quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Entre promessas e políticas de Estado: o que o programa de Valmir de Francisquinho responde — e o que ainda falta responder na cultura de Sergipe

Por Zezito de Oliveira 

Análise compara programa de Valmir de Francisquinho para a cultura com questões apontadas pelo Blog da Cultura

O programa de governo de Valmir de Francisquinho apresenta, em 2026, uma proposta mais ampla e estruturada para a cultura de Sergipe do que a apresentada pelo candidato em 2022, com programas voltados ao patrimônio, interiorização, economia criativa, audiovisual, artesanato, museus e turismo de base comunitária. A pesquisa realizada pelo Blog da Cultura confronta essas propostas com análises e debates publicados pelo blog ao longo dos últimos anos e identifica convergências importantes, mas também lacunas relacionadas à participação social, ao fortalecimento da Cultura Viva e dos Pontos de Cultura, ao financiamento permanente e à democratização da gestão cultural.  

Programa Cultural do Candidato Valmir de Francisquinho

 O documento dedica um eixo estratégico específico à Cultura, Turismo e Identidade Sergipana, detalhando propostas, programas e ações para o setor cultural. A seguir, apresento um resumo estruturado e exemplos práticos das principais propostas culturais do candidato, conforme o documento.

1. Princípios Gerais da Política Cultural

A cultura é tratada como política pública essencial, instrumento de cidadania, educação, inclusão social e desenvolvimento econômico.

O programa valoriza artistas, produtores culturais, mestres da cultura popular, grupos folclóricos, comunidades tradicionais, artesãos e empreendedores da economia criativa.

Busca-se ampliar oportunidades de produção, circulação e acesso aos bens culturais em todas as regiões do estado.

A valorização da identidade sergipana é central, promovendo a preservação da memória, do patrimônio histórico e das tradições populares.

2. Principais Programas e Ações Culturais

Eixo 2 - Cultura, Patrimônio e Identidade Sergipana

Programa Patrimônio Vivo Sergipano: Valoriza mestres da cultura popular, grupos folclóricos, artistas tradicionais e manifestações culturais do patrimônio imaterial do estado.

Rede Sergipana de Museus e Centros de Memória: Modernização de museus e equipamentos culturais com novas tecnologias, experiências imersivas e ações educativas.

Programa Revitalizar Sergipe: Recuperação de centros históricos, mercados públicos e espaços culturais, integrando preservação do patrimônio, turismo, gastronomia e economia criativa.

Programa Cultura em Todo Lugar: Interiorização das políticas culturais, apoiando festivais, feiras literárias, mostras artísticas, apresentações de música, teatro e dança, e circulação de artistas locais.

Festival Internacional de Cultura e Turismo de Sergipe: Criação de um grande evento anual para promover cultura, gastronomia, música, negócios e turismo, fortalecendo Sergipe no cenário nacional e internacional.

Eixo 3 - Economia Criativa e Empreendedorismo Cultural

Programa Sergipe Criativo: Incentivo aos setores de música, audiovisual, design, moda, gastronomia, artesanato, produção cultural e inovação artística.

Programa Artesanato que Gera Renda: Qualificação profissional, acesso ao comércio eletrônico, participação em feiras, incentivo à exportação e certificação de origem dos produtos artesanais.

Polo Sergipano de Cinema e Audiovisual: Política estadual de incentivo à produção audiovisual, documentários, cinema, animação, festivais e atração de produções nacionais.

Programa Juventude Criativa: Estímulo a jovens empreendedores em audiovisual, música, games, design, produção digital, startups culturais e empreendedorismo criativo.

Fundo Estadual de Cultura e Turismo: Ampliação dos mecanismos de financiamento para projetos culturais, patrimônio histórico, festivais, audiovisual, economia criativa e empreendedorismo turístico.

Eixo 4 - Qualificação, Governança e Inovação

Escola Estadual de Turismo, Gastronomia e Economia Criativa: Centro permanente de formação profissional em hotelaria, gastronomia, guia de turismo, idiomas, gestão cultural, organização de eventos, marketing digital e empreendedorismo.

Sergipe Digital Turístico: Plataforma estadual integrada com inteligência artificial, mapas interativos, calendário cultural, roteiros personalizados, reservas e promoção digital dos destinos.

Programa Cidade Turística Inteligente: Modernização dos destinos turísticos com internet pública, sinalização digital, aplicativos turísticos, monitoramento inteligente e integração tecnológica dos serviços.

Observatório do Turismo e da Economia Criativa: Centro permanente de inteligência para monitoramento de indicadores, planejamento estratégico e avaliação das políticas públicas.

Eixo 5 - Turismo Regional, Sustentabilidade e Inclusão

Programa Turismo Sustentável do Rio São Francisco: Desenvolvimento integrado do turismo náutico, ecológico, esportivo, cultural e gastronômico nas regiões do Rio São Francisco, com inclusão produtiva e valorização das comunidades tradicionais.

Programa São João de Sergipe – O Melhor do Nordeste: Transformação do ciclo junino em política permanente de desenvolvimento econômico, fortalecendo artistas, quadrilhas juninas, municípios e circuitos culturais.

Programa Sergipe Gastronômico: Valorização da gastronomia regional como patrimônio cultural e ativo econômico, promovendo festivais, roteiros gastronômicos e integração com a agricultura familiar.

Programa Turismo de Base Comunitária: Criação de roteiros turísticos envolvendo comunidades quilombolas, ribeirinhas, indígenas e tradicionais, promovendo inclusão produtiva, preservação ambiental e valorização cultural.

Programa Capacita Turismo: Parceria com Sebrae, Senac, universidades e prefeituras para capacitação permanente de trabalhadores, empreendedores e comunidades locais em hospitalidade, idiomas, gastronomia, artesanato e gestão de negócios turísticos.

Programa Turismo para Todos: Políticas de inclusão produtiva para mulheres, jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade nas cadeias produtivas do turismo.

3. Exemplo de Implementação Prática

Interiorização da Cultura: Apoio a festivais culturais em municípios do interior, promovendo apresentações de grupos folclóricos locais e circulação de artistas regionais.

Fomento ao Audiovisual: Criação de editais para produção de curtas-metragens sergipanos, com incentivo à participação de jovens e coletivos culturais.

Valorização do Artesanato: Implantação de feiras regionais e lojas colaborativas para comercialização do artesanato sergipano, com certificação de origem e acesso a plataformas digitais de vendas.

Capacitação Profissional: Cursos gratuitos de gestão cultural, produção de eventos e marketing digital para jovens e empreendedores culturais, em parceria com instituições de ensino e o Sistema S.

4. Compromisso com a Diversidade e a Identidade Sergipana

O programa cultural do candidato destaca o respeito à diversidade, a valorização das tradições populares, o fortalecimento da economia criativa e a promoção da cultura como vetor de desenvolvimento econômico, inclusão social e orgulho regional.

