quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O que os músicos têm a dizer sobre o sistema revelado pelo Farras? E quem consegue viver de música quando milhões ficam concentrados nas mãos de poucos?

 Como a concentração de cachês para poucas bandas afeta quem vive da música? O que acontece com artistas que ficam de fora desse circuito milionário financiado com dinheiro público?

🎤 Talita Mel é cantora há mais de 20 anos e uma das personagens do Farras. Ela é a Talita Mel original e hoje enfrenta uma batalha judicial pelo direito de usar a própria marca, depois que outra cantora passou a se apresentar com o mesmo nome artístico, ligada a uma grande produtora do mercado musical.

Na live, Talita vai contar essa história e falar sobre o que ela revela a respeito das desigualdades e disputas existentes no mercado da música.

🎼 Gilberto Mauro é compositor e representante do Sindicato dos Músicos de Minas Gerais. Ao De Olho nos Ruralistas, ele definiu os efeitos da concentração de cachês sobre a classe artística como “uma bomba em todo um ecossistema”.

**O que os músicos têm a dizer sobre o sistema revelado pelo Farras? E quem consegue viver de música quando milhões ficam concentrados nas mãos de poucos?



ABAIXO VÍDEO DA TALITA MEL,A ORIGINAL.






Esqueceu como votaram os deputados e senadores sergipanos nessa legislatura? A Mangue relembra.

 

Deputados federais de Sergipe votaram em projeto que favorece armas de fogo. Apenas João Daniel (PT) foi a favor de maior taxação para armas e munições

(Publicado em 12 de julho de 2024)

A Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei Complementar (PL 68/2024) que regulamenta a reforma tributária. Entre as várias emendas, a federação dos partidos Psol e Rede Sustentabilidade apresentou uma que estabelecia o aumento no valor dos impostos para armas de fogo e munições. Entretanto, a emenda foi rejeitada por 316 contra 155 votos. A bancada federal de Sergipe na Câmara votou mais uma vez unida. Dos oito deputados, apenas *João Daniel (PT) foi a favor da maior taxação das armas de fogo.* Os sete outros se manifestaram contra um imposto maior para a comercialização de material bélico.

Votaram em favor das armas de fogo e munições:

- Delegada Katarina (PSD)

- Rodrigo Valadares (União),

- Nitinho (PSD),

- Gustinho Ribeiro (Republicanos),

- Fábio Henrique (União),

- Capitão Samuel (PP)

- Bosco Costa (PL).

Nossa campanha de financiamento coletivo para ajudar a custear essa cobertura eleitoral já está disponível. Apoie em apoia.se/coberturamanguejornalismo


Sete deputados federais por Sergipe votaram para não punir o uso de fake news contra o sistema eleitoral. Apenas João Daniel (PT) votou contra

(Publicado em 30 de maio de 2024)

Sete dos oito deputados votaram para manter o veto do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a um trecho da Lei de Segurança Nacional (14.197/21) que considerava crime a divulgação de desinformação (fake news) contra o sistema eleitoral. Votaram para não punir o uso de fake news contra o sistema eleitoral:

- Delegada Katarina (PSD),

- Gustinho Ribeiro (Republicanos),

- Ícaro de Valmir (PL),

- Nitinho (PSD),

- Rodrigo Valadares (União Brasil),

- Thiago de Joaldo (PP)

- Yandra Moura (União Brasil).

*João Daniel (PT) votou contra o uso das fake news.*

Nossa campanha de financiamento coletivo para ajudar a custear essa cobertura eleitoral já está disponível. Apoie em apoia.se/coberturamanguejornalismo



Deputados federais de Sergipe votaram em peso em projeto que protege políticos. Proposta fragiliza combate à lavagem de dinheiro e o uso de laranjas
_(Publicado em 21 de junho de 2023)_


A bancada federal de Sergipe na Câmara dos Deputados votou em peso no Projeto de Lei n º 2720/2023, que torna crime a chamada “discriminação contra pessoas politicamente expostas”, que geralmente são políticos réus em processo judicial ou até mesmo condenados. Em resumo, o projeto apresentado pela deputada Danielle Cunha (União-RJ), filha do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, blinda políticos e seus familiares de investigações. Sete dos oito deputados sergipanos disseram “sim” nesse projeto:
- Yandra Moura (União)
- Delegada Katarina (PSD)
- Fábio Reis (PSD),
- Gustinho Ribeiro (Republicanos),
- Ícaro de Valmir (PL),
- Rodrigo Valadares (União)
- Thiago de Joaldo (PP).

