terça-feira, 27 de outubro de 2026

Do centralismo ao padrão autoritário: partidos de esquerda, juventude e o atropelamento da campanha do PT

 Os partidos são importantes e necessários. Mas, nos partidos de esquerda, também crescem o autoritarismo, a hierarquia rígida e a concentração de poder no topo, além de relações baseadas em clientelismo e troca de favores. A reforma política pode ajudar, mas, até lá, milhares de jovens continuarão sem querer participar dessas estruturas partidárias desgastadas, ultrapassadas e arcaicas. Outros entrarão nelas e serão tentados a se alinhar ao jeito de pensar e agir dos mais velhos. Vale destacar que nem os partidos revolucionários escapam dessa dinâmica interna que atravessa as diversas forças políticas.

É claro que, em situações excepcionais, como no segundo turno das eleições de 2026, pode-se ou deve-se usar temporariamente um comando mais centralizado, de estilo militar, como foi o caso do “Exército de Lula”, liderado pelo deputado federal André Janones. Mas, quando isso se torna um padrão constante nas relações internas e externas das direções, chegamos à situação que vivemos na campanha de segundo turno : a campanha do PT sendo atropelada pelas mobilizações dos estudantes nas ruas e pela iniciativa de André Janones nas redes.

Para aprofundar:

📚 Autoritarismo, hierarquia e clientelismo nos partidos de esquerda

Burocratização e “acomodação” no PT (2013) — Revista Fórum

https://revistaforum.com.br/blogs/pt-precisa-ouvir-as-ruas-e-enfrentar-acomodacao-e-burocratizacao-interna/

Crítica à burocratização do PT (2015) — Revista Fórum

https://revistaforum.com.br/politica/saul-leblon-corra-lula-corra/

Frustração com a renovação do PT (2015) — Revista Fórum

https://revistaforum.com.br/blogs/bernardo-cotrim-v-congresso-do-pt-frustradas-as-expectativas-de-mudanca-e-renovacao/

Centralismo, personalismo e burocratização — Entrevista com Rudá Ricci no IHU

https://www.ihuonline.unisinos.br/media/pdf/IHUOnlineEdicao413.pdf

Clientelismo e neoclientelismo — mesma entrevista com Rudá Ricci no IHU

https://www.ihuonline.unisinos.br/media/pdf/IHUOnlineEdicao413.pdf

⚙️ A dinâmica interna dos partidos revolucionários

A “lei de ferro” e a oligarquização — Frei Betto no IHU

https://ihu.unisinos.br/publicacoes/78-noticias/642797-democracia-que-nao-partilha-beneficios-economicos-e-falsa-entrevista-com-frei-betto

🎖️ O “Exército de Lula” e o comando centralizado

Perfil de André Janones como “general” — Revista Fórum

https://revistaforum.com.br/politica/andre-janones-perfil/

A simbologia militar — Hora do Povo

https://horadopovo.com.br/lula-reune-milhoes-na-maior-live-politica-da-historia-e-traca-planos-para-a-vitoria-de-domingo/

🏃‍♂️ A campanha do PT “atropelada” por estudantes e por Janones

O PT “envelheceu mal” — José Roberto de Toledo, UOL

https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/10/24/toledo-janones-ser-estrela-na-campanha-de-lula-mostra-como-o-pt-envelheceu-mal.ghtm

A base social e a juventude nas ruas — Flávia Biroli, Folha de S.Paulo

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/base-social-mobilizacoes-e-democracia-levam-lula-a-vitoria.shtml

O alerta sobre o abandono das bases — Revista Fórum

https://revistaforum.com.br/politica/frei-betto-acende-o-sinal-vermelho-para-a-esquerda/



segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Comemorar, sem parar de lutar Por Luis Felipe Miguel (*)


Em artigo publicado em 26 de outubro, sob o título “Comemorar, sem parar de lutar”, Luis Felipe Miguel classifica a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro como histórica para o Brasil, a América Latina e o mundo, agradece o povo brasileiro — com destaque para o Nordeste —, o presidente Lula e o deputado André Janones, mas alerta que a comemoração não pode levar à desmobilização: é preciso impedir o golpismo, cobrar o novo governo e organizar o campo popular para uma resistência prolongada.



Continuar a mobilização, organizar o campo popular e assumir nossa responsabilidade no novo governo.




 Eu ia fazer uma laive hoje, mas esqueci que ia ter uma obra em casa: muito barulho, impossível manter o plano. Escrevo aqui algumas impressões iniciais da grande vitória de ontem, que espero desenvolver em textos nos próximos dias.



