O Padre José Soares de Jesus, da Paróquia São Pedro Pescador, Arquidiocese de Aracaju, publicou um artigo no qual analisa o crescimento do chamado "devocionismo ingênuo" nas comunidades religiosas, caracterizado por uma vivência da fé descomprometida com a reflexão e com a transformação social. O texto, que recupera ensinamentos do Papa Francisco, critica o clericalismo e as práticas pietistas que alienam os fiéis, e convoca a Igreja a retomar o caminho de uma espiritualidade encarnada, libertadora e comprometida com os pobres.
O MOMENTO atual é muito complexo para toda e qualquer atividade que envolva o espírito coletivo e sobretudo quando o tema é pastoral e conscientização. DURANTE o ciclo mais pesado da pandemia, vozes se levantaram em todo canto para negar o vírus e a vacina. Vozes no clero e na sociedade que vociferavam absurdos que acabou criando um profundo mal-estar em muita gente. De um lado os que se denominavam muito bem informados, os quase médicos/as de plantão e tinham receita para tudo - de ivermectina até remédio injetável - e para todas as idades. Do outro lado, os desinformados que sempre acatam todas as informações dúbias que aparecem e que só geram tolice, discórdia, polarização e um pouco de "estupidez social". Parece que esse tempo passou: será? Bom ficarmos atentos/as; talvez ele esteja bem forte e com outros nomes e adequações.
NO CONTEXTO atual, está reflorescendo com força uma nova onda - já bem conhecida por teólogos/as - que intitulamos de "devocionismo ingênuo". É uma categoria religiosa e que tem força social e cultural, porque tem penetrado nas várias camadas da sociedade e das igrejas. O DEVOCIONISMO é um estilo de vida religiosa que se mostra pouco afeito a reflexão e que leva as pessoas para o campo do pietismo, do espraiamento de novenas que nunca terminam e que se situam entre a vida de Maria - só em alguns aspectos - a de alguns santos e dos anjos e arcanjos, que tem sido os mais procurados e divulgados por fiéis cristãos e até não fiéis, já que esperam uma ajuda miraculosa por parte daqueles a quem cultuam. Essas devoções não param de crescer e afetam de cheio o trabalho pastoral das igrejas e das comunidades. E quem lucra com essas práticas? Quem ganha muito com o devocionismo é o clericalismo, porque quanto maior for a ingenuidade e infantilização dos fiéis, mais uma parte do clero dominará o espaço religioso e se realizará com o pretexto de que está contribuindo com a fé do povo, o que não é verdadeiro e se situa na dimensão ilusória da fé.
O COMBATE a esse modo complexo de vida religiosa é bem difícil, pois, quem se distância ou aponta falhas nessa prática é logo rechaçado; quem procura abrir caminhos para esclarecer e ajudar o povo de Deus, a atravessar as vicissitudes da vida é visto como descrente. O Papa Francisco foi muito enfático quando escreveu na mensagem do Dia Mundial dos Pobres em 2024: "A fé cristã não pode ser reduzida a uma devoção passiva que não incomoda os poderes deste mundo". O cristão não pode enxergar a dor e a morte de tantas pessoas com fome e enfermas, sem dar o seu apoio, colocando-se contra os sistemas de opressão e denunciando as causas de tantas calamidades. Ele também na Evangelii Gaudium, alertou para uma vivência anêmica e frágil, sobretudo quando ela não muda nossas vidas e o contexto no qual vivemos. Diz ele: "A nossa fé é desafiada a entrever o vinho em que a água pode ser transformada, e a descobrir o trigo que cresce no meio do joio. Cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II, apesar de nos entristecerem as misérias do nosso tempo e estarmos longe de otimismos ingênuos, um maior realismo não deve significar menor confiança no Espírito nem menor generosidade" (E.G. n. 84).
Concluindo, podemos nos preparar sempre para tempos de luta – referimo-nos a endurecimento desse devocionismo que na verdade é parte de um sistema orquestrado para alienar – e discernimento, para que o evangelho seja o nosso ponto de referência e não as práticas ingênuas e vazias – não falamos em nenhum momento em maldade, mas, muito fingimento religioso – que não ajudam no amadurecimento espiritual e humano das pessoas. A nossa referência está no evangelho e na busca de uma espiritualidade encarnada a partir de Jesus e de sua ação corajosa e libertadora. Despertar e rever caminhos para chegarmos numa pastoral que crie laços e não fique emaranhada nas doutrinas. Rever caminhos é compreender que devemos utilizar mecanismos do nosso tempo para dialogar com as pessoas, propor caminhos de vida espiritual, sem querer domesticar a ninguém. Vida pastoral é parceria que se concebe com a defesa dos que sofrem, o sopro do Espírito e a bondade de Deus que sempre chega antes de nossos esquemas e intenções.
P. José Soares de Jesus.
Paróquia São Pedro Pescador.
- Obs. Devocionismo não é o mesmo que religiosidade popular. Muito diferente.
- E.G. – Evangelii Gaudium, uma Exortação Apostólica do Papa Francisco, 2013.
Para suscitar um debate entre a letra da canção "Religião Libertadora" (Pe. Zezinho) e o texto do Pe. José Soares sobre o "devocionismo ingênuo", proponho as três perguntas a seguir:
1. A fé que incomoda x a fé que acomoda
"É por causa dos profetas que anunciam, que batizam, que organizam, denunciam."
"É por causa de um Jesus que anunciava, mas também gritava aos grandes: ai de vós."
Enquanto a canção celebra uma fé que denuncia, organiza e incomoda os poderosos, o texto critica um "devocionismo ingênuo" que não incomoda os poderes deste mundo.
Pergunta: O que faz com que uma mesma tradição cristã produza, ao mesmo tempo, uma fé que denuncia as injustiças e outra que se refugia em práticas pietistas e alienantes? Que forças sociais e eclesiásticas alimentam cada uma dessas vertentes?
2. O clamor dos oprimidos x o silêncio da devoção
"É por causa dos pequenos e oprimidos, dos seus sonhos, dos seus ais, dos seus gemidos."
"É por causa de quem sofre a dor do povo, é por causa de quem morre sem matar."
A canção coloca a dor do povo como razão de ser da fé. O texto, por sua vez, alerta que o devocionismo ingênuo desvia a atenção das "vicissitudes da vida" e das "causas de tantas calamidades".
Pergunta: Como conciliar a devoção popular — que pode ser um consolo legítimo para quem sofre — com o risco de que ela se torne um "ópio" que desmobiliza a luta contra as estruturas que geram esse sofrimento? Onde traçar essa linha?
3. Profecia x clericalismo
"É por causa do profeta que se cala, mas até com seu silêncio grita e fala."
"É por causa de um Jesus que anunciava, mas também gritava aos grandes: ai de vós."
A canção exalta a profecia — inclusive a que grita contra os poderosos. O texto denuncia que o devocionismo ingênuo favorece o clericalismo, pois "quanto maior for a ingenuidade e infantilização dos fiéis, mais uma parte do clero dominará o espaço religioso".
Pergunta: A estrutura hierárquica da Igreja tende a incentivar ou a inibir a profecia libertadora? O devocionismo ingênuo seria uma consequência intencional ou apenas um subproduto da lógica institucional?
Essas perguntas podem abrir um debate sobre o papel da religião na sociedade contemporânea: se ela deve ser um instrumento de conformação ou uma força de transformação — e quais os mecanismos que a empurram para um lado ou para outro.
Zezito de Oliveira - Editor do Blog da Cultura



