quinta-feira, 14 de maio de 2026

Saudades do Fórum do Forró. Por Zezito de Oliveira

O Fórum do Forró completa 19 edições realizadas. Embora tenha sido criado em 2001, o evento não alcança sua 25ª edição em 2026 porque deixou de acontecer em alguns anos ao longo desse intervalo.

Criado dentro da programação do Forró Caju, o Fórum do Forró de Aracaju tornou-se um dos mais importantes espaços de reflexão sobre a cultura nordestina e a música popular brasileira. Mais do que uma atividade paralela aos festejos juninos, o fórum consolidou-se como ambiente de encontro entre artistas, pesquisadores, jornalistas, produtores culturais, gestores públicos e estudiosos interessados em discutir o passado, o presente e o futuro do forró.

Idealizado pelo pesquisador e gestor cultural Paulo Corrêa, o evento atravessou diferentes administrações municipais, mudanças no mercado musical e transformações tecnológicas, mantendo como eixo central a defesa do forró tradicional e a valorização da memória cultural nordestina.

Nos anos em que foi realizado, deixou marcas profundas em nossa memória e em nossa atuação como educador e produtor cultural. Um dos pontos mais significativos dessa relação com o tema foi a Mostra Cultural Caravana Luiz Gonzaga Vai à Escola.

A Caravana “Luiz Gonzaga Vai à Escola”, realizada em Sergipe em 2012 pela Ação Cultural com apoio da Fundação Nacional de Artes (Funarte), integrou as comemorações do centenário de Luiz Gonzaga, levando palestras, apresentações musicais, exibição de vídeos, exposições, dança e debates sobre a cultura nordestina para escolas públicas e espaços culturais sergipanos.

A iniciativa buscou aproximar estudantes da obra e da importância histórica do Rei do Baião, valorizando o forró como patrimônio cultural e instrumento de formação identitária nordestina. A caravana dialogava diretamente com os princípios defendidos pelo Fórum do Forró de Aracaju, especialmente na preservação do forró tradicional, na difusão da memória cultural nordestina e na articulação entre educação, pesquisa e cultura popular, funcionando como uma extensão pedagógica das discussões históricas promovidas pelo fórum ao longo de suas edições.

Neste ano de 2026, tendo Paulo Corrêa — idealizador e produtor histórico do evento — à frente da Secretaria Municipal da Cultura de Aracaju, percebe-se, naturalmente, a intenção de realizar um grande Fórum do Forró, à altura das melhores edições já promovidas. Ainda há muito a ser feito, mas permanece a esperança de que o evento volte a alcançar plenamente sua força histórica e simbólica.

Entre as saudades que carrego — e que parcialmente me senti contemplado nesta edição — está a qualidade artística do cartaz, novamente digna das melhores fases do fórum.

O local escolhido, o Teatro Atheneu, também merece destaque. Outros espaços confortáveis e acessíveis já acolheram o evento em diferentes momentos, inclusive o Teatro Juca Barreto, palco da primeira edição. A propósito, permanece a esperança de que o teatro venha a ser plenamente restaurado e devolvido ao público.

Em outras ocasiões, o fórum ocorreu no teatro de bolso do Centro Cultural de Aracaju, espaço menor e mais intimista, que, apesar das limitações, conseguiu cumprir seu papel. Ainda assim, fica a reflexão: e se Aracaju finalmente envidasse esforços para construir um verdadeiro Teatro Municipal, talvez aproveitando a área localizada nos fundos da antiga sede da Prefeitura, no centro da cidade, inclusive com apoio da bancada sergipana no Congresso Nacional?

Também sinto saudade das conferências que ampliavam e contextualizavam a discussão sobre o forró para além das questões meramente memoriais. Em 2002, por exemplo, Bráulio Tavares participou do II Fórum do Forró de Aracaju, dedicado a Jackson do Pandeiro, apresentando a conferência “Análise Temática da Obra de Jackson do Pandeiro”. Também integrou o debate “Forró Pé-de-serra x Forró Eletrônico”, ao lado de Fernando Moura, Antônio Barros, Cecéu e Almira Castilho.

Em 2003, Durval Muniz de Albuquerque Júnior apresentou a conferência “A Invenção da Cultura Popular Nordestina”, ampliando o alcance acadêmico do fórum e introduzindo reflexões sobre regionalismo, indústria cultural e construção simbólica da identidade nordestina.

Silvério Pessoa, em participação marcante no fórum de 2015, alertou para “o sério risco de termos uma tradição diluída”, desenvolvendo uma reflexão brilhante sobre o papel da escola na preservação do forró e do coco nordestino.

Em 2022, Anderson Fanta e Cleuza Lopez trouxeram ao debate as plataformas digitais e os desafios do mercado musical contemporâneo, demonstrando que o Fórum do Forró sempre foi mais do que nostalgia: foi também espaço de reflexão sobre permanências, mudanças e futuro.

Entre outras lembranças marcantes estão os robustos coquetéis de comida nordestina oferecidos em algumas edições, momentos de confraternização que prolongavam os debates e fortaleciam os vínculos afetivos em torno da cultura popular.

Mas talvez uma das imagens mais fortes da memória do fórum seja a tradicional fila de debatedores da plateia — aquilo que gosto de chamar de “a fila dos últimos românticos do forró”. Entre essas figuras inesquecíveis estava Ribeiro, presença constante e apaixonada em praticamente todas as edições.

