quinta-feira, 30 de julho de 2026

Sobre a abordagem do "Santo Encontro" com pulseirinhas para solteiros que gerou debates por reduzir o encontro juvenil a um viés de paquera em paróquia de Aracaju.

Por Zezito de Oliveira 

Para saber mais e entender o contexto, leia AQUI,  reportagem do G1 antes de prosseguir a leitura do artigo abaixo. 

Felizmente, existem diversas alternativas mais espontâneas e formativas para promover a união da juventude católica, baseadas em atividades culturais, esportivas e de promoção humana.

⚽ Esporte como Ferramenta de União e Fé

O esporte é um excelente meio para promover a comunhão entre os jovens, ensinando valores de trabalho em equipe e superação.

Copas e Campeonatos: Um exemplo notável é a "Copa da Juventude Católica de Futsal" na Arquidiocese de Campo Grande (MS). Com o lema “Esporte que Une, Fé que Transforma”, a competição reúne equipes de diversas paróquias. A iniciativa busca aproximar os jovens da Igreja, incentivando a organização, a criatividade e a formação de novas lideranças. Como destacou o padre organizador, "o esporte mostra a necessidade da comunhão: ninguém ganha sozinho em um jogo e ninguém ganha sozinho na vida".

Jornadas e Gincanas: Outra possibilidade são as corridas e atividades físicas integradas a eventos maiores, como as jornadas diocesanas da juventude, que combinam esporte, espiritualidade e convivência.

🎨 Ações Culturais e Formação Integral

A arte e a cultura são elementos fundamentais para a formação dos jovens, como indicado na exortação apostólica Christus Vivit.

Clubes de Leitura e Debates: Muitos jovens católicos buscam aprofundar sua fé e conhecimento. A criação de clubes de leitura para discutir temas religiosos, sociais e filosóficos atende a essa demanda de forma intelectual e espontânea.

Shows de Talentos e Música: Promover noites de talentos, shows de evangelização (como o citado com o Grupo Sentinelas da Manhã) e apresentações culturais permite que os jovens expressem sua fé e criatividade em um ambiente acolhedor.

Mesas Redondas e Palestras: Organizar mesas redondas e palestras sobre temas atuais, como ecologia integral (inspirada na encíclica Laudato Si') e cidadania, promove a reflexão e a formação crítica.

🤝 Promoção Humana, Voluntariado e Ação Social

Atividades de serviço ao próximo são uma das formas mais concretas de viver a fé e criar laços significativos.

Campanhas e Ações Solidárias: A Semana do Estudante, promovida pelas Pastorais da Juventude, é um ótimo exemplo. Com temas como "Fraternidade e Ecologia Integral", a semana inclui ações sobre sustentabilidade, consumo consciente e práticas coletivas.

Visitas Missionárias e Trabalho Voluntário: Incentivar visitas a instituições de solidariedade (como asilos, hospitais e creches) e ações missionárias em comunidades carentes ajuda os jovens a colocar a fé em prática, desenvolvendo empatia e senso de comunidade.

Cursos e Formação: Oferecer cursos de capacitação para líderes juvenis sobre temas como prevenção ao suicídio e cuidado com a vida, forma multiplicadores que podem atuar em suas próprias comunidades.

💡 Outras Ideias para Encontros Espontâneos

Para encontros mais leves e descontraídos, que fogem do formato de "paquera", algumas ideias simples funcionam muito bem:

Noites de Cinema e Churrascos: Eventos sociais como noites de cinema com filmes que gerem discussão, ou churrascos comunitários, criam um ambiente natural para a convivência e a amizade.

Acampamentos e Retiros: Promover acampamentos com atividades ao ar livre, trilhas, momentos de oração e dinâmicas de grupo, que reforçam os laços de amizade e a espiritualidade de forma integrada.

Grupos de Convivência e Partilha: A formação de pequenos grupos que se reúnem regularmente para rezar, partilhar experiências e debater temas de interesse é a base de uma vivência comunitária sólida e duradoura.

💎 Conclusão

Em vez de focar em um evento que pode soar invasivo ou superficial, a Igreja pode e deve investir em ações que promovam o encontro genuíno entre os jovens por meio de interesses comuns, serviço ao próximo e aprofundamento da fé. Atividades esportivas, culturais e de promoção humana, como as exemplificadas, criam espaços muito mais ricos e espontâneos para a juventude católica se encontrar, crescer e construir uma comunidade de fé vibrante e acolhedora.

Leia também:

Exortação "Christus vivit": síntese ampla e texto integral

Publicamos uma ampla síntese com o link ao texto integral da Exortação Apostólica do Papa Francisco, fruto do Sínodo dos jovens realizado em outubro de 2018

https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2019-04/exortacao-sintese-ampla-testo-integral.html

Lançamento | Cadernos IHU Ideias Nº 398


A nova edição discute as juventudes contemporâneas, a chamada "Geração Floco de Neve", e os impactos do capitalismo sobre a educação, a saúde mental e as formas de convivência.

