informações sobre ações culturais de base comunitária, cultura periférica, contracultura, educação pública, educação popular, comunicação alternativa, teologia da libertação, memória histórica e economia solidária, assim como noticias e estudos referentes a análise de politica e gestão cultural, conjuntura, indústria cultural, direitos humanos, ecologia integral e etc., visando ao aumento de atividades que produzam geração de riqueza simbólica, afetiva e material = felicidade"
Epidemia de solidão: o que está por trás do aumento global de pessoas sem conexão social?
Todos os anos, centenas de milhares de pessoas morrem por causa da solidão. E estar desconectado da sociedade tem um efeito na saúde equivalente ao hábito de fumar 15 cigarros por dia.
Essas são apenas algumas das estatísticas que escancaram um fenômeno antigo, mas que começou a chamar atenção mais recentemente: a quantidade de pessoas sem laços sociais, que se sentem incomodadas pela sensação de “não fazer parte".
Mas o que é a solidão? E que evidências temos sobre os efeitos dela na saúde e até na economia? O repórter André Biernath responde a essas e outras perguntas nesse vídeo — que foi gravado num prédio que promete ser uma das soluções para lidar com esse problema.
Se você se sente sozinho ou tem outros problemas que afetam o seu bem-estar mental, procure ajuda nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) ou nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) mais próximos de sua casa.
Você também pode buscar apoio emocional no Centro de Valorização da Vida (CVV), no número de telefone 188.
Para casos de emergência, contate o Samu (192).
IASMIN SANTOS FEITOSA
Agente Jovem Cultura Viva - Ponto de Cultura Ação Cultural
ARACAJU — SE
↳ Verbete: Agente Cultura Viva
“Durante os últimos meses, de novembro de 2024 a junho de 2025, vivi uma experiência que não foi só profissional, foi transformadora. Atuar como Agente Cultura Viva me colocou em contato direto com o que há de mais pulsante na cultura: as pessoas, suas histórias, seus saberes e suas lutas. E nesse processo, aprendi mais do que qualquer sala de aula poderia ser capaz de me ensinar. Minha atuação foi múltipla e diversa, como a própria cultura brasileira. Desde a organização de documentos e revisão de textos, até relatórios financeiros e pesquisas orçamentárias para projetos culturais, participei dos bastidores que sustentam as ações que chegam até o público. Me envolvi diretamente na escrita de projetos, aprendendo a linguagem da política pública e entendendo como transformar ideias em ações reais. Estive presente em eventos culturais, nos quais fotografei, conversei, registrei memórias e fortalezas, ajudando a documentar e valorizar cada encontro. E vivi um dos momentos mais marcantes da minha trajetória: a viagem a São Paulo para participar do 1º Encontro Nacional da Rede Sacix, que reuniu agentes culturais de todo o Brasil, trocando experiências sobre mídias livres, tecnologias sociais e os caminhos para uma comunicação mais justa. Tudo isso me fez entender que ser Agente Cultura Viva é mais do que executar tarefas. É atuar como ponte entre o território e as políticas públicas, como apoio técnico e humano nos processos culturais de base comunitária. É ser parte viva de uma rede que movimenta, articula, impulsiona e resiste. É também sobre aprender a ouvir, a dialogar, a respeitar e a fortalecer vozes que muitas vezes são silenciadas. E, principalmente, sobre se reconhecer como sujeito ativo na construção de um país mais diverso, justo e cheio de possibilidades”.
1 - Eles transformam "isolamento" em "pertencimento" (o antídoto para os "15 cigarros por dia")
A reportagem aponta que a desconexão social equivale a fumar 15 cigarros por dia em danos à saúde. O Ponto de Cultura atua exatamente no oposto: ele tece conexões.
No texto da Iasmin, ela diz que aprendeu a "ouvir, dialogar, respeitar e fortalecer vozes".
A lógica do Ponto não é o atendimento individual (como uma consulta médica), mas a criação de coletivos. Dançar, fotografar, produzir mídia ou organizar eventos em grupo obriga as pessoas a saírem do isolamento digital e entrarem em contato físico, afetivo e colaborativo. É a "vitamina" social que regenera o tecido comunitário.
2. Eles ressignificam o espaço público como local de encontro (a solução arquitetônica e humana)
A reportagem da BBC foi gravada num prédio que promete ser solução para a solidão, ou seja, um espaço físico de convivência.
