Por Zezito de Oliveira
Análise compara programa de Valmir de Francisquinho para a cultura com questões apontadas pelo Blog da Cultura
O programa de governo de Valmir de Francisquinho apresenta, em 2026, uma proposta mais ampla e estruturada para a cultura de Sergipe do que a apresentada pelo candidato em 2022, com programas voltados ao patrimônio, interiorização, economia criativa, audiovisual, artesanato, museus e turismo de base comunitária. A pesquisa realizada pelo Blog da Cultura confronta essas propostas com análises e debates publicados pelo blog ao longo dos últimos anos e identifica convergências importantes, mas também lacunas relacionadas à participação social, ao fortalecimento da Cultura Viva e dos Pontos de Cultura, ao financiamento permanente e à democratização da gestão cultural.
Programa Cultural do Candidato Valmir de Francisquinho
O documento dedica um eixo estratégico específico à Cultura, Turismo e Identidade Sergipana, detalhando propostas, programas e ações para o setor cultural. A seguir, apresento um resumo estruturado e exemplos práticos das principais propostas culturais do candidato, conforme o documento.
1. Princípios Gerais da Política Cultural
• A cultura é tratada como política pública essencial, instrumento de cidadania, educação, inclusão social e desenvolvimento econômico.
• O programa valoriza artistas, produtores culturais, mestres da cultura popular, grupos folclóricos, comunidades tradicionais, artesãos e empreendedores da economia criativa.
• Busca-se ampliar oportunidades de produção, circulação e acesso aos bens culturais em todas as regiões do estado.
• A valorização da identidade sergipana é central, promovendo a preservação da memória, do patrimônio histórico e das tradições populares.
2. Principais Programas e Ações Culturais
Eixo 2 - Cultura, Patrimônio e Identidade Sergipana
• Programa Patrimônio Vivo Sergipano: Valoriza mestres da cultura popular, grupos folclóricos, artistas tradicionais e manifestações culturais do patrimônio imaterial do estado.
• Rede Sergipana de Museus e Centros de Memória: Modernização de museus e equipamentos culturais com novas tecnologias, experiências imersivas e ações educativas.
• Programa Revitalizar Sergipe: Recuperação de centros históricos, mercados públicos e espaços culturais, integrando preservação do patrimônio, turismo, gastronomia e economia criativa.
• Programa Cultura em Todo Lugar: Interiorização das políticas culturais, apoiando festivais, feiras literárias, mostras artísticas, apresentações de música, teatro e dança, e circulação de artistas locais.
• Festival Internacional de Cultura e Turismo de Sergipe: Criação de um grande evento anual para promover cultura, gastronomia, música, negócios e turismo, fortalecendo Sergipe no cenário nacional e internacional.
Eixo 3 - Economia Criativa e Empreendedorismo Cultural
• Programa Sergipe Criativo: Incentivo aos setores de música, audiovisual, design, moda, gastronomia, artesanato, produção cultural e inovação artística.
• Programa Artesanato que Gera Renda: Qualificação profissional, acesso ao comércio eletrônico, participação em feiras, incentivo à exportação e certificação de origem dos produtos artesanais.
• Polo Sergipano de Cinema e Audiovisual: Política estadual de incentivo à produção audiovisual, documentários, cinema, animação, festivais e atração de produções nacionais.
• Programa Juventude Criativa: Estímulo a jovens empreendedores em audiovisual, música, games, design, produção digital, startups culturais e empreendedorismo criativo.
• Fundo Estadual de Cultura e Turismo: Ampliação dos mecanismos de financiamento para projetos culturais, patrimônio histórico, festivais, audiovisual, economia criativa e empreendedorismo turístico.
Eixo 4 - Qualificação, Governança e Inovação
• Escola Estadual de Turismo, Gastronomia e Economia Criativa: Centro permanente de formação profissional em hotelaria, gastronomia, guia de turismo, idiomas, gestão cultural, organização de eventos, marketing digital e empreendedorismo.
• Sergipe Digital Turístico: Plataforma estadual integrada com inteligência artificial, mapas interativos, calendário cultural, roteiros personalizados, reservas e promoção digital dos destinos.
