Do perfil do Professor Renato Janine Ribeiro no facebook em 01/06/2026
Renato Caporali é um amigo querido, sendo que discordamos em várias coisas e concordamos em outras. Ele postou o texto que ora compartilho, a partir de conversas que tivemos no WhatsApp.
Escrevi-lhe uma longa resposta, que segue aqui (e já aviso que qualquer ofensa que façam, a ele ou a mim, será deletada e o autor, bloqueado. Críticas eu aceito bem, ofensas NUNCA):
Meu amigo, fico contente que nossa conversa, que começou no privado, se torne agora pública e ainda mais que você tenha elaborado um pouco mais os seus argumentos para não votar em Lula em função justamente da nossa discussão prévia. Mas até por isso quero responder aqui a suas questões. Eu numero minhas respostas:
1. PROBLEMA INSTITUCIONAL E O PAPEL DA PRESIDÊNCIA
Em primeiro lugar, penso que temos um grande problema institucional: desde a debacle do governo Dilma, a presidência da República perdeu o papel que teve no nosso presidencialismo brasileiro e que foi seu até pelo menos o primeiro mandato de Dilma – que é o de garantir a sustentabilidade do país. Em outras palavras, lembro o que Fernando Henrique certa vez teria dito (não sei se disse mesmo ou não): depois de um julgamento no Supremo Tribunal Federal dando ganho de causa a aposentados ou pensionistas, ele teria dito: "Eles, os ministros do Supremo, não pensam no Brasil".
A frase é dura, mas na verdade o nosso sistema faz com que quem pensa no Brasil – isto é, quem pensa em fazer o orçamento fechar, o orçamento equilibrado – é a presidência da República (não o indivíduo necessariamente, mas o cargo, a função). O Legislativo e o Judiciário decidem por conta própria: eles mais criam gastos do que receitas – com frequência retiram receitas e aumentam as despesas.
O problema disso tudo é que resta ao chefe do Poder Executivo fazer o equilíbrio. Isso foi feito com razoável eficácia por Fernando Henrique Cardoso a partir do Plano Real, quando as contas se tornaram mais transparentes (porque no tempo da grande inflação era praticamente uma brincadeira lidar com elas). Lula e Dilma fizeram isso no primeiro mandato, mas quando ela perdeu o apoio político – e não vou entrar aqui na discussão de quem foi culpado – a coisa desandou. É significativo que, tão logo ela tenha sido reeleita, já em fevereiro de 2015, Eduardo Cunha aprovou a emenda constitucional que cria as emendas parlamentares de execução obrigatória. Isto é, uma parte crescente do orçamento da União é retalhada entre os 513 deputados e 81 senadores, e nenhum dos colegas – muito menos o presidente da República – pode deixar de pagar esse dinheiro deliberado em absoluta soberania por cada indivíduo.
A meu ver, essa divisão de uma parte grande do orçamento em 594 feudos rompe com os princípios republicanos e democráticos. Até agora o Supremo não se pronunciou a respeito; espero que ele declare em algum momento inconstitucional isso, que criou um problema muito grande, enfraqueceu a presidência da República e, pior, o País. A gente teve isso ainda mais naquele período do impeachment, em que Eduardo Cunha se tornou todo-poderoso, e depois, dado o fato de que ele não era um santo de se rezar, o Supremo pegou esse papel. Temos hoje uma situação em que o Legislativo e o Judiciário pegaram muito do poder presidencial.
Esta aliás é já uma resposta ao que você diz sobre a incapacidade do Lula para segurar esse retalhamento das emendas. Não podemos esquecer que isso foi introduzido pelo Eduardo Cunha para derrubar Dilma, foi mantido por Temer quando tentou segurar (e conseguiu segurar seu mandato a qualquer custo depois das denúncias sobre a Odebrecht), e finalmente foi levado ao caos por Jair Bolsonaro, que não tinha nenhum projeto para o país, a não ser as vantagens de sua família. Então esse é o primeiro ponto.
