segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A Cultura de Mitidieri. Por Pascoal Maynard.

publicado pelo autor em sua página no facebook em  9/12/2025

A gestão do governador Fábio Mitidieri tem sinalizado uma mudança importante no lugar que a Cultura ocupa dentro das políticas públicas de Sergipe. A criação da Secretaria Especial de Cultura, a Lei dos Mestres – Patrimônio Vivo da Nossa Cultura, e a integração com o Turismo e a Economia Criativa, demonstram que a Cultura deixou de ser acessório e passou a ser tratada como vetor estratégico de desenvolvimento.

Importante nesse movimento o nosso alinhamento ao ‘Sistema Nacional de Cultura” (SNC), que estabelece diretrizes para a institucionalização das políticas culturais em todo o país, fundamental para garantir continuidade e participação social. 

Já o Plano Nacional Aldir Blanc (PNAB), é um divisor de águas. Ele assegura recursos federais permanentes para estados e municípios, permitindo que a Cultura seja tratada como política pública de Estado. Em Sergipe, esses recursos estão sendo operacionalizados pela Funcap (Fundação de Cultura e Arte Aperipê), em lançamentos de chamamentos públicos, garantindo cotas afirmativas para negros, indígenas e pessoas com deficiência

Neste ponto a gestão abre caminho para que a Cultura deixe de ser apenas expressão simbólica e tem potencial para reposicionar Sergipe como referência nacional em gestão cultural, mostrando que investir em Cultura é investir em identidade, cidadania e desenvolvimento sustentável.

O desafio agora é garantir que essas políticas não se percam no tempo, mas se tornem políticas de Estado. Nesse sentido, é necessária a revisão do Plano Estadual de Cultura (Lei nº 9.117, de 14 de dezembro de 2022) em alinhamento ao novo Plano Nacional de Cultura, enviado este ano ao Congresso Nacional, bem como a legislação patrimonial, hoje estruturada pela Lei nº 2.069/1976, considerada antiga e que precisa ser atualizada para dialogar com os novos conceitos de patrimônio (material e imaterial).

Se isso acontecer, Sergipe terá dado um passo histórico: transformar sua riqueza cultural em motor de futuro.

*Pascoal Maynard é jornalista, documentarista e produtor cultural. Atualmente exerce o cargo de Assessor Especial da Funcap e Presidente do Conselho Estadual de Cultura.

E nosso conselho estadual de cultura. Não carece também de reforma, de atualização.? Nos marcos das normas que regulam o Conselho Nacional de Politicas Culturais? Um conselho eletivo e com a incorporação de novas linguagens e ampliação da participação social cidadã com representação por territórios...

O questionamento acima foi feito na seção de comentários da publicação no facebook. Não houve resposta e ninguém curtiu o que está escrito acima.

O que isso nos diz sobre o silêncio acerca do que é  essencial, do que é  estruturante, do  que é interditado no debate cultural em nosso estado?

E se não fosse os recursos públicos federais para a cultura?

Porque os governos de Sergipe, os dos passado e o atual,  não conseguiram ter ou não tem uma visão mais ampliada e de longo prazo para investir nas potencialidades culturais do estado, o que poderia ou poderá nos colocar em um estágio como o de Pernambuco por exemplo, que brilha nas telas do cinema nacional e internacional com o filme  "Agente Secreto", sem contar inúmero produtos cultural qualidade exportação. 

Wagner Moura que é o ganhador de diversos prêmios como protagonista do "Agente Secreto" afirmou em entrevista que ele também é fruto de politicas públicas focadas no desenvolvimento cultural, social e econômico. AQUI

Zezito de Oliveira

O ator , técnico e gestor cultural Isaac Galvão também perguntou:
Pascoal, como anda o nosso Fundo Estadual de fomento à cultura? Abraço



Memórias esquecidas de Sergipe (1) A memória seletiva sergipana que desconhece Zé da Velha e Luiz Americano músicos de prima reconhecidos nacionalmente. Por Emanuel Rocha



Zé da Velha: Um Mestre que Sergipe Pouco Ouviu

 4 de janeiro de 2026  

A trajetória silenciosa de um mestre do choro brasileiro

Zé da Velha, José Alberto Rodrigues Matos, não foi apenas um trombonista. Foi o eco vivo de Aracaju correndo nas veias do choro carioca, um grave profundo que ligou o litoral sergipano ao asfalto pulsante do Rio de Janeiro. Seu som desenhava mapas invisíveis de saudade, pertencimento e comunhão, sustentando rodas inteiras com a firmeza de quem entende que a música nasce do coletivo.

Nascido em 1º de junho de 1941, em Aracaju, Sergipe, Zé cresceu em uma casa onde o ofício e a arte dividiam o mesmo espaço. Filho de um alfaiate que costurava tecidos e sonhos, teve no saxofone amador do pai a primeira presença musical do cotidiano. A música não era espetáculo, era convivência. Era som misturado ao trabalho, ao tempo lento, às conversas e aos silêncios.

Nas ruas quentes de Aracaju, embaladas pelo vento do rio Sergipe e pelo murmúrio das praças antigas, aprendeu os primeiros compassos da vida. Ouvia o pai entre linhas, agulhas e melodias improvisadas, entendendo cedo que a música nasce do chão comum e do encontro entre trabalho e sensibilidade. Ainda menino mudou-se para o Rio de Janeiro, mas jamais rompeu com as raízes. Elas seguiram pulsando em cada respiração harmônica, como rios que sempre encontram o mar.

No Rio, adolescente, encontrou no trombone de vara sua voz definitiva. Não buscava o brilho do solista, mas o chão firme que sustenta a roda. Foi assim que se integrou às rodas de samba e choro, convivendo com mestres da Velha Guarda, tocando com nomes fundamentais do gênero como Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Waldir Azevedo. A tradição o reconheceu como guardião do grave, conferindo-lhe o apelido que atravessaria toda a sua trajetória, Zé da Velha, não como rótulo, mas como reconhecimento de uma sonoridade ancestral.