Tivemos um dia tenso ontem, que terminou com essa vitória histórica. Uma vitória não só para o Brasil, mas para a América Latina e para o mundo. Nós, brasileiros, renovamos a esperança de derrotar a extrema-direita, de resistir ao Império e de salvar o planeta.

Não é pouca coisa. Como profetizou Assis Valente, quando chegou a hora, nossa gente bronzeada mostrou seu valor.

Pra mim, na verdade, a tensão começou a se dissipar logo depois das 19 horas. Já os primeiros números indicavam a vitória de Lula. Enquanto no primeiro turno Flávio Bolsonaro ganhou a dianteira logo que se abriram as primeiras urnas do Brasil, ontem Lula permanecia à frente mesmo com a apuração andando – no primeiro turno, a primeira parcial, com 1,5% das urnas apuradas já colocava Flávio na frente e ontem ele só virou com mais de 13%, um sinal claro da mudança de cenário.

E, claro, os modelos estatísticos de projeção de resultados ajudaram muito. Acompanhei sobretudo pelo Rodrigo Mahlmeister, que fez um trabalho incrível, mas também fiquei vendo outros três e todos apontavam, desde o começo, que Lula ia ganhar. Com 3%, o cenário já estava delineado. Com 20%, já dava para ter quase certeza. Com menos de 50%, já podíamos comemorar.

Tenho três agradecimentos a fazer, acredito que em nome de todos nós.

O primeiro agradecimento é para o povo brasileiro. É claro que é chocante saber que quase 60 milhões dos nossos compatriotas estavam dispostos a aceitar aquele sujeito como presidente do Brasil.

Mas a maioria, uma maioria ampla, entendeu a importância de proteger a democracia, de proteger os nossos direitos, de proteger a vida de todos nós. E votou pela Constituição. Votou pelo fim da escala 6x1. Votou por justiça para Ana Clara.

Esse agradecimento é, obviamente, em primeiro lugar para o povo nordestino.

O Nordeste, que dá tanto para o Brasil, que já nos deu e nos dá tantos artistas, tantos intelectuais, tantos cientistas, se levantou de novo para salvar nossa democracia. O Nordeste mostrou que não desiste do Brasil e sabe que o povo brasileiro não quer gorjeta, quer desenvolvimento.

Mas vamos reconhecer: em todos em todos os estados em que ganhou no primeiro turno, Lula aumentou a diferença. Virou em Minas Gerais e no Amapá, E nas outras unidades da federação diminuiu a diferença, em alguns casos significativamente. Foi uma vitória completa.

Então, parece que muitos brasileiros das outras regiões se inspiraram nos nordestinos para dizer não a barbárie.

O segundo agradecimento é ao presidente Lula.

Lula não precisava disso. Já tem seu lugar na história. Já tem a gratidão de milhões de brasileiros, cujas vidas ele transformou. Já podia gozar de uma merecida aposentadoria.

Mas o Brasil precisava de Lula e ele assumiu a responsabilidade.

Sempre fui crítico de seus governos; até quando escrevi o prefácio de seu livro, A verdade vencerá, fiz um balanço muito crítico de sua gestão. Aliás, o fato de que ele permitiu um prefácio assim mostra a grandeza do presidente. Mas eu também nunca deixei de reconhecer em Lula o maior líder popular da nossa história, o maior estadista que esse país já teve. E ele provou isto, uma vez mais, no dia de ontem.

Por fim, óbvio, o agradecimento ao deputado-general André Janones. Ele foi fundamental para reativar a mobilização da militância. O que ele fez não mudoi apenas o jogo nas redes, que formam um terreno crucial, porém hostil para o campo democrático. Foi essencial também para retomarmos as ruas.

A militância borocoxô que só pensava em morrer depois do resultado do primeiro turno se transformou num exército cheio de garra, trabalhando 24 horas por dia, com esperança na vitória. Sem isso, provavelmente as manifestações puxadas pela juventude não teriam sido tão gigantescas, tão lindas. Sem isso, o esforço de conversar, de convencer cada pessoa ao nosso lado, não teria ocorrido de forma tão infatigável.

Em 2022, Janones também teve um papel importante, mas ele amadureceu muito lá pra cá. Praticamente abandonou os factoides, mostrou que é possível disputar o debate nas redes sem recorrer a mentiras, enfatizou a centralidade do trabalho coletivo.

Estratégia unificada e iniciativa descentralizada, partindo de cada um: a receita da vitória.

As lições que ele ensinou vão servir à esquerda, aos progressistas, aos democratas, não só no Brasil, mas no mundo todo.

Enquanto isso, os bolsonaristas tentam contestar o resultado da eleição, com base em pretextos sem fundamento.

