sábado, 3 de outubro de 2026

E se os hermanos pudessem votar no Brasil?

 Quando um argentino, colombiano ou outro latino-americano diz que gostaria de votar numa eleição brasileira, o que ele está dizendo sobre o Brasil — e sobre a própria América Latina?


Por que argentinos, colombianos, chilenos e outros latino-americanos, que não possuem sequer o direito de votar nas eleições brasileiras, estão acompanhando e, em alguns casos, manifestando publicamente apoio à candidatura de Lula? O que existe no Brasil que faz com que uma eleição nacional desperte interesse, identificação e até desejo de participação entre pessoas que vivem além das nossas fronteiras? E o que esse movimento pode nos dizer sobre nossas formas de pertencimento e sobre a maneira como construímos, muitas vezes sem perceber, uma história comum neste continente?

Foi a partir dessas perguntas que comecei a prestar mais atenção a algumas manifestações que vêm circulando nas redes sociais latino-americanas nestes dias de eleição brasileira, especialmente depois que uma reportagem da Folha de S.Paulo reuniu casos de argentinos e colombianos que expressaram publicamente sua simpatia por Lula. Uma delas me chamou particularmente a atenção: o argentino Lucas Tresca publicou um vídeo, em tom bem-humorado, dizendo que estava pensando em como votar em Lula tendo documento argentino.

A brincadeira poderia ser apenas mais uma entre tantas que circulam diariamente pelas redes, mas ganha outra dimensão quando percebemos que aquilo que está sendo compartilhado não é somente uma preferência eleitoral. Existe ali uma identificação construída por referências políticas, culturais e históricas que atravessam a fronteira e encontram eco em alguém que vive outra realidade nacional.

Costumamos pensar cultura como aquilo que produzimos nos teatros, cinemas, museus, bibliotecas, centros culturais, escolas, universidades, festas populares, terreiros, comunidades e espaços de criação. Tudo isso é cultura, evidentemente, mas ela também está na maneira como uma sociedade constrói seus símbolos, preserva suas memórias, interpreta seu passado, imagina seu futuro e reconhece no outro alguma coisa de si mesma.

É por isso que uma eleição pode adquirir uma dimensão que ultrapassa a disputa entre candidatos. As escolhas políticas carregam visões de mundo, valores, memórias e projetos de sociedade que circulam por diferentes linguagens e atravessam fronteiras.

O hermano que aparece na tela do celular

Lucas Tresca é argentino e ator, e seu vídeo ganhou repercussão justamente porque transforma uma impossibilidade jurídica em uma espécie de brincadeira política: como votar em Lula se não tenho documento brasileiro? Por trás do humor, entretanto, aparece uma preocupação relacionada ao cenário político latino-americano e às disputas ideológicas que atravessam diferentes países da região.

O mais interessante talvez esteja na forma como essa manifestação acontece. Não estamos diante de um documento partidário, de uma resolução diplomática ou de um pronunciamento oficial. Estamos diante de um artista que utiliza uma linguagem cotidiana, própria das redes sociais, para falar de política e estabelecer uma comunicação com pessoas que vivem em outro país.

Durante muito tempo, nossa experiência latino-americana foi construída através da música, da literatura, do cinema, do futebol, das telenovelas, das festas populares, dos movimentos sociais e das universidades. Hoje, a esse repertório se juntam os vídeos, os memes, os podcasts e as novas formas de comunicação digital. Mudaram a velocidade e os meios de circulação, mas permanece a capacidade de uma ideia, uma imagem ou uma canção encontrar eco muito além do lugar onde nasceu.

Talvez seja por isso que a expressão “hermanos”, tantas vezes utilizada pelos brasileiros de maneira quase folclórica para designar nossos vizinhos, possa adquirir agora outro significado. O hermano não é apenas aquele que mora do outro lado da fronteira, fala espanhol e torce por uma seleção diferente da nossa. Pode ser também aquele que acompanha nossas escolhas porque sabe que, de alguma maneira, elas poderão repercutir sobre seu próprio país.

De Galeano às redes sociais

Quando penso nessa circulação latino-americana, lembro de Eduardo Galeano e de sua capacidade de construir, através da literatura, uma narrativa do continente que não respeitava exatamente as fronteiras desenhadas nos mapas políticos. Em sua obra aparecem povos, trabalhadores, indígenas, camponeses, migrantes, artistas e personagens anônimos que compartilham histórias de exploração, resistência, esperança e luta.

Essa tradição ajuda a perceber que a ideia de América Latina não nasceu apenas dos tratados diplomáticos ou dos projetos de integração econômica. Ela também foi construída por escritores, músicos, cineastas, artistas populares, educadores, movimentos sociais e comunidades que, ao longo de décadas, criaram uma memória compartilhada do continente.

Talvez seja por isso que, quando um argentino manifesta simpatia por uma eleição brasileira ou um colombiano se reconhece numa frase pronunciada por Lula, não estejamos necessariamente diante de uma novidade absoluta. A novidade está na velocidade e na escala com que essas identificações podem circular hoje.

O que antes poderia levar meses para atravessar fronteiras através de um livro, de um disco ou de uma fita de vídeo agora pode alcançar milhares de pessoas em poucas horas.

Uma memória que atravessa fronteiras

Há outro elemento importante nessa discussão: a memória.

Os países latino-americanos possuem histórias diferentes, mas também carregam experiências que apresentam impressionantes pontos de contato. Ditaduras militares, desigualdade social, colonialismo, racismo, concentração de terra, dependência econômica, exploração de recursos naturais, resistência popular, movimentos de trabalhadores e lutas por democracia fazem parte, em diferentes graus e momentos, da experiência de muitos países do continente.