Durante o dia, trabalhou como telegrafista no aeroporto, lidando com sinais elétricos que cruzavam continentes. À noite, entregava-se às gafieiras, aos clubes e às rodas escondidas da cidade, onde o trombone sustentava danças, encontros e afetos. Servia à música como quem cuida de um jardim coletivo, sem vaidade, sabendo que o florescer depende do conjunto. Seu som não disputava espaço, criava espaço.

Passou por grupos como Sambalândia, Orquestra Gentil Guedes, Chapéu de Palha e Suvaco de Cobra, deixando marcas profundas em cada formação. Seu trombone combinava leveza e firmeza, antecipando caminhos que só seriam plenamente reconhecidos pelas gerações seguintes. Em 1986, ao lado do trompetista fluminense Silvério Pontes, formou uma dupla que ficaria conhecida como “a menor big band do mundo”. Dessa parceria nasceram seis álbuns fundamentais do choro instrumental, entre eles Só Gafieira! (1995), obra seminal em que o trombone deixa de ser apenas base harmônica e passa a narrar, dialogar e emocionar, com sete choros que se tornariam referência musical e acadêmica.

Zé da Velha tornou-se decano das rodas de choro, mestre pelo exemplo, pai musical de muitos. Ensinava sem impor, transmitia sem discursos, oferecendo o fôlego de quem compreende a música como serviço. Seu saber fluía como rio generoso, nutrindo sem exigir retorno.

Esse legado ganhou contornos acadêmicos na tese de doutorado O estilo de Zé da Velha no CD Só Gafieira!: práticas de performance do trombone no choro, defendida em 16 de dezembro de 2017 na Universidade Federal de Minas Gerais, sob orientação de Fausto Borém de Oliveira. A pesquisa analisa minuciosamente sete choros do álbum, revelando uma linguagem performática própria, marcada por precisão expressiva, contrapontos sutis, diálogo constante com o silêncio e ornamentos que dialogam com a expressividade do cavaquinho e do pandeiro. O trombone, em suas mãos, deixa de ser coadjuvante e se transforma em narrador sensível do choro brasileiro.

Desse estudo nasceu o livro O Trombone no Choro: A História e o Legado de Zé da Velha, publicado pela Editora Appris em 2025, que aprofunda a análise histórica e estética do instrumento no choro e reafirma que seu toque não é apenas estilo ou sotaque, mas uma linguagem musical completa, capaz de unir tradição nordestina e sofisticação urbana carioca.

Zé da Velha faleceu em 26 de dezembro de 2025, no Rio de Janeiro, aos 84 anos, em decorrência de infecção bacteriana. Sua morte provocou comoção entre músicos, pesquisadores e amantes do choro, que o celebraram como mestre, referência e guardião do coletivo. Mas sua ausência nunca foi silêncio. Seu trombone segue ecoando nas rodas, nas gravações, nas partituras e nas pesquisas que eternizam sua contribuição.

Quando o vento ainda hoje atravessa o rio Sergipe, em Aracaju, parece carregar um grave distante, firme e acolhedor. É Zé da Velha lembrando que o choro não se constrói com estrelas solitárias, mas com o chão fértil de quem sustenta, escuta e serve. Seu som permanece como ponte viva entre Sergipe e o coração musical do Brasil, unindo passado, presente e porvir em uma mesma respiração sonora.

Zé da Velha partiu longe de sua terra natal, no Rio de Janeiro que o acolheu e que ele ajudou a moldar sonoramente. Ainda assim, muitos sergipanos nunca souberam quem ele foi. Outros tantos não se interessaram em saber. Sua ausência física passou quase silenciosa em sua própria origem, como tantas vezes acontece com aqueles que servem à cultura sem buscar holofotes. Enquanto seu nome ecoa em rodas de choro, pesquisas acadêmicas, gravações históricas e salas de musica pelo Brasil, em Sergipe sua memória ainda aguarda reconhecimento mais amplo. Mas o tempo, que sabe separar ruído de permanência, há de fazer justiça. Porque Zé da Velha não pertence apenas à história do choro ou do Rio de Janeiro. Ele é patrimônio sensível de Aracaju, do litoral sergipano e da música brasileira, um mestre do grave que ensinou, com humildade e som, que sustentar também é criar


Coleção do Zuza
22.6.2023
Choro na praça

Toda e qualquer enciclopédia que pretenda elencar os grandes solistas não apenas do choro, mas da música popular brasileira como um todo, não tem como ignorar os nomes reunidos pelo produtor Albino Pinheiro entre os meses de março e junho de 1977 no palco do teatro João Caetano.

Paulo Moura (sax soprano), Waldir Azevedo (cavaquinho), Copinha (flauta), Joel Nascimento (bandolim), Abel Ferreira (clarinete) e Zé da Velha (trombone) gravaram juntos o antológico álbum duplo “Choro na praça” (em referência à localização do teatro, situado na praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro), nas noites de 23, 24 e 25 de junho daquele ano.

Acompanhados pelos jovens do conjunto A Fina Flor do Samba, os solistas executam composições próprias e clássicos de Pixinguinha, Benedito Lacerda, Ernesto Nazareth e K-Ximbinho. A interpretação solo, sem acompanhamento, de Paulo Moura para “Leninha (Valsa para Lena)”, composta pelo violonista Codó, é um capítulo à parte.

Ainda que deixe um pouco a desejar na qualidade da captação do som, o disco compensa pela espontaneidade do registro ao vivo de uma roda de choro e, claro, pelo talento dos intérpretes.
Ouça AQUI 

* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor  e Repórter fotográfico

 Luiz Americano, o Clarinetista que o Brasil Consagrou e Aracaju Ignorou

 11 de janeiro de 2026  

A história do músico sergipano que ajudou a moldar o choro nacional e segue fora da memória local

Aracaju ainda aprendia a ser cidade, abrindo ruas sob o sol firme do Nordeste, quando nasceu Luiz Americano Rego, em 27 de fevereiro de 1900. Era uma capital jovem, desenhada em linhas retas sobre areias claras, onde o vento vinha do rio e do mar misturando sal, poeira e promessa. Entre mangueiras frondosas, quintais largos e ruas de chão batido, surgia um menino de olhar atento, destinado a dialogar com o vento por meio do clarinete. A cidade tinha poucos anos, mas já pulsava com bandas em coretos, procissões sonoras, dobrados ecoando nas festas cívicas e religiosas. Aracaju crescia devagar, e Luiz crescia com ela, ouvindo a música como quem aprende a ler o mundo.

