terça-feira, 15 de setembro de 2026

Vazamentos no STF: os príncipes que viraram sapos e a guerra pela informação. Zezito de Oliveira

 Vazamentos e debate no STF revelam múltiplos vilões na Corte, suspeitas envolvendo André Mendonça, Fux, Kássio e Toffoli no escândalo do Banco Master, e acendem o alerta sobre o controle da informação e o risco de um governo Flávio Bolsonaro.

 O que ficou claro nos vazamentos de hoje e no debate no STF é que há mais vilões no STF do que aquilo que foi plantado pela maioria dos jornalistas dos grandes órgãos de imprensa.

A intenção inicial foi pichar Alexandre de Moraes; depois, o ministro que se propôs a isso, André Mendonça, em razão dos vazamentos seletivos e da descoberta de outros, mostrou-se à altura dos vícios do primeiro, embora não das virtudes do grande martelo dos golpistas, papel desempenhado pelo ministro Alexandre de Moraes. E hoje os vazamentos acrescentaram novas suspeitas de desvios éticos envolvendo Daniel Vorcaro e os ministros Luiz Fux e Kássio Nunes Marques, sem contar o ministro Dias Toffoli, já desgastado.

O que salta aos olhos nos vazamentos dos últimos dias — e explica o esforço concentrado de André Mendonça para manter sigilo sobre uma parte das investigações ligadas ao escândalo do Banco Master e questões correlatas — é, por outro lado, motivo de lamentação: o quanto jornalistas se prestaram a querer fazer crer que existia somente um ex-herói que se tornou vilão. Agora, com os vazamentos e com a descoberta do porquê das manobras de André Mendonça para realizar vazamentos seletivos e proteger um grupo dentro e fora do STF da desmoralização que significaria a abertura de todas as investigações, vários príncipes se tornaram sapos, como na canção “Malandragem”, de Cazuza e gravada por Cássia Eller.

E agora a disputa, na sociedade e no processo eleitoral, é por saber quem tem o controle dos meios de produção da informação para fazer valer a versão dos fatos, o que vale tanto para os veículos convencionais quanto para os mais contemporâneos.

Para quem não tem acesso aos convencionais, valem os contemporâneos, como a formação de um verdadeiro exército de guerrilheiros digitais. Mas faltou visão à maioria de nossos líderes de esquerda para investir nisso, o que vai além do papel de influencers e de repassadores de conteúdos prontos. Mesmo assim, tomara que isso não signifique derrota eleitoral para um agrupamento formado por pessoas tão corruptas e perversas como os Bolsonaros e aqueles que estão no seu entorno. Seria uma tragédia, ainda mais porque Flávio Bolsonaro nem é o melhor candidato que a extrema direita teria para parecer o que não é— o que significa dizer, uma liderança  terrivelmente contrária a maioria do povo e à soberania da nação como foi o  governo do pai.

Flávio repete do pai o que há de mais tóxico: a retórica de vitimização, o ataque constante às instituições e ao sistema eleitoral quando se vê ameaçado, o moralismo de fachada, o uso da família como máquina política e o envolvimento em esquemas de corrupção — no caso dele, as investigações sobre a “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio, a ligação com Fabrício Queiroz e as movimentações patrimoniais incompatíveis, assim como o mega esquema de corrupção envolvendo o filme sobre a vida de Bolsonaro pai. Tal como Jair, Flávio transforma investigação em perseguição política e faz da radicalização nas redes seu principal combustível. Sem o carisma bruto do pai, porém, ele expõe de modo mais cru o que o bolsonarismo tem de pior: o nepotismo, a violência verbal, a aliança com o universo miliciano e o uso do poder para proteger os próprios interesses.



Artigos e Notas relativas as discussões sobre a Sala de Cinema Walmir Silveira

 Nota do Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe sobre a Sala de Cinema Walmir Almeida  - 14/09/2026

O Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe segue acompanhando, com preocupação, as discussões sobre a Sala de Cinema Walmir Almeida, equipamento cultural público que integra o Centro Cultural de Aracaju.

1. Contexto histórico e institucional

Antes de discutir a situação atual, é preciso compreender o contexto em que a sala está inserida.

O prédio da antiga Alfândega, localizado na Praça General Valadão, é tombado pelo Decreto Estadual nº 21.765/2003. Foi doado à Prefeitura de Aracaju em 2005 e posteriormente reformado com recursos públicos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Em 2014, passou a funcionar como Centro Cultural, constituído por salas para oficinas, sala de exposição, um teatro e uma sala de exibição nomeada Sala Walmir Almeida.