Leia AQUI


COMO O AGRO DOMINOU A MÚSICA BRASILEIRA

 Recebi o link pra um dossiê intitulado Farra, um levantamento sobre os eventos promovidos por órgãos públicos e animados por artistas da Música Popularesca Brasileiram o texto estarrecedor, e disponível no site deolhonosruralistas.com.br


Um trechinho:

"Durante seis meses, a equipe de pesquisa do De Olho nos Ruralistas mergulhou em um universo de mais de 20 mil contratos, quase 40% deles ausentes na principal referência para jornalistas e pesquisadores, o Plano Nacional de Contratações Públicas (PNCP). E constatou uma escala de gastos muito maior do que aquela até agora noticiada.

No que se refere aos shows realizados em 2024, 2025 e início de 2026, cem bandas

receberam, cada uma, pelo menos R$ 25 milhões de prefeituras e governos estaduais. Ao todo, o valor do top 100 ultrapassa os R$ 5 bilhões. Isso levando em conta contratos firmados até 31 de março de 2026, data de fechamento da pesquisa de dados — para podermos viabilizar as comparações e a divulgação.

Dentro desse top 100 há um grupo ainda mais exclusivo: o de artistas que ultrapassaram o rubicão dos R$ 50 milhões em contratos públicos. Esses 40 nomes receberam, juntos, R$ 3,08 bilhões desde janeiro de 2024. Um valor que se aproxima do recorde de captação pela Lei Rouanet, de R$ 3,41 bilhões em 2025. Com duas diferenças: 1) apenas a quantia do top 40 sai diretamente dos cofres públicos; 2) a Lei Rouanet se refere a diversas expressões artísticas, não somente a música.

2 - Mas seriam os artistas os únicos beneficiados? Nossa investigação foi além e mostrou que há uma concentração ainda maior em um grupo de cinco produtoras nordestinas que, sozinhas, receberam R$ 2,42 bilhões — quase metade do valor obtido pelo top 100. Esse oligopólio é liderado por dois cantores: Wesley Safadão, sócio da Camarote Shows e 3º colocado entre os artistas que mais receberam dinheiro público no Brasil; e Xand Avião, da produtora Vybbe, 10º lugar na lista.

Muito além de serem concorrentes, os antigos amigos Xand e Safadão ilustram a partir de suas empresas o quanto o universo dos shows públicos no Brasil tem a participação ativa das bets e do agronegócio (...) 


José Teles é um influente jornalista, escritor e crítico musical brasileiro radicado no Recife. Com mais de 30 anos de carreira no Jornal do Commercio e colaborações em revistas nacionais, ele é referência na cobertura cultural do Nordeste. É autor de diversos livros sobre a música e a cultura regional, incluindo a obra Do Frevo ao Manguebeat.

Nota do editor : Como Natanzinho Lima estraga a canção abaixo
A mensagem central de "Entre a Serpente e a Estrela" é a dualidade do amor e a dor inevitável de suas marcas. A música mostra o dilema humano de se equilibrar entre o perigo da paixão (a serpente) e a luz do romance (a estrela). Ela reforça que amar exige vulnerabilidade, o mistério do sentimento feminino é indecifrável e ninguém sai de uma relação sem cicatrizes. [1]

Grandes Canções 🎶 A música ‘Entre a Serpente e a Estrela’, interpretada pelo cantor e compositor Zé Ramalho, é uma obra que mergulha nas profundezas das emoções humanas, explorando a dualidade do amor e da dor que muitas vezes o acompanha. A letra da canção utiliza metáforas para descrever a complexidade dos relacionamentos amorosos e a inevitável marca que eles deixam em nossas vidas. O início da música já nos apresenta uma imagem forte com ‘um brilho de faca onde o amor vier’, sugerindo que o amor pode ser tanto luminoso quanto cortante. A referência ao ‘mapa da alma da mulher’ pode ser interpretada como a dificuldade de compreender completamente os sentimentos e pensamentos de outra pessoa, especialmente em um contexto amoroso. A serpente e a estrela, elementos centrais da canção, simbolizam respectivamente a tentação e a aspiração, o perigo e a beleza, o que torna o amor tão complexo e contraditório. A música fala sobre seguir em frente apesar do sofrimento, mantendo a esperança de que o futuro possa trazer de volta o que foi perdido, simbolizado pelo ‘semblante de mulher’. Essa esperança, no entanto, é tingida pela consciência de
Ao contextualizar a frase proferida pelo cantor de arrocha Natanzinho Lima antes de interpretar "Entre a Serpente e a Estrela", fica evidente o choque cultural e temático. A expressão "mulher bonita e gado nelore só tem quem pode" destrói, esvazia e inverte completamente a essência poética e filosófica da composição original por três motivos principais: [1, 2, 3]
1. Coisificação e Status vs. Vulnerabilidade e Dor
  • Na música original: A letra de Aldir Blanc aborda o amor como uma força avassaladora e mística. Ela traz vulnerabilidade absoluta, onde "ninguém sai com o coração sem sangrar". O foco é a entrega emocional e o sofrimento inevitável de quem ama. [1, 2]
  • Na fala de Natanzinho: Ao equiparar uma mulher ao gado Nelore (uma das raças de bovinos mais caras e valorizadas do mercado agropecuário), o cantor coisifica as relações. O amor deixa de ser uma experiência de sentimentos profundos e passa a ser tratado como um símbolo de status social, luxo, poder aquisitivo e posse. [1, 2, 3]
2. Orgulho de Ostentação vs. O Mistério Indecifrável
  • Na música original: A canção exalta a humildade diante do sentimento e a incapacidade do homem de controlar o afeto, eternizada no verso "ninguém tem o mapa da alma da mulher". É o reconhecimento de que o outro é um mistério sagrado e inalcançável. [1]
  • Na fala de Natanzinho: A expressão "só tem quem pode" sugere que mulheres bonitas seriam "conquistas" reservadas apenas a homens com poder ou dinheiro. Isso anula a ideia de mistério e conexão de almas, transformando o relacionamento em uma transação de ostentação. [1]
3. Redução Estética vs. Conflito Existencial (A Serpente e a Estrela)
  • Na música original: A canção vive no equilíbrio sutil entre o perigo carnal da paixão (serpente) e a iluminação espiritual (estrela). É um dilema profundo da existência humana.
  • Na fala de Natanzinho: Toda essa riqueza mitológica e metafórica é reduzida a um jargão raso do universo das vaquejadas e do agronegócio. A dualidade poética é substituída pela mera valorização da beleza estética física como um bem de consumo. [1]
Ao introduzir um clássico existencial de Zé Ramalho com uma frase de ostentação material, o cantor remove o misticismo e a sensibilidade da obra, transformando um hino sobre a dor de amar em uma celebração machista de poder e posse. [1, 2]