• Programa Cidade Turística Inteligente: Modernização dos destinos turísticos com internet pública, sinalização digital, aplicativos turísticos, monitoramento inteligente e integração tecnológica dos serviços.
• Observatório do Turismo e da Economia Criativa: Centro permanente de inteligência para monitoramento de indicadores, planejamento estratégico e avaliação das políticas públicas.
Eixo 5 - Turismo Regional, Sustentabilidade e Inclusão
• Programa Turismo Sustentável do Rio São Francisco: Desenvolvimento integrado do turismo náutico, ecológico, esportivo, cultural e gastronômico nas regiões do Rio São Francisco, com inclusão produtiva e valorização das comunidades tradicionais.
• Programa São João de Sergipe – O Melhor do Nordeste: Transformação do ciclo junino em política permanente de desenvolvimento econômico, fortalecendo artistas, quadrilhas juninas, municípios e circuitos culturais.
• Programa Sergipe Gastronômico: Valorização da gastronomia regional como patrimônio cultural e ativo econômico, promovendo festivais, roteiros gastronômicos e integração com a agricultura familiar.
• Programa Turismo de Base Comunitária: Criação de roteiros turísticos envolvendo comunidades quilombolas, ribeirinhas, indígenas e tradicionais, promovendo inclusão produtiva, preservação ambiental e valorização cultural.
• Programa Capacita Turismo: Parceria com Sebrae, Senac, universidades e prefeituras para capacitação permanente de trabalhadores, empreendedores e comunidades locais em hospitalidade, idiomas, gastronomia, artesanato e gestão de negócios turísticos.
• Programa Turismo para Todos: Políticas de inclusão produtiva para mulheres, jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade nas cadeias produtivas do turismo.
3. Exemplo de Implementação Prática
• Interiorização da Cultura: Apoio a festivais culturais em municípios do interior, promovendo apresentações de grupos folclóricos locais e circulação de artistas regionais.
• Fomento ao Audiovisual: Criação de editais para produção de curtas-metragens sergipanos, com incentivo à participação de jovens e coletivos culturais.
• Valorização do Artesanato: Implantação de feiras regionais e lojas colaborativas para comercialização do artesanato sergipano, com certificação de origem e acesso a plataformas digitais de vendas.
• Capacitação Profissional: Cursos gratuitos de gestão cultural, produção de eventos e marketing digital para jovens e empreendedores culturais, em parceria com instituições de ensino e o Sistema S.
4. Compromisso com a Diversidade e a Identidade Sergipana
O programa cultural do candidato destaca o respeito à diversidade, a valorização das tradições populares, o fortalecimento da economia criativa e a promoção da cultura como vetor de desenvolvimento econômico, inclusão social e orgulho regional.
Resumo: O programa cultural do candidato Valmir de Francisquinho é amplo, estruturado em eixos e programas que abrangem desde a valorização do patrimônio imaterial, incentivo à economia criativa, apoio à produção audiovisual, interiorização das políticas culturais, até a promoção do turismo cultural e gastronômico. O foco é transformar a cultura em instrumento de desenvolvimento, inclusão e identidade para Sergipe.
Em 2022, ao analisar as propostas dos candidatos ao Governo de Sergipe, o Blog da Cultura observou que o então candidato Valmir de Francisquinho apresentava a cultura principalmente em sua relação com o turismo, a economia criativa, o lazer e a economia digital, mas não detalhava suficientemente como essas propostas seriam transformadas em políticas públicas.
Quatro anos depois, o cenário apresentado pelo seu programa de governo é bastante diferente.
O programa de 2026 apresenta um conjunto muito mais amplo e estruturado de propostas para cultura, patrimônio, economia criativa, turismo, formação profissional e inovação. Há programas específicos para patrimônio imaterial, museus, centros históricos, interiorização, audiovisual, artesanato, juventude, financiamento, qualificação e turismo de base comunitária.
Isso representa uma evolução importante no tratamento da cultura dentro de um programa de governo.
Mas a comparação com as questões que o Blog da Cultura vem levantando ao longo dos últimos anos permite fazer uma pergunta fundamental:
estamos diante de um programa de desenvolvimento cultural ou de uma política cultural de Estado?
A diferença não é apenas semântica.
