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247 – Cristian Romero, da Argentina, e Borja Iglesias, da Espanha, protagonizaram momentos de distanciamento em relação a Donald Trump durante a cerimônia de premiação da Copa do Mundo de 2026. O argentino não cumprimentou o presidente dos Estados Unidos, enquanto o espanhol fez um contato rápido e seguiu pelo palco quase sem olhar para o político.
As atitudes ocorreram após a vitória da Espanha por 1 a 0 sobre a Argentina na final disputada no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Trump participou da entrega das medalhas ao lado do presidente da Fifa, Gianni Infantino, e também esteve presente no momento em que o capitão Rodri recebeu a taça.
Romero passou pela fila de autoridades sem falar ou apertar a mão de Trump. O comportamento do zagueiro argentino chamou atenção porque os demais integrantes das duas seleções cumprimentaram o presidente norte-americano durante a passagem pelo pódio.
A reação de Borja Iglesias foi diferente, mas também demonstrou desconforto. Ao receber a medalha de campeão mundial, o atacante espanhol apertou rapidamente a mão de Trump, evitou prolongar o contato visual e seguiu imediatamente para encontrar os companheiros.
O jogador já havia antecipado que não desejava permanecer muito tempo diante do presidente dos Estados Unidos. Questionado antes da decisão sobre como reagiria ao encontro, Iglesias respondeu:
“Não quero que me mandem à prisão (risos). Espero que passe muito rápido e eu me esqueça.”
Conhecido por manifestações políticas públicas, o atacante espanhol já havia criticado Trump. Em maio, durante uma participação no programa espanhol “La Revuelta”, Iglesias afirmou que era contrário ao político norte-americano porque “gosta das pessoas que lutam pelo progresso e pela defesa dos valores fundamentais”.
Na véspera da final, o jogador também usou as redes sociais para classificar como “vergonha” os preços cobrados pelos ingressos da decisão. Algumas entradas chegaram a ser oferecidas no mercado de revenda por valores equivalentes a R$ 47 mil.
Trump foi recebido com vaias vindas de diferentes setores do estádio quando entrou no gramado para a cerimônia. Também houve aplausos, mas a manifestação contrária ao presidente foi ouvida durante sua caminhada até o palco.
A participação de Trump não terminou com a entrega das medalhas. Depois de ajudar Infantino a entregar o troféu a Rodri, o presidente permaneceu no centro do pódio enquanto os jogadores espanhóis se preparavam para levantar a taça.
Com isso, Trump apareceu ao lado da seleção campeã em uma das imagens mais simbólicas da competição: o primeiro momento em que o troféu foi erguido. Sua presença na entrega havia sido anunciada previamente por Infantino, mas a permanência no palco durante o início da comemoração ultrapassou a função inicialmente prevista.
A atuação de Trump em assuntos relacionados ao torneio já havia provocado controvérsia durante a Copa. Uma ligação do presidente norte-americano para Infantino foi apontada como parte da mobilização que antecedeu a suspensão da punição ao atacante Folarin Balogun, expulso na vitória dos Estados Unidos sobre a Bósnia e Herzegovina.
Após o Comitê Disciplinar da Fifa permitir que Balogun enfrentasse a Bélgica nas oitavas de final, Trump comemorou a decisão nas redes sociais:
“Obrigado à FIFA por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça.
Na premiação da final, Romero adotou a atitude mais direta ao passar sem cumprimentar Trump. Borja Iglesias, por sua vez, manteve apenas o contato protocolar que havia indicado antes da partida, encerrando rapidamente o encontro com o presidente norte-americano.
Artistas palestinos pintaram um mural agradecendo a Lamine Yamal, aproveitando a classificação da Espanha para a final da Copa do Mundo.
A obra é inspirada na foto que viralizou, na qual Yamal aparece com a bandeira da Palestina após o título da LaLiga com o Barcelona. “Gracias, Yamal. Estamos com quem ama a Palestina”, diz a legenda da publicação oficial com crianças que posaram em frente à arte.
A homenagem também é um agradecimento à própria postura do governo espanhol, que desde 2025 adotou medidas contra Israel, como embargo de armas e reforço da ajuda humanitária, classificando a “guerra” em Gaza como genocídio
Fonte: AFSC/Phoenix
Vitória de Lamine Yamal é também da Palestina
Meses antes do Mundial, um gesto de solidariedade à Palestina transformou o jogador em símbolo para milhares de palestinos
Leão XIV desejou que a Copa do Mundo fosse uma "escola de fraternidade".
