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Resumo: O presente artigo analisa os limites metodológicos e jurídicos da política pública de Classificação Indicativa no Brasil a partir do caso das animações baseadas em narrativas bíblicas. Examina-se o conflito entre a aplicação literal-mecanicista dos descritores de conteúdo e a necessidade de interpretação sistemática que considere atenuantes estéticas, o contexto cultural e o princípio da autotutela administrativa na correção de atos públicos eivados de vício técnico.
1. Introdução
A política pública de classificação indicativa no Brasil, fundamentada no Artigo 21, Inciso XVI, da Constituição Federal de 1988, e regulamentada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), atua estritamente como um mecanismo informacional e pedagógico, distanciando-se de qualquer caráter censório. Todavia, a operacionalização dessa política frequentemente enfrenta desafios hermenêuticos. O recente tensionamento envolvendo a reclassificação provisória das produções de animação fundamentadas em relatos bíblicos ilustra a fragilidade metodológica de análises que priorizam a fragmentação do objeto em detrimento de sua totalidade discursiva e cultural.
2. A Fragmentação Objetiva versus A Hermenêutica do Contexto
O processo de avaliação de obras audiovisuais pela Coordenação-Geral de Política de Classificação Indicativa do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) apoia-se em matrizes de "descritores de conteúdo", as quais catalogam ocorrências de violência, sexo e drogas. No caso em tela, a análise inicial operou sob um viés estritamente positivista e literal, fragmentando passagens históricas e teológicas do Antigo e Novo Testamento em rubricas punitivas:
Violência e Criminalidade: Passagens milenares como o embate entre Davi e Golias ou as ações de Sansão foram decodificadas puramente sob o descritor de violência física extrema ou mortes fictícias.
Suplício e Execução: A crucificação de Jesus e o martírio de João Batista foram indexados sob as categorias de atos criminosos e tortura.
Exibição de Substâncias Inebriantes: Relatos clássicos como a embriaguez de Noé foram capitulados friamente como consumo de drogas lícitas.
Essa metodologia inicial incorreu em um reducionismo semiótico ao ignorar o que o próprio Guia Prático de Classificação Indicativa estabelece como "Critérios de Atenuação". O manual normativo prevê que a estética da animação (traços lúdicos e desprovidos de realismo gráfico) e o contexto histórico-cultural-religioso funcionam como moduladores de impacto psicológico. A representação de um conflito bélico da Antiguidade por meio de animação infantil possui uma carga de recepção cognitiva radicalmente distinta de uma violência gráfica e hiper-realista em formato live-action. (1)
3. Vulnerabilidade Procedimental e a Ausência de Conhecimento Técnico Especializado
O desenho institucional que rege a classificação de obras de televisão aberta prevê uma tramitação predominantemente interna e burocrática. Na fase de triagem de ofício, o fluxo administrativo carece de mecanismos automáticos de consulta a pareceristas externos — tais como psicopedagogos, historiadores ou teólogos.
Ao prescindir de um colegiado dotado de sensibilidade hermenêutica para compreender a função social e pedagógica das narrativas religiosas na formação do patrimônio cultural, o corpo técnico do órgão operou de forma mecânica. A portaria restritiva, ao focar na infração isolada e ignorar a teleologia da obra, feriu a diretriz da Portaria MJSP nº 1.048/2025, a qual veda avaliações pautadas em juízos subjetivos, idiossincrasias ou análises descoladas da realidade sociocultural do espectador.
4. O Princípio da Autotutela e a Retificação do Ato Administrativo
Diante da flagrante incongruência técnica e da pressão dos setores afetados, a Secretaria Nacional de Direitos Digitais (Sedigi) foi instada a revisar o ato. A resolução jurídica do impasse deu-se por meio da aplicação do Princípio da Autotutela Administrativa, consagrado nas Súmulas 346 e 473 do Supremo Tribunal Federal (STF). Este postulado confere à Administração Pública o poder-dever de anular seus próprios atos quando eivados de vícios que os tornem ilegais, ou revogá-los por motivos de conveniência e oportunidade.
No plano da legalidade estrita, a revogação da portaria restritiva representou o reconhecimento de um vício de motivo e de objeto. O preenchimento dos requisitos técnicos para a manutenção do selo Livre para todos os públicos foi reestabelecido assim que uma nova equipe técnica ponderou os fatores atenuantes de contexto. A autotutela, neste cenário, operou como um instrumento de segurança jurídica, corrigindo um excesso burocrático que desvirtuava a finalidade da política pública. (2)
5. Considerações Finais
O caso das animações bíblicas cristaliza a premissa de que a classificação indicativa não pode ser reduzida a um algoritmo de contagem de infrações visuais. A eficácia informacional do selo de classificação depende de uma interpretação sistemática, capaz de sopesar a intencionalidade da obra, o suporte estético empregado e o valor histórico-cultural da mensagem. A correção do rumo administrativo pelo MJSP preservou a prerrogativa constitucional do núcleo familiar na orientação do consumo midiático, reafirmando que o texto legal só se realiza plenamente quando mediado pela adequada compreensão de seu contexto.
Notas
(1)O Guia Prático de Classificação Indicativa (Brasil, 2025) prevê expressamente que elementos de violência e consumo de substâncias perdem potencial de dano psicológico quando inseridos em matrizes estéticas lúdicas (animações) ou em narrativas com consolidado valor histórico-cultural.
(2) Conforme os preceitos de Di Pietro (2023), o poder de autotutela permite à Administração Pública o controle de legalidade de seus próprios atos, mitigando erros técnicos operacionais antes que gerem prejuízos definitivos ao administrado.
Referências Bibliográficas
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidente da República, 1988. Disponível em: planalto.gov.br. Acesso em: 4 nov. 2026.
BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília, DF: Diário Oficial da União, 1990.
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Portaria MJSP nº 1.048, de 2025. Estabelece os critérios e procedimentos para a atribuição da Classificação Indicativa de obras audiovisuais. Brasília, DF: Ministério da Justiça, 2025.
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Secretaria Nacional de Direitos Digitais. Guia Prático de Classificação Indicativa. Brasília, DF: Ministério da Justiça, 2025.
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 36. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2023. (Referência para a fundamentação teórica sobre o Princípio da Autotutela Administrativa).
MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 35. ed. São Paulo: Malheiros, 2021. (Suporte doutrinário para a análise de vícios do ato administrativo e invalidação de portarias).
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (Brasil). Súmula nº 346. A Administração Pública pode declarar a nulidade dos seus próprios atos. Brasília, DF: Supremo Tribunal Federal, [1964]. Disponível em: stf.jus.br. Acesso em: 4 nov. 2026.
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (Brasil). Súmula nº 473. A administração pode anular seus próprios atos, quando eivados de vícios que os tornam ilegais, porque deles não se originam direitos; ou revogá-los, por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos, e ressalvada, em todos os casos, a apreciação judicial. Brasília, DF: Supremo Tribunal Federal, [1969]. Disponível em: stf.jus.br. Acesso em: 4 nov. 2026.
No dia três de novembro, De dois mil e vinte e seis, Sergipe perdeu seu canto, Seu verso, sua altivez: Josineide Dantas parte, Gigi Poetisa, dessa vez.
Nascida em Propriá, Em sessenta e seis, março vinte e nove, Fez da palavra instrumento, Da poesia, o seu alcance, Cordelista, educadora, Agente de saúde, militante.
Mulher negra, afro-indígena, Bissexual, mãe solo a lutar, No Movimento Negro Unificado, Nas redes de mulheres a semear, Zumbi dos Palmares em versos, Oitenta e cinco estrofes a ecoar.
Não separou a palavra da vida, Nem a arte da transformação, Fez da cultura um direito, Da poesia, resistência e ação, Deixou saudade e legado, Pra nova geração.
Gigi Poetisa, presente! Sua voz não calará, Na memória dos movimentos, Seu verso sempre ecoará, A poesia como instrumento, De luta pra transformar.
Josineide Dantas fez da palavra, da poesia e da militância caminhos de afirmação da identidade negra, de defesa das mulheres e de luta por uma sociedade mais justa e democrática. Sua partida deixa uma lacuna nos movimentos sociais e culturais de Sergipe.
A cultura sergipana perdeu, nesta terça-feira, 3 de novembro de 2026, uma de suas vozes identificadas com a poesia, a cultura popular e as lutas sociais. Faleceu Josineide Dantas, conhecida como Gigi Poetisa, mulher negra, poeta, cordelista, educadora popular, agente comunitária de saúde e militante dos movimentos negro, feminista e popular.
Nascida em 29 de março de 1966, em Propriá, Sergipe, Gigi construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com as populações historicamente marginalizadas e pela compreensão de que a cultura não se limita à produção artística ou ao entretenimento. A poesia, em sua caminhada, era também uma maneira de contar histórias, afirmar identidades, denunciar injustiças e contribuir para a transformação da realidade.
Sua história se confunde com a de uma geração de mulheres que, especialmente a partir dos anos 1980, ampliou a presença feminina e negra nos movimentos sociais, nas organizações populares e nos espaços de participação política em Sergipe.
A poesia como afirmação da identidade negra
Gigi Poetisa não adotou a poesia como simples exercício literário. Sua produção dialogava com a memória, a ancestralidade, a história da população negra e a luta por liberdade e igualdade. Um exemplo significativo é o cordel Zumbi, um sonho da igualdade, publicado em 2009, obra composta por 595 versos, organizados em 85 estrofes de sete versos.
O poema recupera a história da escravidão no Brasil, a formação dos quilombos e a trajetória de Zumbi dos Palmares, apresentado como personagem histórico e símbolo permanente da resistência negra. A narrativa também incorpora referências à religiosidade afro-brasileira, evocando entidades como Olorum, Oxalá e Oxum.
A obra revela uma dimensão importante de sua produção: a utilização de uma linguagem tradicional da cultura popular nordestina para abordar questões históricas e políticas contemporâneas. Ao recorrer ao cordel, Gigi aproximava a literatura da oralidade, da memória coletiva e das experiências populares, reafirmando a potência de uma expressão cultural profundamente enraizada no Nordeste.
Em 2006, sua participação na programação do Novembro Negro, realizada pela Fundação Municipal de Cultura de Aracaju, já registrava publicamente sua atuação como poetisa e representante do movimento de mulheres negras.
Uma militante das causas populares
A atuação de Gigi ultrapassava o campo artístico. Sua trajetória esteve ligada ao Movimento Negro Unificado em Sergipe, à Rede de Mulheres Negras de Sergipe, à Rede de Mulheres Negras no Espaço de Poder do Nordeste e ao Fórum de Organizações Negras de Sergipe.
Também participou de mobilizações relacionadas aos direitos das mulheres, à juventude, às populações periféricas, aos povos indígenas e à população LGBTQIA+.
Em entrevista publicada pelo Marco Zero Conteúdo, em 2020, Gigi se apresentou como mulher afro-indígena, bissexual e mãe solo, destacando sua identificação com diferentes segmentos historicamente excluídos. Naquela ocasião, afirmou que sua inserção na política estava relacionada à defesa da democracia e à necessidade de o Estado contribuir para retirar as populações das situações de exclusão.
Sua experiência profissional como agente comunitária de saúde também fazia parte desse compromisso. O trabalho cotidiano junto às comunidades populares permitia conhecer de perto as dificuldades enfrentadas pela população, especialmente pelas mulheres negras, trabalhadoras e moradoras das periferias.
Em 2020, ao falar sobre sua candidatura a vereadora de Aracaju, ressaltou que sua proposta política era construída coletivamente, por meio do diálogo e do trabalho de base. A defesa de uma cidade mais inclusiva, com atenção às desigualdades de raça, gênero e condição social, atravessava sua compreensão de participação política.
A presença nos espaços de participação e transformação social
Gigi também levou sua experiência para os debates públicos sobre racismo, feminismo e direitos humanos.
Em dezembro de 2022, participou de uma mobilização promovida pelo Ministério Público de Sergipe, intitulada "Eu, tu, eles e nós pelo fim da violência contra a mulher negra e trans", representando o Movimento Negro Unificado.
Em 2022, também esteve entre as participantes de uma atividade realizada em São Cristóvão sobre Lélia Gonzalez e o feminismo negro, contribuindo para aproximar a memória e o pensamento de uma das principais referências do feminismo negro brasileiro das novas gerações.