Resumo: O programa cultural do candidato Valmir de Francisquinho é amplo, estruturado em eixos e programas que abrangem desde a valorização do patrimônio imaterial, incentivo à economia criativa, apoio à produção audiovisual, interiorização das políticas culturais, até a promoção do turismo cultural e gastronômico. O foco é transformar a cultura em instrumento de desenvolvimento, inclusão e identidade para Sergipe.

Em 2022, ao analisar as propostas dos candidatos ao Governo de Sergipe, o Blog da Cultura observou que o então candidato Valmir de Francisquinho apresentava a cultura principalmente em sua relação com o turismo, a economia criativa, o lazer e a economia digital, mas não detalhava suficientemente como essas propostas seriam transformadas em políticas públicas.

Quatro anos depois, o cenário apresentado pelo seu programa de governo é bastante diferente.

O programa de 2026 apresenta um conjunto muito mais amplo e estruturado de propostas para cultura, patrimônio, economia criativa, turismo, formação profissional e inovação. Há programas específicos para patrimônio imaterial, museus, centros históricos, interiorização, audiovisual, artesanato, juventude, financiamento, qualificação e turismo de base comunitária.

Isso representa uma evolução importante no tratamento da cultura dentro de um programa de governo.

Mas a comparação com as questões que o Blog da Cultura vem levantando ao longo dos últimos anos permite fazer uma pergunta fundamental:

estamos diante de um programa de desenvolvimento cultural ou de uma política cultural de Estado?

A diferença não é apenas semântica.

Uma mudança importante em relação a 2022

É preciso reconhecer, inicialmente, que o programa atual de Valmir de Francisquinho é bem mais detalhado que aquele analisado pelo Blog da Cultura em 2022.

Naquele momento, registramos que Valmir colocava a cultura como dependente do turismo e da economia criativa, mas não apresentava um panorama suficientemente claro sobre a aplicação dessas ideias.

Agora aparecem programas com nomes, objetivos e áreas de atuação bastante definidos:

Patrimônio Vivo Sergipano; Rede Sergipana de Museus e Centros de Memória; Revitalizar Sergipe; Cultura em Todo Lugar; Sergipe Criativo; Artesanato que Gera Renda; Polo Sergipano de Cinema e Audiovisual; Juventude Criativa; Fundo Estadual de Cultura e Turismo; Escola Estadual de Turismo, Gastronomia e Economia Criativa; Observatório do Turismo e da Economia Criativa; Turismo de Base Comunitária.

Ou seja, houve uma mudança significativa.

A cultura deixou de aparecer apenas como componente auxiliar do turismo e passou a ocupar espaço próprio dentro de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento.

Isso merece ser reconhecido.

Mas também exige análise crítica.

Patrimônio Vivo: uma proposta que dialoga diretamente com uma reivindicação histórica

O Programa Patrimônio Vivo Sergipano é uma das propostas que mais dialogam com a agenda cultural construída pela sociedade civil.

A valorização dos mestres da cultura popular, grupos folclóricos, artistas tradicionais e manifestações do patrimônio imaterial responde a uma necessidade histórica de reconhecer aqueles que preservam e transmitem conhecimentos culturais.

É especialmente importante porque a política cultural não pode se limitar às instituições formais.

Grande parte do patrimônio cultural sergipano está nas pessoas, nos grupos, nas comunidades e nos territórios.

Nesse aspecto, a proposta também dialoga com a experiência recente de criação da Lei dos Mestres – Patrimônio Vivo da Nossa Cultura durante a gestão Mitidieri, iniciativa que o próprio Blog da Cultura reconheceu como uma mudança importante na institucionalidade cultural de Sergipe.

A questão que fica para Valmir, portanto, é:

como o Programa Patrimônio Vivo Sergipano será articulado com a legislação já existente?

Será criado um novo mecanismo?

Será ampliado o atual?

Haverá bolsas ou remuneração permanente?

Como serão escolhidos os mestres?

Haverá participação dos segmentos culturais nessa escolha?

São perguntas importantes porque reconhecer um mestre é apenas o primeiro passo. É necessário criar condições para que seu conhecimento continue sendo transmitido às novas gerações.

Cultura em Todo Lugar: interiorização para além dos grandes eventos

O programa propõe apoiar festivais, feiras literárias, mostras artísticas, apresentações de música, teatro e dança e a circulação de artistas locais.

É uma proposta positiva.

Mas a experiência do debate cultural sergipano mostra que interiorização não pode significar apenas distribuir eventos pelos municípios.

É preciso descentralizar também:

recursos, formação, equipamentos, oportunidades e poder de decisão.

Existe uma diferença entre levar um festival para o interior e fortalecer a produção cultural do interior.

Um programa efetivamente descentralizado deveria permitir que artistas e grupos de cada território sejam protagonistas da política cultural local.

Por isso, seria importante saber:

qual percentual dos recursos culturais será destinado ao interior?

Haverá critérios territoriais?

Os editais terão cotas ou linhas específicas para municípios fora da Grande Aracaju?

Os municípios participarão da formulação do calendário?

Como serão fortalecidos os agentes culturais locais?

Essas respostas transformarão a ideia de interiorização em uma política efetiva.

A grande ausência: Cultura Viva e Pontos de Cultura

Aqui aparece uma questão particularmente importante para o Blog da Cultura.

O programa fala em cultura em todo lugar, inclusão, comunidades tradicionais, juventude, economia criativa e circulação de artistas.

Mas não aparece, com a mesma clareza, uma política estruturada para a Política Nacional Cultura Viva e a Rede de Pontos e Pontões de Cultura.

Essa ausência merece atenção.

Os Pontos de Cultura representam justamente uma política capaz de descentralizar a cultura e reconhecer iniciativas que já existem nos territórios.

São espaços de cultura comunitária, muitas vezes construídos pela própria sociedade civil, que trabalham com arte, educação popular, memória, juventude, audiovisual, cultura periférica, patrimônio e diversas outras linguagens.

Em 2026, o próprio Blog da Cultura vem acompanhando a retomada e a organização da Teia Sergipe dos Pontos e Pontões de Cultura e a importância dessa política para a cultura de base comunitária.

Portanto, uma pergunta deveria ser dirigida ao candidato:

qual será o lugar da Cultura Viva no seu governo?

E mais:

Valmir pretende fortalecer a Rede Sergipe de Pontos de Cultura com recursos estaduais próprios?

Essa é uma pergunta que não pode ficar escondida atrás da expressão genérica “cultura em todo lugar”.

Museus, centros de memória e patrimônio

A proposta de criação de uma Rede Sergipana de Museus e Centros de Memória é outro ponto relevante.

