terça-feira, 8 de setembro de 2026

Turista Cultural em Aracaju: O que Fazer entre os Dias 2 e 6 de Setembro?

Agente Cultura Viva de Natal faz o percurso entre a capital sergipana e a cidade histórica, onde descobre Dona Marieta e a força da queijadinha.

Recebi recentemente uma mensagem que me fez lembrar do quanto a cultura vive de encontros e afetos. Um agente Cultura Viva de Natal, entrou em contato comigo através do Mapa Cultura Viva , esteve em Aracaju a trabalho e quis  aproveitar os intervalos entre os dias 2 a 6 para conhecer um pouco da nossa cultura local.

A troca de mensagens foi breve, mas reveladora:

"Bom dia, estou chegando em Aracaju a trabalho, mas gostaria de conhecer um pouco da cultura local e quero saber o que vai ter na cidade do dia 2 ao dia 6. Fui Agente Cultura Viva em Natal e peguei o contato pelo Mapa da Cultura Viva."

Perguntei se ele havia sido agente jovem através de algum pontão, e a resposta veio rápida:

"Isso, Pontão de Cultura e Comunicação do RN. Mas hoje não sou mais, mas meu interesse permanece."

Dentro das informações que dispunha e que procurei com outros companheiros (as) da Rede Cultura Viva de Sergipe, destaquei em um dos momentos uma  visita à São Cristóvão.

Então veio o relato que mais me tocou. Nos poucos momentos livres que teve, ele conheceu São Cristóvão – a quarta cidade mais antiga do Brasil, com a Praça São Francisco  tombada como Patrimônio Mundial pela UNESCO – e se apaixonou:

"Omi, conheci São Cristóvão no único tempo livre e me apaixonei. Acabei fazendo até um documentário com Dona Marieta kkkkk. Tudo no improviso."

E finalizou com a simplicidade de quem faz cultura com o que tem:

"Obrigado pela atenção, estava bem corrido mas deu certo!"

Uma visita que merece um roteiro à altura

Para esse companheiro da rede Cultura Viva, caso retorne – e para todos os que chegam a Aracaju em busca de experiência cultural – deixo algumas dicas do que acontece na capital sergipana.

📅 Programação cultural 

Verificar programação do Teatro Atheneu, Teatro Tobias Barreto e SESC Aracaju – costumam ter espetáculos e outros tipos de atividades artisticas. 

🎬 Para cinéfilos

O Cinema do Centro, no Centro Cultural de Aracaju , ainda é um reduto da sétima arte na cidade. Vale conferir a programação da sala Walmir Silveira.

🏛️ Para quem ama patrimônio

Uma visita a São Cristóvão – a apenas 20 km de Aracaju – é imperdível. O Convento e Igreja de São Francisco, o Museu de Arte Sacra e o centro histórico são parada obrigatória. Quem sabe não sai mais um documentário improvisado como o de Dona Marieta?

🎶 Para quem curte sons

A cena musical aracajuana tem roda de samba, forró pé-de-serra, músicos de barzinho , artistas de rock e etc. 

🍽️ Para quem quer provar a terra

Não deixe de experimentar o caranguejo, o sururu e a moqueca sergipana. Os restaurantes do Mercado Municipal Antônio Franco, no Centro, são boa pedida.

O que move a cultura é o afeto

A conversa com esse agente Cultura Viva me fez lembrar que a cultura se faz com improviso, com encontro, com paixão. Não importa se o recurso é pouco ou se o tempo é curto – o que fica é a experiência, a memória e o vínculo com o lugar.

Que sua passagem por Aracaju seja tão inspiradora quanto o documentário com Dona Marieta. E que você volte sempre – para mergulhar mais fundo nessa terra de muita riqueza e diversidade cultural

Zezito de Oliveira.

Dia 06.09.2026 resolvi dar uma volta em São Cristovão com meu camarada Luan antes de retornar à Natal. Entre arquiteturas, igrejas, encruzilhadas e caminhos, cruzamos com a capoeiragem de São Cristovão, com a Casa da Queijadinha e o atelier de Nivaldo Oliveira (estava sem bateria na câmera para registro).

São Cristovão é uma potência do que é o Brasil profundo, que diz muito mais do que somos do que esse país midiático exportado escrito com "z".