Uma mudança importante em relação a 2022
É preciso reconhecer, inicialmente, que o programa atual de Valmir de Francisquinho é bem mais detalhado que aquele analisado pelo Blog da Cultura em 2022.
Naquele momento, registramos que Valmir colocava a cultura como dependente do turismo e da economia criativa, mas não apresentava um panorama suficientemente claro sobre a aplicação dessas ideias.
Agora aparecem programas com nomes, objetivos e áreas de atuação bastante definidos:
Patrimônio Vivo Sergipano; Rede Sergipana de Museus e Centros de Memória; Revitalizar Sergipe; Cultura em Todo Lugar; Sergipe Criativo; Artesanato que Gera Renda; Polo Sergipano de Cinema e Audiovisual; Juventude Criativa; Fundo Estadual de Cultura e Turismo; Escola Estadual de Turismo, Gastronomia e Economia Criativa; Observatório do Turismo e da Economia Criativa; Turismo de Base Comunitária.
Ou seja, houve uma mudança significativa.
A cultura deixou de aparecer apenas como componente auxiliar do turismo e passou a ocupar espaço próprio dentro de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento.
Isso merece ser reconhecido.
Mas também exige análise crítica.
Patrimônio Vivo: uma proposta que dialoga diretamente com uma reivindicação histórica
O Programa Patrimônio Vivo Sergipano é uma das propostas que mais dialogam com a agenda cultural construída pela sociedade civil.
A valorização dos mestres da cultura popular, grupos folclóricos, artistas tradicionais e manifestações do patrimônio imaterial responde a uma necessidade histórica de reconhecer aqueles que preservam e transmitem conhecimentos culturais.
É especialmente importante porque a política cultural não pode se limitar às instituições formais.
Grande parte do patrimônio cultural sergipano está nas pessoas, nos grupos, nas comunidades e nos territórios.
Nesse aspecto, a proposta também dialoga com a experiência recente de criação da Lei dos Mestres – Patrimônio Vivo da Nossa Cultura durante a gestão Mitidieri, iniciativa que o próprio Blog da Cultura reconheceu como uma mudança importante na institucionalidade cultural de Sergipe.
A questão que fica para Valmir, portanto, é:
como o Programa Patrimônio Vivo Sergipano será articulado com a legislação já existente?
Será criado um novo mecanismo?
Será ampliado o atual?
Haverá bolsas ou remuneração permanente?
Como serão escolhidos os mestres?
Haverá participação dos segmentos culturais nessa escolha?
São perguntas importantes porque reconhecer um mestre é apenas o primeiro passo. É necessário criar condições para que seu conhecimento continue sendo transmitido às novas gerações.
Cultura em Todo Lugar: interiorização para além dos grandes eventos
O programa propõe apoiar festivais, feiras literárias, mostras artísticas, apresentações de música, teatro e dança e a circulação de artistas locais.
É uma proposta positiva.
Mas a experiência do debate cultural sergipano mostra que interiorização não pode significar apenas distribuir eventos pelos municípios.
É preciso descentralizar também:
recursos, formação, equipamentos, oportunidades e poder de decisão.
Existe uma diferença entre levar um festival para o interior e fortalecer a produção cultural do interior.
Um programa efetivamente descentralizado deveria permitir que artistas e grupos de cada território sejam protagonistas da política cultural local.
Por isso, seria importante saber:
qual percentual dos recursos culturais será destinado ao interior?
Haverá critérios territoriais?
Os editais terão cotas ou linhas específicas para municípios fora da Grande Aracaju?
Os municípios participarão da formulação do calendário?
Como serão fortalecidos os agentes culturais locais?
Essas respostas transformarão a ideia de interiorização em uma política efetiva.
A grande ausência: Cultura Viva e Pontos de Cultura
Aqui aparece uma questão particularmente importante para o Blog da Cultura.
O programa fala em cultura em todo lugar, inclusão, comunidades tradicionais, juventude, economia criativa e circulação de artistas.
Mas não aparece, com a mesma clareza, uma política estruturada para a Política Nacional Cultura Viva e a Rede de Pontos e Pontões de Cultura.
Essa ausência merece atenção.
Os Pontos de Cultura representam justamente uma política capaz de descentralizar a cultura e reconhecer iniciativas que já existem nos territórios.