João Daniel (PT) não participou da votação porque estava em missão oficial à China.

Nossa campanha de financiamento coletivo para ajudar a custear essa cobertura eleitoral já está disponível. Apoie em apoia.se/coberturamanguejornalismo

domingo, 16 de agosto de 2026

Eleições 2026: Saiba quais as propostas dos presidenciáveis para a Cultura

Lei Rouanet “sem ideologia” e críticas ao Iphan foram algumas das ideias mais presentes

Foto: Antonio Augusto/TSE

Por 

Anna Ortega - Publicado por Nonada

17 de agosto de 2026

Quase todos os candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026 trazem propostas para a cultura nos planos de governo registrados junto às candidaturas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O prazo para registro das candidaturas terminou neste sábado (15) e os pedidos  ainda serão analisados pelo TSE. 

O Nonada pesquisou as propostas de 9 entre os 13 candidatos à presidência da República, utilizando como critério selecionar os candidatos e candidatas que pontuaram nas últimas pesquisas eleitorais. Os planos de governo apresentam visões distintas sobre a cultura, tanto em nível de políticas culturais apresentadas, quanto do papel da cultura na sociedade, com ideias mais subjetivas e pouco concretas para área. 

Entre as ideias mais recorrentes, estão a revisão da Lei Rouanet e de mecanismos como a Política Nacional Aldir Blanc, taxados por alguns candidatos como “ideológicos”, além de críticas aos critérios de tombamento de prédios históricos estabelecidos pelo Iphan. A cultura integrada à educação e a distribuição de investimentos mais regionalizada para os trabalhadores da área também foi um ponto em comum entre vários candidatos, além da defesa da cultura e da economia criativa como ativo econômico estratégico do Brasil. 

Confira as principais propostas:

Escritor Augusto Cury (AVANTE)

O candidato cita a cultura de forma ampla, defende uma “cultura da paz” e  uma “cultura de projetos”. Também diz que a “cultura será tratada como ativo estratégico do país” e que a economia criativa será impulsionada como setor estratégico, que o patrimônio histórico será protegido e restaurado.

Flávio Bolsonaro (PL)

O documento de Flávio Bolsonaro traz uma seção intitulada “Cultura que valoriza nossas raízes” e defende “menos concentração, mais Brasil na cultura”. O candidato destaca a formação multicultural do país e destaca a preservação do “patrimônio histórico, dos centros históricos às obras e acervos que contam quem somos, hoje deteriorados por falta de cuidado”.

O presidenciável menciona as leis de incentivo e fala em um aperfeiçoamento, “corrigindo distorções e favorecendo o desenvolvimento de outros polos regionais”. O documento defende que as alterações permitirão contemplar “artistas de grande mérito artístico, porém de pouca projeção, hoje esquecidos pelo modelo atual”. O plano menciona levar arte para o país, “sem subordiná-la a agendas políticas, nos norteando pela transparência, pela liberdade de expressão e pela distinção entre cultura e entretenimento comercial.”

Hertz Dias (PSTU)

Já o documento do candidato do PSTU menciona a necessidade de proteção das culturas periféricas e negras no Brasil. Ele destaca que “funk e batalhas de rima não são casos de polícia” e defende a “Implementação efetiva da Lei 11.645/2008, com ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena em toda rede de ensino.”

Luís Inácio Lula da Silva (PT)

O plano de Lula inicia com uma recapitulação da atuação de sua gestão na pasta. O documento  relembra o que “o desmonte institucional culminou na extinção do próprio Ministério da Cultura (MinC), rebaixado a órgão subalterno e alvo de ataques ideológicos sistemáticos”. O documento destaca a recriação do MinC como um dos marcos da gestão atual e defende a necessidade de uma pasta específica para a área e também cita a cultura como presente de forma transversal em sua gestão. 

