domingo, 19 de julho de 2026

José Tolentino de Mendonça, a cultura como lugar da fé: por que sua presença na Flip 2026 interessa à Igreja e ao Brasil

Em um momento em que a Igreja Católica procura aprofundar o diálogo com os grandes desafios culturais do século XXI, poucas figuras possuem tanta relevância quanto o cardeal português José Tolentino de Mendonça. Poeta, ensaísta, teólogo e prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano, Tolentino tornou-se uma das principais vozes da Igreja contemporânea na defesa da cultura, da literatura e das artes como espaços privilegiados de encontro entre a experiência humana e a experiência religiosa.

Sua presença na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada entre os dias 22 e 26 de julho de 2026, representa mais do que a participação de um cardeal em um dos maiores festivais literários da América Latina. Ela simboliza uma mudança de paradigma na forma como a Igreja compreende sua relação com a cultura contemporânea.

Uma voz singular da Igreja portuguesa

Antes de assumir responsabilidades no Vaticano, José Tolentino de Mendonça já era reconhecido como um dos intelectuais mais influentes da Igreja Católica em Portugal. Sua trajetória sempre transitou entre a teologia, a poesia, a crítica literária e o ensino universitário.

Ao contrário de uma tradição eclesial marcada, muitas vezes, por um discurso predominantemente apologético, Tolentino propõe uma Igreja capaz de escutar a cultura antes de falar a ela. Em seus livros e conferências, dialoga com escritores como Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Maria Gabriela Llansol e Rainer Maria Rilke, demonstrando que a literatura não é apenas objeto de apreciação estética, mas também um espaço onde as grandes perguntas da existência continuam sendo formuladas.

Para o cardeal português, a arte não serve apenas para ilustrar a fé. Ela possui autonomia, densidade própria e capacidade de revelar aspectos profundos da condição humana. Essa compreensão aproxima a Igreja dos artistas, escritores e intelectuais, abrindo possibilidades de diálogo que ultrapassam as fronteiras confessionais.

A cultura no centro da missão da Igreja

Desde que assumiu o Dicastério para a Cultura e a Educação, Tolentino tem contribuído para consolidar uma das intuições centrais do pontificado do Papa Francisco: a evangelização passa necessariamente pelo encontro com a cultura.

Essa perspectiva encontra inspiração direta no Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que convida a Igreja a compartilhar "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias" da humanidade.

Na prática, isso significa reconhecer que a literatura, o cinema, a música, as artes visuais, a filosofia, a universidade, as ciências humanas e até mesmo os desafios da cultura digital constituem espaços onde a Igreja pode aprender, dialogar e discernir.

Mais do que utilizar a cultura como instrumento pastoral, Tolentino propõe que ela seja reconhecida como um verdadeiro lugar teológico, isto é, um espaço onde Deus continua a falar através da história, da beleza, da criatividade e das inquietações humanas.

Os dilemas do homem contemporâneo

Talvez uma das razões para o reconhecimento internacional de José Tolentino de Mendonça esteja em sua capacidade de abordar as questões contemporâneas sem reduzi-las a debates exclusivamente morais.

Em seus livros, homilias e ensaios aparecem temas como:

  • a solidão;

  • a aceleração do tempo;

  • a crise da atenção;

  • o excesso de informação;

  • o silêncio;

  • a contemplação;

  • a vulnerabilidade humana;

  • a hospitalidade;

  • a busca de sentido;

  • a beleza como caminho espiritual.

Sua escrita combina densidade teológica e linguagem poética, tornando-se acessível tanto ao público religioso quanto aos leitores interessados em filosofia, literatura e espiritualidade.

A Flip 2026 e um encontro histórico

A presença de José Tolentino de Mendonça na 24ª Flip, realizada em Paraty entre 22 e 26 de julho de 2026, confirma essa vocação de diálogo.

Sua participação acontece na quinta-feira, 23 de julho, às 10 horas, na mesa "Saber de cor o silêncio", ao lado do escritor e poeta brasileiro Edimilson de Almeida Pereira, com mediação da jornalista Sofia Mariutti.

A escolha do tema não poderia ser mais coerente com sua obra. O encontro propõe uma reflexão sobre poesia, linguagem, silêncio e identidade, reunindo dois autores cuja produção literária se caracteriza pela atenção à memória, à experiência humana e à força transformadora da palavra.

O significado desse convite ultrapassa o ambiente literário. É raro que um cardeal em exercício na Cúria Romana participe da programação principal de um festival internacional de literatura. Sua presença evidencia o reconhecimento de que José Tolentino de Mendonça ocupa hoje um lugar relevante não apenas na Igreja Católica, mas também no pensamento cultural contemporâneo.

O que essa visita pode significar para a Igreja no Brasil?

Embora a participação de Tolentino na Flip não tenha caráter institucional junto à Igreja brasileira, sua presença pode exercer influência significativa sobre o debate pastoral e cultural.

Historicamente, a Igreja no Brasil desenvolveu uma sólida tradição de reflexão sobre justiça social, pobreza, direitos humanos, democracia e cuidado com a criação. Essas prioridades permanecem fundamentais.

Entretanto, a contribuição de Tolentino sugere uma ampliação desse horizonte. Cultura, arte e literatura deixam de ser compreendidas como temas periféricos para se tornarem dimensões essenciais da própria evangelização.

Essa perspectiva pode estimular dioceses, universidades católicas, centros culturais e instituições de formação a estabelecer um diálogo mais intenso com escritores, artistas, cineastas, músicos e pesquisadores.

A Campanha da Fraternidade e uma nova sensibilidade cultural

É importante destacar que a escolha dos temas da Campanha da Fraternidade pertence à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), resultado de um processo colegiado de discernimento pastoral.

Não seria correto afirmar que a visita de José Tolentino de Mendonça levará diretamente à escolha de um tema voltado à arte ou à cultura.

Contudo, sua reflexão pode fortalecer uma percepção cada vez mais presente na Igreja: a de que muitos dos desafios sociais possuem também uma dimensão cultural.

Nesse sentido, futuras campanhas poderiam incorporar temas relacionados à cultura do encontro, à educação para a sensibilidade, à formação estética, ao patrimônio cultural, à cultura digital, à leitura, à preservação da memória e ao papel das artes na construção da dignidade humana.

