quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

"Ócio demais faz mal", diz presidente do Republicanos contra o fim da escala 6x1 - O povo não tem dinheiro. Vai ficar mais exposto. Ao invés de lazer, pode ser o mal. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade?',

Fonte: Página Anarcomiguxos no Facebook

] Essa fala é interessante porque expõe claramente três pensamentos intrínsecos da classe dominante (e que infelizmente o pobre de direita não vai entender:

1) para a classe dominante, o pobres não podem ter tempo pra pensar. Daí sempre fazerem o possível para que os pobres descansem apenas o mínimo possível pra não colapsarem ou mesmo que trabalhem até a exaustão. Daí os ataques a qualquer feriado que exista no Brasil.

2) para a classe dominante os pobres não têm direito a festejar (vejam os ataques ao Carnaval). É uma ideia de que festejar seria uma "recompensa" ao "mérito"... e no capitalismo só tem mérito quem tem fortuna, logo, "permitir" que os pobres festejem seria como premiar quem "não merece". 

Embora eles sejam contra o Carnaval (por motivos religiosos) de uma forma geral, não teriam nenhuma problema se este fosse restrito aos "bailes de máscaras" de clubes privados ou aos camarotes do sambódromo. O "problema" é o Carnaval de rua onde qualquer pessoa pode simplesmente improvisar uma fantasia com o que tiver em casa e ir se divertir com amigos e vizinhos sem pagar nada por isso.


Eles abominam a ideia de pobres, com tempo livre, se divertindo.

3) para a classe dominante, principalmente a classe dominante dos países com histórico escravagista, essa história de "Deus, Pátria e Família" é um lema para os ricos, para eles pobres não têm família, eles produzem mão de obra. Até porque eles não pensam que os mais  pobres possuam sentimentos familiares. A continuação da fala desse cidadão é afirmando que os pobres não ficariam com a família se tivessem tempo livre, porque "os brasileiros não são assim".

Qualquer unidade de brasileiro que já tenha convivido com estrangeiros do Norte vai ter ouvido em algum momento sobre como povos do Sul têm uma vida girando em torno da família (tudo é feito em família e todos estão sempre juntos) enquanto no Norte saem de casa com 18 anos e às vezes passam anos sem falar com parentes (mesmo os pais).

E eu tenho certeza que ele só disse isso porque o que ele realmente pensa seria impublicável, sabendo que esse nível de pensamento elitista é aceitável para uma parte dos pobres e mesmo reproduzido por eles, eu tenho certeza que o que ele realmente gostaria de ter dito é muito pior


"Ócio demais faz mal", diz presidente do Republicanos contra o fim da escala 6x1
'O povo não tem dinheiro. Vai ficar mais exposto. Ao invés de lazer, pode ser o mal. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade?', questiona Pereira
26 de fevereiro de 2026, 06:57 h

Portal 247 - O presidente nacional do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP), afirmou ter levado ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), preocupações sobre a Proposta de Emenda à Constituição que prevê o fim da jornada de trabalho 6x1. Em entrevista à Folha de São Paulo, o parlamentar declarou ser contrário à votação do tema em ano eleitoral e apontou possíveis impactos negativos para a economia brasileira.

Pereira relatou que externou sua posição diretamente a Motta e ouviu do presidente da Câmara que a tramitação da PEC buscaria assegurar protagonismo ao Legislativo diante da possibilidade de o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apresentar um projeto de lei sobre o assunto.

Ao comentar a proposta, Pereira afirmou: “Estou muito preocupado. Eu já demonstrei ao Hugo Motta a minha contrariedade ao tema. Não é o momento para se debater. Poderia se debater em outro momento, mas em ano eleitoral é muito sensível, porque expõe a Casa [Câmara]. Às vezes até tem que votar [favorável] por conta de ser um ano eleitoral, porque o eleitor pode não entender bem se você votar contra, por exemplo. Eu estou preocupado”.

Ele argumentou que, conforme notas técnicas do setor produtivo, a mudança pode elevar custos. “Pelas notas técnicas do setor produtivo, vai encarecer mais ainda. Pode ficar ruim para todos, porque vai tirar mais ainda a competitividade do setor produtivo brasileiro”, declarou.

Sobre a decisão de pautar a matéria, Pereira relatou a justificativa apresentada por Motta: “Ele falou ‘vamos fazer um debate’. No momento que ele despachou para a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), ele me disse: ‘Eu estou fazendo isso porque se eu não fizer, o governo vai fazer, então é melhor que a Casa tome o protagonismo’”.

Questionado sobre a comparação feita por Motta entre a PEC e marcos históricos como a criação da CLT e o fim da escravidão, o dirigente partidário afirmou: “Me surpreendeu um pouco. A CLT, com todos os méritos, tem muitos problemas. É só você comparar com os países com pleno emprego e economia mais pujante. A gente tem um abismo”. Ele também citou diferenças de custo trabalhista e tributário em relação a países europeus e à China.

Ao abordar a demanda por mais tempo de lazer, Pereira declarou: “Eu acho que quanto mais trabalho, mais prosperidade. Claro, a pessoa tem que ter lazer, mas lazer demais também, o ócio demais faz mal”. Ele acrescentou que a população enfrenta limitações econômicas: “O povo não tem dinheiro, infelizmente. Vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar. Pode ser o contrário. Ao invés de lazer, pode ser o mal. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade? Ou num sertão lá do Nordeste?”.