Para um futuro mandato, o plano defende incentivar “cultura e esporte como vetores para a transformação social” e foca na “continuidade” de ações como o Sistema Nacional de Cultura (SNC), o fortalecimento de instâncias de participação social, como o Conselho Nacional de Política Cultural, e demais políticas culturais implementadas no atual governo. 

O documento foca na necessidade de fomento da classe artística e cultural e diz que “quem cria não pode ser o único a não ganhar”. Ele retoma as medidas promovidas nos últimos três anos e afirma uma continuidade nas políticas implementadas, como a Lei Aldir Blanc e a Lei Rouanet, destacando a necessidade de aperfeiçoamento. 

O Plano de Lula menciona a necessidade de uma maior integração da Cultura com a educação, por meio de políticas, como a Mais Cultura nas Escolas, projeto aprovado no início do ano que prevê o repasse de verbas financeiras diretas para escolas públicas criarem projetos culturais com artistas e mestres da comunidade. O documento também diz que o governo vai trabalhar pela “aprovação de lei do direito autoral em ambiente digital e a regulamentação da inteligência artificial”.

Renan Santos (Missão)

Já o plano de Renan Santos propõe o fim de uma pasta própria para a cultura, integrando com o Ministério da Educação. A proposta retoma o formato da pasta no período antes da redemocratização, de 1953 a 1985, quando se chamava  Ministério da Educação e Cultura (MEC). 

O documento do candidato do Partido Missão apresenta críticas a órgãos relacionados à cultura e ao patrimônio. Segundo ele, “o sistema de museus no Brasil, organizado e mantido pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), apresenta graves deficiências, tanto no que se refere à cultura de visitação de museus, bastante fraca no Brasil, quanto ao equilíbrio orçamentário do órgão”. O documento também faz críticas ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como órgão e tece críticas ao que chama uma “política excessivamente generosa de tombamentos”. 

Em um capítulo intitulado “Chega de Saudade”, em referência à canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, o candidato defende que haja uma recuperação de elementos do período histórico do qual data a música, final dos anos 60. Segundo ele, houve “uma deformação cultural durante as últimas décadas”, havendo “uma necessidade de nossos projetos para restaurar a cena artística e jornalística vibrante e criativa que já tivemos na metade do século passado.” 

O documento apresenta como uma das principais propostas um projeto de Kim Kataguiri (União Brasil), em que o fomento hoje destinado à lei Rouanet seria destinado à construção e modernização de presídios. Segundo o candidato, “há uma profunda insatisfação da população brasileira com o modo como tem sido realizado o fomento à cultura no país.”

Como destaque do plano, o candidato também defende a revisão do  fomento via Lei Rouanet e cita, em especial, o cinema nacional, no qual diz que se deve “retirar o viés ideológico dos órgãos responsáveis pelo repasse de verbas”. Segundo o presidenciável, “o viés ideológico, por sua vez, serve para a proteção de máfias que monopolizam influência e produzem um tipo de censura informal na cultura do país”. Outra proposta é a “criação de um Código Unificado de imprensa visando disciplinar o setor e eliminar as lacunas legais que geram insegurança jurídica”.

Ronaldo Caiado (PSD)

O plano traça um diagnóstico histórico da pasta, afirmando que “trabalhadores da cultura convivem com informalidade, renda instável e dificuldade de crédito, previdência, qualificação e circulação”. Segundo o documento, “o país precisa proteger direitos autorais, diversidade, dados e patrimônio, ao mesmo tempo em que estimula inovação, exportação e acesso. 

O plano elenca 12 propostas para a área, como o investimento no Sistema Nacional de Cultura, a implementação do novo Plano Nacional de Cultura, com metas e indicadores e a integração entre a cultura e a educação.  Segundo o plano, uma das  propostas seria “Garantir que apoio público não seja usado para censura ou propaganda partidária”.

Rui Costa Pimenta (PCO)

O plano do candidato traz como uma das propostas a “defesa do futebol, do carnaval e de todas as manifestações da cultura popular. O documento defende “pesados investimentos na cultura popular, patrocínio público das festas populares, sob o controle das organizações populares e dos trabalhadores do setor.”

Samara (UP)

A candidata não menciona a cultura no seu plano de governo.

