segunda-feira, 13 de abril de 2026

Quando o poder politico se volta contra uma voz moral, é porque não consegue contê-la.

 

Donald J. Trump investe contra o Papa Leão XIV. E com isso denuncia um profundo mal-estar. Quando o poder político se ensaia contra uma voz moral, é porque não consegue contê-la. Trump não discute com Leão: implora-lhe que retorne a uma linguagem que possa dominar. Mas o Papa fala outro idioma, que não se deixa reduzir à gramática da força, da segurança, do interesse nacional.

"Ao não poder assimilar essa voz, o poder tenta deslegitimá-la."

O artigo é de António Spadaro SJ, jesuíta, publicado por Religión Digital, 13-04-2026. 

António Spadaro (Messina, 1966) licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Messina em 1988 e doutorou-se em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana em 2000, onde lecionou na Faculdade de Teologia e no Centro Interdisciplinar de Comunicação Social. Participa como membro da lista papal no Sínodo dos Bispos desde 2014 e integra a comitiva papal nas Viagens Apostólicas do Papa Francisco desde 2016. Foi editor da revista La Civiltà Cattolica de 2011 a setembro de 2023. Desde janeiro de 2024, exerce o cargo de subsecretário do Dicastério para a Cultura e a Educação e é braço direito do prefeito, o português José Tolentino.

Eis o artigo. 


Ataque sem precedentes de Trump contra Leão: "Ele não seria Papa sem mim." Bispos dos EUA: "Doloroso"

O presidente dos EUA insulta o Papa ao partir para uma viagem histórica à África, depois que Prevost elevou a voz e convocou uma vigília de oração pela paz na Basílica de São Pedro. Bispo Coakley: "Estou com o coração partido por palavras tão depreciativas." Padre jesuíta Martin: "Anticristão."

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por La Repubblica, 13-04-2026.

Numa atitude sem precedentes, Donald Trump atacou Leão XIV pelas crescentes críticas à guerra no Irã e no Líbano feitas pelo primeiro Papa americano da história. O presidente dos EUA atacou o Pontífice diretamente com uma publicação em sua plataforma de mídia social, Truth, e com declarações diante das câmeras na véspera da histórica viagem de Prévost à África, a primeira vez que o Papa pisa em solo argelino.

https://www.ihu.unisinos.br/664699-ataque-sem-precedentes-de-trump-contra-leao-ele-nao-seria-papa-sem-mim-bispos-dos-eua-doloroso


Não sei o nome que dão hoje, mas antigamente os cristãos chamariam isso de blasfêmia


O Presidente do Irã ao Papa, "Condeno o insulto a Vossa Excelência em nome da grande nação do Irã, e declaro que a profanação de Jesus, o profeta da paz e da fraternidade, não é aceitável para qualquer pessoa livre. Desejo-te glória por Alá. " - Masoud Pezeshkian - Presidente do Irã

Papa na Grande Mesquita de Argel: podemos aprender a nos respeitar mutuamente

Um dos maiores locais de culto islâmico do mundo recebeu a visita de Leão XIV no contexto da terceira viagem apostólica do pontificado que o levou à África nesta segunda-feira (13/04). O Papa permaneceu por alguns breves instantes em reflexão silenciosa. Em diálogo com o reitor, reiterou o apelo à promoção da “paz” e do “perdão”, incentivou o valor do estudo e o respeito por cada pessoa humana. AQUI


