quinta-feira, 23 de julho de 2026

Na Flip, os sinos dobram por José Tolentino de Mendonça e Edimilson de Almeida Pereira

Mesa teve homenagem aos analfabetos que transmitem a literatura e lembrança de que ‘a poesia devolve o silêncio que a sociedade nos tira’

Iara Biderman

23jul2026

A primeira mesa da programação principal da Flip, nesta quinta-feira (23), reuniu os “sedentos de palavras”, na expressão de José Tolentino de Mendonça. O cardeal e poeta português conversou com o poeta mineiro Edimilson de Almeida Pereira sobre o silêncio e o tumulto causados pelo poema. E, a partir de uma pergunta da mediadora, a também poeta e editora da Tinta-da-China Brasil Sofia Mariutti, sobre a profanação que ela enxerga na obra dos dois.

“Profanar não é destruir, é dar outro uso”, disse Tolentino de Mendonça citando o filósofo italiano Giorgio Agamben. “A poesia serve para profanar o silêncio, usá-lo de outra forma. Poetas tentam devolver ao silêncio a gramática da vida”. 

Mais do que isso, acrescentou Pereira, é o que silencia provocando o ruído. “A poesia devolve o silêncio que a sociedade nos tira”, disse. Não à toa, o nome da mesa era “Saber de cor o silêncio”, título de um poema de Orides Fontela, a homenageada da Flip 2026. 

Também não foi por acaso que Mariutti perguntou sobre a relação entre a prática espiritual e a escrita de poesia. Tolentino de Mendonça, além de cardeal, esteve na “shortlist” de sucessores do Papa Francisco e é prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação no Vaticano. Na noite de quarta (22), celebrou uma missa, bastante concorrida, no centro histórico de Paraty. 

“O ato artístico é sempre espiritual. A fé é a disponibilidade para o nomadismo interior”, afirmou. Tolentino de Mendonça ainda contou que, em seu trabalho, passa horas escrevendo relatórios nada poéticos. “Mas ir ao osso desses textos sem adjetivos é uma escola de poesia, porque o poema se constrói com substantivos, não com adjetivos”. 

E, como toda arte para ele, nasce da dor: “Experimentar na carne a ferida, não só a cicatriz, a lembrança do que dói, é também a expansão, o parto, essa coisa cósmica de um passar a dois, o encontro daquilo que se abre”.

Para Edimilson de Almeida Pereira, nas culturas populares, a ideia de ferida não se instala. “Para algumas comunidades, talvez ferida seja algo muito concreto e letal. O contraponto da ferida é a consciência de que a vida é, a um só tempo, momentânea e infinita”.

Transformação tradicional

Os dois poetas também falaram sobre a convivência de tradição e experimentação em suas obras. “Na perspectiva das culturas afrodiaspóricas, não há dicotomia entre o que é tradicional e o que é transformação. São comunidades que vivem deslocamentos, não só geográficos, mas de visão de mundo. O paradoxo entre modernidade e tradição está nos poetas populares, e temos trabalhado nessa perspectiva”, disse Pereira. 

O poeta-cardeal Tolentino de Mendonça, conhecido por seu interesse na cultura pop contemporânea (entre outros, é fã da cantora Rosalía e do cineasta Pier Paolo Pasolini), disse buscar a ponte entre a tradição oral e a escrita, entender como os poemas passaram de orais para escritos. “Minha avó, que era analfabeta, foi minha primeira biblioteca. Quando fui trabalhar na biblioteca do Vaticano, quis recordar minha avó e todos os analfabetos que têm sido, por séculos, responsáveis pela transmissão da literatura.”

Em vários momentos da conversa, os dois fizeram leituras de seus poemas. Em uma dessas ocasiões, o sino da igreja matriz de Paraty tocou enquanto Tolentino de Mendonça recitava. “A poesia é uma só. A dos sinos, das palavras, de tudo”, disse a mediadora. “O espanto é o umbigo do mundo. Quando somos capazes de espanto, estamos vivos. A poesia tem que ser a iniciação para o espanto”, emendou, muito poeticamente, Tolentino de Mendonça.