Banco Master e investigações
Sobre o caso envolvendo o Banco Master, o deputado afirmou que as investigações devem seguir seu curso. “Isso é um negócio que você vê como ele começa, mas não sabe como termina. Está a cargo da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário”. Ele ressaltou que recursos públicos precisam ser apurados: “É dinheiro público. Tem que ser investigado e, se comprovadas fraudes e crimes, serão penalizados, não tenho dúvidas”

Pereira também destacou que o Fundo Garantidor de Crédito envolve recursos privados e que o sistema financeiro deve se organizar sob regulação do Banco Central

Disputa política e cenário eleitoral
No campo político, o presidente do Republicanos avaliou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ocupou espaço na direita após a prisão de Jair Bolsonaro (PL). “Não tem vácuo. Acho que foi ocupado por ele [Flávio]. Se o Bolsonaro apoiar você, você já sai com 20%. E tem 15% de antipetismo, aí já vai a 35%. Ele já está no segundo turno. São os números que estão aí”, afirmou

Ao comentar decisões tomadas pelo PL sem diálogo com outras legendas, declarou: “Não é uma coisa que ajuda no debate, na aproximação. [...] Isso distancia”. Sobre eventual apoio em 2026, disse que a discussão interna começará após o prazo da janela partidária

Questionado se considera que Jair Bolsonaro tentou um golpe de Estado, respondeu: “Eu acho que golpe de Estado você só dá se você tiver o apoio das Forças Armadas. Se tentou, não teve o apoio. Mas eu não sei. Não participei, não conheço, não me debrucei nos autos do processo que o julgou, então prefiro não dar essa opinião”

Pereira também afirmou não se incomodar com críticas ao Congresso e reiterou posições liberais na economia, defendendo privatizações amplas, com exceção de Banco do Brasil, BNDES, Caixa Econômica Federal e Petrobras

Aos 53 anos, Marcos Pereira é advogado, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, está em seu segundo mandato como deputado federal e já ocupou o cargo de ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços no governo Michel Temer (MDB)


Ao atacar o fim da escala 6x1, o deputado federal Marcos Pereira acabou fortalecendo justamente a campanha por mais descanso. Ao sugerir que trabalhadores pobres não saberiam o que fazer com um dia livre a mais — associando de forma preconceituosa lazer a vícios e desordem — o presidente do Republicanos, partido de Tarcísio de Freitas, transformou um debate trabalhista em julgamento moral. O argumento mistura fé com política pública, confundindo Teologia da Prosperidade com Filosofia da Exaustão, e levanta uma questão central: cabe ao Estado decidir qual é o caminho da virtude de cada trabalhador?

Descanso não é sinônimo de desvio. Direitos trabalhistas não são ameaça moral. A história mostra que avanços como a jornada de oito horas enfrentaram resistência, mas se consolidaram porque equilibrar trabalho e vida fortalece a sociedade. A pergunta não é o que o pobre fará com mais tempo livre. É por que alguém precisa trabalhar seis dias seguidos para provar seu valor. O debate sobre a 6x1 precisa de dados e respeito, não de estigmas. Trabalhadores não precisam de tutela. Precisam de dignidade.






quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Acompanhe por aqui as novidades do Ponto Ação Cultural 2025/2026

 



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O que é a Politica Nacional Cultura Viva? O que são Pontos de Cultura?


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Ponto de Cultura Ação Cultural inicia período de inscrição da oficina "Cinema na Palma da Mão" direcionada para integrantes de grupos culturais do Bairro Industrial e Adjacências

    O Ponto de Cultura Ação Cultural inicia, na segunda quinzena de março, a primeira turma da oficina de audiovisual com celular: "Cinema na Palma da Mão". As inscrições estão abertas para integrantes de iniciativas culturais localizadas no Bairro Industrial e arredores.

     sábado, 21 de fevereiro de 2026 

    Cineclube Realidade e Fratelli Tutti em ação

     sábado, 21 de fevereiro de 2026 - Já estamos no tempo de organizar o calendário e outras questões de logistica para o  início das oficinas de audiovisual e de teatro, bem como a continuidade do Cineclube Realidade. Crianças, adolescentes e jovens ligados à Paróquia São Pedro Pescador — e a comunidade em geral do Bairro Industrial e arredores — receberão um presente muito caro a quem é comprometido com a formação humana integral, na linha do que propôs o Papa Francisco na Encíclica Fratelli Tutti (Todos Irmãos) e por outras palavras e gestos de seu pontificado, endossados e continuados por seu sucessor, Leão XIV.




     

    O que é a Politica Nacional Cultura Viva? O que são Pontos de Cultura?

     








    Ponto de Cultura Ação Cultural inicia período de inscrição da oficina "Cinema na Palma da Mão" direcionada para integrantes de grupos culturais do Bairro Industrial e Adjacências

      O Ponto de Cultura Ação Cultural inicia, na segunda quinzena de março, a primeira turma da oficina de audiovisual com celular: "Cinema na Palma da Mão". As inscrições estão abertas para integrantes de iniciativas culturais localizadas no Bairro Industrial e arredores.


       Para quem corresponde ao critério de participação em uma iniciativa cultural no Bairro Industrial e adjacências e tem interesse/tempo disponível, pode se inscrever aqui


      Ter um integrante capacitado em audiovisual com celular é um diferencial estratégico para grupos de cultura de base comunitária (como capoeira, hip-hop, quadrilha junina, teatro, dança e etc.), pois transforma o celular  em uma ferramenta potente de resistência, registro e sustentabilidade cultural.

      As principais vantagens para o grupo incluem:

      1. Preservação da Memória e Identidade

      Registro Autêntico: O audiovisual permite imortalizar narrativas, ritmos e movimentos que poderiam se perder com o tempo, criando um acervo de "memória viva" do grupo.

      Documentação de Mestres e Trajetórias: Facilita o registro de mestres de capoeira, coreografias de quadrilhas e a evolução do hip-hop local, garantindo que o conhecimento ancestral e contemporâneo seja transmitido fielmente.

      2. Visibilidade e Difusão Cultural

      Alcance Digital: O grupo passa a produzir conteúdos (videoclipes, minidocumentários, teasers) que podem ser compartilhados em redes sociais, rompendo barreiras geográficas e alcançando novos públicos.

      Combate a Estereótipos: Ao dominar a própria imagem, o grupo deixa de ser apenas "objeto" de estudo e passa a ser narrador da sua própria história, combatendo preconceitos através de uma perspectiva interna e autêntica.

      3. Sustentabilidade e Captação de Recursos

      Acesso a Editais: Muitas leis de incentivo, como a Lei Paulo Gustavo, exigem ou valorizam registros audiovisuais (como portfólios em vídeo e videoclipes) para a aprovação de projetos e recebimento de recursos.

      Profissionalização: A capacidade de produzir fotos e vídeos com qualidade técnica (foco, iluminação e edição) melhora a imagem do grupo para contratantes de festivais e eventos.