Filho do mestre de banda Jorge Americano, recebeu cedo não apenas as primeiras lições musicais, mas uma herança inteira de rigor, sensibilidade e afeto. Aos treze anos, o pai lhe ensinou os primeiros sopros e lhe compôs um dobrado em homenagem, gesto que selou um destino. Luiz cresceu entre dobrados militares, serestas discretas, ensaios à sombra das árvores e o rumor das ruas ainda em formação. Iniciou-se na Sociedade Filarmônica Santa Cecília de Brejo Grande e tocou em bandas de Aracaju e Maceió, quando a música já deixava de ser passatempo para se afirmar como caminho inevitável.

Em 1921, partiu para o Rio de Janeiro, como tantos nordestinos movidos pela esperança e pela necessidade. A travessia significava mais que distância geográfica, era um salto de mundo. Na então capital cultural do país, Luiz Americano encontrou uma cidade em permanente estado de som. O Rio acordava com música, atravessava o dia em ensaios improvisados e adormecia em serenatas, gafieiras e rodas que varavam a madrugada. Nos quintais, nos bares, nos estúdios de gravação ainda rudimentares e nas emissoras de rádio que começavam a ganhar força, o choro se refinava como linguagem urbana. Luiz viveu esse cotidiano intenso, tocando noites seguidas, aprendendo com os pares, disputando espaço pelo ouvido atento do público e lapidando um estilo que unia disciplina técnica e liberdade expressiva.

Nesse ambiente efervescente, firmou-se como um dos grandes nomes do choro, convivendo com Pixinguinha, Donga e João da Baiana. Seu clarinete e seu saxofone ajudaram a consolidar a escola brasileira de sopro, marcada por fraseado elegante, precisão rítmica e um timbre imediatamente reconhecível. Na Lapa em ebulição, integrou formações ligadas aos Oito Batutas, participou dos Diabos do Céu, da Velha Guarda e de conjuntos como a American Jazz Band, circulando entre o popular e o sofisticado com naturalidade rara.

Gravou com Carmen Miranda, dialogou musicalmente com Radamés Gnattali e acompanhou grandes vozes da Era de Ouro do rádio, como Orlando Silva, Francisco Alves e Nelson Gonçalves. Seu som leve e preciso atravessou fronteiras, levando o sotaque nordestino à Argentina em 1928 e alcançando Nova York em 1939, na Feira Mundial, onde seu saxofone fez ecoar, em palcos distantes, uma saudade profundamente brasileira. Era o menino de Aracaju dialogando com o mundo, sem jamais perder a cadência da origem.

Como compositor, deixou valsas de lirismo intenso, a exemplo de “Lágrimas de Virgem”, sucesso imediato em 1931, e “Sorriso de Cristal”, além de choros marcantes como “É do que há”, “Numa Seresta”, “Intrigas no Boteco do Padilha”, “Tigre da Lapa” e “Assim Mesmo”. Suas melodias combinam melancolia, refinamento harmônico e ritmos que transitam entre o maxixe, a polca e o samba. A extensa discografia em 78 rotações registra um artista versátil, regravado por diferentes gerações e ainda vivo nas rodas de choro espalhadas pelo país.

Luiz Americano faleceu em 29 de março de 1960, aos 60 anos, no Rio de Janeiro que o consagrou. Em Sergipe, porém, sua memória não recebeu o mesmo cuidado. É mais um grande artista nascido em Aracaju que muitos aracajuanos não ouviram tocar, não aprenderam a reconhecer pelo nome ou simplesmente não lembram. Sua ausência na memória coletiva não é silêncio do acaso, mas resultado de um descuido histórico com aqueles que partiram e fizeram grandeza longe de casa.

Seu sopro permanece vivo na história da música brasileira, registrado em discos, estudado por músicos, respeitado nas rodas de choro. Ainda assim, segue pedindo reencontro com a cidade onde tudo começou. Como se o clarinete chamasse, do outro lado do tempo, pela escuta que lhe foi negada em casa. E talvez lembrar Luiz Americano seja também lembrar que Aracaju, além de ruas e prédios, é feita de sons, de artistas e de vozes que merecem voltar a ecoar no lugar onde nasceram.

Luiz Americano-Tigre da Lapa (Luiz Americano)



Tocando pra você | Sopros

Música "Tocando pra você", de Luiz Americano, é interpretada no programa por Rafael Toledo, Douglas Alonso, Léo Rodrigues, Teco Cardoso, Enrique Menezes, Henrique Araújo e Gian Correa. A série teve direção e produção musical de Marquinho Mendonça e Swami Jr e mixagens de Alberto Ranellucci.

AQUI


O Agente Secreto e a torcida dos patriotas seletivos que jogam contra a cultura e contra o Brasil..

 Wagner Moura venceu o Globo de Ouro de melhor ator por O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho — que também levou o prêmio de filme em língua estrangeira. Em qualquer país, seria consenso de orgulho. No Brasil de hoje, teve gente torcendo contra. Patriotas seletivos, que flertaram com golpe e relativizaram a democracia, não suportam quem pensa por conta própria. O problema nunca foi Hollywood nem “globalismo”. É a autonomia. Memória importa. E foi dela que Wagner lembrou no discurso, lembrando que valores atravessam gerações.

A coincidência simbólica é importante: o prêmio chega logo após o Supremo Tribunal Federal condenar líderes da trama golpista. Cultura também cura. Como já doeu quando Fernanda Torres venceu por Ainda Estou Aqui, agora A Hora do Pesadelo volta aos golpistas — não no sonho, no espelho.

