terça-feira, 18 de agosto de 2026

Georges Moustaki e a França dos estrangeiros: quando a diferença virou canção

 

Alexandrino de nascimento, grego de origem, judeu de família e francês por escolha, o cantor e compositor Georges Moustaki (1934-2013) transformou a experiência do deslocamento e da diferença em um dos capítulos mais singulares da chanson française. Ao lançar, em 1969, a canção "Le Métèque" — título que ressignificou um termo até então utilizado como xingamento contra estrangeiros —, Moustaki não apenas conquistou sucesso comercial com mais de 600 mil cópias vendidas, mas também ofereceu à França uma resposta poética para um debate que persiste até hoje: é possível pertencer a uma nação sem abrir mão de múltiplas identidades? Nascido no Egito, criado em ambiente multilíngue e naturalizado francês apenas em 1985, o artista construiu uma obra que ultrapassa a música, sendo incorporada até mesmo pelo Ministério da Educação francês em materiais pedagógicos sobre racismo e antirracismo. Sua trajetória revela que a cultura nacional não precisa ser homogênea — pode ser feita também de chegadas, misturas e reencontros.


Georges Moustaki em Paris: um artista nascido em Alexandria que levou para a chanson française as marcas do Mediterrâneo, da migração e do cosmopolitismo. Em “Le Métèque”, o estrangeiro deixa de ser personagem marginal e passa a reivindicar seu lugar na cultura francesa.

Há artistas que pertencem a um país porque nasceram nele. Outros pertencem porque escolheram aquele país como lugar de vida, criação e liberdade.

Georges Moustaki pertence à segunda categoria.

Nascido em Alexandria, no Egito, em 1934, filho de pais gregos de origem judaica e criado em um ambiente cultural multilíngue, chegou à França em 1951. Só se tornaria cidadão francês em 1985. Sua trajetória é, portanto, marcada por uma experiência que hoje está no centro de muitos debates europeus: como um estrangeiro se transforma em parte de uma cultura nacional sem deixar de carregar consigo outras identidades?

Essa pergunta ajuda a compreender a importância de Moustaki para a França.

Um estrangeiro que ajudou a construir a canção francesa

Quando chegou a Paris, Moustaki não era ainda o cantor que o público conheceria posteriormente.

Antes de interpretar suas próprias músicas, construiu uma carreira como autor e compositor. Escreveu para alguns dos grandes nomes da canção francesa, entre eles Édith Piaf, Yves Montand, Barbara e Serge Reggiani.

Foi para Piaf que escreveu “Milord”, enquanto Reggiani interpretaria músicas como “Ma Liberté”, “Sarah” e “Ma Solitude”. A SACEM registra uma produção de aproximadamente 500 canções ao longo de sua carreira.

Isso significa que o legado de Moustaki para a França é muito maior do que sua discografia como intérprete.

Ele ajudou a escrever a memória musical francesa antes mesmo de se tornar um dos seus grandes cantores.

“Le Métèque”: o estrangeiro deixa de ser uma ameaça

A grande virada aconteceu em 1969.

Moustaki grava “Le Métèque”, uma canção que recupera uma palavra historicamente utilizada de forma depreciativa para designar estrangeiros, particularmente pessoas de origem mediterrânea.

Em vez de esconder essa identidade, Moustaki a assume.

O personagem da canção é simultaneamente estrangeiro, judeu errante, grego, músico, vagabundo, sonhador e amante. É um personagem sem uma identidade única.

E essa talvez seja a grande provocação de Moustaki:

ele não pede autorização para ser francês apesar de ser estrangeiro.

Ele afirma uma identidade múltipla.

O próprio Museu da SACEM interpreta “Le Métèque” como uma espécie de autorretrato de Moustaki: um homem de origem alexandrina, filho de pais gregos, que transforma uma palavra de insulto em uma identidade poética.

A música alcançou enorme popularidade. Segundo o INA, o compacto vendeu mais de 600 mil exemplares na França e tornou-se um sucesso internacional.

Mas sua importância histórica ultrapassa os números de vendas.

O Ministério da Educação francês incorporou “Le Métèque” a um material pedagógico sobre racismo e antirracismo, justamente porque a música permite discutir a experiência do estrangeiro e o preconceito.

É uma transformação extraordinária:

uma palavra usada para excluir transforma-se em instrumento de educação contra a exclusão.

Le Métèque

Com minha cara de estrangeiro, de judeu errante, de pastor grego

Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec


E meus cabelos aos quatro ventos

Et mes cheveux aux quatre vents


Com meus olhos desbotados, que dão ar sonhador

Avec mes yeux tout délavés, qui me donnent l'air de rêver


A mim, que já não sonho com frequência

Moi qui ne rêve plus souvent.