Flip 2026

A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026.




As canções que nos mostram a diferença entre o patriota verdadeiro e o patriota fake. Vamos ouvir e promover mais canções assim? Brasil e Cara do Brasil...


Eduardo Bolsonaro construiu sua imagem pública sobre o slogan "Brasil acima de tudo". No entanto, os fatos objetivos, registrados em decisões judiciais e atos administrativos, pintam um quadro oposto. O quadro abaixo, serve como nossa bússola:

(1) Dimensão A Retórica do "Patriota" (2) A Realidade dos Fatos

(1)  Vínculo Profissional Defesa das instituições e do funcionalismo técnico. (2) Demissão recomendada pela Polícia Federal por abandono do cargo de escrivão.

(1) Mandato Eletivo Representação dedicada e ativa do povo brasileiro na Câmara. (2) Cassação do mandato de deputado federal decretada por excesso de faltas injustificadas.

(1) Respeito à Soberania Discurso soberanista e contra interferências estrangeiras. (2) Atuação internacional e lobby nos EUA que resultaram em sanções prejudiciais à própria economia brasileira.

(1) Futuro e Moradia Luta pelo futuro das famílias brasileiras "em solo pátrio". (2) Obtenção de residência permanente (green card) e vida estabelecida no exterior.

É nesse fosso entre a retórica e a prática que as canções encontram seu eco mais devastador.

1. "Brasil" (Cazuza): o grito que cobra o pagamento da conta

Lançada em 1988, a música de Cazuza é um manifesto de quem está cansado de ser enganado. Seu refrão é uma convocação direta:

"Brasil, mostra a tua cara / Quero ver quem paga / Pra gente ficar assim"

A letra expõe a relação parasitária entre a elite nacional e o poder, e denuncia a hipocrisia dessas mesmas elites politicas e econômicas. Aplicando essa lente ao caso concreto, a pergunta de Cazuza se torna inquietante: quem pagou pelas faltas injustificadas de Eduardo Bolsonaro na Câmara? Quem pagou pelos atos de coação no contexto golpista que lhe renderam uma condenação unânime no STF a 4 anos e 2 meses de prisão em regime semiaberto?

A resposta prática é que ele não pagou e sobrou para o contribuinte brasileiro, o erário da nação. Enquanto o Brasil aguardava a regularização de sua situação jurídica — com a perda do cargo na PF, a cassação do mandato e a inelegibilidade por oito anos —, ele simplesmente mudou de endereço. O verso "a burguesia cheira / a burguesia quer ficar rica" encontra sua materialização no green card e na vida confortável nos Estados Unidos. A "cara" que Cazuza pede para ser mostrada não era a do guerreiro patriota, mas a do homem que, diante das consequências, escolheu a fuga.

2. "A Cara do Brasil" (Vicente Barreto): o mergulho nas contradições abandonadas

Se Cazuza grita da esquina, Vicente Barreto convida à reflexão filosófica sobre a identidade nacional. A canção é um longo inventário de dualidades:

"Na verdade, o Brasil o que será?"

"O Brasil é o que tem talher de prata / Ou aquele que só come com a mão?"

"O Brasil é o homem que tem sede / Ou o que vive na seca do sertão?"

"A gente é torto igual a Garrincha e Aleijadinho / Ninguém precisa consertar"

A música não oferece uma resposta única porque o Brasil não é monolítico; ele é feito de contradições, belezas e chagas que coexistem. O discurso ufanista de Eduardo Bolsonaro sempre tentou vender a imagem de um Brasil homogêneo, heroico e acima de qualquer suspeita. No entanto, sua trajetória revela que ele abraçou apenas um lado da canção: o do privilégio, do "talher de prata" e da segurança estrangeira.