Mais do que uma campanha "sobre arte", seria uma compreensão da cultura como dimensão transversal da vida cristã e da missão da Igreja.

Uma Igreja que aprende a escutar

Talvez a maior contribuição de José Tolentino de Mendonça seja deslocar uma pergunta tradicional.

Durante muito tempo, a preocupação predominante foi saber como a Igreja poderia utilizar a cultura para transmitir sua mensagem.

Tolentino propõe outra questão: como a Igreja pode escutar aquilo que a cultura contemporânea tem a dizer sobre o ser humano, suas esperanças, suas angústias e sua busca por sentido?

Essa inversão de perspectiva representa uma das mudanças mais profundas do pensamento católico contemporâneo. Ela não relativiza a fé, mas amplia sua capacidade de diálogo.

Num mundo marcado por polarizações, crises de sentido e profundas transformações culturais, a presença de José Tolentino de Mendonça na Flip 2026 sinaliza que literatura, poesia, arte e espiritualidade continuam sendo caminhos privilegiados para compreender a condição humana. E talvez seja justamente nesse encontro entre beleza, cultura e transcendência que a Igreja encontre novas formas de anunciar o Evangelho às gerações do século XXI.

O poeta, ensaísta, sacerdote e professor José Tolentino Mendonça é um dos autores convidados do Programa Principal da 24ª edição da Flip. Participando da mesa 2 – saber de cor o silêncio, ele estará junto do brasileiro Edimilson de Almeida Pereira em uma conversa mediada por Sofia Mariutti, na quinta-feira, 23 de julho, às 10h.

Natural da Ilha da Madeira, José Tolentino tornou-se padre e poeta no mesmo ano, e dedicou-se com o mesmo afinco às duas atividades ao longo de sua carreira, recebendo inúmeras premiações por sua obra e tendo sido nomeado cardeal pelo Papa Francisco em 2019. Sua poesia se volta, com delicadeza e profundidade, para os mistérios e enigmas da experiência humana, e foi publicada em mais de uma dezena de livros.

Alguns de seus livros lançados no Brasil, todos pela editora Paulinas, são “Nenhum caminho será longo” (2013), “A mística do instante” (2016) e “Elogio da sede” (2025). Seu título mais recente, “Os enigmas singulares”, foi publicado em junho de 2026 pela editora Círculo de Poemas.

A vinda do autor tem o apoio de Camões — Instituto da Cooperação e da Língua (@camoesip) e da Embaixada de Portugal no Brasil (@embaixadadeportugalembrasilia).

A Flip acontece entre os dias 22 e 26 de julho e homenageia a poeta Orides Fontela. A programação completa já foi revelada e pode ser conferida no site oficial da Flip.

Os ingressos antecipados para paratienses estão à venda até esta quinta-feira, 25 de junho. Na sexta-feira, 26, a venda de ingressos estará aberta para o público em geral.

Acesse flip.org.br para mais informações.

Flip: o encontro da literatura com a cidade.

24ª Flip – Festa Literária Internacional de Paraty

22 a 26 de julho

A Flip é um projeto realizado pelo Ministério da Cultura e Governo Federal e pela Associação Casa Azul, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Conta com patrocínio Guapuruvu do Itaú Unibanco, da Motiva, por meio de seu Instituto, da Netflix, e patrocínio Araribá da Tókio Marine Seguradora.


Xica da Silva: O Clássico de Cacá Diegues Renasce em 4K nos Cinemas

 O cinema brasileiro vive um momento de celebração e resgate histórico. Neste mês de julho de 2026, uma das obras mais emblemáticas da nossa cinematografia retorna às salas escuras de cara nova: Xica da Silva (1976), dirigido por Cacá Diegues. O longa-metragem ganha um relançamento comercial em cópia digital totalmente remasterizada em 4K, oferecendo ao público a chance de (re)descobrir a força dessa narrativa na tela grande.

Mais do que uma sessão de cinema, assistir a essa versão é uma oportunidade de testemunhar a restauração de um patrimônio cultural indispensável.




O Impacto Histórico: Protagonismo e Subversão

Lançado originalmente em 1976, em plena ditadura militar, Xica da Silva tornou-se um fenômeno instantâneo de público, arrastando mais de 3 milhões de espectadores aos cinemas. O filme reconta a história real de Francisca da Silva de Oliveira, uma mulher escravizada que, no século XVIII, conquistou sua alforria e ascendeu ao topo da sociedade do Arraial do Tijuco (atual Diamantina, MG) ao se unir ao contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira.

O grande trunfo da obra foi romper com os padrões do audiovisual da época ao colocar uma mulher negra no centro absoluto da narrativa. Interpretada magistralmente por Zezé Motta, Xica não é retratada apenas como uma vítima do sistema colonial, mas como uma figura inteligente, sedutora e estrategista. Ela subverte a lógica da opressão e passa a ditar as regras do jogo social, mandando e desmandando na elite branca local.

Cacá Diegues utilizou a ironia, o humor, a carnavalização e o erotismo para construir uma verdadeira "fábula política". Em vez de focar exclusivamente na dor da escravidão, o filme celebra o direito ao prazer, à ostentação e à alegria como formas legítimas de resistência e sobrevivência dos oprimidos.


Por que Assistir à Versão Remasterizada em 4K?

Se o filme já é um clássico acessível em outros formatos, por que vale a pena sair de casa para assisti-lo nos cinemas em 2026? A resposta está na preservação e na experiência sensorial.

1. Excelência Visual e Sonora

O processo de restauração digital em ultra-alta definição (4K) recupera a vivacidade original da película de 35mm. Detalhes minuciosos dos figurinos de época, as cores vibrantes das festas coloniais e a fotografia exuberante ganham uma nitidez nunca antes vista nas telas modernas. Além disso, a trilha sonora icônica, composta por Jorge Ben Jor, ressoa com máxima fidelidade acústica nas salas de som imersivo.

2. A Experiência Coletiva do Cinema

Xica da Silva foi feito para a tela grande. A energia da atuação de Zezé Motta, o ritmo ágil da montagem e o calor das cenas coletivas ganham outra dimensão quando compartilhados no escurinho do cinema. É a oportunidade de vivenciar o filme com o mesmo impacto emocional que arrebatou plateias há exatamente cinquenta anos.