Na Câmara Municipal de Aracaju, sua voz foi registrada em uma sessão especial dedicada ao fortalecimento das mulheres negras. Na ocasião, recuperou as trajetórias de Beatriz e Rejane Maria Pureza do Rosário, duas mulheres cuja memória permanece vinculada às lutas negras em Sergipe. Sua fala demonstrava que a militância também se faz preservando a memória de quem abriu caminhos antes de nós.
Essa dimensão merece atenção: Gigi não apenas participou de movimentos sociais, mas também ajudou a manter vivas as histórias de mulheres que construíram essas organizações e enfrentaram as desigualdades em diferentes momentos da vida sergipana.
Cultura, política e compromisso com a vida
A trajetória de Gigi Poetisa permite refletir sobre uma compreensão de cultura que ultrapassa os limites das instituições culturais e dos circuitos tradicionais de produção artística. Sua atuação aproxima poesia, educação popular, organização comunitária e participação política.
É nesse encontro que sua história ganha significado para quem compreende a ação cultural como processo de criação de condições para que pessoas e comunidades possam reconhecer suas próprias experiências, expressar suas identidades e participar da construção de seus destinos.
A poesia de Gigi, sua presença nos movimentos sociais e sua atuação junto às comunidades revelam uma mulher que não separava a palavra da vida, nem a criação artística do compromisso com a transformação social.
Sua partida deixa saudades entre familiares, amigos, companheiros de militância, artistas e integrantes dos movimentos populares. Mas deixa também um legado que precisa continuar circulando, especialmente entre as novas gerações: a memória de uma mulher que fez da palavra uma forma de resistência e da participação coletiva uma maneira de transformar o mundo.
Gigi Poetisa, presente!
Sua poesia permanece na memória e nas lutas daqueles que acreditam que a cultura é também um direito, uma forma de liberdade e um instrumento de construção de uma sociedade mais justa.
Mais um que se vai... Gigi Poetisa
Por Pascoal Maynard*
Mais um que se vai... Depois das partidas dos queridos Tonho Baixinho e Ana Badyalli, agora recebemos a triste notícia do falecimento de Gigi Poetisa. São perdas que se sucedem e nos deixam com aquele sentimento difícil de traduzir: a saudade de quem fez parte da nossa caminhada e contribuiu, cada um à sua maneira, para a vida cultural de Sergipe.
Guardo com carinho o nosso encontro no programa Expressão, da Aperipê TV, quando tive a oportunidade de entrevistá-la sobre a literatura de cordel. Foi uma conversa muito especial, na qual compartilhamos reflexões sobre a riqueza da poesia popular nordestina, sua tradição e sua importância para a nossa identidade cultural.
É doloroso perceber quantas pessoas queridas estão partindo em tão pouco tempo. Ficam os encontros, as histórias, os registros e a gratidão por termos dividido momentos com elas.
Hoje, minha homenagem é a Gigi Poetisa, com respeito e carinho. Que sua contribuição à poesia popular continue eco.
"Meu nome é Josineide Dantas, me chamem de Gigi Poetisa, sou agente de saúde do Bairro América, poeta e cordelista”. Nos conhecemos no final de 2012, na sua migração do PT para o PSOL. Algumas muitas reuniões, plenárias e noites em claro regadas a histórias dos anos 80, da luta do povo Xokó, de suas andanças de Propriá para o resto do mundo. Lembro de Gigi versando em uma das primeiras inserções institucionais do PSOL no rádio e TV, gerando pontas de inveja em figuras da então direção partidária. Estivemos juntos nas jornadas de junho, no congresso bafônico em Lagarto.Construímos a sua candidatura a Conselho Tutelar ainda em dezembro e quebramos o pau na fiscalização das escolas do B.A, o bicho pegou e o nosso barulho ajudou a cancelar o processo. Não levamos, mas avacalhamos. Neste mesmo dia, em 3 de dezembro, fomos arrebatados pelo tweet que anunciava a partida de Marcelo Deda nas asas da graúna. Tristeza, porre e mais histórias dos anos 80. Uma das grandes paixões de Gigi era a contação de histórias, verdadeiras ou não. Que interessam os fatos? Me lembro da história de uma detenta do Prefem que ela atendia, a história de uma mulher chamada Amor. Fiquei de entrevistar, nunca fui. A furada da Marcha das Vadias em 2016, quando ela e Dalvacir invadiram um take ao vivo da TV Sergipe no Calçadão das Laranjeiras foi espetacular. Aquela enquete chata de compras para o dia dos pais foi invadida por um cartaz em defesa do orgasmo coletivo e popular. Eu vi ao vivo de casa e foi fantástico, a feição anal do repórter me diverte até hoje. A foto acima é de setembro de 2018, posando feliz com a boca aberta. Mesmo após uma reunião difícil, ela desceu e me deu um abraço no lançamento do meu livro-reportagem. Em 2020 tivemos um rasgo feio, pau pra dar em doido mesmo, mas o afeto sempre prevalece. Com Gigi eu aprendi algumas coisas e desaprendi outras tantas, com ela eu também aprendi a desaprender, desprender para o mundo. Não nos víamos com frequência, mas o abraço sempre foi imensidão. Nesta terça-feira de novembro ela parte pro outro lado, seguindo entre o começo, o meio e o outro começo, descansada deste mundo difícil e cheio de alma sebosa. Vou morar sempre no seu abraço
O movimento popular de saúde ficou mais triste hoje o céu ficou mais triste hoje, no entanto, também mais bonito e mais forte.
Importante iniciar essa nota propondo uma reflexão que a própria GIGI poetisa sempre problematizava, entendendo que “ o contrário de vida não é morte, é desencantamento “.
Por esse motivo, talvez a foto colorida cause estranhamento à primeira vista, mas escolhemos mantê-la vibrante de propósito. É um convite para repensarmos o luto: a morte não precisa ser um lugar de escuridão, mas de luz e de cores no divino. E Gigi era exatamente isso: luz, vida e cores em sua potência máxima.
Perdemos a nossa Josineide Dantas. A nossa Gigi Poetisa.
E como se despede de uma mulher que era a própria essência da Mulher Negra? Resistência. Ancestralidade. Poder. Sabedoria.
