terça-feira, 1 de setembro de 2026

O Legado Reluzente de Rogério Valença: da Batida do Forró Eletrônico ao Brilho das Quadrilhas Juninas

 Rogério Valença, que morreu aos 55 anos, deixa uma trajetória que vai muito além dos palcos onde sua voz ajudou a marcar a história do forró eletrônico. Em Sergipe, o artista também se destacou como coreógrafo, figurinista, aderecista e dirigente das quadrilhas juninas, contribuindo para aproximar tradição, inovação e criação comunitária no São João sergipano. Sua passagem pelo Gonzagão e pela Quadrilha Asa Branca revela um legado ainda pouco conhecido: o de um artista que transformou sua experiência no forró, no carnaval e nas artes visuais em novas formas de celebrar e reinventar a cultura popular.

O cenário cultural de Sergipe e do Nordeste perdeu recentemente uma de suas figuras mais versáteis e apaixonadas. Aos 55 anos, morreu Rogério Valença, artista cuja trajetória atravessou diferentes linguagens da cultura popular. Seu nome ficou associado aos palcos do forró eletrônico, especialmente à Calcinha Preta e Raio da Silibrina, mas sua história em Sergipe revela uma dimensão igualmente importante: a de um criador que ajudou a renovar a estética, a organização e a afirmação cultural das quadrilhas juninas.

Reduzir Rogério Valença ao cantor de forró, portanto, seria deixar de fora uma parte essencial de sua contribuição.

Cantor, músico, bailarino, coreógrafo, artista plástico, estilista e aderecista, Rogério reunia conhecimentos que normalmente aparecem separados. Sua experiência passava pela música, pela dança, pelas artes visuais, pelos figurinos, pela cenografia e pelo carnaval.[1] Essa multiplicidade acabou encontrando nas quadrilhas juninas de Sergipe um território privilegiado para se expressar.

Para Rogério, a cultura popular não era estática. Era um organismo vivo, capaz de preservar a memória ao mesmo tempo em que experimentava novas formas de expressão.

O tecido da tradição: o toque de mestre na Asa Branca

Em 2007, Rogério Valença aproximou-se da tradicional Quadrilha Junina Asa Branca, do Conjunto Augusto Franco. O Blog da Cultura registra que Dona Genilda, liderança da quadrilha, acolheu naquele ano sua presença como coreógrafo, aderecista, músico e bailarino.[2]

A missão era preparar o grupo para o São João de 2008, justamente quando a quadrilha comemoraria 25 anos de existência.

A tarefa encontrou em Rogério um artista disposto a ir muito além da montagem de uma coreografia.

Ele mergulhou em uma pesquisa sobre as raízes culturais da quadrilha para construir o espetáculo “De canto a canto a tradição é uma só. Em qualquer canto, Sergipe é sempre o país do forró”.[3]

O resultado refletia sua própria trajetória artística. A experiência adquirida no carnaval e nas artes visuais foi incorporada à linguagem da quadrilha, que passou a trabalhar com maior intensidade figurinos, cenários, teatralidade, coreografia e narrativa.

Os próprios brincantes participavam da construção dos figurinos, num processo que combinava criação artística e trabalho coletivo.

Essa dimensão é fundamental para compreender Rogério.

Ele não chegava simplesmente com um modelo pronto para ser executado. A criação acontecia em diálogo com a comunidade e com os próprios integrantes da quadrilha.

Do carnaval paulista ao São João sergipano

Parte da sofisticação estética que Rogério levou para a Asa Branca pode ser compreendida a partir de sua experiência anterior.

O acervo do Consórcio Cultural o apresenta como artista plástico, coreógrafo, cantor, estilista e aderecista, com formação em Pernambuco e São Paulo. Registra também sua participação na comissão carnavalesca da escola de samba Império da Casa Verde, do grupo especial paulista.[1]

Essa passagem pelo carnaval é importante porque ajuda a explicar sua capacidade de pensar um espetáculo como um conjunto.

Para ele, música, dança, figurino, adereço, cenário e movimento não eram elementos isolados. Faziam parte de uma mesma narrativa visual.

Essa experiência apareceu também em um trabalho aparentemente distante das grandes apresentações juninas: a construção de um presépio comunitário e ecológico no Gonzagão, em dezembro de 2007.

O projeto utilizou garrafas PET, retalhos, lã, fitas, madeira, papelão, palha e outros materiais reciclados. Sua construção envolveu oficina, mutirão e participação da comunidade.[4]

O registro da época informa ainda que Rogério se dispôs a realizar o trabalho gratuitamente, diante das dificuldades orçamentárias daquele momento.[4]

É um episódio pequeno diante da dimensão de sua carreira, mas extremamente revelador de sua relação com a cultura.

Sua criatividade não estava limitada ao palco.

A França no sertão: tradição e reinvenção

Uma das características mais marcantes da proposta desenvolvida na Asa Branca foi a capacidade de dialogar com as origens europeias da quadrilha sem perder a identidade nordestina.