3. Conexão entre Gerações

Promovido por iniciativas de difusão do cinema nacional, este relançamento permite que as novas gerações de cinéfilos tenham contato direto com a história viva do nosso país. Discutir raça, gênero e poder no Brasil de 2026 a partir de um filme de 1976 mostra o quão atemporal e necessária permanece a obra de Cacá Diegues.


Um Encontro Marcado com a História

Xica da Silva em 4K é um manifesto de que o cinema brasileiro tem passado, presente e futuro. É um convite para celebrar a força de Zezé Motta, a genialidade de Cacá Diegues e a riqueza cultural de uma personagem que se recusou a aceitar o lugar que a história oficial tentou lhe impor. Garanta o seu ingresso e prestigie o nosso cinema na sua melhor forma!


Abaixo, para assistir depois de assistir filme:




🎸 De Plebe Rude ao Orçamento Secreto: O Dinheiro Público na Cultura e a Resposta da Lei Aldir Blanc

 

Plebe Rude, Herbert Vianna, Jaques Morelenbaum - Até Quando Esperar – 40 Anos

Não é nossa culpa

Nascemos já com uma bênção

Mas isso não é desculpa

Pela má distribuição

Com tanta riqueza por aí

Onde é que está? Cadê sua fração?

Com tanta riqueza por aí

Onde é que está? Cadê sua fração?

Até quando esperar?

E cadê a esmola

Que nós damos sem perceber?

Que aquele abençoado

Poderia ter sido você

Com tanta riqueza por aí

Onde é que está? Cadê sua fração?

Com tanta riqueza por aí

Onde é que está? Cadê sua fração?

Até quando esperar a plebe ajoelhar

Esperando a ajuda de Deus?

Até quando esperar a plebe ajoelhar

Esperando a ajuda de Deus

Posso

Vigiar teu carro?

Te pedir trocados?

Engraxar seus sapatos?

Posso?

Vigiar teu carro?

Te pedir trocados?

Engraxar seus sapatos?

Sei, não é nossa culpa

Nascemos já com uma bênção

Mas isso não é desculpa

Pela má distribuição

Tanta riqueza por aí

Onde é que está? Cadê sua fração?

Até quando esperar a plebe ajoelhar?

Esperando a ajuda de Deus

Até quando esperar a plebe ajoelhar?

Esperando a ajuda do divino Deus

Fonte: Musixmatch

Compositores: Carlos Augusto Woortmann / Andre Philippe De Seabra / Andre Pinheiro Machado Mueller




Em 1985, em pleno processo de redemocratização do Brasil, a banda de punk rock Plebe Rude lançava um dos maiores hinos de protesto da música nacional: "Até Quando Esperar". Com versos cortantes como "Tanta riqueza por aí / Onde é que está? Cadê sua fração?" e "Mas isso não é desculpa pela má distribuição", a canção escancarava a ferida da desigualdade estrutural do país.

Quatro décadas depois, esse manifesto sonoro continua assustadoramente atual. O diálogo entre a arte da Plebe Rude, as investigações do jornalismo independente e a criação de novas políticas públicas revela que a disputa pelo orçamento da cultura ainda é um dos campos de batalha mais intensos do Brasil contemporâneo.


O Banquete dos Megashows: O Dossiê "Farras" e a Má Distribuição

O portal De Olho nos Ruralistas publicou uma investigação contundente: o Dossiê Farras. O relatório revelou um cenário alarmante onde apenas 40 artistas de grande apelo comercial (majoritariamente ligados ao circuito do agronegócio e das feiras de rodeio) concentraram mais de R$ 3 bilhões em verbas municipais e estaduais de cultura.

Enquanto municípios inteiros decretavam estado de calamidade pública ou sofriam com a falta de saneamento básico e postos de saúde, prefeituras injetavam cachês milionários em apresentações únicas. A "má distribuição" denunciada pela Plebe Rude ganhou números, gráficos e nomes próprios. O dinheiro que deveria irrigar a identidade e a subsistência de comunidades locais acabou capturado por oligopólios do entretenimento corporativo.


O Combustível do Sistema: Orçamento Secreto e Emendas Pix

Como essa engrenagem bilionária se sustenta? A resposta está nas mutações do orçamento federal. Nos últimos anos, mecanismos como as Emendas de Relator (o Orçamento Secreto) e as Emendas Pix (Transferências Especiais) transformaram a forma como o dinheiro chega aos municípios.

  • Falta de Rastreabilidade: Nas "Emendas Pix", o recurso federal cai diretamente na conta corrente da prefeitura. Sem a necessidade de aprovar um projeto técnico prévio em ministérios, o dinheiro perde a destinação específica.
  • O Atalho da Inexigibilidade: Com o caixa cheio, prefeitos utilizam brechas da Lei de Licitações (alegando a "inviabilidade de competição") para contratar megashows com empresários exclusivos por dispensa. Sem concorrência, os preços inflam e o dinheiro público vira plataforma de palanque político em anos eleitorais.

É o retrato perfeito do verso: "E cadê a esmola que nós damos sem perceber?" — o imposto do cidadão transformado em festa clientelista.


A Resposta Estrutural: Como a Lei Aldir Blanc (PNAB) Blinda a Cultura

É contra essa lógica de "esmola" e apadrinhamento político que surge a Política Nacional Aldir Blanca de Fomento à Cultura . Instituída como uma política permanente e descentralizada, a Lei Aldir Blanc foi desenhada justamente para que a "plebe" não precise mais se ajoelhar para acessar o direito constitucional à cultura.

Ao contrário do fluxo livre e obscuro das emendas parlamentares, a Lei Aldir Blanc possui travas institucionais rígidas que impedem o financiamento de megashows corporativos:

1. Verba Carimbada (O PAAR)

Os municípios não podem gastar o dinheiro da Lei Aldir Blanc  como querem. Eles devem submeter um Plano  de Aplicação dos Recursos (PAR) ao Ministério da Cultura. Se o recurso foi destinado a pontos de cultura ou periferias, ele é blindado e não pode pagar o cachê de uma grande estrela sertaneja.