A casa da queijadinha me chamou atenção, fomos provar e Martinha nos contou a história toda, junto com Dona Marieta. Que potencialidade é a tecnologia ancestral, a criatividade negra, a delicadeza e estética que leva a queijadinha. Inclusive só por se chamar queijadinha já é um ato político.

Descobrimos que aquilo era uma "pirataria", uma cópia do que seria uma queijadinha, aliás, muito melhor que o português. De quem precisava se afirmar quanto ao mundo e provar o doce do branco que depois, em São Cristovão, falavam que era doce para "preto e pobre", como disse Dona Marieta.

A forma de se colocar no lugar que merece, de se mostrar para o mundo dizendo "sei fazer melhor e sem nem ter ingredientes". Um recado do terceiro mundo vindo de São Cristóvão.

Que lindeza. Marieta sempre repetiu que é do trabalho, preguiça não cabe na casa dela, aliás, preguiça e doença de branco. Dor nas pernas é doença de branco. Para o negro não existe dor, mas também não existe o açoite. Sobra a potência, a criatividade, a força e a vontade de quem não para um segundo sequer de fazer queijadinha, por que ali está sua mãe, sua avó, sua bisavó que ela tanto queria ao lado para ver que ela conquistou uma casa na cidade alta, na praça principal e somente com a queijadinha. "Somente" porque a colonização nos faz pensar isso, mas uma queijadinha é e representa muita coisa.

Ela disse que além de queijadinha, ela era da maré. Precisei ir lá para conhecer ess e mangue que formou Dona Marieta. Se quiserem saber mais, busquem e vão até São Cristovão.

Créditos elaboração do vídeo:

Enzo dos Santos Gromzynski

Entrevista feita por:

Enzo dos Santos Gromzynski

Luan Caio Andrade Mota

Redes sociais:

Coletivo Guizo (@guizocoletivo)

Casa da Queijadinha (@casadaqueijada)

Atelier de Nivaldo (@atelier.nivaldo.oliveira)

Cinemas de rua são patrimônio cultural. Longa vida ao Cinema do Centro

 O risco de descontinuidade do Cinema do Centro, em Aracaju, anunciado pela gestora AVBR para 15 de setembro, acende um alerta sobre a sobrevivência dos cinemas de rua no Brasil. Mais do que uma sala de exibição, o equipamento é espaço de formação de público, memória afetiva e resistência cultural — e sua continuidade exige atenção imediata do poder público, especialmente do Secretário de Cultura, Paulo Corrêa, cuja trajetória na produção cultural pode ser a chave para uma solução que mantenha viva a experiência coletiva da sétima arte na capital sergipana.

Recebi agora há pouco, AQUI,  de um amigo cinéfilo e habitué do Cinema do Centro, o comunicado da AVBR — empresa que gerencia a sala em Aracaju — sobre a impossibilidade de dar continuidade às atividades a partir de 15 de setembro.



Diante disso, como amante da sétima arte, não pude deixar de solicitar ao Secretário de Cultura de Aracaju, Paulo Corrêa, atenção redobrada ao pleito. E acredito que ele ouvirá com sensibilidade, porque um dos pontos que mais me fez comemorar  sua escolha para o cargo — e já tive a oportunidade de dizer isso a ele pessoalmente — é o fato de ser uma pessoa do chão da produção cultural, o que é raro em nomeações para esse tipo de função. Inclusive, encontrei Paulo Corrêa em algumas sessões do Cine Vitória,  fechado por decisão do governo estadual.

Aracaju precisa da continuidade do Cinema do Centro. Já temos um público de nível para apresentar o que a sétima arte pode oferecer — e esse público pode ser ainda mais ampliado com as sugestões apresentadas por frequentadores qualificados da sala Walmir Silveira durante a audiência pública realizada recentemente sobre o tema.

Por que os cinemas de rua são essenciais?

Os cinemas de rua como o Cinema do Centro não são apenas salas de exibição. São:

Espaços de formação de público: criam hábito cinematográfico, educam o olhar e ampliam o repertório cultural da cidade.

Patrimônio afetivo e arquitetônico: guardam memórias afetivas de gerações e integram o paisagismo urbano com sua fachada, marquise e história.

Polos de resistência cultural: em tempos de domínio das grandes redes e do streaming, mantêm viva a experiência coletiva do cinema — a tela grande, a sala escura, o encontro com o outro.

