quarta-feira, 24 de junho de 2026

A Dor das Mangabeiras: Um Grito por Justiça e Reconhecimento

O eco das cercas sendo derrubadas em Barra dos Coqueiros ressoa muito além dos limites do terreno que fora prometido à Associação das Catadoras de Mangaba. O que se vê na revogação da doação, oficializada pelo Decreto nº 14.451/2025, não é apenas um ato administrativo, mas um golpe brutal na história, na dignidade e na sobrevivência de mulheres que construíram suas vidas em torno do extrativismo da mangaba.

 Foto: Saulo Coelho Nunes

A trajetória da associação é um retrato da luta constante por visibilidade. Desde a autorização da doação em 2017, através da Lei nº 859/2017, até a entrega do termo de doação em 2024, foram anos de espera e burocracia. A conquista do terreno, com cercas financiadas por emenda parlamentar, representava a materialização de um sonho: um espaço seguro para trabalhar, guardar ferramentas e fortalecer a produção. No entanto, em 2025, o prefeito Airton Martins, sob a justificativa de um "processo administrativo", decidiu rasgar esse compromisso, devolvendo à terra o status de objeto de disputa, em vez de reconhecê-la como o que é: patrimônio alimentar, ambiental  e cultural de Sergipe.

 Foto: Saulo Coelho Nunes

A perplexidade que tomou conta do município e se espalhou pelo estado é absolutamente justa. As catadoras de mangaba são guardiãs de um saber ancestral. Elas detêm o conhecimento do tempo de colheita, da preservação do solo e da identidade de um fruto que é símbolo do nosso território. Retirar delas o direito ao terreno não é apenas negar um espaço físico; é negar a importância do seu ofício, é desprezar a contribuição econômica e social que geram e é silenciar a voz de mulheres que, há gerações, sustentam suas famílias com o suor do rosto e a força das mãos.

A manifestação de repúdio e o apoio de diversas entidades demonstram que a sociedade não está alheia a esse absurdo. Este movimento de solidariedade é fundamental, pois a luta das mangabeiras é a luta de todos nós que acreditamos na justiça social e na valorização das comunidades tradicionais.

 Foto: Saulo Coelho Nunes

Neste momento, a Associação das Catadoras de Mangaba de Barra dos Coqueiros precisa mais do que palavras de apoio; precisa da certeza de que sua causa é justa e de que a legalidade será restabelecida. A revogação da doação, realizada de forma célere e sem o devido diálogo com as envolvidas, fere os princípios da confiança legítima e da segurança jurídica. 

A cultura não se resume a museus e festivais; ela está viva na relação do povo com a terra. Ao defender as catadoras, defendemos a própria alma de Sergipe. Que a voz dessas mulheres seja ouvida, que os tapumes sejam recolocados e que a justiça prevaleça, devolvendo à associação não apenas um pedaço de chão, mas o respeito que lhes é devido. A força da mangaba está na resistência, e a nossa solidariedade é a seiva que não pode faltar nessa luta.

blog da cultura

Foto: Pedro Raimundo Dos Santos

Outras manifestações de Apoio à Associação das Catadoras de Mangaba

A revogação da doação do terreno à Associação das Catadoras de Mangaba de Barra dos Coqueiros gerou uma onda de solidariedade que ultrapassou as fronteiras do município, alcançando a Assembleia Legislativa de Sergipe e mobilizando diferentes setores da sociedade civil. O apoio à causa das catadoras evidencia o reconhecimento da importância cultural, ambiental e econômica do extrativismo da mangaba para o estado.

Parlamentares se manifestam na Alese

A deputada estadual Linda Brasil (Psol) utilizou a tribuna da Assembleia Legislativa de Sergipe, em 18 de junho, para defender a preservação da área e a manutenção dos direitos da associação . A parlamentar classificou a atividade das catadoras como "uma atividade tradicional, cultural e de sustento de muitas famílias" e destacou que a Associação das Catadoras de Mangaba da Barra dos Coqueiros "é referência no movimento estadual e nacional de preservação" .

Linda Brasil também chamou atenção para a existência de emenda parlamentar destinada à proteção da área, com o objetivo de "evitar a especulação imobiliária e garantir a preservação ambiental" . Em suas palavras, a deputada reforçou a necessidade de coerência: "Não adianta utilizar o nome das mangabeiras em eventos ou ações de marketing sem, de fato, garantir a proteção da área e o apoio às trabalhadoras que dependem dela" . Ela concluiu seu pronunciamento com uma mensagem de solidariedade direta: "Minha solidariedade às catadoras de mangaba da Barra dos Coqueiros. Que a Justiça seja cumprida e que essa área seja respeitada como território de preservação e sustento" .

