sábado, 3 de janeiro de 2026

El Movimiento Latinoamericano de Cultura Viva Comunitaria (MLCVC) repudia la invasión y agresión bélica del gobierno de Estados Unidos, encabezado por Donald Trump, contra el territorio soberano de Venezuela.

Esta acción constituye una intervención imperial directa, una violación flagrante del derecho internacional, de la Carta de las Naciones Unidas y del principio de autodeterminación de los pueblos, y representa una amenaza concreta para todos los pueblos de América Latina y el Caribe.

Cuando un imperio prueba su fuerza sobre un pueblo, está ensayando sobre los demás.

Esta agresión no es un hecho aislado: forma parte de una larga genealogía de violencia imperial en Abya Yala, responsable de dictaduras, saqueo, desplazamientos forzados y criminalización de los pueblos.

América Latina y el Caribe no son patio trasero de nadie: son territorios de pueblos con memoria, identidad, organización y resistencia.

RECHAZAMOS toda acción bélica, injerencista e imperial que vulnere la paz, la soberanía y la vida comunitaria.

LA CULTURA VIVA ES DEFENSA ACTIVA DE LA PAZ

Convocamos a ACCIÓN DIRECTA NO VIOLENTA, COORDINADA Y CONTINENTAL

EXIGIMOS

Cese inmediato de toda acción militar contra Venezuela.

Retiro de toda fuerza extranjera del territorio venezolano.

Respeto irrestricto a la soberanía y autodeterminación del pueblo venezolano.

Salidas políticas y pacíficas, sin violencia ni imposiciones externas.

Cuando atacan a un pueblo, respondemos como continente.

Si tocan a Venezuela,

responde Abya Yala.

Movimiento Latinoamericano de Cultura Viva Comunitaria

Enero de 2026

A Rede Nacional de Pontos de Cultura e Memória Rurais e o Pontão Territórios Rurais e Cultura Alimentar manifestam sua profunda solidariedade ao povo da Venezuela, diante das graves notícias e incertezas que marcam o momento atual. Reafirmamos nossa preocupação com a vida, a segurança e a dignidade da população, bem como com a soberania nacional.

Expressamos nosso repúdio a toda forma de violência, intervenção armada e violação da soberania dos povos, e defendemos que quaisquer impasses sejam enfrentados por meio do diálogo, da diplomacia e do respeito ao direito internacional. Acreditamos que a paz, a autodeterminação e a justiça social são condições indispensáveis para que os povos possam viver com dignidade e preservar suas culturas, territórios e modos de vida.

Reiteramos nosso compromisso com a integração solidária entre os povos da América Latina e com a defesa dos direitos humanos, da cultura e da vida. Que a solidariedade internacional, a cooperação entre nações irmãs e o fortalecimento dos laços entre territórios sejam caminhos para superar a violência e construir um futuro de paz, soberania e esperança para o povo venezuelano e para toda América Latina.


As veias abertas da América Latina voltam a sangrar

Edward Magro

Nada mais excessivamente esperançoso do que imaginar que a política internacional obedece a algum código de boas maneiras, uma espécie de manual de etiqueta para Estados supostamente civilizados. Antes que o velho imaginário hollywoodiano apresente ao mundo sua versão épica da invasão da Venezuela, com heróis inflados e explicações glamourosas, vale uma pausa breve para distinguir o que ainda resiste à ficção. Não por devoção ao factual, mas por um gesto simples de consideração pela inteligência alheia — ao menos pela nossa, que ainda tenta não se deixar seduzir pelo espetáculo.

A história latino-americana é fértil em episódios cuidadosamente embalados para o consumo externo. Sempre que um interesse estratégico estadunidense perde a paciência, surge depressa uma explicação conveniente, coberta por um verniz moral suficientemente sedutor para conquistar corações e mentes pouco atentas. Desta vez, o expediente escolhido foi o clássico “combate às drogas”, expressão que possui a estranha habilidade de suspender o pensamento crítico. Afinal, quem ousaria contestar uma cruzada contra o tráfico? É uma fórmula confortável: basta evocá-la para que se produza uma aparência de virtude, mesmo que funcione apenas como cortina para ações que passam longe dela.

Mas basta um instante de atenção para que o descompasso entre o slogan e os fatos se revele. A invasão nada teve a ver com narcotráfico. O que a impulsionou foi o velho motor da política externa estadunidense: a necessidade de preservar sua posição central num tabuleiro global cada vez mais disputado, mantendo intacta a hegemonia construída após o desaparecimento da União Soviética, seu último contraponto relevante. E, como de hábito, são os interesses econômicos — públicos e privados — que definem o rumo, numa simbiose entre Estado e grandes corporações energéticas que raramente encontra espaço nos pronunciamentos oficiais.

A Venezuela, com reservas petrolíferas de escala excepcional, tornou-se peça central nesse tabuleiro. O país abriga algo em torno de 303 bilhões de barris, e boa parte desse petróleo se ajusta com rara precisão ao parque de refinarias estadunidenses na Costa do Golfo — detalhe que dificilmente escaparia a quem conduz a política energética de Washington. Não é coincidência, mas oportunidade. Antes de 2019, os Estados Unidos eram os principais compradores do petróleo venezuelano. As sanções impostas por Washington, porém, empurraram Caracas para outra rota: a China; em 2023, Pequim absorveu cerca de 68% de todo o petróleo exportado pelo país. Para contornar o bloqueio, o governo venezuelano passou a usar o petróleo como garantia de empréstimos — quase 50 bilhões de dólares em uma década — mecanismo pragmático que assegurava aos chineses fornecimento por muitos anos. Na prática, parte relevante do subsolo venezuelano foi penhorada, irritando profundamente os estrategistas estadunidenses, que viram um ativo estratégico escapar de sua órbita.

É nesse ponto que a narrativa se torna mais nítida. Ao remover Maduro, a invasão estadunidense não se restringe ao presente: busca redesenhar o futuro. Um governo tutelado certamente revisaria a relação com a China, com o objetivo de desfazer a moratória lastreada no subsolo petrolífero oferecido como garantia. A disputa, portanto, está longe de ser apenas territorial. É estratégica, financeira e prenuncia efeitos que ultrapassam em muito o ato militar que lhe deu origem.