Tradução da reflexão do Papa Leão no final da Vigília pela Paz. As referências do texto são múltiplas, diretas e indiretas. Vão desde a Guerra do Iraque, passam pelas rezas na Casa Branca de Pete Hegseth, os ultimatos de Trump, a análise de Hanna Arendt (banalidade do mal) e todo o Magistério recente da Igreja. Um texto para ser meditado e multiplicado.
Caros irmãos e irmãs:
A vossa oração é uma expressão daquela fé que, segundo as palavras de Jesus, move montanhas (cf. Mt 17,20). Agradeço-vos por terem aceitado este convite, reunindo-se aqui no túmulo de São Pedro e em tantos outros lugares do mundo para invocar a paz. A guerra divide, a esperança une. A arrogância esmaga, o amor eleva. A idolatria cega, o Deus vivo ilumina. Um pouco de fé, uma pequena faísca de fé, queridos irmãos e irmãs, basta para enfrentarmos juntos, como humanidade e com a humanidade, esta hora dramática da história. A oração, de fato, não é um refúgio para fugirmos das nossas responsabilidades, nem um analgésico para evitar a dor desencadeada por tanta injustiça. É, antes, a resposta mais livre, universal e transformadora à morte: somos um povo que já se levanta! Em cada um de nós, em cada ser humano, o Mestre interior educa para a paz, impele-nos ao encontro e inspira as nossas orações. Levantemos, então, os nossos olhos! Levantemo-nos novamente dos escombros! Nada pode nos confinar a um destino predeterminado, nem mesmo neste mundo onde os túmulos parecem insuficientes, porque a vida continua sendo crucificada e aniquilada sem justiça ou misericórdia.
São João Paulo II, incansável testemunha da paz, no contexto da crise do Iraque em 2003, disse com profunda emoção: “Eu pertenço à geração que viveu a Segunda Guerra Mundial e sobreviveu. Sinto o dever de dizer a todos os jovens, àqueles mais jovens do que eu, que não têm essa experiência: ‘Nunca mais a guerra!’, como disse Paulo VI em sua primeira visita às Nações Unidas. Devemos fazer tudo o que for possível. Sabemos muito bem que a paz a qualquer custo não é possível. Mas todos sabemos quão grande é essa responsabilidade” ( Angelus , 16 de março de 2003). Nesta tarde, faço eco ao seu apelo, tão relevante hoje.
A oração nos ensina a agir. As capacidades humanas limitadas se unem na oração às capacidades infinitas de Deus. Dessa forma, pensamentos, palavras e ações rompem a corrente demoníaca do mal e são colocados a serviço do Reino de Deus; um Reino onde não há espada, nem drones, nem vingança, nem banalização do mal, nem lucro injusto, mas apenas dignidade, compreensão e perdão. Nisso, temos uma barreira contra essa ilusão de onipotência que se torna cada vez mais imprevisível e agressiva ao nosso redor. O equilíbrio dentro da família humana está gravemente desestabilizado. Até mesmo o Santo Nome de Deus — o Deus da vida — é arrastado para discursos de morte. Assim, um mundo de irmãos e irmãs com um só Pai celestial desaparece e, como em um pesadelo, a realidade se enche de inimigos. Ameaças são percebidas em todos os lugares, em vez de chamados para ouvir e encontrar. Irmãos e irmãs, aqueles que oram estão cientes de suas próprias limitações; eles não matam nem ameaçam com a morte. Por outro lado, aquele que virou as costas ao Deus vivo, para fazer de si mesmo e do seu próprio poder um ídolo mudo, cego e surdo (cf. Sl 115,4-8), ao qual sacrifica todo o valor e pretende que o mundo inteiro se prostre diante dele, está sujeito à morte.
Basta de idolatria do ego e do dinheiro! Basta de demonstrações de força! Basta de guerra! A verdadeira força se manifesta no serviço à vida. São João XXIII, com simplicidade evangélica, escreveu que a paz beneficia a todos, “isto é, cada pessoa, cada família, cada nação, toda a família humana”. E, repetindo as palavras categóricas de Pio XII, acrescentou: “Nada se perde com a paz; tudo se perde com a guerra” (Carta Encíclica Pacem in Terris , 116).
Unamos, então, as energias morais e espirituais de milhões, de bilhões de homens e mulheres, de idosos e jovens, que hoje acreditam na paz, que hoje escolhem a paz, que curam as feridas e reparam os danos causados ​​pela loucura da guerra. Recebo muitas cartas de crianças em zonas de conflito; ao lê-las, percebe-se, com a verdade da inocência, todo o horror e a desumanidade de ações das quais alguns adultos se vangloriam com orgulho. Ouçamos a voz das crianças!
Caros irmãos e irmãs, os líderes das nações carregam, sem dúvida, responsabilidades inescapáveis. A eles clamamos: Basta! É tempo de paz! Sentem-se às mesas de diálogo e mediação, não às mesas onde se planeja o rearme e se deliberam atos de morte. Contudo, há uma responsabilidade igualmente importante para todos nós, homens e mulheres de tantos países diferentes: uma imensa multidão que rejeita a guerra, com ações, não apenas com palavras. A oração nos compromete a transformar o que resta da violência em nossos corações e mentes: convertamo-nos a um Reino de paz que se constrói dia a dia, em lares, escolas, bairros, comunidades civis e religiosas, substituindo a controvérsia e a resignação pela amizade e por uma cultura de encontro. Voltemos a acreditar no amor, na moderação, na boa governança. Eduquemo-nos e comprometamo-nos pessoalmente, cada um respondendo à sua própria vocação. Todos têm o seu lugar no mosaico da paz!
O Rosário, como outras formas antigas de oração, uniu-nos esta tarde em seu ritmo regular, baseado na repetição; assim, a paz avança, palavra por palavra, gesto por gesto, como uma rocha sendo esculpida gota a gota, como o tecido em um tear avançando movimento a movimento. Estas são as longas etapas da vida, um sinal da paciência de Deus. Não precisamos nos deixar levar pela aceleração de um mundo que não sabe o que busca, para que possamos retornar a servir ao ritmo da vida, à harmonia da criação, e curar suas feridas. Como nos ensinou o Papa Francisco, “precisamos de artesãos da paz que estejam prontos para gerar processos de cura e reconciliação com engenhosidade e ousadia” (Carta Encíclica Fratelli tutti , 225). De fato, “existe uma ‘arquitetura’ da paz, na qual as diversas instituições da sociedade intervêm, cada uma segundo sua competência, mas existe também um ‘arte’ da paz que nos envolve a todos” ( ibid ., 231).
Queridos irmãos e irmãs, voltemos para casa com este compromisso de orar sempre, incansavelmente e com profunda conversão de coração. A Igreja é um grande povo a serviço da reconciliação e da paz, avançando sem hesitação, mesmo quando rejeitar a lógica da guerra pode lhe custar incompreensão e desprezo. Ela proclama o Evangelho da paz e nos ensina a obedecer a Deus antes que aos homens, especialmente quando se trata da infinita dignidade do outro ser humano, ameaçada pelas contínuas violações do direito internacional. “Em todo o mundo, é desejável que cada comunidade se torne uma ‘casa de paz’, onde aprendamos a dissipar a hostilidade pelo diálogo, onde a justiça seja praticada e o perdão seja preservado. Hoje, mais do que nunca, é necessário mostrar que a paz não é uma utopia” ( Mensagem para o 59º Dia Mundial da Paz , 1 de janeiro de 2026).
Irmãos e irmãs de todas as línguas, povos e nações: somos uma só família que chora, que espera e que se levanta. “Nunca mais a guerra, uma aventura da qual não há retorno; nunca mais a guerra, uma espiral de luto e violência” (cf. São João Paulo II, Oração pela Paz , 2 de fevereiro de 1991).
Queridos irmãos e irmãs, a paz esteja convosco! É a paz de Cristo ressuscitado, fruto do seu amoroso sacrifício na cruz. Por isso, dirigimos a Ele as nossas orações:
Senhor Jesus,
vós vencestes a morte sem armas nem violência:
dissolvestes o seu poder com a força da paz.
Concedei-nos a vossa paz,
como a concedestes às mulheres que ficaram admiradas na manhã da Páscoa,
como a concedestes aos discípulos que se escondiam e temiam.
Enviai o vosso Espírito,
o sopro que dá vida, que reconcilia,
que transforma adversários e inimigos em irmãos e irmãs.
Inspirai em nós a confiança de Maria, vossa mãe,
que com o coração partido permaneceu aos pés da vossa cruz,
firme na fé de que ressuscitareis.
Que a loucura da guerra chegue ao fim
e que a terra seja cuidada e cultivada por aqueles que ainda
sabem dar à luz, proteger e amar a vida.
Ouvi-nos, Senhor da vida!

