O Fórum do Forró completa 19 edições realizadas. Embora tenha sido criado em 2001, o evento não alcança sua 25ª edição em 2026 porque deixou de acontecer em alguns anos ao longo desse intervalo.
Criado dentro da programação do Forró Caju, o Fórum do Forró de Aracaju tornou-se um dos mais importantes espaços de reflexão sobre a cultura nordestina e a música popular brasileira. Mais do que uma atividade paralela aos festejos juninos, o fórum consolidou-se como ambiente de encontro entre artistas, pesquisadores, jornalistas, produtores culturais, gestores públicos e estudiosos interessados em discutir o passado, o presente e o futuro do forró.
Idealizado pelo pesquisador e gestor cultural Paulo Corrêa, o evento atravessou diferentes administrações municipais, mudanças no mercado musical e transformações tecnológicas, mantendo como eixo central a defesa do forró tradicional e a valorização da memória cultural nordestina.
Nos anos em que foi realizado, deixou marcas profundas em nossa memória e em nossa atuação como educador e produtor cultural. Um dos pontos mais significativos dessa relação com o tema foi a Mostra Cultural Caravana Luiz Gonzaga Vai à Escola.
A Caravana “Luiz Gonzaga Vai à Escola”, realizada em Sergipe em 2012 pela Ação Cultural com apoio da Fundação Nacional de Artes (Funarte), integrou as comemorações do centenário de Luiz Gonzaga, levando palestras, apresentações musicais, exibição de vídeos, exposições, dança e debates sobre a cultura nordestina para escolas públicas e espaços culturais sergipanos.
A iniciativa buscou aproximar estudantes da obra e da importância histórica do Rei do Baião, valorizando o forró como patrimônio cultural e instrumento de formação identitária nordestina. A caravana dialogava diretamente com os princípios defendidos pelo Fórum do Forró de Aracaju, especialmente na preservação do forró tradicional, na difusão da memória cultural nordestina e na articulação entre educação, pesquisa e cultura popular, funcionando como uma extensão pedagógica das discussões históricas promovidas pelo fórum ao longo de suas edições.
Neste ano de 2026, tendo Paulo Corrêa — idealizador e produtor histórico do evento — à frente da Secretaria Municipal da Cultura de Aracaju, percebe-se, naturalmente, a intenção de realizar um grande Fórum do Forró, à altura das melhores edições já promovidas. Ainda há muito a ser feito, mas permanece a esperança de que o evento volte a alcançar plenamente sua força histórica e simbólica.
Entre as saudades que carrego — e que parcialmente me senti contemplado nesta edição — está a qualidade artística do cartaz, novamente digna das melhores fases do fórum.
O local escolhido, o Teatro Atheneu, também merece destaque. Outros espaços confortáveis e acessíveis já acolheram o evento em diferentes momentos, inclusive o Teatro Juca Barreto, palco da primeira edição. A propósito, permanece a esperança de que o teatro venha a ser plenamente restaurado e devolvido ao público.
Em outras ocasiões, o fórum ocorreu no teatro de bolso do Centro Cultural de Aracaju, espaço menor e mais intimista, que, apesar das limitações, conseguiu cumprir seu papel. Ainda assim, fica a reflexão: e se Aracaju finalmente envidasse esforços para construir um verdadeiro Teatro Municipal, talvez aproveitando a área localizada nos fundos da antiga sede da Prefeitura, no centro da cidade, inclusive com apoio da bancada sergipana no Congresso Nacional?
Também sinto saudade das conferências que ampliavam e contextualizavam a discussão sobre o forró para além das questões meramente memoriais. Em 2002, por exemplo, Bráulio Tavares participou do II Fórum do Forró de Aracaju, dedicado a Jackson do Pandeiro, apresentando a conferência “Análise Temática da Obra de Jackson do Pandeiro”. Também integrou o debate “Forró Pé-de-serra x Forró Eletrônico”, ao lado de Fernando Moura, Antônio Barros, Cecéu e Almira Castilho.