Ao abandonar o cargo de escrivão da PF, ele virou as costas para o Brasil que  precisa de instituições fortes. Ao fazer lobby nos EUA que resultou em sanções ao Brasil, ele traiu a soberania que dizia defender, escolhendo o endosso de governantes estrangeiros em detrimento do cumprimento das leis de seu próprio país. A frase "A gente é torto igual a Garrincha e Aleijadinho / Ninguém precisa consertar" é um manifesto de aceitação da identidade nacional em sua forma imperfeita, mas não nos termos como é a  familia Bolsonaro. 

A Junção Final: o Quadro Completo do Oportunismo

Quando justapomos a análise factual com as duas canções, obtemos um retrato tridimensional do oportunismo político:

Cazuza nos dá o grito de alerta: o "patriota" é, na verdade, um membro da elite que se apropria do Brasil como vitrine, ou seja, usa o país enquanto lhe é útil e o descarta quando a conta chega. A condenação no STF e a perda do cargo são a "conta" que ele se recusou a pagar, trocando-a por um green card.

Vicente Barreto nos dá o mergulho na essência: o Brasil real é feito de contradições que não cabem em slogans. A verdadeira identidade nacional não se constrói com fugas, mas com a coragem de encarar o "sertão" , a "seca" e a "contradição" . Eduardo Bolsonaro, ao fixar residência nos EUA, rejeitou essa essência. Ele não quis ser o homem que "se vira sozinho" , como sugere a canção; preferiu ser o homem que se vira para fora,  o homem que critica as "mamatas", mas que sempre fez uso delas, e continua, agora fora do país. 

Conclusão: a Pátria onde Estão os Interesses

A pergunta que atravessa toda a análise é a mesma que ecoa das duas canções: qual é, de fato, a pátria de quem escolhe virar as costas ao próprio país no momento de prestar contas à Justiça?

Cazuza responde com ironia: a pátria do oportunista é o lugar onde ele pode "mostrar a cara" apenas quando lhe convém, e escondê-la quando a conta chega. Vicente Barreto responde com melancolia: a pátria verdadeira é aquela que se assume em suas contradições, que não foge do "torto" , do "gordo" , do "que não come" .

O ex-parlamentar, ao obter residência permanente nos EUA enquanto enfrentava a perda do cargo, a cassação do mandato e a inelegibilidade, deu sua resposta prática e definitiva. A pátria, para ele, não é o chão onde se nasceu, nem o conjunto de responsabilidades que se contraiu, nem a nação de contrastes que um dia explorou em discursos. É, antes de tudo, o lugar onde seus privilégios estão a salvo — o que valida o questionamento central da primeira análise: a pátria do autêntico patriota não é um refúgio descartável, mas o local onde se assume a responsabilidade pela própria história. E a história de Eduardo Bolsonaro, como bem cantaram Cazuza e Vicente Barreto, tem a cara de quem prefere o exílio confortável à coragem de enfrentar o Brasil que ele próprio ajudou a construir, ou será destruir? 

Cazuza, Brasil








quarta-feira, 22 de julho de 2026

"Cortina Levantada! 1ª Oficina de Teatro Popular da Ação Cultural Encanta e Mobiliza o Bairro Industrial"

 Iniciativa gratuita da Ação Cultural une história, expressão corporal e inclusão para jovens e adultos a partir de 13 anos.

No último dia 21 de julho de 2026, o espaço de convivência da Paróquia São Pedro Pescador, no Bairro Industrial, foi palco de uma tarde repleta de arte, aprendizado e emoção com o início da 1ª Oficina de Teatro Popular. Promovida pela Ação Cultural e ministrada pelos experientes professores Raimundo Venâncio e Tânia Maria, a aula de estreia cumpriu brilhantemente o papel de despertar o talento dos participantes inscritos e presentes.