Enquanto pesquisadores e artistas discutiam o futuro do forró nas mesas do palco, figuras como Ribeiro ocupavam, de maneira emocionada e vibrante, o microfone aberto da plateia ano após ano, transformando presença em verdadeira militância cultural. Sua fidelidade ao Fórum do Forró revelava que a defesa do forró tradicional não acontecia apenas nos discursos acadêmicos ou nos palcos, mas também no compromisso afetivo do público que fazia daquele espaço um território vivo de memória nordestina.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

A propósito dessa “fila dos últimos românticos do forró”, também merece destaque Thiago Paulino, representante de uma geração mais jovem de pesquisadores que ajudou a renovar o debate cultural sobre o forró. Autor do livro Palco de Disputas e Disputas pelo Palco no País do Forró (2018), Thiago analisou criticamente as transformações do forró contemporâneo, os conflitos entre tradição e mercado e as disputas simbólicas presentes nos festejos juninos nordestinos, contribuindo para ampliar a reflexão sobre cultura popular, identidade e indústria cultural.

No artigo “A Décima Edição do Fórum do Forró e a Derrubada do Muro” (2011), Thiago escreveu:

“Infelizmente, a outra constante é o que poderíamos chamar de um ‘muro de lamentações do forró’. Todo ano algumas temáticas se repetem: a falta de qualidade das bandas de forró elétrico, a disparidade dos cachês entre artistas locais e bandas de fora e a falta de valorização do artista local. Se por um lado essas reclamações possuem legitimidade, por outro é necessário proporcionar palestras e oficinas para que o próprio sanfoneiro, ou alguém próximo a ele, se aprimore enquanto produtor ou agente cultural.”

Ao defender a qualificação dos próprios artistas e agentes culturais, Thiago apontava um caminho importante para além da crítica recorrente: a necessidade de fortalecer formação, produção, circulação e profissionalização dentro do próprio universo do forró.

O Fórum do Forró consolidou-se ao longo de suas 19 edições como um dos mais importantes espaços de reflexão sobre a cultura nordestina e o forró tradicional. Ainda assim, sua trajetória também foi marcada por críticas recorrentes feitas por artistas, pesquisadores, como Thiago Paulino  e pelo próprio público. Para efeito de contribuição em forma de sintese para que os próximos Foruns deixe ainda mais saudades, destacamos a atenção a descontinuidade do evento nos futuros anos pela dependência das mudanças políticas e administrativas da Prefeitura de Aracaju, além da dificuldade de transformar os debates em políticas culturais permanentes.

Outro ponto importante a ser considerado é a contradição entre o discurso de defesa do forró pé-de-serra no Fórum e a crescente presença de atrações comerciais e do forró eletrônico na programação dos festejos juninos. Também houve e há criticas  sobre a pouca preservação do acervo histórico do evento, limitações de infraestrutura, redução do espaço para participação espontânea da plateia nos últimos anos  e a ausência de maior projeção nacional para um encontro considerado referência na discussão sobre patrimônio cultural nordestino.

Mesmo diante dessas limitações, o Fórum do Forró permanece como um raro território de resistência cultural, memória afetiva e debate crítico sobre identidade nordestina e cultura popular brasileira. 

Confira o último dia do Fórum do Forró em Aracaju     ]

 https://globoplay.globo.com/v/14608470/

A tradição das festas juninas resiste em Sergipe com o Fórum do Forró - 1ª parte - Paulo Corrêa






O XI Fórum do Forró foi dez!

Divulgação - Ao final dos debates, o público presenciou um show em homenagem a Luiz Gonzaga.

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE - Publicado no Overmundo

http://www.overmundo.com.br/overblog/o-xi-forum-do-forro-foi-dez

11/6/2012 · O Fórum do Forró, que aconteceu nos dias 05 e 06 de junho de 2012, em Aracaju, realizou uma homenagem ao saudoso e querido Luiz Lua Gonzaga à altura da qualidade do grande legado que o mestre deixou.

Das homenagens realizadas no centenário do Gonzagão em Sergipe, esta é uma das que merecem mais louvores, pelo fato de se ter iniciado no ano de 2002, prosseguindo, de forma ininterrupta, até o presente ano.

A outra homenagem longeva a Luiz Gonzaga e também digna de louvor é o programa Aquarela Nordestina , apresentado pelo professor José Augusto, há cerca de 20 anos, pelas ondas da Rádio Aperipê 630 AM.

O que me chamou a atenção no primeiro dia foi a apresentação do site LuizLuaGonzaga por parte de seu criador e mantenedor Paulo Vanderley. Isto se deveu à forma clara, segura e apaixonada ancorada na utilização de um criativo recurso audiovisual, o próprio site. Foi o dia em que fui acompanhado da esposa e dos filhos (um pré-adolescente e uma adolescente). Os elogios que faço, aliás, também tomam como base a opinião deles.

No segundo dia senti um clima com forte presença de elementos místicos e emocionais, com destaque para a apresentação e homenagem ao compositor João Silva, importante parceiro do Rei do Baião, e a apresentação de Bené Fonteles, responsável por uma belíssima publicação — O Rei e o Baião —, composta de análises instigantes elaborados por intelectuais e reprodução de material iconográfico sobre Luiz Gonzaga e releituras ou interpretação de sua obra por parte de artistas de outras linguagens, em especial das artes plásticas, visuais e literária.

Uma frase dita por Bené Fonteles me chamou a atenção! Disse ele: “Gonzaga já é mais do que o mito, Gonzaga é uma entidade”. Frase semelhante ouvi de Veronica Sacta, educadora, artista e xamã equatoriana, que deu importante contribuição à nossa gestão a frente do Complexo Cultural “O Gonzagão”, no período em que estivemos à frente da direção daquele equipamento cultural pertencente ao governo de Sergipe (2007 a 2009). E não à toa, presenteei-a com um CD contendo uma coletânea de gravações clássica do Velho Lua, quando ela se despediu dos amigos(as) sergipanos, após quase um ano de presença em Aracaju.