A modernização dos museus com novas tecnologias, experiências imersivas e ações educativas pode contribuir para aproximar essas instituições da população.

Mas é preciso evitar que modernização seja entendida apenas como digitalização.

Museu também é:

pesquisa, conservação, documentação, educação, memória, acesso público e participação comunitária.

Uma política estadual de museus precisa estabelecer uma rede de cooperação entre instituições, municípios e sociedade civil.

Precisa também enfrentar problemas de acervo, pessoal especializado, conservação e programação.

Nesse sentido, o programa apresenta uma boa direção, mas precisa transformar a ideia de rede em uma política institucional permanente.

Revitalizar Sergipe: patrimônio não pode ser reduzido ao turismo

O Programa Revitalizar Sergipe pretende recuperar centros históricos, mercados públicos e espaços culturais, articulando patrimônio, turismo, gastronomia e economia criativa.

A proposta tem potencial.

Mas há um risco conhecido nas políticas de patrimônio:

transformar a preservação em cenografia turística.

Um centro histórico não é apenas uma paisagem bonita para o visitante.

É um território onde pessoas moram, trabalham, produzem cultura e constroem suas relações sociais.

Da mesma forma, mercados públicos não são apenas atrações turísticas.

São espaços econômicos, culturais e sociais.

Por isso, qualquer programa de revitalização precisa envolver os moradores, comerciantes, artistas, artesãos, trabalhadores e comunidades desses territórios.

Revitalizar não pode significar simplesmente reformar.

É preciso preservar a vida cultural dos lugares.

Sergipe Criativo: uma proposta promissora, mas que precisa de política cultural por trás

O programa dedica atenção significativa à economia criativa.

Música, audiovisual, design, moda, gastronomia, artesanato, produção cultural e inovação artística aparecem como setores estratégicos.

É uma visão contemporânea e necessária.

Mas existe uma questão conceitual que precisa ser preservada:

cultura não é apenas economia criativa.

A cultura possui dimensão simbólica, cidadã, educativa, comunitária e identitária que não pode ser medida apenas pelo faturamento ou pela quantidade de empregos gerados.

A economia criativa deve ser uma dimensão da política cultural.

Não pode substituir a política cultural.

Esse cuidado é especialmente importante porque o próprio programa aproxima cultura, turismo, empreendedorismo e inovação.

São relações importantes, mas que precisam preservar a autonomia e a diversidade da produção cultural.

Audiovisual: uma das melhores oportunidades para Sergipe

A criação de um Polo Sergipano de Cinema e Audiovisual é uma proposta particularmente interessante.

Sergipe possui artistas, técnicos, cineclubes, produtores, coletivos e experiências de produção audiovisual que poderiam ser muito mais fortalecidos.

Uma política estadual para o audiovisual poderia articular:

formação;

produção;

distribuição;

circulação;

festivais;

cineclubes;

preservação de acervos;

ocupação dos equipamentos públicos;

atração de produções externas;

coproduções regionais.

Mas existe uma condição:

o investimento precisa alcançar os realizadores sergipanos.

Não seria suficiente transformar Sergipe em cenário para produções de fora.

O Estado precisa produzir também seus próprios realizadores, técnicos, roteiristas, produtores e empresas.

A experiência de estados nordestinos que desenvolveram políticas continuadas de audiovisual demonstra a importância de financiamento público articulado com formação e infraestrutura.


Nesse ponto, o programa apresenta uma oportunidade que poderia ser estratégica para Sergipe.


Juventude Criativa: talvez seja necessário ir além do empreendedorismo

A proposta voltada aos jovens inclui audiovisual, música, games, design, produção digital, startups culturais e empreendedorismo criativo.

É contemporânea e dialoga com novas formas de produção cultural.

Mas é importante não transformar todo jovem artista em empreendedor por obrigação.

Nem todo jovem que produz cultura deseja abrir uma empresa.

Há jovens interessados em criação, experimentação, coletividade, cultura periférica, hip-hop, audiovisual comunitário, teatro, dança, literatura, cultura digital e outras formas de expressão.

Uma política de juventude cultural precisa contemplar tanto o empreendedorismo quanto o direito à criação e à participação cultural.

Artesanato: da valorização simbólica à geração de renda

O programa “Artesanato que Gera Renda” combina qualificação, comércio eletrônico, feiras, exportação e certificação de origem.

Aqui existe uma combinação interessante entre valorização cultural e desenvolvimento econômico.

O artesanato pode ser patrimônio, identidade e atividade econômica simultaneamente.

Mas a política precisa proteger os artesãos da simples transformação de suas criações em produtos turísticos padronizados.

A certificação de origem pode ser um instrumento importante para valorizar territórios e saberes.

A comercialização digital também pode ampliar mercados.

Mas a política deve garantir que o artesão seja o principal beneficiário da cadeia econômica.

Fundo Estadual de Cultura e Turismo: aqui está uma questão decisiva

Talvez uma das propostas mais importantes seja a criação ou ampliação do Fundo Estadual de Cultura e Turismo.

Porque qualquer programa cultural precisa responder à pergunta:

de onde virá o dinheiro?

O Blog da Cultura já levantou essa questão em relação à política cultural de Sergipe e chamou atenção para a necessidade de uma visão de longo prazo, com orçamento e governança sistêmica.

Não basta depender de recursos federais extraordinários.

A Política Nacional Aldir Blanc é fundamental e representa uma fonte importante de recursos continuados, mas o Estado precisa construir sua própria capacidade de financiamento.

Por isso, o Fundo Estadual precisa ter:

recursos definidos em lei;

fontes permanentes;

critérios públicos;

transparência;

participação social;

calendário de editais;

mecanismos de acompanhamento;

distribuição territorial dos recursos.

Sem isso, o fundo pode ser apenas uma estrutura administrativa.

Com isso, poderá se transformar em instrumento de política cultural de Estado.

Governança: o ponto em que o programa precisa avançar

É aqui que a comparação com a agenda do Blog da Cultura se torna mais crítica.

O programa apresenta um Observatório do Turismo e da Economia Criativa, propõe inteligência de dados, planejamento e avaliação.

Isso é positivo.

Mas onde está o mecanismo equivalente de governança democrática da cultura?

Quem participa das decisões?

Qual será o papel do Conselho Estadual de Cultura?

Como será escolhida a representação da sociedade civil?

Haverá eleições por segmentos culturais?

Haverá representação territorial?

Como os Pontos de Cultura participarão?

Como serão realizadas as conferências?

O Blog da Cultura recentemente voltou a esse assunto ao questionar a atual estrutura do Conselho Estadual de Cultura e perguntar aos dois candidatos à reeleição se pretendem revisar a Lei nº 8.775/2020 para democratizar a escolha dos representantes da sociedade civil.