Em 2003, Durval Muniz de Albuquerque Júnior apresentou a conferência “A Invenção da Cultura Popular Nordestina”, ampliando o alcance acadêmico do fórum e introduzindo reflexões sobre regionalismo, indústria cultural e construção simbólica da identidade nordestina.
Já Silvério Pessoa, em participação marcante no fórum de 2015, alertou para “o sério risco de termos uma tradição diluída”, desenvolvendo uma reflexão brilhante sobre o papel da escola na preservação do forró e do coco nordestino.
Em 2022, Anderson Fanta e Cleuza Lopez trouxeram ao debate as plataformas digitais e os desafios do mercado musical contemporâneo, demonstrando que o Fórum do Forró sempre foi mais do que nostalgia: foi também espaço de reflexão sobre permanências, mudanças e futuro.
Entre outras lembranças marcantes estão os robustos coquetéis de comida nordestina oferecidos em algumas edições, momentos de confraternização que prolongavam os debates e fortaleciam os vínculos afetivos em torno da cultura popular.
Mas talvez uma das imagens mais fortes da memória do fórum seja a tradicional fila de debatedores da plateia — aquilo que gosto de chamar de “a fila dos últimos românticos do forró”. Entre essas figuras inesquecíveis estava Ribeiro, presença constante e apaixonada em praticamente todas as edições.
Enquanto pesquisadores e artistas discutiam o futuro do forró nas mesas do palco, figuras como Ribeiro ocupavam, de maneira emocionada e vibrante, o microfone aberto da plateia ano após ano, transformando presença em verdadeira militância cultural. Sua fidelidade ao Fórum do Forró revelava que a defesa do forró tradicional não acontecia apenas nos discursos acadêmicos ou nos palcos, mas também no compromisso afetivo do público que fazia daquele espaço um território vivo de memória nordestina.
quarta-feira, 26 de abril de 2023
A propósito dessa “fila dos últimos românticos do forró”, também merece destaque Thiago Paulino, representante de uma geração mais jovem de pesquisadores que ajudou a renovar o debate cultural sobre o forró. Autor do livro Palco de Disputas e Disputas pelo Palco no País do Forró (2018), Thiago analisou criticamente as transformações do forró contemporâneo, os conflitos entre tradição e mercado e as disputas simbólicas presentes nos festejos juninos nordestinos, contribuindo para ampliar a reflexão sobre cultura popular, identidade e indústria cultural.
No artigo “A Décima Edição do Fórum do Forró e a Derrubada do Muro” (2011), Thiago escreveu:
“Infelizmente, a outra constante é o que poderíamos chamar de um ‘muro de lamentações do forró’. Todo ano algumas temáticas se repetem: a falta de qualidade das bandas de forró elétrico, a disparidade dos cachês entre artistas locais e bandas de fora e a falta de valorização do artista local. Se por um lado essas reclamações possuem legitimidade, por outro é necessário proporcionar palestras e oficinas para que o próprio sanfoneiro, ou alguém próximo a ele, se aprimore enquanto produtor ou agente cultural.”
Ao defender a qualificação dos próprios artistas e agentes culturais, Thiago apontava um caminho importante para além da crítica recorrente: a necessidade de fortalecer formação, produção, circulação e profissionalização dentro do próprio universo do forró.
O Fórum do Forró consolidou-se ao longo de suas 19 edições como um dos mais importantes espaços de reflexão sobre a cultura nordestina e o forró tradicional. Ainda assim, sua trajetória também foi marcada por críticas recorrentes feitas por artistas, pesquisadores, como Thiago Paulino e pelo próprio público. Para efeito de contribuição em forma de sintese para que os próximos Foruns deixe ainda mais saudades, destacamos a atenção a descontinuidade do evento nos futuros anos pela dependência das mudanças políticas e administrativas da Prefeitura de Aracaju, além da dificuldade de transformar os debates em políticas culturais permanentes.