quarta-feira, 29 de julho de 2026

Cineclube Realidade realiza sessão especial nesta sexta feira (31) em evento do SIndoméstica SE para exibir o curta "Domésticas".

O curta-metragem Domésticas, produzido pela ONG ThemisGênero, Justiça e Direitos Humanos em parceria com a ONU Mulheres (Fundo de Igualdade de Gênero) e o fundo ELAS, conta a história de três mulheres trabalhadoras domésticas. Com direção de Felipe Diniz e realização da Casa de Cinema, o documentário integra o projeto “Trabalho Doméstico: Construindo Igualdade no Brasil”. O filme — lançado em 2016 será exibido nesta sexta-feira (31), às 14h, no Sindoméstica_SE, no Centro de Aracaju — acompanha o cotidiano de profissionais como a baiana Creuza Oliveira, presidenta da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas, e outras duas mulheres contatadas pela ONG a partir de atividades com a categoria.


A produção surge em um contexto fundamental: em 2013, a Themis começou a fortalecer redes da categoria com oficinas pelo país. No mesmo ano, foi aprovada a PEC que garante direitos às domésticas — regulamentada apenas em 2015 e que, ainda hoje, formaliza apenas cerca de 30% das trabalhadoras (dado de 2016). Diante da desvalorização, da discriminação, da vulnerabilidade e da herança racista e sexista que marcam a atividade, o objetivo do curta, conforme explica a coordenadora Michele Savicki, é mostrar essa realidade e fomentar o debate. “Queremos que as pessoas possam debater sobre elas e sobre a lei aprovada, que estejam atentas a isso”, afirmou. A produtora executiva Ana Luiza Azevedo, da Casa de Cinema, reforça que a ideia é continuar ampliando esse registro, "contar um pouco a história delas em vários lugares do Brasil".

E essa mensagem encontrou eco imediato. Desde suas primeiras exibições, o curta se transformou em um espelho doloroso para muitas espectadoras. Mais do que um registro audiovisual, a obra provocou uma onda de relatos sinceros nas redes sociais — memórias de infância roubada, promessas não cumpridas, humilhações silenciosas e uma luta incessante por reconhecimento e direitos trabalhistas. A seguir, uma reportagem construída a partir das vozes de quem viveu essa realidade na pele.

 “Doeu, me vi nesse filme”: a realidade das domésticas em depoimentos.

“Meu sonho era estudar”: a infância interrompida

Entre os depoimentos, um dos mais comoventes é o de uma mulher que, aos 13 anos, foi trabalhar na casa de uma professora. “O meu sonho era estudar, amava os livros, cheirava, abraçava, pedia para as crianças me ensinarem”, relembra. Ela caprichava no uniforme, mas o sonho esbarrava na rotina exaustiva: “Era muito trabalho, não dava tempo”. Viúva, sua mãe tinha muitos filhos, e ela foi trabalhar para diminuir as despesas de casa, com a promessa de que poderia estudar — promessa que, na prática, nunca se cumpriu.

Outra história semelhante é a de uma mulher que, com apenas 11 anos, foi levada para outra cidade com a promessa de brincar, mas acabou trancada em um apartamento, limpando e tomando banho gelado. “Quando eles saíam, eu ficava trancada no apartamento, com muito medo”, desabafa. “Foram tempos difíceis.” 

Invisibilidade e desumanização: “alicerce dos prédios”

A metáfora talvez mais forte veio de um dos comentários: “A empregada doméstica ou a diarista no Brasil são como alicerces dos prédios: fundamentais, mas invisíveis” . Essa invisibilidade se traduz em gestos cotidianos de desrespeito. Uma usuária relata que sua mãe, manicure, tinha uma amizade de longa data com uma cliente. Quando sua mãe faleceu, a cliente nunca mandou uma mensagem de pesar. Anos depois, ao reencontrá-la na igreja, a única pergunta foi: “Você faz unha igual sua mãe também?” — ou seja, ainda buscava uma serviçal.