Equipamentos democráticos: quando geridos com subsídio público ou preços populares, garantem acesso à cultura para quem não pode pagar 

Âncoras de revitalização urbana: um cinema em funcionamento movimenta o comércio, o lazer e a vida do entorno.

O fechamento de um cinema de rua não é um evento econômico isolado. É um apagamento cultural. A cidade que perde seu cinema perde um pedaço de sua alma.

Em tempo: o termo francês “habitué”, que utilizei acima, não é referência ao casal de queridos cinéfilos professores de francês da UFS — mas a outro companheiro sergipano que, como este que escreve e vocês que nos leem, aprecia o melhor de todas as artes.

Zezito de Oliveira - Editor do blog da Cultura

Chame gente para dizer o quanto o Cinema do Centro é necessário e importante. Até porque, já não temos mais  o Cine Vitória.. 

P.S.: Deixei no instagram, AQUI,  da publicação o comentário abaixo. A tendência é estrear nessa semana. 

E nós aqui esperando a estreia de Gonzaguinha - Da maior liberdade e outros filmes do cinema nacional, resultado do momento virtuoso em matéria de politicas públicas de cultura em termos de nação.. https://acaoculturalse.blogspot.com/2026/08/vamos-lotar-as-salas-de-exibicao-de.html

Cine Walmir Almeida suspende atividades por tempo indeterminado e aguarda posicionamento da Secult Aracaju             Última semana de programação será até 14 de setembro; continuidade da gestão e da operação depende de novo Termo de Cessão e de apoio público.                                                                     https://clicksergipe.com.br/cotidiano/99/110211/cine-walmir-almeida-suspende-atividades-por-tempo-indeterminado-e-aguarda-posicionamento-da-secult-aracaju.html



Sergio Amadeu explica por que eleitor é enganado e crescimento de Augusto Cury

 





segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O "Transe" de 2026: Como dois livros de 100 Anos atrás ajudam a explicar as eleições no Brasil. O homem sem qualidades e A montanha mágica.

 Por Redação Blog da Cultura



Você já teve a sensação de que, na política, a mesma atitude é considerada um crime imperdoável para um lado e algo "super normal" para o outro? Essa "régua que muda de tamanho" dependendo do político de estimação não é uma invenção brasileira de 2026. Na verdade, um escritor austríaco chamado Robert Musil explicou exatamente como isso funciona há quase um século no livro O Homem sem Qualidades.
No romance, Musil cria um país imaginário onde os políticos e os ricos vivem inventando campanhas patrióticas gigantescas, cheias de discursos bonitos, mas que não servem para resolver nenhum problema real do povo. Eles ficam tão ocupados disputando vaidades e narrativas que não percebem que o país está caminhando direto para o abismo da Primeira Guerra Mundial.
Trazer essa história para o Brasil de hoje é como olhar no espelho. Um exemplo perfeito disso é o recente escândalo do Banco Master, envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro. O caso revelou conversas e ligações financeiras dele com pessoas de todos os partidos e instituições. 
O exemplo mais impressionante envolve a própria cúpula do Judiciário: de um lado, relatórios da PF detalharam mensagens íntimas e encontros de Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes. Do outro, áudios e investigações revelaram uma aproximação e encontros parecidos de Vorcaro com o ministro André Mendonça, incluindo intermediários oferecendo agrados. Embora os dois ministros hoje troquem acusações pesadas nos bastidores do STF, ambos acabaram tragados pelas mesmas ligações estranhas com o banqueiro. 
A reação da internet e dos jornais diante disso foi exatamente o que o livro de Musil previa. Uma imagem que viralizou nas redes sociais resume bem essa hipocrisia em uma tabela irônica: 
  • Se as mensagens envolvem Alexandre de Moraes? “É ESCÂNDALO!” 🚨
  • Se os áudios envolvem André Mendonça ? “É NORMAL, não tem nada demais!” 🤷‍♂️ 
A régua muda conforme o CPF.
O Papel dos Algoritmos e das Redes Sociais
Se no século passado essa cegueira coletiva dependia de jornais impressos e fofocas de salão, hoje ela é turbinada pelos algoritmos das redes sociais. Plataformas como o TikTok, o Instagram e o Kwai não querem que você pense de forma justa; elas querem a sua atenção. E o que dá mais audiência é o ódio e a indignação seletiva.
O resultado é que a verdade perdeu o valor. As redes cortam e editam as notícias para criar duas realidades paralelas. O eleitor de um lado só recebe o vídeo que acusa o inimigo; o eleitor do outro lado só vê o conteúdo que defende o seu aliado. Ninguém quer debater soluções reais para o desemprego, a saúde ou a segurança do Brasil. A política virou um campeonato de memes onde o objetivo é destruir o adversário.
No livro, o protagonista é chamado de "homem sem qualidades" porque ele se recusa a aceitar essas verdades prontas. Ele prefere duvidar e pensar por conta própria. No Brasil atual, quem tenta fazer isso e aponta a hipocrisia e as contradições de ambos os lados é imediatamente cancelado e chamado de "isentão" pelas militâncias digitais.
A grande lição que fica é um alerta: quando a sociedade aceita que a moralidade dependa do partido ou do cargo de quem comete o erro, ela entra em um transe perigoso. Enquanto passamos o dia brigando nas redes para decidir qual autoridade tem o direito de ser blindada e qual deve ser destruída, o país continua marchando de olhos vendados em direção ao futuro.