Não foi lacração, complô ou conspiração. Foi trabalho, estudo e talento. Não queriam exemplo de mérito? Ta aí. O Globo de Ouro é de Wagner. O chilique ficou com quem perdeu nas urnas, no Supremo e agora no campo simbólico. Viva o Brasil. Viva a cultura brasileira. 

Rozalvo Finco

Diminuir o Prêmio de Wagner Moura e do filme “O Agente Secreto” não é um gesto inocente nem apenas uma divergência estética. É vassalagem cultural. É esse velho hábito colonial de desprezar aquilo que nasce aqui e fala a nossa língua. Quem rebaixa um prêmio brasileiro, quem menospreza a cultura brasileira não está criticando arte, está negando pertencimento, não reconhece a potência criadora do próprio país. Desprezar a cultura brasileira é, no fundo, desprezar o Brasil. E isso diz muito menos sobre a obra ou o prêmio, e muito mais sobre quem escolhe a vassalagem em vez da dignidade cultural. 






Brasil faz história no Globo de Ouro com vitória dupla no cinema




Diretor de O Agente Secreto detona Bolsonaro depois de premiação brasileira no Globo de Ouro | 12.01



Reinaldo: 'O Agente Secreto' trata do presente e do futuro que queremos; não é alegoria do passado





O TAMANHO DA VITÓRIA DE O AGENTE SECRETO E WAGNER MOURA NO GLOBO DE OURO COM LULA E JANJA | PLANTÃO



OS MELHORES MEMES DA VITÓRIA DE O AGENTE SECRETO E DE WAGNER MOURA NO GLOBO DE OURO | PLANTÃO



domingo, 11 de janeiro de 2026

Cultura e patrimônio em 2026: o que eleitores e políticos precisam enxergar antes do voto

Num ano de eleições nacionais e estaduais, é hora de transformar a pauta cultural — sempre tratada como ornamento — em compromisso concreto de governo, com carreira, descentralização real e fortalecimento dos órgãos regionais.

Fachada da estação: pichações, sujeira e ferrugem no prédio tombado pelo patrimônio - Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Por Rafael Azevedo -11 de janeiro de 2026

2026 será um ano eleitoral decisivo — com eleições gerais em 4 de outubro (e eventual segundo turno em 25 de outubro) — e, como quase sempre ocorre em ciclos de quatro anos, a pauta da cultura e do patrimônio corre o risco de entrar no debate público apenas como enfeite discursivo: uma menção protocolar aqui, uma promessa vaga ali, e nada que se converta em programa sério de Estado. 

E talvez o mais grave não seja só o oportunismo de parte da classe política, mas a falta de mobilização orgânica do próprio campo cultural antes do período eleitoral. De modo geral, não há — salvo raras exceções — uma articulação prévia, minimamente coesa, entre interessados, ativistas, consumidores, diletantes, pesquisadores, servidores e produtores para definir prioridades, pactuar pleitos e cobrar compromissos objetivos. O setor chega atrasado ao jogo. Chega disperso. Chega, muitas vezes, desinformado sobre seus próprios instrumentos.

Isso se agrava porque cultura e patrimônio são áreas estruturalmente submetidas a dois flagelos simultâneos: a carência crônica de recursos financeiros e a carência (não raro dramática) de recursos humanos. É um campo com disputas internas por protagonismos — algumas legítimas, outras meramente performáticas — e com enorme dificuldade de construir unidade em torno de um mínimo denominador comum. Falta, sobretudo, o que chamo aqui de “consciência de classe” num sentido não ideológico, mas corporativo e institucional: o tipo de organização pragmática que médicos e advogados exercitam com muito mais competência, criando pressão pública, defendendo carreiras, pautando o legislativo, blindando estruturas e corrigindo fragilidades.

O resultado é um panorama amorfo, desigual e injusto: ilhas de prosperidade margeadas por vastas regiões abandonadas, sem ações consistentes, sem investimentos duradouros, com equipamentos culturais em precariedade e com a fruição da memória reduzida a quase nada. E o mais afetado por isso é justamente quem menos aparece na discussão: a população. O povo, que deveria ter acesso cotidiano a bens civilizatórios — patrimônio, memória, teatro, poesia, música — acaba sem repertório e sem ferramentas para apresentar demandas de forma organizada. Soma-se a isso o desentendimento generalizado sobre captação, editais, mecanismos de fomento e prestação de contas, transformando oportunidades em labirintos e direitos em “favores”.

É nesse cenário, antigo e persistente, que exorto uma união mais franca e madura entre os diversos atores desse ecossistema — produtores e consumidores, servidores e gestores, diletantes e técnicos, pesquisadores e comunidades — para que 2026 seja o ano em que a pauta da cultura deixe de ser uma nuvem lírica e se torne agenda política com metas, prazos e medidas verificáveis.

E, para isso, três pontos deveriam estar no centro de qualquer programa sério de mandato — e, portanto, no centro do olhar de quem vota.

O primeiro é uma obviedade que o Brasil insiste em adiar: o plano de carreira do Ministério da Cultura. Plano de carreira não é capricho corporativo; é o esqueleto administrativo sem o qual nada se sustenta. Ele organiza ingresso, remuneração, progressão, formação continuada e atribuições. Sem isso, não há estabilidade técnica, não há retenção de quadros qualificados, não há memória institucional — e tudo vira improviso, rotatividade, dependência do “gênio de ocasião” ou do abnegado que segura a máquina no braço. O próximo ciclo de mandatos (2027–2030) não avançará em nada estrutural se continuar tratando o corpo técnico como detalhe secundário. A cultura não se realiza apenas com editais: ela se realiza com gente competente, formada, valorizada e em número suficiente para fazer o Estado funcionar na ponta.

