sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Venceu a astúcia interesseira do machado. Dom Itacir Brassiani

 

O Brasil se define como uma república democrática. República (“coisa pública”) é uma concepção de Estado baseado na igualdade de todos perante a lei, na alternância do exercício de governo, na independência dos poderes, na soberania do povo e na busca do bem comum. Democracia (“poder do povo”) é um sistema de governo no qual o poder político pertence ao povo, que o exerce diretamente ou mediante representantes que elege livremente.

No último domingo, o Brasil foi às urnas para escolher os cidadãos e cidadãs aos quais vai delegar seu direito de elaborar e aprovar leis e executar políticas que atendam seus interesses e assegurem a plena cidadania política e social a todos os cidadãos. Tanto os meios de comunicação social como os próprios agentes políticos e as autoridades constituídas gostam de proclamar em alto e bom tom que esta foi uma grande celebração da democracia.

Longe de mim negar o valor do voto universal e das eleições periódicas, transparentes e livres. O voto do empresário tem o mesmo peso que a escolha do operário. A vontade do militante vale tanto quando o voto de protesto do indiferente. Em tese, estamos livres dos sistemas autocráticos e monocráticos, pois a independência e a harmonia entre os poderes estão asseguradas. Sim, as eleições são uma grande e bela festa da democracia!

Mas, para que seja real e não uma mera formalidade, a democracia tem alguns pressupostos. E o primeiro elemento que o efetivo exercício da democracia supõe é a correta compreensão daquilo que chamamos povo e da sua vontade objetiva. Povo não é um conceito fluido e indiferenciado, mas uma maioria qualificada que se diferencia e opõe àquilo que chamamos elites (econômica, cultural, financeira, política). O poder emana dele, e está a serviço dele.

Quanto à vontade objetiva e legítima do povo, não podemos presumir ingenuamente que seja aquilo que se revela no resultado das urnas. Uma coisa é a vontade objetiva, que coincide com suas necessidades e direitos fundamentais (à vida, à liberdade, ao trabalho, à saúde, à educação, à segurança, ao bem-estar, etc.); outra é a vontade subjetiva, que sofre influência dos medos (reais ou produzidos), das ambições e das manipulações da cultura e da mídia.

O resultado das urnas reflete esta vontade manipulada pela grande mídia e pelas big techs. Mais de 90% dos brasileiros deploram a corrupção, mas os envolvidos no caso Master foram eleitos! 80% querem o fim das bets e 70% querem o fim da escala 6x1, mas os candidatos que as defendem foram os eleitos! Os trabalhadores e aposentados lutam por aumento de salários e pensões, mas elegeram políticos que são contra. As árvores da floresta tombam uma a uma, mas o machado as convenceu que é uma delas por ter o cabo de madeira...

Dom Itacir Brassiani, M.S.F.

É o atual bispo da Diocese de Santa Cruz do Sul (RS). Nascido em Soledade (RS) em 1959, iniciou a vida religiosa na Congregação dos Missionários da Sagrada Família, onde se ordenou sacerdote em 1987. É graduado em Filosofia e Teologia, com mestrado em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta (FAJE). Ao longo de seu ministério, destacou-se pela atuação na Pastoral de Rua e por cargos de liderança, tendo sido superior provincial da América Latina da M.S.F. Nomeado pelo Papa Francisco, foi ordenado e tomou posse como o quinto bispo da diocese gaúcha em 29 de setembro de 2024, atuando também como bispo referencial da Comissão Pastoral da Ação Sociotransformadora no Regional Sul 3 da CNBB. Ver menos

https://itacir-brassiani.blogspot.com/

(1) Que a (s) sua (s) melhor (es) companhia (s) esteja (m) ao seu lado para defender a democracia e uma nação solidária, tomara. duas canções para relaxar e comprometer.. Melim e Alceu Valença.