No final do fórum, solicitei a palavra para divulgar a seleção do projeto “Caravana Cultural Luiz Gonzaga vai a Escola”, no prêmio Funarte-Centenário Luiz Gonzaga. Desde que soube do resultado, pensei ser o Fórum do Forró o local mais apropriado para isso. Mesmo que esta notícia já fosse do conhecimento de uma parte daqueles que estavam presentes naquele momento.

Na fala em que citei a conquista do prêmio, parabenizei e agradeci a Paulo Correa ( idealizador e coordenador do Fórum do Forró desde a sua criação)pela iniciativa, além de lembrar outro dois nomes que garantiram a cobertura institucional para a realização do evento: o bancário e professor de História Chico Buchinho (presidente da Funcaju, na época), bem como o prefeito em 2001(ano do primeiro Fórum do Forró) e atual governador de Sergipe, Marcelo Déda.

Eu disse que o fórum do forró foi uma das fontes de inspiração para a elaboração do projeto da Caravana Luiz Gonzaga e, em razão das limitações de tempo, deixei de falar que a Caravana Luiz Gonzaga responde, mesmo de forma limitada e localizada, a angústia ou ao anseio de algumas pessoas que manifestaram no espaço de debates do Fórum do Forró seus protestos e/ou desabafos com o desconhecimento e/ou desvalorização do forró pé-de-serra, por parte significativa de pessoas das novas gerações.

No final, destaquei que era importante e necessário que as excelentes palestras e apresentações durante todos esses anos de Fórum do Forró fossem registradas e publicadas em forma de textos e imagens. Esta demanda já foi colocada em outros fóruns, mas infelizmente não conseguiu sensibilizar a prefeitura de Aracaju, com a honrosa exceção de uma ou duas edições do evento.

No final, após uma das diversas e belas apresentações desta segunda noite, protagonizadas, entre outros, por Erivaldo de Carira e Thais Nogueira, destaco a fala do primeiro, o qual lembrou que muitos prefeitos do interior de Sergipe precisam valorizar mais os artistas que produzem o forró pé-de-serra, contratando seus trabalhos pelo menos no período dos festejos juninos.

Nesse momento, lembrei-me que uma forma das autoridades públicas mostrarem seu real amor por sua gente e por sua terra é valorizando e investindo na arte e cultura do seu povo, muito além de palavras ou gestos simbólicos como na utilização da arte e da cultura sergipana apenas em propagandas institucionais e/ou recepções a convidados de outras localidades.

Como 2012 é um ano de eleição e a bola está com o cidadão eleitor, é importante que a valorização e o investimento em educação e cultura de qualidade sejam fatores importantes de decisão na hora do voto.

P.S: No primeiro dia do Fórum do Forró o jornalista Thiago Paulino indagou palestrantes e debatedores a respeito de sugestões acerca de políticas públicas no campo da educação e da cultura, voltadas para ampliar o alcance de iniciativas semelhantes a Caravana Luiz Gonzaga.

O jornalista Jozailto Lima, por sua vez, também fez uma pergunta, enumerando alguns movimentos musicais brasileiros, como a bossa nova, a jovem guarda, o tropicalismo, o clube da esquina e uma imensa gama de estudos acadêmicos sobre estes.

Jozailto quiz saber se o fato de o baião — que tem uma importância tão significativa para a cultura brasileira — não ter sido agraciado com o mesmo tratamento, por parte das universidades, não significaria uma atitude de preconceito regional e social por parte da academia.

Como as respostas dadas a estas perguntas não esgotaram as soluções ou alternativas possíveis, resolvemos trazê-las para quem sabe, possibilitar que mais pessoas, coletivos ou instituições busquem outras respostas que se convertam em ações.

Quanto a questão proposta por Thiago Paulino, vale citar uma iniciativa da atual gestão dos ministérios da cultura e da educação, que está criando um coletivo investigador da pesquisa-ação que será realizada em Recife, nos dias 14 e 15 de junho, em tempo integral, cujo objetivo é formular princípios que auxiliem na formulação e orientação de políticas de cultura voltadas para a educação. O coletivo investigador é composto por professores, educadores populares, artistas e outros agentes da educação e da cultura empenhados na formação de um sistema educacional que integre as experiências de Educação Formal e as de Educação Não-Formal, realizadas por organizações da sociedade civil, bibliotecas e museus.

Esse coletivo investigador contará com a presença do autor desse texto.
















quarta-feira, 13 de maio de 2026

O EDITAL QUE DÁ COM UMA MÃO… E ESCONDE A OUTRA NO BOLSO. Velhinho de Taubaté por Mário Jéfferson Leite Melo

 

O Velhinho de Taubaté passou a madrugada lendo edital. Coisa perigosíssima para um homem aposentado da ingenuidade. Há documentos públicos que deveriam vir acompanhados de bula, calmante e orientação médica. Sentado diante de uma pilha de PDFs, café requentado ao lado e um ventilador que fazia mais barulho que eficiência, ele percebeu que os editais da Cultura Viva são como certas promoções de supermercado: o cartaz na entrada é enorme, colorido e sedutor… mas a letrinha miúda é quem define o tamanho da dor de cabeça. “No Brasil, o problema nunca foi o título bonito; é o rodapé que costuma cobrar a conta.”

O Edital 36, destinado aos prêmios para Pontos e Coletivos, parecia generoso à primeira vista. Reconhecimento histórico, valorização da cultura de base comunitária, premiação sem prestação de contas complexa… tudo parecia um abraço institucional. Até o Velhinho descobrir a trava principal: quem foi contemplado no Edital 47/2024 do primeiro ciclo não poderá disputar novamente agora. E não para por aí: qualquer grupo premiado pela Cultura Viva nos últimos doze meses também fica impedido de entrar. “O governo resolveu criar fila rotativa no balcão da esperança.”