Outro ponto importante a ser considerado é a contradição entre o discurso de defesa do forró pé-de-serra no Fórum e a crescente presença de atrações comerciais e do forró eletrônico na programação dos festejos juninos. Também houve e há criticas sobre a pouca preservação do acervo histórico do evento, limitações de infraestrutura, redução do espaço para participação espontânea da plateia nos últimos anos e a ausência de maior projeção nacional para um encontro considerado referência na discussão sobre patrimônio cultural nordestino.
Mesmo diante dessas limitações, o Fórum do Forró permanece como um raro território de resistência cultural, memória afetiva e debate crítico sobre identidade nordestina e cultura popular brasileira.
Confira o último dia do Fórum do Forró em Aracaju ]
https://globoplay.globo.com/v/14608470/
A tradição das festas juninas resiste em Sergipe com o Fórum do Forró - 1ª parte - Paulo Corrêa
Caravana Luiz Gonzaga
XVII FÓRUM DO FORRÓ - PARTE 1
O XI Fórum do Forró foi dez!
Divulgação - Ao final dos debates, o público presenciou um show em homenagem a Luiz Gonzaga.
Zezito de Oliveira · Aracaju, SE - Publicado no Overmundo
http://www.overmundo.com.br/overblog/o-xi-forum-do-forro-foi-dez
11/6/2012 · O Fórum do Forró, que aconteceu nos dias 05 e 06 de junho de 2012, em Aracaju, realizou uma homenagem ao saudoso e querido Luiz Lua Gonzaga à altura da qualidade do grande legado que o mestre deixou.
Das homenagens realizadas no centenário do Gonzagão em Sergipe, esta é uma das que merecem mais louvores, pelo fato de se ter iniciado no ano de 2002, prosseguindo, de forma ininterrupta, até o presente ano.
A outra homenagem longeva a Luiz Gonzaga e também digna de louvor é o programa Aquarela Nordestina , apresentado pelo professor José Augusto, há cerca de 20 anos, pelas ondas da Rádio Aperipê 630 AM.
O que me chamou a atenção no primeiro dia foi a apresentação do site LuizLuaGonzaga por parte de seu criador e mantenedor Paulo Vanderley. Isto se deveu à forma clara, segura e apaixonada ancorada na utilização de um criativo recurso audiovisual, o próprio site. Foi o dia em que fui acompanhado da esposa e dos filhos (um pré-adolescente e uma adolescente). Os elogios que faço, aliás, também tomam como base a opinião deles.
No segundo dia senti um clima com forte presença de elementos místicos e emocionais, com destaque para a apresentação e homenagem ao compositor João Silva, importante parceiro do Rei do Baião, e a apresentação de Bené Fonteles, responsável por uma belíssima publicação — O Rei e o Baião —, composta de análises instigantes elaborados por intelectuais e reprodução de material iconográfico sobre Luiz Gonzaga e releituras ou interpretação de sua obra por parte de artistas de outras linguagens, em especial das artes plásticas, visuais e literária.
Uma frase dita por Bené Fonteles me chamou a atenção! Disse ele: “Gonzaga já é mais do que o mito, Gonzaga é uma entidade”. Frase semelhante ouvi de Veronica Sacta, educadora, artista e xamã equatoriana, que deu importante contribuição à nossa gestão a frente do Complexo Cultural “O Gonzagão”, no período em que estivemos à frente da direção daquele equipamento cultural pertencente ao governo de Sergipe (2007 a 2009). E não à toa, presenteei-a com um CD contendo uma coletânea de gravações clássica do Velho Lua, quando ela se despediu dos amigos(as) sergipanos, após quase um ano de presença em Aracaju.
No final do fórum, solicitei a palavra para divulgar a seleção do projeto “Caravana Cultural Luiz Gonzaga vai a Escola”, no prêmio Funarte-Centenário Luiz Gonzaga. Desde que soube do resultado, pensei ser o Fórum do Forró o local mais apropriado para isso. Mesmo que esta notícia já fosse do conhecimento de uma parte daqueles que estavam presentes naquele momento.