O relato de uma sobrinha expõe a crueldade com que muitas são descartadas: sua tia trabalhou 46 anos na mesma casa, criou os filhos da patroa e abriu mão de constituir a própria família. Seu quarto era do tamanho de uma cama, sem água quente. “Quando ela adoeceu, eles não sabiam como descartá-la bem rápido”, conta. “Ela morreu deprimida, magoada pelo desprezo.” 

A luta por direitos: “para futilidades, pagam caríssimo”

A disparidade de valores é um dos pontos mais citados. “Para futilidades, os patrões pagam caríssimo. Para o direito das domésticas, tudo custa muito”, resume uma internauta. Outra denuncia: “Tem patrões que não querem pagar passagem e ainda dizem que queremos ganhar mais que eles que estudaram.” A resposta é direta: “É cada um limpar sua casa e organizar sua própria bagunça.

Apesar dos avanços legais — como a PEC das Domésticas e a LC 150/2015 —, muitos apontam que a exploração persiste. “Pra mim é uma escravidão até hoje. Fazem mil e uma coisas por um salário horrível e ainda são humilhadas”, desabafa uma jovem. Outra lamenta: “Minha mãe trabalhou 20 anos numa casa e saiu sem nada.” 

Resiliência e esperança: “graças a Deus, estudei muito”

Em meio à dor, há relatos de superação. A mesma mulher que começou aos 13 anos conseguiu, anos depois, estudar à noite e trabalhar de dia. “Terminei ensino médio, fiz Enem”, conta com orgulho, embora lamentando não ter concluído a faculdade de fisioterapia. “Eita, tenho história pra contar.”

Outras vozes celebram as conquistas: “Graças a Deus, hoje o direito está esclarecido para acabar com essa escravidão no Brasil” . E há quem veja no curta uma ferramenta de transformação: um professor de história do Ceará conta que usa o documentário em suas aulas na periferia , e uma internauta defende que “deveria ser obrigatório assistir esse documentário nas escolas”.


Um seminário para além das telas

Mas a programação do dia 31 de julho, data marcada para a exibição do curta no Sindoméstica_SE, vai muito além das telas. A data foi escolhida para abrigar um verdadeiro seminário dedicado às trabalhadoras domésticas, com início às 9h e encerramento às 17h. A manhã começa com o credenciamento e a composição da mesa oficial, que dá lugar a uma série de falas fundamentais: a presidenta Quitéria abre os trabalhos, seguida por representantes da CUT e do DIEESE, que trazem a perspectiva histórica do movimento sindical e os dados econômicos que envolvem a categoria. Em seguida, especialistas em nutrição, psicologia e direito — este último com um enfoque direto nos direitos garantidos pela PEC — oferecem palestras informativas.

Após a pausa para o almoço, os trabalhos retomam às 14h, horário exato em que o documentário é exibido, criando uma ponte perfeita entre a arte e o debate. Na sequência, uma roda de conversa convida as participantes a compartilhar vivências e esclarecer dúvidas, transformando a plateia em protagonista. O dia ainda reserva um acolhedor "Momento da Beleza" e atendimentos individuais com nutricionista, psicóloga e advogado para aquelas que desejarem, antes do encerramento oficial com agradecimentos às 17h. Esse seminário, ao reunir conhecimento, autocuidado e troca de experiências, materializa na prática a luta por dignidade que o documentário expõe na tela.

Os depoimentos revelam que o curta Domésticas não é apenas um filme — é um retrato cru de uma realidade que ainda persiste, mesmo com os avanços legislativos conquistados pela luta organizada da categoria. São histórias de infâncias roubadas, de corpos invisibilizados, mas também de resistência. Como resume uma das participantes: “Temos direitos atualmente, obrigada a vocês que lutaram por essa conquista!” A luta, porém, continua — e cada relato, assim como cada palestra e roda de conversa do seminário, é um lembrete de que o trabalho doméstico, essencial para a autonomia econômica de tantas famílias e para o funcionamento da sociedade, merece ser tratado com a dignidade que sempre lhe foi negada.


Programa voltado para qualificação de profissionais do setor cultural de Aracaju está com inscrições abertas

 A prefeita de Aracaju, Emília Corrêa, divulgou nesta quarta-feira, 29, o Plano de Formação Artístico e Cultural 2026. A iniciativa é destinada para a qualificação de artistas, agentes culturais, produtores, fazedores de cultura e demais profissionais do setor cultural da capital


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As inscrições são gratuitas e seguem abertas. A programação reúne cursos, oficinas e palestras voltados ao fortalecimento da cadeia produtiva da cultura.

O programa contempla capacitações em áreas estratégicas, como elaboração e gestão de projetos culturais, formalização profissional, uso de ferramentas digitais, prestação de contas, comunicação, captação de recursos, produção executiva de eventos e formação artística.

O plano também beneficiará estudantes da rede municipal de ensino e usuários dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), ampliando o acesso à formação cultural e incentivando o desenvolvimento de talentos em diferentes territórios da cidade.

Em vídeo publicado em suas redes sociais, Emília destacou a importância do projeto para os artistas que não possuem condições financeiras para capacitação de suas trajetórias profissionais.