No espetáculo apresentado em 2008, a narrativa começava nos palácios das cortes europeias e chegava às festas do interior do Brasil, mostrando como a tradição foi abandonada pela nobreza e posteriormente adotada e ressignificada pelas culturas populares.[3]

O impacto visual era deliberado.

A abertura apresentava uma fachada de palácio real. Os integrantes entravam vestidos segundo referências do estilo de Luís XVI e dançavam ao som de música clássica. Depois, a apresentação avançava para a transformação dessa tradição em manifestação popular brasileira.[3]

A mudança dos figurinos — do padrão europeu do século XVIII para o chamado “caipira chic” — era acompanhada pelos passos coreográficos, seleção musical, narração histórica e efeitos cênicos.[3]

O espetáculo fazia, assim, uma espécie de viagem no tempo: da corte europeia ao terreiro nordestino.

O importante, entretanto, é que Rogério não utilizava a referência europeia para “civilizar” a cultura popular.

Fazia exatamente o contrário.

Mostrava como o povo havia apropriado, transformado e recriado aquela herança.

O luxo não era o objetivo — era a linguagem

É possível compreender, assim, o sentido da sofisticação que Rogério introduziu na quadrilha.

O luxo dos figurinos, a grandiosidade dos cenários e a teatralidade da apresentação não significavam simplesmente a adoção de uma estética distante das tradições populares.

Eram ferramentas para contar uma história.

A preocupação de Rogério com o visual da quadrilha não estava dissociada da identidade cultural. O figurino ajudava a construir personagens; a coreografia narrava transformações; o cenário ampliava a dimensão teatral; e a música estabelecia conexões entre diferentes períodos.

Essa característica não desapareceu posteriormente. Em 2016, a TV Sergipe apresentou Rogério como figurinista, registrando que ele havia sido quadrilheiro e passara a se dedicar ao desenho dos figurinos de outros colegas.[5]

Esse dado é particularmente importante: demonstra que sua contribuição para as quadrilhas não ficou restrita ao período em que dançava ou dirigia apresentações. Seu conhecimento continuou sendo aplicado à construção visual do movimento junino.

O Gonzagão como espaço de criação comunitária

A história de Rogério também precisa ser relacionada ao momento vivido pelo Complexo Cultural Gonzagão no final dos anos 2000.

Entre 2007 e 2009, o espaço experimentou uma aproximação mais intensa com os agentes culturais do Conjunto Augusto Franco e de suas comunidades. Essa experiência procurava transformar o Gonzagão não apenas em local de apresentações, mas em espaço de convivência, formação, criação e articulação cultural.

A memória desse período foi posteriormente recuperada pelo Blog da Cultura ao reconstituir os “bons tempos” do Gonzagão. Nesse relato aparecem Rogério Valença e Dona Genilda como referências de uma experiência comunitária que articulava quadrilhas, artistas e outros agentes culturais.[12]

O chamado Consórcio Cultural procurava aproximar quadrilhas, músicos, artistas, artesãos, produtores e outros trabalhadores da cultura, estimulando o intercâmbio de conhecimentos e a realização de atividades coletivas.

Foto de Reunião do Consórcio Cultural do Conj. Augusto Franco e Adjacências em 2007 - Rogério Valença em destaque na foto.

Rogério participou diretamente desse ambiente.

Em 12 de maio de 2008, esteve entre os participantes da palestra sobre empreendedorismo cultural, promovida no Gonzagão em parceria com o Sebrae. A lista de presença registra Rogério Valença como integrante da Quadrilha Asa Branca.[6]

Mais importante ainda é que o Blog da Cultura preservou sua própria avaliação da atividade.

Rogério afirmou que a experiência refletia sua atuação pessoal e aquilo que estava sendo implantado na Asa Branca naquele ano. Também reivindicou novas atividades sobre elaboração de projetos culturais, estratégias práticas e economia da cultura.[6]

Isso demonstra que sua preocupação não estava limitada ao palco.

Ele percebia que a sobrevivência das manifestações populares dependia também da capacidade de seus integrantes compreenderem projetos, organização, financiamento, produção e economia da cultura.

Essa talvez seja uma das dimensões menos conhecidas de seu legado.

Um artista que também pensava a organização cultural

A trajetória posterior de Rogério reforçou essa característica.

Ele chegou à presidência da Federação das Quadrilhas Juninas de Sergipe (Fequaju), assumindo uma função de representação política e institucional do movimento junino.[7]

Em 2012, a Prefeitura de Aracaju registrava sua presença como presidente da Federação em reunião destinada a discutir o apoio municipal às quadrilhas.[7]

No mesmo ano, o programa Terra Serigy, da TV Sergipe, o entrevistou nessa condição para falar sobre os concursos de quadrilhas no estado.[8]

Sua atuação, portanto, tinha duas faces complementares.

De um lado, estava o artista que pensava a criação, o figurino, a música e a coreografia.