Desejo a vocês o que há de melhor: a minha companhia pra não se sentir só, porque o meu melhor lugar sempre são vocês que acreditam e lutam para o bem viver . Tomara, meu Deus, tomara que tudo que nos separa não frutifique, não valha, e que tudo que nos amarra só seja amor, malha rara. Neste segundo turno, o convite é pra gente se encontrar numa nação solidária, sem preconceitos, onde a vida boa, a brisa leve e a paz sejam direito de todos. Se as águas da Guanabara escorrem na minha cara, que escorram também o compromisso com uma nação como nós — que o seu compromisso e comprometimento seja o meu abrigo e que as nossas melhores companhias estejam ao lado da democracia. Meus amores, por favor, vem votar comigo: no dia 25 de outubro, 13. A razão da minha felicidade é ver o Brasil continuar sendo governado por um presidente solidário , com os mais ricos pagando imposto de renda e povo não pagando de otário . Tomara, meu Deus, tomara.

Zezito de Oliveira














Eu acredito na rapaziada? Manoel Godoy (*)

“Eu acredito é na rapaziada, que segue em frente e segura o rojão.

Eu ponho fé é na fé da moçada, que não foge da fera e enfrenta o leão"

Eu vou à luta é com essa juventude, que não corre da raia a troco de nada”, cantava o saudoso Gonzaguinha. Porém, vendo o quadro dos mais jovens eleitos em 2026, também acredito, pero no mucho. 



Entre os mais jovens estão Alvinho Lira (PP de Alagoas) com 20 anos, seguido por Ana Elisa (PT-MG), Sandro Filho (PP-BA) e Natália do Júnior Garimpeiro (União-MA), todos com 21 anos. Ana Elisa e Sandro foram eleitos deputados federais; Natália, deputada estadual. Na sequência aparecem Tulio Rezende (MDB-MA) e Samuel Caires (PL-MG), ambos com 22 anos, eleitos deputados estaduais. 

O mais jovem deles é filho da velha raposa Arthur Lira; Túlio Rezende é de família política tradicional do Maranhão; Samuel Caires já era vereador de Janaúba e se apresentou como candidato do Níkolas Ferreira, de 30 anos. 

O que vemos é que essa garotada representa o presente/futuro da política nacional com apenas Ana Elisa representando a esquerda e os demais jovens todos da direita tradicional. É bem o retrato do atual Congresso. O que vemos é uma juventude muito mais voltada para a dimensão conservadora da sociedade, assim como na Igreja. Como cantávamos: Minha dor é perceber, que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais. 

Podemos dizer que uma grande parcela desacreditou das perspectivas de mudança e se apegou ao que julga mais seguro. Com exceção de Ana Elisa, filha de mãe solo, devota de Santa Efigênia, por causa de sua ligação com a religião de matriz africana. Estudante de direito, pretende lutar pelas causas do povo negro e das mulheres.

Quantas vezes, em nossos encontros, muita gente afirma que só vê cabeça branca. Pois é, basta olhar com mais cuidado e você terá a resposta para a pergunta: onde está a juventude? Esta não tem mais fôlego para nossas reunião ou encontros que visam grandes reflexões. É a geração TikTok, de contatos e relacionamentos pragmáticos e instantâneos. É urgente mudarmos os nossos registros, se quisermos nos manter conectados com as juventudes da geração nativa digital. O que teremos nas novas décadas que se avizinham? Nem os mais chegados à adivinhação se arriscam a fazer afirmações categóricas. Quem viver, verá! 

(*) É um renomado teólogo, professor e sacerdote católico brasileiro, especialista em Teologia Pastoral e defensor de uma Igreja descentralizada e sinodal, alinhada ao Papa Francisco. Mestre em Teologia, ele leciona na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) em Belo Horizonte e no CEBITEPAL na Colômbia, além de possuir forte atuação digital no YouTube e engajamento junto a movimentos populares e pastorais sociais.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Começou! Mesmo sem o resultado da eleição presidencial do segundo turno. Projeto do Dep. Fed, Cap. Augusto (PL) de São Paulo propõe extinguir a ANCINE

 



🎬 O Momento Virtuoso do Cinema Brasileiro

O cinema nacional vive um ciclo de crescimento e reconhecimento internacional sem precedentes. Dados oficiais demonstram essa vitalidade:

Reconhecimento Internacional: O filme "Ainda Estou Aqui" conquistou o primeiro Oscar da história do Brasil em 2025, na categoria de Melhor Filme Internacional. Em 2026, "O Agente Secreto" venceu prêmios importantes em Cannes e no Globo de Ouro, além de ter recebido indicações ao Oscar.