Além disso, a invasão da Venezuela não é o desfecho da operação — é apenas o prólogo. No horizonte imediato está a Guiana Essequiba, região que desperta interesse pelo motivo mais previsível de todos: petróleo. E a história continental é pedagógica: quando um território estratégico passa a ser administrável sob tutela estrangeira, as áreas vizinhas entram automaticamente no radar das ambições. Guatemala, Chile, Haiti, Panamá — a lista de intervenções norte-americanas é longa demais para ser tratada como coincidência. A América Latina sabe — pois vivenciou isso ao longo de toda a sua história — que seus recursos costumam viajar muito mais rápido do que sua soberania.

Sobre a invasão em si, antes que Hollywood povoe o imaginário popular com uma epopeia do bem contra o mal, é preciso afirmar o óbvio: nada disso teria ocorrido sem colaboração interna. A propaganda nos vendeu, durante todo o dia de hoje, a cena fantástica de helicópteros estadunidenses surgindo do nada, entrando no espaço aéreo venezuelano, localizando o presidente com precisão absoluta e concluindo a captura sem resistência. Segundo Donald Trump, o sequestro de Maduro e sua esposa durou exatos 48 segundos. Essa narrativa não se sustenta, nem mesmo nos 48 trumpianos segundos. O episódio só foi possível porque setores do próprio “exército bolivariano” forneceram a chave do recinto. Coordenadas, acessos, rotas de deslocamento — tudo indica que a entrega veio de dentro. Parte da cúpula militar traiu Maduro e, com ele, a própria Venezuela. A história latino-americana conhece bem esse roteiro, no qual frações das Forças Armadas se veem mais vinculadas a Washington do que ao país que deveriam defender. Lamentavelmente, o Brasil, como sabemos, não é exceção.

O que ocorre hoje em Caracas guarda, de fato, uma familiaridade desconfortável com o golpe dado por Michel Temer. Dilma Rousseff teve seu mandato legítimo surrupiado por interesses subterrâneos ligados à entrega da Petrobras. A América Latina parece condenada a protagonizar versões renovadas da mesma história: governos eleitos removidos quando se tornam obstáculos, riquezas estratégicas tratadas como prêmios de consolação, elites locais brindando discretamente a cada entrega, enquanto a população paga a conta. Nesse sentido, Dilma e Maduro são vítimas dos subsolos de seus países. A metáfora de Galeano não envelheceu — apenas ganhou novos instrumentos de extração. A Venezuela vive agora o mesmo capítulo que o Brasil atravessou no ciclo Temer–Bolsonaro.

Por isso, qualquer tentativa de minimizar a gravidade do que ocorreu é puro autoengano. A invasão, vendida como missão moralizadora, inaugura uma sequência previsível de desdobramentos. Cada golpe bem-sucedido abre caminho para o próximo. Cada traição institucional prepara a seguinte. A América Latina, quando esquece disso, torna-se presa fácil.

Se há um recado urgente dado por essa invasão, é o de recusar a indiferença. Não se trata de Maduro; é a Venezuela — e não um governo em particular — que está sendo punida pelo que deveria fortalecê-la: suas riquezas naturais. E nós, se não estivermos atentos, veremos esse roteiro reaparecer dentro de nossas próprias fronteiras. Uma região que não defende sua soberania logo descobre que outros o farão em seu lugar — e, como sempre, jamais em seu benefício.

E é exatamente aqui que o momento exige mais do que observação: exige posicionamento e denúncia. Porque o que se decide agora em Caracas não é apenas o futuro da Venezuela, mas a linha que separa a autodeterminação latino-americana da servidão resignada tão desejada pelas nossas elites. Assistir calado é consentir. Aceitar a normalização de um crime é abrir as portas para sua repetição. A América Latina sangra porque a deixam sangrar. E, se permanecer imóvel, descobrirá cedo demais que o que está em disputa não é Caracas, mas o futuro inteiro do continente — um futuro que, se abandonado, será escrito por mãos alheias e jamais em nosso benefício. Ver menos

https://precisavadizer.com.br/as-



Imagine um programa de colônia de férias para discutir e ajudar a enfrentar os problemas do feminicidio, dos ataques a democracia, da depressão, do suicídio, das fakenews e etc.

 Imagine um programa de colônia  de férias, semelhante a ação Governo do Brasil na Rua,  para discutir e ajudar a  enfrentar os problemas do feminicidio, dos ataques a democracia, da depressão, do suicídio, as fakenews, do racismo, da homofobia, do excesso de exposição a telas, do jogo do tigrinho, da regulação das plataformas, da crise ambiental, entre outros. 


Imagine a discussão e enfrentamento disso tudo com oficinas culturais de diversas linguagens, com exibição e debate pós filme, com apresentações artísticas e culturais resultantes das oficinas, com rodas/clubes de leitura, saraus, batalha de slam, com aulas espetáculo, oficinas de comunicação alternativa e cultura digital,   rodas de conversas sobre problemas diversos que atingem adolescentes, jovens e famílias, como os citados acima e outros. Assim também como atividades esportivas coletivas como Futebol/Futsal, Voleibol, Basquetebol, Handebol, Queimado, Natação e atividades aquáticas (gincanas na piscina, hidroginástica) quando houver condições, Skate, Atletismo,  Artes Marciais (como Jiu-Jitsu  dependendo dos instrutores disponíveis) , Gincanas , Caminhadas e exploração da natureza e/ou do patrimônio histórico/cultural, se o local permitir.

Os dois exemplos de colônias de férias publicas (Pará e Pernambuco)  que trazemos mais abaixo concentram o foco nos polos  lazer, cultura e esporte.  A proposta que trazemos nessa postagem inclui os três polos acima dentro de um contexto sociopolitico ou com a intencionalidade pedagógica presente em processos educativos e culturais que consideram aspectos da formação  humana integral. O que significa dizer, aspectos de uma ação cultural, pedagógica e esportiva que não  restrinjam o propósito a aspectos de recreação,  entretenimento, ou  espetáculo.   Referenciais importantes para uma colônia de férias na perspectiva que defendemos podem ser encontradas no exemplo abaixo:

Projeto Reculturarte (Reeducação, Cultura e Arte) foi um importante projeto pioneiro de arte-educação popular em Aracaju, Sergipe, ativo a partir do final dos  anos 1980 até o final dos anos 1990, focado em atividades  como teatro, música,  capoeira, dança, esportes , reforço escolar, retiros/acampamentos e festival de arte infanto-juvenil voltado a crianças e jovens, desenvolvido pela AMABA - Associação dos Moradores do Bairro América e Adjacências, formando educadores e produtores culturais e sendo lembrado como um legado na história cultural da cidade e do estado. 
Pontos-chave sobre o Reculturarte:
Origem: Nasceu como uma iniciativa de base comunitária e popular no bairro América, em Aracaju, Sergipe.
Foco: Combinava reeducação com cultura e arte, oferecendo oficinas de teatro, capoeira, esportes e outras atividades.
Impacto: Preparou uma geração de artistas, produtores culturais e educadores que atuam hoje em diversas áreas em Sergipe.
Legado: É reconhecido como um "círculo de cultura" importante, com publicações e artigos que buscam resgatar sua história.
Em resumo, Reculturarte foi um marco na educação popular e cultural em Sergipe, que utilizava a arte como ferramenta de transformação social e formação de cidadãos. 
Mais informações aqui , aqui e aqui
O Programa de Animação Cultural (PAC) é  uma iniciativa da Secretaria de Educação, Esporte e Lazer do Recife, que integra as ações educativas complementares da rede municipal de ensino. ​ Ele busca promover a Educação Popular por meio de atividades artísticas e culturais, como teatro, dança, música, artes plásticas, capoeira e jogos, realizadas em escolas públicas e comunidades do entorno.
Forma de realização:
Grupos Culturais: O PAC organiza estudantes em grupos culturais, liderados por animadores culturais, que são jovens educadores em formação. ​ Esses grupos realizam atividades artísticas e lúdicas, promovendo a integração e o desenvolvimento pessoal e coletivo. ​
Formação continuada: Os animadores culturais participam de formações regulares, que incluem seminários intensivos e encontros semanais. Essas formações abordam temas transversais, conceitos de Educação Popular e práticas pedagógicas. ​
Eventos e atividades: O PAC realiza mostras culturais, festivais, colônias de férias e encontros de estudantes, além de participar de eventos maiores promovidos pela Prefeitura do Recife.
Impactos e legado:
Educação Popular: O PAC é considerado uma prática pedagógica que promove a Educação Popular, contribuindo para a formação crítica, cidadã e humana dos estudantes e animadores culturais. ​
Inclusão social: O programa oferece oportunidades para jovens da periferia, muitos dos quais têm no PAC sua primeira experiência no mundo do trabalho, ajudando-os a desenvolver habilidades artísticas, sociais e pedagógicas.
Transformação escolar: O PAC busca transformar a escola pública em um espaço mais prazeroso e significativo, promovendo o diálogo, a solidariedade e o respeito às diferenças.
Reconhecimento: Apesar de desafios políticos e estruturais, o PAC é visto como um modelo de política pública que valoriza a arte e a cultura como ferramentas de educação e inclusão social. ​
O legado do PAC está na sua contribuição para a construção de uma escola pública mais humanizada e inclusiva, além de formar jovens educadores comprometidos com a transformação social e a valorização da cultura popular.
Mais informações aqui, aqui

  Abaixo, colônia de férias pública em Belém do Pará. Crianças, adolescentes e idosos tomaram conta do Parque da Cidade num dia cheio de brincadeiras, espetáculos, cultura e muito movimento.
Mais informações, aqui


Prefeitura promove atividades gratuitas de ‘colônia de férias’ para crianças e adolescentes em diversos bairros do Recife

Compazes e bibliotecas públicas recebem shows de música e de mágica, sessões de filmes, brincadeiras e jogos esportivos


terça-feira, 30 de dezembro de 2025
O Instituto João Carlos Paes Mendonça de Compromisso Social (IJCPM) promove oficina de férias gratuitas para jovens egressos de escolas públicas.
Uma ação que pode ajudar bastante ao enfrentamento  de mazelas preocupantes em nossa sociedade.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Fórum de Participação Social da Presidência da República e o contraste com resultado de pesquisa publicada hoje, 25/12/2025 - Datafolha: 35% dos brasileiros se identificam com a direita e 22% com a esquerda.


‘Esquerdas precisam juntar utopia e concretude’ Paolo Demuru, especialista em semiótica no Intercept Brasil

 Sábado, 03 de janeiro de 2026

Paolo Demuru, especialista em semiótica, analisa a campanha de Zohran Mamdani e a comunicação dos progressistas para pensar em como disputar com as utopias da extrema direita.

A esquerda passou alguns anos sem sonhar, mas está na hora de voltar. Esse é o mote do livro “Políticas do encanto” (Editora Elefante, 2024), escrito pelo semioticista italiano radicado no Brasil Paolo Demuru.

“A luta da vez é a luta pela maravilha”, ele escreve, defendendo que os progressistas precisam voltar a valorizar a utopia e inventar novas histórias para reconquistar o espaço perdido para a extrema direita e seu populismo conspiratório.

Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Demuru usa a semiótica, disciplina que estuda a produção e interpretação de sentidos, para analisar a comunicação política e as histórias contadas pela extrema direita.

Para falar de teorias da conspiração, ele pega emprestado o termo “fantasias de conspiração” do coletivo de escritores Wu Ming, que defende que “teoria” é uma palavra muito carregada de racionalismo, e não consegue comunicar o componente mágico presente nas conspirações contemporâneas.

Como disputar o encanto com a extrema direita? Só apresentar os fatos não é suficiente contra histórias que são mentirosas, sim, mas também envolventes e cativantes.

É preciso, de acordo com Demuru, focar nos desejos e sonhos das pessoas e trazer novas pautas, novas possibilidades de encanto, para o debate público.

É isso que Zohran Mamdani, o prefeito eleito de Nova York, fez em sua campanha. Num texto publicado na Folha de S.Paulo, Demuru defende que o socialista muçulmano mostrou que é possível reverter a tendência em que o encanto é exclusividade da extrema direita.

O candidato democrata fez isso, de acordo com o semioticista, unindo pautas e reivindicações concretas a valores universais. Uma cidade mais acessível e barata também representa mais liberdade e dignidade para seus cidadãos. 

No Brasil, pautas que conectam o concreto com o utópico incluem o movimento Vida Além do Trabalho, VAT, que foi fundado pelo vereador do Rio de Janeiro Rick Azevedo, do PSOL, e defende o fim da escala 6x1. 

Em entrevista ao Intercept Brasil, Demuru comentou a importância de retomar a dimensão utópica da política, focando em pautas positivas e propostas novas ao invés de simplesmente posicionar a esquerda contra algo — especialmente nas redes sociais, onde ceder ao ódio e à indignação significa favorecer as big techs.

Qual a importância do encanto para mobilização política?

É fundamental retomar a dimensão do encanto e da utopia na política para projetar cenários com os quais os cidadãos possam se identificar.