Zema (Novo)

O plano enfatiza o papel do turismo e propõe uma aproximação maior entre as duas pastas. “O turismo movimenta R$207 bilhões, mas ainda representa menos de 2% do PIB em um país com praias, florestas, parques e patrimônio histórico capazes de atrair investimentos e visitantes de todo o mundo.” Segundo ele, a cultura junto ao turismo poderia formar um dos maiores ativos econômicos do país. 

Segundo o documento, “o Brasil insiste em tratar a cultura como bandeira ideológica e o turismo como pauta secundária”. O plano traça críticas aos principais instrumentos de fomento à cultura no país e diz que a Lei Rouanet “concentra renúncias fiscais em grandes produtores que poderiam se sustentar por conta própria, enquanto mecanismos como a Lei Aldir Blanc ampliam a dependência do orçamento público sem avaliação de resultados.”

Já em relação à Lei Rouanet, o documento diz que “é voltada para grandes nomes”. O candidato do NOVO propõe uma ênfase maior na cultura regional, com “critérios objetivos de elegibilidade” e “limites de captação para grandes artistas e produtores já consolidados”. Ele também fala de uma desconcentração dos recursos e de novas prioridades culturais para projetos com impacto social. 

O documento defende a mudança de instrumentos jurídicos relacionados aos tombamentos de prédios históricos,”eliminando restrições desnecessárias aos direitos de propriedade”. Por fim, defende a aproximação da pasta da cultura com o turismo, mas não sinaliza a unificação de ministérios. Ele cita a privatização de museus públicos e defende a cultura como um “vetor de desenvolvimento econômico” e um “soft power brasileiro”. O conceito inglês é utilizado para estratégias de influência que os países podem ter, sem recorrer à violência. 

Anna Ortega

Coordenadora de jornalismo do Nonada, é também artista visual. Tem especial interesse na escuta e escrita de processos artísticos, da cultura popular e da defesa dos diretos humanos.

A Associação Cultural Nonada Jornalismo é uma organização sem fins lucrativos que articula cultura, jornalismo e educação como pilares para a transformação social.

domingo, 11 de janeiro de 2026


_

Análise critica aos programas de candidatos a presidente em 2026. Por Felipe Boni

 



O Plano de Governo do Renan Santos É Uma Doideira




4ª Mostra Arte e Cidadania em 22 de agosto no Bairro Industrial- A cultura de base comunitária em destaque na retomada das Mostras Culturais.

 


CONVIDADOS

Maculelê Mirim do Pescando Memórias 


Brincantes do Instituto Piabinhas, contam, cantam e encantam ao som do atabaque, a manifestação folclórica afro indígena a história de resistência de um guerreiro que defende a sua aldeia com dois bastões de madeira deferindo golpes contra os invasores. O Maculêle Mirim educa e promove o acesso à cultura e ao lazer, sendo uma ferramenta de participação social para a conformação da identidade cultural brasileira.

João Emanuel



Professor, poeta popular e estudioso da cultura popular, tem três obras literárias publicadas: “Letras em Cordel: Palavras que Escrevi” (2000), “Palavras que Senti” (2003), ambas de poesia; “Natal no Parque” – Cordel. É organizador da obra João Sapateiro, Doutor em Verso e Trova (2025).

Yala Souza
Rapper, poeta, arte educadora e ativista social do hip-hop, graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Sergipe e pós-graduada em Educação, Cultura e Diversidade. Criada na periferia de Aracaju, sua arte reflete sua experiência como mulher negra e periférica, usando o rap e a poesia falada como meio de expressão artística e para valorização do povo negro e periférico.

Recorte do resultado das oficinas culturais 2026 do Ponto de Cultura (teatro e audiovisual) 






terça-feira, 18 de agosto de 2026

Georges Moustaki e a França dos estrangeiros: quando a diferença virou canção

 

Alexandrino de nascimento, grego de origem, judeu de família e francês por escolha, o cantor e compositor Georges Moustaki (1934-2013) transformou a experiência do deslocamento e da diferença em um dos capítulos mais singulares da chanson française. Ao lançar, em 1969, a canção "Le Métèque" — título que ressignificou um termo até então utilizado como xingamento contra estrangeiros —, Moustaki não apenas conquistou sucesso comercial com mais de 600 mil cópias vendidas, mas também ofereceu à França uma resposta poética para um debate que persiste até hoje: é possível pertencer a uma nação sem abrir mão de múltiplas identidades? Nascido no Egito, criado em ambiente multilíngue e naturalizado francês apenas em 1985, o artista construiu uma obra que ultrapassa a música, sendo incorporada até mesmo pelo Ministério da Educação francês em materiais pedagógicos sobre racismo e antirracismo. Sua trajetória revela que a cultura nacional não precisa ser homogênea — pode ser feita também de chegadas, misturas e reencontros.