Os Pontos de Cultura são, antes de tudo, territórios físicos (como o Conjunto Jardim mencionado no primeiro texto).
Enquanto a cidade moderna muitas vezes isola as pessoas em apartamentos e carros, o Ponto de Cultura vira a "casa da comunidade". É o lugar onde o jovem, o idoso ou o artista periférico pode ir não para consumir, mas para produzir e existir coletivamente. É ali que se combatem a solidão estrutural e a falta de "terceiros lugares" (espaços que não são o trabalho nem a casa).
3. Eles dão propósito e protagonismo (combate à sensação de "não fazer parte")
A reportagem destaca a angústia de não se sentir parte de algo. A solidão moderna é alimentada pela sensação de inutilidade ou invisibilidade.
No relato de Iasmin, ela destaca que ser Agente Cultura Viva é "reconhecer-se como sujeito ativo na construção de um país mais diverso, justo e cheio de possibilidades".
Quando um Ponto de Cultura financia e valoriza a cultura local, ele diz àquela pessoa: "O que você sabe, o que você faz e quem você é importa para esta comunidade". Isso gera autoestima e pertencimento, que são os maiores inimigos da solidão patológica.
4. Eles criam "redes de cuidado" (apoio emocional prático)
A reportagem termina indicando canais como UBS, CAPS e CVV para quem sofre de solidão. São ferramentas essenciais, mas muitas vezes procuradas depois que o adoecimento já ocorreu.
Os Pontos de Cultura atuam na prevenção. Como Iasmin descreve ao participar da Rede Sacix, os Pontos formam uma malha de afetos e trocas.
No dia a dia, o Agente de Cultura não é um terapeuta, mas é a pessoa que percebe se o jovem sumiu das oficinas, se o idoso parou de aparecer ou se alguém está chorando nos bastidores. Ele pode acolher, conversar e encaminhar. Ele é a "antena social" que detecta a solidão antes que ela vire emergência.
5. Eles combatem a solidão geracional e digital
A epidemia de solidão é agravada pelas redes sociais, que criam a ilusão de conexão sem contato real.
Os Pontos de Cultura, especialmente os que trabalham com mídias livres e tecnologias sociais (como a Rede Sacix que Iasmin mencionou), ensinam a usar a tecnologia não para substituir o abraço, mas para articular encontros reais.
Além disso, eles promovem a integração entre gerações (jovens e mestres da cultura popular), quebrando o isolamento etário que também causa solidão.
Conclusão: O Ponto de Cultura como "Remédio Social"
Se a solidão é uma epidemia de desconexão, o Ponto de Cultura é a fábrica de reconexão.
Enquanto a reportagem mostra o diagnóstico (morremos de solidão), os Pontos de Cultura (como o da Iasmin) mostram o tratamento: colocar as pessoas para fazerem coisas juntas, com sentido, com afeto e com reconhecimento público. Não é um remédio em caixa, é um remédio em rede. É a política pública que entende que o bem-estar não se faz só com remédios, mas com dança, música, memória e pertencimento.
Entre os dias 16 e 18 de junho (terça à quinta), às 14h e às 19h, discutiremos a década que mudou o Brasil e que agora vemos finalizar.
Debateremos, em diferentes mesas, essa década que começa com o impeachment de Dilma Rousseff e termina com a eleição de outubro (independentemente de seu resultado). Algumas das principais áreas que fizeram parte dessa década e foram atravessadas por ela são: A direita, a esquerda, a cultura, os evangélicos, as identidades e a periferia.
Esperamos a todos para esses dias de debates que julgamos essenciais para pensarmos o presente que vivemos e o futuro que ainda estamos por escrever.
Confira a programação completa para não perder nenhuma discussão!
Local: Auditório Fernand Braudel (FFLCH-USP)
Imagem
O PAÍS QUE ACONTECEU: Brasil, 2016-2026 - CONFERÊNCIA PAULO ARANTES
PAÍS QUE ACONTECEU: Brasil, 2016-2026 - CULTURA. Aqui
Neste sábado, 20 de
junho de 2026, a Casa da Doméstica Dom José Vicente Távora, localizada à Rua
Siriri, nº 684, no centro de Aracaju, recebe a 4ª Sessão do Cine Realidade, com
exibição de filmes da 15ª Mostra Difusão Cinema e Direitos Humanos. A sessão acontece
em dois horários – às 9h e às 14h30 – com entrada gratuita.