Gigi dizia: PRA VIVER TEM QUE TER CORAGEM, PRA SER FELIZ TEM QUE TER CORAGEM.
E ela teve. Muita.
Gigi carregou no peito a dor mais funda que uma mãe pode carregar. Perdeu um filho para o sistema. Um filho assassinado. E transformou o luto em luta. Transformou a ausência em voz para todas nós.
Ela lutou contra a violência contra as mulheres porque ela sabia na pele o que era isso. Ela acolheu, ela gritou, ela defendeu cada mulher que sofria, porque ela não queria que mais nenhuma de nós se calasse.
No teatro, no palco, que era a casa dela, ela era gigante. Ela cantava a música que amava e dizia com o corpo inteiro, com aquela força que só ela tinha:
“QUANTO MAIS ELE PISAVA, QUANTO MAIS ELE PISAVA, VOEI EM CIMA DELE COMO SE O CORPO DELE FOSSE A MINHA CASA. VOCÊ VAI SE ARREPENDER DE LEVANTAR A MÃO PRA MIM!”
Era sobre ela. Era sobre todas nós.
Gigi não falava baixo. Gigi ria alto. Gigi dançava. Gigi poetizava. Gigi era festa, mesmo com tanta dor. Porque a alegria dela também era resistência. Ser feliz era o seu ato político mais bonito.
Siga em paz, nossa Gigi! Sua luz e suas cores ecoarão para sempre em nosso movimento , no Mops, na Aneps, em Sergipe , no Brasil , no mundo e principalmente em nós. 🌻✨
É com grande pesar que lamento a perda de minha amiga e camarada Gigi Poetiza. Gigi era uma pessoa muito querida, legal e bacana, uma amiga querida com quem compartilhei muitas conversas boas e alegres, além de grande afinidade e carinho mútuo. Ela também nutria afeto por minha coroa, assistia a muitas das peças do qual Valmir Sandes, minha mãe, integrava o elenco. Era uma pessoa maravilhosa, que trazia alegria e felicidade; é lembrada como amante da cultura, apaixonada pelas artes e pela justiça social.
Encontrar Gigi na rua era sempre uma festa, independentemente de o encontro durar um minuto ou um dia inteiro. Tínhamos muitas conversas agradáveis, e ela demonstrava grande consideração por mim e por minha coroa. Já fazia algum tempo que não nos encontrávamos por causa de sua doença. Eu sabia que Gigi enfrentava um problema de saúde complicado há algum tempo, mas tinha esperança. Fiquei surpreso e feliz ao vê-la recuperada, pois sua condição anterior havia sido muito grave. Cheguei a vê-la caminhando pelas ruas de Aracaju e conversamos sobre seu processo de melhora. No entanto, essa recuperação foi breve, e ela sofreu uma recaída. Na semana anterior, uma amiga me informou que o estado de saúde de Gigi estava crítico. Infelizmente, Gigi faleceu de forma precoce, o que me causa grande tristeza e lamentação.
Também lamento profundamente as recentes perdas em Aracaju, com a morte de duas figuras conhecidas. Tonho Baixinho faleceu na semana anterior, e Gigi Poetiza no dia de hoje. Com a ausência de Gigi Poetiza e de Tonho Baixinho, Aracaju fica mais triste e mais chata. Sinto que a paisagem urbana perdeu parte de sua essência com o falecimento de ambos.
E colaboração dos professores Simão Neto (Recife - BR) e Álvaro Pantoja (Porto - PT)
PROF. JOSÉ GERALDO destaca EFEITO MUNDIAL da ELEIÇÃO DE LULA
Campanha-multidão
31/10/2026
Por IVANA BENTES*
Diante do intolerável, a campanha virou multidão: ruas e algoritmos como um só sistema nervoso, do Exército do Lula à indignação esclarecida, mas sem soberania sobre as plataformas, resta reabrir Junho de 2013 para disputar o futuro em vez de apenas surfar a onda
O termo “psicose coletiva” foi repetido em posts e memes para descrever a ansiedade aguda, a hipervigilância e o esgotamento emocional após o primeiro turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Quando Lula ficou atrás e constatamos que um projeto de Brasil poderia, como em 2018, guinar catastroficamente para a extrema direita, algo aconteceu.
Em um país polarizado, no qual a direita passa a controlar, a partir de 2027, 64% do Senado e 59% da Câmara, as eleições entraram em estado de urgência e contágio afetivo. O campo progressista e as esquerdas produziram aquilo que Deleuze chama de um “acontecimento”: quando o intolerável deixa de ser suportável e precisamos romper a “normalidade” para redistribuir os desejos e agir.
Podemos nomear essa experiência de Outubro das multidões, Jornadas de outubro de 2026, Virada, Levante da juventude ou manifestações de outubro.
Tomar as ruas, os algoritmos e os memes de produção
A sociedade tomou a campanha para si, passou a fabricar imagens, inventar palavras de ordem, trazer o humor, os memes e a zoeira, improvisar linguagens e fazer das ruas uma imensa superfície de comunicação e experimento político.
Quando Lula apareceu em 7 de outubro segurando o próprio celular e dizendo “bora, gente, pra rua”, a campanha institucional incorporou uma gramática que já circulava fora dela: o vídeo selfie, a autoexpressão. O vídeo, o meme e a declaração para os eleitores precisam ser apropriáveis, repetíveis, remixáveis, colocados novamente em circulação por milhares de pessoas.
A primeira barreira ao avanço da extrema direita seria produzir uma onda ao mesmo tempo coordenada e ingovernável, um movimento multitudinário, heterogêneo e vivo. Não apenas as mesmas palavras de ordem ou os feitos já realizados, mas um horizonte de devir e de futuro.
Golpismos, discursos de desestabilização das instituições, racismo, machismo, pânico moral, uso da religião como domínio político e capitalismo algorítmico estão enraizados no tecido social. A todo momento precisamos de uma cola para produzir coesão em tantas fissuras.
Como resolver o paradoxo de coordenar uma multidão de 10 milhões de pessoas em um grupo de WhatsApp e, simultaneamente, descentralizar e perder o controle? Como transformar um surto e um susto coletivo em algo programático?