Com minhas mãos de saqueador, de músico e de vadio

Avec mes mains de maraudeur, de musicien et de rôdeur


Que pilharam tantos jardins

Qui ont pillé tant de jardins


Com minha boca que bebeu, que beijou e mordeu

Avec ma bouche qui a bu, qui a embrassé et mordu


Sem jamais saciar sua fome

Sans jamais assouvir sa faim


Com minha cara de estrangeiro, de judeu errante, de pastor grego

Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec


De ladrão e de vagabundo

De voleur et de vagabond


Com minha pele que foi roçada pelo sol de todos os verões

Avec ma peau qui s'est frottée au soleil de tous les étés


E por todas que usavam saias

Et tout ce qui portait jupon


Com meu coração que soube fazer sofrer tanto quanto sofreu

Avec mon coeur qui a su faire souffrir autant qu'il a souffert


Sem criar problemas por conta disso

Sans pour cela faire d'histoire


Com minha alma que não tem mais a menor chance de salvação

Avec mon âme qui n'a plus la moindre chance de salut


Para evitar o purgatório

Pour éviter le purgatoire


Com minha cara de estrangeiro, de judeu errante, de pastor grego

Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec


E meus cabelos aos quatro ventos

Et mes cheveux aux quatre vents


Eu virei, minha doce cativa, minha alma gêmea, minha fonte viva

Je viendrai ma douce captive, mon âme soeur, ma source vive


Eu virei beber os teus vinte anos

Je viendrai boire tes vingt ans


E eu serei príncipe legítimo, sonhador ou então adolescente

Et je serai prince de sang, rêveur, ou bien adolescent


A escolha que te agradar

Comme il te plaira de choisir


E nós faremos de cada dia, toda uma eternidade de amor

Et nous ferons de chaque jour, toute une éternité d'amour


Que nós viveremos até morrer

Que nous vivrons à en mourir


E nós faremos de cada dia, toda uma eternidade de amor

Et nous ferons de chaque jour, toute une éternité d'amour


Que nós viveremos até morrer

Que nous vivrons à en mourir

Moustaki e o espírito de 1968

“Le Métèque” surge no contexto da efervescência social que marcou a França de 1968.

O próprio INA relaciona o retorno de Moustaki à música ao ambiente criado pelo Maio de 1968 e à juventude que reivindicava liberdade.

Mas Moustaki não transformou sua música em simples propaganda política.

Sua política era mais profunda porque aparecia na forma de uma ética:

liberdade, amor, fraternidade, direito à diferença, recusa das convenções e oposição às formas de opressão.

Por isso, sua obra envelheceu de maneira diferente de muitas canções explicitamente militantes daquele período.

Moustaki não cantava apenas sobre uma conjuntura política.

Cantava sobre uma maneira de viver.

Uma França mediterrânea

Outro aspecto fundamental de seu legado é musical.

Moustaki ajudou a romper a ideia de que a chanson française deveria ser culturalmente fechada sobre si mesma.

Sua música incorporava elementos gregos, mediterrâneos, afro-cubanos e sul-americanos, ao mesmo tempo em que dialogava com a tradição francesa da canção de autor. A Larousse destaca justamente essa combinação entre a tradição francesa e influências mediterrâneas, afro-cubanas e sul-americanas.

É como se Moustaki tivesse levado para Paris a experiência cultural de Alexandria.

E Alexandria é importante nessa história.

A cidade onde nasceu era, na primeira metade do século XX, um espaço de intensa circulação de línguas, religiões e nacionalidades. O próprio Le Monde destaca essa característica cosmopolita de Alexandria e a formação multicultural de Moustaki.

Assim, sua música não representa apenas a integração de um estrangeiro à França.

Ela representa também a entrada do Mediterrâneo na cultura francesa.

O estrangeiro como parte da identidade nacional

É aqui que Moustaki se torna particularmente interessante para quem pensa cultura e política cultural.

Durante muito tempo, a identidade nacional foi apresentada como algo relativamente homogêneo: uma língua, uma história, uma tradição, uma memória.

Moustaki oferece outra possibilidade.

Sua trajetória sugere que uma cultura nacional também pode ser construída pela chegada de pessoas que trazem outras memórias, outros ritmos, outras línguas e outras experiências.

Ele nasceu no Egito.

Tinha origem grega.

Sua família era judaica.

Falava italiano.

Foi educado em francês.

Chegou a Paris como estrangeiro.

E acabou se tornando uma das referências da canção francesa.

Sua própria biografia é uma demonstração de que identidade cultural não é necessariamente sinônimo de pureza cultural.

Uma ponte entre culturas

Esse aspecto aproxima Moustaki de uma tradição muito mais ampla da cultura francesa: a presença de artistas estrangeiros ou descendentes de imigrantes que transformaram profundamente a cultura do país.

Moustaki pode ser colocado ao lado de outras trajetórias de artistas vindos de diferentes lugares do Mediterrâneo, da África e de outras regiões do mundo.

A exposição “Exil!”, da SACEM, por exemplo, coloca “Le Métèque” ao lado de obras de Enrico Macias e Manu Dibango, entre outras canções associadas à experiência do deslocamento e do exílio.

Moustaki, portanto, não é uma exceção isolada.

Ele faz parte de uma história maior:

a história de como os estrangeiros também ajudaram a fazer a França.

O legado que permanece

Mais de uma década depois de sua morte, em 2013, a obra de Moustaki continua sendo revisitada.

“Le Métèque” permanece especialmente poderosa porque a questão que ela apresenta não desapareceu.

Quem é o estrangeiro?

Quem tem direito de pertencer?

É possível ter várias identidades simultaneamente?

Uma pessoa precisa abandonar suas origens para ser reconhecida como integrante de uma nação?

Moustaki oferece uma resposta poética:

não.