Fora dos gramados, porém, jogadores como Lamine Yamal, Kylian Mbappé e Vinicius Jr. tornaram-se alvo de ataques racistas, xenófobos e islamofóbicos nas redes sociais.
O primeiro módulo da terceira turma de audiovisual com celular - cinema na palma da mão foi, de fato, marcante. E não poderia ser diferente. Assim como nas duas primeiras edições, esta iniciativa do coletivo cultural Ação Cultural (Ponto de Cultura certificado pelo Ministério da Cultura) carrega consigo a essência da novidade. No entanto, desta vez, o fator "novo" veio acompanhado de desafios que vão além da simples adaptação logística.
Esta edição ocorreu em uma sala adaptada no Aracaju Parque Shopping, localizado no bairro industrial, nos dias 17 e 18 do corrente e, nesta edição, em dois finais de semana. As duas primeiras oficinas ocorreram no espaço de convivência da Igreja São Pedro Pescador, sendo a primeira no turno da tarde e a segunda no turno da noite durante os dias úteis.
Mudaram os dias, os horários e os locais. Essa alteração, que à primeira vista pode parecer burocrática, revelou-se uma virada de chave fundamental: ela sinaliza uma mudança de público e, por que não dizer, de perspectiva. E é exatamente aí que a metodologia, embora consagrada, precisa ser revisitada.
A METODOLOGIA E O PÚBLICO
A base do curso é a mesma: uma metodologia pioneira e inovadora, aplicada pelo ministrante Marcel Magalhães, que ancora o aprendizado em duas tecnologias fundamentais: o celular e a Inteligência Artificial.
Porém, como bem observou nosso facilitador, a metodologia é viva. Ela se transforma a depender do público. Nesta nova turma, as discussões e abordagens sobre o "olhar" cinematográfico e a escolha das temáticas para os minidocumentários já apontam para um caminho distinto. A perspectiva dos novos alunos influencia diretamente a escolha dos personagens e das histórias a serem contadas, exigindo uma sensibilidade apurada do ministrante para conduzir o grupo sem perder a essência do aprendizado técnico.
O DEBATE ACALORADO: OS LIMITES E POSSIBILIDADES DA IA
Se a mudança de público já era um ponto de atenção, a discussão sobre a Inteligência Artificial elevou o nível do debate. E com razão.
Um dos participantes trouxe à tona questões urgentes e pertinentes que vão muito além do "como usar a IA generativa". Foram levantados pontos críticos que ecoam no cenário global:
O Problema Ambiental: A construção e manutenção dos data centers, essenciais para o funcionamento da IA, demandam um consumo altíssimo de água e energia. Até que ponto estamos dispostos a ir para alimentar essa tecnologia?
A Estagnação Criativa: A IA é alimentada por dados e informações do passado. Existe o risco real de uma repetição infinita de padrões, que pode levar à acomodação e ao embotamento da nossa capacidade de inovação humana.
A Apropriação Cultural e Intelectual: O uso de trabalhos de artistas, intelectuais e criadores de conteúdo para "treinar" as IAs, muitas vezes sem consentimento ou compensação, é uma ferida aberta que precisa ser discutida.
A RESPOSTA DO FACILITADOR: FERRAMENTA, NÃO FIM
As preocupações eram muitas, mas a resposta de Marcel Magalhães foi cirúrgica e equilibrada. Ele reconheceu a gravidade dos problemas, especialmente o ambiental, mas trouxe um contraponto lúcido:
"É uma ferramenta e, como tal, deve ser usada como meio e não como um fim."
Essa frase ecoou na sala. Marcel reforçou que a IA deve ser utilizada de forma parcial e sempre sob o comando de quem cria. Para extrair o melhor que a tecnologia pode oferecer, o criador precisa possuir uma base sólida de conhecimento técnico, estético e intelectual. Caso contrário, a IA não passa de uma muleta, ou pior, de um limitador.
Sobre a questão ambiental, a visão é de esperança cautelosa. É esperado que os avanços tecnológicos futuros ditem novos rumos para diminuir o forte impacto negativo dos data centers, mas a consciência sobre o problema agora é parte integrante do processo criativo e politico socioambiental.