É essa passagem, da campanha dirigida à campanha atravessada por uma multidão, que elegeu Lula para seu inédito quarto mandato. A virada mobilizou estudantes, fandoms, torcidas, idosos, ativismos de nicho e eleitores que rejeitam o bolsonarismo, além de mídias independentes, do jornalismo investigativo ao humor, do ninjismo ao janonismo: o Exército do Lula digital, comandado por André Janones.
A onda encontrou obstáculos, da trava da Meta para postagens ao boicote de ônibus no dia da votação, mas produziu uma virada extraordinária: 64.256.232 votos para Lula no segundo turno, sabendo que será, aos 81 anos, sua última eleição.
Da crise da representação à campanha-multidão
Junho de 2013 e Outubro de 2026 repetem formas inquietantes de mobilização, mas seria um equívoco tomar a semelhança das linguagens por identidade dos projetos políticos. Junho fez explodir pautas e recusas, em tensão com partidos e representação; Outubro combina energia heterogênea e objetivo eleitoral em torno de Lula.
O problema da representação não desaparece: muda de posição no interior do acontecimento. Os “desorganizados”, que em 2013 se organizavam no Facebook, agora usam Instagram, WhatsApp, TikTok, X e YouTube. Em Junho, coletivos produziam aquilo que chamávamos de enxameamento: atos multiplicados sem comando único. Em Outubro, manifestações estudantis, artistas, criadores de jingles, indígenas, ribeirinhos e iniciativas de mobilização ancestral e digital tampouco esperaram sempre a orientação central da campanha.
Esse “arco da aliança” trouxe a força das mídias independentes: Mídia NINJA, Revelando.Brasil, ICL Notícias, The Intercept Brasil, Revista Fórum, Lupa, Aos Fatos, perfis de humor e tantas redes de investigação, checagem, memes, música e zoeira.
O novo está na coexistência desses multiversos e na sincronicidade das “bolhas”: pequenos grupos capazes de convocar, propor linguagens, agir por iniciativa própria e, em outras ocasiões, sob comandos coordenados. A campanha oficial se manteve organizada, mas tornou-se porosa. A campanha oficial perdeu a exclusividade, não necessariamente o controle.
Lula, o “presidente analógico” que dizia não usar celular, atravessou a quarta parede da tela. Sempre foi, de certa forma, o meio e a mensagem, mas passou a comunicar o que chamo de “vida-linguagem”: o corpo que fala, a afetividade que transborda, menos um populismo digital do que um popular pop, um digital atravessado pela oralidade.
O Exército do Lula – como adestrar o algoritmo
A guerrilha digital de André Janones produziu uma mudança tática profunda. Em vez da resposta institucional e da temporalidade lenta da checagem, passou a operar por antecipação, conflito, expectativa, suspense e linguagem coloquial. Anúncios de revelações, provocações e contradições do adversário: tudo para ocupar o fluxo antes favorável à extrema direita.
O apoiador passa a ser simultaneamente eleitor, produtor, editor e distribuidor: do eleitor como “público-alvo” ao eleitor como infraestrutura comunicacional. A campanha somos nós! A sacada de André Janones foi produzir uma ação coordenada fora da linguagem partidária tradicional, sem perder o objetivo eleitoral.
O Exército do Lula, canal de WhatsApp administrado pelo deputado, chegou a mais de 10 milhões de seguidores em 23 de outubro. Era uma tensão entre autonomia e convergência, uma pedagogia digital fulminante que ensinou como “adestrar” o algoritmo e produzir sincronicidade.
Ações simples: curtir, comentar, assistir aos vídeos até o fim, salvar, subir hashtags no mesmo horário, seguir perfis progressistas #esquerdasegueesquerda e cumprir missões diárias de postagem. Tudo impulsionado por um “algoritmo humano”, Janones, que comandava aos berros de “Pessoal, urgente!” e “Explodam!”, produzindo um estado alterado de disponibilidade.
Já não se tratava apenas de consumir o fluxo, mas de intervir deliberadamente nele. A metáfora deleuziana de surfar a onda ajuda a entender a operação, mas exige uma ressalva: nas sociedades de controle, o surfe também é imagem da modulação permanente, da obrigação de adaptar-se a fluxos que não controlamos. Surfar não é construir um muro contra o algoritmo: é insinuar-se nele, usar sua energia, deslocar a pauta. Precisamos também furar a onda e, mais difícil ainda, inventar outras.
O sequestro da bandeira brasileira pelo bolsonarismo havia sido traumático; a resposta foi inundar o feed com camisas da seleção, roupas verde-amarelas e o gesto em L.
Uma ação especialmente mudou minha visão de guerrilha midiática: os apelos de André Janones para não comentar, não repercutir, não engajar perfis de extrema direita. Mas talvez estivéssemos diante de uma diferença decisiva entre confronto político e alimentação algorítmica do conflito.
Não é necessário oferecer nossa indignação como combustível gratuito às narrativas adversárias. Mas não engajar não pode significar não conhecer, não investigar nem contestar uma falsidade. O silêncio tático diante de um post não deve virar bolha impermeável à crítica.
A imagem e a visibilidade são capitais preciosos a serem geridos numa eleição e para além dela.
Economia narrativa – da indignação moral à indignação esclarecida
Há algo profundamente incômodo quando a imprensa brasileira e a mídia global transformam as bravatas de Donald Trump e as atrocidades ditas por Jair, Flávio Bolsonaro ou Nikolas Ferreira em caça-cliques e numa campanha involuntária de propagação dos extremismos.
Uma economia narrativa da provocação e do escândalo colocou a extrema direita como protagonista permanente do noticiário. Há coberturas jornalísticas que amplificam e naturalizam a desinformação em nome de uma equivalência inexistente entre enunciados, que no limite se torna antiética.
André Janones, Mídia NINJA, Revelando Brasil e 342Artes buscaram o viral associado a pautas reais e propostas de Lula, diferente das campanhas de indignação moral. O vídeo de Nikolas Ferreira sobre “O Nordeste que foi esquecido” tornou-se exemplar: uma superprodução com teleprompter e enquadramentos escolhidos para mostrar pobreza e sofrimento e produzir ressentimento contra Lula.
Quando os bastidores das filmagens circularam e moradores contestaram a imagem de um Nordeste miserável e passivo, a indignação mudou de objeto e voltou-se contra o olhar que transformava o Nordeste em cenário de miséria. Voltou-se contra o olhar que transformava a região em cenário de miséria para fins eleitorais.