Isso torna muito difícil recuperar o sistema político brasileiro. Alguns chamam de semiparlamentarismo, mas eu creio que não é: na verdade é um parlamentarismo sem responsabilidade e um presidencialismo sem autoridade. Juntamos, assim, o pior de dois mundos. Para atender à tendência dos brasileiros de votar em indivíduos e não em partidos, o melhor para nós é o presidencialismo. A longo prazo poderemos construir um parlamentarismo, mas isso exigiria que os nossos parlamentares se tornassem responsáveis – o que, por sua vez, exigiria que os eleitores votassem para o parlamento com a mesma convicção com que votam para o executivo.
Por ora, o melhor é a gente tentar recuperar o presidencialismo, e não vejo no atual quadro político ninguém mais apto do que Lula para segurar isso, até pelo seu carisma, pela sua liderança. Ele não é o culpado do fraturamento do orçamento, e também não vejo ninguém mais capacitado para essa tarefa ingrata de tentar recompor um sistema político funcional no Brasil – que só vejo como sendo o presidencialismo de coalizão (não temos alternativa, porque a sociedade quer um sistema pluripartidário). Mas, se o presidente tiver autoridade (o que não quer dizer despotismo), ele consegue tocar a coisa, como conseguiram Fernando Henrique, Lula e Dilma no primeiro mandato.
2. SITUAÇÃO ECONÔMICA E DISTRIBUIÇÃO DE RENDA
Quanto à descrição da situação econômica que você efetua, ela parece correta. Lembrar que temos pleno emprego – que é um êxito do atual governo – mas também uma elevada inflação. Segundo você, isso se deve às críticas de Lula ao presidente do Banco Central, etc. Não entrarei nesse ponto porque não sou economista, mas diria apenas que acho pertinente a sua colocação final nesse parágrafo sobre economia: quando você diz que o governo Lula está efetuando uma distribuição de renda sem tirar dos ricos, e que isso de fato é um erro.
Uma crítica – de esquerda, aliás – ao governo Lula: ele deveria ter a capacidade, a coragem e apoio político suficiente para efetuar uma efetiva redistribuição de renda – não apenas, segundo você, endividar-se para melhorar a condição dos mais pobres, mas realmente efetivar uma política de cobrar de quem tem rendimentos mais elevados, patrimônio mais elevado, para que esse dinheiro vá para os pobres.
E eu penso que aí você concordaria comigo que a melhor destinação não seria no bolso, direto para ir para consumo, e sim na educação e na saúde pública. Na verdade, os governos do PT foram muito fortes nestes dois aspectos – acho que esse mérito existe. Eu gostava muito, sobretudo quando foi ministro da Educação, do Pronatec: um programa que visa formar em educação técnica pessoas que então possam aumentar seu salário, sua remuneração no próprio mercado, e ao mesmo tempo capacitar as nossas empresas a serem mais desenvolvidas, mais avançadas, mais competitivas não só nacional mas internacionalmente.
Na saúde pública, o governo Lula também foi muito bom. Outro programa que estava no MEC de que eu gosto muito é o Mais Médicos, que conseguiu atender multidões, sobretudo no que você chama de Sertão, nos lugares afastados que antes eram totalmente desprovidos de atendimento médico. Finalmente, quando você fala que não vota em Lula nem em Flávio Bolsonaro, mas que no caso de ter que escolher entre os dois vota em Lula, eu só posso te cumprimentar por isso – porque significa que, no caso extremo de a família querer voltar a mandar no Brasil, você estaria do lado democrático. Eu não esperava outra coisa de você. Você sabe que eu não aplaudo o seu voto em Kalil e Zema, mas eu respeito pelas suas convicções democráticas – apenas não acho que os dois representem uma diferença significativa em relação ao Bolsonaro.
3. ÉTICA DEMOCRÁTICA E PRIORIDADE NA JUSTIÇA SOCIAL
Quanto à educação moral e cívica de que você fala, ou ética republicana – eu prefiro a ética democrática republicana. Sei que esse é um ponto que você sempre insiste, e eu acho que de fato faz sentido. A gente se conheceu aliás e trabalhou juntos quando você me convidou pelo SESI para elaborarmos um programa de curso de ética para as escolas de ensino médio do SESI. A gente elaborou, trabalhou juntos com outras pessoas também, e que infelizmente não teve a difusão que teria sido possível e necessária. Mas creio que a questão ética é muito importante.