Essa é uma questão diretamente relacionada ao programa de Valmir.

Um governo pode criar muitos programas.

Mas quem participa da definição desses programas?

Essa pergunta é tão importante quanto saber quais programas serão criados.

Observatório: dados para quê?

A criação de um Observatório do Turismo e da Economia Criativa pode ser uma boa iniciativa.

Mas o conceito deveria ser ampliado.

Sergipe necessita de inteligência não apenas para o turismo, mas também para a cultura.

Precisamos saber:

quanto o Estado investe em cultura;

onde os recursos são aplicados;

quais municípios recebem recursos;

quais segmentos culturais são contemplados;

quantos trabalhadores culturais existem;

qual a participação econômica do setor;

quais equipamentos funcionam;

quais políticas apresentam resultados;

quais territórios permanecem desassistidos.

Sem dados, a política cultural fica refém de impressões.

Com dados, pode ser planejada e avaliada.

Mas os dados também precisam ser públicos.

São João: política cultural ou política de eventos?

O programa propõe transformar o São João de Sergipe em política permanente de desenvolvimento econômico, fortalecendo artistas, quadrilhas, municípios e circuitos culturais.

A proposta é interessante porque ultrapassa a lógica de um evento isolado.

Mas será preciso definir o que significa “política permanente”.

Se for apenas garantir grandes festas todos os anos, continuaremos dentro da lógica de eventos.

Se significar apoiar durante todo o ano:

quadrilhas, grupos folclóricos, músicos, compositores, artesãos, costureiras, cenógrafos, técnicos, produtores, espaços culturais e municípios, então teremos uma política cultural efetivamente estruturante.

A diferença está justamente aí.

Turismo de base comunitária: uma boa conexão com cultura e território

A proposta de turismo de base comunitária envolvendo comunidades quilombolas, ribeirinhas, indígenas e tradicionais é potencialmente muito relevante.

Ela aproxima turismo, cultura, território, sustentabilidade e inclusão produtiva.

Mas exige cuidado.

Comunidades tradicionais não podem ser transformadas em simples “produtos turísticos”.

A participação dessas comunidades precisa ser efetiva e respeitar seus direitos, conhecimentos, formas de organização e autonomia.

O turismo deve beneficiar as comunidades e contribuir para a preservação de seus modos de vida.

Não pode produzir uma nova forma de exploração cultural.

A grande diferença em relação ao programa de 2022

Se em 2022 o Blog da Cultura apontava que Valmir tratava a cultura de maneira dependente do turismo e da economia criativa, o programa de 2026 apresenta uma estrutura muito mais robusta.

Agora existem programas específicos para patrimônio, museus, cultura popular, interiorização, audiovisual, artesanato, juventude, financiamento e formação.

Isso precisa ser reconhecido.

Mas a pergunta mudou.

Em 2022, perguntávamos:

“O que Valmir pretende fazer com a cultura?”

Agora podemos perguntar:

“Como Valmir pretende transformar esse conjunto de propostas em uma política cultural de Estado?”

Essa é uma pergunta mais exigente.

Uma comparação necessária

Se colocarmos as propostas atuais ao lado da agenda que o Blog da Cultura vem construindo, podemos fazer uma síntese:

Dimensão Programa Valmir Agenda do Blog da Cultura Avaliação

Patrimônio cultural Forte Forte 🟢 Grande convergência

Mestres da cultura Forte Forte 🟢 Grande convergência

Museus e memória Forte Forte 🟢 Grande convergência

Interiorização Forte Forte 🟢 Grande convergência

Audiovisual Forte Forte 🟢 Grande convergência

Artesanato Forte Presente 🟢 Boa convergência

Economia criativa Muito forte Presente, com ressalvas 🟡 Convergência parcial

Turismo cultural Muito forte Presente 🟢 Grande convergência

Turismo de base comunitária Forte Dialoga com cultura de base comunitária 🟢 Boa convergência

Grandes eventos Forte Reconhece importância, mas questiona centralidade 🟡 Convergência parcial

Pontos de Cultura/Cultura Viva Pouco explícito Estratégico 🔴 Lacuna

Conselho Estadual de Cultura Pouco detalhado Questão central 🔴 Lacuna

Participação social Genérica Fundamental 🔴 Lacuna

Fundo permanente Prometido Reivindicado 🟡 Precisa detalhamento

Transparência Pouco detalhada Fundamental 🔴 Lacuna

Planejamento cultural Presente indiretamente Fundamental 🟡 Precisa aprofundamento

Avaliação de políticas culturais Observatório no turismo/economia criativa Necessária 🟡 Parcial

Democracia cultural Não detalhada Central 🔴 Lacuna

O programa cresceu. A política cultural precisa crescer junto.

A análise do programa de Valmir permite chegar a uma conclusão diferente daquela de 2022.

Não seria correto dizer que a cultura continua sendo tratada apenas como apêndice do turismo.

O programa atual é muito mais sofisticado.

Há uma visão de cultura associada ao patrimônio, à economia criativa, à formação, ao audiovisual, à juventude, ao artesanato, à inclusão produtiva e ao turismo de base comunitária.

Há, portanto, matéria-prima para uma política cultural consistente.

Mas ainda falta explicitar uma dimensão fundamental:

a democracia cultural.

Não basta o governo dizer que valoriza os artistas.

É preciso criar mecanismos para que eles participem das decisões.

Não basta criar um fundo.

É preciso definir suas fontes, critérios e mecanismos de controle.

Não basta interiorizar eventos.

É preciso descentralizar recursos e poder.

Não basta modernizar museus.

É preciso garantir gestão, acervo, pesquisa, educação e acesso.

Não basta criar um polo audiovisual.

É preciso garantir que os realizadores sergipanos tenham condições de produzir.

Não basta falar em Cultura Viva.

É preciso fortalecer os Pontos e Pontões de Cultura.

A pergunta que Valmir precisa responder

O programa de governo apresenta muitas respostas.

Mas as perguntas mais importantes continuam sendo aquelas relacionadas à institucionalidade.

Valmir pretende democratizar o Conselho Estadual de Cultura?

Pretende revisar a Lei nº 8.775/2020?

Defenderá eleições diretas para os representantes da sociedade civil por segmentos e territórios?

Qual será o orçamento próprio da cultura?

Como funcionará o Fundo Estadual de Cultura e Turismo?

Qual será o lugar da Política Nacional Cultura Viva?

Haverá recursos estaduais permanentes para os Pontos de Cultura?

Como será garantida a participação dos municípios e dos agentes culturais na formulação das políticas?

Qual será a política de longo prazo para o audiovisual sergipano?

Como os investimentos serão distribuídos territorialmente?

Essas perguntas não diminuem o programa.

Ao contrário.