Num mundo em que somos atravessados cotidianamente por discursos catastrofistas, as pessoas precisam se encantar, precisam de um cenário de esperança, de um futuro que faça acreditar no mundo em que vivemos. 

O governo Lula deu uma guinada nas práticas de comunicação e em algumas pautas mais de esquerda, mas, nos últimos anos, quem estava fazendo isso era a extrema direita, tanto no Brasil quanto mundo afora, apresentando uma utopia própria, uma utopia hiperindividualística e mais neoliberal do que o sistema neoliberal atual. 

O grande exemplo são os bilionários do Vale do Silício, que constroem foguetes para explorar o espaço e buscar uma vida além desse planeta ou bunkers para proteger só eles e suas famílias, ou o discurso da prosperidade pessoal, do bem estar e da cura de si, entre outros.

Quanto às esquerdas, é preciso lembrar que projetar sonhos não significa propor um discurso irracional, descolado da realidade. Elas precisam de um discurso que junta utopia e concretude, como no caso da campanha do [Zohran] Mamdani, que parte de temas concretos (o custo de vida) e promove um desejo de outro futuro enraizado neste mundo aqui, uma utopia coletiva centrada na ideia de bem comum.

Eu acho que a gente precisa de uma inversão de rota discursiva, de uma narrativa que não seja tão catastrofista e que reforce a crença neste mundo para engajar e criar pertencimento.

Enquanto os outros vão para Marte, nós precisamos acreditar e fazer as pessoas acreditarem na beleza desse planeta, numa outra utopia de vida em comunidade nesta terra aqui.

Por que a esquerda perdeu a capacidade de encantar?

Pergunta difícil, mas podemos tentar enquadrar o problema, sem a pretensão de dar respostas definitivas, fazendo um pequeno salto ao passado. O começo dos anos 2010 veio logo depois de uma década marcada por crenças utópicas muito fortes, com o movimento altermundialista e as críticas à globalização dos fóruns sociais mundiais, com o slogan de “um outro mundo é possível”.

Eram movimentos marcados por discursos de comunidade e de crítica à mídia, produzindo conteúdos para a internet pré-redes sociais, sem algoritmos gerenciando a fruição dessas plataformas.

A isso se seguiram as chamadas “primaveras árabes”, junto do movimento dos indignados na Espanha e o Occupy Wall Street nos Estados Unidos. Esse último tinha um slogan muito eficaz, “somos os 99%”.

O que o campo progressista precisa fazer é construir maiorias, como nesse slogan. Isso constrói uma unidade contra o verdadeiro problema: a desigualdade socioeconômica.

A extrema direita conseguiu se apropriar desse discurso antissistema, surfando na onda de protestos. O grande exemplo é 2013: uma explosão de demandas após a crise de 2008 e as conquistas dos primeiros governos Lula, junho de 2013 era uma insurgência popular que dizia “queremos mais”.

E tinham demandas populares extremamente legítimas ali. Mas a esquerda não conseguiu entender esse “queremos mais”, veio com um discurso extremamente burocrático, cheio de números de inflação e desemprego diminuindo. Isso é ótimo, mas você não pode comunicar isso de maneira tão fria e objetiva.

A política é movida pelo desejo, sempre. E a extrema direita conseguiu entender que havia espaço ali e deslocou esse discurso de “queremos mais” para o seu campo.

Eles aproveitaram uma brecha discursiva e fizeram as pessoas acreditarem que o problema eram os comunistas, os “marxistas culturais”, e não a concentração de riqueza, a injustiça, a precariedade do trabalho e da vida imposta pelo capitalismo neoliberal.

Produziram fantasias de conspiração que contavam que o mundo era dominado por seitas de poderosos esquerdistas, desviando o foco dos reais problemas.

Mamdani passou a campanha eleitoral focando em custo de vida, um núcleo de verdade que também foi pauta central na reeleição de Trump. Os dois partem do mesmo ponto, mas apresentam respostas radicalmente diferentes. Quais outras pautas os progressistas precisam resgatar dessa apropriação distorcida?

No caso de Trump, os culpados são os democratas progressistas e suas políticas migratórias. Se o custo de vida aumenta, é por causa dos mexicanos, latinos, africanos e asiáticos que vem roubar os trabalhos dos norte-americanos. Mamdani identifica outros culpados, os Elon Musks e Mark Zuckerbergs da vida, quem controla o sistema financeiro neoliberal.

A resposta que ele apresenta também é diferente. Não é individualista e excludente, mas é uma utopia concreta fundada no comum, no público: congelar os aluguéis, ônibus de graça, creches gratuitas, mercados mais baratos. Não é ir para Marte ou ganhar seu primeiro milhão para se distinguir da massa, é querer viver bem na sua cidade.

No Brasil, um exemplo disso é a luta contra a escala 6x1. Não é um sonho abstrato: é sobre ter mais tempo para ficar com os filhos, a família, os amigos, ler, descansar… a utopia política, nestes tempos, poderia e deveria ser isso: o descanso. É um realismo utópico possível, que acho que é o que precisamos. Cenários mais otimistas e realistas no meio dessa catástrofe toda.

Custo de vida, trabalho, redução de injustiça social, igualdade, segurança pública, são todas pautas com potencial transversal, de alcançar muitas pessoas. É preciso encontrar novas formas, por exemplo, de falar de segurança pública.

Isso não é só uma questão de discurso: não existe comunicação sem ideias e propostas. Precisamos desmontar esse mito de que é só um problema de comunicação.

Confira a entrevista completa no site do Intercept Brasil  AQUI

domingo, 21 de julho de 2024

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A força e a fraqueza de “O evangelho da revolução”

Publicado em 02/01/2026 em  https://blogdaboitempo.com.br/2026/01/02/a-forca-e-a-fraqueza-de-o-evangelho-da-revolucao/


por André Castro

Quando assisti a O evangelho da revolução, a convite do International Journal of Latin American Religions para escrever-lhes uma resenha do filme1, vi pela primeira vez, no auge dos meus 24 anos, sob as luzes que entravam nas retinas dos meus olhos, memórias a que eu só tinha tido acesso através das palavras. Cresci em uma família evangélica e só conheci a tradição do Cristianismo de Libertação quando cursei um bacharelato em Teologia. Dando voltas na biblioteca, já que não estavam na bibliografia básica das disciplinas, encontrei: Por uma teologia da Libertação protestante (1968), de Rubem Alves; Teologia da libertação: roteiro didático para um estudo (1987), de João Batista Libanio; Teologia da Libertação, perspectivas (1971), de Gustavo Gutierrez, e por aí foi indo. Os textos que surgiam, em sua maioria, da quentura dos fatos históricos vivos, da força da fé popular em lutar pela sua sobrevivência, da dor e da catástrofe da repressão em toda a América Latina revelavam também o tesão e a luz que a violência de Estado não conseguia segurar. Tudo isso chegava a mim embalado em livros velhos, normalmente com um mau cheiro de mofo e preço baixo na Estante Virtual. Mesmo assim, ler a Ética comunitária (1986) de Enrique Dussel me fazia não conseguir dormir. Algo naquelas palavras esquecidas nos velhos livros acendia em mim uma janela de esperança de que as coisas pudessem ser diferentes, mesmo que o único laço que eu guardava com elas fosse o das próprias palavras. Não pude conhecer nenhum dos grandes teólogos que me formou. Até meus 22 anos eu nunca tinha ido em uma CEB e a que visitei não tinha nenhum jovem.