A DEMOCRATIZAÇÃO DO AUDIOVISUAL
Apesar dos pesares, a mensagem final foi de empoderamento. Marcel trouxe o debate de volta ao chão da oficina: o celular e a IA, juntos, representam a democratização da produção audiovisual.
Há alguns anos, produzir um filme ou documentário exigia milhões de dólares ou reais em equipamentos e equipes técnicas. Hoje, com dezenas ou centenas de reais (incluindo um bom smartphone), é possível criar conteúdo de alta qualidade. A tecnologia que preocupa é a mesma que coloca o poder da narrativa nas mãos do povo, da comunidade.
CONCLUSÃO
O primeiro dia da terceira turma não foi apenas uma aula; foi um termômetro do nosso tempo. Ao mesmo tempo em que celebramos a acessibilidade e a inovação, somos forçados a encarar os dilemas éticos, ambientais e sociais que essas ferramentas carregam.
Neste novo ciclo da oficina, fica claro que o aprendizado vai além do manuseio do celular ou do prompt de IA. A verdadeira lição está em aprender a usar a tecnologia com consciência, responsabilidade e, acima de tudo, com um olhar crítico e humano.
Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.
Fotos: Raoni Smith
O OLHAR DOS PARTICIPANTES
"O primeiro módulo da oficina Audiovisual com celular aconteceu nos dias 17 e 18 de julho e possibilitou aos participantes entrar em contato com o universo teórico-reflexivo e metodológico da construção de roteiro para documentário. O professor Marcel trouxe neste módulo toda a sua vivência, escuta e reflexão de anos para que os participantes pudessem ter uma experiência de criação consciente a partir do método ensinado.
A metodologia aplicada do professor Marcel buscou abarcar todas as realidades coexistentes no grupo que compõe a oficina.
Este primeiro módulo afirma-se como um caminho de acesso democrático e possibilidade acessível para a realização de um excelente roteiro e trabalho no caminho do audiovisual."
Lúcio Ananda Nataraja
"A oficina me proporcionou uma introdução aos fundamentos da produção do audiovisual como linguagem, enquadramento além da importância da construção de histórias e narrativas. A experiência estimula a criatividade o trabalho em equipe e o desenvolvimento de um olhar mais crítico para a produção de conteúdos."
Jacqueline
"Quando comecei o curso de Audiovisual, estava com muita expectativa de aprender e me desenvolver em relação as edições dos vídeos. Sempre tive interesse em conhecer mais sobre edição, roteiro e a construção de narrativas, e esse curso tem sido uma oportunidade muito importante para mim.
Nas primeiras aulas, foi apresentado o quanto o audiovisual é complexo. Isso despertou ainda mais minha vontade de aprender e evoluir. Outra coisa que tem me marcado é conhecer melhor o Bairro Industrial. O curso tem me feito enxergar a comunidade de uma forma diferente, valorizando sua história, sua cultura e as pessoas que vivem ali.
Estou gostando muito dessa experiência e tenho certeza de que ela vai contribuir bastante para o meu crescimento, tanto pessoal quanto profissional."
Vanessa Nascimento de Melo
"Nos dias 17 e 18 de julho eu participei de uma oficina
audiovisual e gostei de certa forma( aprendemos a utilizar o chatgpt como um
assistente para criação de roteiro) foi bem útil e obter essa ajuda foi bem legal. Nos dias 25 e 26 de julho (neste final de semana) teremos outro encontro, estou bem animado para
saber o que faremos dessa vez. Gostei do professor, ele conseguiu explicar
direito, eu tive um pouco de dificuldade para entender, mas depois foi fácil,
gostei da oficina.
Em um momento em que a Igreja Católica procura aprofundar o diálogo com os grandes desafios culturais do século XXI, poucas figuras possuem tanta relevância quanto o cardeal português José Tolentino de Mendonça. Poeta, ensaísta, teólogo e prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano, Tolentino tornou-se uma das principais vozes da Igreja contemporânea na defesa da cultura, da literatura e das artes como espaços privilegiados de encontro entre a experiência humana e a experiência religiosa.
Sua presença na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada entre os dias 22 e 26 de julho de 2026, representa mais do que a participação de um cardeal em um dos maiores festivais literários da América Latina. Ela simboliza uma mudança de paradigma na forma como a Igreja compreende sua relação com a cultura contemporânea.