Ajudam a transformá-lo em uma proposta mais concreta.

Cultura como direito, patrimônio e futuro

O maior mérito do programa de Valmir de Francisquinho é apresentar uma visão mais ampla da cultura do que aquela identificada pelo Blog da Cultura em 2022.

Agora é possível encontrar uma estratégia que articula patrimônio, produção cultural, economia criativa, turismo, formação e desenvolvimento territorial.

Mas uma política cultural verdadeiramente democrática precisa dar um passo além.

Precisa reconhecer que cultura não é somente um setor econômico.

É direito.

É memória.

É identidade.

É educação.

É criação.

É participação.

É convivência.

É território.

É cidadania.

E, justamente por isso, não pode ser construída somente dentro dos gabinetes.

O próximo governo terá diante de si uma oportunidade importante: transformar boas ideias em instituições permanentes, recursos previsíveis, participação social e políticas capazes de sobreviver às mudanças de governo.

O programa de Valmir avançou muito no “o quê”.

Agora é preciso avançar no “como”, “com quanto”, “para quem”, “com quem” e “quem decide”.

É nessa passagem — da proposta para a política de Estado — que será possível medir a verdadeira dimensão do compromisso com a cultura de Sergipe.

E essa deve ser uma cobrança não apenas ao candidato Valmir de Francisquinho, mas a todos os que pretendem governar Sergipe.

Porque, no final das contas, uma política cultural democrática não se faz apenas para o povo. Faz-se também com o povo e, especialmente, com aqueles que produzem cultura todos os dias nos territórios sergipanos.

Para a análise comparativa que fiz do programa de Valmir de Francisquinho, utilizei principalmente estes textos do Blog da Cultura. Alguns serviram para comparar as propostas originais de 2022; outros, para confrontar as promessas com questões que surgiram durante a gestão.

1. Programa de Governo de Valmir de Francisquinho — fonte primária das propostas de 2026.

2. Artigo do Blog da Cultura sobre os programas dos candidatos de 2022 — comparação histórica direta.

3. Artigo sobre os Conselhos de Cultura e a participação social — 2026 — governança e democracia cultural.

4. Artigo de Célio Turino sobre Cultura Viva — referência conceitual para Pontos de Cultura e cultura comunitária.

5. 4ª Mostra Arte e Cidadania — cultura de base comunitária — referência sobre cultura comunitária e continuidade das políticas.


Entre promessas e políticas de Estado: o que o programa de Fábio Mitidieri responde — e o que ainda falta responder na cultura de Sergipe

 Por Zezito de Oliveira

Análise compara propostas de Fábio Mitidieri para a cultura com diagnósticos publicados pelo Blog da Cultura

As propostas do governador e candidato à reeleição Fábio Mitidieri para a área da cultura apresentam convergências com demandas que vêm sendo apontadas pelo setor cultural sergipano, como interiorização, financiamento, preservação do patrimônio e valorização dos equipamentos culturais. Ao confrontar o programa do candidato com análises publicadas pelo Blog da Cultura antes e durante sua gestão, a pesquisa identifica avanços e pontos de aproximação, mas também desafios ainda sem resposta clara, especialmente nas áreas de participação social, transparência, fortalecimento dos Pontos de Cultura e construção de mecanismos permanentes de financiamento e governança cultural. 

  

Minha resposta foi elaborada a partir da análise do Programa de Governo de Sergipe 2027-2030, especificamente do eixo "Cultura e Sergipanidade". O programa de cultura do candidato Fábio Mitidieri apresenta uma abordagem abrangente, com foco em democratização do acesso, valorização das tradições e fortalecimento da economia criativa. Abaixo, detalho os principais compromissos e ações previstos:

1. Cultura Viva

Fortalecimento da política estadual de cultura: Ampliação dos mecanismos de financiamento e fomento, com destaque para a Lei Estadual de Incentivo à Cultura, assegurando recursos permanentes para o setor.

Interiorização das ações culturais: Garantia de acesso equitativo às políticas públicas em todas as regiões do estado.

Valorização do patrimônio cultural material e imaterial: Foco nas culturas populares, afro-brasileiras, tradicionais e na produção audiovisual.

Criação do Centro Estadual de Conservação e Restauro do Patrimônio Cultural.

Gestão dos equipamentos culturais: Parcerias privadas e/ou com organizações da sociedade civil, simplificação do acesso aos editais e investimento na formação de gestores e agentes culturais.

Educação patrimonial: Consolidação da cultura como instrumento de inclusão social, preservação da identidade sergipana e fortalecimento da economia criativa.

2. Eventos que Movem Sergipe

Implantação do Circuito de Eventos Regionais: Rede permanente de eventos culturais, turísticos e de entretenimento nas 8 regiões do Estado, com calendário integrado entre Estado e municípios.

Descentralização e interiorização dos investimentos em cultura e turismo: Fortalecimento da identidade sergipana e ampliação do fluxo turístico.

Fortalecimento de eventos âncora: Como Arraiá do Povo, Verão Sergipe e vilas temáticas (Páscoa, Crianças, Natal), já consolidados como marcas institucionais.

Integração entre cultura, turismo, esporte, lazer e economia criativa: Redução das desigualdades regionais e consolidação de Sergipe como referência nacional em gestão de eventos públicos e valorização cultural.

3. Patrimônio que Inspira

Programa Viva-SE: Fortalecimento e ampliação da infraestrutura cultural, incluindo museus, teatros, bibliotecas e memoriais regionais.

Projetos de destaque: Museu e Largo da Gente Sergipana, Mirante Santo Antônio, Pinacoteca de Sergipe, Museu Histórico em São Cristóvão, Palácio Museu Olímpio Campos, Biblioteca Pública Epiphânio Dória, Museu do Forró, Memorial dos Náufragos, modernização dos teatros Tobias Barreto, Atheneu e Lourival Baptista, entre outros.

Exemplo de implementação:

Um artista do interior poderá acessar editais simplificados para financiamento de projetos culturais, participar de eventos regionais integrados ao calendário estadual e contar com espaços culturais modernizados para exposições e apresentações.

Resumo: O programa de cultura do candidato propõe democratizar o acesso, valorizar a identidade sergipana, investir em infraestrutura e eventos, fortalecer o patrimônio e fomentar a economia criativa, tornando a cultura um vetor de inclusão social e desenvolvimento econômico em Sergipe.


Há bastante convergência no diagnóstico e nas palavras-chave — interiorização, patrimônio, financiamento, economia criativa, integração com turismo e equipamentos culturais —, mas existe uma diferença importante entre a cultura apresentada como programa eleitoral e a cultura defendida pelo blog como política pública de Estado, sobretudo em participação social, institucionalização, transparência e mecanismos permanentes de financiamento.