A aula foi estruturada em dois momentos complementares. Inicialmente, os docentes conduziram uma imersão teórica nos fundamentos da arte dramática, abordando os conceitos de atuação e ator com uma viagem histórica que conectou os primórdios do teatro à influência dos jesuítas no Brasil. Na sequência, a professora Tânia Maria deu o tom prático com exercícios de avaliação e controle respiratório, enquanto o professor Raimundo Venâncio desafiou a turma com dinâmicas de memorização e expressão corporal — elementos essenciais previstos na ementa do curso, que abrange desde a consciência corporal até a memória das emoções.

Os relatos dos participantes são unânimes ao destacar a qualidade didática e o encantamento proporcionado. A aluna Vania Bandeira emocionou a equipe ao confessar: "Confesso que iniciei super nervosa e cheia de expectativas. Mas, ao longo da aula, tudo se transformou em muito aprendizado! Conhecer a história do teatro trouxe uma profundidade maravilhosa. A aula passou voando e me deixou com atenção plena e o desejo de saber e aprender ainda mais com esses mestres da arte."

A conexão com as famílias também foi imediata. A mãe de uma das jovens alunas, Lara Cecília, compartilhou a alegria em casa: "Minha filha amou! Veio cheia de novidades, me contando tudo. Me encheu mais de vontade de ir. Ela tá muito animada e sei que pra ela vai ser maravilhoso. Muito obrigada!" Os demais alunos, como Jaci Farias e Rafael, também aprovaram a metodologia lúdica, informativa e reflexiva, destacando o alto nível do conteúdo e pedindo "mais!" . 

A oficina, com carga horária total de 20 horas distribuídos durante cinco dias,   alinha-se perfeitamente aos objetivos do Ponto de Cultura: estimular a expressão artística, a reflexão cidadã e o protagonismo juvenil.

Ao final da aula, os professores realizaram uma avaliação individualizada, distribuindo textos compatíveis com o perfil de cada aluno. A expectativa agora é alta para os próximos encontros, que continuarão explorando a expressão vocal, a improvisação e a construção de personagens, sempre partindo da experiência pessoal de cada participante.

O produto final dessa jornada será a produção de várias cenas teatrais curtas, em formato de monólogos, que serão apresentadas ao público na Mostra Arte e Cidadania, marcada para o dia 22 de agosto. A iniciativa promete não apenas revelar novos talentos, mas também fortalecer a identidade cultural da comunidade, gerar oportunidades de inserção profissional no âmbito da  economia  criativa  e melhorar a autoestima e o desempenho escolar dos envolvidos.



Fotos: Raoni Smith

Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.



PALCO 




terça-feira, 21 de julho de 2026

Conheça ‘Nem Tudo é Paz e Amor’, documentário com relatos de filhos da contracultura

 Documentário de Betão Aguiar conta com nomes como Moreno Veloso, Nara Gil, Sarah Sheeva, Beto Lee e Anelis Assumpção

Nem Tudo é Paz e Amor, novo longa-metragem de Betão Aguiar, mergulha em memórias, dinâmicas familiares e na herança cultural do Brasil dos anos 1970 a partir de relatos íntimos de nomes como Moreno Veloso, Nara Gil, Sarah Sheeva, Beto Lee e Anelis Assumpção. Saiba mais sobre o filme a seguir:

Do que se trata Nem Tudo é Paz e Amor?

Filho da escritora e produtora Marília Aguiar e de Paulinho Boca de Cantor, pilar fundamental do grupo Novos Baianos, Betão revisita episódios extraordinários e também os traumas que marcaram a infância dele e de seus entrevistados naquele contexto de liberdade, psicodelia e efervescência artística.

“Enquanto Tropicália, Novos Baianos e a contracultura dos anos 1970 reinventavam o DNA cultural do Brasil sob o peso da ditadura militar, seus filhos observavam, pelo buraco da fechadura, a beleza, as rupturas e a psicodelia daquela liberdade sem fim. O filme evoca o espírito da época, reverencia o Cinema de Invenção e faz da música e da ironia antídotos contra a mera nostalgia histórica. Fica a pergunta: quanta coragem é necessária para atravessar os traumas e as maravilhas de crescer no caos das revoluções artísticas e comportamentais da contracultura?“, diz a sinopse oficial.