Desempenho de Mercado: A participação do cinema brasileiro nas bilheterias saltou de 3,3% em 2023 para cerca de 10% em 2024-2025. Em 2025, 367 filmes nacionais foram exibidos, atraindo mais de 11 milhões de espectadores e ocupando um número recorde de salas.

Investimento e Produção: Em 2025, o setor recebeu R$ 1,41 bilhão em fomento, o maior volume da série histórica, um crescimento de 179% em relação a 2021. Atualmente, 1.556 projetos estão em execução com recursos públicos desembolsados.

Expansão: O parque exibidor atingiu o recorde histórico de 3.544 salas em operação, alcançando 12 novos municípios.

Esse cenário é frequentemente descrito como uma "convergência virtuosa" entre políticas públicas, investimento qualificado e talento criativo. A Variety e outros veículos internacionais associam esse sucesso diretamente aos investimentos e à recomposição das políticas públicas de fomento no setor.

🏛️ O Papel Estrutural da ANCINE

A ANCINE não é um órgão meramente burocrático; ela é a espinha dorsal institucional que viabiliza esse ecossistema. Suas competências são indissociáveis do funcionamento saudável do mercado:

Fomento: A agência é responsável por executar a política nacional de fomento ao cinema, gerindo os recursos de fundos como o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e as Leis de Incentivo.

Regulação e Fiscalização: Cabe à ANCINE regular e fiscalizar o mercado, garantindo o cumprimento de leis como a Cota de Tela e as obrigações do setor, além de combater a pirataria. Isso cria um ambiente de negócios previsível e equilibrado.

Acompanhamento e Coleta de Dados: A agência monitora o mercado, coleta dados estatísticos essenciais (como os divulgados no Anuário Estatístico do Audiovisual) e mantém o Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA).

⚠️ Os Riscos da Extinção

O PL 994/2026 propõe transferir essas competências para uma secretaria do Ministério da Cultura, o que geraria riscos significativos:

Perda de Autonomia e Capacidade Técnica: A ANCINE é uma autarquia especial com mandatos fixos e estrutura colegiada, o que garante autonomia e decisões técnicas. Sua substituição por uma secretaria ministerial a torna vulnerável a oscilações políticas e à burocracia, além de perder a expertise especializada de seus servidores. O PL prevê a redistribuição dos servidores para outros órgãos, diluindo o conhecimento acumulado.

Descontinuidade e Paralisação: O projeto estabelece prazos para a transição (90 dias para a nova secretaria, 180 dias para redistribuir os servidores). Esse período de incerteza pode causar interrupção de investimentos, atrasos em análises de projetos e perda de prazos, afetando diretamente os 1.556 projetos atualmente em execução.

Prejuízo ao Fomento e à Regulação: A transferência da gestão dos recursos do FSA e do FNC para o Ministério da Cultura, conforme proposto, pode politizar a alocação de verbas e enfraquecer os critérios técnicos que hoje guiam o fomento. Da mesma forma, a fiscalização e a regulação do mercado, que exigem independência e agilidade, tenderiam a se tornar menos eficazes.

Retrocesso ao "Inverno" Recente: O cinema brasileiro passou por um período de estagnação entre 2019 e 2022, marcado por cortes orçamentários e ameaças à existência da ANCINE. A recuperação atual é fruto direto da reconstrução dessas políticas. A extinção da agência sinalizaria um retorno a esse cenário de incerteza, colocando em risco toda a retomada.

Em síntese, o PL 994/2026 é prejudicial porque desmonta a arquitetura institucional que permitiu ao cinema brasileiro sair de uma crise recente e alcançar o atual patamar de excelência artística e relevância de mercado. A proposta trata um órgão regulador estratégico como um item de "racionalização institucional", ignorando que a estabilidade regulatória, a autonomia técnica e a continuidade das políticas de fomento são os pilares que sustentam o momento virtuoso que o setor vive.

Está aberta na Câmara dos Deputados uma enquete sobre o projeto que extingue a ANCINE (Agência Nacional do Cinema) e redistribui suas competências.

Sua opinião conta e leva menos de 1 minuto. Para votar:

👉 https://www.camara.leg.br/enquetes/2607415

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O que a Biblia nos fala a respeito do voto dos insensatos?