Georges Moustaki em Paris: um artista nascido em Alexandria que levou para a chanson française as marcas do Mediterrâneo, da migração e do cosmopolitismo. Em “Le Métèque”, o estrangeiro deixa de ser personagem marginal e passa a reivindicar seu lugar na cultura francesa.

Há artistas que pertencem a um país porque nasceram nele. Outros pertencem porque escolheram aquele país como lugar de vida, criação e liberdade.

Georges Moustaki pertence à segunda categoria.

Nascido em Alexandria, no Egito, em 1934, filho de pais gregos de origem judaica e criado em um ambiente cultural multilíngue, chegou à França em 1951. Só se tornaria cidadão francês em 1985. Sua trajetória é, portanto, marcada por uma experiência que hoje está no centro de muitos debates europeus: como um estrangeiro se transforma em parte de uma cultura nacional sem deixar de carregar consigo outras identidades?

Essa pergunta ajuda a compreender a importância de Moustaki para a França.

Um estrangeiro que ajudou a construir a canção francesa

Quando chegou a Paris, Moustaki não era ainda o cantor que o público conheceria posteriormente.

Antes de interpretar suas próprias músicas, construiu uma carreira como autor e compositor. Escreveu para alguns dos grandes nomes da canção francesa, entre eles Édith Piaf, Yves Montand, Barbara e Serge Reggiani.

Foi para Piaf que escreveu “Milord”, enquanto Reggiani interpretaria músicas como “Ma Liberté”, “Sarah” e “Ma Solitude”. A SACEM registra uma produção de aproximadamente 500 canções ao longo de sua carreira.

Isso significa que o legado de Moustaki para a França é muito maior do que sua discografia como intérprete.

Ele ajudou a escrever a memória musical francesa antes mesmo de se tornar um dos seus grandes cantores.

“Le Métèque”: o estrangeiro deixa de ser uma ameaça

A grande virada aconteceu em 1969.

Moustaki grava “Le Métèque”, uma canção que recupera uma palavra historicamente utilizada de forma depreciativa para designar estrangeiros, particularmente pessoas de origem mediterrânea.

Em vez de esconder essa identidade, Moustaki a assume.

O personagem da canção é simultaneamente estrangeiro, judeu errante, grego, músico, vagabundo, sonhador e amante. É um personagem sem uma identidade única.

E essa talvez seja a grande provocação de Moustaki:

ele não pede autorização para ser francês apesar de ser estrangeiro.

Ele afirma uma identidade múltipla.

O próprio Museu da SACEM interpreta “Le Métèque” como uma espécie de autorretrato de Moustaki: um homem de origem alexandrina, filho de pais gregos, que transforma uma palavra de insulto em uma identidade poética.

A música alcançou enorme popularidade. Segundo o INA, o compacto vendeu mais de 600 mil exemplares na França e tornou-se um sucesso internacional.

Mas sua importância histórica ultrapassa os números de vendas.

O Ministério da Educação francês incorporou “Le Métèque” a um material pedagógico sobre racismo e antirracismo, justamente porque a música permite discutir a experiência do estrangeiro e o preconceito.

É uma transformação extraordinária:

uma palavra usada para excluir transforma-se em instrumento de educação contra a exclusão.

Le Métèque

Com minha cara de estrangeiro, de judeu errante, de pastor grego

Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec


E meus cabelos aos quatro ventos

Et mes cheveux aux quatre vents


Com meus olhos desbotados, que dão ar sonhador

Avec mes yeux tout délavés, qui me donnent l'air de rêver


A mim, que já não sonho com frequência

Moi qui ne rêve plus souvent.