Mas então o Velhinho percebeu que essa lógica não aparece apenas no Edital 36. Ela atravessa os três editais como uma espinha dorsal silenciosa. Nos Editais 37 e 38, quem foi contemplado nos antigos Editais 48/2024 e 49/2024 — os famosos TCCs do primeiro ciclo — também fica impedido de disputar novamente enquanto os instrumentos estiverem vigentes. Ou seja: o Estado criou uma espécie de “pouso obrigatório” para quem já recebeu recursos anteriormente. A justificativa oficial é evitar concentração de verbas públicas nas mesmas entidades. Na prática, o governo tenta impedir que a Cultura Viva vire clube fechado de vencedores recorrentes. “Até o dinheiro público começou a exigir rodízio de protagonistas.”

Só que foi aí que o Velhinho acendeu o cachimbo filosófico da desconfiança. Porque existe um detalhe quase escondido nas entrelinhas dos Editais 37 e 38: os projetos agora terão duração de 24 meses. Dois anos inteiros de execução. O anúncio dos valores parece grande — R$ 300 mil no Edital 37 e R$ 800 mil no Edital 38 — mas quando se divide isso por dois anos, o cenário muda completamente. “Tem edital que parece boi gordo no outdoor… mas vira frango magro quando chega na cozinha.”

O Velhinho então puxou a calculadora velha de guerra. No Edital 37, os R$ 300 mil distribuídos em 24 meses equivalem, na prática, a R$ 12,5 mil mensais para manter equipe, oficinas, comunicação, metas obrigatórias, registros, formação cultural, ações territoriais e ainda sobreviver à inflação brasileira, que parece atleta olímpica de salto em distância. Já no Edital 38, os R$ 800 mil para Pontões podem até parecer robustos, mas terão de sustentar articulação regional, mobilização de redes, formação continuada, comunicação, bolsas para jovens Agentes Cultura Viva e atuação territorial ampliada por dois anos completos. “Quando o prazo dobra e o dinheiro não acompanha o mesmo ritmo, o edital emagrece escondido.”

E aí o Velhinho percebeu uma engenharia política sofisticada: o governo consegue anunciar cifras milionárias que impressionam manchetes e redes sociais, mas dilui silenciosamente o impacto financeiro ao ampliar o tempo obrigatório de execução. O recurso parece maior… enquanto o poder real de investimento diminui. É como vender um pão maior usando mais fermento e menos farinha. “Na política cultural moderna, às vezes a inflação não está apenas no mercado — está também na propaganda institucional.”

O problema é que cultura comunitária não funciona apenas com boa vontade e poesia. Oficina exige pagamento. Equipe precisa comer. Cinegrafista paga aluguel. Educador cultural tem conta de luz. Mestre popular envelhece. Transporte aumenta. Equipamento quebra. Internet vence. E a cultura periférica, diferente do discurso oficial, não vive de aplauso. “Nenhuma manifestação cultural sobrevive apenas de likes, certificados e fotografia de lançamento.”

Mesmo assim, o Velhinho entende o raciocínio do Estado. Existe, sim, uma tentativa legítima de ampliar a rede, criar novas lideranças e impedir a eternização dos mesmos grupos no acesso aos recursos públicos. O problema é que o Brasil possui o hábito histórico de combater concentração sem corrigir desigualdade estrutural. Então o pequeno continua pequeno… enquanto apenas muda o nome de quem consegue navegar no oceano burocrático. “Trocar os passageiros da primeira classe não significa democratizar o aeroporto.”

Outra coisa intrigou profundamente o Velhinho: os editais exigem cada vez mais profissionalização técnica das entidades culturais populares. Não basta fazer cultura relevante. É preciso dominar planilhas, metas, indicadores, memória de cálculo, cronograma físico-financeiro, plano de aplicação de recursos e estratégias de comunicação institucional. O tocador de tambor agora precisa quase entender mais de gestão administrativa do que de ritmo ancestral. “A burocracia brasileira tem o estranho talento de pedir diploma até para quem carrega memória coletiva.”

E enquanto o Velhinho fechava os editais lentamente, olhando Taubaté adormecida pela janela, ele concluiu que a Cultura Viva vive hoje um paradoxo curioso: nasceu para simplificar o acesso da cultura popular ao Estado… mas corre o risco de se transformar numa sofisticada olimpíada de sobrevivência burocrática.

Antes de apagar a luz, ele resumiu tudo numa frase amarga e bem-humorada ao mesmo tempo: “Quando o edital começa a parecer financiamento de apartamento, talvez a cultura esteja ficando mais próxima do banco do que do povo.”

O Golpe que Silenciou Pontos de Cultura: Os Impactos do Impeachment de Dilma Rousseff sobre o Programa Cultura Viva. Por Zezito de Oliveira

A memória do golpe contra Dilma deve servir não apenas como registro histórico de uma infâmia, mas como alerta permanente

Introdução

O ano de 2016 marcou uma ruptura profunda na história recente do Brasil. O processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, através de um  golpe parlamentar,  jurídico e midiático, não representou apenas uma mudança no comando do Executivo. Seu legado imediato foi um vendaval de desmontes de políticas públicas construídas ao longo de mais de uma década. Entre os setores mais duramente atingidos, a cultura foi uma vítima silenciosa, e o Programa Cultura Viva, carro-chefe da democracia cultural,  que o programa começou a realizar em um nível de abrangência com grande envergadura  no país, viu-se à beira do colapso.