Live. Conjuntura religiosa

TRUMP contra LEÃO XIV. ou A PELEJA DO DIABO COM O DONO DO CÉU

Romero Venâncio (UFS)

13/4. Segunda. Às 20h

No Instagram romerojunior4503

Na Live desta segunda às 20h no Instagram romerojunior4503 discutiremos a posição do Papa Leão XIV sobre a geopolítica internacional diante da fúria alucinada de Trump... Partimos desse livro.



CNBB une-se ao Papa Leão XIV em defesa da paz e do diálogo
13/04/2026
Notas|Presidência
 
A Conferência Nacional dos Bispos  do Brasil (CNBB) publicou nesta segunda-feira, 13 de abril, uma nota de apoio ao Papa Leão XIV em razão da defesa firme do Evangelho, pelo Santo Padre, no contexto das guerras no Oriente Médio. Confira, abaixo, a íntegra da Nota da CNBB.

CNBB une-se ao Papa Leão XIV em defesa da paz e do diálogo

A autoridade espiritual e moral do Papa não se orienta pela lógica do confronto político, mas pela fidelidade ao Evangelho, que continuamente eleva a voz em defesa da paz, da dignidade humana e do diálogo entre os povos. Nesse espírito, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil une-se a Sua Santidade, Papa Leão XIV, reafirmando a comunhão e a unidade em torno desses valores evangélicos que iluminam a consciência cristã e sustentam a esperança da humanidade.


Cardeal Jaime Spengler
Arcebispo de Porto Alegre – RS
Presidente da CNBB

Dom João Justino de Medeiros
Arcebispo de Goiânia – GO
1º vice-presidente da CNBB

Dom Paulo Jackson
Arcebispo de Olinda e Recife – PE
2ª vice-presidente da CNBB

Dom Ricardo Hoepers
Bispo auxiliar de Brasília – DF
Secretário-geral da CNBB

Mensagem da Conferência Episcopal Panamenha

Pelo respeito ao ministério petrino e à missão da Igreja Católica

A Igreja que peregrina no Panamá adere, com afeto filial e firme comunhão, ao Santo Padre, o Papa Leão XIV, diante das recentes declarações de um alto dirigente político contra sua pessoa e seu ministério petrino.

O Papa, Sucessor de Pedro, não é um ator político nem responde a interesses ideológicos. Sua missão é essencialmente espiritual: confirmar na fé, guardar a unidade da Igreja e ser voz profética no meio do mundo.

Quando o Santo Padre se pronuncia sobre a paz, a dignidade humana, a justiça ou o sofrimento dos povos, não entra no terreno da confrontação política, mas exerce fielmente sua responsabilidade evangélica. 

O Evangelho não se submete a agendas humanas nem a interesses de poder.

Ao contrário, ilumina todas as realidades a partir da verdade do amor e da Misericórdia de Deus, recordando que nenhuma nação, sistema ou liderança pode se colocar acima da dignidade da pessoa humana nem do bem comum.

Por isso, toda palavra do Papa Leão XIV que convide à paz, que questione a violência ou que chame à responsabilidade ética das nações, deve ser compreendida em seu verdadeiro sentido; não como uma intromissão política, mas como um serviço à consciência da humanidade.

A Igreja não busca confrontar nem competir com qualquer autoridade. Sua missão é outra: ser sinal de unidade, promotora do diálogo e construtora da paz.

Nesse caminho, o respeito mútuo, a prudência na linguagem e a abertura ao encontro são condições indispensáveis para uma convivência autenticamente humana.

Convidamos todos — especialmente aqueles que têm responsabilidades públicas — a elevar o nível do diálogo, a evitar expressões que dividem e a reconhecer que o bem dos povos se constrói a partir da verdade, da justiça e da fraternidade.

Neste tempo pascal, no qual proclamamos que a vida venceu a morte, renovamos nossa confiança de que o Senhor continua guiando sua Igreja e sustentando a história, mesmo em meio a tensões e desafios.

“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).

Cidade do Panamá, 13 de abril de 2026.