Uma voz singular da Igreja portuguesa
Antes de assumir responsabilidades no Vaticano, José Tolentino de Mendonça já era reconhecido como um dos intelectuais mais influentes da Igreja Católica em Portugal. Sua trajetória sempre transitou entre a teologia, a poesia, a crítica literária e o ensino universitário.
Ao contrário de uma tradição eclesial marcada, muitas vezes, por um discurso predominantemente apologético, Tolentino propõe uma Igreja capaz de escutar a cultura antes de falar a ela. Em seus livros e conferências, dialoga com escritores como Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Maria Gabriela Llansol e Rainer Maria Rilke, demonstrando que a literatura não é apenas objeto de apreciação estética, mas também um espaço onde as grandes perguntas da existência continuam sendo formuladas.
Para o cardeal português, a arte não serve apenas para ilustrar a fé. Ela possui autonomia, densidade própria e capacidade de revelar aspectos profundos da condição humana. Essa compreensão aproxima a Igreja dos artistas, escritores e intelectuais, abrindo possibilidades de diálogo que ultrapassam as fronteiras confessionais.
A cultura no centro da missão da Igreja
Desde que assumiu o Dicastério para a Cultura e a Educação, Tolentino tem contribuído para consolidar uma das intuições centrais do pontificado do Papa Francisco: a evangelização passa necessariamente pelo encontro com a cultura.
Essa perspectiva encontra inspiração direta no Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que convida a Igreja a compartilhar "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias" da humanidade.
Na prática, isso significa reconhecer que a literatura, o cinema, a música, as artes visuais, a filosofia, a universidade, as ciências humanas e até mesmo os desafios da cultura digital constituem espaços onde a Igreja pode aprender, dialogar e discernir.
Mais do que utilizar a cultura como instrumento pastoral, Tolentino propõe que ela seja reconhecida como um verdadeiro lugar teológico, isto é, um espaço onde Deus continua a falar através da história, da beleza, da criatividade e das inquietações humanas.
Os dilemas do homem contemporâneo
Talvez uma das razões para o reconhecimento internacional de José Tolentino de Mendonça esteja em sua capacidade de abordar as questões contemporâneas sem reduzi-las a debates exclusivamente morais.
Em seus livros, homilias e ensaios aparecem temas como:
a solidão;
a aceleração do tempo;
a crise da atenção;
o excesso de informação;
o silêncio;
a contemplação;
a vulnerabilidade humana;
a hospitalidade;
a busca de sentido;
a beleza como caminho espiritual.
Sua escrita combina densidade teológica e linguagem poética, tornando-se acessível tanto ao público religioso quanto aos leitores interessados em filosofia, literatura e espiritualidade.
A Flip 2026 e um encontro histórico
A presença de José Tolentino de Mendonça na 24ª Flip, realizada em Paraty entre 22 e 26 de julho de 2026, confirma essa vocação de diálogo.
Sua participação acontece na quinta-feira, 23 de julho, às 10 horas, na mesa "Saber de cor o silêncio", ao lado do escritor e poeta brasileiro Edimilson de Almeida Pereira, com mediação da jornalista Sofia Mariutti.
A escolha do tema não poderia ser mais coerente com sua obra. O encontro propõe uma reflexão sobre poesia, linguagem, silêncio e identidade, reunindo dois autores cuja produção literária se caracteriza pela atenção à memória, à experiência humana e à força transformadora da palavra.
O significado desse convite ultrapassa o ambiente literário. É raro que um cardeal em exercício na Cúria Romana participe da programação principal de um festival internacional de literatura. Sua presença evidencia o reconhecimento de que José Tolentino de Mendonça ocupa hoje um lugar relevante não apenas na Igreja Católica, mas também no pensamento cultural contemporâneo.
O que essa visita pode significar para a Igreja no Brasil?
Embora a participação de Tolentino na Flip não tenha caráter institucional junto à Igreja brasileira, sua presença pode exercer influência significativa sobre o debate pastoral e cultural.
Historicamente, a Igreja no Brasil desenvolveu uma sólida tradição de reflexão sobre justiça social, pobreza, direitos humanos, democracia e cuidado com a criação. Essas prioridades permanecem fundamentais.
Entretanto, a contribuição de Tolentino sugere uma ampliação desse horizonte. Cultura, arte e literatura deixam de ser compreendidas como temas periféricos para se tornarem dimensões essenciais da própria evangelização.