De outro, o dirigente que precisava dialogar com instituições públicas, defender as quadrilhas e representar um segmento cultural inteiro.

Essa combinação não era casual.

Ela correspondia à compreensão de que a cultura popular precisava conquistar não apenas o aplauso do público, mas também reconhecimento, políticas públicas e condições concretas de existência.

O Levanta Poeira e a organização do movimento

A atuação de Rogério como dirigente aparece com particular clareza na organização do concurso Levanta Poeira.

Em 2013, já como presidente da Federação das Quadrilhas Juninas de Sergipe, ele explicava à TV Sergipe os ajustes realizados na competição, que naquele ano passou a reunir 30 quadrilhas em nove polos de apresentação.[9]

A fala demonstra que sua atuação institucional não era meramente protocolar.

Rogério estava envolvido na organização territorial da competição, na ampliação da participação das quadrilhas e na construção de oportunidades para os grupos do estado.

O concurso, por sua vez, tinha como uma de suas finalidades declaradas manter viva a tradição das quadrilhas, valorizando trajes, músicas e evoluções.[9]

Essa combinação entre competição e preservação cultural ajuda a entender o ambiente no qual Rogério atuou.

A defesa da identidade junina

Ao participar da organização das quadrilhas, Rogério também se colocou diante de uma questão que permanece atual: como modernizar as apresentações sem descaracterizar aquilo que lhes dá identidade?

O crescimento dos concursos juninos trouxe maior profissionalização dos grupos.

Vieram figurinos cada vez mais elaborados, cenários mais complexos, grandes coreografias, sistemas de som e iluminação e disputas cada vez mais acirradas.

Mas havia o risco de que a busca pelo espetáculo transformasse as quadrilhas em simples produtos de competição.

A trajetória de Rogério aponta para outra compreensão.

A sofisticação poderia existir, desde que estivesse a serviço da narrativa e da cultura.

O brilho não precisava apagar a raiz.

A inovação não precisava destruir a tradição.

As quadrilhas como patrimônio vivo das comunidades

Essa visão também permite compreender a importância social das quadrilhas.

Uma quadrilha junina não é formada apenas durante os minutos de sua apresentação.

Ela nasce muito antes, nos ensaios, nas reuniões, na confecção dos figurinos, na construção dos adereços, na escolha das músicas, na aprendizagem dos passos e na convivência entre os participantes.

O próprio Blog da Cultura chamou atenção para as potencialidades das quadrilhas em termos de desenvolvimento humano, social e econômico das comunidades, defendendo que essas possibilidades fossem melhor dimensionadas e incentivadas.[3]

Nesse contexto, a atuação de Rogério ganha outra dimensão.

Ele ajudou a mostrar que o artista profissional não precisa estar separado da comunidade.

Ao contrário: pode colocar seu conhecimento técnico a serviço da criação coletiva.

“Sergipe é o país do forró”

Há uma expressão que se tornou associada ao universo cultural de Rogério: “Sergipe é o país do forró”.

O próprio Blog da Cultura recuperou posteriormente essa expressão, relacionando-a à ideia de identidade cultural sergipana e ao papel do forró durante os festejos juninos.[10]

Mais do que uma frase de efeito, ela expressa uma forma de afirmar pertencimento.

O forró, nesse contexto, não é apenas gênero musical.

É memória, dança, festa, sociabilidade, trabalho, economia, identidade e pertencimento.

As quadrilhas fazem parte desse universo.

E foi justamente nesse território que Rogério transitou entre diferentes gerações e linguagens.

Cantou forró.

Criou coreografias.

Pensou figurinos.

Construiu cenários.

Participou de projetos comunitários.

Representou as quadrilhas.

E ajudou a transformar o palco junino em espaço de afirmação cultural.

Da Calcinha Preta ao Raio da Silibrina

O público mais amplo provavelmente lembrará primeiro de Rogério como cantor.

Sua passagem pela Calcinha Preta ocorreu em uma fase importante da expansão nacional do forró eletrônico.

Mas sua relação com a música sergipana não terminou ali.

Em 2014, a Prefeitura de Aracaju registrou seu retorno à Raio da Silibrina, banda da qual era um dos fundadores. Rogério afirmou na ocasião que havia ajudado a construir o grupo e que pretendia continuar seu trabalho de mistura de estilos, romances e músicas de protesto.[11]

Esse retorno é significativo.

O mesmo artista que havia experimentado o circuito nacional do forró eletrônico continuava interessado em outras possibilidades de criação musical em Sergipe.

Mais uma vez, tradição e contemporaneidade apareciam lado a lado.

Uma trilha sonora para recordar Rogério

Para revisitar sua trajetória musical, algumas gravações ajudam a recuperar diferentes momentos de sua carreira:

E para recordar a dimensão junina de sua trajetória, vale ouvir novamente “Olha Pro Céu” e “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, não como músicas necessariamente interpretadas por Rogério, mas como parte do universo simbólico do São João que ele ajudou a transformar em espetáculo.

Um legado que continua a dançar

Rogério Valença foi um artista múltiplo.