† José Domingo Ulloa Mendieta, O.S.A.
Arcebispo Metropolitano do Panamá
Presidente da CEP

"Os padres cantores midiáticos bem que poderiam seguir os exemplos proféticos de Francisco e Leão XIV. Na verdade, é o mesmo exemplo de Jesus nos Evangelhos; como diz Atos 1:11: 'Homens da Galileia, por que ficais aqui parados, olhando para o céu?'. O texto nos convoca a sair de uma posição passiva e alienada — obviamente, sem os exageros de uma atuação religiosa focada apenas em aspectos econômicos e sociais. Com isso, poucos sofreriam de tédio ou depressão. Ficamos à espera de que esses padres reajam à blasfêmia dos governantes dos EUA e do Estado de Israel. Isso inclui não apenas o desrespeito a símbolos sagrados, como a própria imagem de Cristo no primeiro caso e a proibição da missa de Sexta-feira da Paixão na Igreja do Santo Sepulcro no segundo, mas também a violência contra milhões de vítimas inocentes das guerras no Oriente Médio perpetradas pelos países acima citados." Zezito de Oliveira - editor do blog da cultura.

Conversa

Quem reza não mata nem ameaça com a morte, mas tem consciência dos próprios limites. Em vez disso, é escravo da morte aquele que virou as costas ao Deus vivo, para fazer de si mesmo e do próprio poder o ídolo mudo, cego e surdo (Sl 115, 4-8), ao qual sacrifica todos os valores e diante do qual pretende que o mundo inteiro se ajoelhe. Basta com a idolatria de si mesmo e do dinheiro! Basta com a ostentação da força! Basta com a guerra! A verdadeira força manifesta-se no serviço à vida. #Paz

domingo, 12 de abril de 2026

Para onde vai a Juventude,? em meio a redes digitais, IA, bets, empregos precarizados e etc..


 Marcio Pochmann: o Brasil está criando milhões de trabalhadores sem lugar | Fórum Onze e Meia 12.04

O Brasil está atravessando uma transformação histórica profunda.

A estrutura que organizou o país ao longo do século XX — baseada no emprego formal e na sociedade salarial — está se dissolvendo.

No lugar dela, emerge uma nova realidade:

trabalhadores precários, informais e uma massa crescente de pessoas sem inserção estável no sistema.

Mas isso não começou agora.

Dos despossuídos do pós-escravidão aos “agregados” do mundo agrário, o Brasil sempre produziu populações excedentes.

A diferença é que hoje isso se tornou estrutural.

Neste episódio do Fórum Sindical:

➡️ Quem é o novo sujeito coletivo

➡️ Por que o trabalho assalariado deixou de organizar a sociedade

➡️ O que isso significa para o sindicalismo

Com dois convidados centrais nesse debate:

🎙️ Marcio Pochmann — economista e autor de “Novo sujeito coletivo”

🎙️ Normando Rodrigues — advogado trabalhista e referência na defesa dos direitos do trabalho

Se o trabalho mudou… a forma de organização da sociedade também precisa mudar.



A insegurança estrutural da juventude brasileira

Ela é mais instruída que as gerações anteriores. Mas deprime-se nas telas, num país estagnado há 40 anos e em pouca esperança de vida florescente. Há duas saídas: ou o ultraindividualismo, ou um novo engajamento político, ainda por construir

A crescente incidência de sofrimento psíquico entre jovens brasileiros, registrada pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE com apoio dos ministérios da Saúde e da Educação, já não pode ser tratada como um problema isolado ou passageiro. Ela expressa uma mudança mais profunda na sociedade brasileira que resulta da perda de dinamismo econômico, enfraquecimento das promessas de mobilidade social e a transformação das formas de poder e de socialização.

Nesse sentido, a ansiedade revelada em setor crescente da parcela juvenil da nova sociedade de serviços, hiperconectada na era digital, deixa de ser vista apenas como um problema individual ou psicológico. Ela passa a ser compreendida como expressão social de um tempo histórico marcado pela incerteza. Desde os anos 1990, com a adoção de políticas neoliberais, o Brasil perdeu dinamismo econômico, sofreu a desindustrialização, aprisionou-se na financeirização e fragilizou os mecanismos de ascensão social. O resultado tem sido a formação de nova geração cuja subjetividade é atravessada pela instabilidade.

Em um país historicamente desigual, esse processo agravou a sensação de bloqueio social. Embora mais escolarizada do que as gerações anteriores, grande parte da juventude passou a encontrar um mundo do trabalho mais precário, instável e fragmentado. A educação continuou sendo apresentada como caminho de ascensão, mas a correspondência entre esforço e recompensa se enfraqueceu.

Durante o período de industrialização de elevada expansão econômica ocorrida entre as décadas de 1930 e 1980, predominou, apesar das desigualdades, a percepção de que o tempo trabalhava a favor da melhora de vida. Escola, emprego e urbanização apontavam, ainda que de modo desigual, para alguma perspectiva de avanço socieconômico. A partir dos anos 1990, contudo, essa narrativa foi sendo corroída. Em seu lugar, consolidou-se uma sociedade de serviços hiperconectada, porém incapaz de garantir inclusão ampla, segurança e horizonte estável.

É nesse contexto que os dados recentes da PeNSE ganham maior significado. O aumento da tristeza, solidão, ansiedade, exposição à violência e experiências de abuso não deve ser lido apenas como questão sanitária ou psicológica. Esses indicadores expressam uma época em que o futuro perdeu força como promessa coletiva. O horizonte de expectativas superiores se estreitou.