O segundo ponto é o mais mal compreendido: descentralização. E aqui é preciso ser direto: não basta descentralização financeira. É necessário descentralizar também a máquina pública — e não por “modernidade administrativa”, mas porque a cultura acontece no território, e o patrimônio vive no território. Museus federais, por exemplo, são polos irradiadores da memória brasileira: guardiães de tesouros nacionais, intérpretes da nossa história, estruturas vivas do Estado brasileiro. E, no entanto, ainda são geridos por um corpo burocrático muitas vezes distante, estagnado, ausente — quando não exaurido por acúmulo de funções e carência de pessoal.

Façamos uma comparação simples com um equipamento que todos conhecem — e que também é cultura: o Maracanã. Faria sentido o Maracanã, mesmo que fosse um equipamento federal, ser administrado por um corpo burocrático em Brasília, sem presença local robusta, sem governança de campo, sem gente vivendo o cotidiano do estádio? Claro que não. Então por que naturalizamos essa distância quando falamos de museus, patrimônio material, bens ferroviários, arqueologia, patrimônio imaterial?

E aqui a provocação é necessária: lembram do sucesso recente de celebrações populares no Centro do Rio — como a Folia de Reis? Faz sentido coordenadores, gerentes e diretores cuidarem de coisas tão estratégicas a quilômetros de distância, correndo o risco de desconhecer a pauta com profundidade? Falta engajamento com o mundo real. Falta mais povo na rua fazendo a coisa acontecer e menos gente encastelada, por vezes sem a vivência mínima das necessidades que brotam das pontas. Não se trata de desprezar o planejamento central — ele é indispensável —, mas de reconhecer que a cultura e o patrimônio morrem quando se tornam administração sem chão.

O terceiro ponto diz respeito ao fortalecimento dos órgãos regionais. No Rio de Janeiro, temos o brioso Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, o INEPAC — primeiro órgão estadual de patrimônio do Brasil, hoje vinculado à Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa. E aqui quero ser muito claro: não se trata de uma crítica aos gestores atuais. Ao contrário: o diretor geral Kiko Brando e a secretária de Estado Danielle Barros vêm realizando um trabalho de requalificação e aprimoramento que merece reconhecimento, sobretudo diante das limitações patentes.

O problema é estrutural — e, portanto, político-legislativo: o INEPAC não possui dotação própria robusta, não possui um quadro estável de servidores concursados compatível com seu tamanho, não possui autonomia administrativa na medida necessária para o cumprimento pleno de sua missão pública. E aqui cabe um recado direto ao legislativo estadual que será reconfigurado a partir do próximo ano: deputado estadual que representa cidade metropolitana ou do interior — territórios repletos de comunidades que emanam cultura, memória e identidade — você não acha que deve isso ao seu eleitor? Um projeto de lei que fortaleça o INEPAC, os museus estaduais e outros equipamentos culturais regionais não consumiria sequer 1% do erário estadual — que supera a casa das centenas de bilhões — e entregaria retorno civilizatório imensurável: dignidade, pertencimento, turismo cultural, economia criativa, educação patrimonial e preservação de legado.

Sim, fica a dica.Porque, no fim, o que está em jogo em 2026 não é apenas eleição: é a escolha do tipo de país que queremos preservar e transmitir. Sem carreira forte no Ministério da Cultura, tudo seguirá refém do improviso. Sem descentralização real — do dinheiro e da máquina — seguiremos administrando cultura como quem administra um arquivo morto. Sem fortalecimento dos órgãos regionais, continuaremos condenando territórios inteiros à invisibilidade cultural, como se o Brasil fosse apenas meia dúzia de vitrines.

Se a introdução deste texto descreve um campo amorfo, desigual e desorganizado, a conclusão não pode repetir o lamento: ela precisa insistir na solução. Em 2026, eleitores e políticos devem se atentar a essas três obviedades estruturais — carreira, descentralização e fortalecimento regional — para que intenções de voto e programas de mandato se compatibilizem com um projeto sério, capaz de entregar melhoria real para cultura e patrimônio no Brasil.

Sem isso, a história se repete: promessas ao vento, editais pontuais, fotos em inaugurações e — depois — abandono. E já passou da hora de tratarmos cultura e patrimônio como o que são: bens públicos civilizatórios, condição de futuro, e não adereço de campanha.

https://diariodorio.com/cultura-e-patrimonio-em-2026-o-que-eleitores-e-politicos-precisam-enxergar-antes-do-voto/

Funcap abre inscrição para 1ª Teia Estadual Pontos de Cultura em Sergipe

Evento acontece nos dias 30 e 31 de janeiro e reunirá Pontos e Pontões de Cultura para debates


O Governo de Sergipe, por meio da Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap), da Secretaria Especial da Cultura (Secult) e do Ministério da Cultura (MinC) e a Rede Sergipe de Pontos de Cultura, abriu o formulário de inscrição para participação na 1ª Teia Estadual Pontos de Cultura pela Justiça Climática, que será realizada nos dias 30 e 31 de janeiro de 2026, das 7h às 18h, no Complexo Cultural Gonzagão, em Aracaju. 

Reconhecida como o maior encontro dos grupos culturais comunitários, a Teia Estadual marca a primeira edição do evento em Sergipe e tem como objetivo fortalecer a Política Nacional de Cultura Viva, promover o intercâmbio entre os Pontos e Pontões de Cultura e ampliar o diálogo sobre cultura, território e justiça climática.

A programação contará com rodas de debate temáticas, atividades formativas, mostras culturais e espaços de articulação, além da realização do 2º Fórum Estadual dos Pontos de Cultura, instância representativa e deliberativa composta por representantes dos Pontos e Pontões de Cultura sergipanos.

O evento se consolida como um espaço de escuta, construção coletiva e fortalecimento das redes culturais comunitárias, reunindo agentes culturais, coletivos, artistas e representantes de iniciativas reconhecidas no estado.

Inscrição

Podem se inscrever representantes de Pontos e Pontões de Cultura, com a indicação de um representante por entidade. Também poderão participar pessoas interessadas na temática cultural, na condição de ouvintes.