 



1. O Sofrimento Colaborativo e a Omissão (Provérbios)

O Livro de Provérbios conecta diretamente o caráter do governante ao bem-estar ou à ruína da população:

• O gemido do povo: "Quando os justos governam, o povo se alegra; quando os perversos estão no poder, o povo geme" (Provérbios 29:2). A insensatez de validar líderes perversos resulta no sofrimento de toda a sociedade.

• A cumplicidade com o crime: "Aquele que é parceiro de um ladrão odeia a sua própria alma..." (Provérbios 29:24). Apoiar ou silenciar diante de criminosos e corruptos no poder atrai para si o mesmo julgamento moral e espiritual.

• Corrupção em cadeia: "Se um governante der atenção aos mentirosos, todos os seus conselheiros serão perversos" (Provérbios 29:12). Tolerar um líder sem integridade corrompe toda a estrutura governamental abaixo dele.

2. O Alerta Histórico: O Povo Colhe o que Escolhe (1 Samuel 8)

• "Naquele dia, vocês clamarão por causa do rei que escolheram, mas o Senhor não os ouvirá" (1 Samuel 8:18). A Bíblia demonstra que Deus respeita o livre-arbítrio dos povos, mas os deixa arcar com as consequências de suas más decisões.

3. Profetas contra a Inversão de Valores (Isaías e Oseias)

Os profetas condenaram severamente as sociedades que colocavam criminosos em alta dignidade e celebravam a impunidade:

• Autonomia rebelde: "Eles estabeleceram reis, mas não da minha parte; escolheram príncipes, mas eu não o soube..." (Oseias 8:4). Oseias repreendeu o povo por colocar líderes no poder sem consultar os mandamentos e a justiça de Deus.

• Inversão moral: "Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridão luz e da luz, escuridão..." (Isaías 5:20). Escolher governantes sabidamente criminosos reflete uma cegueira moral e uma insensatez espiritual crônica.

4. O Destino dos Tronos Corruptos

A Bíblia assegura que, embora os insensatos possam elevar criminosos ao poder, tal autoridade não possui aprovação espiritual e tem prazo de validade:

• "Pode um trono corrupto se aliar contigo, um trono que forja a injustiça por decreto? Eles planejam contra a vida dos justos e condenam os inocentes à morte. Mas o Senhor... fará recair sobre eles a sua própria iniquidade..." (Salmos 94:20-23).



terça-feira, 6 de outubro de 2026

Mulheres e jovens de esquerda no congresso eleitas em 2026

 


Campeã de votos em MG, Ana Elisa defende uso das redes; mulheres de esquerda renovam Congresso.


Eleições - Ana Elisa: “A juventude precisa ocupar os lugares de poder”


E se Flávio Bolsonaro for eleito? Os riscos para a cultura viva comunitária, periférica e independente.

 Brasília — O maior risco de uma eventual Presidência de Flávio Bolsonaro para a cultura brasileira não estaria apenas no corte de recursos, mas na transformação de uma política pública de direito em instrumento de poder, capaz até de preservar a fachada institucional do Ministério da Cultura, da Lei Rouanet, da Aldir Blanc e da Cultura Viva enquanto altera o que realmente importa: quem decide, segundo quais critérios e para quem os recursos serão destinados. A hipótese, construída a partir da atuação parlamentar de Flávio, do precedente do governo Jair Bolsonaro e do programa econômico apresentado para 2026, aponta para cortes de investimentos,  menos universalidade, mais seletividade, mais peso das emendas parlamentares e mais dependência política, num país que hoje conta com o Sistema Nacional de Cultura, o Marco Regulatório do Fomento e uma rede de Pontos e Pontões de Cultura que não existiam em 2019.  

 Cultura como direito ou cultura como instrumento de poder?