Essa perspectiva pode estimular dioceses, universidades católicas, centros culturais e instituições de formação a estabelecer um diálogo mais intenso com escritores, artistas, cineastas, músicos e pesquisadores.
A Campanha da Fraternidade e uma nova sensibilidade cultural
É importante destacar que a escolha dos temas da Campanha da Fraternidade pertence à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), resultado de um processo colegiado de discernimento pastoral.
Não seria correto afirmar que a visita de José Tolentino de Mendonça levará diretamente à escolha de um tema voltado à arte ou à cultura.
Contudo, sua reflexão pode fortalecer uma percepção cada vez mais presente na Igreja: a de que muitos dos desafios sociais possuem também uma dimensão cultural.
Nesse sentido, futuras campanhas poderiam incorporar temas relacionados à cultura do encontro, à educação para a sensibilidade, à formação estética, ao patrimônio cultural, à cultura digital, à leitura, à preservação da memória e ao papel das artes na construção da dignidade humana.
Mais do que uma campanha "sobre arte", seria uma compreensão da cultura como dimensão transversal da vida cristã e da missão da Igreja.
Uma Igreja que aprende a escutar
Talvez a maior contribuição de José Tolentino de Mendonça seja deslocar uma pergunta tradicional.
Durante muito tempo, a preocupação predominante foi saber como a Igreja poderia utilizar a cultura para transmitir sua mensagem.
Tolentino propõe outra questão: como a Igreja pode escutar aquilo que a cultura contemporânea tem a dizer sobre o ser humano, suas esperanças, suas angústias e sua busca por sentido?
Essa inversão de perspectiva representa uma das mudanças mais profundas do pensamento católico contemporâneo. Ela não relativiza a fé, mas amplia sua capacidade de diálogo.
Num mundo marcado por polarizações, crises de sentido e profundas transformações culturais, a presença de José Tolentino de Mendonça na Flip 2026 sinaliza que literatura, poesia, arte e espiritualidade continuam sendo caminhos privilegiados para compreender a condição humana. E talvez seja justamente nesse encontro entre beleza, cultura e transcendência que a Igreja encontre novas formas de anunciar o Evangelho às gerações do século XXI.
POETA, CARDEAL NO VATICANO E ATRAÇÃO DA FLIP, PORTUGUÊS JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA VAI REZAR MISSA EM PARATY E LANÇA ANTOLOGIA EM QUE CONVOCA ‘DISSIDENTES’, COMO PASOLINI E PATTI SMITH, PARA PENSAR A ESPIRITUALIDADE
SEGUNDO CADERNO
O PADRE QUE QUER SER POEMA
RUAN DE SOUSA GABRIEL
ruandesousagabriel@...com.br
O GLOBO
O primeiro
poema escrito pelo português José Tolentino Mendonça já traçava um mapa do que
viria a ser sua obra. Todas as suas preocupações literárias (e espirituais) já
se anunciavam nos versos de “A infância de Herberto Helder”, publicado em 1990.
O título presta homenagem ao autor nascido na Ilha da Madeira (assim como
Tolentino) que se firmou como o maior nome da chamada Poesia Experimental
Portuguesa. Os primeiros versos do poema juntam o Antigo e o Novo Testamento, o
relato da Criação e a abertura do Evangelho de João.
Na versão
de Tolentino, o princípio não era o Verbo, mas “a ilha”. E “o Espírito de Deus/
abraçava as águas”, como no Gênesis. Nas estrofes seguintes, o eu lírico
recorda um tempo ancestral, quando olhava as estrelas e não pensava que
houvesse perigo naqueles “corpos de fogo”; espanta-se com a natureza da poesia
(“não sabia que todo o poema/ é um tumulto/ que pode abalar/ a ordem do
universo”) e termina por descobrir o divino para além de toda racionalidade:
“Nesse tempo/ ainda era possível/ encontrar Deus/ pelos baldios/ isto foi
antes/ de aprender a álgebra”.
O mistério
que é intrínseco ao fazer poético, e que pode nos colocar em contato com o
sagrado, sempre foi a maior das obsessões de Tolentino.