      4. Fortalecimento da Cidadania e Protagonismo

      Letramento Digital: A oficina promove a inclusão produtiva e o protagonismo juvenil, integrando a tradição cultural com as novas tecnologias.

      Ferramenta de Denúncia e Reflexão: O audiovisual pode ser usado para evidenciar problemas da comunidade e mobilizar discussões sobre direitos e políticas públicas. 

      AÇÃO CULTURAL JUVENTUDE E CIDADANIA

      Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.

      Cineclube Realidade

      Reunir pessoas em uma sessão de obra audiovisual seguida de uma roda de conversa entre o público para compartilhar suas percepções sobre a obra. De novembro de 2025 a novembro de 2026, uma vez por mês no espaço de convivência da Igreja São Pedro Pescador e de forma itinerante em escolas e sede de grupos culturais e associações.

      Oficina de Audiovisual com Celular - Cinema na palma da mão.

      Capacitar os participantes a criar, filmar e editar vídeos de alta qualidade utilizando dispositivos móveis. Para adolescentes/jovens e professores de escolas públicas. Em março e abril de 2026 na Igreja São Pedro Pescador e em escolas do bairro industrial.

      Oficina de Teatro

      Estimular a expressão artística e a reflexão cidadã dos participantes. Em março e abril de 2026 na Igreja São Pedro Pescador e em escolas do Bairro Industrial, voltado à adolescentes e jovens residentes no bairro industrial e adjacências

      Mostra Arte e Cidadania,

      Promover a valorização e divulgação das diversas expressões culturais e artísticas do Bairro Industrial e de outras comunidades da periferia, proporcionando um espaço de interação entre artistas e público e fomentando o acesso à cultura. Em Maio de 2026 no Bairro Industrial

      Seminário introdutório de Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social.

      Promover um espaço de reflexão e diálogo sobre Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social visando potencializar iniciativas culturais com viés emancipador, solidário e participativo. Em Junho de 2026 no auditório da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Sergipe voltada a agente culturais com atuação em escolas e comunidades periféricas de Aracaju.

      Transmissões de lives de formação cultural

      Promover a formação cultural em geral por meio de quatro transmissões ao vivo de noventa minutos, abordando temas diversos do setor cultural, ampliando o acesso à informação e incentivando o debate. A transmissão será realizada pelo canal da Ação Cultural nos meses de agosto e setembro, destinada prioritariamente a agentes culturais que atuam com populações marginalizadas e periféricas


      Professores (oficineiros)  
      Marcel Magalhães –  Roteirista, produtor, diretor cinematográfico (DRT 0637), e coordenador de tecnologias sociais, na área da cultura digital. Em sua trajetória já participou de importantes festivais de cinema, como a Mostra de Cinema de São Paulo, In-Edit, Curta-SE, Festival Internacional del Cine Latino Americano de Havana, dentre outros. Foi produtor executivo e curador, do festival Fantasnor, da Mostra de Cinema Infanto-Juvenil “Curtinha”, e da Mostra de Cinema do Crasto. Também foi produtor e montador do documentário “Morena dos Olhos Pretos”, longa-metragem sobre a vida e obra da cantora Clemilda, considerada a rainha do forró, que hoje integra o catálogo da In-Edit TV, sendo distribuído pela O2 play. Além disso, desde 2017, integra iniciativas de economia criativa através do The Human Project, com os projetos LuCA e PLOC, onde auxilia jovens de comunidades do interior de Sergipe a se desenvolverem e ingressar no setor de audiovisual.


      Raoni Smith - É filmaker e comunicador em Aracaju, SE. Apaixonado por contar histórias visuais, atua na captura de momentos únicos, sempre valorizando a autenticidade. Iniciou o caminho no audiovisual através de oficina de audiovisual no Ponto Ação Cultural (2016). Técnico  em Rádio e TV, participou como assistente de direção de fotografia da série documental América: Reconstruindo Aracaju. Atualmente, é bolsista Agente Jovem Cultura Viva do Pontão Cultura Digital e Midia Livre   Durante a pandemia, atuou no suporte técnico de lives da Ação Cultural. Trabalhou nas Rádios Cultura e Fan FM, operando programas ao vivo e realizando cinegrafia. Em 2023, ministrou o curso virtual Uso das Novas Tecnologias para membros do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), abrangendo participantes de diversos estados brasileiros.




















      segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

      TRÊS RIOS - Diário de navegação sobre águas ameaçadas. Célio Turino

      Madeira, Tapajós e Tocantins são artérias de água e vida. Nutrem a biodiversidade e os povos da Amazônia. A privatização pode reduzi-los a rotas mortas, para escoar soja e minérios. Os indígenas resistem. Está na hora de derrubar o Decreto 12.600



      Escrevo navegando contra a corrente. 

      Antes de partir convido quem queira navegar comigo. Começo pelo Rio Madeira, partindo de Porto Velho até Nazaré, comunidade ribeirinha situada a mais de 100 quilômetros da sede do município. Foi antes da pandemia de Covid, quando fui para participar de um encontro de Museologia Social. Ali, o rio é parente, água que cozinha, que banha, que alimenta. São festas, memórias do tempo da borracha, identidade cultural amazônica, resistência. No caminho, dragas de mineração. Muitas, alocadas lado a lado a quase perder a conta. O barulho do motor, os garimpeiros separando ouro de cascalho, o mercúrio ficando no leito. 

      Vi aquelas cenas com tristeza, horas a fio. Um mês antes o rio Madeira havia subido dezessete metros sobre o seu leito normal. Uma devastação que deixou marcas, plantações arrasadas, casas com marca d’água até o teto, ribanceiras assoladas, encostas desabadas, troncos flutuando às margens. Uma enchente provocada. Daí pensei em um proverbio antigo, que ouvi de ribeirinhos de outro rio, o Tietê de São Paulo, cantadores do cururu: “Deus criou a cheia dos rios, o homem, a enchente.”. Como tantos desastres, aquela cheia dantesca não havia sido natural. Rio acima, as Usinas Hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau haviam mudado o fluxo das águas. Por conta das fortes chuvas rio acima, as águas represadas foram liberadas de uma única vez.