Marcha das Mulheres Pela Democracia e Cultura Contra O Golpe | 02-06-2016 | RJ - MIdia Ninja

O Contexto do Desmonte

Com a posse do presidente interino Michel Temer, o primeiro ato simbólico e prático foi a extinção do Ministério da Cultura (MinC), transformado em uma secretaria subordinada ao Ministério da Educação. A medida gerou uma comoção imediata: artistas, produtores e gestores ocuparam as sedes do MinC em todo o país, forçando um recuo parcial do governo. O ministério foi recriado, mas jamais recuperou sua força. A pasta foi esvaziada por dentro, com a demissão de técnicos concursados, o corte de verba e a paralisação de convênios.

O Golpe Direto no Cultura Viva

Criado em 2004 e transformado em Lei (13.018/2014) pela própria presidenta Dilma, o Cultura Viva era a espinha dorsal do fomento à cultura de base comunitária. Sua estrutura se sustentava nos Pontos e Pontões de Cultura — coletivos localizados em periferias, favelas, territórios indígenas, quilombolas e rurais que, com pequenos repasses federais, mantinham vivos o artesanato, a música, a dança, o audiovisual e a literatura local.

Com o golpe, o programa sofreu três impactos fatais:

Suspensão do Fomento: Os convênios existentes foram paralisados. Sem o repasse dos recursos, milhares de pontos de cultura deixaram de pagar aluguel, comprar material ou remunerar seus oficineiros.

Fim dos Editais: A partir de 2016, o governo federal deixou de lançar novos editais para criação de Pontos de Cultura. A rede, que crescia organicamente desde a década de 2000, foi congelada.

Criminalização da Cultura Comunitária: Sem apoio federal, muitos pontos fecharam as portas ou reduziram drasticamente suas atividades, representando uma perda irreparável para o tecido social brasileiro.

A Resistência e o Legado da Perda

A classe artística não ficou inerte. O período pós-golpe foi marcado por ocupações, "showmícios" (shows musicais em atos políticos) e articulação internacional para denunciar o que se chamou de "estrangulamento da cultura". Movimentos como o "Fora Temer" e "Diretas Já" tiveram no setor cultural uma de suas principais trincheiras.

No entanto, o estrago estava feito. Mesmo que o Cultura Viva seja uma lei federal, sua execução depende da vontade política e do orçamento do Executivo. Sem prioridade, a lei tornou-se letra morta. O legado do golpe para a cultura foi o esvaziamento sistemático de uma geração de lideranças comunitárias que dependiam do programa para sobreviver e transformar suas realidades.

Conclusão

O golpe contra Dilma Rousseff não atingiu apenas uma presidenta; atingiu o sonho de um Brasil onde a cultura é tratada como direito fundamental e não como mercadoria. Ao desmontar o Cultura Viva, o processo de 2016 silenciou as vozes das periferias, interrompeu o fomento às tradições populares e demonstrou a fragilidade das políticas culturais diante de mudanças abruptas no poder. O luto por essa perda ainda está em curso, e a reconstrução dessa teia cultural é um dos maiores desafios da democracia brasileira nos dias de hoje.

Leia também:  

Trabalhamos com Dilma para que corte na Cultura não seja burro” - Sociólogo defende legado "Gil-Juca" e diz que críticas de Marta foram "circunstanciais"


Há dez anos, o golpe contra Dilma abriu a ferida que a extrema direita explorou

https://fpabramo.org.br/dez-anos-golpe-dilma-abriu-a-ferida-que-a-extrema-direita-explorou/


Há dez anos, votação no Senado marcava fim da era Dilma

https://www.dw.com/pt-br/h%C3%A1-dez-anos-vota%C3%A7%C3%A3o-no-senado-marcava-fim-da-era-dilma/a-77122409

A História do Golpe — Ato 1: A derrubada de um governo legítimo


#430 - 10 anos do golpe contra Dilma: qual foi o papel da mídia | BdF Entrevista Renata Mieli


quarta-feira, 18 de julho de 2018

Por onde andam os Pontos de Cultura?




segunda-feira, 2 de junho de 2025

Cultura Digital: O que foi, o que será. Por Célio Turino.















segunda-feira, 11 de maio de 2026

Frei Betto acende o sinal vermelho para a esquerda

 Vinte anos após “A mosca azul”, frade dominicano alerta que esquerda abandonou bases, deixou Paulo Freire na estante e abriu espaço para avanço do conservadorismo religioso, milícias e extrema direita.

Frei Betto fez, em entrevista ao Brasil 247, um dos alertas mais duros à esquerda brasileira neste momento de campanha eleitoral. 

Segundo o escritor, teólogo e frade dominicano, as forças progressistas se afastaram das periferias, abandonaram a educação popular e deixaram de investir na formação política que foi decisiva durante a resistência à ditadura militar e na construção das condições que levaram Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República. 

“Nós fomos abandonando as bases. Não há reprodução, não há formação política, não há equipes de educação popular. Paulo Freire hoje, no máximo, fica nas estantes e não na prática”, afirmou Frei Betto. 

Na mesma entrevista, ele disse que partidos e sindicatos perderam capacidade de mobilização social após o enfraquecimento das estruturas populares. Também apontou um processo de elitização de setores da esquerda ao ocuparem cargos institucionais e espaços de governo. 

Foi nesse contexto que usou uma expressão dura: “esquerda de salto alto”

Para Frei Betto, é a esquerda que chega ao governo e começa a se afastar do povo; que não quer mais ir à periferia, subir favela ou estar ao lado dos movimentos populares. 

A crítica tem peso porque não vem de fora da esquerda. Vem de alguém que dedicou a vida à educação popular, à Teologia da Libertação, à resistência democrática e à formação das bases sociais que ajudaram a tornar Lula possível. 