Se o filme de François-Xavier Drouet fosse somente um compilado de imagens desse tempo em que eu não tive o prazer de viver, já seria uma contribuição sem tamanho para pessoas que, como eu, nasceram em tempos sombrios. Mas o cineasta vai além. O evangelho da revolução é dividido em cinco capítulos e percorre quatro países: El Salvador, Brasil, Nicarágua e México. Em cada país, o diretor busca antigos protagonistas dos movimentos, tanto religiosos quanto leigos, recolhendo suas memórias sobre aquela época.

O tema do documentário pertence ao passado. O acesso a ele se dá pelas lembranças dos que viveram aqueles anos e por imagens de arquivo retiradas de filmes e documentários da época. Drouet leva os entrevistados aos lugares em que viveram esses momentos: as montanhas da Nicarágua, as igrejas nos vales de Chiapas, as celas de prisão e tortura no Brasil.

Em cada capítulo do filme, a história é retomada. Contradições fundamentais dos anos 1960, próprias de cada país, geraram um tipo de fé cristã que se realizava na luta política por transformação radical — uma revolução liderada pelo “povo de Deus”. Essa radicalização política encontrou resposta imediata das estruturas de poder: repressão, assassinatos e supressão de direitos sob os regimes militares. A Teologia da Libertação foi um movimento latino-americano, mesmo que cada país tivesse uma reação popular referente às contradições de cada nação em seus respectivos lugares na divisão internacional do trabalho, o horizonte que surgia da própria luta, libertação, era uma visão comum que fazia da luta dos indígenas em Chiapas, das guerrilhas na Nicarágua e dos sem terra no sul do Brasil uma luta comum. A nível teológico, essas experiências seriam possivelmente referenciadas na libertação enquanto signo, núcleo simbólico que condensava as próprias expectativas que davam tração à luta social.

O filme é conduzido por um narrador, ele dá testemunho da sua própria experiência como um europeu que perdeu a fé na adolescência, mas que acendeu sua esperança na luta política e que encontrou uma forma de ver a fé que era política na América Latina. Ao colocar as pessoas que viveram o Cristianismo de Libertação nos lugares onde elas vivenciaram, o que fica é o contraste da própria realidade social. É claro que a saída do diretor para explicar a mudança é politicista, remetendo à condenação do Vaticano e à perseguição sofrida pelas guerrilhas na América Central, e não deixa ver as mudanças estruturais que aconteceram na realidade latino-americana (que dão os dons das variações políticas).

Uma das cenas mais descritivas do filme está na sua viagem a El Salvador. Ele nos apresenta, encostado a uma parede sem reboco, um homem idoso, que permanece imóvel. À sua frente, o chão foi aberto. A terra está revirada, empilhada em montes baixos, misturada a pedras e raízes. Homens com luvas e pás escavam lentamente. São técnicos enviados pelo Estado. O trabalho é metódico, quase cirúrgico: retirar camada por camada, separar o solo dos fragmentos de ossos, registrar. Tudo acompanhado de advogados e pessoas de renome. O homem observa sem falar. Seu olhar não se fixa exatamente nas mãos que escavam, mas no buraco que se aprofunda. Em algum momento, sua voz rompe: “Como uma criança de onze meses pode ser guerrilheira?” Fica suspensa no ar. Ele continua: “Ou alguém de oitenta, noventa anos?” Um dos agentes se aproxima e pergunta o que ele sente ao ver aquela exumação. O homem não responde. Apenas abaixa a cabeça, desvia o olhar, e sua boca se contrai. Seus ombros se movem levemente, como quem tenta conter o choro. A câmera não se afasta.

Não sabemos seu nome. Não sabemos se ali estão seus filhos, seus irmãos, seus vizinhos. Sabemos apenas o nome do lugar: El Mozote, em El Salvador. Quarenta anos antes, ali se deu uma das matanças mais brutais da história recente da América Central. O filme então muda de cenário. A comunidade desaparece. Surge a capital. San Salvador. Um memorial de concreto ocupa a tela. Muros largos, escuros, cobertos de centenas, milhares de nomes gravados. Letras alinhadas em colunas. Uma escrita repetitiva, quase infinita. Um homem caminha lentamente diante desses muros. É o mesmo homem, que sobreviveu àquele massacre, mesmo que não seja o mesmo indivíduo. A voz em off atravessa as imagens. Recorda que, depois de anos de guerra, o exército assinou acordos de paz com as forças guerrilheiras. As eleições foram restabelecidas. As armas silenciaram. Nada, porém, se transformou de forma radical. Enquanto o narrador menciona a queda do Muro de Berlim e o fim das grandes utopias, a imagem mostra outra paisagem: avenidas largas, trânsito espesso, ruído constante de motores. Outdoors gigantescos ocupam o horizonte: marcas multinacionais, promessas de felicidade, consumo, velocidade. À margem da estrada, subindo uma ladeira estreita, um homem empurra lentamente um carrinho de comida ou qualquer mercadoria que se venda. O mesmo homem, trabalhador, sobrevivente a El Salvador. Nas margens de uma grande avenida carregando seu carrinho que lhe dá sua sobrevivência diária. Um percurso ao nosso tempo.

Outra das grandes cenas do filme está no seu percurso no México, em Chiapas. No território que antes havia sido atravessado pela presença de padres comprometidos com mediações de conflito e com a sustentação de movimentos populares, como o Exército Zapatista, o que agora emerge é outro tipo de expectativa: a migração.