      O rio havia inundado tudo em questão de horas, mal dando tempo para os ribeirinhos se protegerem, muitos perderam móveis, a criação. Nos dias de permanência no encontro, banho no igarapé, troca de ideias e o imaginário amazônico. Na volta, antes de entrar no barco, desequilibrei-me e caí no rio barrento em que foi transformado o Madeira. Tripulação e passageiros ficaram preocupados, mas foi bom, eu tinha que mergulhar naquele rio. Foi susto e batizado.

      Voltei atento, contando novamente as dragas, imaginando o ouro extraído e o mercúrio a empestear o leito. Também pude avistar alguns botos acompanhando a embarcação. Um momento de alegria, assim como a visão das melancias transportadas nos pequenos barcos ribeirinhos. 

      Passados dez anos, sei que as dragas para extração de ouro continuam lá; dizem que em menor quantidade, felizmente, mas ainda assim seguem derramando mercúrio no leito do rio. E há outras dragas, mais industriais, agora o objetivo é para aprofundar o leito para agilizar o escoamento de mercadorias. Quais? Soja, milho, carnes... Não há melancias nem frutas da mata, nem mandioca, essas continuam com baixo valor e seguem transportadas em canoas. Mas os grãos que vem das imensas plantações do Centro-Oeste precisam de barcaças enormes e calado profundo. É preciso aumentar o lucro até que alcancem aos portos do Amazônia e os destinos além-mar. 

      Mais soja, mais milho, mais carnes... 

      Mais dinheiro, mais ganâncias e desigualdades.

      E o rio a virar estrada da ambição. Dragagem parece engenharia neutra. Não é. O fundo do Madeira, como o do rio Tapajós, carrega mercúrio acumulado por décadas de garimpo. Garimpo que nada mais deixou a não ser exploração e intoxicação. Revolver o leito significa reintroduzir esse metal pesado no fio d’água, contaminando flora e fauna aquática. O mercúrio, no contato com as bactérias, é transformado em metilmercúrio, uma potente neurotoxina ingerida pelos peixes e depois acumulada no tecido desses. E quanto maior o peixe, mais toxina é acumulada. A neurotoxina atinge sangue e cérebro, também a placenta, esse organismo temporário que se forma no útero para sustentar o feto. Pela placenta o feto recebe oxigênio e nutrientes. Com o mercúrio dentro do corpo, no lugar de filtrar resíduos, a placenta irá infiltra-los com veneno. Ë uma bioacumulação em toda cadeia alimentar, dos peixes pequenos aos grandes e desses aos humanos, aos que estão a nascer também.

      Toda cadeia alimentar é contaminada, ouro que vira morte e desolação. Diversas pesquisas em saúde pública já identificaram elevados níveis de mercúrio entre as muitas comunidades amazônicas, sobretudo ribeirinhas e indígenas. Impactos neurológicos a atingirem pessoas, ainda mais as crianças. Os frios dados estatísticos se transformam em tremor na mão de indígenas e ribeirinhos. Isso as planilhas jamais serão capazes de descrever. Comprometido o feto, o bebê nasce com dificuldades sensoriais e de locomoção. O andar cambaleante, a fala arrastada, os tremores, a perda de audição ou visão, tudo isso acontece em quem é contaminado por mercúrio. É preciso separar ouro de cascalho. E o que sobra é jogado fora.

      Mas, quem se importa? 

      São ribeirinhos perdidos na floresta perdida. 

      As águas, as matas, tem que dar passagem ao lucro descomunal.

      Crianças que jamais iremos ver, quando adultos, se um dia forem vistos, talvez alguém diga: “- que gente atrasada, nem sabem andar, mal falam, sequer olham nos olhos do interlocutor. Falta-lhes progresso!” Esse alguém irá virar o rosto e seguir em marcha ao que ele julga progresso.   

      Enquanto navego em texto os números do agronegócio também me acompanham. O Brasil exporta aproximadamente US$ 170 bilhões por ano em produtos agropecuários. Para ordem de grandeza o número aproximado já é o suficiente. Diferente dos números da cobiça, quando falamos de gente é necessário ser preciso, por isso descrevo o dano descrito acima. É o que o dinheiro provoca.

      Navegando tortuosamente, volto ao Agro. Cerca de metade da pauta exportadora nacional tem origem na grande plantação. Em meus tempos de colégio aprendi que o modelo colonial de exploração era baseado nas Plantation; passados séculos, o nome mudou para Agro, mas sob o mesmo modelo. A soja é campeã. Mais de 50% das exportações do grão passam por grandes tradings globais. Entre elas, a Cargill (logo vou chegar no porto dela), gigante do agronegócio multinacional, propriedade de trinta e cinco bilionários. Sim, trinta e cinco pessoas que nem sabemos o nome, que nunca pisaram nessa terra nem navegaram em seus rios, acumulando mais de um bilhão de dólares cada uma. Exemplifico pela Cargill, mas outras, como Bunge ou chinesas, não são diferentes dela. Apenas essa empresa responde por aproximadamente 16% das operações de exportação do agronegócio brasileiro. Coisa de R$ 126 bilhões em 2023, e lucro anunciado de R$ 2,4 bilhões. Anunciado e declarado foi isso, mas suspeito que o lucro é maior. Enfim... 

      Navegando um pouco mais nas informações fui procurar o investimento anunciado pela empresa para 2024 no Brasil: R$ 1,7 bilhão. Anunciado com pompa, como se fosse grande coisa, grande auxílio à nação brasileira. Investimento comemorado por empresários, governo e imprensa, ao menos pela imprensa que anuncia que o Agro é Pop. R$ 1,7 bilhão mal ultrapassa 1% do faturamento da empresa em um ano. Investimento em logística, porque para tecnologia e inovação o aporte é quase zero. Afinal, o modelo vigente é o mesmo que garante o lucro há quinhentos anos de exploração, desde o tempo da Plantação. O lucro da Cargill (e de outras como ela) concentra-se na logística e na intermediação comercial global, como no tempo do Mercantilismo colonial. 