Fiz a comparação considerando não apenas o texto de 2022 sobre as propostas de Mitidieri, mas também as avaliações posteriores do próprio blog sobre a gestão iniciada em 2023.

1. Fortalecimento da política estadual de cultura

Proposta:
O programa promete ampliar financiamento e fomento, criar/fortalecer mecanismos permanentes e dar destaque à Lei Estadual de Incentivo à Cultura.

O que o blog já apontava:
Em 2022, ao analisar as propostas dos candidatos, o blog reconhecia que Mitidieri falava em fortalecimento do financiamento cultural, utilização de recursos estaduais, Funcart, Loteria, Lei Aldir Blanc 2, retorno da Secretaria de Cultura e fortalecimento da Fundação Aperipê.

Posteriormente, o blog reconheceu avanços institucionais da gestão, especialmente a criação da Secretaria Especial de Cultura, a Lei dos Mestres – Patrimônio Vivo e a aproximação com o Sistema Nacional de Cultura. Também considerou a PNAB um instrumento importante por criar uma fonte de recursos federais continuados.

Mas há uma diferença crucial: o blog insiste que financiamento não é apenas disponibilizar dinheiro para editais. É necessário construir política de Estado, com planejamento, orçamento, participação e continuidade.

Nesse aspecto, a proposta de Mitidieri ainda parece mais genérica do que a agenda defendida pelo blog.


2. Interiorização

Aqui há forte convergência.

O programa fala em:

“Garantia de acesso equitativo às políticas públicas em todas as regiões do estado.”

E também propõe o Circuito de Eventos Regionais.

Isso dialoga diretamente com uma preocupação antiga do blog: a necessidade de superar a concentração da política cultural em Aracaju e levar recursos, formação, equipamentos e oportunidades ao interior.

Em 2023, inclusive, a então presidente da FUNCAP, Antônia Amorosa, afirmou que o interior deveria ser tratado como um grande espaço de possibilidades e como um “tesouro cultural” a ser descoberto, investido e valorizado. A gestão relatava a realização de oitivas e capacitações regionais para execução da Lei Paulo Gustavo.

A diferença está no conceito de interiorização.

Para o programa eleitoral, ela aparece principalmente como:

eventos + editais + turismo + circulação.

Para as análises do blog, deveria envolver também:

formação + participação social + Pontos de Cultura + equipamentos + agentes culturais locais + autonomia dos municípios + acesso permanente aos recursos.

Essa distinção é importante.


3. Cultura Viva e Pontos de Cultura

Aqui aparece uma das maiores lacunas da proposta apresentada.

O próprio título “Cultura Viva” sugere uma aproximação com a política nacional dos Pontos de Cultura. Entretanto, no texto do programa, não aparece claramente uma política estruturada para a Rede de Pontos de Cultura de Sergipe.

E isso é especialmente significativo porque o blog publicou, em 2025, uma análise bastante crítica sobre a situação dessa rede. Segundo o texto, Sergipe passou anos com uma presença limitada dos Pontos de Cultura e chegou a 2025 com grande déficit institucional no campo das políticas culturais. O artigo registra, inclusive, dificuldades na retomada da Rede Sergipe de Pontos de Cultura.

Portanto:

TemaPrograma de MitidieriCrítica/agenda do blog
Cultura Vivaaparece como eixodeveria significar política de base comunitária
Pontos de Culturapouco explícitosquestão estratégica
Interiorizaçãoforteforte
Participação comunitáriapouco detalhadacentral
Redes culturaispouco detalhadasimportantes
Continuidadeprometida genericamenteinstitucionalização é fundamental

Esse seria um ponto que mereceria ser cobrado do candidato: o que exatamente significa “Cultura Viva” no programa? Quantos Pontos de Cultura? Qual orçamento? Qual política de reconhecimento e fomento? Qual participação da sociedade?


4. Patrimônio cultural

Aqui a convergência é muito grande.

O programa promete:

  • valorização do patrimônio material e imaterial;
  • culturas populares;
  • culturas afro-brasileiras;
  • culturas tradicionais;
  • audiovisual;
  • Centro Estadual de Conservação e Restauro;
  • educação patrimonial.

O blog também trata patrimônio, memória e identidade sergipana como componentes fundamentais da política cultural.

Em 2023, por exemplo, a gestão da FUNCAP relatava levantamento dos bens tombados, inventário patrimonial e preocupação com planejamento estratégico de preservação. Também havia previsão de ações específicas para museus.

Além disso, a análise mais recente do blog sobre a “Cultura de Mitidieri” reconhece justamente a Lei dos Mestres – Patrimônio Vivo da Nossa Cultura como uma mudança importante.

Aqui o programa parece ter incorporado uma demanda que já estava presente no debate cultural sergipano.


5. Equipamentos culturais

O eixo “Patrimônio que Inspira” é talvez o que mais se aproxima das preocupações práticas levantadas pelo blog.

O programa enumera:

  • museus;
  • teatros;
  • bibliotecas;
  • memoriais;
  • Pinacoteca;
  • Museu Histórico de São Cristóvão;
  • Biblioteca Epiphânio Dória;
  • Teatro Tobias Barreto;
  • Atheneu;
  • Lourival Baptista etc.

Em 2023, a própria gestão reconhecia que havia equipamentos que precisavam de manutenção, modernização, inventário e melhor utilização. A entrevista publicada pelo blog registra a preocupação com os teatros, museus, patrimônio e com a conclusão da recuperação do Lourival Batista.

Portanto, existe uma relação bastante direta entre problemas identificados pelo blog/gestores e soluções agora apresentadas no programa.

Mas novamente aparece uma pergunta:

modernizar o equipamento é suficiente?

O blog tende a trabalhar com uma concepção mais ampla: equipamento cultural não é apenas prédio reformado; é espaço público ocupado pela produção cultural sergipana.

Essa questão aparece claramente na entrevista de 2023, quando se defendia que os equipamentos deveriam ser mais ocupados pelos artistas sergipanos.


6. Eventos: aqui está provavelmente a maior diferença de ênfase

O programa dedica bastante espaço a:

  • Arraiá do Povo;
  • Verão Sergipe;
  • Páscoa;
  • Crianças;
  • Natal;
  • Circuito de Eventos Regionais;
  • integração cultura/turismo/esporte/lazer.

Isso está absolutamente alinhado com uma característica da gestão Mitidieri que o próprio blog registrou desde 2023: a forte aposta na política de grandes eventos.

A então presidente da FUNCAP defendia explicitamente a articulação entre cultura, turismo e entretenimento e apresentava o São João como instrumento de valorização da identidade e da economia criativa.

Porém, o blog também publicou críticas à dimensão dessa política.

Em 2026, por exemplo, questionou a fragmentação dos festejos juninos entre governo estadual e Prefeitura de Aracaju e argumentou que a disputa entre grandes eventos poderia diminuir a visibilidade nacional do São João sergipano.