Quando um argentino, um chileno ou um colombiano olha para o Brasil e identifica determinada disputa política como algo que também lhe diz respeito, não está necessariamente reproduzindo uma opinião importada. Pode estar acionando memórias próprias e relacionando experiências de seu país com aquilo que observa aqui.

É aí que a cultura funciona como um arquivo vivo. Ela guarda aquilo que os documentos oficiais muitas vezes não conseguem registrar inteiramente: sentimentos, símbolos, histórias familiares, canções, imagens, palavras e experiências que ajudam uma geração a compreender a outra.

Dos Pontos de Cultura à integração latino-americana

É impossível pensar nessa dimensão sem lembrar a experiência dos Pontos de Cultura e da Cultura Viva, que Célio Turino ajudou a formular e difundir no Brasil e em outros países.

A ideia de Cultura Viva parte de uma mudança importante na maneira de pensar as políticas culturais. Em vez de imaginar que o Estado deve simplesmente levar cultura para uma população considerada passiva, reconhece-se que as comunidades já produzem conhecimento, memória, arte e formas próprias de organização, cabendo às políticas públicas fortalecer, conectar e dar visibilidade a essas experiências.

Essa concepção permite pensar a integração latino-americana também a partir das comunidades, e não apenas dos governos.

Quando um grupo cultural brasileiro estabelece relação com um grupo argentino, colombiano, uruguaio ou chileno, pode estar construindo uma pequena experiência de integração regional. Ela começa pela música, pela dança, pelo teatro, pela memória, pela educação, pela comunicação comunitária e pelas práticas cotidianas, mas pode produzir consequências políticas importantes porque cria reconhecimento entre pessoas que antes se percebiam apenas como habitantes de países diferentes.

Talvez esse seja um dos sentidos mais profundos dessas trocas: permitir que o outro deixe de ser completamente estrangeiro.

O  colombiano e uma frase sobre soberania

O caso de Andre Arcos, colombiano, estudante de Direito e ativista LGBT+, ajuda a perceber essa relação. Ele publicou um vídeo depois de ouvir Lula afirmar, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

Arcos identificou naquela frase questões relacionadas à soberania, aos direitos sociais e às disputas políticas que também atravessam a Colômbia. Seu vídeo acabou alcançando brasileiros e pessoas de outros países latino-americanos.

O episódio mostra como uma frase política pode ganhar uma segunda vida quando entra no território digital. Ela deixa de pertencer exclusivamente ao discurso de quem a pronunciou e passa a ser reinterpretada por pessoas que vivem experiências diferentes.

É assim com uma canção, com um poema, com uma fotografia e também com uma frase política: aquilo que circula é apropriado, reinterpretado, contestado e transformado por quem recebe.

A Amazônia como território compartilhado

Talvez nenhum tema permita visualizar melhor essa dimensão do que a Amazônia.

Uma declaração da Rede Sindical Amazônica reuniu entidades de seis países — Brasil, Peru, Colômbia, Equador, Bolívia e Suriname — em torno de preocupações relacionadas à política amazônica, ao meio ambiente, aos trabalhadores e às comunidades da região.

É importante não transformar essa manifestação sindical numa suposta opinião geral das populações desses países, mas ela ajuda a perceber algo que frequentemente esquecemos quando pensamos a Amazônia apenas como território brasileiro.

A Amazônia também é território de povos indígenas que atravessam fronteiras nacionais, de línguas que não obedecem às divisões políticas, de rios que conectam comunidades, de tradições alimentares, conhecimentos sobre a floresta, formas de organização comunitária e histórias que precedem a criação dos Estados nacionais.

Quando discutimos a Amazônia apenas como recurso econômico ou patrimônio ambiental, deixamos de enxergar essa dimensão humana. Não estamos falando apenas de árvores. Estamos falando de povos, modos de vida e conhecimentos que constituem uma das maiores riquezas do continente.

A Argentina de Milei e a disputa de imaginários

Há também a dimensão política da Argentina de Javier Milei, que não pode ser ignorada, especialmente porque Milei atravessou a fronteira para participar de uma atividade política relacionada à candidatura de Flávio Bolsonaro.

O contraste com o vídeo de Lucas Tresca é curioso: enquanto um cidadão argentino brinca com a impossibilidade de votar no Brasil, o presidente de seu país participa presencialmente de uma atividade política brasileira. São situações completamente diferentes, mas ambas ajudam a mostrar como a política de um país pode repercutir intensamente no debate público de outro.

Nesse terreno aparecem também diferentes ideias sobre o papel do Estado, os direitos sociais, a soberania nacional, a economia e a integração regional. São disputas que não se limitam aos programas partidários. Envolvem diferentes maneiras de imaginar a sociedade e o futuro.

Quando a América Latina olha para o Brasil

Há muito tempo nós, brasileiros, olhamos para os Estados Unidos e para a Europa em busca de referências culturais, políticas e econômicas. Consumimos suas músicas, seus filmes, seus livros, suas séries e seus debates políticos, muitas vezes conhecendo muito mais aquilo que acontece em Washington, Paris ou Londres do que aquilo que ocorre em Buenos Aires, Bogotá, Montevidéu, La Paz ou Assunção.

Essa assimetria também é resultado de uma história marcada pela dificuldade de reconhecer plenamente nossos próprios vizinhos.

Por isso, talvez seja interessante prestar atenção quando acontece o movimento inverso e latino-americanos começam a olhar para o Brasil não apenas como mercado, potência econômica ou país de futebol, mas como referência política e cultural.

O que eles estão vendo?