Pode-se ser grego e francês.

Pode-se carregar Alexandria e viver em Paris.

Pode-se ser judeu, mediterrâneo, estrangeiro e francês.

Pode-se pertencer sem deixar de ser diferente.

Essa talvez seja a maior contribuição de Georges Moustaki para a cultura francesa.

Georges Moustaki e uma França que ainda está em disputa

A França contemporânea continua atravessada por debates sobre imigração, integração, racismo, identidade nacional e multiculturalismo.

Por isso, “Le Métèque” não deve ser tratada apenas como uma canção nostálgica dos anos 1960.

Ela pode ser ouvida como uma pergunta dirigida ao presente.

Que França queremos construir?

Uma França que exige que o estrangeiro abandone suas diferenças para ser aceito?

Ou uma França capaz de reconhecer que parte de sua riqueza cultural nasceu justamente daqueles que chegaram trazendo outras histórias?

Moustaki oferece, através da música, uma resposta que continua provocadora:

a diferença não precisa ser uma ameaça à identidade nacional. Ela pode ser uma das fontes de sua renovação.

Talvez seja por isso que Georges Moustaki tenha se tornado tão profundamente francês.

Não porque deixou de ser estrangeiro.

Mas porque demonstrou que um estrangeiro também pode ajudar a redefinir o que significa ser francês.

BOX — Moustaki em cinco palavras

Estrangeiro — nunca escondeu suas múltiplas origens.

Liberdade — um dos grandes valores de sua obra.

Mediterrâneo — trouxe para a chanson francesa outras paisagens sonoras.

Humanismo — colocou o indivíduo e sua dignidade no centro de muitas de suas canções.

Diferença — transformou o “métèque”, o estrangeiro estigmatizado, em protagonista de uma das canções mais emblemáticas da França do século XX.

Para ouvir novamente

“Le Métèque” (1969) — a canção que transformou a experiência do estrangeiro em uma afirmação de identidade.

“Ma Liberté” — uma das expressões mais conhecidas da relação de Moustaki com a liberdade.

“Ma Solitude” — uma das canções de sua parceria com Serge Reggiani.

“Milord” — a composição que marcou sua colaboração com Édith Piaf.

Ouvir essas músicas hoje é mais do que revisitar a chanson française.

É ouvir uma França construída também por aqueles que chegaram de fora.


Artigo construído com suporte de IA 


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A dança que a imprensa quase não viu: o street dance na abertura da campanha de Lula na Vila Euclides

 Uma apresentação de dança de rua ao som da releitura do  “Rap do Silva” integrou o lançamento da candidatura de Lula no histórico Estádio 1º de Maio. Por que esse acontecimento cultural praticamente desapareceu da narrativa jornalística sobre o evento?

Há acontecimentos políticos que são lembrados pelos discursos. Outros permanecem na memória pelas imagens.

Na abertura da campanha de Lula no Estádio 1º de Maio, a antiga Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, houve uma dessas imagens que mereceria mais atenção: a entrada de um grupo de dança de rua ao som de “Rap do Silva”, música que ganhou uma versão utilizada pela campanha.

Quando a política também dança

A Vila Euclides é um lugar carregado de memória política. Foi ali que as grandes assembleias dos metalúrgicos do ABC ajudaram a construir uma nova linguagem de mobilização social no final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

Em 2026, décadas depois, outro tipo de linguagem ocupou aquele espaço: a dança de rua.

Não se trata apenas de uma mudança estética. O corpo do dançarino, o rap, a coreografia e a cultura urbana pertencem a uma tradição cultural que também nasceu da disputa pelo direito à expressão, à cidade e à visibilidade.

Por isso, uma apresentação de street dance naquele estádio pode ser lida como uma espécie de encontro entre duas gerações de cultura política:

a cultura operária das assembleias da Vila Euclides e a cultura urbana das periferias contemporâneas.

O detalhe que passou quase despercebido

A imprensa política concentrou sua atenção no discurso de Lula, na escolha do local, na campanha eleitoral e na simbologia histórica da Vila Euclides.

É compreensível.

Mas essa forma de cobertura produz um efeito colateral: transforma a cultura em pano de fundo.

A dança aparece como espetáculo. A música aparece como trilha sonora. Os artistas aparecem como coadjuvantes.

Poucas vezes se pergunta:

Por que essa música?

Por que essa dança?

Por que esses corpos?

Por que naquele lugar?

Por que naquele momento?

São perguntas culturais — e também perguntas políticas.

A cultura como linguagem política

Não é necessário afirmar que a apresentação foi planejada como uma sofisticada estratégia eleitoral para reconhecer sua força simbólica.

Basta observar a combinação:

Vila Euclides + dança de rua + rap + juventude + memória operária.

É uma combinação que aproxima diferentes momentos da cultura política brasileira.

A Vila Euclides representa uma geração que ocupou o espaço público através das assembleias, das greves e da organização dos trabalhadores.

A cultura hip-hop e a dança de rua representam outras formas de ocupação do espaço público, desenvolvidas sobretudo nas periferias urbanas e entre as novas gerações.

Quando essas duas linguagens se encontram, há uma história cultural a ser contada.

Por que a imprensa não contou?

Talvez porque o jornalismo político ainda tenha dificuldade para reconhecer a cultura como parte constitutiva da política.