Em contrapartida, o deputado Adailton Martins (PSD) também se pronunciou sobre o caso, adotando uma postura de cautela . O parlamentar afirmou que as catadoras "pediram uma readequação da associação, porque hoje, pelo que foi colocado, a administração estaria concentrada em uma família" e lembrou que a doação do terreno partiu da atual gestão municipal em 2017 . Ele pediu que as informações sejam analisadas com cuidado antes de qualquer divulgação, ressaltando a importância do diálogo para o entendimento completo da realidade .

A força da mobilização da sociedade civil

O movimento das catadoras de mangaba não é recente e conta com uma história de articulação que remonta à criação do Movimento das Catadoras de Mangaba (MCM) . A organização das extrativistas sempre buscou o apoio de instituições estratégicas. Em suas primeiras ações, o MCM direcionou cartas e relatórios ao Ministério Público Federal (MPF/SE), à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ao Ibama, à Administração Estadual de Meio Ambiente (Adema-SE), ao Incra, ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) e à Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Sergipe (Semarh) . Em 2007, o movimento recebeu o apoio do MPF/SE para inserir a problemática do extrativismo na agenda oficial das instituições, e as catadoras passaram a ser representadas pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) .

Pesquisas acadêmicas têm documentado a relevância social e cultural da Associação. A criação da entidade "vem promovendo o fortalecimento da identidade dos grupos extrativistas como um instrumento jurídico e coletivo em prol da reprodução das catadoras nos seus espaços de vivência e convivialidades" . A atuação da associação é reconhecida como um ato de "resiliência, resistência e luta em defesa do território de pertença" . Estudos indicam que a mangaba é a principal fonte de renda para 75 grupos familiares no município de Barra dos Coqueiros , o que reforça o impacto socioeconômico da decisão da prefeitura.

A Associação também se consolidou por meio de políticas públicas. O Programa de Educação Ambiental com Comunidades Costeiras (PEAC), uma medida compensatória da exploração de petróleo pela Petrobras, viabilizou a construção da sede da associação no povoado Capuã, com materiais e equipamentos para o beneficiamento dos frutos . Além disso, a participação no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) permitiu que a associação fornecesse alimentos para as escolas municipais, ampliando suas fontes de renda e fortalecendo sua posição como "uma importante entidade cultural e econômica no cenário local" .

Solidariedade em defesa do território e da cultura

A revogação da doação do terreno expõe um conflito mais amplo que atinge as comunidades extrativistas de Sergipe. A pressão da especulação imobiliária, intensificada pela construção da ponte ligando Barra dos Coqueiros a Aracaju, tem reduzido drasticamente as áreas de restinga onde as mangabeiras nativas ocorrem, substituídas por loteamentos urbanos e condomínios residenciais . O cercamento de áreas e a proibição do acesso, antes livre, representam ameaças diretas à reprodução social das famílias que dependem do extrativismo .

As manifestações de apoio que chegam à Assembleia Legislativa e ecoam em diferentes setores da sociedade civil são fundamentais para dar visibilidade à luta das catadoras e cobrar do poder público a garantia de seus direitos. A defesa da Associação das Catadoras de Mangaba não é apenas a defesa de um terreno, mas a defesa de um modo de vida, de um saber tradicional e da própria identidade cultural de Sergipe.

Impasse na Barra: Catadoras de mangaba acusam prefeitura de derrubar cercas sem aviso; gestão alega inércia de 9 anos.













terça-feira, 23 de junho de 2026

O governo federal vai destinar 80 imóveis da União para a produção de 11.025 moradias populares em 44 municípios de 21 estados brasileiros.

 O governo federal vai destinar 80 imóveis da União para a produção de 11.025 moradias populares em 44 municípios de 21 estados brasileiros. A medida foi oficializada após a publicação do resultado do edital da modalidade Entidades do Minha Casa, Minha Vida, considerada a maior oferta única de imóveis da história do programa. A iniciativa permitirá que terrenos e prédios públicos atualmente sem uso sejam transformados em habitação para famílias de baixa renda organizadas por associações, cooperativas e movimentos populares.

Entre os imóveis selecionados estão áreas públicas urbanas e seis prédios do INSS que já são ocupados por famílias e passarão por processos de requalificação para se tornarem moradias permanentes. A Secretaria de Patrimônio da União terá até 150 dias para concluir a análise documental e viabilizar a contratação dos empreendimentos por meio da Concessão de Direito Real de Uso gratuita. Dos 91 imóveis inicialmente disponibilizados no edital lançado em 2025, 80 foram aprovados após análise técnica e seguirão para execução dos projetos habitacionais.