“Nossos pais ousaram sonhar um mundo diferente e romper padrões – mas percebi que certos vazios pediam respostas”, conta o diretor, em sua segunda incursão no cinema de longa-metragem depois de Samba de santo – resistência afro-baiana (2020).

Nasci e cresci em um universo profundamente musical, em contato direto com alguns dos maiores nomes da música produzida no Brasil. Ter sido criado em uma família alternativa, de forte vocação hippie nos anos 1970, atravessou minha existência em múltiplas esferas e foi determinante para quem sou e para a visão de mundo que construí. O filme é uma conversa aberta que ajuda a contar uma história que é nossa — e de muitas pessoas nascidas e criadas nesse período e sob essas condições”, completa.

A ideia original é de Jasmin Pinho, sua amiga de adolescência, falecida em 2020. O filme foi realizado com recursos provenientes da Ancine via FSA e BRDE e Betão também assina a produção executiva do longa, ao lado de Minom Pinho, em uma parceria Casa Redonda e Zapipa Produções.

O documentário integra a Mostra Brasil do festival In-Edit Brasil 2026, que acontece entre 17 e 28 junho, em São Paulo, e chegará ao circuito comercial no segundo semestre, com distribuição exclusiva da Pandora Filmes.

Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)


♫ CRÍTICA DE DOCUMENTÁRIO MUSICAL

Título: Nem tudo é paz e amor

Direção: Betão Aguiar

Roteiro: Betão Aguiar e Marco Korodi

Cotação: ★ ★ ★ 1/2

♪ Atração da 18ª edição do festival de documentários In-Edit Brasil, em cartaz em São Paulo (SP), “Nem tudo é paz e amor” tem roteiro estruturado com entrevistas inéditas com filhos de grandes nomes da música brasileira – Baby do Brasil, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Itamar Assumpção (1949 – 2003), Moraes Moreira (1946 – 2020) e Rita Lee (1947 – 2023), entre outros – mas passa longe de ser filme sobre os privilégios dos nepobabies, termo que identifica os filhos de artistas famosos que encontram portas abertas pelo parentesco.


Filme dirigido por Betão Aguiar, cineasta que também é compositor e baixista da banda de Arnaldo Antunes, “Nem tudo é paz e amor” escancara as dores e as delícias dos filhos da contracultura musical brasileira dos anos 1960 e 1970.

Partindo do universo particular do próprio Betão Aguiar, filho de Paulinho Boca de Cantor e da produtora Marília Aguiar, a discussão soa de início um pouco difusa, mas ganha musculatura ao longo dos 88 minutos do documentário feito pelo diretor a partir de ideia da amiga Jasmin Pinho, falecida em 2020.

Entre imagens de arquivo do grupo Novos Baianos, coletivo que personificou a ideia de contracultura e liberdade em tempos de repressão, “Nem tudo é paz e amor” alinha sucessivos depoimentos de filhos de artistas que tentaram pôr em prática a ideologia hippie na criação dos filhos ou que, ao menos, tentaram criar esses filhos fora dos dogmas e padrões sociais vigentes.

As sucessivas falas de Anelis Assumpção, Beto Lee, Ciça Moraes, Moreno Veloso, Nara Gil e Sarah Sheeva – entre outros filhos – acabam por revelar um orgulho dos pais que se mistura com confissões de desconforto em cotidiano sem rotina.

Se temas como sexo e drogas eram abordados sem culpas nas casas dos filhos de artistas de almas libertárias (“Nada era tabu na mesa de jantar”, resume Beto Lee, filho de Rita e Roberto de Carvalho), a sensação de insegurança ou inadequação em um ambiente permissivo, geralmente festivo e sem limites rígidos também se mostravam recorrentes. “Meus pais achavam muito estranho eu ser heterossexual”, lembra Moreno Veloso, em fala tão inusitada que resulta lúdica.