O diagnóstico é ainda mais grave porque aponta uma consequência concreta: o vazio deixado pela esquerda nas periferias foi ocupado por outras forças. 

“Hoje essas áreas estão dominadas por fundamentalistas, milícias e narcotráfico. Ninguém mais da esquerda faz trabalho político nessas regiões”, afirmou. 

O alerta, portanto, não é apenas moral. É político. E, em 2026, é também eleitoral. 

A advertência que já estava em “A mosca azul 

A entrevista ganha mais força quando lida à luz de “A mosca azul”, livro em que Frei Betto refletiu sobre sua experiência no primeiro governo Lula. 

Entre 2003 e 2004, ele foi assessor especial da Presidência da República e coordenador da Mobilização Social do programa Fome Zero. 

O livro não era apenas relato de bastidores. Era uma reflexão crítica sobre o poder, suas seduções e seus riscos. Frei Betto escrevia como alguém que havia visto, por dentro, a chegada da esquerda ao Palácio do Planalto. 

Vinte anos depois, sua entrevista retoma a mesma advertência em outro momento histórico. 

Em “A mosca azul”, Frei Betto alertava para o risco de a esquerda se encantar com o poder. Agora, aponta uma consequência concreta desse encantamento: o afastamento das bases populares. 

A “mosca azul” do poder não produz apenas vaidade pessoal. Produz deslocamento político. Faz lideranças confundirem governo com povo organizado. Faz partidos confundirem cargos com presença social. Faz militantes confundirem comunicação institucional com educação popular. 

Faz a esquerda acreditar que políticas públicas, por si só, substituem o trabalho paciente de formação, escuta e organização. 

É contra essa ilusão que Frei Betto volta a falar. 

Lula nasceu da base, não do marketing 

Um dos pontos centrais da entrevista é a lembrança de que Lula não chegou à Presidência por obra de marketing eleitoral ou apoio empresarial. 

Para Frei Betto, Lula foi resultado do acúmulo político do movimento popular construído desde a luta contra a ditadura. 

Essa frase reorganiza o debate. 

Lula não foi criação publicitária. Foi construção histórica. 

Nasceu das greves do ABC, das comunidades eclesiais de base, das pastorais, dos sindicatos, dos movimentos de bairro, da resistência democrática, da Teologia da Libertação, da educação popular e dos círculos de formação política. 

Esse é o ponto essencial do alerta. 

Se Lula nasceu de um longo processo de organização popular, o que acontece quando esse processo se enfraquece? 

Se a esquerda venceu porque formou consciência social, o que acontece quando abandona a formação? 

Se o campo progressista construiu sua força nas periferias, nos sindicatos, nas comunidades e nos movimentos, o que acontece quando deixa esses espaços vazios? 

A resposta aparece no próprio diagnóstico de Frei Betto: esses territórios passaram a ser ocupados por outras forças. Forças conservadoras, autoritárias, religiosas fundamentalistas, milicianas, criminosas ou diretamente vinculadas à extrema direita. 

Não foi apenas erro 

O alerta de Frei Betto levanta uma pergunta incômoda: por que a esquerda saiu das periferias, das favelas, dos sindicatos, das escolas públicas, das igrejas, dos movimentos sociais e do contato direto com o povo? 

A resposta não é simples. 

Houve erro da própria esquerda, sim. Houve institucionalização excessiva, deslumbramento com cargos, dependência da política parlamentar, perda de trabalho de base e substituição da educação popular pela comunicação de campanha. 

É disso que Frei Betto fala quando denuncia a “esquerda de salto alto”. 

Mas não houve apenas erro interno. 

Desde o fim dos anos 1960, a América Latina foi alvo de uma ofensiva geopolítica, religiosa e ideológica contra as formas de organização popular que ameaçavam os interesses dos Estados Unidos e das classes dominantes locais. 

Essa ofensiva mirava sindicatos combativos, movimentos populares, experiências de educação política, setores progressistas da Igreja Católica e, especialmente, a Teologia da Libertação. 

Washington entendeu cedo o perigo representado por uma Igreja que deixava de ser apenas sustentáculo da ordem e passava a atuar ao lado dos pobres. Documentos oficiais norte-americanos mostram que, já em 1969, no governo Richard Nixon, a Casa Branca pedia estudos sobre o papel da Igreja Católica na América Latina e sobre as razões pelas quais setores religiosos se aproximavam de posições consideradas radicais. 

A Teologia da Libertação era perigosa para os donos do poder porque ligava fé e justiça social. Ligava Evangelho e pobreza. Ligava comunidade e consciência política. Ligava a missa, a Bíblia, a associação de bairro, a luta por terra, o sindicato, a alfabetização e a organização popular. 

Não por acaso, foi combatida por fora e por dentro. 

Por fora, pelas ditaduras latino-americanas, pelas elites econômicas e pelos aparelhos ideológicos da Guerra Fria, que viam qualquer organização popular como ameaça comunista. 

Por dentro, pela própria hierarquia conservadora da Igreja Católica, sobretudo a partir do papado de João Paulo II e da ação doutrinária do cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI. 

Em 1984, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou a “Instrução sobre certos aspectos da Teologia da Libertação”, documento que reconhecia a preocupação cristã com os pobres, mas condenava o uso de categorias marxistas e advertia contra a transformação da fé em projeto político revolucionário. 

O resultado foi profundo. 

A Igreja popular perdeu força. As comunidades eclesiais de base foram esvaziadas. Padres, freiras, agentes pastorais e leigos comprometidos com a luta social foram isolados, substituídos ou empurrados para a margem. 

A opção preferencial pelos pobres continuou como expressão aceita no discurso, mas perdeu parte de sua potência organizada no território. 