Há momentos em que a política cultural parece ocupar o centro da cena, com discursos, anúncios, grandes eventos, inaugurações, festivais, fotografias com artistas e promessas de valorização da cultura brasileira, mas existe uma pergunta que deveria vir antes dos aplausos: que lugar a cultura ocuparia no Estado brasileiro se Flávio Bolsonaro chegasse à Presidência da República? Não basta imaginar  apenas a hipótese mais provável de redução do dinheiro destinado, é preciso perguntar também quem decidiria, segundo quais critérios, para quem e com que finalidade, e é justamente quando fazemos essas perguntas que o cenário mais pessimista começa a aparecer, considerando sua trajetória parlamentar, o governo de Jair Bolsonaro e as propostas econômicas e culturais apresentadas para 2026 pelo filho,  permitem construir uma hipótese de risco que merece ser discutida, e assim os riscos vão mais além do que  a redução do dinheiro destinado à cultura, mas algo mais profundo, que é a transformação da política cultural de direito em política de governo, de política pública em instrumento de seleção, de participação social em relação de dependência, de cultura viva em cultura administrada de cima para baixo.

O passado ajuda a imaginar o futuro

Flávio Bolsonaro não chega a esse debate como alguém que nunca tenha se manifestado sobre cultura, pois em 2021, como senador, defendeu a política cultural do governo Jair Bolsonaro afirmando que havia mais controle, critérios e transparência na utilização dos recursos (sic), ao mesmo tempo em que criticava o modelo anterior da Lei Rouanet, e em dezembro de 2024 sua crítica ganhou outro contorno durante a discussão de medidas de contenção de gastos, quando questionou por que a Lei Rouanet e os fundos da cultura não estavam entre os mecanismos atingidos pelos cortes, indicando uma concepção diferente daquela que orientou a construção recente do Sistema Nacional de Cultura, com menos confiança em mecanismos amplos e permanentes de fomento e maior ênfase em controle, seleção, critérios e disciplina fiscal, e seu programa econômico de 2026 reforça essa leitura ao propor uma nova regra fiscal, controle das despesas discricionárias, redução de ministérios e cargos e busca de superávits primários, sendo que o problema começa quando essa visão econômica encontra uma política cultural que, nos últimos anos, passou a construir instrumentos permanentes de financiamento e cooperação federativa.

O que existe hoje pode ser maior do que parece

É importante lembrar que o Brasil de 2027 não seria o Brasil de 2019, pois hoje existe um marco regulatório do Sistema Nacional de Cultura, com a Lei nº 14.835/2024 estabelecendo o SNC como regime de colaboração entre União, estados e municípios e reconhecendo a cultura, em suas dimensões simbólica, cidadã e econômica, como direito fundamental, assim como existe o Marco Regulatório do Fomento à Cultura instituído pela Lei nº 14.903/2024, a Política Nacional Aldir Blanc, a Cultura Viva, uma rede de Pontos e Pontões de Cultura, uma experiência acumulada de participação social e uma cultura política que aprendeu, especialmente depois da pandemia, que trabalhadores da cultura não são apenas fornecedores de entretenimento, mas são trabalhadores, comunidades, organizações, territórios e direitos, e justamente por isso uma eventual tentativa de reorientação radical da política cultural encontraria uma institucionalidade que não existia no início do governo Jair Bolsonaro.

Mas o precedente Bolsonaro não pode ser esquecido

Mas o precedente Bolsonaro não pode ser esquecido, pois quando Jair Bolsonaro assumiu a Presidência uma das primeiras mudanças foi a extinção do Ministério da Cultura, e em 2022 Jair Bolsonaro vetou as leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2.

E se o Congresso for parte do problema?

E chegamos então ao problema central, que é saber se o Congresso for parte do problema, porque o cenário mais pessimista não começa apenas com Flávio Bolsonaro, mas com a combinação entre Executivo e Legislativo, e com  um eventual governo Flávio este conseguirá formar uma ampla coalizão com PL, União Progressista, Republicanos, PSD, MDB e outros partidos do centro,  encontrando  condições políticas para implementar mudanças que Jair Bolsonaro não conseguiu realizar integralmente.

Oposição critica captação bilionária da Rouanet: ‘Deboche com os brasileiros’. Em apenas 4 meses de 2025, o Ministério da Cultura autorizou captação de quase R$2 bilhões para a medida.  https://diariodopoder.com.br/brasil-e-regioes/e01-brasil/oposicao-sobre-artistas-faturarem-r2-bilhoes-com-rouanet-deboche-com-os-brasileiros?utm_source=chatgpt.com

Quando o recurso chega ao território, quem decide?