Creio que já dá para ter um panorama bem claro do que aconteceu. Prefeitos vinculados à direita, como em São Paulo e em Salvador, boicotaram a oferta de transporte coletivo, em descumprimento frontal das decisões da justiça, a fim de prejudicar o acesso do eleitorado de Lula as urnas.

(Não podemos esquecer: eles precisam ser julgados por crime eleitoral.)

Diante da lentidão na solução do problema, o PT decidiu pedir o adiamento do fechamento das urnas. O ministro KN optou por sentar em cima do pedido, até que fosse tarde demais para decidir. Em jogada ensaiada, o PL também pediu a prorrogação da eleição, mas só nos estados do Sul, para poder dizer depois que Lula não tinha direito de reclamar, já que eles também tinham pedido e não sido atendidos.

Diante da inação do TSE, a campanha de Lula recorreu ao Supremo, que no entanto demorou horrores para sortear o relator. Sorteado Zanin, ele decidiu pela garantia do direito de voto de brasileiros, com a prorrogação do horário. O problema é que a decisão sai muito tarde e o próprio TSE não buscou informar as seções eleitorais, o que causou alguma confusão.

Essa confusão, no entanto, foi muito insuficiente para ter qualquer efeito no resultado. O total de votos colhidos depois do horário não chega a 0,5% da diferença de 4,6 milhões de votos que o presidente Lula abriu sobre o filho do capeta. O próprio KN, subitamente preocupado em limpar sua imagem, já falou que não existe motivo para contestar o resultado.

O que eles querem é pretexto para fazer uma agitação golpista.

É grave que agentes públicos, como deputados federais ou mesmo o governador do maior estado do país, se prestem a isso. No caso de Tarcísio, sabemos que ele simplesmente quer se credenciar, na disputa pelo espólio do bolsonarismo, que agora vai ter que sair da família do capetão.

Mas não é correto que esse tipo de comportamento permaneça sem consequências. É fundamental punir o golpismo de funcionários públicos eleitos, até para estimular a direita oportunista a se distanciar deles. Não sei se temos força para isso, mas os mandatos de gente como Nikolas, Pavanato e Tarcísio deviam ser cassados.

Mas chega de falar dos derrotados.

Agora, é hora de comemorar, mas não de desmobilizar. O primeiro passo é impedir o golpe.

Com o Poder Executivo federal operando a favor da democracia, não contra, o ímpeto golpista deve ser bem menor. Mas é preciso estar alerta contra provocações e para dar apoio a medidas de repressão aos mais exaltados.

Depois, é preciso impedir que a direita inviabilize o novo governo. Não é simplesmente apoiar o presidente Lula. Creio que temos que assumir a nossa responsabilidade no governo, uma responsabilidade proporcional à importância que a mobilização da militância teve nesta vitória.

Isto significa cumprir as tarefas necessárias para garantir a governabilidade, pressionando o Congresso. O caso da aprovação do fim da escala 6x1 é ilustrativo: um povo consciente do que está em jogo, que se manifesta, é capaz de garantir vitórias mesmo diante de um grupo de parlamentares majoritariamente hostil aos seus interesses.

Mas significa também ser ouvido no governo. A pressão é forte para que esse novo governo ceda ainda mais à direita. A imprensa corporativa, que aliás vacilou feiamente na defesa da democracia e cumpriu muito mal seu papel de informar o que estava em jogo na eleição, agora já está cobrando “responsabilidade fiscal”, redução de gastos sociais, fim das “bondades” para com a classe trabalhadora. Cabe a nós cobrar do governo os compromissos com sua base popular.

Uma coisa não é incompatível com a outra: apoiamos cobrando. Vamos lembrar que, quando ganhou em 2022, o próprio presidente Lula disse que queria ser cobrado.

Para isso, é preciso continuar o engajamento nas redes, com técnicas avançadas, aproveitando o enorme aprendizado do segundo turno, e também a mobilização nas ruas, mas combinados com processos de formação política mais aprofundada. E com atenção, sobretudo, à necessidade de organização do campo popular: sindicatos, associações de moradores, movimento estudantil, partidos.

Para um trabalho de resistência prolongada, como o que nos espera, não basta mobilização pontual. É necessária organização.

Do ponto de vista institucional, tornou-se imperativo construir uma federação de todos os partidos de centro-esquerda e esquerda. Já fui contra, mas estava errado – e o cenário mudou. A ausência da federação levou a um grande desperdício de votos e perda de cadeiras na Câmara dos Deputados e nas assembleias estaduais.

Uma grande federação, da centro-esquerda à esquerda, e, se possível, outra do centro à centro-direita, esta sob o comando do PSB de Alckmin e Tebet, seria o melhor cenário. Lembrando que a federação não anula as diferenças dos partidos que a compõem.