São espaços de cultura comunitária, muitas vezes construídos pela própria sociedade civil, que trabalham com arte, educação popular, memória, juventude, audiovisual, cultura periférica, patrimônio e diversas outras linguagens.
Em 2026, o próprio Blog da Cultura vem acompanhando a retomada e a organização da Teia Sergipe dos Pontos e Pontões de Cultura e a importância dessa política para a cultura de base comunitária.
Portanto, uma pergunta deveria ser dirigida ao candidato:
qual será o lugar da Cultura Viva no seu governo?
E mais:
Valmir pretende fortalecer a Rede Sergipe de Pontos de Cultura com recursos estaduais próprios?
Essa é uma pergunta que não pode ficar escondida atrás da expressão genérica “cultura em todo lugar”.
Museus, centros de memória e patrimônio
A proposta de criação de uma Rede Sergipana de Museus e Centros de Memória é outro ponto relevante.
A modernização dos museus com novas tecnologias, experiências imersivas e ações educativas pode contribuir para aproximar essas instituições da população.
Mas é preciso evitar que modernização seja entendida apenas como digitalização.
Museu também é:
pesquisa, conservação, documentação, educação, memória, acesso público e participação comunitária.
Uma política estadual de museus precisa estabelecer uma rede de cooperação entre instituições, municípios e sociedade civil.
Precisa também enfrentar problemas de acervo, pessoal especializado, conservação e programação.
Nesse sentido, o programa apresenta uma boa direção, mas precisa transformar a ideia de rede em uma política institucional permanente.
Revitalizar Sergipe: patrimônio não pode ser reduzido ao turismo
O Programa Revitalizar Sergipe pretende recuperar centros históricos, mercados públicos e espaços culturais, articulando patrimônio, turismo, gastronomia e economia criativa.
A proposta tem potencial.
Mas há um risco conhecido nas políticas de patrimônio:
transformar a preservação em cenografia turística.
Um centro histórico não é apenas uma paisagem bonita para o visitante.
É um território onde pessoas moram, trabalham, produzem cultura e constroem suas relações sociais.
Da mesma forma, mercados públicos não são apenas atrações turísticas.
São espaços econômicos, culturais e sociais.
Por isso, qualquer programa de revitalização precisa envolver os moradores, comerciantes, artistas, artesãos, trabalhadores e comunidades desses territórios.
Revitalizar não pode significar simplesmente reformar.
É preciso preservar a vida cultural dos lugares.
Sergipe Criativo: uma proposta promissora, mas que precisa de política cultural por trás
O programa dedica atenção significativa à economia criativa.
Música, audiovisual, design, moda, gastronomia, artesanato, produção cultural e inovação artística aparecem como setores estratégicos.
É uma visão contemporânea e necessária.
Mas existe uma questão conceitual que precisa ser preservada:
cultura não é apenas economia criativa.
A cultura possui dimensão simbólica, cidadã, educativa, comunitária e identitária que não pode ser medida apenas pelo faturamento ou pela quantidade de empregos gerados.
A economia criativa deve ser uma dimensão da política cultural.
Não pode substituir a política cultural.
Esse cuidado é especialmente importante porque o próprio programa aproxima cultura, turismo, empreendedorismo e inovação.
São relações importantes, mas que precisam preservar a autonomia e a diversidade da produção cultural.
Audiovisual: uma das melhores oportunidades para Sergipe
A criação de um Polo Sergipano de Cinema e Audiovisual é uma proposta particularmente interessante.
Sergipe possui artistas, técnicos, cineclubes, produtores, coletivos e experiências de produção audiovisual que poderiam ser muito mais fortalecidos.
Uma política estadual para o audiovisual poderia articular:
formação;
produção;
distribuição;
circulação;
festivais;
cineclubes;
preservação de acervos;
ocupação dos equipamentos públicos;
atração de produções externas;
coproduções regionais.
Mas existe uma condição:
o investimento precisa alcançar os realizadores sergipanos.
Não seria suficiente transformar Sergipe em cenário para produções de fora.
O Estado precisa produzir também seus próprios realizadores, técnicos, roteiristas, produtores e empresas.
A experiência de estados nordestinos que desenvolveram políticas continuadas de audiovisual demonstra a importância de financiamento público articulado com formação e infraestrutura.