Quando o recurso chega ao território, quem decide? Imagine um município pequeno onde existe uma quadrilha, um grupo de teatro, uma banda, um mestre da cultura popular, uma associação, um coletivo de juventude, uma rádio comunitária e um Ponto de Cultura, todos precisam de recursos, todos possuem legitimidade, mas o dinheiro é limitado, então quem escolhe? Um edital com critérios claros? Uma comissão independente? Um conselho de cultura? A comunidade? Ou a rede política que consegue chegar primeiro ao gabinete? Essa pergunta parece simples, mas ela pode decidir o futuro da política cultural brasileira, porque a descentralização pode significar duas coisas completamente diferentes: pode significar democratização ou pode significar apenas descentralização do clientelismo.

Cultura não pode voltar a ser favor

Durante muito tempo o trabalhador da cultura aprendeu a sobreviver pedindo, pedia ao prefeito, pedia ao vereador, pedia ao deputado, pedia ao secretário, pedia ao empresário, pedia ao patrocinador, pedia ao político que pudesse "dar uma força", e a política cultural contemporânea nasceu em grande medida da tentativa de superar essa lógica, pois o objetivo de um sistema público de cultura deveria ser exatamente o contrário, que é transformar favor em direito, e o edital não deveria ser uma porta aberta apenas para quem conhece o caminho, a política pública não deveria depender de padrinho, o recurso público não deveria ser apresentado como presente de um governante, e o Estado não deveria dizer "eu estou ajudando você", mas deveria dizer "você tem direito a isso, e existem regras públicas para garantir esse direito", sendo esse talvez um dos pontos mais importantes da discussão sobre Aldir Blanc e Cultura Viva.

O perigo da seletividade

Existe uma palavra muito presente no discurso político contemporâneo que é "seleção", com expressões como selecionar melhor, corrigir distorções, escolher prioridades, valorizar quem merece, dar dinheiro para quem realmente produz, e tudo isso parece razoável, e em certa medida toda política pública precisa estabelecer prioridades, mas existe uma pergunta escondida que é saber quem define quem merece, pois se a resposta estiver em critérios públicos, transparentes e verificáveis, temos política pública, mas se estiver na proximidade com o poder, temos outra coisa, e é nesse ponto que o discurso contra "privilégios" pode produzir uma nova forma de privilégio, pois pode-se combater a concentração da Lei Rouanet e criar outra concentração, pode-se criticar artistas famosos e passar a privilegiar artistas politicamente convenientes, pode-se falar em cultura nacional e transformar uma determinada concepção de Brasil em critério de acesso ao dinheiro público, e pode-se combater a velha política cultural e, sem perceber, reconstruí-la com novas palavras e velhas práticas.

O que Flávio já mostrou no debate sobre cultura?

Existe um dado que não deveria ser ignorado, que é o fato de que em 2024 Flávio apresentou uma emenda durante a discussão do marco do Sistema Nacional de Cultura para incluir a proteção de valores religiosos e a vedação de atividades de caráter político-partidário entre os objetivos do sistema, proposta que foi registrada pelo Senado durante a tramitação.



A cultura nacional pode virar uma cultura oficial?

Valorizar o patrimônio brasileiro é legítimo, valorizar os mestres da cultura popular é legítimo, apoiar tradições regionais é legítimo, preservar manifestações ameaçadas é necessário, mas existe uma fronteira que não pode ser ignorada, pois quando o Estado começa a definir quais manifestações representam a "verdadeira cultura brasileira", abre-se uma disputa política sobre a própria ideia de Brasil, e quem fica de fora? A cultura periférica? O hip-hop? A cultura LGBTQIA+? As expressões indígenas? As culturas afro-brasileiras? A contracultura? A arte experimental? O teatro político? A música independente? A cultura digital? As manifestações que incomodam? Não é necessário afirmar que qualquer governo necessariamente excluiria esses segmentos, mas uma política cultural baseada em critérios ideológicos estreitos poderia produzir exatamente esse efeito, ainda que indiretamente, por meio da seleção dos beneficiários, e quando isso acontece a censura pode nem precisar aparecer como censura, podendo aparecer como critério de edital.