2. Obrigatoriedade de Editais Públicos

A lei proíbe a contratação direta para a execução de suas metas. O dinheiro é distribuído obrigatoriamente por Chamamentos Públicos, Prêmios e Editais. Qualquer trabalhador da cultura precisa submeter um projeto, que será avaliado por comissões técnicas independentes, pulverizando os recursos na base.

3. Tetos e Cotas de Inclusão

Os editais limitam o valor máximo por projeto, inviabilizando cifras milionárias. Além disso, as cotas obrigatórias (para negros, indígenas e territórios periféricos) garantem que a verba chegue a quem constrói a cultura viva no dia a dia, e não aos mesmos oligopólios de sempre.

4. Controle Social e Conselhos de Cultura

O prefeito não decide sozinho. A Lei Aldir Blanc  exige a realização de escutas públicas com a sociedade civil e a validação dos Conselhos Municipais de Cultura, tirando o caráter secreto da gestão do dinheiro.


Conclusão: Da Resistência à Gestão

A denúncia da Plebe Rude em 1985 ecoa no jornalismo investigativo do Dossiê Farras, mostrando que a estrutura coronelista de desvio de prioridades públicas ainda resiste. No entanto, ferramentas democráticas como a Lei Aldir Blanc provam que é possível desenhar um Estado onde a cultura seja tratada como direito e soberania, e não como barganha política.

A lição que fica é clara: para que a má distribuição acabe, o orçamento não pode ser secreto. Ele precisa ser público, transparente, disputado e, acima de tudo, popular.


💬 E na sua cidade? Você tem acompanhado como os recursos da Lei Aldir Blanc estão sendo aplicados pelos editais locais? Deixe seu comentário abaixo e vamos debater!

Se você gostou deste artigo e quer acompanhar mais debates sobre políticas públicas e o ecossistema cultural do Brasil, informe-nos quais outros temas ou análises você gostaria de ver por aqui:

  • O papel dos Pontos de Cultura na resistência comunitária.
  • Como fiscalizar o orçamento do seu município através dos portais de transparência.

 


quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Voz do Público: O que Zezito de Oliveira, editor do blog da cultura, pensa sobre o Cinema do Centro (Sala Walmir Almeida) e a Cultura em Aracaju

Participando da entrega da solenidade de abertura do Festiva Curta-SE em Aracaju, representando a equipe de produção do curta Flores do Jardim. - 2016

No coração de Aracaju, o Cinema do Centro (Sala Walmir Almeida) se consolidou como um dos principais pontos de encontro para os amantes da sétima arte. Mas o que pensa o público frequentador? Para entender melhor essa relação, respondi agora há pouco uma pesquisa de avaliação qualitativa com os espectadores.

Um Frequentador Assíduo

Sou professor e apaixonado por cinema. Conheço o Cinema do Centro desde a sua inauguração e sou presença constante na sala. "Mais de 5 vezes", no mínimo, afirmei ao responder à pergunta sobre a frequência. Minha intimidade com o espaço transparece não apenas nos números, mas na riqueza de detalhes sobre a programação que acompanho de perto.

Programação de Qualidade

Quando classifiquei a programação do cinema como "Ótima", demonstrei minha satisfação com a curadoria oferecida. E não é para menos: basta olhar minha lista de filmes assistidos, que revela um verdadeiro tour pela diversidade cinematográfica.

Entre os títulos dos quais me recordo, destaco:

Anatomia do Ódio

Primavera

São Paulo Sociedade Anônima

Marvada Carne

Iracema - Uma Transa Amazônica

Evangelho da Revolução

Nouvelle Vague

O Agente Secreto

Hora do Recreio

Betty Blue

Paris, Texas

Légua Tirana

Curta-metragem Benedito

Uma seleção que transita entre o cinema brasileiro clássico e contemporâneo, o cinema europeu e as produções independentes. Isso demonstra que a Sala Walmir Almeida tem conseguido atender a um público que busca conteúdo de qualidade e diversidade de narrativas.

O Amor pelo Cinema Brasileiro

Quando questionado sobre quantos filmes brasileiros assisti, fui categórico: "Adoro filmes brasileiros". Essa minha declaração reforça a importância de manter uma programação que valorize a produção nacional, algo que o Cinema do Centro tem feito com competência.

No entanto, fiz uma ressalva importante sobre os filmes estrangeiros: "Faltam mais clássicos". Este pedido revela um desejo legítimo que tenho por um resgate do cinema de outras épocas.

Infraestrutura e Gestão

Sobre a gestão do Cinema do Centro (Sala Walmir Almeida), avalio como "Boa". Quanto à infraestrutura da sala, "não tenho do que reclamar". Um voto de confiança importante para a equipe que mantém o espaço funcionando.

E o Que Pode Melhorar?

Um ponto que poderia aumentar a frequência ao equipamento cultural:

Bombonière – A melhoria do serviço de lanchonete poderia tornar a experiência mais completa e atraente.

O Chamado à Gestão Pública

Com conhecimento de causa, faço um apelo direto à prefeita de Aracaju, Emília Corrêa:

"A prefeita de Aracaju, Emília Corrêa (PL), que colocou no seu programa de campanha o compromisso em aproximar estudantes da rede municipal de Aracaju com a arte e com a cultura visando fortalecer a educação integral, bem que poderia autorizar a Prefeitura de Aracaju a custear duas sessões semanais a fim de encher a sala Walmir Almeida com estudantes da rede municipal para assistir filmes como Légua Tirana, segundo longa-metragem baseado na vida e obra de Luiz Gonzaga com estreia prevista para agosto." (publicado no Blog da Cultura em 29 de julho de 2025)

A sugestão é clara e estratégica: utilizar o potencial do cinema como ferramenta educacional, cumprindo promessas de campanha e fortalecendo a educação integral através da cultura.

O Sonho de Uma Aracaju Cultural

Para fechar as respostas ao formulário, compartilho meu desejo para a cidade:

"Eu desejo que Aracaju se torne um polo regional exemplar em matéria de política cultural que considere a diversidade, a participação social, a intersetorialidade da cultura com as áreas da educação, da saúde, dos direitos humanos, da segurança, do turismo, da economia criativa. Enfim, de uma cidade tão boa para se viver, que possa gerar um orgulho tão grande em nós aracajuanos que ninguém queira sair daqui, em especial os jovens que podem ficar aqui e sobreviver da cadeia produtiva da cultura."