A programação reúne
três produções brasileiras que dialogam com memória, resistência, protagonismo
feminino e identidade cultural. O curta de animação "No início do Mundo" (CE,
2020, 7min46), da diretora Camila Osório. O filme acompanha a relação afetiva
entre uma avó e sua neta, em meio à natureza, e mostra como as histórias de
mulheres fortes podem servir de amparo em momentos de dor e incerteza.
Em seguida o documentário "Eu sou Raiz" (PE,
2022, 7min), de Cíntia Lima e Lílian de Alcântara, apresenta a trajetória de
Mestra Mariinha, líder quilombola que há mais de 40 anos luta às margens do rio
São Francisco pela preservação da cultura e do território. Benzedeira, mestra
do Reisado e detentora de saberes sobre ervas medicinais, ela simboliza a força
das comunidades tradicionais e a importância da memória viva.
Completando a
programação, o público também conferirá "As Lavadeiras do Rio Acaraú" (CE,
2021, 12min – classificação 12 anos – Documentário/Experimental), do diretor
Kulumym-Açu. A obra transforma a embarcação em nave de condução e acompanha o
fluxo das águas do Rio Acaraú, que atravessa a cidade de Sobral, no Ceará. O
filme exalta a cultura, a ancestralidade e o trabalho coletivo das lavadeiras,
mostrando como a lida delas no rio vai muito além de lavar roupa – é
identidade, resistência e a alma da comunidade. No filme, o esfregar e o voar
fazem parte do mesmo gesto coletivo, tecendo uma narrativa poética e potente
sobre o pertencimento.
A escolha dos filmes
está alinhada à missão formativa do Cine Realidade, que vai além da exibição
cinematográfica: busca estimular o pensamento crítico, a empatia e o debate
sobre direitos humanos, identidade e justiça social.
A sessão acontece na
Casa da Doméstica, instituição socioassistencial sem fins lucrativos fundada em
1968, que há mais de cinco décadas atua no acolhimento, orientação jurídica e
previdenciária, além do encaminhamento ao mercado de trabalho para profissionais
do serviço doméstico. Atualmente, a entidade é parceira do projeto
federal "Mulheres
Mil – Trabalho Doméstico e Cuidados", que oferece
qualificação profissional, formação sociopolítica e atendimentos
multidisciplinares – incluindo cursos de informática, acompanhamento
psicológico e nutricional, oficinas e dinâmicas grupais.
Com essa parceria, a
Casa da Doméstica amplia seu papel como espaço de acolhimento e transformação,
e o Cine Realidade se soma a esse esforço ao levar arte e reflexão para dentro
do cotidiano das trabalhadoras e da comunidade.
Serviço:
·Evento: 4ª Sessão do Cine Realidade – 15ª Mostra Difusão Cinema e
Direitos Humanos
·Local: Casa da Doméstica Dom José Vicente Távora – Rua Siriri, nº
684, Centro de Aracaju
·Data: 30 de junho de 2026 (sábado)
·Horários: 9h e 14h30
·Entrada: Gratuita
A programação é uma
oportunidade de vivenciar o cinema como ferramenta de educação, afeto e
cidadania. Venha assistir, refletir e compartilhar essa experiência.
Contexto da Mostra:
Esta sessão integra aEtapa de Difusão da 15ª Mostra Cinema e Direitos Humanos (2025/2026), que selecionou 1.150 pontos de exibição em mais de 660 municípios de todo o Brasil. A iniciativa visa descentralizar o acesso ao cinema, levando produções brasileiras — com destaque para documentários, curtas-metragens e obras indígenas e quilombolas — a cineclubes, escolas, centros culturais e ONGs que costumam ficar fora do circuito comercial tradicional. O objetivo é democratizar a cultura e promover debates sobre direitos humanos em todos os territórios.
Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.
Um dos maiores desafios da cultura paulistana é a manutenção e o apoio aos pequenos ecossistemas culturais da cidade.
São Paulo vive um momento de intensa atividade artística, mas....
Bar Sirigoela, no Bixiga, emparedado pela prefeitura (Tom Sampaio/Arquivo pessoal/Divulgação)
A coluna escrita por Alê Youssef na VEJA SÃO PAULO argumenta que, embora a cidade figure como a 7ª capital cultural do mundo segundo a revista Time Out, a gestão municipal adota políticas repressivas. Ele aponta um "claro preconceito ideológico" que asfixia pequenos ecossistemas criativos e penaliza trabalhadores da cultura.