Ao mesmo tempo, a direita religiosa cresceu. 

Esse deslocamento não pode ser explicado por uma única causa. Seria simplista atribuir o avanço conservador nas periferias apenas a uma operação externa. Houve urbanização acelerada, crise da presença católica, abandono pastoral, busca popular por acolhimento, redes de apoio e linguagem direta. 

Mas é impossível ignorar que esse processo foi funcional à estratégia conservadora. 

Onde antes havia comunidade eclesial de base, educação popular e organização política, passaram a existir púlpitos anticomunistas, redes de obediência moral, guerra cultural e mobilização eleitoral da direita. 

O espaço da fé popular, antes disputado por uma leitura libertadora do cristianismo, passou a ser ocupado por fundamentalismos e lideranças alinhadas aos projetos das classes dominantes. 

É nesse ponto que o alerta de Frei Betto encontra sua dimensão histórica. 

Quando ele diz que Paulo Freire ficou na estante, está falando de uma derrota política profunda. Paulo Freire é odiado pela extrema direita porque seu método ensina o povo a ler o mundo, não apenas a ler palavras. 

Sua pedagogia transforma alfabetização em consciência. Transforma experiência de opressão em pergunta política. Transforma o pobre em sujeito, não em objeto de caridade, manipulação ou obediência. 

Vista por esse ângulo, a ausência da esquerda nas periferias não foi apenas abandono. Foi também resultado de uma disputa perdida — ou negligenciada — por território, fé, linguagem, formação e presença. 

Frei Betto não absolve a esquerda. Ao contrário: cobra dela responsabilidade histórica. Mas seu alerta permite compreender que o vazio atual não nasceu do nada. Foi produzido por décadas de ofensiva conservadora, repressão às organizações populares, neutralização da Igreja progressista, demonização de Paulo Freire e ocupação religiosa, política e digital das periferias. 

A eleição começa antes da eleição 

O alerta de Frei Betto é ainda mais importante porque o Brasil entra numa campanha duríssima. 

A disputa de 2026 não será apenas entre candidatos. Será entre dois projetos de país. 

De um lado, o projeto representado por Lula e pelo campo democrático-popular: reconstrução do Estado, defesa da soberania, combate à fome, ampliação de direitos, valorização do trabalho, recuperação de políticas públicas e preservação da democracia. 

De outro, o projeto da extrema direita: autoritarismo, submissão internacional, guerra cultural permanente, destruição de direitos sociais, perseguição política, captura religiosa da política, manipulação digital e tentativa de anistiar o golpismo

Mas Frei Betto parece advertir que essa disputa não se resolve apenas no horário eleitoral, nos palanques, nas pesquisas, nas redes sociais ou nas alianças parlamentares. 

A eleição começa antes da eleição. 

Começa no bairro. Na igreja. No sindicato. Na escola. Na associação de moradores. No grupo de WhatsApp da família. Na conversa com o trabalhador endividado. No diálogo com a juventude precarizada. Na escuta das mães que vivem a insegurança cotidiana. 

É aí que a extrema direita tem atuado com método, disciplina e agressividade. 

E é aí que, segundo Frei Betto, a esquerda se ausentou. 

Voltar ao povo 

A advertência de Frei Betto aponta para uma tarefa concreta: voltar ao povo. 

Voltar às periferias, às favelas, aos sindicatos, às escolas públicas, às igrejas populares, aos movimentos sociais, às associações de bairro, aos jovens trabalhadores, às mulheres que sustentam famílias inteiras, aos aposentados, aos entregadores, aos informais, aos endividados, aos invisíveis. 

Voltar não como visita de campanha. 

Voltar como presença. 

Voltar como escuta. 

Voltar como formação. 

Voltar como educação popular. 

Voltar como reconstrução de laços. 

Esse é o sentido mais profundo do alerta de Frei Betto. Ele não oferece uma frase de efeito. Oferece uma memória histórica e uma advertência política. 

A esquerda que levou Lula ao poder nasceu no chão do Brasil. 

Se quiser sustentar Lula, defender a democracia e enfrentar a extrema direita em 2026, terá de reencontrar esse chão. 

A mosca azul já havia sido identificada por Frei Betto vinte anos atrás. Agora, ele volta para dizer que a picada deixou marcas profundas. 

A pergunta, neste momento decisivo, é se a esquerda terá humildade para ouvir. 

https://revistaforum.com.br/opiniao/frei-betto-sinal-vermelho-esquerda/

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Scholas Occurrentes e Fratelli Tutti: quando a cultura do encontro chega às periferias. Por Zezito de Oliveira

Oficina de audiovisual com celular revela sintonia com legado do Papa Francisco e inspira nova geração de jovens contadores de histórias

papa-francisco-da-pincelada-em-projeto-scholas-ocurrentes-jmj-lisboa-2023-_-foto-Vatican-Media-1. Introdução

Na tarde do último sábado, 9 de maio, aconteceu o lançamento dos curtas produzidos pelos aprendizes da 1ª Oficina de Audiovisual com Celular, "Cinema na Palma da Mão". Foram exibidas as obras Música da Fé, O Peso da Batina e Brasinha – O som que não envelhece. Mais do que filmes, o que vimos foi um encontro: entre gerações, entre vizinhos, entre histórias que talvez nunca tivessem sido contadas – e entre uma experiência comunitária concreta e dois grandes legados deixados pelo Papa Francisco: a encíclica Fratelli Tutti e a Fundação Pontifícia Scholas Occurrentes.

Este artigo busca exatamente explorar essa sintonia. Afinal, o que há em comum entre uma oficina de audiovisual na periferia de Aracaju e documentos escritos no Vaticano? Mais do que se imagina.