A comunicação foi mais inventiva quando não respondeu apenas “Nikolas está errado”, mas produziu paródias, memes e zoeiras que expunham a moralidade escondida no enquadramento. Da indignação moral se produziu uma indignação esclarecida: não apenas disputar o escândalo, mas revelar quem o construiu, de que lugar fala e para que serve. Essa é a diferença entre surfar o algoritmo e envenenar o mar de informações com fake news, cinismo e vale-tudo.
A visibilidade das multidões
Outubro foi também um levante da juventude, vetor de aceleração e urgência. A disponibilidade dos estudantes para ir imediatamente às ruas depois do resultado-catástrofe para Lula no primeiro turno foi decisiva.
Mas a campanha-multidão não foi movida apenas pela juventude. Uma das imagens mais comoventes foi a dos idosos: avós levados por filhos e netos, alguns com dificuldades de locomoção, fazendo questão de votar sem obrigação legal. Há algo extraordinário nesse encontro entre gerações: jovens que inventam linguagens e idosos que carregam a memória de vidas e lutas. Uma multidão intergeracional.
A sequência das manifestações desembocou, em 18 de outubro, no Ato Musical pela Democracia, em Copacabana. Convocado por Caetano Veloso e Paula Lavigne, organizado pelo 342Artes e pela Mídia NINJA, reuniu Caetano, Djavan, Xamã, Frejat, Marina Sena, Duda Beat, Ivan Lins e Fernanda Abreu. Não foi apenas um espetáculo: MPB, Tropicália, samba, pagode, rock, rap, funk, bandeiras LGBTQIA+, cartazes e corpos de diferentes idades transformaram a Avenida Atlântica em experiência comum.
Os Atos pela Democracia, do Rio a Salvador, do rap periférico paulistano ao samba na Lapa, foi articular cultura, ruas e comunicação como dimensões simultâneas da ação coletiva. As manifestações ocorreram em mais de 600 cidades brasileiras, capitais e interior, numa capilarização territorial inédita.
O 342Artes converteu laços culturais em convocatória pública; a Mídia NINJA atuou na mobilização, cobertura ao vivo e circulação de imagens. Não há mais separação entre convocação e narração.
A rua produz imagens; as imagens tornam a rua reconhecível; essa visibilidade retorna às redes e pode produzir uma “cola” coletiva. Redes e ruas têm um só sistema nervoso, um só transe.
O estado maníaco deste segundo turno tem produzido uma síndrome de abstinência pós-eleições: de posts, memes, músicas e principalmente jingles. Em 2026, deixaram de ser apenas trilha oficial de campanha e viraram armas meméticas: pedaços curtos, repetíveis, remixáveis, fáceis de circular no Instagram, TikTok, WhatsApp, Reels e ruas.
“Bora Lula”, “Rap do Silva” e jingles como “Tariflávio” mostraram que a música funcionou como dispositivo de mobilização, deboche e fabricação de pertencimento. Mais do que convencer por argumento, condensavam posições políticas em refrões, afetos e ritmos reconhecíveis: uma batalha também sonora, capaz de transformar campanha em cultura popular.
No campo pró-Lula, jingles e paródias circularam de forma distribuída e memética, numa rede afetiva. No campo de Flávio Bolsonaro, o sertanejo concentrou a mobilização artística mais visível, reforçando uma identidade cultural organizada.
Tomei um susto quando vi o próprio Lula agradecendo aos fandoms numa manifestação na Avenida Paulista! Junho de 2013 havia produzido cartazes escritos à mão, enunciados singulares, fantasias e vídeos que escapavam à uniformidade. Outubro atualiza isso com selfies, inteligência artificial, memes, hashtags sincronizadas, collabs e performances de fãs.
Comunidades de BTS (ARMYs), Taylor Swift (Swifties), Beyoncé (BeyHive), Lady Gaga, Anitta e BLACKPINK articularam o Fandoms com Lula, reunindo principalmente jovens, mulheres e pessoas LGBTQIA+. Vieram mutirões digitais, missões gamificadas, fanarts e paródias com IA: “Taylula”, “Super Lula” em anime e remixes do “Pessoal, urgente!” de André Janones.
Os fandoms trouxeram saberes aperfeiçoados durante anos: edição de vídeos, tradução colaborativa, hashtags, distribuição de tarefas e redes de confiança. Não se deve confundir o apoio de fãs com endosso do artista nem imaginar uma fanbase homogênea. A militância não nasce apenas onde há diretório ou assembleia, mas também onde existem vínculos duradouros e capacidade de agir em comum.
A Revolução não será impulsionada
Hoje as plataformas decidem o alcance por modelos opacos, impõem formatos e reservam para si o poder de alterar ou interromper distribuições. A mídia-multidão conquistou capacidade de produzir narrativas, mas não soberania sobre as infraestruturas que as fazem circular.
Essa contradição se tornou explícita na disputa entre a campanha de Lula e o não impulsionamento de posts pela Meta. A coligação denunciou restrições de distribuição e problemas na publicidade eleitoral; o TSE exigiu esclarecimentos. A Meta reconheceu falhas técnicas, bloqueios indevidos e desativação temporária de uma conta de anúncios, mas negou favorecimento deliberado a qualquer candidato.
O reconhecimento dos erros não dissolve a questão política: as condições de visibilidade de uma eleição dependem de sistemas privados conhecidos apenas parcialmente. Não disputamos somente o direito de falar. Disputamos quem aparece, para quem, em que ritmo e com que intensidade. Um meme foi ao ponto: “A Meta é enlouquecer a Meta”.
A inteligência artificial radicaliza a questão. Se em Junho de 2013 o streaming interpelava o monopólio da imagem e do testemunho, em 2026 a disputa envolve o estatuto do próprio visível. A imagem pode ser registrada, recombinada, produzida sinteticamente ou acusada de ser sintética mesmo quando é verdadeira. O projeto VigIA, da Agência Lupa, encontrou 554 publicações com deepfakes no período monitorado antes do primeiro turno.
A inteligência artificial permitiu paródias, criação estética e novas formas de expressão, mas também pode falsificar vozes, inventar cenas e fabricar evidências. Ameaça a confiança pública não só pela mentira bem produzida, mas pelo álibi de que toda imagem inconveniente seria artificial.