Os principais pontos levantados pelo autor incluem:
Potencial Subaproveitado: A cidade possui vocação cultural única e abriga a única representante da América Latina no top 10 global, mas caminha na direção oposta ao que poderia ser sua principal força econômica criativa.
Ataques à Economia Criativa: Há um enfraquecimento contínuo dos pequenos ecossistemas culturais, refletido no fechamento de espaços históricos e na pressão sobre bares e casas de show.
Rigidez Institucional: O autor critica a aplicação rígida de normas urbanas sem mediação cultural, o que gera conflitos desnecessários com artistas e produtores.
Falta de Políticas Públicas: Denuncia-se uma escassez de apoio institucional e orçamentário, que sufoca os trabalhadores do setor e contraria a própria vocação cosmopolita de São Paulo.
A recente fala do presidente Lula durante a reunião do G7, captada por microfones e rapidamente viralizada, trouxe à tona uma questão que parece atravessar a história recente da política brasileira — e mundial: afinal, o que significa ser "de esquerda"? Em conversa com líderes europeus, Lula afirmou que "nunca foi esquerdista" e defendeu que "o mundo é do caminho do meio". A declaração, surpreendente vinda de um ícone da esquerda latino-americana, reabre um debate que vai muito além da autodefinição de um político.
Entrevista coletiva concedida por Lula sobre a sua participação da reunião do G7. AQUI
Esta é uma discussão que Norberto Bobbio, um dos mais lúcidos pensadores da ciência política, já enfrentava ao afirmar que a distinção entre direita e esquerda, longe de ter perdido relevância, continua sendo uma bússola fundamental para a democracia — ainda que seus critérios sejam historicamente móveis e atravessados por juízos de valor. Para Bobbio, o que opõe fundamentalmente os dois campos é a posição diante da igualdade: a esquerda tende a favorecer políticas que reduzam as desigualdades; a direita, a considerá-las naturais ou mesmo desejáveis.
A complexidade dessa distinção ganhou contornos dramáticos no Brasil durante os protestos de junho de 2013. Naquele momento, o youtuber PC Siqueira e Diego Quinteiro publicaram um vídeo — "Globo e os Protestos" — que buscava definir o movimento como "de esquerda", orientando os manifestantes a rejeitar a cobertura da grande mídia e a aceitar a participação de partidos alinhados a esse espectro. A tentativa de fixar uma identidade política gerou enorme controvérsia entre os comentaristas, que reivindicavam para si um caráter apartidário ou, quando muito, "político sem ser partidário". O episódio revelou o quanto a definição de "esquerda" pode ser objeto de disputa, negociação e rejeição, mesmo — ou especialmente — em momentos de intensa mobilização popular.
O debate, no entanto, não é novo. Já em 1918 e 1920, Lênin dedicava textos como "Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo" e "Criançada Esquerdista" a criticar o que considerava um desvio infantil e pequeno-burguês dentro do próprio movimento revolucionário: a recusa intransigente a participar de instituições burguesas como parlamentos ou a incapacidade de calcular realisticamente a correlação de forças. Para Lênin, o "esquerdismo" era uma postura que, sob a aparência de radicalidade, servia objetivamente aos interesses da reação — uma advertência que ecoa com força quando observamos os movimentos contemporâneos que se recusam a qualquer mediação institucional.
É a partir desse mosaico — a pragmática autodefinição de Lula, a teoria crítica de Bobbio, a tentativa polêmica de PC Siqueira em junho de 2013, e a advertência leniniana contra os desvios do próprio campo progressista — que nos situamos e por isso buscamos trazer as diversas vozes do debate para cá.
Sobre a fala de Lula, o que penso a respeito...
Lula ´é um humanista e social democrata. Neste caso de centro-esquerda. Penso que ele gostaria de ser um social democrata forte., o que significa dizer: A defesa da conciliação entre o capitalismo e o forte papel do Estado, garantindo que o livre mercado seja regulado para promover igualdade social, serviços públicos universais (como saúde e educação) e forte proteção ao trabalhador. Historicamente, esse modelo é a base de partidos e governos de centro-esquerda, sendo o "modelo nórdico" (países como Suécia, Noruega e Dinamarca) o exemplo mais clássico de social-democracia consolidada. Em entrevistas internacionais (como à rede norueguesa NRK), Lula já elogiou o sistema de bem-estar social dos países nórdicos, considerando-o um modelo de desenvolvimento e qualidade de vida que concilia crescimento econômico com forte amparo à população.