É curioso como a ausência de um sofá na sala de estar – símbolo do conforto das famílias pequeno burguesas – é apontada com certo incômodo por alguns depoentes no filme.

As falas de Sarah Sheeva são especialmente relevantes porque a filha de Baby do Brasil e Pepeu Gomes revela como a simples escolha de um nome exótico pelos pais – Riroca, trocado oficialmente na adolescência por Sarah Sheeva – gerou bullying e transtorno psicológico que conduziram Sarah ao divã.

Contudo, o saldo parece ter sido sempre positivo entre perdas e ganhos. À medida que avança a narrativa curiosa e linear de “Nem tudo é paz e amor”, documentário que ainda tem sessões programadas para 25 e 28 de junho no festival In-Edit Brasil antes da entrada em circuito comercial no segundo semestre, o filme de Betão Aguiar mostra que a harmonia acabou prevalecendo entre pais e filhos quando estes se tornaram adultos e refletiram sobre as dores, mas também sobre as delícias, de terem crescido em um círculo familiar sem tanto cerceamento da liberdade.




https://pt.wikipedia.org/wiki/Acabou_Chorare

Outro lançamento que dialoga com a temática do filme acima.
"London 70" é um documentário brasileiro em fase de pós-produção dirigido por Rejane Zilles que retrata a efervescente cena cultural de artistas brasileiros exilados ou autoexilados em Londres no início da década de 1970, fugindo da repressão da ditadura militar no Brasil. 
O filme reconstrói as memórias daquela geração com foco especial nos bastidores da gravação do lendário álbum Transa, de Caetano Veloso.
Detalhes do Documentário
  • O Fio Condutor: A produção adentra a história de quando o músico Jards Macalé viajou a Londres a convite de Caetano Veloso para trabalhar nos arranjos e gravações do disco Transa.
  • Acervo Histórico: O roteiro utiliza registros raros e pessoais guardados em filmes Super 8 filmados pelo próprio Jards Macalé na época, além de fotografias, cartas e arquivos inéditos. 
  • Artistas Retratados: O longa resgata as vivências e traz depoimentos atuais de grandes nomes que buscaram a liberdade de expressão na capital inglesa, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Mautner, Ângela Rô Rô, Maria Gladys, e cineastas do Cinema Marginal como Neville de Almeida e Julio Bressane. 
  • Produção: O documentário é produzido pela República Pureza Filmes. 


Sobre o álbum, Caetano declarou em uma entrevista ao Jornal do Brasil: "Chamei os amigos para gravar em Londres. Os arranjos são de Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Sousa. Não saíram na ficha técnica e eu tive a maior briga com meu amigo que fez a capa. Como é que bota essa bobagem de dobra e desdobra, parece que vai fazer um abajur com a capa, e não bota a ficha técnica? Era importantíssimo. Era um trabalho orgânico, espontâneo, e meu primeiro disco de grupo, gravado quase como um show ao vivo".

Na mesma entrevista: "Foi Transa que me deu coragem de fazer os trabalhos com A Outra Banda da Terra. Tem a Nine out of Ten, a minha melhor música em inglês. É histórica. É a primeira vez que uma música brasileira toca alguns compassos de reggae, uma vinheta no começo e no fim. Muito antes de John Lennon, de Mick Jagger e até de Paul McCartney. Eu e o Péricles Cavalcanti descobrimos o reggae em Portobelo Road e me encantou logo. Bob Marley & The Wailers foram a melhor coisa dos anos 70. Gosto do disco todo. Como gravação, a melhor é Triste Bahia. Tem o Mora na Filosofia, que é um grande samba, uma grande letra e o Monsueto é um gênio. Me orgulho imensamente deste som que a gente tirou em grupo". (Da Wikipedia) -

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Aldeias do Futuro: Quando a Contracultura e o Bem Viver Reinventam o Rural

 Vivemos um momento em que muitas pessoas sentem o chamado para desacelerar, fortalecer laços comunitários e reencontrar formas mais simples, regenerativas e significativas de viver. O inspirador documentário Aldeias do Futuro,  nos convida a imaginar – e construir – novos caminhos para o futuro dos nossos territórios e das nossas comunidades.