“Imagine um artista que tem talento e tem uma ideia incrível, mas não tem recursos pra botar pra frente. Aí ele encontra um edital que pode financiar, só que quando ele vai se inscrever, o edital pede orçamento, cronograma, documentação, prestação de contas…Ele sabe fazer arte, o que ele não sabe é como transformar o talento dele em um projeto capaz de conquistar aquela oportunidade”, explicou a prefeita.

O plano inicia em agosto e segue até o mês de novembro. As datas oficiais das oficinas de agosto devem ser divulgadas ainda nesta quarta, 29.

Para os interessados, as inscrições são limitadas e podem ser realizadas por meio de formulário disponível no Instagram da Secult Aracaju ou AQUI. 




 

 

 


Vamos assistir ECOS DO TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO? Será que podemos contar com mais presença de professores da educação básica e superior, estudantes dos cursos de teatro da UFS e cursos livres, de História , Audiovisual, Comunicação e lideranças ligadas ao movimento negro? E com quem mais?


 O documentário Ecos do Teatro Experimental do Negro lança um olhar contemporâneo sobre a presença negra nas artes brasileiras. O roteiro utiliza a encenação de peças históricas do TEN, fundado por Abdias Nascimento, como fio condutor narrativo. Unindo performances clássicas a depoimentos de artistas influenciados pelo movimento, a obra revela a resistência contra o blackface e a evolução do teatro negro, conectando o legado de 1944 aos coletivos atuais.



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Critica

Ecos do Teatro Experimental do Negro parte da história de um dos movimentos culturais mais importantes do Brasil para discutir um tema que permanece atual: quem ocupa os espaços de representação e quem ainda precisa lutar para ser visto. Ao revisitar o legado do Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias do Nascimento, o documentário não se limita a reconstruir um capítulo da história do teatro brasileiro. Ele evidencia como muitas das questões levantadas décadas atrás continuam presentes nas artes e na sociedade.

A direção de Daniel Solá Santiago encontra um equilíbrio interessante entre a pesquisa histórica e a reflexão contemporânea. Em vez de organizar uma narrativa puramente cronológica, o filme estabelece um diálogo entre passado e presente por meio de encenações, imagens de arquivo e depoimentos de artistas que ajudam a compreender a dimensão política e cultural daquele movimento. Essa estrutura impede que a obra se transforme apenas em uma aula de história e aproxima o espectador das discussões propostas.


segunda-feira, 27 de julho de 2026

Ele é um Silva que se tornou presidente do Brasil e sabe defender a democracia e a soberania da nação


O Rap do Silva original. Aqui

"Lula para Trump: ‘Ninguém vai nos derrotar através de mentiras’

(The Washington Post, 26.7.2026)

Há um ano, fiquei surpreso com a publicação, em uma plataforma digital, de uma carta do presidente Donald Trump impondo uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. O primeiro parágrafo se referia ao ex-presidente Jair Bolsonaro — que foi condenado ano passado por tentativa de golpe de Estado no Brasil e agora está em prisão domiciliar —, explicitando a motivação política por trás da medida.

Nas minhas conversas com o Presidente Trump desde então, salientei que não precisamos partilhar a mesma visão do mundo para prosseguir numa relação mutuamente benéfica entre os nossos países. Afinal, lideramos as duas maiores democracias e economias das Américas.

Negociações entre nós, juntamente com decisões da Suprema Corte dos EUA, desmantelaram a versão inicial das medidas tarifárias abrangentes. No entanto, este mês, desconsiderando dezenas de reuniões entre as nossas equipes, argumentos técnicos sólidos e documentos que entreguei pessoalmente ao Presidente Trump, o governo dos EUA impôs novas tarifas ao Brasil variando de 12,5% a 37,5%.

Como resultado, a Global Trade Alert, uma organização independente sediada na Suíça, estima que o Brasil e a Turquia são agora os dois países mais fortemente tarifados pelos Estados Unidos, atrás apenas da China. Isto apesar do superávit dos EUA com o Brasil no comércio bilateral de bens e serviços, que totalizou US$ 428 bilhões em 15 anos consecutivos.

Além de injustas, as novas tarifas são um erro estratégico: prejudicarão a economia dos EUA e a parceria com o Brasil. Vários setores industriais dos EUA dependem de insumos brasileiros. Alimentos, calçados, têxteis, móveis, autopeças e muitos outros produtos ficarão mais caros para os consumidores dos EUA.

As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram para o nível mais baixo desde 1997. Comparando os primeiros seis meses de 2025 e 2026, o comércio bilateral com os EUA caiu 12,8%, enquanto o comércio do Brasil com a União Europeia cresceu 6,1% e seu comércio com a China aumentou 15,9%.

A médio prazo, essas tarifas irão perturbar cadeias de abastecimento hoje profundamente integradas, e as empresas brasileiras substituirão os fornecedores norte-americanas por parceiros de outros lugares.

Isso diz muito sobre a inconsistência entre os interesses que os Estados Unidos proclamam em sua estratégia de segurança nacional e as políticas que seguem em relação ao Hemisfério Ocidental.

A América Latina e o Caribe não precisam de porta-aviões patrulhando suas águas nem de tarifas punitivas. O que nos falta são parceiros confiáveis e previsíveis. Numa época em que os EUA estão fechando seu mercado, outros países têm se apresentado como alternativas, oferecendo uma agenda positiva capaz de fomentar o desenvolvimento econômico e social.