No coração urbano de Aracaju, a antiga Praça Tancredo Neves não é apenas um espaço de lazer; é memória viva, resistência silenciosa e testemunho de transformação. Sua história, marcada por camadas de barro, fé e convivência, reflete a própria cidade, unindo o sagrado, o cívico e o popular em um mesmo espaço.
Antes de se tornar praça, era uma colina de barro vermelho, vestida de matagais, na antiga elevação conhecida como “Alto da Boneca”. A comunidade, com seu esforço diário, retirava o barro para erguer casas de taipa, moldando o terreno e transformando-o em penhasco abrupto e de difícil acesso. Nesse ponto, elevado não apenas na geografia, mas na simbologia, consolidou-se o caráter religioso do espaço. No início da década de 1960, após negociações entre os frades capuchinhos e a Prefeitura, ergueram-se a Igreja e o Convento de São Judas, imprimindo à colina uma aura de fé que atravessa o tempo, silenciosa testemunha da devoção e da história.
Anos se passaram, e o espaço permaneceu adormecido, quase esquecido. Somente em 1985, durante a gestão do prefeito José Carlos Teixeira, o terreno acidentado recebeu urbanização e se transformou finalmente em praça. O nome escolhido, Tancredo Neves, ressoava esperança: homenagem ao primeiro presidente civil eleito após a ditadura militar, símbolo vivo da redemocratização brasileira.
Como tantas obras públicas da época, a praça logo mergulhou no esquecimento. A falta de cuidados apagou aos poucos o brilho conquistado. Somente em 1994, na administração do prefeito José Almeida Lima, uma ampla reforma trouxe fôlego ao espaço: o anfiteatro ganhou grades de ferro reaproveitadas da Praça Olímpio Campos. Ainda assim, o descuido retornou, e a praça, antes viva, permaneceu silenciosa, sob o peso do abandono que ameaçava sua história e a lembrança da comunidade.
Na gestão do ex-prefeito Edvaldo Nogueira, deu-se início, em 25 de abril de 2024, a uma grande reforma, prevista para ser concluída em 19 de fevereiro de 2025, com custo de R$ 1.944.054,29 (um milhão, novecentos e quarenta e quatro mil, cinquenta e quatro reais e vinte e nove centavos). A obra, fruto de indicação do então vereador Fabiano Oliveira, prometia devolver à comunidade um espaço digno, moderno e seguro. Anos antes, o ex-vereador Dr. Emerson havia apresentado a indicação para a mudança do nome da praça, que deixava de ser Tancredo Neves para se tornar Praça Frei Miguelangelo Serafine (Frei Miguel), em homenagem ao franciscano que dedicou sua vida à fé, à solidariedade e à comunidade.
Depois de cinco meses de atraso, a praça foi finalmente inaugurada, reunindo gestores, vereadores e comunidade para celebrar a conclusão da obra. O espaço ganhou nova vida, tornando-se ponto de encontro vibrante, memória viva e símbolo da história e identidade de Aracaju. Cada detalhe refletia cuidado, tornando a Praça Frei Miguel um local de lazer, convívio e cultura, pronto para abraçar gerações.
Mas o que muitos moradores testemunharam na inauguração foi um desfile de autoridades, algumas mais blogueirinhas que legisladores, disputando câmeras e sorrisos efêmeros. Raros conhecem o chão que pisam; tropeçam até no nome da praça e do santuário, revelando total falta de intimidade com a história e com o povo do bairro. Muitos desses legisladores e gestores, sem GPS, talvez jamais chegassem ao bairro América, na zona oeste de Aracaju, onde a vida pulsa longe dos holofotes, e onde a verdadeira história da comunidade se escreve a cada dia.
Quando a praça desperta plenamente, sua essência se revela em cada gesto e em cada som. Que a FUNCAJU conduza grupos teatrais, músicos e artistas populares, transformando a Praça Frei Miguel em um coração pulsante de lazer, arte e memória. Que a concha acústica ressoe com risos, canções e histórias, e que cada canto do espaço celebre encontros, sonhos e afetos, devolvendo à zona oeste a vitalidade de um tempo em que o bairro inteiro fazia da rua palco de vida e poesia.