— Acredito
muito no que disse o poeta catalão Joan Brossa: “O poeta não quer fazer poesia;
quer ser poema” — diz o simpático escritor de 60 anos, que parece fazer poesia
enquanto fala. — A reflexão sobre o trabalho poético é, no fundo, uma busca
sobre o que significa habitar o mundo poeticamente. Se eu tivesse de dizer qual
era a grande invenção humana, não diria a roda, mas a palavra. O homem viu na
palavra a possibilidade de transporte da própria consciência, de conhecimento
de si e de encontro com o outro.
COM O PAPA
FRANCISCO
“A infância
de Herberto Helder” abre “Os enigmas singulares”, a primeira antologia de
Tolentino publicada no Brasil. Ele vem lançá-la na 24ª Festa Literária
Internacional de Paraty (Flip), que começa na próxima quarta-feira e homenageia
a poeta Orides Fontela. Na quinta, às 10h, o português conversa com o
brasileiro Edimilson de Almeida Pereira sobre os enigmas da poesia.
Mas
Tolentino não estará em Paraty apenas como poeta. Na quarta, às 18h30, antes da
abertura oficial da Flip, ele rezará uma missa na Igreja Matriz de Nossa
Senhora dos Remédios, no centro histórico da cidade.
Sim,
Tolentino é padre. Ou melhor: cardeal. Foi nomeado em 2019 pelo Papa Francisco
e atualmente é prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, na Cúria
Romana. É responsável por supervisionar a educação católica no mundo todo,
proteger o patrimônio artístico da Igreja e liderar os diálogos com o setor
cultural. O cardeal já deu aula em instituições católicas no Brasil e teve
livros de teologia editados por aqui. Mas sempre quis mesmo é que sua poesia
chegasse ao país.
— Sou
devedor da tradição literária brasileira. Sei que, para o público da Flip, a
poesia não é disciplina universitária, material para teses de doutorado, mas é
instrumento humano, pão de cada dia, que ajuda a construir a cidade e mapear a
vida — diz Tolentino, que falou ao GLOBO por vídeo do Vaticano, embora tivesse
“Portugal nas costas”, como destacou (atrás dele, impunha-se o quadro
“Biblioteca em fogo”, da franco-portuguesa Maria Helena Vieira da Silva).
POESIA NÃO
DEVOCIONAL
Tolentino
se tornou sacerdote em 1990, mesmo ano em que lançou seu primeiro livro, “Os
dias contados”. Sua poesia, no entanto, não é devocional nem está preocupada em
reafirmar dogmas, mas investiga, de peito aberto, as diferentes dimensões da
espiritualidade. Um bom exemplo é o poema “Grafito”, que traz uma epígrafe do
filósofo francês Emmanuel Levinas (“O poema é o ato espiritual por excelência”)
e, em seguida, lista tudo o que “o poema pode conter”. Para espanto do leitor,
o que cabe nesse “ato espiritual” é tudo aquilo que, à primeira vista, nada tem
de divino, mas é banal e às vezes terrível: “venenos”, “excursões campestres”,
“uma bicicleta caída junto às primeiras paixões sombrias”, “uma guerra civil”,
“um disco dos Smiths”.
Em outro
poema, “Para ler aos noviços”, ele afirma que “Deus não aparece no poema/
apenas escutamos a sua voz de cinza” e indica o “modo verdadeiro de rezar”:
“Estende o teu corpo longo do barco/ que desce silencioso o canal/ e deixa que
as folhas mortas dos bosques/ te cubram”. “Rezar deve ser como essas coisas/
que dizemos a alguém que dorme/ temos e não temos esperança alguma”,
confunde-nos o cardeal-poeta em “O esterco do mundo”.
Em suas
investigações sobre o divino, Tolentino percorre a sabedoria de pensadores e
artistas que chama de dissidentes, como o cineasta soviético Andrei Tarkóvski,
o italiano Pier Paolo Pasolini e a americana Patti Smith. São personalidades
com aspirações espirituais, mas não se submeteram a ortodoxias e apontam uma
relação questionadora e livre com a religião e o sagrado.
— Esses
artistas são mestres inesperados da vida espiritual, que me ajudaram a perceber
a fé como dissidência. De fato, a fé é uma dissidência do visível. Ter fé é
dizer que o que nós vemos não é tudo. Crer é uma luta. Na Bíblia, Jacó sai
mancando do seu encontro com Deus — diz Tolentino, autor do poema “Patti Smith
explica o Cântico dos Cânticos”, o livro poético (e erótico) do Rei Salomão que
está na Bíblia. — O que uma artista com o percurso de Patti Smith tem a dizer
certamente interessa a quem crê.