As inscrições devem ser realizadas por meio de formulário online, disponibilizado no site da Funcap e da Pnab Sergipe, de 9 a 14 de janeiro. No ato da inscrição, os interessados deverão preencher as informações solicitadas conforme a categoria de participação.

Na Teia

A Teia Nacional dos Pontos de Cultura, conhecida como “Na Teia”, é uma política cultural do Ministério da Cultura (MinC) que promove o encontro, a articulação e o fortalecimento dos Pontos de Cultura em todo o país. 

O evento reúne representantes da cultura popular brasileira em etapas estaduais e nacionais, com o objetivo de debater, planejar e consolidar diretrizes para as políticas culturais, valorizando a diversidade cultural e a participação da sociedade civil. 

Em Sergipe, a Teia realiza sua primeira edição, integrando o estado ao processo nacional de construção e fortalecimento da Política Nacional de Cultura Viva, que terá sua 6ª edição nacional prevista para 2026.

Link do formulário: https://docs.google.com/forms/d/16c8N2n6OLBX7tKmAKpAbyGh2lVGaPk2cJI4IjPobrVc/viewform?edit_requested=true

https://www.se.gov.br/agencia/noticias/educacao-cultura/funcap_abre_inscricao_para_1_teia_estadual_pontos_de_cultura_em_sergipe#gallery-1

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Política da Cultura e Cultura na Política.

Esplanada dos Ministérios ao cair da tarde

 Nesse 8 de janeiro de 2026 uma reflexão de 2010 e ainda atual sobre o legado do ministro Gilberto Gil e a potência transformadora dos Pontos e Pontões de Cultura, caso não sejam abortados mais uma vez pelas escolhas politicas da maioria da população nos próximos anos.

Makely Ka · Belo Horizonte, MG - Publicado no portal Overmundo

Poeta, editor, compositor e operário da contra-indústria

9/12/2010 

Em um disco de 1969 Gilberto Gil cantava os contundentes versos: a cultura, a civilização: elas que se danem, ou não”. O paroxismo da frase aponta tanto para o advento iminente do princípio da barbárie contemporânea quanto contém dentro de si a potência necessária para superá-la numa afirmação anárquica mas positiva de uma outra possibilidade de cultura e civilização. Não deixa de ser irônico que o mesmo autor da frase, mais de quarenta anos depois, assumiria o posto de Ministro da Cultura.

Sintomático que um dos artífices do tropicalismo, o principal movimento estético de vanguarda no Brasil na segunda metade do século XX tenha se embrenhado na política. Gil já havia dado mostras de sua disposição para o gabinete e o palanque em pelo menos duas ocasiões, quando assumiu como vereador em Salvador e depois como candidato a prefeito da capital baiana. Mas era ainda um laboratório do que estava por vir.

Incorporando elementos do movimento contra-cultural, uma das propostas mais caras ao tropicalismo foi, em última instância, a quebra de barreiras entre arte e política, entre intervenção social e cultura. Nesse sentido pode-se dizer que a realização do projeto tropicalista em seu sentido mais amplo, por mais desdobramentos que possa ter gerado, não estaria completa sem uma intervenção efetiva, ampla e incisiva no ambiente político-cultural do país.

O Ministério da Cultura por sua vez, a instância responsável pela elaboração e execução das políticas públicas para o setor no âmbito federal, sempre teve uma existência inexpressiva, primeiro vinculado ao Ministério da Educação, depois rebaixado a secretaria, por fim uma pasta sem recursos suficientes para garantir à população o direito constitucional de acesso aos bens e produtos culturais do país. Mais do que isso, um ministério que se escorou num único mecanismo de ação delegando a responsabilidade do fomento ao mercado e favorecendo grupos e agentes na base da política de balcão. Reflexo de um pensamento elitista que sempre pautou as políticas – ou a falta delas – para o setor.

Por tudo isso a nomeação de Gilberto Gil para o cargo de Ministro da Cultura equivale aproximadamente, na relação direta e proporcional entre as hierarquias governamentais, à própria eleição do presidente Lula. A dimensão simbólica do fato só encontra paralelo na história recente com a nomeação de Villa-Lobos para a direção da antiga Superintendência Educacional e Artística na era Vargas. Mas o gesto aqui é ainda mais amplo e o desafio mais complexo.

Em Salvador me disseram que Gil teria recusado o primeiro convite de Lula. O futuro ministro então ligou para o amigo e conselheiro Antônio Risério. Antropólogo especialista em cultura africana no Brasil, desafeto de ACM, referência intelectual dos tropicalistas, Risério teria dito em resposta: “vai ficar na Senzala, não vai entrar na Casa Grande?”. O sarcasmo da analogia em tom de desafio diz muito sobre as relações entre alta e baixa cultura e a disparidade nas relações de produção e consumo entre as diferentes classes sociais do país.

E se Villa-Lobos vislumbrou a realização de um projeto cultural de amplitude para o país com a implantação do canto orfeônico nas escolas públicas brasileiras durante a ditadura Vargas nos anos 40, o projeto de Gil propunha uma mudança de paradigma, uma inversão na forma de pensar e perceber a cultura brasileira. E mais, transformar essa visão em política de Estado! Não era pouco, mas de certa forma o embrião já estava todo ali no discurso de posse. Precisávamos definitivamente encarar a cultura como um fator estratégico para o desenvolvimento do país.

O fato é que o tema da nunca esteve, até então, na pauta das discussões políticas com a devida importância. A despeito do acesso à Cultura ser um direito previsto na Constituição Brasileira de 1988 e dever ser assegurado a todos os cidadãos pelo Estado Brasileiro. A despeito ainda dos Direitos Culturais estarem previstos expressamente na Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948, como fator de singularizarão da pessoa humana e comporem juntamente com os Pactos Internacionais de Direitos Civis e Políticos e de Direitos Econômicos Sociais e Culturais a Carta das Nações Unidas, da qual o Brasil é signatário com posição ratificada em 1992. Para além do caráter simbólico e de sua importância para a formação da identidade brasileira, a cultura tem se mostrado como fator fundamental de desenvolvimento econômico gerador de emprego e renda. Acabamos de passar por uma crise financeira mundial no momento em que outra já se anuncia e o setor cultural foi um dos que mais demonstrou capacidade de reação e superação. Não é por acaso que é o setor da economia que mais cresce no mundo todo, de acordo com dados recentes do Banco Mundial.