      O dano ambiental dispersa-se nas margens. E com forte subsídio do Estado. Quem paga é povo com seus tremores neurológicos e vidas devastadas. Na safra  de 2024 o Agronegócio recebeu mais de R$ 400 bilhões em crédito, além de estimados R$ 158 bilhões as renúncias fiscais. Parte considerável desse crédito e renúncias fiscais foi aplicada na compra de venenos e agrotóxicos (opa! “defensivos agrícolas”) proibidos em outras partes do mundo. 

      Só para comparar, sem desviar da navegação. Enquanto isso a agricultura familiar, que representa a maioria dos estabelecimentos rurais e 70% da produção dos alimentos consumidos no país, recebeu cerca de R$ 76 bilhões. Para os grandes, e os mais grandes, que nem vivem no Brasil, exportações desoneradas e cadeia de valor favorecida; para o povo, uns trocados e custos ambientais socializados (e com muita doença junto). 

      Toda essa vastidão de renúncias fiscais e crédito subsidiado sequer vem acompanhada de condicionantes ecológicas estruturantes. Ao contrário, não contentes, querem devastar mais. Para o avarento só a acumulação imediata importa. Expansão da fronteira até o último palmo de terra, a última árvore derrubada, a última gota d’água. Expandir a fronteira agrícola, particularmente na Amazônia, significa floresta derrubada, rios envenenados e gente arruinada.

      Há um ciclo na devastação. Primeiro o comércio ilegal de madeira, depois o pasto para pecuária, depois a agricultura. Assim a terra se transforma em reserva de valor e a floresta torna-se etapa transitória da commodity. O solo exposto carrega sedimentos e agrotóxicos para os rios. Com menos árvores na floresta o ciclo hidrológico se altera. Diminuindo a evaporação produzida pelas árvores dissipam-se os milagrosos rios voadores. Esses que regulam as chuvas no estado de São Paulo e parte de Minas Gerais, Mato grosso do Sul e oeste do Paraná. Não fosse a evaporação gerada pela floresta Amazônia esse canto do mundo na faixa do trópico de Capricórnio seria um imenso deserto, como acontece com os demais territórios situados na mesma linha, o Atacama, Kalahari e Outback, também situados na mesma linha. NO sudeste do Brasil é diferente unicamente porque há os rios e florestas amazônicos, os ventos do leste e os Andes a rebater as nuvens. Mas agora, o que começa na floresta derrubada e no rio envenenado termina na água contaminada e na seca programada. 

      Do Madeira desemboco no Tocantins. 

      Navegar de memória e imaginação permite esses pulos. Saio de Marabá até alcançar as margens do Tocantins em frente ao Pedral do Lourenção. Que berçário! Imensas pedras feito ilhas, por quilômetros de rio. Navego em um pequeno barco, atraco entre as pedras e caminho sobre o pedral. Pedras imensas, vivas. Que lugar de abundância! A pedra ali não é obstáculo, é arquivo geológico, berçário de peixes, saber acumulado na relação entre água e tempo.

      Com amigos, estendemos uma faixa em defesa do Pedral. Eu estava com Silvana, amada companheira de viagens, a convite de Dan Baron e Manoela; foi um rio de encontros. Éramos poucos, foi há mais de uma década, navegamos em defesa daquelas rochas que são ventre, ameaçadas desde antes. 

      A cobiça não tem limites nem dá sossego para a vida, e insiste: quer implodir o Pedral! 

      A todo custo, não importa o que vão destruir. Querem o projeto de derrocamento explodindo as formações rochosas. Pela morte vão fazer passar gigantescos comboios de grãos. A questão não é a hidrovia, que existe nos três rios, barcos passam por lá desde há muito tempo, circulam mercadorias, há conexão de comunidades. O ponto é a ganância. Querem mais. Sempre querem mais. Barcaças enormes a atravessarem o rio até o dia em que não haverá mais rio. Só leito seco. Mas aí já haverão ganhado muito dinheiro e partirão para destruir outro lugar.

      A palavra é técnica. O impacto, não. Alterar o Pedral do Lourenço significa modificar a hidrodinâmica do Tocantins, interferindo nos ciclos reprodutivos da ictiofauna (quem sabe escrevendo em palavra técnica eu serei melhor escutado). Isso vai reconfigurar os modos de vida dos ribeirinhos. Sem peixe não há vida ribeirinha, nem cultura da abundância. 

      Recordo da volta. No caminho por estrada avistei uma imensa gleba de moradia popular sendo construída com recursos do “Minha Casa, Minha Viva”. Centenas de casinhas apertadas, janelas mais ainda, dessas de alumínio, que abrem apenas uma aba, para entrar luz e ar uns 30 centímetros de largura por cinquenta de altura. Aquele calor na periferia de Marabá, casinhas com janelas minúsculas, sem luz natural, sem vento, sem árvores, sem quintal. No meio da floresta derrubada. Para lá iriam os ribeirinhos amputados do sistema ecológico complexo e abundante em que viviam. Tiveram o rio roubado. Foi assim também em Altamira após Belo Monte. Hoje a cidade é assolada por três epidemias: violência, pobreza e depressão.

      Discursos oficiais, de todos os lados, havendo passado governos de diferentes matizes, alegam que é preciso explodir o Pedral para promover “destravamento logístico” e promover o desenvolvimento. Só se for (des)envolver, sair do envolvimento. Assassinato da natureza para gerar riqueza para uns poucos, os de sempre. Sempre os de sempre. Assassinando a natureza entulha-se as pessoas. Quando o Estado/Mercado dinamita a pedra, não está apenas abrindo caminho para barcaças, está escolhendo quem vai ganhar (poucos) e quem vai perder (muitos).

      Do Tocantins navego ao Tapajós. 

      O sol incide oblíquo sobre a superfície verde-dourada. Alter do Chão, o Caribe amazônico e suas águas translúcidas entre a areia branca. Agora a tensão é presente. 

      Dessa vez navego de longe, alucinadamente procurando notícias em redes sociais, relatos de amigos. O governo federal editou o Decreto nº 12.600/2025 no mês de agosto do ano passado. O decreto qualifica trechos dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no âmbito do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), autorizando estudos e procedimentos para concessão dos rios à iniciativa privada, que poderá utilizá-los como hidrovias e outras fontes de negócio. Concessão, o novo nome para privatização. 