O cardeal é pop
José Tolentino Mendonça, que cita “um disco dos Smiths” num de seus escritos,
fala sobre nomes como Tarkóvski: “Esses artistas são mestres inesperados da
vida espiritual”, diz. “A fé é uma dissidência do visível. Ter fé é dizer que o
que nós vemos não é tudo. Crer é uma luta”.
‘Os enigmas
singulares’
Autor: José Tolentino Mendonça.
Editora: Assírio & Alvim / Grupo Porto Editora.
Páginas: 216.
Preço: R$ 99,90.
‘PASOLINI
PERCEBEU QUE A RELIGIÃO É NECESSÁRIA’, NA PÁGINA 2
ADMIRAÇÃO POR PASOLINI E ROSALÍA E CURIOSIDADE PELA TECNOLOGIA
Se com Patti
Smith o cardeal entendeu o Cântico dos Cânticos, com Pasolini ele aprendeu
“sobre a blasfêmia/ que a santidade tem de ser”, conforme lemos no poema
“Retrato de Pasolini em Nova York”, um dos poemas mais bonitos do livro. No
posfácio a “Os enigmas singulares”, o organizador do volume, Marcio Cappelli,
afirma que o escritor português elegeu o italiano como “uma espécie de
artistas-modelo”. Marxista, homossexual e um dos intelectuais mais
interessantes do século XX, Pasolini admirava o cristianismo e o papel da
religião popular na cultura.
— Num tempo
em que a religião era uma espécie de endereço ilegítimo para a razão, Pasolini
percebeu que a religião é necessária para entender o humano, que está ligada a
um mundo primordial, selvagem — afirma Tolentino. — Ele foi um visionário, que
estabeleceu um corte na modernidade. Sua lucidez áspera nos oferece uma
gramática para entender o mundo.
SONÂMBULOS RUMO À IA
Outra
artista que o cardeal admira é Rosalía, que se apresenta no Rio mês que vem.
Ano passado, quando a espanhola lançou “Lux”, disco que pergunta como amar a
Deus e ao mundo como se fossem um só e a mesma coisa, Tolentino declarou que
ela havia captado “uma profunda necessidade na cultura contemporânea de se
aproximar de razões espirituais, de cultivar uma vida interior, de valorizar a
experiência religiosa”. O escritor percebe que os meios intelectuais e
artísticos já não têm tanta aversão ou desconfiança da religião como no
passado.
— Onde há
20 anos havia preconceito, suspeitas e distanciamento, há uma curiosidade sábia
— diz ele, acrescentando que, no início de sua carreira, seus fiéis não sabiam
que ele era poeta e seus leitores ignoravam que fosse padre. — Hoje sou
apresentado como as duas coisas. Ambas me pedem tudo. A poesia pede que eu seja
poeta e a vida religiosa pede que eu seja religioso. Cada uma me pede uma
inteireza.
Como
sacerdote e poeta, Tolentino celebrou a encíclica “Magnifica Humanitas”,
publicada em maio, na qual Leão XIV pede pela preservação da dignidade e da
autonomia humanas em meio ao avanço da inteligência artificial. O cardeal
afirma que a mensagem do papa fomenta o debate e combate a desinformação e o
“sonambulismo cultural que nos faz avançar em fila para um destino desconhecido
em vez de pensar, negociar e construir o futuro em liberdade”. Ele não descarta
eventuais colaborações poéticas com a tecnologia, mas faz questão de sublinhar
os limites da máquina.
— A
literatura do futuro vai ser fazer em diálogo com essa ferramenta — diz o
português. — A IA pode gerar literatura, mas sempre como resultado da
interlocução com o ser humano. Porque a IA não chora, não reza, não pede perdão
e, sozinha, também não faz poesia. Ela só imita pensamento e emoção. E o poeta,
como esclareceu Fernando Pessoa de uma vez por todas, não imita, ele finge.