O problema do autoritarismo cultural

É por isso que a palavra autoritarismo precisa ser compreendida não apenas como repressão, pois existe também uma forma mais silenciosa de autoritarismo que é o poder de decidir sozinho o que merece existir, e uma política cultural democrática não exige que o Estado goste da obra, mas exige que o Estado assegure condições para que a sociedade produza sua própria cultura, e o papel público deveria ser criar condições, não escolher previamente o pensamento que será considerado legítimo, não transformar o financiamento em prêmio de fidelidade, não fazer do governante o grande curador da cultura nacional, porque quando o governo passa a ser o grande árbitro da cultura, o artista deixa de ser cidadão e passa a ser dependente, e dependência é o terreno onde o clientelismo floresce.

O Centrão pode piorar isso?

No cenário mais pessimista o Centrão pode piorar isso,  porque o modelo de negociação política pode favorecer a distribuição particularizada de recursos, pois o parlamentar precisa mostrar resultado em sua base, o prefeito precisa entregar obras, o governador precisa anunciar investimentos, o governo federal precisa manter sua maioria, e nesse circuito um equipamento cultural pode virar obra política, um festival pode virar vitrine, um edital pode virar instrumento de influência, uma emenda pode virar propaganda, um projeto cultural pode ser associado ao nome do parlamentar que conseguiu o recurso, e pouco a pouco a cultura deixa de ser apresentada como direito e volta a ser apresentada como favor.

A emenda parlamentar é o novo padrinho?

Esta talvez seja uma das perguntas mais incômodas: a emenda parlamentar é o novo padrinho? Durante muito tempo o padrinho era o político que conseguia uma verba, mas hoje em um sistema muito mais sofisticado a intermediação pode acontecer por meio das emendas parlamentares, e a emenda é um instrumento legítimo do processo orçamentário, sendo que o problema não está em sua existência, mas está na possibilidade de que uma política pública nacional seja substituída por uma coleção de iniciativas vinculadas à capacidade de cada parlamentar de conseguir recursos, e se isso acontecer na cultura teremos uma inversão, pois em vez de o Estado formular uma política cultural para os territórios, os territórios passarão a procurar políticos capazes de levar recursos para eles, o que é uma diferença enorme, já que no primeiro modelo o direito vem antes do padrinho e no segundo o padrinho vem antes do direito.

E a austeridade?

Existe ainda outra contradição, que é o fato de que o programa econômico de Flávio propõe redução de despesas, novo regime fiscal e controle das despesas discricionárias, enquanto a cultura depende justamente de uma parcela importante dessas despesas discricionárias para manter programas, editais, instituições e ações de fomento, e se houver forte contenção fiscal a pergunta será inevitável: onde será feito o corte? Se a resposta for reduzir os programas universais e manter apenas projetos considerados prioritários pelo governo, aumenta a importância da seleção; se a seleção for altamente discricionária, aumenta o risco de personalização; se por outro lado os recursos forem distribuídos por emendas parlamentares, aumenta a influência dos parlamentares sobre a política cultural, e chegamos novamente ao mesmo lugar, onde menos dinheiro pode significar mais poder sobre quem recebe o dinheiro, o que é uma das características mais preocupantes do cenário pessimista.

E a Rouanet?

A crítica à Lei Rouanet também precisa ser examinada nesse contexto, pois Flávio já criticou o modelo de financiamento e defendeu maior controle sobre os recursos, e é possível reformar a Rouanet, é possível discutir concentração regional, é possível discutir democratização do acesso, é possível discutir mecanismos de prestação de contas, é possível aperfeiçoar critérios, mas uma reforma pode caminhar em duas direções, podendo tornar o sistema mais transparente e democrático ou podendo substituir uma concentração por outra, e a pergunta fundamental não é "Rouanet sim ou não?", mas sim quem terá poder para decidir o que será financiado depois da reforma.

O mercado resolveria?

Outra resposta possível seria ampliar o papel do setor privado, mas existe aí uma contradição, pois o mercado tende a financiar aquilo que possui capacidade de gerar retorno financeiro ou visibilidade, e a cultura de base comunitária muitas vezes não oferece esse retorno, como o mestre que preserva uma tradição local, o grupo de teatro de periferia, a rádio comunitária, o coletivo de juventude, a cultura indígena, o pequeno ponto de cultura, o artista experimental, a atividade cultural em um município pequeno, todos podendo possuir enorme valor social e cultural sem necessariamente apresentar atratividade comercial, e se o Estado se retirar e o mercado não ocupar esse espaço, quem ficará? Provavelmente aqueles que já possuem estrutura, e aí o discurso de democratização pode terminar fortalecendo exatamente os atores que já possuem maior capacidade de captação.