O mal-estar que emerge desse processo não aparece, ao menos por enquanto, como revolta organizada. Ele surge de forma mais difusa, íntima e silenciosa. A juventude brasileira não está apenas ansiosa. Ela percebe, muitas vezes de forma sensível e imediata, que o modelo social que antes prometia alguma melhora deixou de funcionar. A insegurança não decorre apenas do excesso de estímulos digitais, mas também da falta de perspectivas concretas.

A hiperconectividade faz parte desse problema, mas não o explica sozinha. Ao sair das telas de celulares e redes sociais, muitos jovens encontram um mundo que pouco os acolhe. A ansiedade não nasce apenas da conexão permanente, mas da experiência cotidiana de escassez de oportunidades, de fragilidade dos vínculos e de bloqueio do futuro.

Nesse quadro, o neoliberalismo produz mais do que políticas econômicas, pois gera uma forma de experiência social. Ele dissemina a sensação de que não há alternativa, de que cada indivíduo deve resolver sozinho problemas que são coletivos. Mesmo informados, conectados e escolarizados, muitos jovens percebem que poucas portas realmente se abrem. O resultado é uma geração marcada pela incerteza estrutural.

Mais do que uma “geração ansiosa”, trata-se de uma geração formada sob o signo da insegurança. A ansiedade, nesse caso, não é uma anomalia isolada, mas um sintoma de um modelo de desenvolvimento que perdeu a sua maior capacidade de inclusão. Ainda assim, esse sofrimento costuma ser interpretado como falha individual. Ao jovem que não consegue “dar certo”, resta a exigência de se reinventar continuamente como empreendedor de si mesmo.

Com isso, a pressão não desaparece. Ela apenas se internaliza. O peso de uma estrutura social instável é carregado no próprio corpo e na própria mente. A frustração deixa de ser episódica e se torna estrutural. Muitos jovens fizeram o que lhes foi pedido, estudaram, buscaram qualificação e adaptaram-se às novas exigências. Ainda assim, encontram-se à margem de um projeto real de futuro.

É nesse ponto que a questão ganha dimensão política. O que está em formação não é apenas uma geração frustrada, mas um novo sujeito social, ainda fragmentado, instável e sem linguagem política clara. Trata-se de uma experiência comum de insegurança, bloqueio e perda de sentido, que ainda não se traduziu plenamente em organização coletiva.

Esse sujeito, por enquanto, sente antes de formular. A ansiedade pode ser entendida, nesse sentido, como uma de suas primeiras formas de expressão. Ela ainda não aparece como programa político ou ação organizada, mas revela algo importante como a percepção difusa de que o jogo social mudou profundamente.

O risco é evidente. Esse mal-estar pode ser capturado por soluções individualizantes, por discursos de autoajuda ou por promessas de simples adaptação a uma realidade injusta. Também pode ser absorvido por formas regressivas de pertencimento, que oferecem identidade sem projeto coletivo. Mas existe outra possibilidade, ainda aberta: a de que essa ansiedade contenha o início de uma nova consciência histórica.

Não se trata, necessariamente, de uma consciência de classe nos moldes tradicionais. Trata-se, antes, de uma sensibilidade compartilhada diante de um mundo que deixou de oferecer sentido e direção. Algo que ainda não se organiza claramente em partidos, sindicatos ou movimentos duradouros, mas que circula em afetos, frustrações e percepções comuns de injustiça.

Se for assim, os dados da PeNSE deixam de ser apenas um alerta de saúde pública. Eles passam a registrar estatisticamente uma mutação social em curso. O Brasil pode estar diante de uma geração que já não acredita no futuro como promessa garantida, mas que, justamente por isso, talvez venha a recolocá-lo como problema político. Nesse caso, a ansiedade não seria o fim da história. Poderia ser justamente o começo de outra.

https://outraspalavras.net/crise-brasileira/a-inseguranca-estrutural-da-juventude-brasileira/


O lançamento do ChatGPT marcou, segundo Éric Sadin, o início de uma transformação profunda na sociedade. Da perda de empregos à erosão da criatividade, ele traça um cenário sombrio sobre o futuro. Saiba mais: AQUI



sábado, 11 de abril de 2026

Participação e controle social nas crônicas reflexivas, irônicas, às vezes ácidas, do Velhinho de Taubaté. por MÁRIO JÉFFERSON LEITE MELO (velhinho de Taubaté em construção)

 

O velhinho de Taubaté – Ou de como se perde o brilho no olhar

Um ativista da Cultura descreve, em poema mordaz, os limites e armadilhas do sistema de participação brasileiro. Há amplo espaço para sonhar e debater, mas esbarra-se com frequência desesperadora nas “harmonizações” e nos cortes de orçamento

Dizem que o Velhinho de Taubaté acredita em tudo.
Acredita em ata.
Acredita em grupo de trabalho.
Acredita em eixo temático.
Acredita em consolidação democrática.
O problema é que o Velhinho já tem 72 anos.
E o brilho do olhar já não é o mesmo.

Durante vinte anos ele percorreu fóruns, Teias, encontros estaduais, conferências municipais e plenárias vinculadas ao Sistema Nacional de Cultura. Do interior paulista às capitais, atravessando o Estado de São Paulo e o Brasil.

Sentou em cadeiras de plástico.
Falou em microfones falhando.
Redigiu propostas madrugada adentro.
Defendeu moções com voz firme e esperança juvenil.
Juvenil — mesmo depois dos cinquenta.
Juvenil — mesmo depois dos sessenta.
Porque a cultura faz a gente acreditar que ainda dá tempo.
Mas aos 72, o Velhinho percebeu que o tempo passa — e o método permanece.