Com minhas mãos de saqueador, de músico e de vadio

Avec mes mains de maraudeur, de musicien et de rôdeur


Que pilharam tantos jardins

Qui ont pillé tant de jardins


Com minha boca que bebeu, que beijou e mordeu

Avec ma bouche qui a bu, qui a embrassé et mordu


Sem jamais saciar sua fome

Sans jamais assouvir sa faim


Com minha cara de estrangeiro, de judeu errante, de pastor grego

Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec


De ladrão e de vagabundo

De voleur et de vagabond


Com minha pele que foi roçada pelo sol de todos os verões

Avec ma peau qui s'est frottée au soleil de tous les étés


E por todas que usavam saias

Et tout ce qui portait jupon


Com meu coração que soube fazer sofrer tanto quanto sofreu

Avec mon coeur qui a su faire souffrir autant qu'il a souffert


Sem criar problemas por conta disso

Sans pour cela faire d'histoire


Com minha alma que não tem mais a menor chance de salvação

Avec mon âme qui n'a plus la moindre chance de salut


Para evitar o purgatório

Pour éviter le purgatoire


Com minha cara de estrangeiro, de judeu errante, de pastor grego

Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec


E meus cabelos aos quatro ventos

Et mes cheveux aux quatre vents


Eu virei, minha doce cativa, minha alma gêmea, minha fonte viva

Je viendrai ma douce captive, mon âme soeur, ma source vive


Eu virei beber os teus vinte anos

Je viendrai boire tes vingt ans


E eu serei príncipe legítimo, sonhador ou então adolescente

Et je serai prince de sang, rêveur, ou bien adolescent


A escolha que te agradar

Comme il te plaira de choisir


E nós faremos de cada dia, toda uma eternidade de amor

Et nous ferons de chaque jour, toute une éternité d'amour


Que nós viveremos até morrer

Que nous vivrons à en mourir


E nós faremos de cada dia, toda uma eternidade de amor

Et nous ferons de chaque jour, toute une éternité d'amour


Que nós viveremos até morrer

Que nous vivrons à en mourir

Moustaki e o espírito de 1968

“Le Métèque” surge no contexto da efervescência social que marcou a França de 1968.

O próprio INA relaciona o retorno de Moustaki à música ao ambiente criado pelo Maio de 1968 e à juventude que reivindicava liberdade.

Mas Moustaki não transformou sua música em simples propaganda política.

Sua política era mais profunda porque aparecia na forma de uma ética:

liberdade, amor, fraternidade, direito à diferença, recusa das convenções e oposição às formas de opressão.

Por isso, sua obra envelheceu de maneira diferente de muitas canções explicitamente militantes daquele período.

Moustaki não cantava apenas sobre uma conjuntura política.

Cantava sobre uma maneira de viver.

Uma França mediterrânea

Outro aspecto fundamental de seu legado é musical.

Moustaki ajudou a romper a ideia de que a chanson française deveria ser culturalmente fechada sobre si mesma.

Sua música incorporava elementos gregos, mediterrâneos, afro-cubanos e sul-americanos, ao mesmo tempo em que dialogava com a tradição francesa da canção de autor. A Larousse destaca justamente essa combinação entre a tradição francesa e influências mediterrâneas, afro-cubanas e sul-americanas.

É como se Moustaki tivesse levado para Paris a experiência cultural de Alexandria.

E Alexandria é importante nessa história.

A cidade onde nasceu era, na primeira metade do século XX, um espaço de intensa circulação de línguas, religiões e nacionalidades. O próprio Le Monde destaca essa característica cosmopolita de Alexandria e a formação multicultural de Moustaki.

Assim, sua música não representa apenas a integração de um estrangeiro à França.

Ela representa também a entrada do Mediterrâneo na cultura francesa.

O estrangeiro como parte da identidade nacional

É aqui que Moustaki se torna particularmente interessante para quem pensa cultura e política cultural.

Durante muito tempo, a identidade nacional foi apresentada como algo relativamente homogêneo: uma língua, uma história, uma tradição, uma memória.

Moustaki oferece outra possibilidade.

Sua trajetória sugere que uma cultura nacional também pode ser construída pela chegada de pessoas que trazem outras memórias, outros ritmos, outras línguas e outras experiências.

Ele nasceu no Egito.

Tinha origem grega.

Sua família era judaica.

Falava italiano.

Foi educado em francês.