Compreender esse quadro é importante para pensar a utilização da sala, pois ela não deve ser compreendida de forma isolada, mas como parte de uma estrutura pública para a democratização do acesso e o fortalecimento da circulação e da produção audiovisual em Aracaju.

É importante destacar que, embora não operasse de forma comercial, com uma programação diária de exibições fílmicas, a Sala Walmir Almeida funcionou abrigando diversas mostras e festivais de cinema da cidade, além de exibições institucionais promovidas pela gestão municipal, inclusive para estudantes da rede pública. Em 2017, passou a abrigar também o Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira (NPD-OV), importante espaço de formação e desenvolvimento do audiovisual no município.

2. A necessidade de investimentos e a Lei Paulo Gustavo

Ao longo dos anos, tornou-se evidente a necessidade de investimentos na manutenção e modernização da sala. O sistema de som e o projetor deixaram de funcionar adequadamente, e outros problemas de infraestrutura e manutenção também passaram a ser percebidos em diferentes áreas do prédio.

Em diversas ocasiões, o Fórum Permanente do Audiovisual chamou a atenção da gestão para a necessidade de investimentos e de uma reforma no espaço. O não atendimento das solicitações sempre tinha como argumento a falta de recursos.

Com a Lei Paulo Gustavo (Lei Complementar nº 195/2022), abriu-se uma possibilidade concreta de destinação de recursos para recuperação e modernização da Sala Walmir Almeida. É importante, entretanto, lembrar a origem e a finalidade desses recursos. A verba destinada, no âmbito do Eixo II, para a manutenção, digitalização, reforma e modernização de salas de cinema é oriunda do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e possui regras de aplicação e destinação estabelecidas pela legislação e pelos instrumentos que regulamentam sua execução.

3. O Edital de Chamamento Público nº 011/2023 da Funcaju

Em Aracaju, a regulamentação foi regida pelo Edital de Chamamento Público nº 011/2023 da Funcaju, que objetivava selecionar uma Organização da Sociedade Civil (OSC), a fim de firmar Termo de Colaboração com a Funcaju para a adequação da Sala de Cinema Walmir Almeida, bem como para a gestão da programação do espaço por 12 (doze) meses, no valor de R$ 668.059,15 (seiscentos e sessenta e oito mil, cinquenta e nove reais e quinze centavos).

O edital estabelece uma série de condições que precisam ser consideradas ao analisar a atual situação da sala. Entre as exigências para a apresentação da proposta estavam:

Planejamento Técnico;

Planejamento Financeiro, incluindo o valor global e a previsão de captação de recursos complementares, como patrocínios e recursos da Lei Rouanet, outros editais ou emendas parlamentares;

Cronograma de Trabalho;

Programação mínima de quatro exibições por semana;

Apresentação de uma lista tríplice para a escolha da Diretoria Artística, composta por dois profissionais indicados pela OSC e um servidor da Funcaju.

Pelos termos do edital, os bens permanentes adquiridos são, em regra, de titularidade da Administração Pública e, após o término do termo, a Administração decide se os mantém, se os doa à OSC ou se os doa a terceiros para fins de interesse social.

Também é importante observar o item 3.3 do edital, que trata da governança do espaço, pois estabelece a criação de uma Coordenação Gestora da Sala, formada pela Diretoria Executiva, uma Diretoria Artística e um representante da própria OSC. Previa ainda que as diretrizes executivas da sala fossem definidas conjuntamente.

Esse entendimento é fundamental para a compreensão de que a parceria firmada não se trata da transferência da gestão integral, autônoma e por tempo ilimitado de um equipamento público para uma organização da sociedade civil. Trata-se da execução de um objeto específico, por prazo determinado, submetida às condições estabelecidas no referido edital, no Termo de Colaboração e à governança compartilhada prevista para o espaço.

4. A instituição contemplada

A instituição contemplada no edital foi o Terreiro Centro São Lázaro, com o qual foi firmado um termo de colaboração. Ou seja, a Instituição Terreiro São Lázaro foi a responsável pela execução do objeto do edital: adequar a Sala de Cinema e gerir sua programação por 12 (doze) meses.

Outro ponto importante é que, de acordo com as disposições da Lei nº 13.019/2014 (MROSC), que rege as organizações sem fins lucrativos e está prevista no Edital de Chamamento Público nº 011/2023 da Funcaju, o objetivo da parceria deve ser a realização de atividades sem fins lucrativos, uma vez que sua execução do objeto só ocorre por já haver verba pública para tal.