Nesse ponto, o programa apresenta uma oportunidade que poderia ser estratégica para Sergipe.
Juventude Criativa: talvez seja necessário ir além do empreendedorismo
A proposta voltada aos jovens inclui audiovisual, música, games, design, produção digital, startups culturais e empreendedorismo criativo.
É contemporânea e dialoga com novas formas de produção cultural.
Mas é importante não transformar todo jovem artista em empreendedor por obrigação.
Nem todo jovem que produz cultura deseja abrir uma empresa.
Há jovens interessados em criação, experimentação, coletividade, cultura periférica, hip-hop, audiovisual comunitário, teatro, dança, literatura, cultura digital e outras formas de expressão.
Uma política de juventude cultural precisa contemplar tanto o empreendedorismo quanto o direito à criação e à participação cultural.
Artesanato: da valorização simbólica à geração de renda
O programa “Artesanato que Gera Renda” combina qualificação, comércio eletrônico, feiras, exportação e certificação de origem.
Aqui existe uma combinação interessante entre valorização cultural e desenvolvimento econômico.
O artesanato pode ser patrimônio, identidade e atividade econômica simultaneamente.
Mas a política precisa proteger os artesãos da simples transformação de suas criações em produtos turísticos padronizados.
A certificação de origem pode ser um instrumento importante para valorizar territórios e saberes.
A comercialização digital também pode ampliar mercados.
Mas a política deve garantir que o artesão seja o principal beneficiário da cadeia econômica.
Fundo Estadual de Cultura e Turismo: aqui está uma questão decisiva
Talvez uma das propostas mais importantes seja a criação ou ampliação do Fundo Estadual de Cultura e Turismo.
Porque qualquer programa cultural precisa responder à pergunta:
de onde virá o dinheiro?
O Blog da Cultura já levantou essa questão em relação à política cultural de Sergipe e chamou atenção para a necessidade de uma visão de longo prazo, com orçamento e governança sistêmica.
Não basta depender de recursos federais extraordinários.
A Política Nacional Aldir Blanc é fundamental e representa uma fonte importante de recursos continuados, mas o Estado precisa construir sua própria capacidade de financiamento.
Por isso, o Fundo Estadual precisa ter:
recursos definidos em lei;
fontes permanentes;
critérios públicos;
transparência;
participação social;
calendário de editais;
mecanismos de acompanhamento;
distribuição territorial dos recursos.
Sem isso, o fundo pode ser apenas uma estrutura administrativa.
Com isso, poderá se transformar em instrumento de política cultural de Estado.
Governança: o ponto em que o programa precisa avançar
É aqui que a comparação com a agenda do Blog da Cultura se torna mais crítica.
O programa apresenta um Observatório do Turismo e da Economia Criativa, propõe inteligência de dados, planejamento e avaliação.
Isso é positivo.
Mas onde está o mecanismo equivalente de governança democrática da cultura?
Quem participa das decisões?
Qual será o papel do Conselho Estadual de Cultura?
Como será escolhida a representação da sociedade civil?
Haverá eleições por segmentos culturais?
Haverá representação territorial?
Como os Pontos de Cultura participarão?
Como serão realizadas as conferências?
O Blog da Cultura recentemente voltou a esse assunto ao questionar a atual estrutura do Conselho Estadual de Cultura e perguntar aos dois candidatos à reeleição se pretendem revisar a Lei nº 8.775/2020 para democratizar a escolha dos representantes da sociedade civil.
Essa é uma questão diretamente relacionada ao programa de Valmir.
Um governo pode criar muitos programas.
Mas quem participa da definição desses programas?
Essa pergunta é tão importante quanto saber quais programas serão criados.
Observatório: dados para quê?
A criação de um Observatório do Turismo e da Economia Criativa pode ser uma boa iniciativa.
Mas o conceito deveria ser ampliado.
Sergipe necessita de inteligência não apenas para o turismo, mas também para a cultura.
Precisamos saber:
quanto o Estado investe em cultura;
onde os recursos são aplicados;
quais municípios recebem recursos;
quais segmentos culturais são contemplados;
quantos trabalhadores culturais existem;
qual a participação econômica do setor;
quais equipamentos funcionam;
quais políticas apresentam resultados;
quais territórios permanecem desassistidos.