2. O que é a Scholas Occurrentes?

A Scholas Occurrentes nasceu na Argentina, ainda quando o cardeal Jorge Mario Bergoglio era arcebispo de Buenos Aires. Inspirada na ideia de "escola de encontros", a proposta era simples e revolucionária ao mesmo tempo: reunir jovens de diferentes origens, religiões e realidades sociais para que aprendessem uns com os outros por meio da arte, da tecnologia, do esporte e do diálogo.

Em 2013, já como Papa Francisco, Bergoglio transformou a Scholas em Fundação Pontifícia – um reconhecimento oficial da Santa Sé. Desde então, a Scholas está presente em mais de 190 países, promovendo uma educação que não se limita à sala de aula, mas que acontece na vida, com a vida e para a vida.

Como o próprio Papa Francisco afirmou: "A Scholas Occurrentes é uma escola que não ensina conteúdos, mas ensina a vida, ensina a se encontrar com o outro."

3. A Scholas no Brasil: presença ainda pouco conhecida

Durante a pesquisa para este artigo, confesso que encontrei poucas informações sistematizadas sobre a atuação da Scholas Occurrentes no Brasil. Seus projetos mais conhecidos ocorreram em países como Argentina, Itália, Estados Unidos e Moçambique. No Brasil, a presença parece mais discreta – o que não significa ausência.

Há registros de ações pontuais em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, muitas vezes em parceria com escolas públicas, universidades e organizações da sociedade civil. No entanto, falta uma articulação mais ampla com a capilaridade das pastorais sociais, das comunidades eclesiais de base e dos pontos de cultura espalhados pelo país.

Essa lacuna de informações foi justamente o que motivou este artigo e o contato com representantes da Scholas no Brasil. Afinal, se a proposta é tão potente, por que ainda não chegou com força às periferias brasileiras? E como podemos mudar isso?

4. Conexões com a CNBB e a Pastoral da Juventude

Outra questão que emerge naturalmente é: como a Scholas se relaciona com as estruturas eclesiais já existentes no Brasil, especialmente a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e a Pastoral da Juventude?

Pelo que foi possível apurar, ainda não há um protocolo formal de parceria institucional. A Scholas atua de maneira mais autônoma, muitas vezes diretamente com escolas e prefeituras. No entanto, os princípios são absolutamente convergentes:

A Pastoral da Juventude sempre trabalhou com a metodologia "ver, julgar, agir" – que dialoga com a proposta Scholas de partir da realidade concreta dos jovens.

A CNBB, por meio de suas campanhas da fraternidade e documentos sobre educação, tem reiterado a necessidade de uma escola que forme para a cidadania, o diálogo e a paz – exatamente o núcleo da Scholas.

Faltam, portanto, pontes. É um convite aberto. Como dizia Dom Hélder Câmara: "É de vento o que voa. É de chão o que fica." A Scholas tem tudo para criar raízes no solo fértil da juventude brasileira – mas para isso precisa de braços abertos e chão batido.

5. Na prática: o que a Scholas pode ensinar às comunidades periféricas

A experiência da oficina "Cinema na Palma da Mão" é um exemplo vivo do que a Scholas Occurrentes propõe. Vejamos:

Princípio Scholas Como apareceu na oficina

Protagonismo juvenil Os jovens escolheram os entrevistados, as temáticas e conduziram todas as etapas de produção acompanhados por dois adultos com experiência profissional (Marcel Magalhães e Zezito de Oliveira).

Cultura do encontro Vizinhos que nunca tinham conversado profundamente se tornaram personagens e expectadores de suas próprias histórias.

Tecnologia a serviço da comunidade O celular, antes visto como distração, tornou-se ferramenta de criação e expressão.

Arte como linguagem de paz Os curtas trouxeram memórias, afetos e reconciliação – não violência ou competição.

Sem muros, sem fronteiras Pessoas de bairros distantes (Aruana, Bairro América) vieram prestigiar a sessão do cineclube.

O que a Scholas pode ensinar às periferias não é um método fechado, mas uma atitude aberta: a de que qualquer escola, igreja, centro cultural, centro comunitário,  podem se tornar um ponto de encontro – desde que esteja disposta a sair de si mesma e ir ao encontro do outro.

6. Conclusão

A encíclica Fratelli Tutti nos chama a reconhecer que somos todos irmãos, independentemente de raça, religião ou condição social. A Scholas Occurrentes nos dá ferramentas concretas para transformar esse reconhecimento em prática educativa.

A oficina "Cinema na Palma da Mão" não foi apenas um curso de audiovisual. Foi um gesto profético: adolescentes e jovens, com celulares nas mãos, disseram ao mundo que suas histórias importam, que seus bairros existem, que seus vizinhos têm alma e que a arte pode sim mudar vidas.

Que outras comunidades se sintam inspiradas por essa experiência. E que a Scholas Occurrentes encontre no Brasil o chão fértil que merece.

7. Referências e contatos

Scholas Occurrentes (site oficial): www.scholasoccurrentes.org

Encíclica Fratelli Tutti (texto completo): www.vatican.va

Ponto de Cultura Ação Cultural Juventude e Cidadania: oscacaocultural@gmail.com

Texto produzido por Zezito de Oliveira, professor de História aposentado e assessor pedagógico do Ponto de Cultura Ação Cultural Juventude e Cidadania com apoio da IA deepseek.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Inscrições abertas para a 2ª turma "Cinema na Palma da Mão" de 11 a 18 de maio como Iniciativa da Ação Cultural realizada na Paróquia São Pedro Pescador (Bairro Industrial).


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sábado, 21 de fevereiro de 2026

segunda-feira, 23 de março de 2026