A cobertura tradicional procura o acontecimento no discurso do candidato.

A cultura, entretanto, pode estar em outro lugar: no cenário, na música, na coreografia, no figurino, na escolha dos artistas e na forma como um público é convidado a participar de uma experiência coletiva.

O problema não é apenas que uma apresentação de dança tenha recebido pouca atenção.

O problema é que, quando ela desaparece da narrativa jornalística, desaparece também uma parte da compreensão sobre como a política contemporânea procura falar com diferentes gerações e grupos sociais.

A pergunta que fica

Não deveríamos perguntar apenas por que a apresentação foi pouco noticiada.

Deveríamos perguntar:

O que a imprensa deixa de enxergar quando cobre a política apenas como discurso?

A dança de rua na Vila Euclides talvez seja uma pequena cena dentro de um grande ato político.

Mas pequenas cenas também contam histórias.

E essa talvez conte uma história sobre a transformação da cultura política brasileira: da assembleia operária ao palco, do discurso ao corpo, do sindicato ao rap, da memória das greves às linguagens culturais das novas periferias.

A Vila Euclides voltou a ser palco de uma disputa política.

Mas, dessa vez, antes mesmo de o discurso começar, a política também entrou em cena dançando.

🔥Lula lotou estádio com 40 mil e grande mídia escondeu a multidão com ângulo fechado🔥


⚡ A cultura de Aracaju tem valor tridimensional: simbólico, cidadão e econômico. Vamos lotar a CMA e mostrar nossa força! Transmissão ao vivo para quem não puder ir.

 

A audiência pública na Câmara de Vereadores de Aracaju (CMA) nesta segunda feira (17/08), a partir das 14h30, sobre a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e as perspectivas do Sistema Municipal de Cultura é mais uma boa oportunidade para essa gente criativa e generosa mostrar o seu valor. Um valor tridimensional: simbólico, cidadão e econômico. Portanto, todos que direta ou indiretamente participam da cadeia produtiva da cultura precisam se fazer presentes, dentro das possibilidades de cada um. Para quem não puder estar presente, há transmissão pelo canal de televisão e pelo YouTube da CMA. É importante a presença de todos (as), independentemente de escolhas no campo partidário, de atuação em linguagens artísticas ou de adesão a correntes estéticas/filosóficas.

(...)Aracaju, Sergipe, Brasil, esquentai vossos pandeiros

Iluminai os terreiros que nós queremos sambar. (...)  Batucada, reuni vossos valores

Pastorinhas e cantores. Expressão que não tem par, ó, meu Brasil (...)


Você está convidado! Aracaju debate o futuro da cultura em Audiência Pública sobre a Lei Aldir Blanc


domingo, 16 de agosto de 2026

Generoso e destemido. Honestino surge, no filme, como a expressão de um espírito de época. Por Zezito de Oliveira

 

Honestino Guimarães é frequentemente lembrado como símbolo da resistência contra a ditadura militar. Mas o que o filme de Aurélio Michiles faz, com sensibilidade e rigor, é devolver ao mártir sua humanidade: o jovem torcedor do Vasco, o pai ausente pela perseguição, o militante de bom humor, o apaixonado por samba e literatura. Em uma narrativa que mistura depoimentos e reconstituições dramáticas, o docudrama revela um Honestino para além do mito, que amava o Brasil a ponto de ficar, mesmo sabendo que isso poderia custar sua vida.

Assisti Honestino na sessão deste último domingo, 16/08,  no Cinema do Centro e gostei do que vi. O filme retorna em Aracaju nesta Quinta(20/08) – 18h10 e na Segunda (24/08) 16h

Percebi, no filme, um líder político que gostava de viver em suas múltiplas formas: para além da militância, era apaixonado por literatura, futebol, samba e mulheres. Seu pai teve importância central em sua formação humana integral — incluindo as dimensões ética, política e religiosa. Como pai de uma menina recém-nascida, Honestino não pôde estar tão presente quanto gostaria, dada a condição de perseguido e ameaçado de morte que enfrentava. Amava profundamente o Brasil e o seu povo. Foi um homem destemido: poderia ter escolhido o exílio e sabia dos riscos que correria ao ficar, mas fez essa opção com lucidez e convicção.

O filme correspondeu aos elogios que encontrei em alguns veículos de comunicação. Um dos principais foi o fato de a história ser contada no formato docudrama, o que significa uma narrativa que intercala depoimentos diretos com a interpretação de atores. Essas encenações podem se dar de forma direta, com os atores reproduzindo cenas e dialogando entre si, ou como pano de fundo — em alguns casos, de modo performático — com narração em off.

Um exemplo em "Honestino" são os momentos da atuação de Bruno Gagliasso, que transpõem os escritos reais do líder estudantil. Com isso, a montagem premiada do filme dá vida e movimento a cartas, poemas e arquivos inéditos, revelando um lado profundamente humano de Honestino como pai, filho e amigo, para além do mito político.

E isso torna o ato de assistir a filmes assim uma experiência sensorial muito interessante, o que não quer dizer que documentários mais convencionais também não produzam uma boa experiência estética, mas é sempre bom quando a imaginação e o orçamento permitem buscar ir além do que leva muitos documentários a ficarem com cara de reportagem jornalística.