Chegou a Paris como estrangeiro.

E acabou se tornando uma das referências da canção francesa.

Sua própria biografia é uma demonstração de que identidade cultural não é necessariamente sinônimo de pureza cultural.

Uma ponte entre culturas

Esse aspecto aproxima Moustaki de uma tradição muito mais ampla da cultura francesa: a presença de artistas estrangeiros ou descendentes de imigrantes que transformaram profundamente a cultura do país.

Moustaki pode ser colocado ao lado de outras trajetórias de artistas vindos de diferentes lugares do Mediterrâneo, da África e de outras regiões do mundo.

A exposição “Exil!”, da SACEM, por exemplo, coloca “Le Métèque” ao lado de obras de Enrico Macias e Manu Dibango, entre outras canções associadas à experiência do deslocamento e do exílio.

Moustaki, portanto, não é uma exceção isolada.

Ele faz parte de uma história maior:

a história de como os estrangeiros também ajudaram a fazer a França.

O legado que permanece

Mais de uma década depois de sua morte, em 2013, a obra de Moustaki continua sendo revisitada.

“Le Métèque” permanece especialmente poderosa porque a questão que ela apresenta não desapareceu.

Quem é o estrangeiro?

Quem tem direito de pertencer?

É possível ter várias identidades simultaneamente?

Uma pessoa precisa abandonar suas origens para ser reconhecida como integrante de uma nação?

Moustaki oferece uma resposta poética:

não.

Pode-se ser grego e francês.

Pode-se carregar Alexandria e viver em Paris.

Pode-se ser judeu, mediterrâneo, estrangeiro e francês.

Pode-se pertencer sem deixar de ser diferente.

Essa talvez seja a maior contribuição de Georges Moustaki para a cultura francesa.

Georges Moustaki e uma França que ainda está em disputa

A França contemporânea continua atravessada por debates sobre imigração, integração, racismo, identidade nacional e multiculturalismo.

Por isso, “Le Métèque” não deve ser tratada apenas como uma canção nostálgica dos anos 1960.

Ela pode ser ouvida como uma pergunta dirigida ao presente.

Que França queremos construir?

Uma França que exige que o estrangeiro abandone suas diferenças para ser aceito?

Ou uma França capaz de reconhecer que parte de sua riqueza cultural nasceu justamente daqueles que chegaram trazendo outras histórias?

Moustaki oferece, através da música, uma resposta que continua provocadora:

a diferença não precisa ser uma ameaça à identidade nacional. Ela pode ser uma das fontes de sua renovação.

Talvez seja por isso que Georges Moustaki tenha se tornado tão profundamente francês.

Não porque deixou de ser estrangeiro.

Mas porque demonstrou que um estrangeiro também pode ajudar a redefinir o que significa ser francês.

BOX — Moustaki em cinco palavras

Estrangeiro — nunca escondeu suas múltiplas origens.

Liberdade — um dos grandes valores de sua obra.

Mediterrâneo — trouxe para a chanson francesa outras paisagens sonoras.

Humanismo — colocou o indivíduo e sua dignidade no centro de muitas de suas canções.

Diferença — transformou o “métèque”, o estrangeiro estigmatizado, em protagonista de uma das canções mais emblemáticas da França do século XX.

Para ouvir novamente

“Le Métèque” (1969) — a canção que transformou a experiência do estrangeiro em uma afirmação de identidade.

“Ma Liberté” — uma das expressões mais conhecidas da relação de Moustaki com a liberdade.

“Ma Solitude” — uma das canções de sua parceria com Serge Reggiani.

“Milord” — a composição que marcou sua colaboração com Édith Piaf.

Ouvir essas músicas hoje é mais do que revisitar a chanson française.

É ouvir uma França construída também por aqueles que chegaram de fora.


Artigo construído com suporte de IA 


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A dança que a imprensa quase não viu: o street dance na abertura da campanha de Lula na Vila Euclides

 Uma apresentação de dança de rua ao som da releitura do  “Rap do Silva” integrou o lançamento da candidatura de Lula no histórico Estádio 1º de Maio. Por que esse acontecimento cultural praticamente desapareceu da narrativa jornalística sobre o evento?

Há acontecimentos políticos que são lembrados pelos discursos. Outros permanecem na memória pelas imagens.

