Em um momento em que a Igreja Católica procura aprofundar o diálogo com os grandes desafios culturais do século XXI, poucas figuras possuem tanta relevância quanto o cardeal português José Tolentino de Mendonça. Poeta, ensaísta, teólogo e prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano, Tolentino tornou-se uma das principais vozes da Igreja contemporânea na defesa da cultura, da literatura e das artes como espaços privilegiados de encontro entre a experiência humana e a experiência religiosa.
Sua presença na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada entre os dias 22 e 26 de julho de 2026, representa mais do que a participação de um cardeal em um dos maiores festivais literários da América Latina. Ela simboliza uma mudança de paradigma na forma como a Igreja compreende sua relação com a cultura contemporânea.
Uma voz singular da Igreja portuguesa
Antes de assumir responsabilidades no Vaticano, José Tolentino de Mendonça já era reconhecido como um dos intelectuais mais influentes da Igreja Católica em Portugal. Sua trajetória sempre transitou entre a teologia, a poesia, a crítica literária e o ensino universitário.
Ao contrário de uma tradição eclesial marcada, muitas vezes, por um discurso predominantemente apologético, Tolentino propõe uma Igreja capaz de escutar a cultura antes de falar a ela. Em seus livros e conferências, dialoga com escritores como Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Maria Gabriela Llansol e Rainer Maria Rilke, demonstrando que a literatura não é apenas objeto de apreciação estética, mas também um espaço onde as grandes perguntas da existência continuam sendo formuladas.
Para o cardeal português, a arte não serve apenas para ilustrar a fé. Ela possui autonomia, densidade própria e capacidade de revelar aspectos profundos da condição humana. Essa compreensão aproxima a Igreja dos artistas, escritores e intelectuais, abrindo possibilidades de diálogo que ultrapassam as fronteiras confessionais.
A cultura no centro da missão da Igreja
Desde que assumiu o Dicastério para a Cultura e a Educação, Tolentino tem contribuído para consolidar uma das intuições centrais do pontificado do Papa Francisco: a evangelização passa necessariamente pelo encontro com a cultura.
Essa perspectiva encontra inspiração direta no Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que convida a Igreja a compartilhar "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias" da humanidade.
Na prática, isso significa reconhecer que a literatura, o cinema, a música, as artes visuais, a filosofia, a universidade, as ciências humanas e até mesmo os desafios da cultura digital constituem espaços onde a Igreja pode aprender, dialogar e discernir.
Mais do que utilizar a cultura como instrumento pastoral, Tolentino propõe que ela seja reconhecida como um verdadeiro lugar teológico, isto é, um espaço onde Deus continua a falar através da história, da beleza, da criatividade e das inquietações humanas.
Os dilemas do homem contemporâneo
Talvez uma das razões para o reconhecimento internacional de José Tolentino de Mendonça esteja em sua capacidade de abordar as questões contemporâneas sem reduzi-las a debates exclusivamente morais.
Em seus livros, homilias e ensaios aparecem temas como:
a solidão;
a aceleração do tempo;
a crise da atenção;
o excesso de informação;
o silêncio;
a contemplação;
a vulnerabilidade humana;
a hospitalidade;
a busca de sentido;
a beleza como caminho espiritual.
Sua escrita combina densidade teológica e linguagem poética, tornando-se acessível tanto ao público religioso quanto aos leitores interessados em filosofia, literatura e espiritualidade.
A Flip 2026 e um encontro histórico
A presença de José Tolentino de Mendonça na 24ª Flip, realizada em Paraty entre 22 e 26 de julho de 2026, confirma essa vocação de diálogo.
Sua participação acontece na quinta-feira, 23 de julho, às 10 horas, na mesa "Saber de cor o silêncio", ao lado do escritor e poeta brasileiro Edimilson de Almeida Pereira, com mediação da jornalista Sofia Mariutti.
A escolha do tema não poderia ser mais coerente com sua obra. O encontro propõe uma reflexão sobre poesia, linguagem, silêncio e identidade, reunindo dois autores cuja produção literária se caracteriza pela atenção à memória, à experiência humana e à força transformadora da palavra.
O significado desse convite ultrapassa o ambiente literário. É raro que um cardeal em exercício na Cúria Romana participe da programação principal de um festival internacional de literatura. Sua presença evidencia o reconhecimento de que José Tolentino de Mendonça ocupa hoje um lugar relevante não apenas na Igreja Católica, mas também no pensamento cultural contemporâneo.
O que essa visita pode significar para a Igreja no Brasil?
Embora a participação de Tolentino na Flip não tenha caráter institucional junto à Igreja brasileira, sua presença pode exercer influência significativa sobre o debate pastoral e cultural.