Cantou as dores, os amores e as festas do povo.

Mas também costurou figurinos, desenhou personagens, criou coreografias, pensou cenários, dirigiu espetáculos, participou de projetos comunitários e representou institucionalmente as quadrilhas.

Seu legado, portanto, não cabe apenas em uma discografia.

Ele está também nos corpos dos brincantes que aprenderam passos, nos figurinos que ajudou a criar, nos cenários que transformaram o Gonzagão em palco, nos artistas com quem compartilhou conhecimentos e nas comunidades que experimentaram a cultura como espaço de convivência e criação.

Talvez seja justamente aí que esteja o significado mais profundo de sua trajetória.

Rogério mostrou que a cultura popular pode ser sofisticada sem deixar de ser popular.

Pode dialogar com o carnaval paulista sem perder o sotaque sergipano.

Pode buscar referências na corte francesa sem abandonar o terreiro nordestino.

Pode utilizar as linguagens do espetáculo sem transformar a tradição em mercadoria vazia.

E pode, sobretudo, transformar conhecimento artístico em criação coletiva.

Quando outro marcador gritar “Anarriê!” nos tablados de Sergipe, haverá certamente algo de Rogério Valença naquele movimento.

Não apenas porque ele ajudou a construir apresentações memoráveis.

Mas porque ajudou a demonstrar que cada saia que roda, cada passo ensaiado, cada figurino costurado e cada comunidade reunida para brincar o São João são partes de uma história muito maior.

Uma história na qual tradição e invenção caminham juntas.

Rogério Valença partiu. Mas o brilho que colocou nos palcos, nos arraiais e na cultura popular sergipana continua pulsando.


Notas e fontes

[1] CONSÓRCIO CULTURAL. O Presépio Comunitário e Ecológico do Gonzagão – Dezembro de 2007. O texto apresenta Rogério Valença como artista plástico, coreógrafo, cantor, estilista e aderecista, informa sua formação em Pernambuco e São Paulo e registra sua participação na comissão carnavalesca da Escola de Samba Império da Casa Verde. Disponível em: Consórcio Cultural – O Presépio Comunitário e Ecológico do Gonzagão. Acesso em: 1 set. 2026.

[2] AÇÃO CULTURAL. São João do Nordeste e “país do forró”. E agora? O texto registra a chegada de Rogério à Asa Branca em 2007 e sua atuação como coreógrafo, aderecista, músico e bailarino. Disponível em: Blog da Cultura – São João do Nordeste e “país do forró”. Acesso em: 1 set. 2026.

[3] Idem. O mesmo registro descreve o espetáculo de 2008 da Asa Branca, sua referência às cortes europeias, a transformação dos figurinos, a narrativa histórica e a repercussão da apresentação.

[4] CONSÓRCIO CULTURAL. O Presépio Comunitário e Ecológico do Gonzagão – Dezembro de 2007. O projeto foi produzido com materiais reciclados, oficina e mutirão comunitário. O texto registra também a participação de Rogério no trabalho. Disponível na fonte indicada na nota [1].

[5] TV SERGIPE. Globo Repórter especial de São João destaca elementos da cultura de SE. 27 jun. 2016. A reportagem apresenta Rogério como figurinista e registra sua trajetória como quadrilheiro e sua dedicação ao desenho de figurinos. Disponível em: TV Sergipe – Globo Repórter especial de São João. Acesso em: 1 set. 2026.

[6] AÇÃO CULTURAL. Um sucesso!!! A palestra sobre empreendedorismo cultural no Gonzagão. 23 maio 2008. O registro documenta a participação de Rogério na atividade e sua defesa de novas formações sobre elaboração de projetos culturais e economia da cultura. Disponível em: Blog da Cultura – Empreendedorismo cultural no Gonzagão. Acesso em: 1 set. 2026.

[7] PREFEITURA DE ARACAJU. Funcaju anuncia apoio às quadrilhas juninas de Aracaju. 2012. A notícia identifica Rogério Valença como presidente da Federação das Quadrilhas Juninas de Sergipe. Disponível em: Prefeitura de Aracaju – Apoio às quadrilhas juninas. Acesso em: 1 set. 2026.

[8] TV SERGIPE. Terra Serigy deste sábado fala sobre o ciclo junino na capital e interior. 8 jun. 2012. A matéria identifica Rogério como presidente da Federação das Quadrilhas Juninas e registra sua participação no debate sobre o ciclo junino. Disponível em: TV Sergipe – Terra Serigy e o ciclo junino. Acesso em: 1 set. 2026.

[9] TV SERGIPE. Participação de dois novos polos deve esquentar o Levanta Poeira. 14 maio 2013. A matéria registra a atuação de Rogério na organização do concurso e sua condição de presidente da Federação. Disponível em: TV Sergipe – Levanta Poeira. Acesso em: 1 set. 2026.