Que a FUNCAJU dê vida e movimento à nossa praça, pois um espaço público não é apenas lugar de passagem ou comida: é ponto de convivência comunitária, de encontro, de troca e de expressão. A praça deve pulsar com arte, cultura, diversão e interação, oferecendo ao morador não só sustento, mas alegria, aprendizado e vivência coletiva. Afinal, uma praça sem vida é só concreto e chão, mas com cultura e movimento ela se transforma em território de sonhos, afeto e pertencimento.
E que cada morador compreenda seu papel. Preservar a praça, cuidar dos bancos, da iluminação e da concha acústica é gesto de cidadania e amor pelo bairro. Não basta esperar pelo poder público: é preciso zelar, proteger e manter viva a beleza conquistada com esforço. Afinal, a praça é nossa, e pertence a todos que acreditam que o espaço público é reflexo da comunidade que o habita.
*É historiador, coautor dos livros Bacias Hidrográficas de Sergipe, Unidades de Conservação de Sergipe e Bairro América: A saga de uma comunidade. Também atua como repórter fotográfico e poeta popular.
Um problema anunciado desde a inauguração. A sugestão foi ter a guarda municipal fazendo rondas intensivas, assim também como um programa municipal contratando fiscais da comunidade recebendo salário mensal para fiscalização, pode ser agentes jovens comunitários. Lembrando: Sem identificação, com papel de ser os olhos e ouvidos da gestão municipal..
Junto a isso o trabalho de educação patrimonial para e com os estudantes, mas isso para o médio e longo prazo..
Bronca da Comunidade: moradores denunciam vandalismo em praça do Bairro América
Arte, fé e arquitetura: como a Emurb transformou a Praça dos Capuchinhos em referência para Aracaju
Durante muito tempo, Aracaju foi reconhecida como uma capital de escala humana. Uma cidade relativamente tranquila, com deslocamentos curtos, boa qualidade de vida, custo de vida mais acessível que o das grandes capitais e uma relação urbana menos sufocante. Essa imagem ainda existe, mas começa a conviver com outra realidade: trânsito mais pesado, aluguel mais caro, maior disputa por localização, expansão imobiliária visível e uma sensação cada vez mais comum de que a cidade “encheu”.
O ponto central é que essa mudança não pode ser entendida olhando apenas para a população de Aracaju. Os dados mostram que o município-sede não teve uma explosão demográfica. Entre 2010 e 2025, Aracaju cresceu de forma moderada. O que está mudando, de maneira mais profunda, é a dinâmica da Região Metropolitana de Aracaju.
Aracaju já não pode ser pensada como uma cidade isolada. Ela funciona como o coração de uma área urbana formada também por Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão. Muitas pessoas moram nesses municípios, mas trabalham, estudam, consomem, buscam atendimento médico, frequentam espaços de lazer e utilizam serviços em Aracaju. Ou seja: mesmo quando a população não mora oficialmente na capital, ela pressiona diariamente a estrutura urbana da capital.
Esse é um ponto que precisa entrar com mais força na agenda pública. O planejamento urbano não pode considerar apenas quem reside formalmente em Aracaju, mas também a população que utiliza a capital todos os dias. A cidade administrativa tem limites definidos no mapa; a cidade real, vivida no cotidiano, já ultrapassou essas fronteiras.
Essa mudança altera completamente a forma de planejar o futuro urbano de Sergipe. Se Aracaju continuar sendo administrada apenas a partir dos seus limites municipais, corre o risco de repetir, em escala menor, alguns problemas já conhecidos das grandes metrópoles brasileiras: congestionamentos crônicos, encarecimento da moradia, ocupação desordenada, desigualdade territorial, pressão sobre serviços públicos, perda de qualidade de vida e crescimento urbano sem coordenação.
A Região Metropolitana de Aracaju já se aproxima da marca de um milhão de habitantes. Somando Aracaju, Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão, as estimativas oficiais de 2025 chegam a 981 mil habitantes. Esse número, por si só, deveria acender um alerta. Não se trata de alarmismo, mas de planejamento. Entre 2010 e 2022, Aracaju cresceu de forma moderada, mas a Região Metropolitana cresceu mais que o município-sede. Uma metrópole não nasce de um dia para o outro. Ela se forma aos poucos, quase silenciosamente, até que seus problemas se tornam visíveis demais para serem ignorados. Quando isso acontece, o custo de corrigir é muito maior do que o custo de prevenir.