Uma cena com forte carga dramática que me marcou é quando Bruno Gagliasso, interpretando Honestino, denuncia a invasão da polícia e do Exército no ICC (Instituto Central de Ciências), popularmente conhecido como "Mininhocão", localizado no campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB).

Além da interpretação visceral, na cena que reconstitui a invasão da Ditadura Militar ao Instituto Central de Ciências (ICC) da UnB, a inserção de cartazes coloridos chama a atenção e assume uma dupla função estética e simbólica, fundamental para a narrativa. Ao mesmo tempo em que as cores vivas e vibrantes geram um acentuado contraste com o concreto cinzento do "Mininhocão", elas quebram visualmente a uniformidade opressiva e escura das fardas policiais que avançam sobre o campus. Além de criar esse forte choque visual, o uso de tintas coloridas reflete a própria efervescência cultural e a influência da Pop Art que ditavam a estética dos protestos globais de 1968, traduzindo graficamente o caráter plural, artístico e pulsante da juventude liderada por Honestino Guimarães em contraposição à rigidez do regime autoritário.

Os depoimentos dos familiares de Honestino também nos mostram o quanto a questão da perseguição aos lutadores pela democracia e contra a ditadura afetou as famílias, deixando um rastro de sofrimento, em especial para quem estava mais próximo.

Um exemplo é o relato de Maria Rosa Leite Monteiro, mãe de Honestino. A passagem mais cruel e marcante reconta o momento em que agentes militares dão a ela a falsa esperança de que visitaria o filho na prisão; em vez disso, as autoridades a levam para uma sala vazia coberta de sangue. O depoimento de Juliana Guimarães, filha de Honestino, traz para a tela a dimensão mais íntima e dolorosa do desaparecimento forçado: o silêncio da ausência. Tendo apenas três anos de idade quando o pai foi sequestrado em 1973, Juliana relata no filme que guarda consigo apenas uma única lembrança real e vaga de Honestino: uma tarde de sol em um parquinho na Praia de Botafogo. Todo o restante de seu afeto precisou ser construído ao longo da vida de forma indireta, ouvindo as histórias contadas por terceiros e tentando decifrar a imagem do pai por meio de poucas fotografias antigas.

Um aspecto que me chamou especialmente a atenção em Honestino é a trajetória do jovem militante ligada também a uma dimensão religiosa e humanista, que participou de sua formação e de sua visão de mundo. Essa passagem é particularmente significativa porque revela que sua formação política não pode ser compreendida apenas a partir da radicalização ideológica que marcou os anos seguintes. Havia, em sua trajetória, uma matriz humanista e cristã que dialogava com a preocupação com a justiça social e a transformação da sociedade, ainda que a AP posteriormente passasse por profundas mudanças e assumisse referências marxistas e maoístas. Essa dimensão aparece no filme não como uma simples profissão de fé, mas através de cartas, poemas, afetos e relações pessoais que ajudam a revelar o universo interior de Honestino. E é justamente aí que a narrativa ganha uma dimensão simbólica poderosa: sua clandestinidade, perseguição, prisão, tortura e desaparecimento podem ser lidos como uma espécie de "Paixão" contemporânea.

Por fim, o filme Honestino também chama atenção por recuperar dimensões pouco exploradas da vida do dirigente estudantil: o jovem apaixonado por futebol e torcedor do Vasco, que mesmo perseguido pela ditadura encontrava espaço para jogar bola; o homem de bom humor, carismático e agregador, capaz de construir vínculos para além da militância; o leitor, frequentador da praia, amigo, marido e pai. As lembranças de Isaura Botelho, Shoshana Rapoport e de sua filha Juliana ajudam a revelar as relações afetivas e familiares que existiam por trás do personagem político. Esses elementos são fundamentais porque humanizam Honestino e rompem com a imagem congelada do "mártir da ditadura": antes de ser presidente da UNE, clandestino e desaparecido político, ele era um jovem de apenas 26 anos, apaixonado pela vida, pelos amigos, pelo futebol, pela literatura e pelas pessoas que amava.

Video premiado pelo Concurso UnB - 30 Anos (Universidade de Brasilia, setembro de 1992)


"Eu precisava estar no lado certo da história", Bruno Gagliasso sobre filme Honestino





Igreja e democracia – como as cartilhas eleitorais forjaram a redemocratização e desafiam o revival conservador atual.

 Hoje:

ORAÇÃO DO(A) ELEITOR(A)

Senhor Deus, concedei o dom de vossa Sabedoria a cada eleitor, a cada eleitora, para que exerça a sua CIDADANIA, na expressão máxima de RESPONSABILIDADE, nas ELEIÇÕES GERAIS que se aproximam em nosso País, exercendo o voto com ÉTICA, SERIEDADE E ESPÍRITO DEMOCRÁTICO.

Senhor Deus da Vida, sede o nosso auxílio, para que, com nossa capacidade de fazer boas escolhas e iluminados por Vosso SANTO ESPÍRITO, o nosso voto seja RESPONSÁVEL, CONSCIENTE, GRATUITO e completamente LIVRE, seguindo as orientações da Doutrina Social da Igreja.