Essa será sempre a diferença entre o humano e a máquina. (Ruan de Sousa
Gabriel)
CARDEAL-POETA
AFIRMA QUE A CULTURA HOJE TEM UMA ‘CURIOSIDADE SADIA’ EM RELAÇÃO À RELIGIÃO E
CELEBRA ENCÍCLICA DE LEÃO XIV SOBRE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
‘A infância
de Herberto Helder’
“No
princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude
das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia
que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar a ordem do
universo agora
acredito
Eu era
quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Patti Smith no Chelsea Hotel — fotografia de David Gahr
Deitamo-nos juntos na noite ilegal trespassados por faíscas de prata Talvez fôssemos sem saber nessa hora a senha aguardada por mundos futuros Talvez desvendássemos um centro para as rosas e agora é de lá que partem os comboios a decidir o curso dos impérios Pouco importa que tenha chegado a aurora aos bares que cumprem horário nocturno e o cheiro dos desinfectantes mostre como se apagam os vestígios do amor
Por meio de um poema escrito pelo próprio Tolentino intitulado “Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos”. Ele imagina a artista punk interpretando o texto bíblico. Aqui está o contexto completo:
1. O que é o Cântico dos Cânticos (O contexto bíblico)
É o livro mais poético, sensual e erótico do Antigo Testamento. Ele descreve o desejo, o corpo e o amor entre um amado e uma amada. Na tradição católica, ele é lido como uma alegoria do amor entre Deus e a alma humana. Tolentino resgata essa dualidade: o amor humano e o amor divino não se opõem, eles se encontram.
2. Quem é Patti Smith para Tolentino (O contexto artístico)
Patti Smith é a "poetisa do punk", visceral, crua e profundamente espiritual. Na infância, foi criada católica, e isso transborda em obras como o disco Easter e o livro Just Kids. Para Tolentino, ela representa a "dissidente" perfeita: alguém que vive a espiritualidade com paixão, mas sem se submeter a dogmas ou a moralismos rígidos.
3. O conceito dos "mestres inesperados" (O contexto teológico)
No artigo do jornal, Tolentino diz que “esses artistas são mestres inesperados da vida espiritual”. Ele acredita que a fé não é uma certeza, mas uma luta (como a de Jacó com o anjo). Para ele, Deus não fala apenas dentro das igrejas; Ele fala através da arte que é autêntica, inquieta e que ousa perguntar.
4. A explicação poética (O encontro entre o sagrado e o profano)
Quando Tolentino escreve um poema onde Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos, ele está dizendo o seguinte: "Se você quer entender a paixão divina descrita na Bíblia, não procure apenas os teólogos. Procure uma artista que entende de desejo, de amor, de dor e de poesia bruta".
Na visão do cardeal, a artista punk é capaz de traduzir para a linguagem do século XXI aquilo que o texto milenar da Bíblia já dizia: que o sagrado não é algo frio ou distante, mas algo que arde, que pulsa e que está profundamente enraizado na experiência humana.
Em resumo: O contexto é a defesa de que a arte (mesmo a mais profana, como o punk rock de Patti Smith) tem autoridade espiritual para falar sobre Deus. Tolentino usa Patti Smith como uma ponte para mostrar que a Igreja precisa escutar a cultura contemporânea, e não apenas ensiná-la.
O Cântico dos Cânticos lido pelas três grandes religiões
01 Novembro 2011
O Cântico dos Cânticos: o poema de amor mais conhecido, mais comentado, mais traduzido da história, e também o mais misterioso. O que significa o título? Por que um poema tão fortemente erótico foi assumido desde a antiguidade (Concílio de Yavné, 90 d.C.), no cânone do Antigo Testamento? E como foi possível que, nas tradições religiosas do Ocidente, judaica, católica, cristã, a literalidade do texto, que descreve sem meios termos uma relação sexual, tenha sido "freudianamente" removida em favor de uma interpretação mística muitas vezes puxada pelos cabelos, tão forçada na negação da evidência, de modo a parecer quase absurda a um olhar secular e malicioso?
A reportagem é de Viviana Kasam, publicada no jornal Il Sole 24 Ore, 30-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Reflexos de poesia!
"Às escondidas
Os primeiros chuviscos restituem-nos
o incrível cheiro da terra
mas nós estaremos quem sabe longe
do que tem significado
Preenchemos a inscrição numa piscina municipal
não sabemos bem o motivo ou não dizemos a ninguém
como os dias nos pedem a dureza
ofegante,instintiva
que têm para os nadadores as braçadas
Uma sombra nos acalma
Uma claridade nos dói
Cedo receamos a felicidade daquelas imagens
que reencontramos dentro de nós
e não se ligam a nada"
de Igual Para Igual(2001)
José Tolentino Mendonça