Talvez vejam um país que ocupa uma posição estratégica na América do Sul, possui uma produção cultural gigantesca, uma enorme diversidade social, uma das maiores populações negras do mundo fora da África, grande diversidade indígena e uma presença decisiva na discussão sobre a Amazônia e o clima.

Mas é importante lembrar que essas são leituras de grupos e indivíduos específicos, não uma visão uniforme da América Latina.

E se os hermanos pudessem votar?

A pergunta que dá título a este texto continua sendo uma provocação, porque estrangeiros não votam nas eleições brasileiras simplesmente por desejarem fazê-lo. A democracia possui regras, território, cidadania e instituições, e são os eleitores brasileiros que têm a responsabilidade de decidir os rumos políticos do país.

Mas alguém pode não votar no Brasil e, ainda assim, acompanhar nossa música, estudar nossa literatura, assistir ao nosso cinema, participar de uma rede cultural brasileira, defender a preservação da Amazônia, admirar um artista brasileiro, criticar nossas políticas públicas ou manifestar preocupação com os rumos da nossa democracia.

É por isso que talvez devêssemos olhar com mais atenção para esses argentinos, colombianos, chilenos e outros latino-americanos que estão falando sobre a eleição brasileira. Não para transformar suas manifestações em argumento eleitoral, nem para imaginar que representam a América Latina inteira, mas para compreender o que existe no Brasil que consegue produzir identificação fora das nossas fronteiras.

Talvez a resposta esteja em parte na história que compartilhamos.

Antes de sermos países com bandeiras, governos, moedas e documentos diferentes, fomos sociedades atravessadas por processos de colonização, resistência, migração, mestiçagem, desigualdade e criação cultural. Nossas diferenças são reais e precisam ser respeitadas, mas elas não anulam os vínculos construídos ao longo dos séculos.

Quando um argentino brinca que gostaria de votar no Brasil, quando um colombiano transforma uma frase de Lula em conteúdo para suas redes, quando um partido chileno publica uma declaração sobre a eleição brasileira ou quando organizações sindicais de diferentes países amazônicos discutem os rumos da política brasileira, estamos diante de manifestações muito diferentes entre si, mas que revelam algo comum: a América Latina continua procurando maneiras de conversar consigo mesma.

E se os hermanos não podem votar no Brasil, podemos pelo menos escutar por que estão olhando para cá.

O que eles estão enxergando no Brasil que talvez nós, de tão acostumados a olhar para dentro, tenhamos deixado de perceber?

(8) Perfeição (Legião Urbana) e O que é, o que é (Gonzaguinha ) para tocar mentes e corações a favor da melhor decisão neste 04 de Outubro, incluindo càmara e senado.

 Entre Eros e Thanatos: pulsão de vida, pulsão de morte e a escolha brasileira

 Uma leitura psicanalítica e decolonial da polarização no Brasil

O Brasil é atravessado por um contraste profundo entre forças de ligação, cuidado e criação — que aqui chamo, metaforicamente, de pulsão de vida — e forças de dissolução, violência e morte — que chamo de pulsão de morte. Não se trata de reduzir a psicanálise a um rótulo eleitoral, mas de usar essa chave para pensar o pano de fundo da polarização atual, que não é apenas ideológica ou partidária, como, à primeira vista possa parecer. 

Essa ambivalência não nasce hoje. Ela se constitui na formação histórico-racial brasileira: colonização, escravidão, racismo, patriarcado e violência sexual sistemática contra mulheres indígenas e negras. Esses processos submeteram corpos e almas a uma violência colossal e ambígua, produzindo identificações e posições internalizadas: senhor e escravo, opressor e oprimido não habitam apenas o outro; habitam também cada um de nós, como herança colonial e como superego social. Isso nos confunde e nos torna, muitas vezes, perplexos diante de escolhas cruciais.

Neste momento eleitoral, essa disputa se condensa. De um lado, forças sociais, políticas e simbólicas que apontam para a vida, a democracia, o cuidado e a inclusão se reúnem em torno do nome de Luiz Inácio Lula da Silva. De outro, forças que favorecem políticas de morte, exclusão, violência de Estado e necropolítica se expressam na candidatura do filho de Jair Messias Bolsonaro. Mas é preciso rigor: nenhum lado encarna puramente Eros ou Thanatos. A psicanálise ensina que vida e morte caminham juntas, e que a escolha ética consiste em favorecer, dentro de nós e na nação, as forças de ligação, preservação e ampliação da vida.

Somos nós, descendentes desses homens e mulheres, que iremos às urnas neste domingo. Que a pulsão de vida — ou, melhor dizendo, as forças sociais da vida — prevaleçam em cada um de nós e no conjunto da nação, para que o voto em favor da vida, da vida em abundância para todos e todas, forme maioria, de preferência no primeiro turno.

Qual das duas canções abaixo pode representar melhor a escolha da maioria nas eleições deste domingo?  

As duas? Talvez...