O ritual é impecável.

O Ministério da Cultura convoca.
Os estados organizam.
Os municípios mobilizam.
Os militantes comparecem.

Divide-se em grupos.
Produzem-se relatórios robustos.
Aprova-se em plenária.
Fotografa-se o momento.
E no final, um pequeno núcleo “harmoniza”.
Harmoniza.
Palavra elegante.
Significa ajustar ao que já era considerado possível antes mesmo da primeira fala da base.

O Velhinho começou a perceber que há uma democracia que escuta — mas não necessariamente decide junto.

Escuta com atenção.
Registra com cuidado.
Mas consolida com filtro.
E quando alguém questiona, surge a frase pronta: “Precisamos ser realistas.”
O Velhinho aprendeu que “realismo” é muitas vezes o nome formal da contenção.

O desencantamento não veio de uma derrota isolada.
Veio da repetição.

Da sensação de que, independentemente do esforço, o desfecho sempre cabe dentro de limites já traçados por poucos.

Veio da percepção de que:

•          A ousadia é bem-vinda — até ameaçar orçamento.

•          A divergência é respeitada — até tensionar o centro.

•          A participação é celebrada — até precisar ser vinculante.

E então o brilho vai se apagando.
Não por falta de amor.
Mas por excesso de déjà vu.

Há muitos velhinhos assim no Estado de São Paulo.
E no Brasil inteiro.
Gente que dedicou a vida à cultura popular, à memória, aos Pontos de Cultura, às redes comunitárias invisíveis que sustentam o país real.
Gente que acreditou que o Sistema Nacional de Cultura seria o grande salto democrático.
Hoje, muitos estão cansados.
Não desistiram da cultura.
Desistiram da forma repetitiva que promete decisão compartilhada — mas entrega decisão concentrada.

E é aqui que alguém precisa colocar o dedo na ferida.
E torcer.
Para que sintam.
Porque essa dor não é apenas administrativa.
É simbólica.
É a dor de envelhecer dentro de um processo que não amadureceu.
É a dor de perceber que, depois de duas décadas, ainda participamos mais da construção do discurso do que da decisão final.

O Velhinho de Taubaté não quer destruir o sistema.
Quer que ele cresça.
Quer transparência radical.
Quer que cada proposta rejeitada venha acompanhada de justificativa pública.
Quer que a deliberação da base tenha peso real.
Quer que democracia cultural não seja apenas rito — mas poder compartilhado.

Aos 72 anos, o Velhinho ainda acredita.
Mas acredita com ironia.
E aprendeu que, às vezes, amar a cultura é dizer o que dói.
Estamos cansados de participar sem decidir.
O brilho no olhar não se perde de uma vez.
Ele se apaga aos poucos.
E quando alguém resolve colocar o dedo na ferida, não é para destruir.
É para ver se ainda há sangue correndo.
Porque enquanto houver sangue — ainda há vida.

MARIO JEFFERSON LEITE MELO
O atual Velhinho de Taubaté — ainda um ATIVISTA CULTURAL.

https://outraspalavras.net/poeticas/velhinho-de-taubate-ou-de-como-se-perde-o-brilho-no-olhar/

O Velhinho de Taubaté e a Comissão que Cabia num Elevador

O Velhinho de Taubaté sempre desconfiou de coisa muito organizada. Não da organização em si — que isso é virtude — mas daquela organização que organiza tanto… que esquece de incluir gente.

Outro dia, ele deu de cara com o nome: Secretaria da Cultura e Indústrias da Economia Criativa do Estado de São Paulo. Leu devagar. Depois mais uma vez. E soltou: — Rapaz… com esse nome todo, tinha que ter pelo menos uma escuta com legenda, tradução simultânea e café. Mas o café até pode ter. O problema é que a escuta… essa parece que ficou na recepção.

Vêm aí os editais da PNAB — Ciclo 2 — e o Velhinho, que não perde uma entrelinha, percebeu que a conversa está sendo conduzida por uma comissão. E aqui ele faz questão de deixar claro, antes que alguém fique nervoso: — A comissão é boa, viu Marcelo das Historias? Gente competente. Não é esse o problema.

Aí ele dá aquela pausa de quem vai apertar o parafuso certo: — O problema é que ela cabe num elevador… e a cultura não. Porque cultura, meu amigo, não é reunião de condomínio. Não se resolve com meia dúzia e uma ata. A própria lei que sustenta essa história toda — a tal da Cultura Viva — fala bonito: protagonismo social, gestão compartilhada, diálogo com a sociedade civil.

Traduzindo para o idioma do Velhinho: — É pra ouvir o povo, ué. Mas parece que alguém confundiu “gestão compartilhada” com “gestão escolhida”. E aí dá esse ruído. Ou melhor… esse silêncio.

O Pontão Bola de Meia  lá das bandas de São José dos Campos, não ficou esperando ser chamado pra festa. Foi lá, fez o que gente séria faz: escreveu ofício, protocolou, recebeu resposta. Resposta bonita. Redondinha. Educada. Mas o Velhinho, que já viu muito papel bonito na vida, coçou o queixo e disse: — Responder é fácil… quero ver escutar sem já ter decidido.

Em Taubaté, o Pontão da Rede — onde o Velhinho insiste em dizer que é só voluntário (e todo mundo finge que acredita) — resolveu entrar na conversa. Porque tem hora que ficar quieto é colaborar com o erro. E erro, quando é de processo, é mais perigoso que erro de pessoa. Pessoa erra e corrige. Processo errado vira regra.