Afinal, esse é outro ponto: construir nossa unidade aceitando a diversidade do campo democrático e da esquerda, convivendo com diferenças e mesmo com discordâncias, sempre priorizando as pautas materiais que delimitam com clareza qual é cada lado e que tiram terreno da direita.

São quatro anos em que temos o desafio de encontrar um sucessor para Lula, é verdade, mas também outro desafio, maior ainda: desarmar a extrema-direita, civilizar os quase 60 milhões de concidadãos que estão enredados em sua teia, afastar a política do banditismo.

São ideias para debate, que estou jogando aqui de forma muito telegráfica. Paro, para descansar um pouco, descansar das semanas de tanta luta (e também da comemoração, que ninguém é de ferro). Nos próximos dias, aos poucos, vou desenvolver estas reflexões.

Parabéns a todos nós.

Leia mais em: https://lfmiguel.substack.com/


(*) É um influente cientista político brasileiro e professor titular da Universidade de Brasília (UnB), onde leciona desde 1996. Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp e pesquisador do CNPq, ele coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê). Sua produção intelectual é referência nos estudos sobre teoria democrática, representação política, mídia e gênero, destacando-se por livros como Democracia na periferia capitalista e Feminismo e política.

A vitória esmagadora da Lista dos Estudantes nas eleições legislativas da Sérvia

A vitória esmagadora da Lista dos Estudantes nas eleições legislativas da Sérvia significa um terramoto político histórico que põe fim a quase 14 anos de domínio absoluto de Aleksandar Vučić e do seu partido nacional-conservador (SNS). [1, 2]

O movimento estudantil conquistou a maioria absoluta com cerca de 140 dos 250 assentos no Parlamento, forçando Vučić a admitir publicamente a derrota. [1, 2, 3]

O significado prático e geopolítico desta reviravolta divide-se em quatro pontos centrais:
  • Fim da "Era Vučić" e do retrocesso democrático: A votação funcionou como um referendo contra um modelo político marcado pela forte concentração de poder, controle da mídia e corrupção institucional. A população rejeitou o regime populista de direita que governava o país desde 2012. [1, 2, 3]
  • Triunfo da mobilização civil sobre a política tradicional: A Lista dos Estudantes nasceu organicamente de dois anos de protestos anticorrupção e pró-democracia. A indignação popular atingiu o ápice após a tragédia ferroviária de Novi Sad em 2024, onde o desabamento de uma cobertura matou 16 pessoas e expôs graves esquemas de corrupção estatal. [1, 2, 3]
  • Renovação radical do Parlamento: O panorama partidário tradicional da Sérvia praticamente ruiu. Partidos menores não superaram a barreira de 3%, polarizando o parlamento de forma inédita entre os Estudantes e o SNS. A bancada eleita pelos estudantes é composta majoritariamente por acadêmicos, professores, artistas e especialistas com pouca experiência política tradicional, unidos sob o lema "A Sérvia ou a Máfia". [1, 2, 3, 4, 5]
  • Mudança no equilíbrio geopolítico: A Sérvia, tradicionalmente dividida em um delicado equilíbrio diplomático entre o Ocidente, a China e a Rússia, tende a mudar de rumo. O próprio Vučić declarou após a derrota que espera que as novas autoridades sérvias passem a adotar sanções contra a Rússia, sinalizando uma provável aproximação definitiva com a União Europeia. [1, 2]
O resultado representa uma virada histórica para a democracia no Leste Europeu, abrindo um capítulo focado no restabelecimento do Estado de direito, da liberdade de expressão e da justiça social no país. [1, 2]

Como um movimento estudantil nascido da tragédia pôs fim a 14 anos do governo político de Aleksandar Vučić na Sérvia.  Leia aqui 

Virada de Lula impõe freio ao avanço da extrema direita na América Latina

 A “onda azul” varreu a América Latina. Colômbia, Peru, Chile, El Salvador, Argentina: a direita avançou, e faltava a joia da coroa. Mas o Brasil disse não. Depois de sair atrás no primeiro turno, Lula virou e venceu Flávio Bolsonaro por 51,8% a 48,2%. Viradas assim não caem do céu e podem servir de exemplo a outras democracias que estão tentando se salvar.

O que mudou não foi apenas o voto, mas as ruas e as redes. Jovens, fandoms, movimentos com gente que ama, tolera ou critica Lula se encontraram para barrar o retorno do bolsonarismo. Aprenderam a combinar redes e manifestações, humor e organização, sem depender exclusivamente de partidos. Quando a democracia entrou em jogo, divergências não desapareceram, mas deixaram de ser desculpa para a paralisia.