Sem dados, a política cultural fica refém de impressões.
Com dados, pode ser planejada e avaliada.
Mas os dados também precisam ser públicos.
São João: política cultural ou política de eventos?
O programa propõe transformar o São João de Sergipe em política permanente de desenvolvimento econômico, fortalecendo artistas, quadrilhas, municípios e circuitos culturais.
A proposta é interessante porque ultrapassa a lógica de um evento isolado.
Mas será preciso definir o que significa “política permanente”.
Se for apenas garantir grandes festas todos os anos, continuaremos dentro da lógica de eventos.
Se significar apoiar durante todo o ano:
quadrilhas, grupos folclóricos, músicos, compositores, artesãos, costureiras, cenógrafos, técnicos, produtores, espaços culturais e municípios, então teremos uma política cultural efetivamente estruturante.
A diferença está justamente aí.
Turismo de base comunitária: uma boa conexão com cultura e território
A proposta de turismo de base comunitária envolvendo comunidades quilombolas, ribeirinhas, indígenas e tradicionais é potencialmente muito relevante.
Ela aproxima turismo, cultura, território, sustentabilidade e inclusão produtiva.
Mas exige cuidado.
Comunidades tradicionais não podem ser transformadas em simples “produtos turísticos”.
A participação dessas comunidades precisa ser efetiva e respeitar seus direitos, conhecimentos, formas de organização e autonomia.
O turismo deve beneficiar as comunidades e contribuir para a preservação de seus modos de vida.
Não pode produzir uma nova forma de exploração cultural.
A grande diferença em relação ao programa de 2022
Se em 2022 o Blog da Cultura apontava que Valmir tratava a cultura de maneira dependente do turismo e da economia criativa, o programa de 2026 apresenta uma estrutura muito mais robusta.
Agora existem programas específicos para patrimônio, museus, cultura popular, interiorização, audiovisual, artesanato, juventude, financiamento e formação.
Isso precisa ser reconhecido.
Mas a pergunta mudou.
Em 2022, perguntávamos:
“O que Valmir pretende fazer com a cultura?”
Agora podemos perguntar:
“Como Valmir pretende transformar esse conjunto de propostas em uma política cultural de Estado?”
Essa é uma pergunta mais exigente.
Uma comparação necessária
Se colocarmos as propostas atuais ao lado da agenda que o Blog da Cultura vem construindo, podemos fazer uma síntese:
Dimensão Programa Valmir Agenda do Blog da Cultura Avaliação
Patrimônio cultural Forte Forte 🟢 Grande convergência
Mestres da cultura Forte Forte 🟢 Grande convergência
Museus e memória Forte Forte 🟢 Grande convergência
Interiorização Forte Forte 🟢 Grande convergência
Audiovisual Forte Forte 🟢 Grande convergência
Artesanato Forte Presente 🟢 Boa convergência
Economia criativa Muito forte Presente, com ressalvas 🟡 Convergência parcial
Turismo cultural Muito forte Presente 🟢 Grande convergência
Turismo de base comunitária Forte Dialoga com cultura de base comunitária 🟢 Boa convergência
Grandes eventos Forte Reconhece importância, mas questiona centralidade 🟡 Convergência parcial
Pontos de Cultura/Cultura Viva Pouco explícito Estratégico 🔴 Lacuna
Conselho Estadual de Cultura Pouco detalhado Questão central 🔴 Lacuna
Participação social Genérica Fundamental 🔴 Lacuna
Fundo permanente Prometido Reivindicado 🟡 Precisa detalhamento
Transparência Pouco detalhada Fundamental 🔴 Lacuna
Planejamento cultural Presente indiretamente Fundamental 🟡 Precisa aprofundamento
Avaliação de políticas culturais Observatório no turismo/economia criativa Necessária 🟡 Parcial
Democracia cultural Não detalhada Central 🔴 Lacuna
O programa cresceu. A política cultural precisa crescer junto.
A análise do programa de Valmir permite chegar a uma conclusão diferente daquela de 2022.
Não seria correto dizer que a cultura continua sendo tratada apenas como apêndice do turismo.
O programa atual é muito mais sofisticado.