Cultura Viva talvez seja o melhor teste

É por isso que a Cultura Viva será um dos melhores indicadores para observar uma eventual mudança de orientação, pois se um futuro governo fortalecer Pontos e Pontões de Cultura, simplificar procedimentos, ampliar a autonomia das organizações e garantir financiamento continuado, estaremos diante de uma determinada concepção de descentralização, mas se ao contrário, o que deverá acontecer,  reduzir recursos, aumentar a discricionariedade e transferir decisões para estruturas políticas, teremos outra coisa, e a diferença estará menos no discurso e mais na forma como o dinheiro chegará ao território, porque cultura viva não é apenas o evento que aparece no palco, mas é aquilo que continua acontecendo quando o palco é desmontado.

E a Aldir Blanc?

A Aldir Blanc é igualmente simbólica, pois sua lógica representa uma tentativa de construir financiamento cultural federativo, e a experiência de 2022 mostrou que o Congresso pode se opor ao Executivo quando este tenta interromper determinada política cultural, e um eventual governo Flávio poderia tentar revisar essa política sob a justificativa de responsabilidade fiscal, o que se tornou ainda mais improvável por causa do aumento da bancada do PL na Câmara e no Senado. 

O que pode desaparecer primeiro?

Talvez não seja o Ministério da Cultura que pode desaparecer primeiro, talvez não seja a Lei Rouanet, talvez nem a Aldir Blanc, mas o que pode desaparecer primeiro é algo menos visível, que é a ideia de que o cidadão tem direito a uma política cultural permanente.

A pergunta que fica

Talvez seja por isso que a discussão sobre cultura não possa ser separada da discussão sobre democracia, porque cultura é disputa de memória, é disputa de identidade, é disputa de narrativa, é disputa de território, é disputa de poder, e justamente por isso uma política cultural democrática não deveria perguntar apenas "quanto podemos gastar?", mas deveria perguntar "como garantir que ninguém precise pedir permissão a um padrinho para exercer seu direito à cultura?", e essa talvez seja a fronteira mais importante entre uma política cultural de Estado e uma política cultural de governo, pois a primeira cria instituições que sobrevivem aos governantes e a segunda depende deles, a primeira cria direitos e a segunda distribui oportunidades, a primeira fortalece a sociedade e a segunda pode fortalecer quem controla o Estado.

O que ficará depois do espetáculo?

Quando o palco for desmontado, quando os discursos terminarem e as redes sociais deixarem de mostrar as fotografias das inaugurações, haverá ainda uma pergunta: o Ponto de Cultura continuará funcionando? O grupo comunitário continuará existindo? O mestre terá condições de transmitir seu conhecimento? O jovem terá onde produzir? O artista terá condições de trabalhar? O município terá acesso previsível aos recursos? A sociedade civil continuará participando? Os critérios continuarão sendo públicos? Ou todos voltarão ao velho caminho, ao gabinete, ao telefonema, ao pedido, ao favor, ao "conheço alguém que pode resolver", ao político que aparece na fotografia dizendo que trouxe a verba? Se chegarmos a esse ponto, talvez o problema não seja apenas quanto dinheiro a cultura perdeu, mas será que a cultura perdeu sua condição de direito para voltar a ser moeda de troca política, e essa é a hipótese mais pessimista que precisa ser discutida, não para prever o futuro como se ele estivesse escrito, mas para reconhecer que instituições democráticas não se preservam sozinhas, pois elas precisam de regras, precisam de transparência, precisam de participação, precisam de controle social, precisam de sociedade civil organizada e, sobretudo, precisam de trabalhadores da cultura que não aceitem trocar direitos por favores, porque no final das contas a pergunta mais simples talvez seja a mais importante: queremos uma cultura que dependa de quem está no poder ou um Estado que seja obrigado a respeitar quem faz cultura? A resposta a essa pergunta dirá muito mais sobre o futuro da política cultural brasileira e sobre a escolha dos artistas e intelectuais  e amantes das arte e do conhecimento em 25 de Outubro.