      Com o decreto do governo empresas privadas poderão estruturar, manter e explorar economicamente esses “corredores logísticos” para transporte de cargas, especialmente grãos e minérios. Rios vivos, comunidades de seres, reduzidos a corredores logísticos, modelagens de concessão, administração privada, dragagem revolvendo o leito dos rios, operação de trechos fluviais integrados ao “sistema nacional de exportação”. Nem se esconde a intenção: cobrança de passagem. 

      Tudo resumido em um ato administrativo, como se não existisse vida por lá. O Decreto nº 12.600/2025 precisa ser revogado imediatamente!

      É ilegal. Descumpre a Convenção 169/1989 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Povos Indígenas e Tradicionais, do qual o Brasil é signatário. Pela Convenção da OIT é exigida “Consulta Livre, Prévia e Informada pelas populações afetadas por grandes empreendimentos. Para os que gostam de siglas: CLPI. Governos são obrigados a consultarem povos afetados por medidas e obras de impacto ambiental, a consulta tem que ser livre de manipulações, prévia a qualquer medida de impacto, e as comunidades precisam ser bem informadas sobre todos os efeitos resultantes do empreendimento. Revogar o decreto é um imperativo ético, civilizatório e legal. 

      Com essas três hidrovias abertas a grandes embarcações, haverá impactos cumulativos irreversíveis. A dragagem libera contaminação, o mercúrio, e não só, depositado no leito dos rios Madeira e Tapajós vai contaminar toda a comunidade de seres que habita aquele rio. O transporte de grande porte irá gerar pressão territorial, violência fundiária. Pensem nos “Parentinhos”, como os pequenos indígenas de vários povos se chamam. É tão lindo vê-los sorrindo, pulando n’água, brincando, se divertindo.

      Revogar o Decreto nº 12.600/2025 não é favor, é obrigação do Estado.

      Navego sob a lembrança de um outro Ato de governo, assinado há mais de vinte anos. Portaria nº 156 de 6 de julho de 2004, que constituiu o Programa Cultura Viva. Através dessa Portaria o Estado brasileiro chegou aos pontos mais afastados, esquecidos e silenciados do país, incluindo esses três rios. No Tapajós chegou com um Ponto de Cultura instalado em um barco, “Saúde e Alegria”; creio que ainda é Ponto de Cultura, mas, mesmo que não receba mais o reconhecimento oficial, o é na prática. Com “Saúde e Alegia” navega-se levando atendimento médico, cultura, palhaçaria, livros e leitura, comunicação comunitária. 

      No Tapajós, como em outros cantos e barrancos, Pontos de Cultura florescem como faróis ribeirinhos. O Estado chegou dispondo, não impondo. Cultura Viva não é ornamento; é infraestrutura social que fortalece autonomia e protagonismo sociocultural. Com ela o rio não é via de escoamento, é eixo de comunidade.

      Dois decretos, dois programas de governo, dois tempos diferentes. Um mede sucesso por tonelada (de grão ou minério) exportada; outro, media o êxito por Saúde e Alegria no território. 

      Minha navegação vai chegando ao fim. 

      Não sem antes reafirmar, esse ato administrativo que privatiza rios (podem usar o eufemismo de concessão, mas é privatização) é um gesto político profundo de desprezo à dignidade da natureza e suas gentes. Rios são comunidades de seres, cheios de histórias, de vida, encontros, transformá-los em infraestrutura concedível e mercantilizada é de uma violência inominável. 

      Chego a Santarém. Um dia talvez escreva sobre a cerâmica ancestral e a confluência de vidas por essas bandas da abundância. Mas com esse ensaio navegante finalizo falando dos indígenas e ambientalistas que ocupam, neste momento, o porto da Cargill. É o povo em levante. São milhares, combativos e firmes. Como firmes e combativos foram seus ancestrais, que o colonizador só conseguiu derrotar no século XVIII. Protestam contra o decreto. Mas não é só contra o Decreto, lutam pela vida, deles e de todos nós. 

      A resistência indígena que acontece agora em Santarém, sobre a qual busco migalhas de informação, uma vez que a chamada grande imprensa impõe censura sobre os fatos, é, neste momento, o fato mais relevante de luta popular em 2026. 

      Distante. Como navegante de memória e imaginação, vejo rostos, ouço cantos e quero empunhar faixas lado a lado a eles. Gritar ao coração do mundo até fazer as pessoas escutarem o rio. Nesse momento meu grito é escrita silenciosa, mas expressa a mesma agonia dos parentes indígenas, da gente de consciência, que sabem que o rio sendo ferido. Escrevo como lamento e grito to para que outros escutem e se juntem a essa luta. Onde quer que estejam, na forma que puderem.

      A resistência indígena representa a defesa de outra concepção de mundo. É Bem Viver. Não é acumulação, é distribuição. Para os povos do Tapajós, e todos os povos de raiz em todas as partes do planeta, o rio é sujeito de relação, comunidade de seres. E o Bem Viver que não cabe na planilha de exportação. 

      Entre o decreto governamental, a ganância empresarial e o canto indígena, há uma escolha civilizatória. Se transformarem o rio em ativo logístico, concedido, aprofundado, retificado, mercantilizado, o território vivo deixará de ser respeitado em seus limites ecológicos e culturais. Será via morta. E morreremos todos, até os que não vivem lá.

      Os três rios contam a mesma história sob perspectivas distintas. No Madeira, o sedimento carregando mercúrio da avidez (que acontece também no Tapajós); no Tocantins, o pedral ameaçado pela explosão; no Tapajós, o povo em união, oferecendo os corpos como barragem ética para toda a nação. 

      Três rios. 

      Três advertências. 

      E uma pergunta que corre junto com a correnteza:

      Que país queremos ser quando decidimos coisificar o destino das águas que nos mantêm vivos?




      Olhando Belém 





      Segue link para quem quiser conhecer mais sobre a campanha do protocolo da cultura viva.

      Em editorial vergonhoso, Globo diz que indígenas “chantagearam” Lula: O texto atribui aos povos originários “invasão de propriedade privada”; o Estadão fez um editorial na mesma linha #revistafórum

      O Brasil não quebrou por causa do fim da escravidão em 1888, não quebrou por causa da Lei que aprovou o 13º salário em 1962 e nem quebrará com o fim da escala 6X1...