Gil assume o Ministério em 2002 e parte de um germe plantado por intelectuais orgânicos - aqueles que colocam a mão na massa encefálica - ligados ao núcleo expandido do tropicalismo como Antônio Risério, Rogério Duarte, Wally Salomão, Jorge Mautner e o próprio Juca Ferreira conseguindo a adesão imediata de jovens criativos e bem preparados vindos de diversas partes do país que se entusiasmaram com a idéia. Entre eles o próprio Alfredo Manevy, atual Secretário Executivo recrutado das fileiras da crítica cinematográfica mais política e aguerrida.

Naquela ocasião não havia um projeto consistente do PT para o setor cultural. Isso fica claro ao analisarmos as propostas apresentadas pelo partido tanto nas eleições daquele ano quanto nas anteriores. Assim como o PT nenhum outro partido jamais apresentou propostas minimamente fundamentadas para o setor simplesmente porque jamais perceberam a dimensão do espectro cultural. Basta passar o olho nos programas de governo lançados pelos candidatos à presidência. Todos apresentaram, em linhas gerais, uma continuidade das políticas culturais implementadas na atual gestão, com ampliação dos Pontos de Cultura e revisão dos mecanismos de investimento público no setor.

A idéia-conceito que sustentou a implantação do Pontos de Cultura dá a dimensão da mudança paradigmática operada nesse período. Ao promover o encontro inusitado da simplicidade radical de uma tradição oriental secular com uma disciplina humanista relativamente recente do pensamento ocidental foi realizada uma síntese poderosa capaz de promover um movimento sísmico no Brasil profundo. O Do-in antropológico proposto pelo então Ministro em seu discurso inaugural, sugerindo uma massagem nos pontos nevrálgicos do país de forma a possibilitar que a energia dessas veias e artérias culturais ramificadas por todo o território fluíssem resultou em mais de cinco mil pontos de cultura espalhados por todo o país e uma tecnologia social que virou modelo e hoje é exportada para todo o mundo.

Mas não foi só isso, durante esses anos houve uma intensa movimentação, tanto em listas virtuais quanto em encontros presenciais de dezenas de milhares de agentes, entre eles artistas, produtores, pesquisadores, gestores, jornalistas e cidadãos em geral interessados em discutir políticas públicas para a cultura. Foram organizados fóruns onde se discutiu exaustivamente cada ponto considerado importante nas respectivas áreas. Mais do que simples consultas, as conferência de cultura se transformaram numa demonstração vigorosa do exercício democrático com a capacidade de anular, por si, qualquer possibilidade de clientelismo de um lado e de dirigismo por outro. Isso em cada setor, mas também transversalmente. A criação desse canal de interlocução inédito da sociedade civil com o governo por sua vez, impulsionou a criação de grupos, coletivos, associações e cooperativas em todos os cantos, que vieram respaldar e dar legitimidade aos fóruns. A fermentação dessa massa gigantesca resultou no Plano Nacional de Cultura, que por sua vez integra o Sistema Nacional de Cultura, com a proposta de implementação de ações coordenadas com ramificação nas esferas federais, estaduais e municipais.

Outro movimento importante foi a correção das distorções da famigerada Lei Rouanet com a criação do Procultura – Programa Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura aprovado recentemente no Congresso Nacional. Um dos trunfos do programa é a criação de fundos setoriais - uma demanda antiga da classe artística - geridos a partir de colegiados e comitês formados por representantes da sociedade civil e repasse de verbas através de editais públicos com critérios claros e transparentes.

Vale menção ainda a consulta pública para revisão da Lei dos Direitos Autorais e toda a cruzada do Ministério da Cultura a favor da cultura livre, da ampliação do acesso à banda larga, a implantação do Vale Cultura, que deverá promover o acesso de uma parcela significativa da população brasileira a produtos e bens culturais e a articulação da Proposta de Emenda à Constituição n° 150, de 2003, a PEC da Cultura, com elevação dos patamares orçamentários nas três esferas do poder.

Claro que ainda falta muita coisa! Ressentimos por exemplo a inexistência de indicares para um diagnóstico mais preciso sobre as atividades culturais no país, que movimentam milhões mas estão pautadas em sua grande maioria pela informalidade; a revisão do enquadramento jurídico e dos encargos tributários para as empresas e profissionais do setor artístico; a reestruturação da FUNARTE e a criação das agências para cada setor; enfim, ainda há muito trabalho pela frente.

Mas mesmo as críticas tem sido absorvidas e debatidas publicamente em várias ocasiões. Muitas delas, cabe dizer, vindas de lobbies e grupos que viram seus interesses ameaçados, que tentaram desqualificar as propostas a priori com receio de que as mudanças – principalmente a revisão da Lei Rouanet e a reforma da Lei do Direito Autoral – interferissem nos lucros e privilégios adquiridos durante anos de limbo. Mas, de todas as críticas, uma ganhou destaque na imprensa e merece atenção especial aqui pela importância do interlocutor e sua posição estratégica em meio ao processo como um todo. Caetano Veloso foi um dos críticos mais contumazes da gestão, manifestando publicamente seu descontentamento com os rumos das políticas do Ministério da Cultura e com as posições defendidas pelo ministro. Mas foi o próprio Caetano quem declarou certa vez que "Rogério Duarte disse numa louca conversa em 68 que Gil era o profeta e eu apenas o seu apóstolo." O caráter profético da máxima ganha contornos inusitados quarenta anos depois. O fato é que o próprio Caetano reconheceu, ao fim do mandato do colega de Tropicália e importância de sua passagem pelo Ministério da Cultura, a projeção e destaque alcançados por um Ministério antes invisível. Mas no momento em que Caetano defende a liberação do iTunes para venda de músicas online no Brasil em seu artigo semanal no jornal O Globo ele efetivamente se torna um apóstolo de Gil na sua cruzada pela cultura digital. Gil foi o primeiro artista do primeiro escalão a perceber as mudanças na estrutura de funcionamento da indústria fonográfica e investir num novo modelo de negócios. Disponibilizou arquivos para download gratuito e defendeu a flexibilização do direito autoral; fez as primeiras transmissões ao vivo pela internet e foi também pioneiro na utilização de plataformas 2.0; incorporou os princípios do software livre e da economia criativa não só ao seu discurso mas à sua própria obra.