[10] AÇÃO CULTURAL. Para onde vai o “País do Forró”? Texto que recupera a expressão “Sergipe é o país do forró” e discute seu significado no contexto da identidade cultural sergipana. Disponível em: Blog da Cultura – Para onde vai o “País do Forró”?. Acesso em: 1 set. 2026.

[11] PREFEITURA DE ARACAJU. Forró Caju marca retorno de um dos fundadores da banda Raio da Silibrina. 20 jun. 2014. A fonte registra o retorno de Rogério à banda e sua condição de fundador. Disponível em: Prefeitura de Aracaju – Raio da Silibrina. Acesso em: 1 set. 2026.

[12] AÇÃO CULTURAL. Com o Cena Nordeste o Centro de Criatividade em Aracaju lembra os bons tempos. 2024. O texto recupera a experiência desenvolvida no Gonzagão entre 2007 e 2009 e menciona Rogério Valença e Dona Genilda como referências da articulação cultural comunitária daquele período. Disponível em: Blog da Cultura – Os bons tempos do Gonzagão. Acesso em: 1 set. 2026.

Morre Rogério Valença, ex-vocalista da Calcinha Preta, aos 55 anos

Cantor pernambucano integrou o grupo entre 1998 e 2000 e gravou sucessos como “Eterno Amor” e “Louca por Você”

https://rollingstone.com.br/musica/morre-rogerio-valenca-ex-vocalista-da-calcinha-preta-aos-55-anos/

Documentário sobre o bairro Farolândia - Episódio Cultura - Complexo Cultural "O Gonzagão"


Diretor artístico da Asa Branca promete novidades




Precisamos falar sobre as horas não remuneradas que os fazedores de cultura precisam enfrentar para tentar aprovação em editais.

 

Quantas horas por mês são dedicadas à escrita de projetos para editais voltados para artes e cultura? O Nonada fez essa pergunta para artistas de diferentes regiões do Brasil focando especificamente no mês de julho. Sete depoimentos permitiram elaborar uma estimativa mensal de 133 horas em média.

A produtora cultural Amanda Rabelo estimou ter dedicado entre 80 e 100 horas à elaboração e acompanhamento de projetos e editais em julho. A conta inclui pesquisa, leitura das chamadas, reuniões, orçamento, documentação, planejamento, articulação com artistas e parceiros, inscrição e acompanhamento das propostas.

"Para conseguir trabalho, muitas vezes precisamos trabalhar primeiro sem saber se vamos conseguir ser contratados", diz.

Para Mayara Assis, artista e educadora da Zona Oeste do Rio de Janeiro, se trata de "uma lógica complexa e perversa de trabalho intelectual invisível” a disputa por recursos de editais. Para ela, obrigar o trabalhador a acumular também as funções de analista burocrático e diagramador de portfólio retira tempo da própria criação. “Alguns chamam de autonomia e tenho preferido reconhecer isso como precarização."

Day Sena argumenta que, se todas essas horas fossem incorporadas ao cálculo dos cachês, seria difícil encaixar os valores nos orçamentos disponíveis, que precisam sustentar várias outras rubricas da produção. “Nosso cachê está bem abaixo se a gente for contabilizar as horas de trabalho”.

Heloisa Marina resume essa diferença entre temporalidades ao afirmar que “projeto não é um programa, não é um planejamento de longo prazo”. Ao mesmo tempo, reconhece que financiar permanentemente determinados grupos também produz uma escolha: se uma parcela maior do orçamento fica comprometida com quem já recebe recursos, diminui a possibilidade de alcançar novos agentes.

Participaram das entrevistas os artistas Amanda Rabelo, Gerson Dias, Day Sena, Ana Canedo, Alessandra Grandini, Ciça Pereira e Arthur Gomes e Mayara Assis. 

https://www.nonada.com.br/2026/08/horas-que-nao-se-pagam-sem-garantia-de-retorno-artistas-realizam-trabalho-invisivel-na-escrita-de-editais/









O Anti-Lula. Depois de várias tentativas. A bola da vez é Augusto Cury.

Isac Machado de Moura
 ·
1. A honestidade intelectual de ler para criticar
Já li uns três ou quatro livros de Augusto Cury, assim como li a mesma quantidade de Paulo Coelho. Não gosto de um nem de outro. Li porque considero extremamente desonesto criticar aquilo que não se leu, não se assistiu.

Considero muito grave a desonestidade cristã (evangélica e católica), que critica Marx sem jamais ter lido uma linha do que ele escreveu; que demoniza Freud sem nunca ter posto a mão em um escrito dele; que vomita dessaberes sobre o Manifesto Comunista sem jamais ter tocado nele.

Então li o rei da autoajuda e o rei do esoterismo para, na época, ter o direito, concedido pelas minhas leituras, de criticar a produção deles. E tudo bem gostar deles. Só estou emitindo uma opinião baseada na produção deles e no meu desgosto literário em relação aos estilos.

2. Autoajuda: um gênero que só ajuda quem escreve
Já repeti, em muitas aulas e palestras, que um livro de autoajuda só ajuda quem o escreve. E como ajuda!