Estou convencido de que unir forças em torno de iniciativas concretas que envolvam investimento, comércio e luta contra o crime organizado é o caminho a seguir para superar os males que afligem um hemisfério que pertence a todos nós.

Dividir o mundo em esferas de influência e buscar empreendimentos neocoloniais em busca de recursos estratégicos são gestos anacrônicos e retrocessos.

Apesar da longa história de intervenções políticas e militares dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe, houve momentos em que Washington se mostrou capaz de ser um parceiro digno de nossos interesses de desenvolvimento.

O Presidente Franklin D. Roosevelt implementou a Política de Boa Vizinhança, que procurava substituir o uso da força pela diplomacia na política externa dos EUA em relação à região. Essa abordagem contribuiu decisivamente para os estágios iniciais da industrialização do Brasil. Ao enfrentar a crise financeira de 2008, o Presidente George W. Bush incluiu três países latino-americanos na cimeira inaugural do Grupo dos 20 líderes.

Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é a guerra contra a fome, a pobreza e a desigualdade. E as únicas armas que devemos utilizar são o investimento, a transferência de tecnologia e o comércio justo e equilibrado.

Tentativas de impor restrições ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não serão aceitas. Nunca antes um secretário de Estado dos EUA declarou que o Brasil não é amigo dos Estados Unidos. Ninguém nos derrotará através de mentiras.

As alegações do presidente Trump contra o Brasil, tentando justificar tarifas, são infundadas. A liberdade de expressão não é um passe livre para atividades criminosas nas plataformas de redes sociais — não desistiremos de proteger as nossas famílias e crianças da ganância de um punhado de oligarcas tecnológicos. Nosso sistema de pagamento, PIX, não discrimina empresas dos EUA. e é uma referência internacional em infraestrutura pública digital. O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023, começamos a combater agressivamente os crimes ambientais e a reduzir drasticamente o desmatamento em todos os biomas brasileiros.

Respeitamos a soberania de outros Estados e negociamos com todos aqueles que sabem respeitar a nossa. A reciprocidade é a base de todas as relações entre as nações, e temos os mecanismos apropriados para garanti-la.

Estamos prontos para continuar engajados em um diálogo aberto e construtivo, como exige o relacionamento entre dois países como Brasil e Estados Unidos. Mas o destino do Brasil cabe somente aos brasileiros determinar — sem interferência estrangeira ou subserviência."

Morre o artista plástico sergipano Joubert Moraes e com ele um pouco da Aracaju pacata e com ares de interior..

O corpo dele foi sepultado na Colina da Saudade, em Aracaju. Ele deixa esposa, uma filha e um neto.

Por g1 SE

26/07/2026 

O artista plástico sergipano Joubert Moraes morreu aos 78 anos, em Aracaju, neste sábado (25). A informação foi confirmada por familiares.

O velório aconteceu neste domingo (26) na Colina da Saudade, na capital, onde o corpo de Joubert também será sepultado. Ele deixa esposa, uma filha e um neto.

Joubert nasceu no dia 13 de dezembro de 1947 em Propriá, em uma família de artistas: o pai era poeta e escritor, a mãe cantora e bordadeira, e a irmã pintora.

O artista construiu mais de 55 anos de uma carreira rica com trabalhos de pintura, desenho, escultura, música, cenografia, poesia e diversas outras linguagens artísticas.

Ainda em vida, Joubert recebeu diversas premiações como o Prêmio Horácio Hora de Artes Plásticas e Prêmio J. Inácio, além de participações no Festival de Artes de São Cristóvão (FASC).


Joubert Moraes: A Alma Visual de Sergipe que Conquistou o Mundo

Por Blog da Cultura (conteúdo produzido com IA)

Quando se fala em artes visuais sergipanas, um nome ressoa com a força das dunas e a poesia do São Francisco: Joubert Moraes (1947–2026). Ao longo de mais de seis décadas de dedicação integral à criação, ele não apenas pintou e esculpiu — ele fundiu a identidade cultural de seu estado natal a uma linguagem estética universal, construindo pontes sólidas entre o Nordeste e o cenário artístico nacional e internacional.

Sua trajetória é um testemunho vivo de como a arte pode ser, ao mesmo tempo, profundamente enraizada e radicalmente livre. Vamos explorar a vida, a obra e o legado desse mestre que transformou Sergipe em tela e o mundo em seu ateliê.

O Artista que Carregava o São Francisco na Alma

Joubert Moraes nasceu em 13 de dezembro de 1947, em Propriá, às margens do Rio São Francisco. Filho de João Teixeira de Moraes, um celebrado poeta e escritor local, e de Dona Júlia, que se dedicava ao canto e ao bordado, o menino cresceu imerso em um ambiente profundamente poético.  Curiosamente, o nome "Joubert" era o pseudônimo literário que seu pai utilizava para assinar crônicas e poesias na imprensa regional — um prenúncio da vocação artística que viria a se manifestar no filho.

Aos sete anos, mudou-se com a família para Aracaju, onde seu universo de referências se expandiu. Mas foi aos 13 anos que sua jornada como artista ganhou um impulso decisivo: sua irmã mais velha, Gêlda Maria, desistiu de pintar e doou ao jovem irmão todo o seu estoque de tintas, telas e pincéis.Foi o pontapé inicial de uma carreira que moldaria a identidade visual de todo um estado.