Vamos celebrar a estupidez humana

A estupidez de todas as nações

O meu país e sua corja de assassinos covardes

Estupradores e ladrões


Vamos celebrar a estupidez do povo

Nossa polícia e televisão

Vamos celebrar nosso governo

E nosso Estado que não é nação


Celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas

Celebrar nossa desunião

Vamos celebrar Eros e Tânatos

Perséfone e Hades

Vamos celebrar nossa tristeza

Vamos celebrar nossa vaidade


Vamos comemorar como idiotas

A cada fevereiro e feriado

Todos os mortos nas estradas

Os mortos por falta de hospitais


Vamos celebrar nossa justiça

A ganância e a difamação

Vamos celebrar os preconceitos

O voto dos analfabetos


Comemorar a água podre e todos os impostos

Queimadas, mentiras e sequestros

Nosso castelo de cartas marcadas

O trabalho escravo, nosso pequeno universo

Toda a hipocrisia e toda a afetação

Todo roubo e toda indiferença

Vamos celebrar epidemias

É a festa da torcida campeã


Vamos celebrar a fome

Não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar

Vamos alimentar o que é maldade

Vamos machucar o coração


Vamos celebrar nossa bandeira

Nosso passado de absurdos gloriosos

Tudo que é gratuito e feio

Tudo o que é normal


Vamos cantar juntos o hino nacional

A lágrima é verdadeira

Vamos celebrar nossa saudade

Comemorar a nossa solidão


Vamos festejar a inveja

A intolerância, a incompreensão

Vamos festejar a violência

E esquecer a nossa gente

Que trabalhou honestamente a vida inteira

E agora não tem mais direito a nada

Vamos celebrar a aberração

De toda a nossa falta de bom senso

Nosso descaso por educação


Vamos celebrar o horror de tudo isto

Com festa, velório e caixão

Tá tudo morto e enterrado agora

Já que também podemos celebrar

A estupidez de quem cantou essa canção


Venha

Meu coração está com pressa

Quando a esperança está dispersa

Só a verdade me liberta

Chega de maldade e ilusão


Venha

O amor tem sempre a porta aberta

E vem chegando a primavera

Nosso futuro recomeça

Venha, que o que vem é perfeição


Eu fico com a pureza da resposta das crianças

É a vida, é bonita e é bonita

No gogó!


Viver e não ter a vergonha de ser feliz

Cantar e cantar e cantar

A beleza de ser um eterno aprendiz


Ah, meu Deus, eu sei, eu sei

Que a vida devia ser bem melhor e será

Mas isso não impede que eu repita

É bonita, é bonita e é bonita


Simbora, povo!


Viver e não ter a vergonha de ser feliz

Cantar e cantar e cantar

A beleza de ser um eterno aprendiz


Ah, meu Deus, eu sei, eu sei

Que a vida devia ser bem melhor e será

Mas isso não impede que eu repita

É bonita, é bonita e é bonita


E a vida?

E a vida, o que é? Diga lá, meu irmão

Ela é a batida de um coração?

Ela é uma doce ilusão? Ê-ô


Mas e a vida?

Ela é maravilha ou é sofrimento?

Ela é alegria ou lamento?

O que é, o que é, meu irmão?


Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo

É uma gota, é um tempo que nem dá um segundo

Há quem fale que é um divino mistério profundo

É o sopro do criador numa atitude repleta de amor


Você diz que é luta e prazer

Ele diz que a vida é viver

Ela diz que melhor é morrer

Pois amada não é e o verbo é sofrer


Eu só sei que confio na moça

E na moça eu ponho a força da fé

Somos nós que fazemos a vida

Como der, ou puder, ou quiser


Sempre desejada

Por mais que esteja errada

Ninguém quer a morte

Só saúde e sorte


E a pergunta roda

E a cabeça agita

Fico com a pureza da resposta das crianças

É a vida, é bonita e é bonita


Viver e não ter a vergonha de ser feliz

Cantar e cantar e cantar

A beleza de ser um eterno aprendiz


Ah, meu Deus, eu sei, eu sei

Que a vida devia ser bem melhor e será

Mas isso não impede que eu repita

É bonita, é bonita e é bonita


Simbora, povo!


Viver e não ter a vergonha de ser feliz

Cantar e cantar e cantar

A beleza de ser um eterno aprendiz


Ah, meu Deus, eu sei, eu sei

Que a vida devia ser bem melhor e será

Mas isso não impede que eu repita

É bonita, é bonita e é bonita (bonito!)


Viver e não ter a vergonha de ser feliz

Cantar e cantar e cantar

A beleza de ser um eterno aprendiz


Ah, meu Deus, eu sei, eu sei

Que a vida devia ser bem melhor e será

Mas isso não impede que eu repita

É bonita, é bonita e é bonita


Viver e não ter a vergonha de ser feliz

Cantar


Abaixo uma bela canção bônus na linda interpretação  de Bruna Caram e de Norberto Vinhas

DE VOLTA AO COMEÇO - Bruna Caram canta Gonzaguinha

A live completa.






Leila Diniz grávida, segurando uma flor, em um registro clássico de 1971 feito pelo fotógrafo norte-americano David Drew Zingg. 

A PEC que acaba com a escala 6x1 está parada no Senado desde que passou pela CCJ. Davi Alcolumbre marcou o início da discussão em plenário para terça-feira (6), dois dias depois do primeiro turno. Mas o destino da proposta pode ser decidido nas urnas neste domingo. 

Pesquisas apontam apoio de 70% a 80% da população ao fim da 6x1, com jornada de 40 horas e sem redução salarial. Ainda assim, a presidência do Senado adiou a votação sob o argumento de que ela poderia interferir na eleição. Conveniente: Lula defende a mudança, enquanto Flávio Bolsonaro se colocou contra.

Se Lula vencer no primeiro turno, a pressão pela aprovação cresce. Se Flávio vencer, aumentam as chances de rejeição, mudanças ou de um súbito apelo a “mais debate”. Se a eleição for para o segundo turno, tudo dependerá de quem sair mais forte no domingo.

O adiamento já favorece quem quer enterrar a proposta. Dois terços do Senado estão em disputa agora, momento em que parlamentares são mais sensíveis ao humor do eleitor. Foi assim na Câmara, onde 472 dos 513 deputados aprovaram a mudança, inclusive muitos que antes a criticavam. Depois da eleição, o cálculo muda. Senadores eleitos terão oito anos de mandato; derrotados terão pouco a perder. Cai a pressão das urnas e volta a falar mais alto o poder dos lobbies, dos jantares, das festas com astronautas nuas.