Barra dos Coqueiros é talvez o exemplo mais claro dessa nova fase. O município cresceu 66% entre 2010 e 2022 e mais de 80% quando se observa o período de 2010 a 2025. Passou a representar uma frente importante da expansão residencial da Grande Aracaju. Mas esse crescimento não ocorre separado da capital. Ao contrário: ele está fortemente relacionado à proximidade com Aracaju e reforça os fluxos diários em direção ao município-sede. O mesmo raciocínio vale, em diferentes medidas, para Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão, que também cresceram proporcionalmente mais que a capital no período recente.
O mercado imobiliário também revela sinais dessa pressão. No caso da locação residencial, os dados de preços anunciados indicam alta expressiva em Aracaju nos últimos anos. Entre 2022 e abril de 2026, a alta acumulada dos aluguéis chegou a cerca de 92%, acima da média nacional acompanhada pelo FipeZAP no mesmo período. Esse dado não explica tudo sozinho, mas reforça a percepção de que a disputa por moradia e localização está mais intensa. Isso afeta diretamente a vida das famílias, especialmente das de renda média e baixa, que passam a ter mais dificuldade para morar perto do trabalho, dos serviços e das áreas mais estruturadas da cidade.
O trânsito é outro sintoma evidente. A frota registrada em Aracaju passou de cerca de 206 mil veículos em 2010 para mais de 356 mil em 2024. Em termos simples, a capital saiu de aproximadamente 36 para 56 veículos a cada 100 habitantes. Esse aumento não prova, sozinho, a origem dos congestionamentos, mas mostra que a pressão viária cresceu. E a mobilidade urbana já não pode ser tratada como um problema apenas de Aracaju. Quem atravessa pontes, avenidas de ligação e corredores de entrada e saída da capital sabe que o deslocamento cotidiano é metropolitano. O cidadão pode morar em um município, trabalhar em outro, estudar em um terceiro e consumir serviços na capital. A cidade real já ultrapassou a cidade administrativa.
Por isso, o planejamento precisa mudar de escala. Aracaju, Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão precisam ser pensadas conjuntamente. Mobilidade, habitação, saneamento, drenagem, uso do solo, transporte público, saúde, educação, turismo e desenvolvimento econômico não respeitam fronteiras municipais. O problema de um município rapidamente se transforma em problema de todos.
Sergipe tem uma vantagem: ainda há tempo. Aracaju ainda não enfrenta, na mesma intensidade, os dramas urbanos de capitais maiores. Ainda preserva qualidades que fazem dela uma cidade desejada. Mas justamente por isso é preciso agir agora. O maior erro seria esperar que os problemas se consolidem para só então buscar soluções.
A experiência das grandes metrópoles brasileiras ensina que crescimento urbano sem governança cobra um preço alto. Quando o planejamento chega atrasado, a cidade já está mais cara, mais desigual, mais congestionada e mais difícil de organizar. Aracaju não precisa seguir esse caminho.
O desafio é antecipar o futuro. Isso exige fortalecimento da governança metropolitana, planejamento de transporte de massa, corredores metropolitanos, política habitacional articulada, controle da expansão urbana, fortalecimento dos dados públicos e decisões baseadas em evidências.
Mais do que discutir se Aracaju “cresceu muito” ou não, é preciso reconhecer que Aracaju mudou de função. Ela deixou de ser apenas uma capital administrativa de porte médio e passou a funcionar como núcleo de uma região metropolitana em intensificação. Essa mudança já aparece no cotidiano das pessoas, nos preços, nos deslocamentos e na ocupação do território.
O nosso futuro urbano será decidido pela capacidade de enxergar essa transformação a tempo. Aracaju ainda pode crescer com qualidade, equilíbrio e planejamento.
Ignorar esse processo seria permitir que Aracaju perca justamente aquilo que sempre foi uma de suas maiores virtudes: a qualidade de vida. Planejar agora é a melhor forma de evitar que a capital sergipana sofra amanhã os mesmos problemas que hoje castigam as grandes metrópoles brasileiras.