Essas palavras resumem o sentimento de "um homem latino-aracajuano sem parentes importantes e dinheiro no banco" que acredita no poder transformador da cultura. O sentimento de quem não quer apenas um cinema de qualidade, mas que sonha com uma cidade onde a cultura seja parte estruturante do desenvolvimento urbano, gerando oportunidades, fortalecendo a identidade local e criando condições para que os jovens possam construir seus projetos de vida sem precisar deixar sua terra.

Conclusão

Ao fim e ao cabo, mostro que o Cinema do Centro (Sala Walmir Almeida) cumpre seu papel como equipamento cultural importante para Aracaju. Sua programação diversificada, a boa gestão e a infraestrutura adequada são reconhecidas pelo público, não apenas por mim.

O meu sonho é o sonho de muitos aracajuanos: uma cidade que coloca a cultura no centro de seu projeto de desenvolvimento, gerando orgulho, pertencimento e oportunidades. Que este artigo, que organiza em formato dissertativo as minhas respostas ao questionário de avaliação, inspire gestores e a sociedade a fortalecer cada vez mais os espaços culturais da cidade.

A canção abaixo veio a mente quando respondia as perguntas finais da pesquisa:




Como é bom conectar música e literatura ao debate politico quando é para elevar o nível. O nome dele é Valdemar e a Quadrilha.

 











Sugerimos assistir o vídeo acima antes de ler a transcrição abaixo

O Amor Próprio, o Lucro e a Política: Uma Leitura de "Quadrilha" de Drummond

A música popular brasileira e a poesia sempre foram terrenos férteis para a discussão política, ainda que de forma metafórica. Recentemente, em uma análise do poema "Quadrilha", de Carlos Drummond de Andrade, uma leitura provocativa emergiu, conectando a obra-prima do modernismo à figura da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e ao atual cenário político.

O poema de Drummond é, em sua essência, uma radiografia do desencontro amoroso e da solidão. A famosa estrutura cíclica — João amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili, que não amava ninguém — desenha um retrato cruel da condição humana, onde o afeto é quase sempre unilateral e fadado ao fracasso. Os destinos dos personagens são trágicos ou melancólicos: João vai para os Estados Unidos, Tereza recolhe-se ao convento, Raimundo morre em um desastre, Maria fica para titia e Joaquim suicida-se.

No centro desta dança maldita, encontra-se Lili. Ela é a exceção que confirma a regra do sofrimento amoroso. Enquanto os outros se entregam a paixões impossíveis, Lili "não amava ninguém". Seu único amor era ela mesma. E é justamente por essa postura egoísta e calculista que Lili é a única personagem que obtém sucesso no "script" social da época: ela casa.

A Virada Política na Interpretação

É neste ponto que a análise contemporânea faz um movimento ousado. O autor da leitura em questão traça um paralelo direto entre Lili e Michelle Bolsonaro, afirmando que, "com boa vontade, já se pensa em Michelle" ao descrever a personagem. A justificativa para essa associação reside na figura do marido de Lili: J. Pinto Fernandes.

O nome do personagem, que sequer havia aparecido antes no poema, é o pivô da interpretação política. J. Pinto Fernandes não soa como um nome próprio, mas como uma razão social, uma firma de contabilidade ou uma entidade corporativa. Ele é a personificação do "partido do lucro" e do interesse material.

Ao casar-se com alguém que representa essa lógica mercantil, Lili — que só amava a si mesma — celebra uma união transacional, desprovida de qualquer romantismo. Ela sucede onde os outros falham porque escolhe o pragmatismo e o amor-próprio em detrimento do amor idealizado.

O Paralelo com Valdemar Costa Neto

Para reforçar a tese de que o poema de Drummond antecipa um fenômeno político atual, o analista compara J. Pinto Fernandes a Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal. A analogia sugere que, assim como o marido de Lili, o nome "Valdemar Costa Neto" também carrega um peso institucional que remete a "uma empresa" ou a um "partido do lucro".

Nesta leitura, a figura de Lili (associada a Michelle) que, casando-se com o "interesse" (representado por J. Pinto Fernandes/Valdemar), obtém êxito e visibilidade, enquanto os outros personagens, que se entregaram a amores impossíveis e idealizados, sucumbem ao fracasso e à tragédia.

A Atualidade do Poema

Esta interpretação demonstra a extraordinária atualidade de Drummond. "Quadrilha", um poema de 1930, continua a servir como um espelho para as relações humanas e, por extensão, para as dinâmicas de poder. Ao substituirmos o amor romântico pelo interesse político e a paixão pela ambição, vemos o mesmo ciclo de desencantos e sucessos.

A análise nos convida a refletir: em um mundo onde o afeto dá lugar à transação e o idealismo ao pragmatismo, quem realmente "casa" e prospera? A poesia de Drummond, ao que parece, já nos deu a resposta.


Abaixo uma sugestão do editor do blog, para ajudar a pensar o Brasil que Queremos...



terça-feira, 14 de julho de 2026

Do ‘Game of Thrones’ bolsonarista ao ‘Conto da Aia’

 PROIBIÇÃO DO VOTO FEMININO

Quando uma mulher disputa poder, tenta-se desqualificar sua racionalidade; quando muitas votam contra a extrema-direita, tenta-se desqualificar o próprio voto feminino.

Beto Vasques

13 de julho de 2026
A fala de Paulo Figueiredo, segundo a qual mulheres “votam mal”, sobretudo as solteiras, não deve ser tratada como mais uma grosseria de um influenciador em busca de engajamento. Seria confortável reduzi-la a uma bizarrice, uma provocação machista ou uma excrescência isolada do submundo digital. O problema é mais grave. Trata-se da expressão local de uma corrente internacional da ultradireita que voltou a mirar direitos civis das mulheres, e não só o sufrágio.