Adiar a votação não foi proteger a eleição de uma pauta oportunista. Foi proteger uma escolha política do julgamento dos eleitores. No domingo, o país não decidirá apenas quem governará a partir de 2027. Também decidirá o quanto o Senado se sentirá autorizado a continuar ignorando o que querem oito em cada dez brasileiros. 

Leia o restante do texto na minha coluna no UOL.


Em artigo publicado na revista Piauí nesta sexta-feira (02), o documentarista e fundador da publicação, João Moreira Salles, faz uma forte crítica ao empresariado brasileiro que se aproxima da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mesmo ciente dos riscos da extrema-direita no poder.
O texto estabelece uma distinção central: a diferença entre a massa de apoiadores que age por crença cega e as elites econômicas que compreendem o risco democrático, mas optam por ignorá-lo. Em atitude rara, o autor elenca grandes empresários que apoiam o candidato.
Para Moreira Salles, enquanto parte da população apoia o bolsonarismo movida por fé — buscando “acreditar em vez de compreender” —, o grupo que frequenta jantares corporativos com Flávio Bolsonaro pertence a uma elite instruída e com pleno discernimento histórico. São executivos que sabem que a trajetória da família é marcada pela exaltação de figuras como o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Recorrendo a Hannah Arendt e Parul Sehgal, Moreira Salles questiona como as democracias são minadas, apontando que a erosão institucional ocorre quando indivíduos em posições de poder decidem "desviar os olhos" por conveniências pragmáticas ou cálculo de poder.
O fundador da Piauí elenca de forma explícita grandes empresários, banqueiros e lideranças que participaram de encontros com Flávio Bolsonaro. Entre os nomes citados estão:
📍Mercado Financeiro e Bancos: André Esteves (BTG Pactual), Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), Milton Maluhy Filho (Itaú Unibanco), Roberto Campos Neto, Marcelo Kayath, Emmanuel Hermann, Christian Egan e Daniel Goldberg.
📍Indústria, Varejo e Serviços: Flávio Rocha (Riachuelo), David Feffer (Suzano), Rubens Ometto (Cosan/Raízen), Richard Gerdau (Gerdau), Fábio Ermírio de Moraes (Votorantim), Fernando Marques (União Química), Paulo Skaf, José Galló (Renner) e Alexandre Ostrowiecki (Multilaser).
📍Energia, Logística e Outros Setores: Eduardo Bartolomeo (Vale), Pedro Parente, Mario Araripe, Fernando Simões, Eduardo Fischer, Roberto Dagnoni, Helio Seibel, Fabio Carvalho e João Camargo.




sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Mandato coletivo e cultura de base: como a Bancada Cultura Viva tenta redesenhar a representação política na Alesp.

  Por Redação Blog da Cultura


O desenho tradicional da política institucional brasileira, frequentemente pautado por lideranças centralizadoras e campanhas personalistas, ganha novos contornos no Estado de São Paulo com a consolidação das candidaturas coletivas. Entre as propostas que emergiram com força no campo progressista, a Bancada Cultura Viva desponta como um dos arranjos mais orgânicos de ocupação do espaço legislativo, convertendo décadas de militância artística de periferias e do interior paulista em uma plataforma de disputa real por uma cadeira na Assembleia Legislativa (Alesp).

Oficialmente, a legislação eleitoral do país ainda não reconhece o modelo multifacetado na urna, exigindo o registro de um único CPF e uma única foto. Para contornar o engessamento jurídico, o coletivo apresenta o nome de Alessandro Azevedo (registrado como Alessandro Cultura Viva, sob o número 13000). Por trás do número, contudo, opera uma engrenagem horizontal composta por sete trabalhadores e fazedores de cultura: além de Azevedo, a chapa traz nomes de peso do setor como Valéria Silvestre, Ellen Moreira, Vinícius Cassiolato, Alexandre Braz (Xandão) e Gilberto Augusto da Silva (Gil do Jongo).

A costura dos territórios: da base ao manifesto

A arquitetura da Bancada Cultura Viva diferencia-se dos arranjos de cúpula partidária por ter sido gestada de baixo para cima, mimetizando a própria dinâmica da Política Nacional Cultura Viva — programa federal de fomento comunitário que inspira o grupo. A construção da proposta buscou quebrar o histórico isolamento entre a capital e as demais regiões do estado, costurando uma rede que une as franjas da metrópole (como o bairro de Perus) a polos culturais do interior e do litoral, incluindo cidades como São José dos Campos, Sumaré, Araras, Peruíbe e Piquete.

O programa de diretrizes do mandato foi blindado do modelo tradicional de gabinetes fechados. Em vez disso, foi maturado em praças, fóruns abertos, saraus e terreiros de comunidades tradicionais. Segundo o manifesto oficial do grupo, o estopim para a unificação das candidaturas foi a urgência de "transformar a indignação contra o desmonte cultural em efetivação de políticas públicas", oferecendo uma resposta técnica e coordenada após anos de contingenciamento orçamentário e asfixia de editais no estado.

Coerência sob a lupa: trajetórias sem ruídos públicos

Em um cenário onde propostas coletivas por vezes enfrentam desconfiança quanto à sua real coesão, o histórico dos integrantes da chapa funciona como um selo de consistência entre o discurso e a prática. Os "co-deputados" acumulam vivências que cobrem as principais lacunas do fomento público estadual.