Em Veracruz, ao norte de Chiapas, a câmera se detém em um abrigo simples. Um portão metálico. Um pátio de cimento gasto. Homens sentados jogam cartas sobre uma mesa improvisada. No verso das cartas, a bandeira dos Estados Unidos aparece repetidamente. O abrigo oferece o básico: um pouco de comida, um espaço para sentar, algum tempo de descanso. Irmã Dolores dirige o lugar. Sua presença é firme e cotidiana. Ela orienta: aponta o caminho do trem, explica quais rotas são menos vigiadas, descreve os riscos do percurso. Não há discurso grandioso, apenas uma pedagogia prática da sobrevivência. O gesto que sustenta a travessia é o mesmo que, em outras décadas, sustentou as lutas populares.

Numa das paredes dentro do abrigo, a câmera registra uma imagem pintada: o rosto de Dom Óscar Romero, bispo assassinado em El Salvador, sobreposto à figura de um trem em movimento. Alguns minutos antes o cineasta havia nos ensinado a história do nosso mártir. O mártir e o vagão dividem o mesmo espaço visual, é quase o Óscar Romero no trem, migrante. A freira, formada na tradição da Teologia da Libertação, fala diante da câmera: “Nos migrantes, encontramos a cruz e o sofrimento, mas também muita ressurreição. São pessoas de grande esperança, e sempre têm um sonho, uma utopia.” Enquanto ela fala, o filme acompanha os corpos em movimento: homens caminhando ao longo dos trilhos, mochilas nas costas, passos lentos, silêncio concentrado.

Era esse tipo de “grande ato” que os teólogos da libertação buscaram compreender: o gesto concreto, vital, que organiza uma esperança coletiva. Que faziam daquela teologia “palavras de ação”. Se um dia o ato sobre o qual a reflexão teológica pensava era aquela revolução que os entrevistados recordam, agora é o seu inverso; se a revolução é o compromisso mais radical com a transformação da realidade possível, dar sua vida pela nova realidade que pode ser produzida ali, a migração é seu reverso, o abandono radical daquela realidade. Nos escritos clássicos de Hugo Assmann e Gustavo Gutiérrez, ainda nos anos 1970, essa dimensão prática aparece na ideia de uma teologia enraizada na experiência de fé de um povo em luta. Para quem nasceu décadas depois, como eu, as imagens reunidas por Drouet reanimam essa ideia, tornando-a quase palpável, mas somente como memória, já que o presente já não se sente tão denso, e o passo dado à revolução já não tem pernas. Caminha-se contra a fronteira, fugindo dos antigos inimigos de classe, para enfrentar outros, agora em uma condição ainda pior. Mas quem sabe lá tenha mais vida. Deus nos ajude. Com quem mais contar?

Quando voltamos para o Brasil no último capítulo do filme, a qualidade interpretativa do filme cai. O filme já tinha acabado, mas o cineasta quer dar uma resposta. Em poucos minutos temos uma resumida e completamente estereotipada visão dos pentecostais. Máquinas de dinheiro para pastores e de ilusões para os paupérrimos que já não teriam mais as comunidades de base para ir. Perdemos a complexidade real que envolve qualquer dinâmica de fé e ficamos com um retrato caricato que só ajuda a desentender o hoje.

Logo somos apresentados ao heroico Padre Júlio Lancelotti e sua prática de fé em defesa da vida do povo de rua. Terminamos o filme no desfile da Mangueira de 2020, que em reação ao bolsonarismo apresentou uma versão popular e periférica de Jesus. O francês entende que se trata do lugar onde segue vivo o sopro liberacionista. Precisa que seja assim, como afirma em voiceover: “Nem sempre sabemos por que fazemos um filme. Não fiz este para reencontrar uma fé que se perdeu há muito tempo. Quis conhecer esses crentes talvez para continuar acreditando na justiça em tempos de escuridão.” É claro que isso seria justo se o samba-enredo da escola fosse uma produção que expressasse a fé do povo na libertação latino-americana, mas a própria letra sabe que não se trata disso, por isso tem que dizer:

Favela, pega a visão

Não tem futuro sem partilha

Nem messias de arma na mão

Favela, pega a visão

Eu faço fé na minha gente

Que é semente do seu chão2

Pega a visão. É clara a referência aos discursos bolsonaristas, diante dos quais o samba se coloca como reação. Por isso, o samba precisa chamar a atenção da favela e afirmar que esse ponto de vista não é teológicamente correto; então, defende sua teologia do “Jesus da Gente”, mas já sem nenhuma força, pois funciona apenas como contraparte do “Jesus de arma na mão”, do outro lado sombrio, sem o qual o próprio samba não teria sentido. Exatamente por ser essa racionalidade reativa a característica do progressismo que o organiza3, ele se torna o exato oposto do movimento do cristianismo de libertação, que era, ele mesmo, o agente capaz de gerar reações negadoras, como o filme demonstra todo o tempo.

No começo dos anos 2000, o australiano Goetz Ottmann faria algo similar. Apesar de notar claramente as contradições que surgiam do próprio movimento liberacionista que ia perdendo sua vigorosidade social com a reposição da realidade social dos anos 1990, ele ainda precisa apostar no Hip Hop, mais claramente no RAP, enquanto lugar de reposição do sopro liberacionista, agora secularizado, mas ainda pujante.4 Bastaram mais alguns anos para vermos que essa força inaugural, sobretudo com a geração dos Racionais MCs, se desfez em mercado. Mas o filme não acaba onde deveria porque ainda mantemos esse afã de dar uma resposta para algo que não temos nem capacidade de entender.

Talvez um dos problemas da nossa época, não podermos ficar com o problema, sofrê-lo, senti-lo. Ter que imediatamente dar uma resposta do alto dos nossos escritórios. Talvez esteja nesse sofrimento o trabalho do negativo que nos falta para o surgimento de algo novo, que tenha a forma do nosso tempo, e que seja patrimônio irrevogável daqueles que o produzirem; produção essa que deve ser deles mesmos e nós, podemos no máximo ajudar. Mesmo que O evangelho da revolução não dê conta de nos ajudar a encontrar o nosso tempo brasileiro no mundo com precisão, ao menos nos dá bom diagnóstico da América Latina e apresenta a lembrança de como foi um dia viver sob a égide do futuro que irrompia o agora; que serve ao menos para irrigar nossas mentes nesse tempo inorgânico.