E já em 2023 o blog registrava críticas sobre diferenças no apoio estadual a eventos municipais, relacionando o patrocínio a questões políticas e à relação entre governo e prefeituras.

Assim, há uma diferença conceitual:

Programa:

eventos culturais = turismo + economia + identidade + desenvolvimento regional.

Crítica do blog:

eventos são importantes, mas não podem ocupar o lugar de uma política cultural permanente.

Essa talvez seja a principal questão de fundo.


7. Participação social: a principal ausência

Este é, na minha leitura, o ponto mais importante da comparação.

O programa fala em:

  • simplificação dos editais;
  • formação de gestores;
  • parcerias com organizações da sociedade civil.

Mas fala pouco — ou nada — sobre:

  • democratização dos conselhos;
  • eleições diretas dos representantes da sociedade civil;
  • conferências de cultura;
  • participação dos segmentos artísticos na formulação das políticas;
  • controle social;
  • transparência na definição das prioridades.

E isso contrasta fortemente com a tradição de análise do Blog da Cultura.

Em texto recente, publicado em 25 de agosto de 2026, o blog questionou diretamente a estrutura do Conselho Estadual de Cultura e perguntou se Mitidieri pretende revisar a Lei nº 8.775/2020 para democratizar a escolha dos representantes da sociedade civil, mediante eleições por segmentos e territórios.

Esse ponto é fundamental porque mostra que a agenda crítica atual do blog vai além de dinheiro, eventos e equipamentos.

Ela questiona quem decide a política cultural.


8. Transparência e execução dos recursos

Também existe uma diferença significativa entre prometer financiamento e garantir uma boa execução.

Em 2024, o blog publicou denúncias e manifestações de trabalhadores da cultura sobre problemas na execução dos editais da Lei Paulo Gustavo pela FUNCAP, mencionando reclamações de falta de transparência, morosidade e alterações de cronograma.

Isso é particularmente relevante para a promessa atual de:

“simplificação do acesso aos editais”.

Simplificar o edital é apenas uma parte da solução.

O problema apontado pelo setor envolve todo o ciclo:

edital → inscrição → avaliação → resultado → recurso → pagamento → execução → prestação de contas.

Portanto, uma análise crítica da proposta deveria perguntar:

  • Quanto tempo levará entre inscrição e pagamento?
  • Como serão escolhidas as comissões?
  • Haverá critérios públicos?
  • Como será feito o acompanhamento?
  • Os resultados serão publicados em formato acessível?
  • Haverá calendário anual de editais?
  • Como evitar concentração dos recursos nos mesmos grupos?

9. Conselho Estadual de Cultura e democracia cultural

Esse ponto merece uma seção própria porque não aparece adequadamente no programa que você trouxe.

O blog tem desenvolvido uma crítica bastante específica sobre o funcionamento dos conselhos de cultura em Sergipe. Em janeiro de 2026, publicou um diagnóstico sobre avanços, limites e gargalos dos conselhos estadual e municipais.

E, mais recentemente, voltou ao tema para questionar diretamente os candidatos à reeleição.

Ou seja, existe uma espécie de “agenda invisível” do debate cultural sergipano:

Não basta o governo fazer cultura; é necessário construir institucionalmente uma política cultural democrática.

Essa dimensão está muito menos presente no programa apresentado.


10. Uma síntese comparativa

Eu resumiria assim:

DimensãoProposta MitidieriBlog da CulturaGrau de convergência
Financiamento culturalForteForte🟢 Alto
InteriorizaçãoForteForte🟢 Alto
PatrimônioForteForte🟢 Alto
Equipamentos culturaisForteForte🟢 Alto
Cultura popularForteForte🟢 Alto
Economia criativaFortePresente🟢 Alto
Cultura + turismoMuito fortePresente, mas com ressalvas🟡 Médio/alto
Grandes eventosMuito forteReconhece importância, mas critica excessos🟡 Médio
Pontos de Cultura/Cultura VivaGenéricoQuestão estratégica🔴 Baixo
Conselhos de CulturaQuase ausenteQuestão central🔴 Baixo
Participação socialPouco detalhadaFundamental🔴 Baixo
TransparênciaPouco detalhadaReivindicação recorrente🔴 Baixo
Plano/planejamento de longo prazoGenéricoFundamental🟡 Médio
Democratização dos editaisPrometidaProblema recorrente apontado🟡 Médio
Controle socialNão detalhadoFundamental🔴 Baixo

A questão central

A proposta de Mitidieri parece ter absorvido várias reivindicações históricas do campo cultural sergipano, especialmente:

interiorização + patrimônio + equipamentos + financiamento + economia criativa + turismo + valorização das manifestações populares.

Isso não é pouca coisa.

Inclusive, o próprio Blog da Cultura, em sua avaliação de 2025, reconheceu mudanças positivas na institucionalidade cultural durante a gestão Mitidieri, citando a Secretaria Especial de Cultura, a Lei dos Mestres e a integração com o Turismo e a Economia Criativa.

Mas as análises do blog também permitem fazer uma crítica mais profunda ao programa:

Ele parece ser mais forte naquilo que o Estado pretende fazer pela cultura do que na definição de como a sociedade cultural participará das decisões sobre o que o Estado deve fazer.

Essa é uma diferença importante.

O programa apresenta uma política de oferta:

mais eventos + mais equipamentos + mais editais + mais patrimônio + mais turismo.

O Blog da Cultura reivindica também uma política de participação e governança:

conselhos democráticos + participação social + transparência + planejamento + Pontos de Cultura + descentralização dos recursos + controle social.

E essa segunda dimensão praticamente não aparece no texto que você trouxe.

Portanto, a pergunta mais forte a ser feita ao programa não seria simplesmente “quanto será investido em cultura?”

Seria:

“Quem vai decidir onde e como esses recursos serão aplicados?”

E, a partir daí, outras perguntas ficam inevitáveis:

  1. Haverá eleições diretas para representantes da sociedade civil no Conselho Estadual de Cultura?
  2. O governo pretende revisar a legislação do Conselho?
  3. Qual será a política estadual para os Pontos de Cultura?
  4. Haverá um calendário permanente de editais?
  5. Qual será o orçamento estadual próprio para cultura, além da PNAB e de outras transferências federais?
  6. A Lei Estadual de Incentivo à Cultura será efetivamente criada/regulamentada e com quais fontes de recursos?
  7. Como serão democratizados os equipamentos culturais?
  8. Qual será a política para artistas e produtores do interior, além da realização de grandes eventos?
  9. Como serão garantidas transparência e rapidez nos editais?
  10. Qual será o papel das conferências, fóruns, conselhos e organizações da sociedade civil na formulação da política?