E a disputa esteve longe de ser limpa. Decisões no TSE ameaçaram o Exército de Lula, tocado por André Janones, no WhatsApp. A Meta admitiu falhas (sic) após denúncias de tratamento claramente desigual. Flávio foi buscar pressão nos Estados Unidos — sim, patriotismo de exportação: pede-se socorro estrangeiro para impor a própria vontade em casa.

A vitória impôs um limite ao trumpismo na maior nação latino-americana. Enquanto a maioria dos governantes de direita da região cumprimentaram Lula, Milei preferiu o silêncio. Há uma diferença entre a direita que reconhece a derrota e a extrema direita que só aceita eleições quando vence.

Mas ninguém encomende o enterro da extrema direita. Ela segue forte, financiada, influente nas redes e nas instituições. Tampouco o voto deu a Lula cheque em branco. Quem saiu às ruas terá de cobrar o governo, fiscalizar concessões e defender os direitos conquistados com luta — nunca presenteados por governantes.

O antídoto contra o autoritarismo não é um salvador da pátria, de vermelho ou amarelo. É uma sociedade que se recusa a ficar sozinha, a calar e a abandonar quem precisa. A eleição acabou. A disputa pelo futuro, não. 

Óleo sobre tela. A derrota. 2026.


 Começou com funk terminou em silêncio!
 O senador Flávio Bolsonaro (PL) escolheu uma suntuosa casa no Lago Sul, bairro mais nobre de Brasília, para acompanhar o resultado do segundo turno das eleições. No local, bandeiras verdes, telões e um palco foram instalados com o objetivo de celebrar a ascensão do primogênito de Jair Bolsonaro à Presidência da República
Sob total euforia, aliados do candidato, já chamado de presidente, oscilavam gritos, fogos de artifício e a batida de funk que virou o jingle da campanha do senador. Ao mesmo tempo, apoiadores e integrantes da campanha bradavam: "O Flávio vem aí e o bicho vai pegar"…
 Os apoiadores acompanhavam a transmissão por um canal de televisão em altíssimos decibéis. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL) entoava de tempos em tempos gritos de apoio ao senador por meio de um microfone: "Vai pra cima deles, Flávio
 RSSSSSSSSSS
 Pouco a pouco, porém, foi ficando claro que a festa começou antes da hora. Por volta das 20h, Lula retomou a liderança na apuração de votos e às 20h30 já não era mais possível ouvir uma voz vindo de dentro da casa onde estava toda a campanha de Flávio Bolsonaro.
Do lado de fora, ouvia-se apenas o barulho estridente das cigarras, inseto comum nessa época do ano em Brasília. Também não havia mais o fumaceiro do churrasco
Antes mesmo de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declarar o resultado das eleições, apoiadores e membros da campanha de Flávio começaram a ir embora, em um silêncio absoluto, exceto um homem que tirou a camisa verde e amarela e saiu esbravejando que o "Nordeste é o câncer do Brasil”


Imprensa europeia diz que “Lula barrou a extrema direita” na América Latina

Jornais do velho continente ovacionam a vitória épica do petista sobre Flávio Bolsonaro e o retratam como o homem que freou o avanço dos extremistas. AQUI


domingo, 25 de outubro de 2026

O Brasil está pronto para mais. Artigo de Lula na Folha de São Paulo em 25 de Outubro de 2026

 


O Brasil está pronto para mais

Brasileiras e brasileiros verdadeiramente patriotas foram às ruas para defender nossas conquistas; a mudança já começou e seguirá no rumo certo

Luiz Inácio Lula da Silva

Presidente da República, é candidato à reeleição pelo PT

A cada eleição, o processo eleitoral brasileiro assiste à escalada das plataformas digitais. Aos poucos, as telas foram tomando o espaço que era das pessoas. Candidatos passaram a se eleger apertando o botão do celular, sem precisar apertar a mão do eleitor. Mas, em 2026, isso mudou, e o que vimos vai entrar para a história. O povo entendeu que esta eleição não é entre dois candidatos. Ele, o povo, é o próprio candidato.

Vivemos um raro momento de mobilização popular no Brasil. Milhares de movimentos de rua acontecem sem organização partidária, de maneira viva e espontânea. O povo se juntou e tomou para si a campanha.

De Silva em Silva, o Brasil se reencontrou na presença; no "tête-à-tête", amontoou-se e fez de muitas uma só voz.

Não abandonamos as redes. Ao contrário, ocupamos como nunca. Um exército heroico foi montado. Abrir o celular foi motivador e não desanimador. Mas foi nas ruas que, de maneira absoluta, nos quatro cantos do país, nós ocupamos os corações. Uma fórmula simples mobilizou nossa gente: a defesa do que conquistamos somada ao modelo de país que queremos no futuro.