O documentário português Aldeias do Futuro (vinculado ao movimento Re.Rural) aborda a reinvenção das zonas rurais como espaços de inovação social, sustentabilidade e novas formas de vida comunitária. Em vez de enxergar o campo como um lugar isolado ou ultrapassado, a obra retrata histórias reais de pessoas e coletivos que estão migrando para o meio rural em Portugal para construir comunidades baseadas na partilha, na pertença e na regeneração ecológica.]

Abaixo, veja como essa proposta se conecta diretamente aos conceitos de Contracultura e Bem Viver.

🌿 Relação com a Contracultura

A contracultura é um movimento que questiona e rejeita os valores, os padrões de consumo e o estilo de vida da sociedade industrial e capitalista dominante. O documentário se relaciona com esse conceito ao:

  • Romper com o Urbanocentrismo: Desafia a lógica de que o progresso, o sucesso profissional e o futuro estão obrigatoriamente atrelados às metrópoles poluídas e hiperconectadas.]
  • Alternativa ao Hiperconsumismo: Propõe uma transição para modelos baseados na economia local, na partilha de recursos e na autogestão.
  • Neo-ruralismo e Novas Tecnologias: Resgata o espírito de comunidades alternativas (comum nos movimentos contraculturais dos anos 1970), mas com uma roupagem moderna — unindo saberes ancestrais ao trabalho remoto e ao nomadismo digital.

🌎 Relação com o Bem Viver (Sumak Kawsay)

O conceito latino-americano de Bem Viver, originado de povos indígenas andinos, defende uma vida em profunda harmonia com a natureza e com a própria comunidade, distanciando-se da ideia clássica de "desenvolvimento" focado no crescimento econômico infinito. A conexão com as "Aldeias do Futuro" acontece nos seguintes pontos:]

  • Regeneração Ecológica: As comunidades eibidas no filme praticam a permacultura e a agrofloresta, entendendo o ser humano como parte da natureza, e não como seu explorador.
  • Interdependência Comunitária: O foco sai do individualismo ocidental e foca no bem-estar coletivo, no cuidado mútuo, na proximidade e no senso de território.
  • Resiliência Local: O Bem Viver valoriza a soberania local. O documentário ilustra exatamente essa busca por autonomia por meio de redes locais de alimentação, energia e coesão social.

 TRAILER OFICIAL | Aldeias do Futuro


Quais foram os jogadores da Argentina e Espanha que evitaram Donald Trump

 






247 – Cristian Romero, da Argentina, e Borja Iglesias, da Espanha, protagonizaram momentos de distanciamento em relação a Donald Trump durante a cerimônia de premiação da Copa do Mundo de 2026. O argentino não cumprimentou o presidente dos Estados Unidos, enquanto o espanhol fez um contato rápido e seguiu pelo palco quase sem olhar para o político.

As atitudes ocorreram após a vitória da Espanha por 1 a 0 sobre a Argentina na final disputada no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Trump participou da entrega das medalhas ao lado do presidente da Fifa, Gianni Infantino, e também esteve presente no momento em que o capitão Rodri recebeu a taça.

Romero passou pela fila de autoridades sem falar ou apertar a mão de Trump. O comportamento do zagueiro argentino chamou atenção porque os demais integrantes das duas seleções cumprimentaram o presidente norte-americano durante a passagem pelo pódio.

A reação de Borja Iglesias foi diferente, mas também demonstrou desconforto. Ao receber a medalha de campeão mundial, o atacante espanhol apertou rapidamente a mão de Trump, evitou prolongar o contato visual e seguiu imediatamente para encontrar os companheiros.

O jogador já havia antecipado que não desejava permanecer muito tempo diante do presidente dos Estados Unidos. Questionado antes da decisão sobre como reagiria ao encontro, Iglesias respondeu:

“Não quero que me mandem à prisão (risos). Espero que passe muito rápido e eu me esqueça.”