Notas

CASTRO, A.V.S. Review: François-Xavier Drouet: The Gospel of Revolution, 2024. Documentary, 116 min. Spanish, French, and Portuguese with English subtitles. France/Belgium. Icarus Films, Docuseek platform. International Journal of Latin American Religions. (2025). ↩︎

MANGUEIRA. A Verdade Vos Fará Livre. Samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira para o Carnaval de 2020. Compositores: Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo. Intérprete: Marquinho Art’Samba. Rio de Janeiro: Mangueira, 2020 ↩︎

Para uma caracterização desse progressismo, conferir o ensaio: CASTRO, André; ROGER, Jayder; DUARTE, João Marcos. Quem tem medo do progressismo evangélico? A terra é redonda, 2023. ↩︎

OTTMANN, Goetz Frank. Lost for Words? Brazilian liberationism in the 1990s. Pittsburgh, PA: University of Pittsburgh Press, 2002. ↩︎

***

André Castro nasceu em Pernambuco, mas cresceu na Bahia. Graduado em Teologia (FLAM) e mestre em Ciências da Religião (UMESP), atua como editor e colunista na Revista Zelota. É autor de A luta que há nos deuses (Machado, 2024) e Breve história da teologia da libertação protestante (Recriar, 2022). Pesquisa os nexos entre imaginação religiosa e processo social na América Latina entre a Teologia da Libertação e o Brasil avivado.







O filme está disponível para o clube de membros da Plataforma ICL
No caso de exibição não comercial para grupos organizados, incluindo cineclubes, entrar em contato através do email 
oevangelhodarevolucao@posteo.com.br



segunda-feira, 24 de novembro de 2025


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Duas seleções de canções para entrar o ano novo com os dois ouvidos bem cuidados e bem atentos. Com João Marcello Bôscoli e Dj Percilia.

 No clima da crônica escrita pelo cientista social e  escritor Cesar Benjamin, aqui,  sobre o imbróglio mercantil que se formou de uns anos para cá  em torno das festas de rua e de locais com forte apelo turistico, preferi ficar em casa, na companhia da amada e de um casal  de cachorros. 


ato contra a “PEC da Bandidagem” em 21 de setembro de 2025  em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Como na vizinhança não há quem curta um som exageradamente alto e nem este que escreve, ficou bem tranquilo e suave ouvir a boa seleção musical realizada por João Marcello  Bôscoli para o programa  Contraponto, destaque da programação  da Rádio Cultura Brasil (São Paulo), focado em música brasileira,  explorando diferentes fases da MPB com artistas como Tom Zé, Elis Regina, Elza Soares, Chico Buarque, Djavan, Marisa Monte, Luiz Melodia, Jorge Ben,  entre outros,  indo ao ar às quartas-feiras às 17h, com reprise aos sábados às 11h, e disponível também online. 

Já na manhã deste primeiro dia do ano de 2026,  procuro novidades e recebo atualização do canal da carismática DJ Percilia , que tem origem no Rio Grande do Sul , e que foi uma das responsáveis pela trilha sonora pós ceia de natal aqui em casa, inclusive com elogios de uma das duas pessoas visitante que compartilharam esse momento conosco,  junto com o casal de filhos. 

A primeira sugestão é para uma sequência mais ordenada sem os cortes e quebras de ritmo, como acontece com a  setlist da Percilia, feita pra ouvir e dançar,  mas todas as duas valendo  como sugestão nesse imenso oceano digital com música para todos os gostos, e  como boa música nem sempre se sobressai, trago estas duas sugestões para um começo de ano  em que precisaremos combinar tudo de bom e de melhor para enfraquecer o neoliberalismo e sua versão mais radicalizada,  o neofascismo,  nas suas diversas formas, inclusive no campo da cultura,  a que o  primeiro reduz a mercadoria,  e a que o segundo  transforma em inimiga quando ajuda na formação do pensamento critico o que para a extrema direita bolsonarista  se reduz ao fantasma do "marxismo cultural". 

Zezito de Oliveira


Para ouvir o programa Contraponto fora do seus horário convencional, clique aqui 

Set - Vem Curtir Música Brasileira (Especial Ano Novo)


P.S.: Atualização às 17:59- Para este fim de tarde no primeiro dia do novo ano e para outros momentos para quem não pode chegar agora ou para quem quiser rever..


Abaixo, a linda canção que inspira o projeto.







Paulo Nogueira Batista Jr.: “O Ocidente está destruindo o sistema econômico global”

 Ex-diretor do FMI diz que EUA e Europa agem como “piratas” e aceleram a busca do Sul Global por uma arquitetura financeira pós-Ocidente

27 de dezembro de 2025, 17:59 h

Em entrevista ao canal do professor Glenn Diesen, o economista Paulo Nogueira Batista Jr., ex-diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), dos BRICS, afirmou que o chamado “Ocidente político” — liderado pelos Estados Unidos e seguido pela Europa — está corroendo de forma acelerada as bases do sistema econômico internacional construído no pós-guerra.

Logo no início da conversa, Batista Jr. traça um diagnóstico contundente da conjuntura global e do declínio relativo do poder ocidental. Segundo ele, EUA e aliados estão “perdendo terreno de forma constante” em termos políticos, econômicos, financeiros e demográficos, e reagindo a essa perda de hegemonia com métodos cada vez mais agressivos.

 “O Ocidente político (…) está perdendo terreno continuamente (…) e essa queda relativa é acompanhada por algo muito preocupante: a tendência dos EUA e aliados de usar o poder remanescente (…) para atacar política e economicamente países considerados rebeldes, hostis ou não cooperativos.”

Confisco de ativos russos e “pirataria” financeira

Um dos pontos centrais abordados na entrevista é a decisão da União Europeia de congelar e confiscar rendimentos de ativos russos, no contexto da guerra na Ucrânia. Para Batista Jr., a operação não tem base legal e mina a credibilidade do euro e do sistema financeiro europeu.

 “Nenhuma base legal. Como eu disse, isso faz parte da pirataria geral que europeus e americanos estão praticando.”

Ele descreve três etapas do processo: primeiro, o congelamento das reservas; depois, a apropriação dos juros; e por fim, a possibilidade de confisco total. Para o economista, mesmo o congelamento já seria ilegal e a apropriação dos rendimentos aprofunda o colapso de confiança.

 “Isso consolida a visão no Sul Global (…) de que o euro não é confiável, de que o sistema financeiro europeu não pode ser confiado.”

Batista Jr. destaca a contradição histórica: países do Ocidente sempre se apresentaram como guardiões do direito de propriedade e da segurança jurídica, mas hoje violam esses próprios fundamentos quando se trata de adversários estratégicos.