Depois das leituras, não queimei os livros deles. Estão aqui, na minha biblioteca. Aqui, no meu espaço literário, tenho livros dos mais amados e dos mais odiados, porque a vida não é somente sobre o que a gente ama.

3. A conexão com o presente: drones, IA e o "devocionismo" da tecnologia
Dito isso, vamos falar de drones.

Não desista ainda, leitora/leitor. Logo você entenderá que drones têm tudo a ver, afinal de contas: "o mundo está se transformando numa velocidade tão grande que, daqui a quatro anos, talvez já nem sejam vocês me entrevistando nessa mesa, e sim um robô, uma IA."

Essa fala de Augusto Cury — médico, psiquiatra, um sujeito bem formado — mostra que a autoajuda, quando entra na corrente sanguínea de quem escreve e de quem só lê isso, é capaz de corroer neurônios. Não que eu discorde sobre a velocidade em que o mundo muda, mas que correria é essa que, em um mandato presidencial, já pode nem ter apresentadores humanos?

4. Jesus Cristo como produto
Já na autoapresentação, o escritor renomado — de quase 80 livros publicados e muito bem vendidos — resolve fazer uma conexão com o público evangélico e católico, dedicando a sua presença ali a Jesus Cristo, que ele descreve, mas não compreende na prática.

O Jesus Cristo, para ele, representa a mesma coisa que para evangélicos e católicos: um produto que vende fácil, que enriquece.

5. O orgulho de ser "comunista dos infernos"
Pouco depois, se apresenta como um capitalista, e o faz com orgulho.

Tudo bem alguém ser capitalista. "Somos todos", de alguma forma, até os que têm ideias socialistas ou comunistas, porque nascemos e vivemos num sistema capitalista. Não dá para ser hipócrita.

O que nos diferencia é que, mesmo vivendo nesse sistema capitalista, acreditamos e defendemos que as pessoas não podem ser vistas como coisas, produtos ou máquinas de produzir. Elas precisam comer, beber, se vestir, ter acesso a médicos, exames, cirurgias, remédios; precisam ter o direito de viver com dignidade.

E isso faz de nós, nesse sistema capitalista monstruoso, comunistas extremados. Os declarados capitalistas, com orgulho, chegam a pensar que queremos tomar as propriedades deles, quando na verdade só queremos que todas as pessoas tenham trabalho, salário, escolas, hospitais, liberdade de viver aquilo que são, comida...

E isso faz de nós uns "comunistas do inferno". E eu sou um comunista dos infernos com orgulho.

6. A candidatura de Cury: marketing eleitoral
Cury não se candidatou para ganhar. Ele sabe que não tem chance. Ele se candidatou para vender mais livros, divulgar ideias, métodos — essas coisas. Possivelmente, na próxima, se candidate a deputado e ganhe com facilidade. É um direito dele.

Ele sacou essa forma perfeita de divulgação, e ainda recebe dinheiro nosso — do desgraçado fundo eleitoral — para divulgar suas ideias. Divulgação em rede nacional sem custos de propaganda.

7. O drone como metáfora do absurdo
Mas e os drones, do que seria um parágrafo anterior se eu não escrevesse em monobloco?

Pois bem, os drones.

Você, mulher, aqui de Tamoios, onde os índices de violência doméstica são altíssimos (lembrando que a maioria da nossa população é de crentes), sofre uma violência doméstica ou se sente prestes a sofrer. Então você pega o celular, aperta um botão de pânico que aciona a delegacia que nos atende — no caso, a de Cabo Frio, a quarenta quilômetros de nós. Imediatamente, um drone é acionado por inteligência artificial e parte para cá para atender seu S.O.S.

Esse drone não vem com a solução definitiva. Ele é somente um drone-sirene, cuja missão é fazer barulho perto de você, tipo alarme de carro. Enquanto isso, uma equipe policial se desloca para fazer o atendimento.

No caso, nesse percurso do drone, torça para uma outra mulher não acionar o drone em Botafogo ou no Jardim Esperança, porque se isso acontecer, sinto muito: ele vai fazer barulho lá perto dela primeiro antes de chegar a Tamoios.

Ninguém que apresente isso como uma proposta de redução da violência contra as mulheres está querendo ganhar eleição.

8. O exército de Kelmons
Cury é o padre Kelmon da vez — com função de dividir votos.

Aliás, dessa vez a fábrica de padres Kelmon exagerou na produção: Augusto Cury, o sepulcro Caiado, o BoZema, o BozoRenan. E todos estão focados em cumprir a missão Kelmosa: um cita o outro, faz brincadeira com o outro. A diferença é que os Kelmons da vez não usam batina.

Todos guiarão seus rebanhos para o Jairzinho num provável segundo turno.

9. O eleitor isentão: o mais perigoso de todos
Para mim, o eleitor mais hipócrita não é o do rachadinho, dos quais já sabemos o comportamento e do que são capazes.