Aí o Velhinho puxou da memória uma dessas frases antigas, que ele gosta de usar como quem não quer nada: “Na multidão de conselheiros há sabedoria.” (Provérbios 11:14) E completou, com aquele sorriso de canto: — Mas se a multidão não for convidada… fica só o conselho mesmo. E conselho sozinho, convenhamos, é quase um monólogo educado.

O que os Pontões estão pedindo não é palco. Nem protagonismo vazio. É algo bem mais simples — e, por isso mesmo, mais difícil: — Ser ouvido. Porque, veja bem, se os Pontões são ponte entre o Estado e a sociedade… ignorar os Pontões é tipo inaugurar ponte que não leva a lugar nenhum. Bonita. Mas inútil.

O Velhinho então se levanta, dá aquela ajeitada clássica no chapéu e solta, como quem entrega uma receita simples que ninguém quis seguir: — Ainda dá tempo de arrumar isso aí. Chama mais gente. Abre a roda. Escuta de verdade. Não pra cumprir tabela. Mas pra cumprir a lei… e, mais importante, o espírito dela. Porque política pública sem escuta é igual reunião longa: Todo mundo sai achando que resolveu… menos quem precisava ser ouvido.

E o Velhinho, que pode até ser velho, mas não é bobo, já avisou: — Cultura viva que não escuta… vira cultura decorativa. E disso, Taubaté já viu demais.

ABAIXO, EXPLICAÇÕES SOBRE SIGNIFICADOS, SIMBOLOS E SIGLAS, PARA QUEM NÃO TEM CONTATO MAIS PRÓXIMA COM O SEGMENTO CULTURAL. 

O Velhinho de Taubaté  menciona "Marcelo das Historias",  um membro real da comissão, deixando claro que sua crítica não é pessoal – ele não está atacando ninguém especificamente, e sim o processo.

Dois grupos culturais são citados: o "Pontão Bola de Meia", de São José dos Campos, e o "Pontão da Rede", de Taubaté. Esses são coletivos que fazem trabalho cultural de base, ligados diretamente às comunidades. Eles representam a sociedade civil organizada, ou seja, as pessoas que realmente vivem a cultura no dia a dia e que deveriam ser ouvidas nas decisões.

Conceitos e siglas explicados

O texto menciona a "PNAB – Ciclo 2". PNAB é a sigla anterior do ciclo 1 para Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, uma lei federal que destina dinheiro público para fomentar a cultura. O "Ciclo 2" é simplesmente a segunda fase de distribuição desse dinheiro. Os "editais" são os documentos que abrem as inscrições para os projetos culturais concorrerem a esse dinheiro – é como um "concurso de ideias culturais".

A "comissão" é o grupo de pessoas escolhidas para analisar esses projetos e decidir quem recebe os recursos. O problema apontado é que essa comissão é muito pequena e não conversa com quem está na ponta.

O texto também cita a lei "Cultura Viva", que defende o "protagonismo social" (o povo assumindo o protagonismo das decisões) e a "gestão compartilhada" (decidir em conjunto estado e sociedade). O Velhinho traduz tudo isso de forma simples: "é pra ouvir o povo, ué". Mas o que ele observa é que, na prática, alguém confundiu "gestão compartilhada" com "gestão escolhida" – ou seja, decidiram sozinhos quem participa e quem não participa.

Os Pontos e Pontões de Cultura  são justamente esses grupos de base que fazem a ponte entre o Estado e a sociedade. O Velhinho argumenta que ignorar os Pontos e Pontões é como construir uma ponte que não leva a lugar nenhum: bonita, mas inútil.

O que são Pontos e Pontões de Cultura

Os Pontos e Pontões de Cultura fazem parte de uma política pública federal chamada Cultura Viva, criada para descentralizar o financiamento da cultura e valorizar os grupos que já atuam nas comunidades.

De forma simples, o Ponto de Cultura é o grupo que está na ponta, dentro da comunidade. Pode ser uma associação de moradores, um grupo de capoeira, uma biblioteca comunitária ou qualquer coletivo cultural sem fins lucrativos. Ele recebe recursos do governo – geralmente entre R$ 90 mil e R$ 150 mil (ano)   – e é quem realmente coloca a cultura em prática no dia a dia, atendendo crianças, jovens e adultos do bairro.

O Pontão de Cultura, por sua vez, tem um papel diferente. Ele não faz tanto o trabalho direto com a comunidade, mas sim articula e fortalece vários Pontos de Cultura de uma região ou de um mesmo tema. Funciona como uma ponte entre os grupos de base e o governo, oferecendo capacitação, troca de experiências e organização de eventos coletivos. Por ter essa função mais ampla, pode receber valores maiores, chegando até R$ 2,4 milhões por projeto.

A principal diferença entre os dois é o alcance: enquanto o Ponto de Cultura atua localmente, como um "time da base", o Pontão de Cultura tem uma atuação regional ou temática, funcionando como um "coordenador" ou "escritório central" que ajuda vários Pontos a funcionarem melhor em rede.

Em resumo: o Ponto de Cultura faz a cultura na ponta; o Pontão de Cultura articula e fortalece essa rede. Um complementa o outro, e juntos formam uma estrutura mais democrática e participativa para a cultura no Brasil.