Que saibamos escolher pessoas realmente comprometidas com o povo brasileiro na sua diversidade, capazes de conduzir POLÍTICAS PÚBLICAS JUSTAS E HONESTAS, que garantam a VIDA DIGNA aos mais empobrecidos de nossos Municípios, de nossos Estados e da Nação Brasileira no seu conjunto, promovendo a ECOLOGIA INTEGRAL.

Assim seja!

Finalizar com um refrão conhecido pela comunidade.

Diocese de Araçuaí (MG)

IGREJA E MOVIMENTOS SOCIAIS LANÇAM “ENCANTAR A POLÍTICA 2026” NA REGIÃO NORTE E REFORÇAM COMPROMISSO COM DEMOCRACIA E PARTICIPAÇÃO CIDADÃ

https://cnbbn2.com.br/igreja-e-movimentos-sociais-lancam-encantar-a-politica-2026-na-regiao-norte-e-reforcam-compromisso-com-democracia-e-participacao-cidada/

Leia a cartilha neste link Cartilha REENCANTAR A POLÍTICA (1) 

Ontem:

Entre fé, cidadania e política, dioceses brasileiras ajudaram a construir uma nova cultura democrática nos anos 1980

No início dos anos 1980, quando o Brasil ainda vivia sob os últimos anos da ditadura militar e começava a reconstruir suas instituições democráticas, uma cena passou a se repetir em muitas comunidades católicas espalhadas pelo país: grupos de fiéis reunidos em torno de pequenos cadernos, folhetos e cartilhas discutindo uma pergunta que ia muito além das eleições.

Como construir uma sociedade mais justa depois de duas décadas de autoritarismo?

A resposta não estava apenas nas urnas. Para uma parcela significativa da Igreja Católica brasileira, a democracia precisava ser aprendida, debatida e praticada no cotidiano das comunidades.

Foi nesse contexto que diversas dioceses, arquidioceses e organismos pastorais passaram a produzir materiais de formação política para orientar os fiéis durante o processo de redemocratização. As chamadas “cartilhas eleitorais” tornaram-se um dos símbolos mais marcantes desse período.

Mais do que ensinar em quem votar, elas buscavam ensinar como pensar a política.


Um país em transição

A década de 1980 começou marcada por profundas transformações.

Depois de anos de repressão política, censura e restrições à participação popular, o Brasil caminhava lentamente para a abertura democrática. O governo militar iniciava o processo chamado de “distensão”, enquanto movimentos sociais, sindicatos, entidades civis e instituições religiosas pressionavam por mais liberdade política.

As eleições diretas para governadores em 1982 representaram um momento histórico. Milhões de brasileiros voltariam a participar de uma disputa eleitoral após anos de limitações.

Mas havia um desafio: como preparar uma população que durante muito tempo teve sua participação política reduzida?

A Igreja Católica entendeu que a democracia não poderia ser apenas uma mudança institucional. Era necessário formar cidadãos.


As cartilhas: política explicada pela vida cotidiana

As publicações produzidas pelas dioceses tinham uma característica marcante: falavam uma linguagem simples.

Em vez de textos jurídicos ou discursos acadêmicos, utilizavam histórias, perguntas, desenhos, exemplos do cotidiano e referências bíblicas.

Era comum encontrar reflexões como:

“Qual a diferença entre favor e direito?”

“O voto pode ser comprado?”

“Como escolher um candidato comprometido com o bem comum?”

“Depois da eleição, como acompanhar os governantes?”

A política aparecia relacionada aos problemas concretos das comunidades:

a falta de escola;

as dificuldades na saúde;

a ausência de saneamento;

os conflitos pela terra;

o desemprego;

a desigualdade social.

A mensagem central era que o cidadão não deveria ser apenas eleitor, mas participante permanente da vida pública.


A inspiração: Vaticano II, Medellín e a educação popular

A produção dessas cartilhas não surgiu isoladamente.

Ela fazia parte de uma transformação mais ampla da Igreja Católica latino-americana iniciada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e aprofundada pelas Conferências Episcopais de Medellín (1968) e Puebla (1979).

A Igreja passou a enfatizar uma presença mais próxima das comunidades, especialmente das populações pobres e excluídas.

No Brasil, essa orientação encontrou diálogo com as experiências de educação popular e com a metodologia conhecida como “Ver, Julgar e Agir”.

Primeiro, a comunidade analisava sua realidade.

Depois, refletia sobre ela à luz da fé e dos valores cristãos.

Por fim, buscava formas concretas de ação.

Essa metodologia esteve presente em muitas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), grupos que tiveram papel importante na formação de lideranças comunitárias durante a redemocratização.


A Igreja dizia: formar consciência, não indicar candidatos

Um dos principais pontos de disputa naquele período era justamente o limite entre formação política e participação partidária.

Os críticos acusavam setores da Igreja de fazerem política dentro das comunidades e de favorecerem determinados grupos ideológicos.

Bispos e lideranças pastorais respondiam afirmando que a Igreja não indicava candidatos nem partidos.

Seu papel seria outro:

formar a consciência dos cidadãos.

A defesa apresentada era que participar da vida pública também fazia parte da responsabilidade cristã.

O voto, nessa visão, não era apenas uma escolha individual. Era uma decisão ética relacionada ao bem comum.


A reação dos setores conservadores

A iniciativa provocou forte debate.