Uma controvérsia com a Meta AI no WhatsApp condensou o problema: imagens sobre Lula e o 13 foram bloqueadas em testes que tiveram resultados diferentes para Flávio Bolsonaro e o 22. A Meta reconheceu falha técnica e afirmou tê-la corrigido. As máquinas processam desejos, mas também restringem, geram viés e aceleram cenários.
O Brasil não viveu esse outubro isoladamente. Na França, manifestações estudantis por condições dignas de educação dialogaram com mobilizações contra o custo de vida. Não há uma onda ideológica unificada, mas uma constelação de impasses históricos e invenções de linguagem.
Paris oferece uma imagem instigante. Bandeiras de One Piece, referências a Naruto e Dragon Ball, super-heróis e games encontraram a memória de Maio de 1968 e das revoluções francesas. A historiadora Ludivine Bantigny chamou atenção para uma formulação radical: esses jovens desejariam não apenas mudar a vida, mas “quitter l’époque contemporaine”, sair da época contemporânea.
A força da frase está na hipótese de que reivindicações por escolas, salários e moradia convivem com a recusa de um mundo que reduziu o futuro à repetição da crise.
Reabrir Junho?
A pergunta francesa pode ser deslocada para o Brasil: e se, em vez de abandonar a época contemporânea, fosse necessário reabrir as promessas de suas revoluções interrompidas? Samuel Hayat, ao refletir sobre Outubro em Paris, propõe reabrir, e não simplesmente encerrar, a época contemporânea.
Eis o problema que Junho de 2013 nos devolve: é possível reabrir suas potências sem reproduzir as condições que permitiram a apropriação de parte daquela insubordinação pela extrema direita?
Junho nasceu de conflitos urbanos, da luta contra o aumento das tarifas e da violência policial, especialmente a repressão de 13 de junho em São Paulo. A mídia-multidão não apenas registrava essa abertura: produzia novas experiências de presença e autoria coletiva.
A recusa das direções partidárias podia significar experimentação democrática; podia também converter-se em antipartidarismo, hostilidade a sindicatos e agressões a militantes de esquerda. O que parecia uma só multidão era um campo de disputa entre ideias incompatíveis de povo, política e futuro.
O bolsonarismo não estava contido em Junho como uma semente destinada a germinar cinco anos depois. Junho não produziu sozinho a extrema direita; tornou-se uma das arenas em que forças distintas aprenderam a disputar a legitimidade das ruas.
Nem toda revolta contra o presente deseja um futuro de liberdade. O Tradicionalismo estudado por Benjamin Teitelbaum, em suas conexões com Steve Bannon, Olavo de Carvalho e Aleksandr Dugin, articula crítica ao igualitarismo a imagens de hierarquia espiritual. Há setores cuja promessa não é ampliar a soberania popular, mas reencantar hierarquias consideradas naturais ou sagradas, anteriores ao Iluminismo e à Revolução Francesa.
Esse é o paradoxo que mais me interessa: a extrema direita pode ser tecnicamente futurista e politicamente regressiva. Usa inteligência artificial, segmentação algorítmica e imagens sintéticas para promover autoridade paternal, guerra cultural, obediência e homogeneidade nacional. Um futuro retroativo, o novo empregado para reinstalar antigas assimetrias.
Essa dupla direção do desejo de ruptura ilumina Michel Foucault em sua “Introdução à vida não fascista”, prefácio a O anti-Édipo. Não basta identificar o fascismo no inimigo, no partido ou no Estado; é preciso interrogá-lo nas pequenas paixões pelo poder, nos hábitos de obediência e no prazer de esmagar uma diferença.
Reabrir Junho exige mais do que celebrar sua estética ou lamentar sua captura. É disputar o que ficou barrado pela própria esquerda, sem tradução institucional e continuidade: rejeição da velha política, direito à cidade, comuns urbanos, participação direta, serviços públicos, crítica à violência de Estado e capacidade de produzir nossas próprias imagens.
Reabrir não é inocentar Junho de suas contradições; é impedir que apenas sua interpretação regressiva permaneça como herança. A multiplicação das vozes pode produzir ação comum sem identidade única, mas também pequenos autoritarismos, tribunais digitais e unanimidades punitivas. É combater as novas infraestruturas do autoritarismo, do tecnofascismo, os algoritmos de destruição de massas.
Reabrir Junho, as promessas democráticas, o próprio contemporâneo: não voltar a um passado idealizado ou demonizado, mas disputar quais presentes e futuros, temporalidades e espaços ainda podemos inventar. A sociedade que sai às ruas e às redes reivindica o direito de fazer uma fissura no presente, de jogar mais uma vez todas as fichas para o alto e acolher a precipitação do novo, não ser apenas espectadora do futuro que lhe reservaram.
*Ivana Bentes é professora titular da Escola de Comunicação da UFRJ. Autora, entre outros livros, de Mídia-Multidão: estéticas da comunicação e biopolíticas (Mauad X) [https://amzn.to/4aLr0vH]
Versão reduzida do artigo publicado na Revista Cult.
Entre os anos 1945 e 1965 (penso na Europa), havia certa maneira correta de pensar, certo estilo de discurso político, certa ética do intelectual. Era preciso ser íntimo de Marx, não deixar os sonhos vagarem longe demais de Freud, e tratar os sistemas de signos — o significante — com o maior respeito. Tais eram as três condições que tornavam aceitável esta singular ocupação que consiste em escrever e enunciar uma parte de verdade sobre si mesmo e sua época.
Depois vieram cinco anos breves, apaixonados; cinco anos de júbilo e de enigma. Às portas de nosso mundo estava o Vietnã, evidentemente, e o primeiro grande golpe desferido contra os poderes constituídos. Mas aqui, em nossas fronteiras, o que acontecia exatamente? Um amálgama de política revolucionária e anti-repressiva? Uma guerra travada em dois frontes — a exploração social e a repressão psíquica? Uma escalada da libido modulada pelo conflito de classes? É possível. Seja como que for, foi por essa interpretação familiar e dualista que se pretendeu explicar os acontecimentos desses anos. O sonho que entre a Primeira Guerra Mundial e o advento do fascismo havia mantido sob seu encanto as frações mais utopistas da Europa — a Alemanha de Wilhelm Reich e a França dos surrealistas — retornara para abrasar a própria realidade: Marx e Freud iluminados pela mesma incandescência.[(197)]
Mas terá sido isto realmente o que se passou? Tratou-se de fato de uma retomada do projeto utópico dos anos 30, dessa vez na escala da prática histórica? Ou terá havido, ao contrário, um movimento em direção a lutas políticas que não se conformavam mais com o modelo prescrito pela tradição marxista? Em direção a uma experiência e uma tecnologia do desejo que já não eram freudianas? Certamente, foram brandidos os velhos estandartes, mas o combate se deslocou e ganhou novas zonas.
