na defesa do autoritarismo. Especializou-se em exaltar a violência de Estado, atuar pela impunidade de torturadores, ofender viúvas e órfãos de desaparecidos. Quando o Ministério Público Federal reabriu o caso Riocentro, em 2014, ele fez questão de acompanhar o depoimento de um militar investigado. Diante dos procuradores, atacou a Comissão da Verdade e disse sonhar com uma reedição da Operação Condor, aliança clandestina entre ditaduras do Cone Sul.

A democracia deveria ser tema central na primeira eleição após o 8 de Janeiro e a inédita condenação de generais golpistas. Os marqueteiros treinaram o candidato do PL para evitar menções à ditadura, mas não podem apagar tudo o que ele já disse e escreveu sobre o tema. Por destino e por escolha, Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro.

A noite em que fui ao Riocentro — e encontrei o PT no caminho

Por Zezito de Oliveira

Foto tirada em 13/10/2024, nas ruas de Aracaju, com uma caminhada liderada pelos setores organizadas da esquerda sindical, politica e estudantil. Em outras situações, tanto em Sergipe, como em outros estados, as iniciativas se dão por fora das estruturas tradicionais de organizaçáo e com estas dando suporte em termos estruturais. Assim, fazemos o ´país que a gente quer , ou de quando cada um de nós abre os braços. Este boneco "fofo" de Lula é o ,mascote do movimento dos trabalhadores da cultura "Cultura com Lula", e quem me passou o mesmo ´para caminhar com ele uma parte do tempo, foi Tácita Mickaelly, da operativa do Comitê Paulo Gustavo em Sergipe. Muitas pessoas tiraram fotos com o boneco.

Há poucos dias surgiram no YouTube imagens do show do Riocentro de 1980; as de 1981 já circulavam há mais tempo, em parte por causa da tentativa de explosão de bombas. As imagens vêm da transmissão da TV Tupi; a segunda transmissão foi da Bandeirantes. O documentário Gonzaguinha – Da maior liberdade recupera cenas do show de 1º de Maio de 1981, inclusive quando Gonzaguinha avisa sobre as bombas. Eu não lembrava bem dessa fala, mas lembrava do atentado pela repercussão na imprensa; a memória voltou anos depois com o CD duplo do show de 1981 apresentado a mim por Paulo Correa, atual secretário de cultura de Aracaju.

Fiz duas viagens. Em 1980, saí de São João de Meriti, perto da atual Pavuna, para o primeiro grande show de 1º de Maio. Em 30 de abril de 1981, repeti o trajeto. Na época, chegar ao Riocentro era uma expedição: o metrô não chegava à Pavuna e a Barra parecia muito distante. O segundo show ficou marcado pela conversa com dois jovens no ônibus. Pelo modo de falar, pareciam da Zona Sul, mas isso importa menos que o entusiasmo com que falavam das festas do recém-criado PT. O partido tinha pouco mais de um ano e ainda buscava espaço na saída da ditadura; aqueles jovens o viam não só como organização política, mas como convivência, cultura e festa. Anos depois, a pesquisa histórica mostrou que essa lembrança tinha contexto: em 1981 o PT formava núcleos no Rio e na Baixada, com atividades esportivas, culturais e políticas em Mesquita e Nova Iguaçu, além de militantes em Chapéu Mangueira, Copacabana e Leme. O ônibus, assim, unia geografias sociais que pareciam distantes.

O show de 30 de abril, promovido pelo Centro Brasil Democrático, reuniu cerca de 20 mil pessoas, com Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Clara Nunes, Beth Carvalho, Alceu Valença, Elba Ramalho e Chico Buarque, entre outros grandes artistas. Poucas horas depois, uma bomba explodiu dentro de um Puma no estacionamento: o sargento Guilherme Pereira do Rosário morreu e o capitão Wilson Luís Chaves Machado ficou gravemente ferido; outra bomba foi encontrada perto da casa de força. O episódio seria ligado à extrema direita militar, que tentava frear a abertura. Na hora, ninguém sabia exatamente o que ocorria — eu também não. Gonzaguinha tornou-se uma voz daquele instante.

Quase meio século depois, penso que a conversa no ônibus é tão importante quanto a explosão. O atentado está nos jornais, processos, livros e arquivos; a conversa existe apenas na memória. É nessa fronteira entre memória e documento que se entende melhor o Brasil de 1981: ditadura ainda forte, sociedade civil avançando, sindicatos, comunidades eclesiais, associações de moradores e artistas em resistência, e um partido novo tentando organizar essa energia. Eu estive lá duas vezes. Na segunda, dentro do ônibus, encontrei um pequeno pedaço do Brasil que renascia.