A Formação de um Mestre: Entre a Bahia e o Mundo

Na adolescência, já em Aracaju, Joubert tornou-se frequentador assíduo da pioneira Galeria Acauã, onde absorvia debates e arte contemporânea. Frequentou os ateliês de ícones da pintura sergipana como Florival Santos e J. Inácio, aprendendo técnicas de luz, cor e a valorização temática do Nordeste.

Em 1968, aos 21 anos, realizou sua primeira exposição individual na histórica Galeria de Arte Álvaro Santos, consolidando o fim de sua juventude artística.  

Mas foi na Bahia que sua formação estética e intelectual atingiu novo patamar. No final dos anos 1960, mudou-se para Salvador para cursar o Curso Livre de Arte da Universidade Federal da Bahia, sob a tutela rigorosa do mestre Juarez Paraíso. Lá, sua mente se expandiu ao travar amizade com o arquiteto russo Lev Smarchevski e com o famoso navegador solitário Aleixo Belov, que o introduziram às teorias da geometrização e do abstracionismo internacional.

Integrou um efervescente núcleo de jovens artistas na Bahia, convivendo com nomes como Luiz Jasmim, Tatti Moreno e Fernando Coelho.  E, sobretudo, assimilou uma lição fundamental: a arte não deveria ter amarras geográficas. Essa visão, consolidada pelo contato com o crítico Wilson Rocha, permitiu-lhe fundir a tradição literária paterna ao expressionismo pictórico.

A Pintura em Quatro Movimentos

A trajetória pictórica de Joubert Moraes é marcada por uma evolução contínua, que pode ser dividida em quatro fases distintas:

1. Fase Acadêmica e Clássica — Seu início foi focado no rigor do desenho anatômico, no domínio das proporções e nas técnicas tradicionais de luz e sombra. Uma base sólida que lhe daria liberdade para ousar depois.

2. Fase Surrealista e Psicodélica — Influenciada pelos anos 1970 e por sua vivência na Bahia, essa fase incorporou distorções formais, cores vibrantes e elementos oníricos. A realidade ganhava contornos de sonho.

3. Fase Abstrato-Expressionista — No amadurecimento, a cor e as texturas pesadas ganharam autonomia sobre as figuras. O gesto livre tornou-se protagonista, e a tela transformou-se em campo de experimentação emocional.

4. Fase Paisagística Universal — A síntese de sua carreira. Dunas, coqueiros e o litoral sergipano foram transformados em formas quase geométricas e poéticas. Era o Nordeste visto através de uma lente universal. 

Quando a Tela Ganha Volume: A Escultura

Para Joubert, a escultura não foi uma ruptura, mas uma extensão natural da pintura. Ela surgiu como uma necessidade de fazer os volumes de suas telas saltarem para o espaço real. 

Sua transição para a tridimensionalidade se consolidou em grandes monumentos públicos de metal e concreto, que dialogam com a arquitetura das cidades. O maior exemplo é a escultura "Formas e Cores", na Orla da Atalaia, em Aracaju — uma obra que traduz o dinamismo de seus quadros em linhas tridimensionais, tornando-se um marco urbano e um símbolo da identidade visual de Sergipe.

Música, Cenografia e a Arte Total

Joubert Moraes era um artista completo. Sua faceta musical e cenográfica revela um criador que via a arte como um campo integrado.

Como cenógrafo teatral, criou ambientações imersivas para peças locais, aplicando seu entendimento de espaço e iluminação dramática. Como músico, explorava a sonoridade regional e a MPB, enxergando o ritmo sonoro como um reflexo direto do ritmo visual de suas telas.

Para ele, som, palco e imagem faziam parte de uma mesma expressão artística. Essa unidade estética enriquecia não apenas suas performances, mas toda a sua concepção de arte. 

O Legado: Reconhecimento e Projeção

A importância de Joubert Moraes para as artes plásticas sergipanas é imensurável. Suas obras incorporaram de forma inconfundível os elementos da natureza de Sergipe — dunas litorâneas, coqueirais, o São Francisco — criando uma assinatura que ajudou a definir o imaginário visual da região. 

Ele rompeu barreiras técnicas locais ao transitar com maestria entre o rigor da proporção clássica, o psicodelismo surrealista e o abstracionismo expressionista, mostrando que a arte nordestina não precisava se restringir ao regionalismo estrito.  

Seu talento atraiu a atenção de importantes intelectuais e críticos de arte nacionais, como Wilson Rocha, que elogiou sua produção pela complexidade de sua "lucidez pictórica" e profundidade psicológica.【

No âmbito institucional, consolidou-se como mestre local ao receber as maiores condecorações artísticas de Sergipe, incluindo o Prêmio Horácio Hora, o Prêmio J. Inácio e a prestigiada Comenda Cultural Tobias Barreto. 

Sua relevância continuou ativa até o fim de sua vida. Em 2024, foi beneficiado pelo programa Funarte Retomada para a realização de sua grande exposição retrospectiva de 60 anos de carreira.

E suas obras superaram as fronteiras do Brasil, participando de mostras e integrando coleções em países como Estados Unidos, França, Portugal e Senegal. 