A obscenidade contemporânea raramente chega de uma vez. Ela se naturaliza por aproximações sucessivas. Primeiro aparece como piada. Depois, como provocação. Em seguida, como “debate”. Logo surge alguém dizendo que é apenas uma hipótese, um “dado estatístico”, uma reflexão incômoda, uma tese contraintuitiva ou o legítimo direito à liberdade de expressão.  Quando se percebe, o indizível já foi dito, o absurdo já entrou na agenda e a barbárie já encontrou seus porta-vozes.

Foi assim com a curvatura da Terra e com a higidez das urnas eletrônicas, atacadas sem provas durante anos. Foi assim com as vacinas em plena pandemia e, recentemente, com a tentativa de normalizar a ingerência norte-americana no Brasil. De tema em tema, a extrema-direita testa os limites do tolerável. O objetivo não é convencer todos de imediato, mas deslocar a fronteira do aceitável, normalizar a obscenidade civilizatória e permitir que seja desejada a céu aberto por uma legião medievalesca.

Agora, o alvo é o voto feminino.
O Boletim Especial do Instituto Democracia em Xeque, de 3 de julho, destacou que a controvérsia ganhou tração entre 30 de junho e 1º de julho, exatamente quando se aprofundava a crise entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. Foram mais de 23 mil menções ao termo “voto feminino”, com pico no dia 30. Na base classificada pelo DX, o maior cluster do debate, com 38% dos posts, foi justamente o da frase “mulheres votam mal”. O segundo, com 30%, enquadrou o voto feminino como direito democrático histórico e inegociável.

O dado mais revelador, porém, não é apenas quantitativo. É político. O relatório aponta que Figueiredo uniu duas engrenagens que vinham operando em paralelo: de um lado, a manosfera red pill, com sua hostilidade organizada às mulheres; de outro, o gabinete do ódio bolsonarista, hoje em grande medida fora do país, alimentado pelos enquadramentos originados pelo ecossistema MAGA norte-americano. A misoginia deixou de ser apenas uma expressão difusa de ressentimento masculino e passou a funcionar, primeiro, como instrumento e, agora, como motor da disputa eleitoral.

A fala apareceu no meio do Game of Thrones bolsonarista: a disputa pelo espólio político de Jair Bolsonaro entre o primogênito e a ex-primeira-dama. O que começou como ataque a Michelle – acusada de não entender de política – rapidamente transbordou para as mulheres como sujeito político. A lógica é antiga: quando uma mulher disputa poder, tenta-se desqualificar sua racionalidade; quando muitas votam contra a extrema-direita, tenta-se desqualificar o próprio voto feminino.

Atrizes marcham contra ditadura militar em 1968 (Foto: Reprodução/O Globo)
Eis o ponto: quando diferentes correntes da direita radical começam a tratar o voto individual como problema, o alvo não é apenas a mulher. São os marcos democráticos e civilizatórios. A justificativa muda conforme a conveniência. Beneficiários de programas sociais votariam mal porque seriam “comprados”. Trabalhadores pobres votariam mal porque seriam dependentes. Mulheres solteiras votariam mal porque teriam sido capturadas pelo feminismo. Pessoas trans, imigrantes, jovens, pobres, negros, indígenas, moradores de periferia: sempre haverá um grupo considerado incapaz de votar corretamente quando não vota como a extrema-direita quer.

O voto só é legítimo quando confirma a hierarquia desejada. A ideia de “voto da família” reveste-se de pseudo-coerência e harmonia doméstica, mas não é mais que subordinação política. Parece defender valores, mas elimina autonomia. Finge celebrar a família, mas consagra o mando masculino. O voto deixa de ser expressão da cidadania individual e passa a ser extensão da autoridade patriarcal.

Não por acaso, a reação de Flávio foi tardia e ambígua. Como pré-candidato, ele sabe que não vence eleição hostilizando mulheres. Como herdeiro do bolsonarismo, sabe que parte relevante de seu ecossistema digital se alimenta justamente dessa hostilidade. Precisa repudiar Figueiredo, não sem elogiar “tudo que está fazendo por nós” nem romper com o mundo que o produziu. Precisa acenar ao eleitorado feminino sem desautorizar de fato a máquina que o sustenta. Precisa dizer que “a mulherada manda”, enquanto seus aliados difundem teses que gostariam de devolver as mulheres ao silêncio político da época das cavernas.

A crise expõe uma contradição estrutural. O bolsonarismo depende das mulheres para vencer, mas parte de sua vanguarda digital não tolera a autonomia feminina quando ela contraria seus interesses eleitorais. As mulheres são bem-vindas como eleitorado cativo, como escada moral, como símbolo de família. Não como sujeitos autônomos.

A comparação com o Conto da Aia é precisa. O mundo de Gilead não começa com mulheres de vermelho nas ruas e direitos extintos de um dia para o outro. Inicia antes, quando a sociedade aceita ouvir, em tom de brincadeira ou cálculo eleitoral, que talvez algumas pessoas não devam decidir por si mesmas.

O episódio Figueiredo é mais um desses testes. Não o primeiro. Certa e infelizmente, não será o último.

A defesa do voto feminino não pode ser tratada como pauta identitária lateral. Trata-se de defesa elementar da democracia. O sufrágio universal é conquista histórica contra todos os que sempre desejaram restringir a cidadania aos que consideram obedientes, racionais, proprietários ou “aptos”.

A cada nova barbaridade, alguém dirá que é exagero levar a sério. Que é só provocação. Que é só internet. Que é o preço da sacrossanta liberdade de expressão. A experiência histórica ensina o contrário: democracias começam a adoecer quando passam a tratar ataques a direitos fundamentais como mera excentricidade retórica.

Entre o Game of Thrones bolsonarista e o Conto da Aia, há um fio comum: a disputa por quem manda. Na família, no partido, no corpo das mulheres e, agora, no voto. A resposta democrática precisa ser simples, frontal e inegociável: nenhuma estatística “mandrake”, nenhum “influenciador” recalcado e nenhum projeto de “voto familiar” tem o direito de transformar metade da população em cidadania tutelada.