Quer Conhecer a Obra? Veja por Onde Começar:

Para quem ficou curioso e quer se aproximar desse clássico da literatura mundial, separamos alguns caminhos:
  • Para entender o livro: O artigo da Wikipédia sobre O Homem sem Qualidades traz um excelente resumo dos personagens principais, do contexto histórico da Áustria e da estrutura do romance.
  • Para conhecer o autor: Saiba mais sobre a vida intensa e as outras obras do escritor no perfil de Robert Musil na Wikipédia.
  • Onde encontrar: O livro é longo e denso, mas muito recompensador. No Brasil, ele foi publicado em volumes pela Editora Nova Fronteira e pela Companhia das Letras, e pode ser encontrado facilmente em grandes livrarias ou sebos digitais.

E você, o que acha? Você também sente que a internet criou "dois pesos e duas medidas" para julgar os mesmos escândalos na política atual? O senso de possibilidade de Musil ainda é possível no Brasil de hoje ou fomos engolidos pelos algoritmos? Deixe sua opinião nos comentários abaixo! 👇
.De Davos à Cacânia: O Encontro com "A Montanha Mágica"
Robert Musil não estava sozinho ao diagnosticar essa cegueira coletiva. Outro gigante da literatura, o alemão Thomas Mann, escreveu na mesma época um livro chamado A Montanha Mágica (1924), que funciona como o irmão gêmeo de O Homem sem Qualidades.
Se no livro de Musil o transe acontece na agitação política das ruas de Viena, na obra de Thomas Mann a história se passa em um sanatório isolado no topo dos Alpes suíços. Lá, os personagens — que representam a elite europeia — passam anos discutindo filosofia, política e estética em debates brilhantes e polarizados. Eles vivem em uma espécie de realidade paralela, ignorando completamente que o mundo lá embaixo está prestes a explodir com a Primeira Guerra Mundial.
Tanto em A Montanha Mágica quanto em O Homem sem Qualidades, o veredicto é o mesmo: quando a sociedade se isola em bolhas de discursos, vaidades e paixões cegas — esquecendo a realidade prática e os problemas reais —, o despertar costuma ser violento. É o mesmo transe que vivemos hoje em nossos feeds do Instagram ou do X: uma elite digital discutindo narrativas enquanto o mundo real exige respostas urgentes.

Quer Conhecer "A Montanha Mágica"? Veja Como Começar:
Se você gostou da proposta de Musil, o clássico de Thomas Mann é outra leitura obrigatória para entender as crises do nosso tempo. Aqui estão algumas dicas e links para você começar:
  • Para entender o enredo: O artigo da Wikipédia sobre A Montanha Mágica oferece um panorama completo sobre o protagonista Hans Castorp, a rotina no sanatório de Davos e o famoso embate ideológico entre os personagens Settembrini e Naphta.
  • Para conhecer o autor: Descubra a trajetória do Nobel de Literatura no perfil de Thomas Mann na Wikipédia.
  • Dica de Leitura: Embora seja um calhamaço de mais de 800 páginas, a escrita de Mann é extremamente envolvente. A dica de ouro é ler sem pressa, encarando o livro como a viagem do próprio protagonista. No Brasil, a tradução mais celebrada e recomendada é a de Herbert Caro, publicada pela Companhia das Letras, facilmente encontrada em livrarias e sebos.