O povo foi para a rua pela proteção de conquistas históricas: o Bolsa Família, o Farmácia Popular, o Pé-de-Meia, o Minha Casa, Minha Vida e tantas outras políticas públicas que criamos e consolidamos. A classe trabalhadora foi para a rua defender direitos trabalhistas conquistados: o reajuste salarial acima da inflação, o fim da escala 6x1 e um novo modelo tributário, que isenta impostos das famílias e coloca os milionários para pagar a conta. Brasileiras e brasileiros verdadeiramente patriotas também foram para a rua defender o que é nosso: nossa soberania, nossas terras raras, nosso petróleo e a nossa Amazônia.

Mas não é apenas o medo de perder que mobiliza nossa gente. O Brasil segue indo para as ruas porque quer mais. Quer um futuro construído com desenvolvimento e humanismo, investindo e acreditando na ciência, na tecnologia e na força da indústria nacional. Nossa gente foi movida pelo sonho de dias melhores, com um país moderno, líder em transformação energética e capaz de proteger as nossas matas e as nossas águas.

Sim. O povo brasileiro foi para a rua dizer que está pronto para mais. Nessa batalha contra o atraso, surge um país que não abre mão de mais oportunidades e mais segurança para as mulheres, de mais futuro para as crianças e de mais qualidade de vida para os idosos. A esperança que moveu as ruas é o sentimento de um povo bonito por natureza, diverso, alegre, de fé. Um povo que acredita que a nossa cultura tem um poder transformador, que resiste a tudo, desde os nossos antepassados até a juventude que tomou as ruas de todo o país.

As antigas oligarquias se juntaram a poderosos emergentes de um novo mundo: plataformas digitais, empresas de apostas, bilionários, o narcotráfico, as milícias e uma classe política delinquente que se instalou no Parlamento brasileiro e aprofundou seus métodos no governo Jair Bolsonaro

Esta é a minha última eleição. Não é uma disputa comum. As eleições do Brasil ganharam destaque na disputa geopolítica do mundo moderno. A desigualdade está crescendo no planeta, e há uma desordem mundial em curso: a extrema direita cresce, patrocinada por um punhado de bilionários transnacionais. O Brasil interessa muito a essa gente. Enfrentamos um sistema que, desde a colonização, usa sua força sempre que o povo avança. As antigas oligarquias se juntaram a poderosos emergentes de um novo mundo: plataformas digitais, empresas de apostas, bilionários, o narcotráfico, as milícias e uma classe política delinquente que se instalou no Parlamento brasileiro e aprofundou seus métodos no governo Jair Bolsonaro.

Mas nada é maior do que a união de um povo. Nós sabemos a força inabalável que quando os Silvas se juntam. Com humildade e uma vontade enorme de construir o nosso futuro, digo ao povo brasileiro: estamos prontos como nunca estivemos. Prontos para mais. A mudança que o nosso país merece já começou e seguirá no rumo certo. Por isso, por cada Silva do nosso imenso Brasil, nós iremos vencer.

Folha de São Paulo, 25/10/2026.

Nos rostos e nos cartazes, povo mostra alegria, consciência e disposição de luta



sábado, 24 de outubro de 2026

Entre monstros e multidões: a eleição em aberto, a força das ruas e a lição para a esquerda. Por Zezito de Oliveira

  A eleição segue em aberto, com diferença menor que o esperado e risco de repetir o sufoco da apuração de 2014 e 2022. O autor cobra responsabilidade das lideranças pelos “monstros” criados por ação ou omissão, enquanto reconhece o esforço militante para virar votos e seu efeito multiplicador. Em caso de vitória, defende mais humildade e proximidade das bases. Destaca ainda o peso do Nordeste, os estudantes e Janones, e cita Maringoni sobre as ruas como democracia direta. 

O resultado da eleição está em aberto. Faço essa afirmação porque, em termos numéricos, minha expectativa era que a diferença estivesse maior. Isso significa dizer que viveremos uma situação semelhante à de 2014 e à de 2022, com o clima embalado pela questão colocada na canção “Será” — “Nos perderemos entre monstros da nossa própria criação” —, completada por mim com a palavra “omissão”.

E aqui, como no Evangelho, “a quem mais for dado, mais será cobrado”; portanto, os monstros criados por ação ou omissão são de responsabilidade maior das nossas lideranças ou dirigentes, inclusive das intermediárias. Porque ontem lembrava a um grupo de amigos, ao final da caminhada gigante em Aracaju, que a esquerda também tem os seus Pablos Marçais: indivíduos, grupos ou grupelhos também chamados de “fascistas de esquerda”, lobistas ou mafiosos, como prefiro chamar.