Beto Vasques é Diretor de Relações Institucionais do Instituto Democracia em Xeque. Professor de Estratégia e Comunicação Política e coordenador do projeto de implantação do Laboratório de Opinião Pública da FESP    

Michele Bolsonaro e o Paradoxo de Serena Joy: Quando a Ascensão Feminina Serve ao Patriarcado Estrutural

A minha resposta abaixo, a partir de conversa com uma jovem feminista, anterior  a leitura do texto acima, coincidentemente  minutos antes de termos acesso ao mesmo,  analisa o paradoxo da possível ascensão política de Michele Bolsonaro. Em vez de representar um avanço feminino, seu movimento se alinha ao papel de Serena Joy em O Conto da Aia: ela é a exceção que legitima a regra. Ao disputar o poder internamente (lógica do Game of Thrones), ela não subverte o patriarcado, mas o fortalece, servindo como escudo para um projeto conservador que, na prática, restringe a autonomia feminina. Sua vitória individual cimentaria, paradoxalmente, os alicerces da opressão estrutural que o movimento defende.

 1. O "Game of Thrones" com uma nova jogadora (Michele vs. os Herdeiros)
No enredo da disputa interna do bolsonarismo, Michele deixou de ser a "rainha consorte" decorativa para se tornar uma jogadora ativa. O conflito gerado por ela no seio do clã (especialmente contra os filhos Carlos e Eduardo) não é um mero "rachismo" familiar; é uma luta direta pelo controle do capital político do patriarca.

Na lógica de Game of Thrones, ela está disputando o "Trono de Ferro" do movimento, recusando-se a ser apenas uma regente enquanto os herdeiros crescem. Ela quer um pedaço do espólio e, ao lançar sua pré-candidatura ao Senado em 2026, ela institucionaliza essa disputa. É a guerra civil dentro da casa.

2. O Paradoxo de Serena Joy: A mulher que fortalece o próprio cárcere
Agora, entramos no paradoxo do Conto da Aia. Na série/obra de Margaret Atwood, Serena Joy é a arquiteta intelectual de Gilead. Antes do regime, ela era uma ativista que pregava a volta da mulher ao lar e a submissão ao marido. Quando o regime se instaura, ela se vê presa na própria gaiola que ajudou a construir.

O paradoxo de Serena é:

Ela tem poder de influência (sobre o Comandante, sobre os guardas, sobre a própria June).

Mas ela não tem poder institucional próprio (não pode ler, não pode ter propriedade, é reduzida ao papel de esposa estéril e vigiada).

Ela usa seu status para oprimir outras mulheres, acreditando que isso a coloca "ao lado dos vencedores", mas isso só aprofunda a estrutura que a subjuga.

3. Como isso se aplica a Michele Bolsonaro e à política brasileira atual?
Se Michele ocupar cargos de maior poder (como uma vaga no Senado) dentro deste projeto político, a vitória não será do feminismo, mas do patriarcado travestido de empoderamento individual. Eis o paradoxo:

Ela é a exceção que confirma a regra: A ascensão dela só é tolerada porque ela é a "esposa do líder". Ela não rompe com o teto de vidro do bolsonarismo; ela apenas prova que, dentro daquele ecossistema, a única mulher que pode ter poder é aquela que serve como extensão da vontade do homem (o marido).

Ela legitima a opressão estrutural: Ao disputar o poder usando a bandeira conservadora, defendendo pautas que restringem direitos reprodutivos e a laicidade do Estado, Michele está atuando como Serena Joy. Ela está "normalizando" a misoginia de Gilead. Se ela vencer, o discurso do movimento será: "Vejam, nós não somos machistas, temos uma mulher forte na liderança!".

O contributo à vitória do patriarcado: Esse discurso serve como um escudo perfeito para desarmar as críticas externas. Enquanto a sociedade vê uma mulher ocupando espaço, as bases do movimento (homens e mulheres tradicionais) continuam implementando políticas que, na prática, mantêm a maioria das mulheres subjugadas. Ela se torna a "prova viva" de que o sistema não é opressor, exatamente como Serena usava sua imagem nos eventos de Gilead.

4. A articulação final entre as duas séries
Aqui está a costura perfeita entre os dois enredos aplicados à realidade:

O "Game of Thrones" bolsonarista (disputa de Michele com os filhos) é a tática de curto prazo. É a luta para ver quem fica com os espólios e as candidaturas.

O "Conto da Aia" é a estratégia de longo prazo. Se Michele vencer essa disputa interna e chegar ao poder, ela não estará subvertendo a lógica de Gilead; estará institucionalizando-a. Ela será a Serena Joy brasileira: uma mulher que alcançou projeção nacional exatamente por defender um projeto que, se plenamente realizado, a reduziria (e reduziria todas as outras) a um papel subalterno.

Conclusão: Na política brasileira atual, o movimento de Michele não é um sinal de abertura democrática ou avanço feminino. É, como você bem colocou, um contributo paradoxal: ao chutar a escada do "Game of Thrones" para subir, ela está, ao mesmo tempo, cimentando os alicerces do "Conto da Aia" para as demais. A vitória dela é a vitória da exceção que protege a regra, garantindo que o patriarcado continue vitorioso exatamente porque usa uma mulher como sua principal fiadora.

Zezito de Oliveira com participação de Iasmin Feitosa



O bode expiatório bilionário: por que o dossiê “Farras” desmonta a narrativa contra a Lei Rouanet

Enquanto uma parte da imprensa  e parte do legislativo formada por políticos da direita, aqui incluindo “centrão” e os extremistas, miram na renúncia fiscal da Lei Rouanet como o grande vilão do orçamento cultural, um levantamento inédito aponta que o dinheiro público está sendo queimado em um palco muito maior, mais concentrado e com muito menos transparência: o dos shows financiados diretamente por prefeituras e governos estaduais.

Por anos, a Lei Rouanet (Lei Federal de Incentivo à Cultura) foi colocada na berlinda como o símbolo máximo do “desperdício” do dinheiro público. Piadas em redes sociais, projetos de lei para sua extinção e ataques recorrentes de formadores de opinião fizeram da renúncia fiscal um espantalho conveniente. No entanto, o dossiê “Farras”, publicado em julho de 2026 pelo Observatório De Olho nos Ruralistas, vem para recolocar a lupa no lugar certo — e expor um incômodo silêncio sobre contratos diretos que drenam os cofres públicos em proporções gigantescas.