       Toda vez que se propõe garantir direitos trabalhistas no Brasil, surge o mesmo alarme de colapso econômico. Foi assim na abolição de 1888, no debate do 13º salário e agora na discussão sobre o fim da escala 6x1: dizem que o país vai quebrar, que o desemprego e a inflação vão explodir e que o próprio trabalhador será prejudicado. O debate sobre jornada e impactos é legítimo, mas o discurso do medo costuma esconder menos uma preocupação técnica e mais uma disputa por poder e controle sobre o tempo e a vida de quem trabalha. A história mostra que nem a abolição destruiu a economia, nem o 13º salário implodiu empresas; ao contrário, tornaram-se marcos estruturais, ainda que com desafios e dívidas sociais não resolvidas. Questionar a 6x1 é questionar uma lógica que naturalizou o esgotamento, e prever o apocalipse como reação automática revela mais sobre quem teme mudanças do que sobre números. Direitos não vêm sem custo, mas transformam vidas. E quase nunca anunciam o fim do mundo que prometem. 


      Para quem não acredita em luta de classes 
      Renato Janine Ribeiro
      (e citando Warren Buffet: “ela existe sim, e nós ricos a vencemos”) :
      O ataque à escala 5 x 2 é enorme.
      Ela é popular; população a quer, tanto esquerda quanto direita. Uma rara unanimidade, num país polarizado.
      Os ataques:
      1. Vai quebrar a economia
      2. Vai aumentar o déficit público
      3. Nao temos produtividade, por isso, ela vai destruir a competitividade
      4. Brasileiro já trabalha pouco, gosta de lazer ( = é vagabundo)
      5. Para aprovar, precisa reduzir impostos das empresas (“desoneração”, que corta políticas sociais).


      Como a mídia brasileira sustentou a escravidão

      Livro revela, após vasta pesquisa: jornais, mais conservadores que o próprio Império, bloquearam lei abolicionista e atrasaram em duas décadas e fim do tráfico de africanos para o Brasil


      Por José Tadeu Arantes, na Agência Fapesp


      Em 7 de novembro de 1831, no primeiro ano do período regencial, a Assembleia Geral decretou e a Regência sancionou uma lei proibindo o tráfico de escravos africanos para o Brasil. A lei, bastante explícita em seu texto, declarava livres todos os escravos vindos de fora do Império e impunha penas bastante duras àqueles que os haviam importado. A interpretação corrente na historiografia é a de que essa lei, precedida por um tratado com a Inglaterra que impunha prazo final para o tráfico, foi feita “para inglês ver”, isto é, para acalmar a pressão externa e deixar internamente tudo na mesma.



      Tal ponto de vista foi contestado pelo livro Imprensa e escravidão: política e tráfico negreiro no Império do Brasil (Rio de Janeiro, 1822-1850), de Alain El Youssef, publicado com o apoio da Fapesp.


      “Antes de a lei entrar em vigor, houve uma grande intensificação da importação de escravos, porque os senhores sabiam que a determinação da Regência em abolir o tráfico era real. E, quando a lei foi aplicada, o tráfico realmente entrou em curva descendente e quase terminou. Ele foi sendo retomado aos poucos, a partir de 1834 e 1835. O que eu procurei mostrar foi que a imprensa teve um papel fundamental nessa retomada. E não só na retomada, como também na manutenção desse tráfico ilegal por cerca de 15 anos, até 1850”, disse Youssef à Agência Fapesp.


      Seu livro resultou de pesquisa também apoiada pela Fapesp, na qual ele consultou todos os jornais publicados no Rio de Janeiro entre 1822, data da Independência, e 1850, data final do tráfico negreiro transatlântico, para verificar qual o papel exercido pela imprensa, tanto na crítica quanto na defesa da importação de africanos. “Constatei uma estreita relação entre os artigos publicados na imprensa e os debates realizados no parlamento imperial. Ao mesmo tempo em que defendiam o tráfico no parlamento, os conservadores utilizavam os jornais para justificar o contrabando de escravos e combater aqueles que o criticavam”, afirmou.


      “Percebi também uma grande sintonia entre a defesa do tráfico veiculada pela imprensa e o desenvolvimento da economia cafeicultora – uma sintonia principalmente com os cafeicultores do Vale do Paraíba, cuja atividade estava em plena expansão desde o final da década de 1820. Para tocar essa expansão, eles precisavam incorporar cada vez mais mão de obra às suas fazendas. Os conservadores se uniram a esses senhores, e, juntos, conseguiram transformar a lei que aboliu o tráfico em letra morta durante 15 anos, desde 1835, quando esse grupo se compôs e surgiu com força política, até 1850, data em que o tráfico terminou de fato”, informou o pesquisador.


      Segundo a lei de 1831, o africano que aportava em território brasileiro era considerado livre, não podendo, portanto, ser escravizado. O que Youssef evidenciou em seu estudo foi como os conservadores, por meio da imprensa, justificaram para o eleitorado a manutenção da propriedade ilegal desses africanos, escravizados a despeito da lei. “A intersecção de minha pesquisa, focada na imprensa, com a de outro historiador, Tâmis Peixoto Parron, que estudou o debate sobre o tráfico no parlamento imperial, mostra como esse grupo pró-tráfico, que atuava no parlamento, atuava na imprensa também, fazendo com que os discursos parlamentares chegassem ao restante da sociedade de forma mais rápida, ampla e eficiente”, acrescentou.


      No campo conservador, o campeão da defesa do tráfico foi o deputado Bernardo Pereira de Vasconcelos (1795 – 1850), representante dos interesses dos grandes fazendeiros e um dos personagens mais influentes do período imperial. Destacou-se também na defesa do tráfico a chamada “Trindade Saquarema”, que constituía o núcleo do Partido Conservador, fundado por volta de 1835 sob a denominação de Regresso. Compunham a tríade Honório Hermeto Carneiro Leão (Marquês de Paraná), Paulino Soares de Souza (Visconde de Uruguai) e Joaquim José Rodrigues Torres (Visconde de Itaboraí). “Na década de 1830, esses conservadores aglutinaram-se em torno do jornal O Sete d’Abril, que mantinha vínculo muito estreito com Bernardo Pereira de Vasconcelos. Na década de 1840, organizaram-se em torno do jornal O Brasil, dirigido por Justiniano José da Rocha, um dos mais destacados redatores do período”, detalhou Youssef.