P.S.: - Após a publicação na noite de ontem me recordei da expressão “esquerda festiva”, hoje denominada como “esquerda cirandeira”, e fui pesquisar para saber as origens do termo, bastante utilizado de forma pejorativa e em alguns casos até de maneira compreensiva, quando a crítica é ao excesso de festa em detrimento de outras questões como formação, organização e luta. Mas por outro lado, é importante perceber a crítica como uma falta ou debilidade de uma esquerda muito racional e bastante influenciada pela cultura europeia chamada de moderna, o que é distante, como sabemos, desses aspectos de beleza e alegria mais espontânea e mais caliente. Só que vale lembrar que, como mostrou Bakhtin, antes, na Europa pré-iluminista, a cultura europeia era marcada por uma presença forte da cultura popular, com o riso, a festa e a praça pública tendo papel central e criando um “segundo mundo” de liberdade e inversão temporária das hierarquias. Foi depois, com o racionalismo iluminista e a visão burguesa de mundo, que essa cultura popular foi sendo desvalorizada e separada da “alta cultura”. Então a crítica que faço não é simplesmente opor Europa e Brasil , mas uma certa racionalidade moderna que rompeu com a dimensão festiva e popular da própria cultura europeia, o que também influenciou em termos estéticos  uma grande parte das nossas esquerdas,  de lá e de cá. 



SHOW RIOCENTRO 30 DE ABRIL DE 1981


1. Postagens encontradas no Blog da Cultura sobre o atentado do Riocentro

Memorial da Democracia - Bomba no Riocentro implode terror militar

1. #1964+60 – A explosão da bomba no Riocentro: novas e antigas informações sobre o caso

1º de abril de 2024

A postagem reúne referências documentais sobre o atentado, incluindo o relatório da Comissão Nacional da Verdade, informações sobre o depoimento do capitão Wilson Machado e a investigação histórica do episódio. É uma boa porta de entrada para aprofundar a pesquisa documental.

Memorial da Democracia - Bomba no Riocentro implode terror militar

2. Outro Atentado como o de 1981 no Riocentro é possível?

25 de dezembro de 2022

Relaciona o atentado de 1981 à tentativa de ataque a bomba em Brasília, em dezembro de 2022. A publicação traz registros audiovisuais do show do Riocentro e referências à Comissão Nacional da Verdade, articulando memória histórica e defesa da democracia.

Riocentro - Um vinil para o show interrompido | Brasil 247

3. FESTIVAL #LULA LIVRE É AMOR DA CABEÇA AOS PÉS

29 de julho de 2018

Texto de Zezito de Oliveira que recupera sua experiência como jovem presente ao show de 1981. O autor relata que poderia ter sido uma das vítimas do atentado e estabelece uma relação entre a tentativa de violência política da ditadura e as disputas políticas posteriores. É especialmente importante para a dimensão autobiográfica da memória do Riocentro.

40 anos do atentado do Riocentro. Essa história não deve ser esquecida

4. Sobre o julgamento e condenação de Bolsonaro e alguns militares golpistas. Depoimento de quem poderia ter morrido no atentado do Riocentro em 1981

12 de setembro de 2025

Artigo de Zezito de Oliveira que retoma o episódio a partir da memória de quem esteve no show. Discute a atuação de setores militares contrários à abertura política, a impunidade e as relações entre a memória da ditadura e as ameaças recentes à democracia.

Retratos de Identificação - Documentário 2014 - AdoroCinema

5. Como 'Anistia 79' reavivou minhas lembranças da democracia e da esperança

23 de agosto de 2026

Embora não seja exclusivamente sobre o atentado, o artigo recupera a lembrança pessoal dos shows de 1º de Maio de 1980 e 1981 e destaca o perigo vivido pelo público no Riocentro. Ajuda a contextualizar o episódio dentro de uma trajetória de juventude, música e luta pelas liberdades democráticas.

2. Qual postagem consultar primeiro?

Minha recomendação é começar pelo texto de 2025, “Depoimento de quem poderia ter morrido no atentado do Riocentro em 1981”, e depois ler o artigo de 2024, que reúne referências documentais. Em seguida, vale voltar à postagem de 2022, que contém vídeos e registros do show.

Os cinco textos permitem acompanhar três dimensões complementares: a experiência pessoal de Zezito de Oliveira, a importância política e cultural do show e a documentação histórica do atentado.

Uma observação: os títulos e links acima correspondem às páginas encontradas na pesquisa; a lista não garante que sejam todas as menções ao Riocentro existentes no blog.