Na fala em que citei a conquista do prêmio, parabenizei e agradeci a Paulo Correa ( idealizador e coordenador do Fórum do Forró desde a sua criação)pela iniciativa, além de lembrar outro dois nomes que garantiram a cobertura institucional para a realização do evento: o bancário e professor de História Chico Buchinho (presidente da Funcaju, na época), bem como o prefeito em 2001(ano do primeiro Fórum do Forró) e atual governador de Sergipe, Marcelo Déda.
Eu disse que o fórum do forró foi uma das fontes de inspiração para a elaboração do projeto da Caravana Luiz Gonzaga e, em razão das limitações de tempo, deixei de falar que a Caravana Luiz Gonzaga responde, mesmo de forma limitada e localizada, a angústia ou ao anseio de algumas pessoas que manifestaram no espaço de debates do Fórum do Forró seus protestos e/ou desabafos com o desconhecimento e/ou desvalorização do forró pé-de-serra, por parte significativa de pessoas das novas gerações.
No final, destaquei que era importante e necessário que as excelentes palestras e apresentações durante todos esses anos de Fórum do Forró fossem registradas e publicadas em forma de textos e imagens. Esta demanda já foi colocada em outros fóruns, mas infelizmente não conseguiu sensibilizar a prefeitura de Aracaju, com a honrosa exceção de uma ou duas edições do evento.
No final, após uma das diversas e belas apresentações desta segunda noite, protagonizadas, entre outros, por Erivaldo de Carira e Thais Nogueira, destaco a fala do primeiro, o qual lembrou que muitos prefeitos do interior de Sergipe precisam valorizar mais os artistas que produzem o forró pé-de-serra, contratando seus trabalhos pelo menos no período dos festejos juninos.
Nesse momento, lembrei-me que uma forma das autoridades públicas mostrarem seu real amor por sua gente e por sua terra é valorizando e investindo na arte e cultura do seu povo, muito além de palavras ou gestos simbólicos como na utilização da arte e da cultura sergipana apenas em propagandas institucionais e/ou recepções a convidados de outras localidades.
Como 2012 é um ano de eleição e a bola está com o cidadão eleitor, é importante que a valorização e o investimento em educação e cultura de qualidade sejam fatores importantes de decisão na hora do voto.
P.S: No primeiro dia do Fórum do Forró o jornalista Thiago Paulino indagou palestrantes e debatedores a respeito de sugestões acerca de políticas públicas no campo da educação e da cultura, voltadas para ampliar o alcance de iniciativas semelhantes a Caravana Luiz Gonzaga.
O jornalista Jozailto Lima, por sua vez, também fez uma pergunta, enumerando alguns movimentos musicais brasileiros, como a bossa nova, a jovem guarda, o tropicalismo, o clube da esquina e uma imensa gama de estudos acadêmicos sobre estes.
Jozailto quiz saber se o fato de o baião — que tem uma importância tão significativa para a cultura brasileira — não ter sido agraciado com o mesmo tratamento, por parte das universidades, não significaria uma atitude de preconceito regional e social por parte da academia.
Como as respostas dadas a estas perguntas não esgotaram as soluções ou alternativas possíveis, resolvemos trazê-las para quem sabe, possibilitar que mais pessoas, coletivos ou instituições busquem outras respostas que se convertam em ações.
Quanto a questão proposta por Thiago Paulino, vale citar uma iniciativa da atual gestão dos ministérios da cultura e da educação, que está criando um coletivo investigador da pesquisa-ação que será realizada em Recife, nos dias 14 e 15 de junho, em tempo integral, cujo objetivo é formular princípios que auxiliem na formulação e orientação de políticas de cultura voltadas para a educação. O coletivo investigador é composto por professores, educadores populares, artistas e outros agentes da educação e da cultura empenhados na formação de um sistema educacional que integre as experiências de Educação Formal e as de Educação Não-Formal, realizadas por organizações da sociedade civil, bibliotecas e museus.
Esse coletivo investigador contará com a presença do autor desse texto.