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Os números que não podem ser ignorados

O coração do dossiê é um levantamento de impacto: desde janeiro de 2024, apenas 40 artistas (ou, mais precisamente, suas produtoras e escritórios de representação) embolsaram, juntos, a cifra estratosférica de R$ 3,08 bilhões oriundos de contratos públicos firmados com Estados e municípios.

Para que o leitor tenha uma dimensão real do que isso representa, o relatório faz um recorte comparativo direto com a Lei Rouanet. Em 2025, a lei de incentivo atingiu seu recorde histórico de captação, com cerca de R$ 3,41 bilhões viabilizados para projetos culturais em todo o país.

Ou seja, o montante gasto com esse grupo seleto de artistas em shows e megas eventos é praticamente idêntico ao valor total captado por toda a diversidade cultural brasileira via renúncia fiscal no mesmo período. A diferença, no entanto, não está apenas nos números, mas na natureza do gasto.

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O ralo direto: quando o dinheiro sai sem escalas

A primeira grande distinção apontada pelo dossiê “Farras” está na origem e no fluxo do recurso.

1. Saída imediata do caixa: Enquanto os recursos da Lei Rouanet envolvem renúncia fiscal — ou seja, o dinheiro que a União deixaria de arrecadar com impostos se a empresa não patrocinasse o projeto —, os R$ 3,08 bilhões mapeados no relatório saem diretamente e de forma líquida do Tesouro de Estados e municípios. É dinheiro que sai do orçamento da saúde, da educação e da infraestrutura para pagar cachês, estruturas de palco, equipes técnicas e divulgação de shows.

2. Sem contrapartida obrigatória de incentivo: Na Rouanet, o projeto precisa passar por análise, aprovação no Ministério da Cultura e, muitas vezes, exige contrapartidas sociais ou culturais. Nos contratos diretos de shows, a lógica é muitas vezes a da prestação de serviço pura e simples, sem a exigência de legado cultural ou descentralização.

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Concentração versus diversidade: o verdadeiro cerne da questão

A segunda revelação do dossiê escancara o que os críticos da Rouanet raramente mencionam: a pulverização dos recursos.

Pela Lei Rouanet, o dinheiro é distribuído entre milhares de projetos em todas as regiões do país, abrangendo teatro, dança, circo, artes visuais, cinema de autor, música erudita, patrimônio histórico e literatura. É um ecossistema complexo e fragmentado.

Nos contratos diretos, a lógica é inversa. O dossiê “Farras” revela que quase a totalidade dos R$ 3,08 bilhões foi destinada a megashows musicais, concentrados em poucos gêneros dominantes do mercado fonográfico, frequentemente realizados em grandes centros urbanos ou em festas de aniversário de cidades.

Em outras palavras: enquanto o debate público ataca a Rouanet supostamente por financiar “produções de elite” (o que já é uma meia-verdade), os olhos se fecham para um fluxo bilionário que financia exclusivamente o mainstream musical, sem qualquer contrapartida de fomento à cadeia cultural diversificada.

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Por que a narrativa desvia o foco?

Se o montante é tão expressivo e o critério de gasto é tão questionável, por que a Lei Rouanet continua sendo o alvo preferencial? O dossiê sugere que a resposta está na conveniência política e midiática.

Atacar a Lei Rouanet é um ato de baixo risco político. Ela é facilmente associada a uma suposta “casta cultural” de São Paulo e Rio de Janeiro, virando um símbolo fácil de ser combatido em discursos populistas. Já os contratos milionários de shows envolvem agentes poderosos: prefeitos em ano eleitoral, governadores em busca de popularidade imediata e grandes empresários do entretenimento que têm forte capilaridade nos parlamentos estaduais e na Câmara dos Deputados.

O relatório do De Olho nos Ruralistas acende um alerta: a ausência de um debate rigoroso sobre esses gastos diretos permite que o dinheiro público seja usado como moeda de troca eleitoral e como vitrine pessoal de gestores, sem passar pelo crivo dos mecanismos de transparência e diversidade que a Lei Rouanet (ainda que imperfeitamente) exige.

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Conclusão: é hora de virar a chave

O dossiê “Farras” não defende a extinção ou a manutenção cega da Lei Rouanet; ele propõe, na verdade, um reposicionamento do debate. Se a preocupação da sociedade é com o mau uso de verbas públicas, o foco de investigação, controle e indignação popular precisa migrar urgentemente.

Enquanto uma parte da imprensa da imprensa tradicional  e os politicos hipócritas  continuarem caçando o "vilão" errado — criminalizando o patrocínio a um filme ou a uma peça de teatro —, o verdadeiro rombo continuará escorrendo pelos bastidores das grandes arenas musicais, impulsionado por contratos diretos que privilegiam um punhado de artistas bilionários em detrimento de toda a cadeia produtiva da cultura brasileira.

Os dados estão na mesa. Resta saber se a sociedade e o Tribunal de Contas da União (TCU) e os Tribunais de Contas dos Estados (TCEs) terão coragem de apontar o holofote para o palco certo. Afinal, como bem resume o dossiê, não é a lei que está doente; é o sistema de financiamento paralelo, opaco e concentrador, que insiste em fazer shows enquanto a música ou de forma mais ampla a cultura diversa, fica sem palco e sem público.



P.S.: 1 -  A contradição do espectro ideológico ou "fisiológico" de onde surgem as criticas a Lei Rouanet por um viés reacionário e inconsequente.

Prefeituras governadas por partidos de direita são responsáveis pela maior parte dos gastos públicos com shows. É o que indica o relatório Farras, publicado em 1º de julho, que analisou cerca de 20 mil contratos firmados em todo o país.

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Os dados apresentados pelo pesquisador do De Olho nos Ruralistas, Bruno Bassi, no programa Manhã Brasil, indicam que, em 2025, 72% dos recursos destinados a apresentações musicais estavam concentrados em municípios administrados por partidos de direita — considerando, nesse espectro, o Centrão e a extrema direita. Entre os partidos de centro-esquerda, que respondem por 28% desses gastos, Bassi destaca o PSB como o partido que mais concentrou despesas naquele ano.

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Aracaju está no topo nacional de gastos com grandes shows. Dossiê aponta conexões de cachês milionários com poder político