O anti-Édipo mostra, inicialmente, a extensão do terreno percorrido. Porém faz muito mais. Ele não se distrai difamando os velhos ídolos, ainda que se divirta muito com Freud. E, sobretudo, ele nos incita a ir mais longe. Seria um erro ler O anti-Édipo como a nova referência teórica (sabem, essa famosa teoria que nos foi anunciada com tanta freqüência: aquela que vai englobar tudo, que é absolutamente totalizante e tranqüilizante e da qual, conforme nos garantem, “temos tanta necessidade” nessa época de dispersão e de especialização, em que a “esperança” desapareceu). Não se deve buscar uma “filosofia” nessa extraordinária profusão de noções novas e de conceitos-surpresa. O anti-Édipo não é uma contrafação de Hegel. A melhor maneira de ler O anti-Édipo é, creio eu, abordá-lo como uma “arte”, no sentido em que se fala de “arte erótica”, por exemplo. Apoiando-se nas noções aparentemente abstratas de multiplicidade, de fluxos, de dispositivos e de ramificações, a análise da relação do desejo com a realidade e com a “máquina” capitalista traz respostas a questões concretas. Questões que se ocupam menos com o porquê das coisas do que com seu como. Como se introduz o desejo no pensamento, no discurso, na ação? Como o desejo pode e deve desdobrar suas forças na esfera do político e se intensificar no processo de reversão da ordem estabelecidas? Ars erotica, ars theoretica, ars politica.
Donde os três adversários aos quais O anti-Édipo se vê confrontado. Três adversários que
não têm a mesma força, que representam graus diversos de ameaças e que o livro combate por meios diferentes.
1)Os ascetas políticos, os militantes morosos, os terroristas da teoria, aqueles que gostariam de preservar a ordem pura da política e do discurso político. Os burocratas da revolução e os funcionários da Verdade.
Prefácio à edição americana de O anti-Édipo. Capitalismo e esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Foi retomado em Dits et êcrits, de Foucault (Gallimard). O título é da redação do Magazine Litteraire, onde foi publicado pela primeira vez em francês. Trad. Fernando José Fagundes Ribeiro.
2)Os deploráveis técnicos do desejo — os psicanalistas e os semiólogos que registram cada signo e cada sintoma e que gostariam de reduzir a organização múltipla do desejo à lei binária da estrutura e da falta. [(198)]
3)Enfim, o inimigo maior, o adversário estratégico (visto que a oposição de O anti-Édipo a seus outros inimigos constitui antes um engajamento tático): o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e Mussolini — que soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas —, mas também o fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar do poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora.
Eu diria que O anti-Édipo (possam seus autores me perdoar) é um livro de ética, o primeiro livro de ética que se escreveu na França desde muito tempo (é talvez a razão pela qual seu sucesso não se limitou a um “leitorado” particular: ser antiÉdipo tornou-se um estilo de vida, um modo de pensamento e de vida). Como fazer para não se tornar fascista mesmo (e sobretudo) quando se acredita ser um militante revolucionário? Como livrar do fascismo nosso discurso e nossos atos, nossos corações e nossos prazeres? Como desentranhar o fascismo que se incrustou em nosso comportamento? Os moralistas cristãos buscavam os traços da carne que se tinham alojado nas dobras da alma. Deleuze e Guattari, por sua vez, espreitam os traços mais íntimos do fascismo no corpo.
Prestando uma modesta homenagem a São Francisco de Sales1, poderíamos dizer que O anti-Édipo é uma introdução à vida não fascista.
Essa arte de viver contrária a todas as formas de fascismo, estejam elas já instaladas ou próximas de sê-lo, é acompanhada de certo número de princípios essenciais, que resumirei como segue, se eu devesse fazer desse grande livro um manual ou um guia da vida cotidiana:
•Liberem a ação política de toda forma de paranóia unitária e totalizante.
•Façam crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, e não por subdivisão e hierarquização piramidal.
•Livrem-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considerem que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade. [(199)]
•Não imaginem que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo se o que se combate é abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga nas formas da representação) que possui uma força revolucionária.
•Não utilizem o pensamento para dar a uma prática política um valor de Verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não passasse de pura especulação. Utilizem a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.
•Não exijam da política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação e o deslocamento, o agenciamento de combinações diferentes. O grupo não deve ser o liame orgânico que une indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”.
•Não se apaixonem pelo poder.
Diríamos inclusive que Deleuze e Guattari gostam tão pouco do poder que buscam neutralizar os efeitos de poder ligados a seu próprio discurso. Donde os jogos e as armadilhas que de algum modo se encontram por toda parte no livro, e que fazem de sua tradução uma verdadeira
1 . Homem da Igreja do século XVII, que foi bispo de Genebra. É conhecido por sua Introdução à vida devota.
proeza. Mas não se trata das brincadeiras familiares à retórica, aquelas que buscam seduzir o leitor sem que este esteja consciente da manipulação e que terminam por ganhá-lo para a causa dos autores contra a sua vontade. As armadilhas de O anti-Édipo são as do humor: convites a se deixar expulsar, a abandonar o texto batendo a porta. O livro faz pensar com freqüência que só há humor e jogo ali onde entretanto algo de essencial se passa, algo que é da maior seriedade: o banimento de todas as formas de fascismo, desde aquelas, colossais, que nos envolvem e nos esmagam, até as formas miúdas que fazem a amarga tirania de nossas vidas cotidianas. [(200)]
Cadernos de Subjetividade / Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP. – v. 1, n. 1 (1993) – São Paulo, 1993 [páginas 197 a 200].