Mas há pelo menos mais dois fatos que chamam a atenção neste momento. O primeiro é a disputa, até então inédita, pelo cargo de Ministro da Cultura. Eu já acompanhei pela imprensa a citação de pelo ao menos duas dezenas de nomes cogitados para assumir a pasta no novo governo. Até muito pouco tempo não havia o menor interesse, nenhum partido disputava a cultura, era perfumaria, moeda de troco na barganha dos ministérios - como infelizmente ainda acontece em muitas secretarias e fundações em municípios e até estados.

Outro fato interessante é que a partir de 2011 o ensino de música volta a ser obrigatório nas escolas brasileiras, em cumprimento à lei sancionada em 2008. Reivindicação legítima e urgente da classe musical, o ensino de música nas escolas deve exercer a médio e longo prazo um impacto imenso no perfil dos consumidores e na qualidade da produção de um país que já é reconhecido como um dos mais musicais do planeta. É inevitável pensar no arco que vai do canto orfeônico nos anos 40, passa pela reformulação curricular durante a ditadura militar - que excluiu o ensino de música e reduziu a carga-horária e a importância das disciplinas ligadas às artes e humanidades em geral -, e o retorno do ensino de música ao currículo obrigatório. Nesse intervalo entre a atuação de Villa-Lobos e a gestão de Gilberto Gil / Juca Ferreira a cultura parece ter assumido uma dimensão política até então inimaginável.

Graças a essa nova configuração estamos a caminho de realizar em ato, nos próximos anos, as potencialidades do Brasil transformando-o em referência na produção e no acesso a uma das matérias mais sofisticadas do intelecto humano, que é a arte e a cultura. Agora portanto é bola pra frente, não é possível mais recuar!


Pontos de Cultura no MinC: a expressão mais marcante na transformação

O Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura beneficiou mais de nove milhões de brasileiros, uma das maiores ações de política pública de cultura da história do país.

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Pontos de Cultura no MinC: a expressão mais marcante na transformação

O Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura beneficiou mais de nove milhões de brasileiros, uma das maiores ações de política pública de cultura da história do país.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Já começou e prossegue o 39º Curso de Verão do CESEEP na PUC-SP desde 07 de janeiro até 16 de janeiro de 2026. Experiência ecumênica e inter-religiosa combinando educação popular e ação cultural






CV2026 (1º dia) Celebração de Abertura - Conjuntura



CV2026 (2º dia) Capitalismo e Colapso Ambiental



CV2026 (3º dia) Terra, Luta e Futuro: A Defesa do Meio Ambiente como Direito



CV2026 (5º dia) Saberes da Terra, Força do Povo: A causa indígena




Curso de Verão - ANO XXXIX - 2026 – “Justiça Ambiental: Compromisso Social e Inter-Religioso com o Bem-Viver"

Celebração de Abertura - Conjuntura

Assessoria: Luiz Marques /  UNICAMP

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O QUE É O CURSO DE VERÃO?

O Curso de Verão é Popular, ecumênico e realizado em mutirão é organizado para um grande número de pessoas e, ao mesmo tempo, garante trabalho em pequenos grupos. Dentro da proposta metodológica da Educação Popular, combina reflexão e criatividade, arte e celebração, além da convivência fraterna e o compromisso transformador no retorno à prática nas pastorais e movimentos sociais. Tem caráter nacional, mas é aberto à participação de pessoas de outros países que falem/entendam a língua portuguesa. Dedica especial atenção às juventudes, que iniciam a sua militância pastoral e social.

MAIS INFORMAÇÕES: 

VISITE: https://www.cursodeverao.com/

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Curso de Verão 2026: 'Justiça Ambiental e o Compromisso Social e Inter-religioso' | 







 Convite especial | Curso de Verão 2026 ✨


No dia 09 de janeiro, às 17h, o Curso de Verão convida você para uma exibição imperdível no TUCA:

🎬 O Evangelho da Revolução

Um documentário potente que revisita a história de cristãos e cristãs que, movidos pela fé e pela Teologia da Libertação, se colocaram ao lado do povo nas lutas por justiça social na América Latina.
A partir de imagens históricas e entrevistas marcantes, o filme nos conduz por experiências vividas no Brasil, em El Salvador, na Nicarágua e no México, mostrando como a fé se transformou em compromisso político, resistência e esperança.

🗓 09 de janeiro de 2026
⏰ 17h
📍 TUCA – Rua Monte Alegre, 1024, Perdizes (SP)
🎥 Duração: 116 minutos

👉 Faça sua inscrição no site: https://ceseep.org.br/

Venha com seus amigos e amigas, a tenda, sua rede, sua história! E venha celebrar essa caminhada com a gente Ver menos




Para se inscrever no formato on-line. AQUI

O tema do 39º curso de verão se conecta ao tema da 6ª Teia Nacional dos Pontos e Pontões de Cultura. 
e com a Campanha da Fraternidade 2025


No dia 13/01 (terça-feira), às 10h, o monge beneditino e escritor Marcelo Barros lança o livro
📖 Do encanto da tela ao encontro do mais humano
durante o Curso de Verão do CESEEP.

Um convite a pensar o cinema como caminho de espiritualidade, cuidado e humanidade em tempos de telas e excessos.

📍 Tucarena – PUC/SP
Rua Bartira, 347 – Perdizes

Te esperamos para esse encontro bonito entre fé, arte e vida. ✨