A medida reforça a política do governo Lula de utilizar patrimônio público ocioso para enfrentar o déficit habitacional e ampliar o acesso à moradia digna. A ação integra o programa Imóvel da Gente, que desde 2023 já destinou mais de 1.800 imóveis federais para políticas públicas em 638 municípios do país. Segundo o Ministério da Gestão e da Inovação, a estratégia busca não apenas ampliar a oferta de habitação popular, mas também recuperar imóveis degradados, revitalizar áreas urbanas e garantir que bens públicos cumpram sua função social.

Em Carta a Dom George Luiz, Bispo Diocesano de Propriá, Fiéis Pedem Diálogo e Revisão de Medida Contra o Religioso Frei Roberto

Na manhã deste dia 22 de junho, representantes de diversas comunidades católicas e movimentos sociais dos municípios de Poço Redondo, Porto da Folha, Monte Alegre de Sergipe, Graccho Cardoso, Gararu, Nossa Senhora de Lourdes e Canhoba estiveram na Cúria Diocesana de Propriá para protocolar uma carta dirigida ao Bispo Diocesano, Dom George Luiz.



O documento, subscrito por 493 fiéis, manifesta apoio ao Frei Roberto Eufrásio de Oliveira, missionário com longa trajetória de serviço pastoral na Diocese de Propriá, e solicita a abertura de um espaço de escuta, diálogo e reconciliação diante do anúncio de que o religioso estaria impedido de exercer atividades em parte do território diocesano.

As comunidades destacam que Frei Roberto faz parte da história da Diocese, tendo desenvolvido sua missão junto ao povo sertanejo, inspirado pelas orientações da Igreja Católica, pelo Concílio Vaticano II, pelas Conferências Episcopais de Medellín e Puebla e pela experiência das Comunidades Eclesiais de Base.

Na carta, os fiéis pedem que sejam ouvidas as comunidades envolvidas e que a situação seja reavaliada à luz da caridade pastoral, da misericórdia e do compromisso com a verdade, valores fundamentais da caminhada cristã.

Segundo os representantes das comunidades, a expressiva adesão ao documento demonstra o reconhecimento, a confiança e o apreço que os fiéis mantêm pelo trabalho missionário desenvolvido por Frei Roberto ao longo de décadas de evangelização no sertão sergipano.

Histórico de atuação

Frei Roberto Eufrásio de Oliveira, OFMCap, é um frade capuchinho e missionário Capuchinhos reconhecido por sua expressiva atuação pastoral na defesa dos povos empobrecidos, camponeses e indígenas no Nordeste brasileiro, com destaque histórico na Diocese de Propriá, em Sergipe Mangue Jornalismo. Ele é uma das figuras emblemáticas da chamada "Igreja dos Pobres" Teologia Nordeste e da aplicação das diretrizes do Concílio Vaticano II na região Teologia Nordeste. [1]
Atuação na Diocese de Propriá e Resistência
Durante as décadas de 1970 e 1980, Frei Roberto teve um papel central na organização social e religiosa no norte de Sergipe Mangue Jornalismo:
  • Opção pelos pobres: Ao lado de Dom José Brandão de Castro (primeiro bispo de Propriá), ele ajudou a estruturar as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) Mangue Jornalismo.
  • Conflitos agrários: Atuou diretamente junto à Comissão Pastoral da Terra (CPT) Mangue Jornalismo mediando conflitos contra elites latifundiárias Mangue Jornalismo. Apoiava os pequenos agricultores no "Caso Betume" Mangue Jornalismo e nas contestações contra obras da Codevasf IHU.
  • Causa Indígena: Participou ativamente da mobilização histórica de 1978 que resultou na retomada das terras sagradas dos indígenas Xokó, localizadas na Ilha de São Pedro, em Porto da Folha Mangue Jornalismo.
  • Perseguição: Em razão de seu compromisso social, foi agredido fisicamente em latifúndios Mangue Jornalismo e figurou formalmente na lista de religiosos investigados pelo aparato de repressão da Ditadura Militar em Sergipe Mangue Jornalismo.
Expansão da Ação Missionária e Legado Escritor
  • Formação na Paraíba: Nos anos 1980, estendeu seus trabalhos à Arquidiocese de João Pessoa, a convite de Dom José Maria Pires, colaborando na formação teológica e no Centro de Formação Missionária em Serra Redonda UFS.
  • Escola Missionária: Manteve colaboração estreita com o teólogo belga padre José Comblin na coordenação de escolas de formação pastoral popular Repositório UFPB.
  • Obras publicadas: Registrou os aprendizados da caminhada nos livros "Caminhando com Jesus: uma experiência missionária no Nordeste" RI UFPE e "Experiência missionária no Nordeste do Brasil: Manual do Missionário e da Missionária" Plínio Corrêa de Oliveira.
Nascido em julho de 1942 Capuchinhos, Frei Roberto celebrou mais de 50 anos de vida presbiteral Teologia Nordeste. Ele permanece reconhecido pelas comunidades de base como uma referência viva de memória histórica e compromisso social Teologia Nordeste