Setores ligados ao antigo regime militar viam com preocupação a expansão das Comunidades Eclesiais de Base e das pastorais sociais.

Para esses grupos, a Igreja estaria ultrapassando sua missão religiosa e entrando diretamente no campo político.

Dentro da própria Igreja também existiam divergências.

Enquanto setores progressistas defendiam maior participação social dos cristãos, grupos mais tradicionais argumentavam que a instituição deveria concentrar-se principalmente na dimensão espiritual.

A discussão revelava uma questão mais profunda:

qual deveria ser o papel das instituições religiosas em uma sociedade democrática?


A imprensa e o debate nacional

O tema ganhou espaço nos grandes jornais brasileiros.

O Jornal do Brasil, um dos principais veículos de comunicação do país naquele período, acompanhou de perto a atuação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), as manifestações dos bispos e os debates sobre democracia, direitos humanos e participação popular.

A cobertura jornalística mostrava uma Igreja que havia deixado de ser vista apenas como instituição religiosa e passava a ser reconhecida como uma importante força da sociedade civil.

Bispos como Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Hélder Câmara e Dom Luciano Mendes de Almeida tornaram-se personagens frequentes do debate nacional.

Suas declarações eram acompanhadas por políticos, jornalistas e movimentos sociais.


Uma experiência que chegou às comunidades

O grande diferencial das cartilhas não estava apenas no conteúdo, mas na forma de circulação.

Elas não eram distribuídas como simples panfletos.

Eram utilizadas em reuniões comunitárias, encontros pastorais, círculos bíblicos e cursos de formação.

Um texto podia ser lido por uma liderança local e debatido por dezenas de pessoas.

Essa característica transformava o material impresso em uma ferramenta de mobilização e aprendizagem coletiva.


O legado das cartilhas

Quarenta anos depois, as cartilhas eleitorais da redemocratização continuam sendo um importante documento histórico.

Elas revelam um momento em que diferentes setores da sociedade brasileira disputavam o significado da democracia.

Para seus defensores, ajudaram a formar cidadãos mais conscientes e fortaleceram a participação popular.

Para seus críticos, representaram uma presença excessiva da religião no debate político.

Independentemente da interpretação, é impossível compreender a redemocratização brasileira sem analisar o papel desempenhado por instituições como a Igreja Católica na reconstrução da cultura democrática.

As cartilhas mostram que democracia não se resume ao dia da eleição.

Ela depende de memória, participação, diálogo e da capacidade de uma sociedade discutir coletivamente seus caminhos.


Uma história ainda a ser pesquisada

Muitas dessas cartilhas permanecem guardadas em arquivos diocesanos, bibliotecas e coleções particulares. Grande parte ainda não foi digitalizada.

Recuperar esses documentos significa recuperar também uma parte da história da cidadania brasileira.

Entre as experiências que merecem investigação está a atuação de dioceses que desenvolveram forte trabalho comunitário durante a redemocratização, como a Diocese de Propriá, em Sergipe, onde pastorais sociais e comunidades do Baixo São Francisco participaram das transformações políticas e sociais daquele período.

Conhecer essa memória é fundamental para compreender como diferentes grupos ajudaram a construir a democracia brasileira.

Para saber mais: fontes e referências

A história das cartilhas de educação política produzidas por setores da Igreja Católica durante a redemocratização brasileira ainda está espalhada por livros, documentos da CNBB, arquivos e acervos universitários. As referências abaixo permitem ao leitor aprofundar essa história e, em vários casos, consultar os documentos originais ou digitalizados.

Documentos da CNBB

CNBB — Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Reflexão cristã sobre a conjuntura política. Documentos da CNBB, nº 22. Brasília: CNBB, 1981.

É uma das fontes mais importantes para compreender como a Igreja Católica brasileira refletia sobre democracia, participação política e responsabilidade dos cristãos no início dos anos 1980. O documento foi produzido justamente no contexto da abertura política e das eleições de 1982.

Onde consultar:
Edições CNBB — versão digital do documento


CNBB — Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Exigências cristãs de uma ordem política. São Paulo: Paulinas, 1977.

Publicado ainda durante a ditadura militar, este documento ajuda a compreender a mudança de posição de setores importantes do episcopado brasileiro diante da política, dos direitos humanos e da participação social.


As cartilhas de educação política

BRATTI, Paulo. “As cartilhas políticas da Igreja”. Teocomunicação, Porto Alegre, nº 55, 1982.

É uma referência especialmente importante para este artigo porque trata diretamente das cartilhas produzidas pela Igreja naquele período. O texto ajuda a compreender que esses materiais não eram iniciativas isoladas, mas faziam parte de uma experiência mais ampla de formação política.


CEDOPE — Centro de Documentação e Pesquisa. Inventário do acervo. São Leopoldo: UNISINOS/ Memorial Jesuíta.

O inventário do CEDOPE é uma verdadeira porta de entrada para essa história. O acervo reúne documentos relacionados à educação popular, às Comunidades Eclesiais de Base e à formação política. Entre os materiais catalogados estão cartilhas como Falando de Política, Os Partidos Atuais, A Força do Povo, O povo de Deus é Educação Política e Voto: meu voto é sagrado.