Mas, enfim, muitos esforços estão sendo realizados. São milhões de pessoas que se empenharam em virar voto ou em facilitar/favorecer a ida de pessoas que não votaram no primeiro turno. No meu caso, consegui virar o voto de um eleitor de Cury, e estamos colaborando financeiramente para que duas pessoas que não foram votar possam ir. Isso tem um efeito multiplicador: assim, dois, três, cinco novos votos para Lula, de cada um de nós que votamos em Lula no primeiro turno, podem ser o que falta.

E se der certo? Como esperamos, muito precisará ser corrigido. A arrogância e a soberba de muitos de nossos companheiros e camaradas precisam baixar — baixar a bola, como dizemos.

E aqui vale retomar os versos de “Será”, dessa vez não para a eleição, caso vitoriosa, mas para uma esquerda em que as lideranças e dirigentes se tornem mais solícitas, mais humildes, mais disponíveis, mais atentas e mais próximas das bases.

Um número importante: se o Nordeste colocar algo próximo aos 70% de votos da região   para o presidente Lula, isso ajuda bastante a garantir a vitória.

E sem dúvida os estudantes que foram as ruas primeiro e Janones que formou o exército  digital  nunca serão esquecidos, pelo divisor de águas com relação ao primeiro turno. Como disse Gilberto Maringoni: “O impressionante espetáculo das multidões nas ruas, num período menor do que três semanas, exprime não apenas a capacidade de mobilização e força de nossa gente, mas se constitui numa inédita forma de democracia direta. Milhões estão "votando com os pés", como disse Lenin, jogando por terra as bolorentas e desorientadas direções do PT e da campanha. Quem politizou essa luta histórica contra a barbárie foi o povo brasileiro.”

P.S. 1 – A forma como a campanha para reeleger o presidente Lula neste segundo turno vem se dando faz lembrar a campanha militante de 1989, mas agora com a participação, na liderança, de quadros de fora do PT — e mesmo à revelia deste —, como Janones, e de muitas lideranças ligadas ao movimento estudantil, a outros partidos de esquerda ou sem filiação partidária, além de muitas lideranças dos fandoms (fã-clubes) que pouco ou nunca participaram de mobilizações como essas.

P.S. 2 – Se Flávio Bolsonaro for eleito, o Brasil volta ao período da República Velha, ou seja, ao período anterior à Revolução de 1930. A forma como Kassio Nunes Marques e André Mendonça lidam com as questões do STF e do TSE será corriqueira e antecipa  como esse retorno acontecerá em um eventual governo de Flávio Bolsonaro.

P.S.3 - MISSÃO URGENTE!!!! Fazer essa noticia de ultima hora chegar nos quatro cantos do país!!!!!!!! Boraaaaaaa


POVO TÁ INDO VOTAR: “É LULA OU NÃO É?”, PERGUNTA O CIDADÃO PARA A FILA GRANDE | Cortes 247



São muitas as lições aprendidas e ensinadas nestas três semanas do segundo turno das eleições 2026. Por Zezito de Oliveira, Romero Venâncio e Fernando Morais

"Entre o estrondo do Riocentro em 1981 e o silêncio de uma UTI em 2021, a força do amor aprendeu a vencer a morte — e, nestas três semanas de segundo turno, fez-se multidão nas ruas de Aracaju e do Brasil, numa tarde de sexta-feira primaveril em que a cidade se vestiu de vermelho. Da oração partilhada na comunidade Bom Pastor ao áudio informal que Janones fez chegar a milhões como voz de amigo, do minimalismo e da proximidade que dão densidade à ação ampla à juventude que Fernando Morais nunca vira tantas vezes junta, o que se teceu foi um senso de comunidade contra a solidão e contra o medo. E se a estratégia se resume em duas palavras, a esperança se resume em uma: que a alegria reine no país, e os meninos e o povo no poder — não no tamanho que desejamos, mas no tamanho que a luta permitir. Independentemente do resultado das urnas, o que ganhamos já está nas calçadas: a certeza de que não educamos mal nossos filhos e netos. "

1 - "A força do amor vence a morte, faz viver.” Este é o verso de uma das canções mais bonitas de Zé Vicente, artista e educador popular conhecido por quem participa da Pastoral da Juventude, das CEBs, das Pastorais Sociais e dos movimentos sociais.

Na minha vida, as forças da morte representadas pela família Bolsonaro estiveram  presentes: em 1981, no atentado a bomba no Riocentro, contra artistas e jovens que celebravam o ressurgimento do movimento sindical no ABC; e em 2021, quando passei três meses internado em um hospital com COVID-19, metade desse tempo na UTI.