Há uma visão de cultura associada ao patrimônio, à economia criativa, à formação, ao audiovisual, à juventude, ao artesanato, à inclusão produtiva e ao turismo de base comunitária.
Há, portanto, matéria-prima para uma política cultural consistente.
Mas ainda falta explicitar uma dimensão fundamental:
a democracia cultural.
Não basta o governo dizer que valoriza os artistas.
É preciso criar mecanismos para que eles participem das decisões.
Não basta criar um fundo.
É preciso definir suas fontes, critérios e mecanismos de controle.
Não basta interiorizar eventos.
É preciso descentralizar recursos e poder.
Não basta modernizar museus.
É preciso garantir gestão, acervo, pesquisa, educação e acesso.
Não basta criar um polo audiovisual.
É preciso garantir que os realizadores sergipanos tenham condições de produzir.
Não basta falar em Cultura Viva.
É preciso fortalecer os Pontos e Pontões de Cultura.
A pergunta que Valmir precisa responder
O programa de governo apresenta muitas respostas.
Mas as perguntas mais importantes continuam sendo aquelas relacionadas à institucionalidade.
Valmir pretende democratizar o Conselho Estadual de Cultura?
Pretende revisar a Lei nº 8.775/2020?
Defenderá eleições diretas para os representantes da sociedade civil por segmentos e territórios?
Qual será o orçamento próprio da cultura?
Como funcionará o Fundo Estadual de Cultura e Turismo?
Qual será o lugar da Política Nacional Cultura Viva?
Haverá recursos estaduais permanentes para os Pontos de Cultura?
Como será garantida a participação dos municípios e dos agentes culturais na formulação das políticas?
Qual será a política de longo prazo para o audiovisual sergipano?
Como os investimentos serão distribuídos territorialmente?
Essas perguntas não diminuem o programa.
Ao contrário.
Ajudam a transformá-lo em uma proposta mais concreta.
Cultura como direito, patrimônio e futuro
O maior mérito do programa de Valmir de Francisquinho é apresentar uma visão mais ampla da cultura do que aquela identificada pelo Blog da Cultura em 2022.
Agora é possível encontrar uma estratégia que articula patrimônio, produção cultural, economia criativa, turismo, formação e desenvolvimento territorial.
Mas uma política cultural verdadeiramente democrática precisa dar um passo além.
Precisa reconhecer que cultura não é somente um setor econômico.
É direito.
É memória.
É identidade.
É educação.
É criação.
É participação.
É convivência.
É território.
É cidadania.
E, justamente por isso, não pode ser construída somente dentro dos gabinetes.
O próximo governo terá diante de si uma oportunidade importante: transformar boas ideias em instituições permanentes, recursos previsíveis, participação social e políticas capazes de sobreviver às mudanças de governo.
O programa de Valmir avançou muito no “o quê”.
Agora é preciso avançar no “como”, “com quanto”, “para quem”, “com quem” e “quem decide”.
É nessa passagem — da proposta para a política de Estado — que será possível medir a verdadeira dimensão do compromisso com a cultura de Sergipe.
E essa deve ser uma cobrança não apenas ao candidato Valmir de Francisquinho, mas a todos os que pretendem governar Sergipe.
Porque, no final das contas, uma política cultural democrática não se faz apenas para o povo. Faz-se também com o povo e, especialmente, com aqueles que produzem cultura todos os dias nos territórios sergipanos.
Para a análise comparativa que fiz do programa de Valmir de Francisquinho, utilizei principalmente estes textos do Blog da Cultura. Alguns serviram para comparar as propostas originais de 2022; outros, para confrontar as promessas com questões que surgiram durante a gestão.
1. Programa de Governo de Valmir de Francisquinho — fonte primária das propostas de 2026.
2. Artigo do Blog da Cultura sobre os programas dos candidatos de 2022 — comparação histórica direta.
3. Artigo sobre os Conselhos de Cultura e a participação social — 2026 — governança e democracia cultural.
4. Artigo de Célio Turino sobre Cultura Viva — referência conceitual para Pontos de Cultura e cultura comunitária.
5. 4ª Mostra Arte e Cidadania — cultura de base comunitária — referência sobre cultura comunitária e continuidade das políticas.