Alessandro Azevedo traz o lastro de 30 anos de teatro e da criação do Sarau do Charles, um marco da literatura periférica paulistana. A representação da ancestralidade e dos direitos humanos ganha peso com Valéria Silvestre, mestra jongueira e especialista pela USP com trânsito na gestão de políticas para minorias, e com Gil do Jongo, liderança tradicional do Vale do Paraíba. No interior, nomes como Ellen Moreira (do Circo Colorê) e Vinícius Cassiolato (do Ponto de Cultura Cia Tupinambá) — ambos com experiência recente como Agentes Territoriais de Cultura do Ministério da Cultura (MinC) — garantem a capilaridade regional do projeto.

Um levantamento nos canais de transparência e nos arquivos da imprensa especializada mostra que a retidão pública tem sido uma constante no grupo. Não há registros de escândalos financeiros, denúncias de improbidade administrativa ou controvérsias que arranhem a imagem dos proponentes. A projeção pública do coletivo tem se mantido estritamente atrelada ao debate programático, defendendo a descentralização de recursos e o fortalecimento do Sistema Estadual de Cultura.

O desafio da governança compartilhada

O grande teste da Bancada Cultura Viva, caso conquiste a vaga na Alesp, será a operacionalização prática do gabinete. O grupo firmou um pacto político de tomada de decisões horizontais, onde o voto de cada coparlamentar tem o mesmo peso no direcionamento de emendas e no posicionamento em comissões.

Mais do que uma estratégia de marketing eleitoral, a chapa tenta provar que a "cultura de redes" e a solidariedade comunitária que sustentam os pontos de cultura há mais de duas décadas são ferramentas perfeitamente capazes de gerir o orçamento e a burocracia do maior parlamento estadual da América Latina.


Para conhecer mais detalhes, clique AQUI  e AQUI 



MANIFESTO DO BLOG DA CULTURA EM DEFESA DE DOM VICENTE FERREIRA


Em defesa da Igreja, da democracia, da cultura e da dignidade de um pastor

O Blog da Cultura, espaço de reflexão sobre ações culturais de base comunitária, teologia da libertação, direitos humanos e ecologia integral, vem a público manifestar sua solidariedade e defesa de Dom Vicente de Paula Ferreira, bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora (BA), presidente da Comissão Especial para Ecologia Integral e Mineração da CNBB, psicanalista, poeta, compositor e escritor.

Repudiamos com veemência a reação descompensada de Allan dos Santos, foragido da Justiça brasileira e abrigado nos EUA, que publicou vídeo com palavrões, insultos homofóbicos e referências de teor sexual contra Dom Vicente e os bispos da CNBB. Ao chamar o bispo de "besta fera" e "cloaca de Satanás", Allan atacou não apenas um homem, mas a própria Igreja e a democracia brasileira.

Uma situação como essa nos lembra que a extrema direita fareja o risco de derrota iminente nestas eleições e, com esse tipo de atitude, aumenta ainda mais essa possibilidade. O desespero não se converte em autoridade; a violência não se converte em verdade.

Em outros tempos, entre muitos exemplos de ataques a bispos brasileiros defensores da democracia e dos direitos humanos, está o caso do bispo da Diocese de Nova Iguaçu, Dom Adriano Hipólito, sequestrado em 22 de setembro de 1976 por seis homens armados, encapuzado, algemado e torturado, sendo depois abandonado nu em um matagal em Jacarepaguá, com o corpo pintado de vermelho e sob a acusação de comunista. Seu carro foi destruído em uma explosão perto da CNBB, na Glória, e nenhum dos envolvidos foi jamais identificado ou punido.

Na  década de 1980, no sertão de Sergipe, o bispo Dom José Brandão de Castro e os padres da Diocese de Propriá também sofreram uma escalada de violência por sua opção preferencial pelos pobres. A catedral foi invadida durante uma missa, com padres e leigos ameaçados de morte por fazendeiros e políticos locais; a igreja de Canhoba foi ocupada e o próprio bispo sofreu um atentado ao lado de jornalistas da BBC, além de ameaças de morte dirigidas a ele e aos padres Nestor Matheus e Enoque. 

A diferença é que hoje a agressão ganha megafone nas redes e tenta transformar o desespero em intimidação. Mas, ao atacar uma voz da Igreja, a extrema direita não cala os bons pastores: expõe sua própria fragilidade e amplia o isolamento que diz querer evitar.

Dom Vicente Ferreira não é apenas um nome atacado: é um homem íntegro, pastoralmente comprometido com o projeto de amorosidade dos pontificados do Papa Francisco e do Papa Leão XIV, qualificado intelectualmente e poeta criativo, crítico e sensível. Sua atuação à frente da Comissão de Ecologia Integral e Mineração da CNBB, seu acompanhamento das vítimas de Brumadinho e seu compromisso com a defesa da vida e da Casa Comum revelam um pastor que pensa, sente e serve.

Neste manifesto, o Blog da Cultura nomeia os atores políticos, sociais, culturais e religiosos que se solidarizam com Dom Vicente Ferreira:

No campo religioso e eclesial: A Comissão Episcopal para a Ecologia Integral e Mineração da CNBB, que manifestou "solidariedade e comunhão com seu ministério episcopal"; as Pastorais Sociais do Regional Nordeste III da CNBB (Bahia e Sergipe); o Regional Norte 1 da CNBB; o Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP); a Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Bahia; a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil); o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC-MG); a Cáritas Brasileira Regional MG; e o padre jesuíta Bruno Franguelli, que conclamou os católicos à "consciência da gravidade" do momento.