Em outras palavras: o programa é bastante convergente com o diagnóstico do Blog da Cultura no “o quê”, mas ainda é muito menos claro no “como”, no “quanto”, no “quem decide” e no “como a sociedade fiscaliza”.

E essa diferença é justamente onde uma análise crítica das propostas de Mitidieri pode ficar mais interessante e menos partidária: reconhecer que várias demandas históricas foram incorporadas ao discurso governamental, mas verificar se elas estão acompanhadas de mecanismos institucionais capazes de transformá-las em políticas culturais permanentes.

 

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Para a análise comparativa que fiz do programa de Fábio Mitidieri, utilizei principalmente estes textos do Blog da Cultura. Alguns serviram para comparar as propostas originais de 2022; outros, para confrontar as promessas com questões que surgiram durante a gestão.

1. Propostas dos candidatos ao Governo de Sergipe — 2022

É a referência principal para comparar o programa eleitoral de Mitidieri com aquilo que ele propunha originalmente para a cultura.

O texto registra que Mitidieri defendia economia criativa, fortalecimento do financiamento cultural, utilização de recursos estaduais como Loteria e Funcart, alinhamento com a Lei Aldir Blanc 2, retorno da Secretaria de Cultura, fortalecimento da Fundação Aperipê e integração entre cultura e turismo.

“A cultura não tem o lugar que merece nas propostas dos candidatos ao Governo de Sergipe” — Blog da Cultura


2. “A Cultura de Mitidieri” — 2026

Este foi provavelmente o texto mais importante para a comparação, porque faz uma avaliação da política cultural da gestão Mitidieri depois de alguns anos de governo.

O artigo aborda a criação da Secretaria Especial de Cultura, a Lei dos Mestres – Patrimônio Vivo da Nossa Cultura, o alinhamento ao Sistema Nacional de Cultura e a execução da PNAB. Ao mesmo tempo, levanta questões sobre o Plano Estadual de Cultura, legislação patrimonial, Fundo Estadual de Fomento à Cultura, Conselho Estadual de Cultura, participação social e necessidade de uma política cultural de longo prazo.

“A Cultura de Mitidieri. Por Pascoal Maynard” — Blog da Cultura


3. Entrevista com Antônia Amorosa sobre a gestão cultural — 2023

Usei esse material para verificar como algumas das propostas do programa de Mitidieri estavam sendo traduzidas em ações no início do governo.

A entrevista trata de interiorização, equipamentos culturais, Lei Paulo Gustavo, calendário de eventos, relação entre cultura e turismo, São João, ocupação dos equipamentos pelos artistas sergipanos e orçamento da Funcap.

“Antônia Amorosa: O País do Forró precisa ocupar seu lugar de direito” — Blog da Cultura


4. Problemas na gestão dos editais da Lei Paulo Gustavo — 2024

Este texto foi utilizado para fazer a distinção entre a promessa de financiamento e democratização dos editais e os problemas concretos de execução apontados pelo setor cultural.

O artigo registra questionamentos dos coletivos sobre resultados preliminares, erros nas planilhas de avaliação, informações sobre a empresa contratada e transparência do processo.

“Por que tantos problemas com a gestão dos editais Lei Paulo Gustavo em Sergipe?” — Blog da Cultura


5. Cobrança por transparência nos editais da LPG — 2024

Complementa o texto anterior. Os coletivos cobravam informações sobre cronogramas e resultados dos editais da Lei Paulo Gustavo administrados pela Funcap. Foi importante para a análise do ponto “simplificação dos editais + transparência + capacidade de execução”.

“Pela transparência na divulgação dos editais LPG geridos pela FUNCAP” — Blog da Cultura


6. “A corrida de obstáculos dos fazedores de cultura...” — 2024

Utilizei este texto para reforçar a questão da capacidade institucional dos órgãos culturais para executar políticas de financiamento.

O artigo relata dificuldades enfrentadas por produtores culturais no acesso aos recursos e chama atenção para a necessidade de qualificação e estrutura dos órgãos públicos.

“A corrida de obstáculos dos fazedores de cultura para acessar os recursos da Lei Paulo Gustavo” — Blog da Cultura


7. Formação e qualificação de agentes culturais — 2024

Esse texto foi útil para a questão da formação dos agentes culturais, especialmente porque o programa de Mitidieri fala em capacitação de gestores e agentes.

O Blog registra uma experiência de formação voltada a agentes culturais de comunidades periféricas, com conteúdos sobre associações, MROSC, Lei Rouanet, Paulo Gustavo, Aldir Blanc e elaboração de projetos.

“Centro Dom José Brandão de Castro realiza oficina de formação e qualificação cultural...” — Blog da Cultura


8. Audiovisual e interiorização — 2024

Também considerei este texto para relacionar as propostas de valorização do audiovisual e das culturas afro-brasileiras e tradicionais com experiências concretas apoiadas por recursos públicos.

O artigo mostra uma experiência de mostra audiovisual realizada em Aracaju e Laranjeiras, articulando cinema, educação, antirracismo, memória e interiorização.

“Alguns frutos da Lei Paulo Gustavo em Sergipe” — Blog da Cultura


9. Participação social e conselhos de cultura — 2024

Embora não seja exclusivamente sobre Mitidieri, esse texto foi importante para a análise da democracia cultural, especialmente a questão de como a sociedade civil participa das decisões sobre política cultural.

O artigo questiona a nomeação de conselheiros sem eleição ou consulta pública e defende uma composição democrática e participativa dos conselhos de cultura.

“Nota de Esclarecimento sobre o descumprimento do Marco Regulatório Nacional da Cultura...” — Blog da Cultura


Em resumo

Os dois textos fundamentais para a comparação com o programa de Mitidieri são:

  1. “A cultura não tem o lugar que merece nas propostas dos candidatos ao Governo de Sergipe” (2022)
  2. “A Cultura de Mitidieri” (2026)

O primeiro permite fazer a comparação “o que Mitidieri prometeu”; o segundo permite fazer a comparação “o que foi realizado, quais avanços ocorreram e quais problemas estruturais continuam”. Os demais textos ajudam a aprofundar temas específicos — interiorização, eventos, financiamento, editais, audiovisual, formação, transparência e participação social.

Leia também:

Eleições 2026: veja propostas de Fábio para o governo de Sergipe

Com 34 páginas, o documento oficial lista os objetivos que o candidato pretende alcançar caso seja eleito governador.

https://g1.globo.com/se/sergipe/eleicoes/2026/noticia/2026/08/25/eleicoes-2026-veja-propostas-de-fabio-para-o-governo-de-sergipe.ghtml

Clique em propostas nesse link e baixe o programa completo.

https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/NORDESTE/SE/20322002026/260002542491/2026/SE