E nestes dias  vejo essa potência das forças do amor representada por milhares de brasileiros nas ruas, e isso só me faz viver com mais esperança e acreditar que Luiz Inácio Lula da Silva será presidente do Brasil pela quarta vez.

2 - “O que pode fazer o homem comum neste presente instante?” —, sintetizei a estratégia “Cultura com Lula” em duas palavras: minimalismo e proximidade, pois até o dia 25 é disso que dispomos, e depois o horizonte se amplia: a micropolítica que defendo desde a campanha do primeiro e intensificada neste segundo turno — sem desconectar das grandes mobilizações de rua e das redes — precisará se articular ainda mais à macropolítica, porque minimalismo e proximidade não são recuo, mas a base concreta que dá densidade à ação ampla; enquanto escrevo, ouço o professor Romero Venâncio — uma ponte entre espiritualidade libertadora, pensamento crítico e prática política.

Brasil: ruas, redes e o destino nas urnas com Romero Venancio (UFS) | Vote 13 #BORALULA | #ANTIFA


3 - No momento orante da comunidade Bom Pastor, em Aracaju, em favor da eleição do presidente que representa a democracia, a justiça e a beleza no Brasil, nesta quarta-feira, 21/10, na primeira fala, seguindo o roteiro do Ofício Divino das Comunidades, nos momentos iniciais — Recordação da Vida —, em que partilhamos os fatos marcantes do dia ou da semana — as lutas, as alegrias, as notícias da comunidade e a realidade social —, colocando-as diante de Deus, iniciei minha fala na roda com a citação de um verso da canção Coração Civil, de Milton Nascimento e Fernando Brant: “Quero que a alegria reine em meu país / e os meninos e o povo no poder eu quero ver”; ao final, incluí nas preces a alegria como desejo/súplica de vitória para o candidato capaz de favorecer condições e oportunidades para isso, e agora, em Aracaju, na caminhada gigante realizada nesta tarde de 23/10, ficou claro como é necessário elegermos Luiz Inácio Lula da Silva para que a alegria reine em meu estado e em meu país — se não no tamanho que desejamos, ao menos em parte, até porque há o Congresso, a imprensa corporativa, o assédio do imperialismo e a Faria Lima 

Aracaju vermelha, numa tarde de sexta-feira primaveril.

4 -  Uma das coisas mais interessantes da iniciativa Exército de Lula, capitaneada por Janones, é a formação de um senso de comunidade a partir de um objetivo comum: reeleger o presidente Lula.

Esse senso de comunidade é muito importante para pessoas que vivem mais sozinhas — idosos, pessoas que moram só e quem não faz mais parte ou nunca fez parte de organizações e movimentos sociais.

"Fascismo se espalhando e eu ainda insistindo em ser um cantor
pessoas sendo mortas e eu ainda aqui com medo
de ser alguém aquém de quem eu sou
"

É uma questão incrível: um dos conceitos mais importantes que consegui formular desde a primeira campanha do primeiro turno, em conversas com companheiros da militância cultural, é o de minimalismo e proximidade. Nesse sentido, a proximidadade, mesmo de forma virtual possibilitada pelo  canal criado por Janones, com áudios gravados e disponibilizados por ele regularmente, fez milhões de pessoas ouvirem como se tivessem recebido um áudio de alguém conhecido, por causa do jeito informal do general em  se manifestar.

Como exemplo, recebi de um amigo: Engaje seus/as idosos/as, Bota as velhotinhas no exército de Lula Elas vão adorar Janones.

5 - Fernando Morais no facebook

Breves e modestos pitacos de um octogenário que faz política desde o ATO 5, em 1968: primeiro, a massiva presença da juventude nos atos públicos que se multiplicaram pelo país nesse final de campanha pró-Lula. Rodei o Brasil do Piaui ao Rio grande do Sul, passando por Teresina, Recife, Salvador, Goiânia, Brasília, Curitiba, Florianópolis e POA e nunca tinha visto nada parecido. Segundo, mas que poderia ser primeiro: a monumental quantidade de gente na rua. Não vi nada igual, seja como jornalista, seja como militante político, em nenhuma manifestação. Nem nas diretas já. Isso mesmo, nem no ato da Candelária nem no do Anhangabaú. Por último, mas não por menos importante: quem mobilizou e colocou essas massas colossais nas ruas não foi o governo nem a CUT, o MST, as Comunidades Eclesiais de Base nem o MTST. Isso tudo contra a avalanche da mídia conservadora, contra as elites, contra a ação descarada de potências estrangeiras. A internet pode ter ajudado, mas ninguém mobiliza gente inconsciente. Começo a alimentar a esperança de que não tenhamos educado mal nossos filhos e netos. Independentemente do resultado da eleição, acho que ganhamos.