 “A estrutura política e jurídica do Ocidente tem como princípio fundamental o respeito aos direitos de propriedade. Agora, o que estão fazendo com Rússia, Venezuela, Irã e outros países é simplesmente desrespeitar esses direitos.”

Trump, Monroe e a América Latina como “quintal”

Ao comentar os riscos geopolíticos atuais, Batista Jr. aponta a retomada da Doutrina Monroe sob o governo do presidente Donald Trump como uma ameaça direta à soberania latino-americana. Segundo ele, a lógica de considerar o hemisfério ocidental como esfera exclusiva de influência dos EUA ressuscita uma visão imperial, agora aplicada com maior agressividade.

 “A Doutrina Monroe revivida por Trump é simplesmente um instrumento de poder imperial.”

O economista observa que, no passado, a Doutrina Monroe teve ambiguidades — combinava afirmação de poder dos EUA e oposição ao colonialismo europeu — mas hoje seria usada como justificativa para intervenção e coerção contra governos independentes, especialmente na Venezuela.

 “Agora é completamente diferente. (…) Está sendo colocada em prática, notadamente em duas áreas: Groenlândia e, mais importante, Venezuela.”

Batista Jr. também alerta para o avanço de governos alinhados aos EUA na América do Sul e afirma que Brasil e Colômbia seriam, hoje, os principais freios regionais aos planos de Washington, principalmente por causa do peso estratégico brasileiro.

 “O que resta na América do Sul que se opõe aos planos imperiais dos EUA é a Colômbia (…) e, mais importante, o Brasil, por causa do seu tamanho.”

Brasil, eleições de 2026 e o risco de submissão

Ao falar do cenário interno brasileiro, Batista Jr. faz uma advertência direta: as eleições presidenciais de 2026 podem definir se o Brasil continuará resistindo a uma estratégia de submissão regional ou se se tornará novamente um aliado subalterno de Washington.

 “Em 2026 teremos eleições presidenciais no Brasil. Se Lula não for reeleito e a extrema direita vencer, você terá outro aliado importante submetido aos planos dos EUA.”

Ele associa essa possibilidade ao avanço de uma nova direita continental e à tentativa de reorganizar o continente sob controle político e econômico norte-americano.

Europa em declínio e crise de credibilidade

Outro eixo forte da entrevista é a avaliação da crise europeia. Para Batista Jr., a Europa vive um processo simultâneo de fragmentação institucional, desindustrialização e perda de autonomia, agravado por decisões que minam a confiança internacional.

Ele ironiza a postura de lideranças europeias ao sugerirem que cortes locais jamais reconheceriam ações russas contra confisco de ativos, como se a justiça fosse guiada por alinhamento político.

 “Isso é irresponsável, até infantil. (…) Afeta a credibilidade dos tribunais europeus.”

Batista Jr. afirma que, mesmo que a Europa mude de rumo futuramente, a confiança perdida pode ser quase impossível de recuperar.

 “Há uma perda de credibilidade, uma perda de confiança muito difícil de recuperar. Confiança é fácil de perder e difícil de reconquistar.”

Mercosul-União Europeia: acordo travado e “chantagem”

Em um trecho relevante para o Brasil, Batista Jr. comenta o impasse envolvendo o acordo Mercosul-União Europeia, que não foi assinado devido à oposição de países europeus, especialmente França, e à entrada da Itália no bloco de resistência. Segundo ele, o episódio revela a fragilidade da União Europeia e sua incapacidade de agir como bloco coeso.

 “A União Europeia não está funcionando como bloco (…) É uma associação importante, mas chamar de bloco hoje é forte demais.”

Batista Jr. critica o conteúdo do acordo, dizendo que ele seria ruim para o Brasil ao abrir o mercado nacional a grandes corporações industriais europeias, e aponta uma manobra do governo italiano.

 “A minha leitura é que Meloni está chantageando os europeus: ‘eu aceito o acordo se vocês me derem mais dinheiro pela política agrícola comum’.”

BRICS e a construção de uma arquitetura “pós-Ocidente”

Diante do colapso das regras, Batista Jr. defende que os BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai (OCX) acelerem a construção de uma arquitetura alternativa.

Ele reforça que essa estratégia não seria “antiocidental”, mas sim “pós-Ocidente”, uma forma de reduzir vulnerabilidades e dependência diante de sanções, confisco de ativos e coerção financeira.

 “O BRICS nunca foi visto como antiocidental. É pró-BRICS, pró-Sul Global. (…) A arquitetura que precisamos construir não é antiocidental. É pós-Ocidente.”

O economista afirma que nem China nem Rússia buscaram confronto inicialmente, mas foram empurradas para ele pela escalada ocidental. Para ele, toda a agressividade recente — tarifas, sanções, congelamento de reservas, uso político do dólar — acelerou o processo de desdolarização e pode culminar numa crise sistêmica.

 “Se houver outro grande colapso financeiro (…) o dólar não será o refúgio seguro. Isso pode acelerar a fuga do dólar, que já está em curso.”

A possibilidade de uma nova crise global

Questionado sobre a chance de uma nova crise econômica, Batista Jr. diz não poder prever com certeza, mas alerta para sinais de bolha nos mercados norte-americanos e para o histórico recorrente de crises no sistema financeiro dos EUA.

 “Há sinais de vulnerabilidade, sinais de bolha. (…) Muitos especialistas veem sinais fortes de uma bolha que pode estourar.”

Se um colapso acontecer, ele acredita que o impacto global será inevitável e exigirá uma resposta rápida do Sul Global, sobretudo da China — que, segundo ele, é indispensável para qualquer alternativa sistêmica.

 “Sem a China, um plano B não pode ser colocado de pé, dado o tamanho dela em relação aos demais BRICS.”

“Nunca vi isso na vida”: a nova fase do sistema internacional

Ao longo da entrevista, Batista Jr. repete a percepção de que o mundo entrou em uma fase inédita de instabilidade, marcada pelo uso aberto de coerção, confisco e ameaça como instrumentos de política econômica.

 “Eu nunca vi isso na minha vida inteira (…) estamos atravessando uma fase muito delicada.”

Para ele, o que está em curso não é apenas um rearranjo geopolítico, mas um processo de desgaste estrutural que pode levar a uma transição histórica: o fim do sistema comandado pelo Ocidente e a consolidação gradual de uma ordem multipolar — ainda incerta, mas inevitável.

 “O que está acontecendo no Ocidente político é uma forte queda na qualidade da liderança (…) um comportamento autodestrutivo (…) e isso acelera o declínio do Ocidente.”