Veja a lista de 34 padres, freiras e leigos investigados pela ditadura militar em Sergipe. A opção da igreja pelos pobres era prova de comunismo



Inscrições abertas para oficina gratuita de iniciação teatral no Bairro Industrial

O Ponto de Cultura Ação Cultural, em parceria com a Paróquia São Pedro Pescador, abre inscrições para a Oficina de Teatro Popular, uma formação gratuita de 20 horas voltada para adolescentes a partir de 13 anos interessados em artes cênicas. A iniciativa integra o projeto contemplado pelo Edital de Chamamento Público nº 11/2024 da Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva, com participação da Funcaju e da Prefeitura de Aracaju.

Oficina de Teatro no Conjunto Jardim em 2016 - Ponto de Cultura Ação Cultura Juventude e Cidadania

Uma imersão no universo teatral

A oficina propõe uma introdução prática e teórica à arte dramática, abordando desde princípios básicos do teatro até exercícios de interpretação e construção de personagens. A ementa inclui jogos dramáticos, expressão corporal e vocal, consciência cênica, além de uma breve viagem histórica pela arte da representação.

O objetivo é que os participantes descubram suas potencialidades criativas a partir de situações cotidianas contextualizadas em sua própria realidade, desenvolvendo não apenas habilidades artísticas, mas também uma reflexão crítica sobre seu papel na comunidade.

Metodologia e resultados esperados

Com uma abordagem que valoriza a confiança, a solidariedade e a sociabilidade, a oficina estimula os jovens a se expressarem através do corpo e da fala, improvisando a partir de temas objetivos e subjetivos. O processo criativo culminará na produção de pelo menos 2 esquetes teatrais (com duração entre 10 e 20 minutos cada), que serão apresentadas na Mostra Arte e Cidadania, em escolas públicas, equipamentos culturais do bairro e arredores, igrejas e no SAME.

Entre os impactos esperados estão o fortalecimento da identidade cultural dos participantes, o estímulo ao protagonismo juvenil, a melhoria da autoestima e o desenvolvimento de habilidades criativas e comunicacionais. A iniciativa também visa contribuir para a qualificação de artistas amadores e semi-profissionais residentes no Bairro Industrial e adjacências, abrindo portas para o ingresso no mercado da cultura e da economia criativa.

OFICINEIROS/FACILITADORES

Raimundo Venâncio (ator, diretor teatral, dramaturgo e produtor cultural): Cearense radicado em Sergipe, é uma referência no teatro local com forte engajamento social. Fundou diversas companhias, dirigiu o Complexo Cultural Lourival Baptista (CCLB). Foi reconhecido como Cidadão Aracajuano (2012) e Cidadão Sergipano (2016).

Tânia Maria ("Taninha") (atriz e cantora): Artista versátil de pequena estatura, mas grande presença cênica. Atuou em comédias e dramas, sendo seu papel mais marcante o musical Billie Holiday – A Canção. Também lançou o CD Tamanho Não é Documento e participa de projetos sociais com arte preventiva.

Parceria principal: Juntos realizaram o espetáculo Billie Holiday – A Canção, com Tânia Maria como intérprete e Raimundo Venâncio como diretor. A montagem foi sucesso nacional, recebeu o Prêmio SEBRAE de Economia Criativa 2023 e teve convites para se apresentar no exterior.

Serviço

Oficina: Teatro Popular – Iniciação Teatral

Carga horária: 20 horas 

Período: Entre 10 e 29 de julho (6 dias seguidos, terça a sábado, durante a tarde)

Local: Paróquia São Pedro Pescador (Av. João Rodrigues, Bairro Industrial, Aracaju/SE)

Público: Adolescentes a partir de 13 anos, jovens e adultos interessados em artes cênicas e cultura popular, sem necessidade de experiência prévia

Vagas: 20

Inscrições:  https://docs.google.com/forms/d/1jS62fYELnBpeb9Y0XrInSS6P8jMs4ld_U1v65-eNxWA/edit

Informações: Acompanhe as novidades pelo blog da Ação Cultural e redes sociais.

Não perca essa oportunidade de descobrir seu potencial artístico e transformar sua comunidade através da arte!