O que eu frisaria: primeiro, não entendo ética apenas como "não furtarás, não matarás, não falarás mal do próximo", etc. Entendo ética como "sim": eu lutarei para melhorar a vida de todos, para a vida dos meus próximos. Quer dizer: não estou apenas deixando de fazer coisas erradas; estou procurando fazer as coisas boas.
No Brasil, a questão prioritária na ética divide um pouco as opiniões. Diria que, de modo geral, a direita tem tendência a resumir a questão ética na crítica à corrupção. Eu entendo que a prioridade num país como o Brasil, marcado pela injustiça social, é acabar com a injustiça social. A corrupção também precisa ser coibida, mas eu não diria que ela é a prioridade zero. Haja vista que o grupo da Lava Jato tanto instrumentalizou politicamente o combate à corrupção – tentou pegar o dinheiro da Petrobras para fazer uma fundação em benefício de ações políticas do seu grupo – e que depois, quando tiraram as máscaras, foram em massa para a extrema-direita, que no Brasil faz questão de recusar toda e qualquer proposta de justiça social.
Esta é outra semiconvergência – ou divergência – entre a gente.
Grande abraço.
Renato Caporali
Um muito estimado amigo de ideias, meu Xará, me convoca a explicitar as razões da minha terminante recusa em votar em Lula nestas eleições - à exceção de uma única situação, trágica, que exporei ao final.
A primeira e importantíssima razão para não votar em Lula é que ele hoje vive, se alimenta da polarização política brasileira. Foi o fundador dela, nos tempos heroicos do nós contra eles, alimentou-a até surgir Bolsonaro, e hoje ainda se nutre dos restos apodrecidos dela. Se nós queremos devolver um pouco de harmonia à política na sociedade brasileira, temos de encontrar outras lideranças que não Lula e Bolsonaro.
A segunda razão em ordem de importância para mim, economista de profissão, é que Lula - e de resto o PT quase todo - é negacionista em termos de ciência econômica. Negacionismo não é ruim só em saúde pública não. Lula prejudicou todo seu mandato quando, em vez de se beneficiar da tendência à desinflação provocada pela desvalorização do dólar, se lançou numa cruzada anti-Banco Central, com alvo no então presidente, que, junto com o exagero da PEC da transição, lançou o país nessa combinação de gasto fiscal crescente e taxa de juros nas nuvens. Lula quer colocar a fórceps os pobres no orçamento sem mexer no quinhão dos ricos, mas aí fica caro e o setor privado, já apertado por um longo ciclo de internalização de custos sociais, tem dificuldade para bancar.
Como resultado desse processo, temos essa situação esdrúxula de economia em pleno emprego, gasto fiscal crescente e taxas de juros altíssimas, bem acima do patamar de dois dígitos. Aí você endivida cronicamente a população por essa taxa de juros, e gasta outro caminhão de dinheiro público para salvar a população endividada nessa taxa de juros escorchante. E retroalimenta os juros. Sem coragem para manejar mais ativamente a assistência social, faz política pública de estímulo a vício em jogatinas. Não voto em Lula porque, ainda mais do que Bolsonaro fez, está politizando a política econômica para vencer as eleições, e isso não é bom para a república.
Finalmente, não quero votar em Lula porque o PT hoje é um partido conservador em ideias, que só assume temas em que fica ideologicamente confortável. Me refiro a alguns temas que o partido simplesmente não consegue endereçar reflexão séria: na segurança pública, que demorou vinte anos pelo menos a decidir titubeantemente enfrentar; na educação, por exemplo, em que o partido não consegue reconhecer uma necessidade que três quartos da população já reconhecem, de que a educação pública enfrente o desafio da educação moral e cívica da nossa juventude - e se põem a bloquear soluções que a população, em estado de angústia com a educação dos filhos, se propõe experimentar para transmitir um pouco de ordem disciplinar a uma geração difícil.
Chamo essa tendência ideológica de acomodamento no campo das ideias de progressismo conservador.