No campo social e de direitos humanos: O Movimento Nacional de Fé e Política; a Rede Brasileira de Fé e Política; o Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara; o ISER Assessoria; o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB); o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM); o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); o Conselho Nacional de Leigos e Leigas do Brasil (CNLB); a Comissão Arquidiocesana Justiça e Paz da Arquidiocese de BH; o Conselho de Leigos da Arquidiocese de São Paulo; e o Instituto de Pastoral Vocacional.

No campo acadêmico e cultural: O Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas; o Anima/PUC Minas; o NEPAC/PUC Minas; o CEFAP/PUC Minas; a Academia de Juristas Católicos Humanistas da Arquidiocese de BH; o Movimento AMOR; e o próprio Blog da Cultura, por meio do artigo de Zezito de Oliveira, que denunciou o "isentivismo" da ACI/EWTN na cobertura da crítica de Dom Vicente à Quaresma de São Miguel.

No campo político e institucional: A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que em 2023 concedeu a Dom Vicente o título de cidadão honorário do Estado, destacando "relevantes serviços prestados"; a Câmara Municipal de Poços de Caldas, que aprovou Moção de Apoio ao bispo; e o grupo de parlamentares "Fratelli Tutti", que se encontrou com Dom Vicente em julho de 2025 para reafirmar o compromisso com os pobres e com a justiça.

Por tudo isso, o Blog da Cultura manifesta sua defesa intransigente de Dom Vicente Ferreira. Não aceitamos que o ódio, a mentira e a covardia se apresentem como voz da verdade. A Igreja que ama, acolhe e denuncia a injustiça não se calará. Seguiremos ao lado de seus pastores que defendem a democracia, os direitos humanos, a cultura e a dignidade de todos.

Dom Vicente Ferreira, nossa solidariedade, nosso respeito e nossa oração. Sua voz não será silenciada.

Blog da Cultura

Zezito de Oliveira, editor

Comunhão



Fraternidade e Ecologia Integral - Campanha da Fraternidade 2025 (Dom Vicente de Paula Ferreira em Aracaju )

Blog da Cultura eleva o nível do debate sobre política e cultura ao convidar Marcos Santana, candidato a deputado federal, para uma roda de conversa online.

 A ideia surgiu a partir da conversa de um importante líder religioso de Aracaju com o editor do Blog da Cultura, Zezito de Oliveira. Este soube, por meio do líder religioso, da disposição de Marcos Santana em se lançar candidato a deputado federal nestas eleições, com base no legado histórico que construiu como prefeito da quarta cidade mais antiga do Brasil.

Como consequência disso, na manhã desta quinta-feira, o Blog da Cultura realizou um debate ao estilo do programa Roda Viva, da TV Cultura, com Marcos Santana, ex-prefeito de São Cristóvão por oito anos e candidato a deputado federal pelo PSB de Sergipe.

Seu legado baseia-se na seriedade na administração das finanças públicas, na prioridade às questões sociais, educacionais e culturais, além da atenção ao turismo e à geração de emprego e renda. 

Com isso, um documento ancorado nas discussões realizadas no Blog da Cultura, destacando a necessidade de ampliação do  acesso à cultura por parte das populações periféricas, foi entregue há cerca de dois meses a Marcos Santana, que endossou prontamente seu conteúdo. Uma reunião para aprofundar os pontos abordados ficou de ser marcada e aconteceu nesta quinta-feira, conforme informado.

A reunião foi realizada via plataforma Google Meet e reuniu um grupo de dez pessoas envolvidas com ações culturais na periferia, que acompanham as publicações do Blog da Cultura e endossam as demandas nelas levantadas.

Abaixo segue um resumo das questões abordadas. Com a expectativa da vitória de Marcos Santana e do presidente Lula, respectivamente como deputado e presidente, nossa esperança é que o círculo virtuoso das políticas culturais e da gestão cultural — inaugurado pelo presidente Lula quando assumiu a presidência da República em 2003 e por Marcos Santana quando assumiu a prefeitura de São Cristóvão em 2017 — possa continuar crescendo, se consolidando e espalhando benefícios e prosperidade, em especial para as populações de baixa renda. Benefícios como autoestima, senso de pertencimento, bem-estar, criatividade, respeito às diferenças, saúde mental e prosperidade, pela possibilidade de a cultura e a economia criativa gerarem inserção produtiva no mercado de trabalho e na produção de riqueza, seja como assalariado ou como dono do próprio negócio. 

Cultura, eleição e mobilização: Blog da Cultura debate com Marcos Santana

Encontro virtual reuniu dez pessoas e discutiu a carta da Comissão Estadual de Pontos de Cultura, desafios da gestão cultural e estratégias para engajar a juventude.

Na manhã de 1º de outubro de 2026, das 8h às 9h15, o Blog da Cultura promoveu um  encontro  virtual com leitores do blog e  Marcos Santana, ex-prefeito de São Cristóvão por oito anos e candidato a deputado federal pelo PSB de Sergipe. O encontro, realizado via Google Meet, reuniu dez pessoas e teve como fio condutor a política cultural, a mobilização comunitária e os desafios pós eleições 2026

A carta da Comissão Estadual de Pontos de Cultura

Danilo, do coletivo Inferninho, apresentou a carta elaborada pela Comissão Estadual dos Pontos de Cultura, direcionada a candidatos — principalmente deputados federais — com pautas para assinatura e compromisso. O documento é resumido e de fácil apresentação, e o pedido foi para que Marcos Santana o enviasse e assinasse por meio do gov.br.

Os pontos centrais da carta incluem:

  • apoio a projetos de fortalecimento do Sistema Nacional de Cultura (SNC) e do Plano Nacional de Cultura (PNC);
  • apoio a PECs que estabeleçam dotação mínima para a cultura;
  • emendas federais para pontos e equipamentos culturais municipais;
  • aperfeiçoamento dos processos de incentivo fiscal, como a Lei Rouanet e o audiovisual;
  • projetos de formação cultural para jovens em periferias.