Me assustam os eleitores "isentões", que vão votar num Kelmon porque não querem saber desse "negoço" de esquerda ou direita, mesmo sabendo que o seu voto favorece o capirotinho.

O eleitor isentão, murista, que depois vai passar quatro anos repetindo que não votou no L nem no B, é, para mim, o mais perigoso, o mais hipócrita, o mais asqueroso, o mais Pilatos — que lava as mãos e passa quatro anos dormindo um sono tranquilo.

10. Civilização contra barbárie
Assim como a anterior, essa eleição não é sobre direita e esquerda. É sobre civilização e barbárie.

É como se você tivesse que decidir, numa cédula, entre:

o direito de todos continuarem comendo ou sobre garantir o SEU direito de comer;

direitos do trabalhador e fechamento do Ministério do Trabalho, do Ministério Público do Trabalho;

a continuidade do programa de cisternas no sertão nordestino ou "vai procurar água na casa da tua mãe".

11. Conclusão: quem come todo dia não se preocupa com quem não come
O partido de Cury vai levar a sua parte, mas a editora dos livros dele — essa sim — vai ficar muito "mais bem" ainda depois dessa eleição.

São muitos Kelmons contra um Lula, e um Lula só pelo nosso povo mais vulnerável.

Fato é, parafraseando Carolina Maria de Jesus, que quem come todo dia se preocupa muito pouco com quem não come, com quem precisa de alguma política pública para garantir a comida mínima.


Isac Machado de Moura é um escritor e cronista brasileiro, com uma obra publicada que transita entre crônicas de viagem, poesia e romance . Ele se descobriu escritor ainda na adolescência, numa aula de português no Rio de Janeiro, e seguiu com a escrita como uma parte central de sua identidade .

Abaixo, a questão que é o pano de fundo.

Cerimedo e os rearranjos da guerra digital na América Latina










Por que assistir a cinebiografia sobre o genial Gonzaguinha: Da maior liberdade. Melhor doc. do Festival de Cinema de Gramado?

 

Não vejo artista que se compare a Gonzaguinha hoje', diz diretora de cinebiografia


Comportamento Geral, por Gonzaguinha




Gonzaguinha - O que é o que é - Daíra e Paulo Beto





E Vamos À Luta



"É" A gente quer viver uma nação. A gente quer ser um cidadão


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O DEVOCIONISMO E A FUGA DA PASTORAL Por Pe. José Soares


O Padre José Soares de Jesus, da Paróquia São Pedro Pescador, Arquidiocese de Aracaju,  publicou um artigo no qual analisa o crescimento do chamado "devocionismo ingênuo" nas comunidades religiosas, caracterizado por uma vivência da fé descomprometida com a reflexão e com a transformação social. O texto, que recupera ensinamentos do Papa Francisco, critica o clericalismo e as práticas pietistas que alienam os fiéis, e convoca a Igreja a retomar o caminho de uma espiritualidade encarnada, libertadora e comprometida com os pobres.

O MOMENTO atual é muito complexo para toda e qualquer atividade que envolva o espírito coletivo e sobretudo quando o tema é pastoral e conscientização. DURANTE o ciclo mais pesado da pandemia, vozes se levantaram em todo canto para negar o vírus e a vacina. Vozes no clero e na sociedade que vociferavam absurdos que acabou criando um profundo mal-estar em muita gente. De um lado os que se denominavam muito bem informados, os quase médicos/as de plantão e tinham receita para tudo - de ivermectina até remédio injetável - e para todas as idades. Do outro lado, os desinformados que sempre acatam todas as informações dúbias que aparecem e que só geram tolice, discórdia, polarização e um pouco de "estupidez social". Parece que esse tempo passou: será? Bom ficarmos atentos/as; talvez ele esteja bem forte e com outros nomes e adequações. 

NO CONTEXTO atual, está reflorescendo com força uma nova onda - já bem conhecida por teólogos/as - que intitulamos de "devocionismo ingênuo". É uma categoria religiosa e que tem força social e cultural, porque tem penetrado nas várias camadas da sociedade e das igrejas. O DEVOCIONISMO é um estilo de vida religiosa que se mostra pouco afeito a reflexão e que leva as pessoas para o campo do pietismo, do espraiamento de novenas que nunca terminam e que se situam entre a vida de Maria - só em alguns aspectos - a de alguns santos e dos anjos e arcanjos, que tem sido os mais procurados e divulgados por fiéis cristãos e até não fiéis, já que esperam uma ajuda miraculosa por parte daqueles a quem cultuam. Essas devoções não param de crescer e afetam de cheio o trabalho pastoral das igrejas e das comunidades. E quem lucra com essas práticas? Quem ganha muito com o devocionismo é o clericalismo, porque quanto maior for a ingenuidade e infantilização dos fiéis, mais uma parte do clero dominará o espaço religioso e se realizará com o pretexto de que está contribuindo com a fé do povo, o que não é verdadeiro e se situa na dimensão ilusória da fé.