Na abertura da campanha de Lula no Estádio 1º de Maio, a antiga Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, houve uma dessas imagens que mereceria mais atenção: a entrada de um grupo de dança de rua ao som de “Rap do Silva”, música que ganhou uma versão utilizada pela campanha.

]


Quando a política também dança

A Vila Euclides é um lugar carregado de memória política. Foi ali que as grandes assembleias dos metalúrgicos do ABC ajudaram a construir uma nova linguagem de mobilização social no final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

Em 2026, décadas depois, outro tipo de linguagem ocupou aquele espaço: a dança de rua.

Não se trata apenas de uma mudança estética. O corpo do dançarino, o rap, a coreografia e a cultura urbana pertencem a uma tradição cultural que também nasceu da disputa pelo direito à expressão, à cidade e à visibilidade.

Por isso, uma apresentação de street dance naquele estádio pode ser lida como uma espécie de encontro entre duas gerações de cultura política:

a cultura operária das assembleias da Vila Euclides e a cultura urbana das periferias contemporâneas.

O detalhe que passou quase despercebido

A imprensa política concentrou sua atenção no discurso de Lula, na escolha do local, na campanha eleitoral e na simbologia histórica da Vila Euclides.

É compreensível.

Mas essa forma de cobertura produz um efeito colateral: transforma a cultura em pano de fundo.

A dança aparece como espetáculo. A música aparece como trilha sonora. Os artistas aparecem como coadjuvantes.

Poucas vezes se pergunta:

Por que essa música?

Por que essa dança?

Por que esses corpos?

Por que naquele lugar?

Por que naquele momento?

São perguntas culturais — e também perguntas políticas.

A cultura como linguagem política

Não é necessário afirmar que a apresentação foi planejada como uma sofisticada estratégia eleitoral para reconhecer sua força simbólica.

Basta observar a combinação:

Vila Euclides + dança de rua + rap + juventude + memória operária.

É uma combinação que aproxima diferentes momentos da cultura política brasileira.

A Vila Euclides representa uma geração que ocupou o espaço público através das assembleias, das greves e da organização dos trabalhadores.

A cultura hip-hop e a dança de rua representam outras formas de ocupação do espaço público, desenvolvidas sobretudo nas periferias urbanas e entre as novas gerações.

Quando essas duas linguagens se encontram, há uma história cultural a ser contada.

Por que a imprensa não contou?

Talvez porque o jornalismo político ainda tenha dificuldade para reconhecer a cultura como parte constitutiva da política.

A cobertura tradicional procura o acontecimento no discurso do candidato.

A cultura, entretanto, pode estar em outro lugar: no cenário, na música, na coreografia, no figurino, na escolha dos artistas e na forma como um público é convidado a participar de uma experiência coletiva.

O problema não é apenas que uma apresentação de dança tenha recebido pouca atenção.

O problema é que, quando ela desaparece da narrativa jornalística, desaparece também uma parte da compreensão sobre como a política contemporânea procura falar com diferentes gerações e grupos sociais.

A pergunta que fica

Não deveríamos perguntar apenas por que a apresentação foi pouco noticiada.

Deveríamos perguntar:

O que a imprensa deixa de enxergar quando cobre a política apenas como discurso?

A dança de rua na Vila Euclides talvez seja uma pequena cena dentro de um grande ato político.

Mas pequenas cenas também contam histórias.

E essa talvez conte uma história sobre a transformação da cultura política brasileira: da assembleia operária ao palco, do discurso ao corpo, do sindicato ao rap, da memória das greves às linguagens culturais das novas periferias.

A Vila Euclides voltou a ser palco de uma disputa política.

Mas, dessa vez, antes mesmo de o discurso começar, a política também entrou em cena dançando.

🔥Lula lotou estádio com 40 mil e grande mídia escondeu a multidão com ângulo fechado🔥


Na Vila Euclides, Lula lança a campanha do tetra e a militância faz sua festa

Ato em São Bernardo reúne milhares de apoiadores, juventude e movimentos sociais em clima de festa, memória e mobilização para a campanha presidencial

https://vermelho.org.br/2026/08/16/na-vila-euclides-lula-lanca-a-campanha-do-tetra-e-a-militancia-faz-sua-festa/