Historicamente, a Igreja no Brasil desenvolveu uma sólida tradição de reflexão sobre justiça social, pobreza, direitos humanos, democracia e cuidado com a criação. Essas prioridades permanecem fundamentais.
Entretanto, a contribuição de Tolentino sugere uma ampliação desse horizonte. Cultura, arte e literatura deixam de ser compreendidas como temas periféricos para se tornarem dimensões essenciais da própria evangelização.
Essa perspectiva pode estimular dioceses, universidades católicas, centros culturais e instituições de formação a estabelecer um diálogo mais intenso com escritores, artistas, cineastas, músicos e pesquisadores.
A Campanha da Fraternidade e uma nova sensibilidade cultural
É importante destacar que a escolha dos temas da Campanha da Fraternidade pertence à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), resultado de um processo colegiado de discernimento pastoral.
Não seria correto afirmar que a visita de José Tolentino de Mendonça levará diretamente à escolha de um tema voltado à arte ou à cultura.
Contudo, sua reflexão pode fortalecer uma percepção cada vez mais presente na Igreja: a de que muitos dos desafios sociais possuem também uma dimensão cultural.
Nesse sentido, futuras campanhas poderiam incorporar temas relacionados à cultura do encontro, à educação para a sensibilidade, à formação estética, ao patrimônio cultural, à cultura digital, à leitura, à preservação da memória e ao papel das artes na construção da dignidade humana.
Mais do que uma campanha "sobre arte", seria uma compreensão da cultura como dimensão transversal da vida cristã e da missão da Igreja.
Uma Igreja que aprende a escutar
Talvez a maior contribuição de José Tolentino de Mendonça seja deslocar uma pergunta tradicional.
Durante muito tempo, a preocupação predominante foi saber como a Igreja poderia utilizar a cultura para transmitir sua mensagem.
Tolentino propõe outra questão: como a Igreja pode escutar aquilo que a cultura contemporânea tem a dizer sobre o ser humano, suas esperanças, suas angústias e sua busca por sentido?
Essa inversão de perspectiva representa uma das mudanças mais profundas do pensamento católico contemporâneo. Ela não relativiza a fé, mas amplia sua capacidade de diálogo.
Num mundo marcado por polarizações, crises de sentido e profundas transformações culturais, a presença de José Tolentino de Mendonça na Flip 2026 sinaliza que literatura, poesia, arte e espiritualidade continuam sendo caminhos privilegiados para compreender a condição humana. E talvez seja justamente nesse encontro entre beleza, cultura e transcendência que a Igreja encontre novas formas de anunciar o Evangelho às gerações do século XXI.
O poeta, ensaísta, sacerdote e professor José Tolentino Mendonça é um dos autores convidados do Programa Principal da 24ª edição da Flip. Participando da mesa 2 – saber de cor o silêncio, ele estará junto do brasileiro Edimilson de Almeida Pereira em uma conversa mediada por Sofia Mariutti, na quinta-feira, 23 de julho, às 10h.
Natural da Ilha da Madeira, José Tolentino tornou-se padre e poeta no mesmo ano, e dedicou-se com o mesmo afinco às duas atividades ao longo de sua carreira, recebendo inúmeras premiações por sua obra e tendo sido nomeado cardeal pelo Papa Francisco em 2019. Sua poesia se volta, com delicadeza e profundidade, para os mistérios e enigmas da experiência humana, e foi publicada em mais de uma dezena de livros.
Alguns de seus livros lançados no Brasil, todos pela editora Paulinas, são “Nenhum caminho será longo” (2013), “A mística do instante” (2016) e “Elogio da sede” (2025). Seu título mais recente, “Os enigmas singulares”, foi publicado em junho de 2026 pela editora Círculo de Poemas.
A vinda do autor tem o apoio de Camões — Instituto da Cooperação e da Língua (@camoesip) e da Embaixada de Portugal no Brasil (@embaixadadeportugalembrasilia).
A Flip acontece entre os dias 22 e 26 de julho e homenageia a poeta Orides Fontela. A programação completa já foi revelada e pode ser conferida no site oficial da Flip.
Os ingressos antecipados para paratienses estão à venda até esta quinta-feira, 25 de junho. Na sexta-feira, 26, a venda de ingressos estará aberta para o público em geral.
Acesse flip.org.br para mais informações.
Flip: o encontro da literatura com a cidade.
24ª Flip – Festa Literária Internacional de Paraty
22 a 26 de julho
A Flip é um projeto realizado pelo Ministério da Cultura e Governo Federal e pela Associação Casa Azul, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Conta com patrocínio Guapuruvu do Itaú Unibanco, da Motiva, por meio de seu Instituto, da Netflix, e patrocínio Araribá da Tókio Marine Seguradora.



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