Conhecido por manifestações políticas públicas, o atacante espanhol já havia criticado Trump. Em maio, durante uma participação no programa espanhol “La Revuelta”, Iglesias afirmou que era contrário ao político norte-americano porque “gosta das pessoas que lutam pelo progresso e pela defesa dos valores fundamentais”.

Na véspera da final, o jogador também usou as redes sociais para classificar como “vergonha” os preços cobrados pelos ingressos da decisão. Algumas entradas chegaram a ser oferecidas no mercado de revenda por valores equivalentes a R$ 47 mil.

Trump foi recebido com vaias vindas de diferentes setores do estádio quando entrou no gramado para a cerimônia. Também houve aplausos, mas a manifestação contrária ao presidente foi ouvida durante sua caminhada até o palco.

A participação de Trump não terminou com a entrega das medalhas. Depois de ajudar Infantino a entregar o troféu a Rodri, o presidente permaneceu no centro do pódio enquanto os jogadores espanhóis se preparavam para levantar a taça.

Com isso, Trump apareceu ao lado da seleção campeã em uma das imagens mais simbólicas da competição: o primeiro momento em que o troféu foi erguido. Sua presença na entrega havia sido anunciada previamente por Infantino, mas a permanência no palco durante o início da comemoração ultrapassou a função inicialmente prevista.

A atuação de Trump em assuntos relacionados ao torneio já havia provocado controvérsia durante a Copa. Uma ligação do presidente norte-americano para Infantino foi apontada como parte da mobilização que antecedeu a suspensão da punição ao atacante Folarin Balogun, expulso na vitória dos Estados Unidos sobre a Bósnia e Herzegovina.

Após o Comitê Disciplinar da Fifa permitir que Balogun enfrentasse a Bélgica nas oitavas de final, Trump comemorou a decisão nas redes sociais:

“Obrigado à FIFA por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça.

Na premiação da final, Romero adotou a atitude mais direta ao passar sem cumprimentar Trump. Borja Iglesias, por sua vez, manteve apenas o contato protocolar que havia indicado antes da partida, encerrando rapidamente o encontro com o presidente norte-americano.

Por que Lamine Yamal nos faz repensar nossos ídolos?

Lamine Yamal não chama atenção apenas pelo talento.

Filho de imigrantes, criado em um bairro popular e alvo de racismo, xenofobia e islamofobia ele transforma suas origens, sua família e seus posicionamentos em parte de sua identidade pública. 

Neste vídeo, sua trajetória nos ajuda a repensar o que esperamos dos nossos ídolos, dentro e fora de campo.



Artistas palestinos pintaram um mural agradecendo a Lamine Yamal, aproveitando a classificação da Espanha para a final da Copa do Mundo. 
🇵🇸

A obra é inspirada na foto que viralizou, na qual Yamal aparece com a bandeira da Palestina após o título da LaLiga com o Barcelona. “Gracias, Yamal. Estamos com quem ama a Palestina”, diz a legenda da publicação oficial com crianças que posaram em frente à arte.

A homenagem também é um agradecimento à própria postura do governo espanhol, que desde 2025 adotou medidas contra Israel, como embargo de armas e reforço da ajuda humanitária, classificando a “guerra” em Gaza como genocídio

Fonte: AFSC/Phoenix 

Vitória de Lamine Yamal é também da Palestina
Meses antes do Mundial, um gesto de solidariedade à Palestina transformou o jogador em símbolo para milhares de palestinos

Saiba mais, aqui


Leão XIV desejou que a Copa do Mundo fosse uma "escola de fraternidade".

Fora dos gramados, porém, jogadores como Lamine Yamal, Kylian Mbappé e Vinicius Jr. tornaram-se alvo de ataques racistas, xenófobos e islamofóbicos nas redes sociais.

Saiba mais, aqui

Trump é vaiado e ignorado por Yamal na final da Copa do Mundo