Conclusão

Joubert Moraes nos deixou em 2026, mas sua obra permanece viva — nas galerias, nos espaços públicos, na memória afetiva de Sergipe e no coração de todos que contemplam sua arte. Ele foi, acima de tudo, um artista que nunca deixou de ser ribeirinho: carregava consigo a fluidez do São Francisco, a força das dunas e a poesia de seu povo.

Sua trajetória nos ensina que a arte verdadeiramente universal não nega suas raízes — pelo contrário, as celebra. E, ao celebrar Sergipe, Joubert Moraes celebrou a humanidade.

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Joubert e as cores da memória. 

Por Pascoal Maynard no facebook

Há pessoas que partem, mas não vão embora. Permanecem nas ruas por onde caminharam, nas casas onde viveram, nas conversas que despertam sorrisos e, sobretudo, naquilo que criaram. Hoje, com a partida de Joubert, não consigo pensar apenas no artista consagrado. Minha memória insiste em reencontrar o menino e o jovem que fizeram parte da paisagem afetiva da minha infância.

Li, mais uma vez, o belo texto de Mário Britto, e algumas de suas palavras ganharam um significado ainda mais profundo. Ele escreve que Joubert nasceu "no seio de uma família de artistas". É verdade. Aquela casa parecia respirar arte. O pai, poeta e escritor; a mãe, cantora e bordadeira. Não era apenas uma família que apreciava a cultura; era uma família que fazia da beleza um modo de existir.

Nossa proximidade ia além da geografia. Eu morava na Praça Fausto Cardoso. Joubert, na Rua Maruim, entre as ruas Itabaiana e Pacatuba. Eram poucos passos de distância. Naquele centro de Aracaju, onde as ruas ainda tinham o ritmo das conversas nas calçadas e o tempo parecia caminhar mais devagar, as famílias se conheciam, os meninos cresciam juntos e as amizades eram construídas sem cerimônia, como se fizessem parte da própria paisagem.

Naqueles dias, ninguém imaginava que aquele rapaz de fala tranquila carregava dentro de si um universo inteiro de cores, formas e poesia. Mário Britto lembra que, ainda adolescente, Joubert "tinha o hábito de visitar galerias de arte, comparecia a todas as exposições e frequentava, assiduamente, os ateliês dos mestres J. Inácio e Florival Santos". Hoje percebo que aquele jovem já perseguia um destino que só ele conseguia enxergar com nitidez.

Depois veio Salvador, a Escola de Belas Artes, os encontros com outros artistas, as experiências com a abstração. A vida foi ampliando seus horizontes, mas nunca lhe arrancou as raízes. Joubert levava Sergipe consigo. Em cada tela, em cada escultura, em cada cenário que criou, havia sempre um pouco da terra que o viu nascer e da sensibilidade que floresceu nas ruas da velha Aracaju.

Mário Britto encontrou uma definição que dificilmente poderia ser mais feliz: "Joubert tem uma relação completa e visceral com a arte". Talvez porque, para ele, a arte nunca tenha sido apenas profissão. Era respiração. Era linguagem. Era uma forma de compreender o mundo. E quando Britto escreve que "toca violão com a mão direita, pinta com a esquerda e, com ambas, faz as esculturas", desenha, em poucas palavras, um homem inteiro, cuja criatividade parecia desconhecer limites.

Hoje suas obras estão espalhadas pelo Brasil e por tantos outros países. Permanecerão onde sempre estiveram: nas paredes, nos museus, nas instituições, nas praças e nas casas de tantos admiradores. Mas permanecerão, sobretudo, onde Mário Britto tão bem registrou: "na memória e no coração do povo sergipano".

Quanto a mim, guardo outra galeria. Não é feita de quadros. É feita de lembranças. As ruas do centro de Aracaju, os encontros casuais, as famílias vizinhas, o cotidiano simples de uma cidade que nos ensinou o valor da convivência. Quando penso em Joubert, vejo também aquele pedaço da cidade que moldou nossas vidas e que continua existindo dentro de nós, mesmo quando o tempo transforma tudo ao redor.

A morte tem o estranho poder de silenciar uma voz, mas nunca consegue apagar uma presença. Os artistas conhecem esse segredo. Eles sobrevivem naquilo que deixam para os outros. Joubert compreendeu isso sem precisar dizê-lo. Pintou sua permanência em telas, esculpiu-a na matéria e gravou-a na memória de todos que tiveram o privilégio de conviver com sua arte e com sua generosidade.

Hoje Sergipe perde um de seus maiores artistas. Eu me despeço também de um companheiro de paisagem, de um rosto familiar da minha infância e juventude, de alguém cuja trajetória me enche de orgulho por ter acompanhado, ainda que de perto e silenciosamente, os seus primeiros passos.

Costuma-se dizer que a morte encerra uma vida. Talvez. Mas nunca encerra uma obra construída com talento, sensibilidade e amor. A verdadeira arte é uma forma de eternidade.

Joubert encerra hoje sua travessia humana. Paradoxalmente, é também hoje que sua obra se torna ainda mais definitiva. Porque o artista parte, mas a arte permanece. E, enquanto houver um sergipano capaz de se emocionar diante de uma de suas telas, de uma de suas esculturas ou da lembrança de sua delicadeza, Joubert continuará entre nós.

Adeus, meu querido Joubert.