      Exemplo do combate ideológico travado pelos conservadores na imprensa foi a “notícia”, veiculada por O Sete d’Abril, acusando os adversários do tráfico de receberem dinheiro do exterior: “Saibam estes abalizados Pais da Pátria”, escreveu o redator com ironia, “que Governos estrangeiros, profundamente convencidos de que os produtos de suas colônias não podem concorrer nos mercados com os brasileiros, e que não há outro meio senão encarecer a estes pelo alto preço de braços livres em vastos, férteis e não povoados Estados, têm resolvido remunerar os que promoverem a extinção da escravatura no Brasil com a quantia de 50:000$000 de réis (…)” [O Sete d’Abril, 03/11/1835, trecho citado no livro].



      Meses mais tarde, assumindo um tom épico, o jornal clamava abertamente pela revogação da lei que proibiu o tráfico: “Fez-se uma lei 10 vezes mais dura, mais fatal mesmo que o famoso Tratado [com a Inglaterra]; lei que passou na efervescência das paixões, no delírio da Revolução, na exaltação dos Partidos, na deslocação de todas as coisas e no devaneio de todas as ideias; lei que pode produzir um incêndio em todo o Brasil; lei que anima a delação, que dá ao roubo a cor da virtude, ao crime o gesto da legalidade; falamos da lei de 7 de novembro de 1831, origem de muitos males presentes e futuros, e a cujo respeito já diversas Representações subiram à Assembleia Geral Legislativa e à Assembleia Provincial do Rio de Janeiro” [O Sete de Abril, 27/07/1836, trecho citado no livro]


      As forças contrárias ao tráfico tiveram grande protagonismo no início da década de 1830, quando a importação de escravos realmente caiu bastante. Esse grupo estava ligado ao Partido Moderado, surgido no fim do Primeiro Reinado, tendo à frente o padre Diogo Antônio Feijó (1784 – 1843), que foi regente do Império, e o poeta, jornalista, livreiro e político Evaristo da Veiga (1799 – 1837), fundador e editor de A Aurora Fluminense, um dos principais jornais da década de 1830 no Brasil. “Parcela significativa dos moderados se inspirava fortemente nos abolicionistas britânicos. Naquele momento, a abolição da escravidão não fazia parte de seu horizonte de expectativas, mas seus protagonistas defenderam com unhas e dentes o fim do tráfico e o cumprimento do tratado internacional e da lei nacional a esse respeito”, destacou o pesquisador.


      Influência inglesa


      Entre 1849 e 1850, a frota da Royal Navy, a marinha real britânica, aportou no Rio de Janeiro, pressionando os políticos brasileiros a acabarem de vez com o tráfico negreiro. Existe um grande debate sobre as verdadeiras motivações do firme posicionamento da Inglaterra contra o tráfico. “A explicação tradicional, de que a Inglaterra queria gerar um mercado para os seus produtos, e de que os escravos transformados em trabalhadores livres participariam da composição da massa de consumidores, parece insuficiente”, ponderou Youssef.


      Para o pesquisador, seria necessário repensar as motivações britânicas a partir de outros componentes, como, por exemplo, a forte influência das sociedades antiescravistas sobre a opinião pública britânica. A primeira delas, The Anti-Slavery Society (Society for the Mitigation and Gradual Abolition of Slavery Throughout the British Dominions), fundada em 1823 por William Wilberforce, Thomas Clarkson e outros, combateu pela abolição da escravidão no âmbito dos domínios ingleses. E a British and Foreign Anti-Slavery Society, que resultou da reformulação da primeira, em 1839, ampliou o foco para a abolição em escala mundial. Eram grupos humanitários, com forte motivação religiosa, como bem o mostram alguns documentos da época.


      “Em 1846, a Inglaterra decretou que todos os grãos e produtos similares adquiridos no mercado mundial entrariam no território britânico sem pagamento de imposto. Essa lei, de cunho liberal, acabou incentivando algumas produções escravistas em outros cantos do mundo. Os casos clássicos foram o açúcar, produzido com trabalho escravo em Cuba, e o café, produzido com trabalho escravo no Brasil. Diante disso, determinados grupos antiescravistas passaram a exigir que o país tomasse alguma iniciativa no campo militar, porque, pela via diplomática, estava claro que o tráfico não terminaria. Como o escravismo cubano estava protegido pelos Estados Unidos, já então uma nação poderosa, e com a qual a Inglaterra não queria conflito, a pressão britânica voltou-se para o Brasil, que não estava plenamente integrado à esfera de influência norte-americana, não dispunha de um sistema militar expressivo e ainda orbitava fortemente na zona de influência inglesa”, explicou o pesquisador.


      Que o tráfico só tenha de fato terminado a partir da pressão militar britânica, quase duas décadas depois de sua abolição formal, é uma prova da força dos conservadores na política interna brasileira. “O que os saquaremas fizeram, e isso tem uma conexão direta com sua atuação na imprensa, foi silenciar todas as opiniões contrárias ao tráfico nos espaços públicos do Império. Entre 1837 e 1849, eles criaram uma espécie de consenso e as vozes que tentaram se levantar contra ele foram rapidamente abafadas. Defender projetos conservadores é um dado de longa duração na história da imprensa brasileira. Os principais jornais do país apenas tiveram tendência mais progressista em momentos históricos específicos, como na década de 1880, quando o discurso abolicionista predominou na imprensa brasileira”, concluiu Youssef.

      Imprensa e escravidão – política e tráfico negreiro no Império do Brasil (Rio de Janeiro, 1822-1850)

      Autor: Alain El Youssef

      Editora: Intermeios

      Ano: 2016

      Páginas: 328

      Preço: R$ 50,00

      Mais informações: www.intermeioscultural.com.br/imprensa-e-escravido–poltica-e-trfi

      Por José Tadeu Arantes, na Agência FAPESP

      A criação do 13º salário sob muita pressão

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