O velhinho de Taubaté acordou com uma inquietação daquelas que não vêm do corpo, mas da consciência. Não era dor nas juntas. Era dor na cidade. Olhou a folhinha — 08 de abril. Dia comum pra muita gente. Dia qualquer, desses que passam sem deixar rastro. Mas não para ele.

— Hoje tem eleição… — resmungou, meio desconfiado. Mas não era eleição de grito, de bandeira, de promessa em carro de som. Era dessas silenciosas, quase invisíveis, que decidem muito mais do que parecem. Era dia de CMDCA.

O velhinho ajeitou o chapéu com aquele gesto antigo de quem respeita o que vai fazer — e saiu.

Chegando lá, viu pouca gente. Pouquíssima, aliás. Nada de multidão, nada de disputa inflamável. Só algumas entidades, alguns representantes… e uma responsabilidade do tamanho do futuro.

— Ué… — cochichou — cadê o povo que vive dizendo que “ninguém faz nada”? Ninguém respondeu. E o velhinho entendeu. Porque ele já viu esse filme antes.

A cidade que grita quando falta política pública…, mas silencia quando é chamada pra construí-la. Ali, naquele espaço simples, estavam sendo preenchidas vagas que muita gente nem sabe que existem: uma cadeira de titular… outras oito de suplência…, mas o velhinho sabia — aquilo ali não era sobre cadeira. Era sobre presença. Era sobre decidir quem ajuda a pensar, fiscalizar e garantir direitos de quem ainda não tem voz forte: as crianças e os adolescentes.

— Isso aqui, meu filho… — disse ele, olhando pro vazio como quem conversa com a própria cidade — é onde se decide se o futuro vai ter cuidado… ou só discurso. Ele andou devagar pelo espaço. Observou os rostos. Gente de verdade. Gente que carrega projeto nas costas, que conhece nome, endereço, história. Gente que não aparece na foto…, mas sustenta o que a foto tenta mostrar. 

E então o velhinho sentiu um aperto. Não de tristeza. De lucidez. — O problema não é quem tá aqui… — murmurou — é quem não veio. Porque o CMDCA não é favor. Não é palco. Não é cargo pra vaidade. É instrumento. Instrumento de participação. De controle. De construção coletiva. Mas instrumento parado… enferruja.

E o velhinho, que já viu muita coisa virar sucata por abandono, resolveu falar mais alto — não pra quem estava ali, mas pra quem nunca aparece: — Depois não adianta reclamar que o recurso não chega… que o projeto não sai… que a política não funciona. Fez uma pausa. E completou: — Quem não ocupa… perde.

Ficou um silêncio daqueles que não constrangem — ensinam. Porque no fundo, bem no fundo, o velhinho sabia que a cidade não falta de gente. Falta de presença. Antes de ir embora, ele olhou mais uma vez para o espaço da eleição. Pequeno no tamanho… gigantesco no significado.

E deixou escapar, quase como um conselho antigo: — Democracia não é evento… é hábito. Bateu a bengala no chão. E saiu. Devagar, como sempre. Mas deixando pra trás uma pergunta que insiste em não calar:  Se o futuro das crianças passa por aqui… por que tanta gente ainda escolhe ficar de fora?

Perguntas e Respostas: O Velhinho de Taubaté e o CMDCA

P: O que significa a sigla CMDCA?

R: CMDCA significa Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. É um órgão formado por pessoas do governo e da sociedade civil que decide como aplicar os recursos públicos destinados a crianças e adolescentes. Também fiscaliza e propõe políticas para essa área.

P: O que acontece no dia da eleição do CMDCA?

R: Nesse dia, são escolhidos os representantes da sociedade civil que vão ocupar as cadeiras do conselho. Metade dos membros vem do poder público e metade vem da sociedade (ONGs, associações, grupos comunitários). O texto menciona que estavam sendo preenchidas "uma cadeira de titular e oito de suplência".

P: O que significa "titular" e "suplência"?

* Titular é o membro efetivo do conselho, que tem direito a voto e participa de todas as reuniões.

  • Suplente é o membro reserva, que entra no lugar do titular quando ele falta ou é afastado.

P: O que é "controle social" citado indiretamente no texto?

R: Controle social é a participação da sociedade na fiscalização e na construção das políticas públicas. O CMDCA é um instrumento de controle social: a população pode acompanhar, cobrar e decidir como o dinheiro público é gasto na área da infância e adolescência. O Velhinho critica justamente o fato de as pessoas não usarem esse instrumento

O Velhinho de Taubaté! 😄

Segundo o criador, Mario Jefferson Leite Melo, o Velhinho de Taubaté nasceu como uma resposta à Velhinha de Taubaté, personagem clássico do humor brasileiro. Enquanto a Velhinha de Taubaté era conhecida por sua ingenuidade e fé cega nos governantes, o Velhinho de Taubaté foi criado como um contraponto, com um humor sarcástico e crítico.

Mario Jefferson Leite Melo queria criar um personagem que refletisse a realidade brasileira, com todas as suas ironias e contradições. O Velhinho de Taubaté é um homem comum, que vive em Taubaté, uma cidade do interior de São Paulo, e que não tem medo de falar o que pensa. Ele é um crítico social, que usa o humor para criticar os problemas da sociedade e fazer as pessoas refletirem.

O Velhinho de Taubaté foi criado em 2005, e desde então se tornou um ícone do humor brasileiro, com suas frases sarcásticas e críticas afiadas. Ele é um personagem que fala o que muitos pensam, mas não têm coragem de dizer. 😂