Onde consultar:
Inventário do CEDOPE — UNISINOS


Comunidades Eclesiais de Base e participação política

OLIVEIRA, Pedro A. Ribeiro de. “A emergência da Política nas CEBs: memória do 4º Encontro Intereclesial — Itaici, 1981”. CEBs do Brasil.

O 4º Encontro Intereclesial das CEBs, realizado em Itaici em 1981, é especialmente importante para entender por que a discussão política ganhou força nas comunidades naquele momento. A memória do encontro mostra como questões relacionadas à participação popular, organização social e poder político passaram a fazer parte do cotidiano das comunidades.

Onde ler:
CEBs do Brasil — A emergência da Política nas CEBs


AQUINO JÚNIOR, Francisco de. “Comunidades Eclesiais de Base (CEBs): de Medellín-Puebla aos nossos dias”. Cuestiones Teológicas, v. 47, n. 107, 2020.

Um estudo acadêmico útil para compreender a trajetória das CEBs desde as conferências episcopais latino-americanas de Medellín e Puebla até o período contemporâneo.

Onde ler:
Artigo completo — Cuestiones Teológicas


Vaticano II, Medellín e Puebla

CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes: Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo. Vaticano, 1965.

O documento ajuda a compreender a mudança na relação entre Igreja, sociedade e mundo contemporâneo que influenciou profundamente o catolicismo latino-americano.

CELAM — Conselho Episcopal Latino-Americano. Documentos de Medellín: conclusões da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Medellín, 1968.

Medellín marcou profundamente a pastoral latino-americana, especialmente pela preocupação com pobreza, justiça social, participação e transformação da realidade.

CELAM — Conselho Episcopal Latino-Americano. Documento de Puebla: conclusões da III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano. Puebla, 1979.

Realizado poucos anos antes das eleições de 1982, Puebla aprofundou a reflexão sobre os pobres, as comunidades eclesiais e a presença da Igreja na sociedade.


Igreja, ditadura e redemocratização

MAINWARING, Scott. Igreja Católica e política no Brasil: 1916-1985. São Paulo: Brasiliense, 1989.

Um dos estudos clássicos para compreender a transformação da Igreja Católica brasileira ao longo do século XX e, especialmente, sua relação com a política durante a ditadura e a redemocratização.


SERBIN, Kenneth P. Diálogos na sombra: bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

Fundamental para compreender as relações, conflitos e negociações entre setores da Igreja Católica e os militares durante a ditadura. O livro também ajuda a evitar uma visão simplificada de que toda a Igreja brasileira possuía uma única posição política.


Uma fonte documental sobre a experiência de Nova Iguaçu

HYPÓLITO, Adriano Mandarino. A Folha. Nova Iguaçu: Cúria Diocesana de Nova Iguaçu, 1980.

O periódico produzido pela Diocese de Nova Iguaçu é uma fonte preciosa para observar como temas sociais, políticos e religiosos chegavam diretamente às comunidades. A publicação permite perceber, no cotidiano, a relação entre fé, cidadania e problemas sociais durante a abertura política.

Onde consultar:
Repositório da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro — exemplar digitalizado de _A Folha_


E as próprias cartilhas?

Algumas das fontes mais interessantes para esta história não são livros escritos posteriormente pelos pesquisadores, mas os próprios documentos produzidos pelas comunidades.

Entre eles estão:

  • O povo de Deus é Educação Política — Cartilha nº 01, Natal, 1981;
  • Falando de Política — Cartilha nº 01, Santo André, 1981;
  • Voto: meu voto é sagrado — Cartilha Política II, 1982;
  • Igreja, Política e Fé, Arquidiocese de Florianópolis, 1982;
  • Cartilha de Educação Política, Diocese de Bom Jesus da Lapa, 1982;
  • Orientações pastorais para o tempo das eleições, Diocese de Balsas;
  • Cartilha de Educação Social e Política, Prelazia do Alto Solimões, 1982;
  • A Força do Povo — Roteiros de Reflexão, São Mateus, 1982.

Muitas dessas publicações estão preservadas em acervos como o CEDOPE/UNISINOS e o Centro de Documentação e Informação da CNBB. Algumas ainda não estão disponíveis integralmente na internet.

Uma história que ainda precisa ser descoberta

Esses documentos ajudam a perceber que a redemocratização não aconteceu apenas no Congresso, nos palanques ou nas urnas.

Ela também foi discutida nas pequenas salas das paróquias, nos salões comunitários, nos círculos bíblicos e nas reuniões das Comunidades Eclesiais de Base.

As cartilhas são, portanto, mais do que documentos religiosos. São registros de uma época em que milhões de brasileiros precisaram reaprender a participar da vida pública depois de anos de autoritarismo.

Recuperá-las hoje significa recuperar também uma parte da história da educação para a cidadania no Brasil.

Nota de pesquisa: a identificação e digitalização desses materiais ainda é um trabalho em andamento. O Blog da Cultura por meio da pesquisa acima pretende contribuir para localizar, identificar e tornar acessíveis essas pequenas publicações que ajudaram a formar uma geração de cidadãos durante a redemocratização brasileira.

Experiências histórico-pastorais de formação Fé e Política.

O texto acima é resultado de pesquisa com IA , tendo como base inicial a memória do editor do blog e revisão das informações pelo mesmo...