 Marcos Santana sinalizou que receberá e assinará a carta com carinho, comprometendo-se a subscrever projetos em tramitação e a integrar a bancada ou frente parlamentar de cultura na Câmara Federal, caso eleito.

Trajetória e compromissos de Marcos Santana

Marcos Santana apresentou sua trajetória política: militância desde 1983, fundação local do PT, migração ao MDB e atualmente filiado ao PSB, além da atuação como prefeito de São Cristóvão. Destacou sua preocupação com a política cultural e a intenção de atuar de forma legislativa mais ampla em Brasília.

Marcos enfatizou que pretende ser um deputado que atue legislativamente, e não apenas por meio de emendas, construindo e participando de frentes parlamentares de cultura e fortalecendo as políticas culturais nacionais e locais.

Foi ressaltada a relevância de centros comunitários e atividades presenciais, com atrativos culturais e alimentação, para envolver jovens que estão presos nas redes sociais.

Cultura de base, conselhos e participação popular

Danilo explicou sua atuação no Conselho Municipal de Políticas Culturais de São Cristóvão e a importância de fortalecer a participação popular. Ele observou que o Conselho está em processo de consolidação e precisa ser mais utilizado pela sociedade.

Destacou-se o papel transversal da cultura como política de juventude e transformação social, além da necessidade de representação dos pontos de cultura no debate com candidatos e governos. O coletivo Inferninho foi reconhecido por ter recebido grande incentivo de Marcos Santana durante sua gestão como prefeito, assim como outros coletivos culturais juvenis da cidade, que agora apoiam sua candidatura.

Desafios administrativos e burocráticos na gestão cultural

Marcos detalhou dificuldades práticas enfrentadas na gestão cultural municipal: regularização de artistas e grupos para pagamento, problemas com o uso de espaços históricos como o Convento de São Francisco, entraves por normas e autorizações e conflitos com órgãos de proteção do patrimônio.

Entre os exemplos citados, estão restrições de uso de cozinha e apartamentos no Convento, exigências de regularidade para pagamentos que atrasam ou impedem a remuneração de artistas, e tensões entre vontade política e limitações administrativas. Como projeto de longo prazo, Marcos mencionou a transformação de uma casa em ruína num teatro para a cidade de São Cristóvão, preservando a arquitetura local, e o plano de fortalecer a filarmônica municipal e levá-la aos bairros e povoados como política de formação de plateia.

Trabalho, direitos e precarização

Claudionor dos Santos trouxe o debate sobre propostas que afetam trabalhadores, mencionando a escala de trabalho 6x1 que, na prática, tem virado 7x1. Houve críticas à precarização e à tentativa de redução de direitos, com preocupação em relação a projetos e PECs que possam ampliar a exploração.

Marcos comentou o contexto legislativo, citando o surgimento de muitas siglas “de aluguel” e alterações na legislação partidária, como as federações, que modificam as dinâmicas eleitorais. Também foram mencionadas reduções e alterações no número de vagas e nas regras eleitorais. A resposta de Marcos partiu de um comentário e de uma pergunta formulada por Jesse James.

Juventude, presença e formação política

Vários participantes, como João Delmiro e Claudionor dos Santos, reforçaram que muitos jovens estão afastados da política por desinteresse ou pela ausência de canais presenciais. A recomendação foi de um trabalho “de formiguinha”, agregando jovens gradualmente e combinando debates com atividades culturais e alimentação para atrair participação.

João destacou a importância do diálogo comunitário presencial — em centros comunitários, com lanches e atividades — para sensibilizar e formar consciência política. Marcos argumentou que a desmobilização é uma estratégia da direita e defendeu o uso de atividades culturais como porta de entrada para debates políticos e para a formação de plateia e de consciência crítica.

Encaminhamentos e próximos passos

Ao final, foi solicitado o envio da carta da Comissão Estadual para assinatura de Marcos, que reafirmou o compromisso de assiná-la e trabalhar nas pautas apresentadas. Também foi feito um pedido para que o material de campanha — vídeos curtos e materiais sobre cultura e educação — seja compartilhado e distribuído para multiplicar a mensagem nos últimos dias.

Zezito de Oliveira propôs uma reunião pós-eleição com representantes comunitários, equipe e coletivos para discutir a descentralização do FASC e de outros eventos do calendário cultural da cidade, além de projetos de equipamentos culturais, como centros culturais e CEUs, e o acompanhamento das ações como consta em um documento enviado a Marcos Santana há cerca de dois meses.

Memórias, afetos e o simbolismo da filarmônica

Zezito de Oliveira compartilhou uma lembrança pessoal sobre os pais e sua relação simbólica com a banda filarmônica  e com São Cristóvão. Seu pai, José de Deus,  foi músico multi-instrumentista e gostava muito de São Cristóvão , onde a familia teve/tem casa, herança por parte da mãe de Zezito, Maria Marlene, que nasceu na cidade. A fala de Marcos sobre a importância da banda filarmônica de São Cristóvão e a necessidade de levá-la a outros territórios, para além da sede, fez Zezito e Jesse James, seu irmão, que participava da transmissão, conectarem a memória familiar com o trabalho cultural e a campanha.

A reunião terminou com a sensação de que a cultura segue sendo um território estratégico de organização, memória e esperança — e que a mobilização dos próximos dias pode ajudar a transformar esse legado em políticas públicas efetivas com a reeleição de Lula e contribuição dos sergipanos para elevar o nível da representação parlamentar de Sergipe na câmara federal.