Fonte: GGN
Conheci Miriam Leitão há muito tempo. Desde os tempos em que era repórter da coluna de Zózimo Barroso do Amaral no Jornal do Brasil, ao lado de minha irmã Maria Inês Nassif.]
Mesmo depois, quando os seminários do Dinheiro Vivo, no Hilton Hotel, reuniam centenas de profissionais do mercado financeiro, fazia questão de convidá-la como debatedora — proporcionando-lhe uma visibilidade ampla no mercado financeiro paulista.
Com o tempo, porém, conheci outra Mirian. Profundamente ambiciosa, ela ajudou a sepultar minha coluna no JB, quando uma negociação entre Otávio Frias e Saulo Ramos resultou em minha saída da Folha. Sempre extremamente competitiva, saltou de colunista do JB para O Globo, tornou-se comentarista dos programas da Rede Globo e assumiu o papel de porta-voz do mercado financeiro — em particular, das análises da consultoria de Maílson da Nóbrega.
Galgou seu espaço na mídia como uma porta-voz competente do mercado financeiro.
Mas foi sua atuação no período Lava Jato-Impeachment que superou todos os limites. Simulou agressões dentro de um avião, atribuídas a militantes da CUT. Fez um carnaval quando seu perfil na Wikipedia foi alterado por um funcionário do Planalto — que havia inserido um comentário sobre erros de projeção dela. Tornou-se a mais beligerante das jornalistas lava-jatistas. Lembro-me de um evento na Feira Literária de Poços de Caldas em que ela, seus dois filhos e Deltan Dallagnol dividiram uma sessão enaltecendo as virtudes da Lava Jato.
A ficha começou a cair na eleição de Jair Bolsonaro, quando passou gradativamente a rever sua posição em relação ao golpe do impeachment e à Lava Jato, conforme pode-se conferir aqui.
Com o artigo publicado hoje em O Globo, “A questão chave é a democracia” — colocado, não por acaso, em posição de destaque na coluna superior da página —, Miriam Leitão completa uma longa travessia interior. Uma caminhada de confronto com as próprias falhas.
O texto é objetivo sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro. E inclui, de passagem, uma desmistificação do artigo do improvável Elio Gaspari, que enxergou uma terceira via em Romeu Zema e Ronaldo Caiado. A resposta de Mirian é direta: “Existe a demanda por uma terceira via, mas não há oferta. O PSD escolheu Caiado, que age como satélite do bolsonarismo. Zema também.”
O artigo termina com uma afirmação que, vinda dela, tem peso particular:
“Amanhã completa seis anos da reunião ministerial em que foi escancarada a natureza do governo Bolsonaro: antidemocrático e insensível às dores do país. Não se pode alegar desconhecimento. Graças a Celso de Mello, pudemos ver exatamente o que acontecia no interior daquele governo. Os fatos que se seguiram confirmaram que o projeto não era governar, mas destruir a democracia.”
Antes tarde do que nunca. Bem vinda de volta às hostes democráticas.