O COMBATE a esse modo complexo de vida religiosa é bem difícil, pois, quem se distância ou aponta falhas nessa prática é logo rechaçado; quem procura abrir caminhos para esclarecer e ajudar o povo de Deus, a atravessar as vicissitudes da vida é visto como descrente. O Papa Francisco foi muito enfático quando escreveu na mensagem do Dia Mundial dos Pobres em 2024: "A fé cristã não pode ser reduzida a uma devoção passiva que não incomoda os poderes deste mundo". O cristão não pode enxergar a dor e a morte de tantas pessoas com fome e enfermas, sem dar o seu apoio, colocando-se contra os sistemas de opressão e denunciando as causas de tantas calamidades. Ele também na Evangelii Gaudium, alertou para uma vivência anêmica e frágil, sobretudo quando ela não muda nossas vidas e o contexto no qual vivemos. Diz ele: "A nossa fé é desafiada a entrever o vinho em que a água pode ser transformada, e a descobrir o trigo que cresce no meio do joio. Cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II, apesar de nos entristecerem as misérias do nosso tempo e estarmos longe de otimismos ingênuos, um maior realismo não deve significar menor confiança no Espírito nem menor generosidade" (E.G. n. 84).

Concluindo, podemos nos preparar sempre para tempos de luta – referimo-nos a endurecimento desse devocionismo que na verdade é parte de um sistema orquestrado para alienar – e discernimento, para que o evangelho seja o nosso ponto de referência e não as práticas ingênuas e vazias – não falamos em nenhum momento em maldade, mas, muito fingimento religioso – que não ajudam no amadurecimento espiritual e humano das pessoas. A nossa referência está no evangelho e na busca de uma espiritualidade encarnada a partir de Jesus e de sua ação corajosa e libertadora. Despertar e rever caminhos para chegarmos numa pastoral que crie laços e não fique emaranhada nas doutrinas. Rever caminhos é compreender que devemos utilizar mecanismos do nosso tempo para dialogar com as pessoas, propor caminhos de vida espiritual, sem querer domesticar a ninguém. Vida pastoral é parceria que se concebe com a defesa dos que sofrem, o sopro do Espírito e a bondade de Deus que sempre chega antes de nossos esquemas e intenções. 

P. José Soares de Jesus.

Paróquia São Pedro Pescador.

- Obs. Devocionismo não é o mesmo que religiosidade popular. Muito diferente.

- E.G. – Evangelii Gaudium, uma Exortação Apostólica do Papa Francisco, 2013.


Para suscitar um debate entre a letra da canção "Religião Libertadora" (Pe. Zezinho) e o texto do Pe. José Soares sobre o "devocionismo ingênuo", proponho as três perguntas a seguir:

1. A fé que incomoda x a fé que acomoda

"É por causa dos profetas que anunciam, que batizam, que organizam, denunciam."

"É por causa de um Jesus que anunciava, mas também gritava aos grandes: ai de vós."

Enquanto a canção celebra uma fé que denuncia, organiza e incomoda os poderosos, o texto critica um "devocionismo ingênuo" que não incomoda os poderes deste mundo.

Pergunta: O que faz com que uma mesma tradição cristã produza, ao mesmo tempo, uma fé que denuncia as injustiças e outra que se refugia em práticas pietistas e alienantes? Que forças sociais e eclesiásticas alimentam cada uma dessas vertentes?

2. O clamor dos oprimidos x o silêncio da devoção

"É por causa dos pequenos e oprimidos, dos seus sonhos, dos seus ais, dos seus gemidos."

"É por causa de quem sofre a dor do povo, é por causa de quem morre sem matar."

A canção coloca a dor do povo como razão de ser da fé. O texto, por sua vez, alerta que o devocionismo ingênuo desvia a atenção das "vicissitudes da vida" e das "causas de tantas calamidades".

Pergunta: Como conciliar a devoção popular — que pode ser um consolo legítimo para quem sofre — com o risco de que ela se torne um "ópio" que desmobiliza a luta contra as estruturas que geram esse sofrimento? Onde traçar essa linha?

3. Profecia x clericalismo

"É por causa do profeta que se cala, mas até com seu silêncio grita e fala."

"É por causa de um Jesus que anunciava, mas também gritava aos grandes: ai de vós."

A canção exalta a profecia — inclusive a que grita contra os poderosos. O texto denuncia que o devocionismo ingênuo favorece o clericalismo, pois "quanto maior for a ingenuidade e infantilização dos fiéis, mais uma parte do clero dominará o espaço religioso".

Pergunta: A estrutura hierárquica da Igreja tende a incentivar ou a inibir a profecia libertadora? O devocionismo ingênuo seria uma consequência intencional ou apenas um subproduto da lógica institucional?

Essas perguntas podem abrir um debate sobre o papel da religião na sociedade contemporânea: se ela deve ser um instrumento de conformação ou uma força de transformação — e quais os mecanismos que a empurram para um lado ou para outro.

Zezito de Oliveira - Editor do Blog da Cultura