[(outro dia o Ministro Flávio Dino, agredido verbalmente num aeroporto por funcionária da empresa, conclamou as empresas a promoverem a educação cívica para seus funcionários. Ok. Mas se torna escandaloso o Ministro do STF não conclamar a educação nacional a introduzir na base curricular do país um eixo pedagógico de educação cívica republicana. É impressionante o bloqueio da esquerda brasileira em reconhecer que o nome desse tema escolar é educação moral e cívica, sim. Que inventem outro nome, chamem de ética republicana, mas assumam que isso precisa ser feito. E reconheçam que a outra metade da população tem o direito de definir temas que ela acha que devem ser tratados. Educação moral não pode ser a difusão de uma moral nova para a sociedade toda; pode e deve ser também, mas não só. O fato de termos tido que desmontar uma educação moral e cívica reacionária e meio idiotizada pela defesa da ditadura militar não nos autorizava deixar um vazio pedagógico nesse campo da formação dos jovens que os clássicos chamavam sem titubear de "educação moral")]
Lula teve chance, mas não soube aproveitar a chance de reconhecer que havia um problema de legitimidade no seu mandato na forma como a Lavajato foi desmontada, um processo jurídico desastroso que nos colocou na iminência ter de devolver, possivelmente em bancos suíços, dinheiro roubado de empresas brasileiras. Sem reconhecer essa contradição política, Lula governou em estado de denegação - a negação de sua própria responsabilidade. E com isso não teve condições de segurar o parlamento que, através de emendas impositivas, tomou diretamente um naco do orçamento nacional, para alimentar carreiras políticas com dinheiro público, numa manifesta ruptura da igualdade republicana em direitos políticos. E torna a política um negócio muito rentável.
Lula perdeu o controle do processo legislativo no Congresso Nacional - e mais um mandato tende a ser um desastre histórico, pois a oposição vai sair fortalecida e não enfraquecida destas eleições. O tempo da hegemonia ideológica e política da esquerda brasileira e do PT em particular se exauriu. Pode até retornar no futuro, tende a voltar porque o partido tem base social ideológica, mas agora precisa se recompor na oposição. Tivesse Lula preparado a dupla Haddad-Tebet, talvez desse para chegar renovado em 2030, mas ele não teve a lucidez de reconhecer que três mandatos eram suficientes para sua glória política.
Finalmente, não voto em Lula desta vez porque acho que, em algumas circunstâncias históricas, a alternância é valor em si. Alternância é, em si e por si, democrática e republicana. Quando uma força política esgota o que pode produzir de positivo para um país, ela precisa ser substituída - e, na oposição, rever suas ideias, renovar suas propostas. Lula hoje colhe suas forças no que de pior surgiu na política brasileira nestes últimos vinte anos: uma direita capaz de trair interesses manifestos do país para manter-se com chance de alcançar o poder. Uma direita que vai a outros países pedindo que aja, que atue, até militarmente, contra o próprio país.
Por isso, no primeiro turno, proponho votar no Caiado para presidente, torcendo para que tenha Zema como vice, numa grande aliança (sertaneja) para superar esse momento histórico alimentado e realimentado por ódios mútuos. A se manterem Lula e Flávio Bolsonaro nos dois primeiros lugares, voto em qualquer um que estiver em terceiro.
E se de todo não tiver jeito e Lula for contra Flávio para o segundo turno, aí voto em Lula. Porque, não sei votar nulo, não consigo votar nulo. Nunca votei nulo porque acho que sempre existe o menos pior - e nossa responsabilidade perante a nação nos cobra tentar discernir o menos pior.
Com todos os defeitos políticos que assinalei acima, Lula é um estadista respeitado no mundo, enquanto os Bolsonaro são uma família que coloca seu domínio do processo político acima dos interesse do país e isso é um comportamento político, mais que reprovável, execrável. E faz isso com um grau de imprudência e irracionalidade nunca visto na história do país. O PT também tem isso de colocar o partido acima dos interesses do país, mas pelo menos é um partido político republicano e não uma famiglia em busca de poder total.
Centrista contumaz, pelo que andam dizendo os cientistas políticos vou ser um dos que vai decidir essa eleição. Por isso achei que era meu dever deixar meu voto claro desde logo, pois o processo eleitoral já começou, está pegando fogo e quem tem opinião tem de se expor às chamas do embate político.