Apesar do que está disposto no edital, o Terreiro São Lázaro firmou uma parceria com a AVBR Produções e passaram a desenvolver as atividades de forma conjunta. Essa parceria tornou possível a transformação da Sala Walmir Almeida no “Cinema do Centro”, uma sala de cinema de rua, mas com viés comercial.

Por meio dessa parceria, a sala recebeu um projetor digital DCP proveniente de outro projeto contemplado com recursos públicos do audiovisual: a AVBR Produções foi contemplada no Edital nº 06/2023 — Tarcísio Duarte, executado pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe — FUNCAP/SE, também do Eixo II, nas categorias 2.1. Digitalização de Sala de Cinema, no valor de R336.000  ode Sala de Cinema, no valor de R 204.835,81 (duzentos e quatro mil, oitocentos e trinta e cinco reais e oitenta e um centavos).

A situação merece atenção porque envolve a utilização de recursos públicos provenientes de diferentes instrumentos de fomento e sua aplicação em um mesmo equipamento cultural. Mas antes de fazer qualquer apontamento, é necessário compreender com clareza:

a) quais foram os objetos de cada edital;

b) quais obrigações foram assumidas pelos respectivos contemplados;

c) de que forma os equipamentos e recursos foram incorporados à Sala Walmir Almeida;

d) qual será a utilização da sala agora, com o fim do termo de colaboração.

5. A Audiência Pública de julho de 2026

Em 17 de julho de 2026, durante Audiência Pública realizada pela Secretaria de Cultura de Aracaju, no Centro Cultural, a gestão municipal informou sobre o fim do termo de colaboração, apresentou as possibilidades de realização de um novo chamamento público e discutiu formas de participação dos agentes culturais na gestão da Sala Walmir Almeida.

Na ocasião, também foi anunciado que o próximo edital seria realizado com recursos próprios da Prefeitura, e não com recursos federais, e que a Sala seria mantida com vocação para a exibição cinematográfica. A gestão informou ainda que a publicação do novo edital estava prevista para acontecer até o final de agosto, fato que não ocorreu.

Entretanto, na audiência não foram apresentadas de forma clara as diretrizes para o novo modelo de funcionamento da Sala Walmir Almeida. Permanecerá uma parceria com uma Organização da Sociedade Civil, nos moldes do Termo de Colaboração anteriormente adotado? Será estabelecido outro instrumento de parceria com uma instituição ou empresa? Será adotado um modelo de gestão compartilhada, envolvendo o poder público e agentes culturais?

A definição do modelo é fundamental para garantir a continuidade das políticas públicas e a clareza quanto às responsabilidades da gestão municipal e dos eventuais parceiros, especialmente considerando a natureza pública do equipamento e os investimentos já realizados na Sala Walmir Almeida.

6. Posicionamento do Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe

Diante desse cenário, o Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe entende que o debate sobre o futuro da Sala Walmir Almeida precisa ser realizado de forma pública, transparente, fundamentada e com urgência. Principalmente, que a definição de seu modelo de gestão e de sua programação deve considerar a vocação original e a função pública do equipamento, garantindo uma curadoria que contemple a diversidade da produção cinematográfica nacional e internacional, especialmente obras que não encontram espaço no circuito predominantemente ocupado pelo cinema blockbuster.

A Sala também deve estabelecer formas gratuitas de utilização, visto o caráter público do espaço, para a realização de atividades promovidas por cineclubes, festivais, mostras e demais iniciativas do setor audiovisual de Aracaju, ampliando a circulação de obras, a formação de público e o acesso da população a diferentes cinematografias.

Mais do que definir quem irá administrar o espaço, é fundamental estabelecer o mais rápido possível qual será a finalidade da Sala Walmir Almeida. Por se tratar de um equipamento público concebido e estruturado para a exibição cinematográfica, sua utilização deve preservar essa finalidade, não permitindo que sua função de sala de cinema seja desvirtuada ou subordinada a outros usos que comprometam sua vocação cultural e audiovisual.

Eventuais parcerias firmadas pela gestão pública devem, portanto, contribuir para o fortalecimento da sala como espaço de exibição, formação, circulação e democratização do acesso ao cinema.

Dessa forma, compreendemos que a notícia do encerramento das atividades do “Cinema do Centro” gera preocupação e apreensão entre o público e o setor audiovisual. Isso porque, ao longo da vigência da parceria, não se observou a implementação, pela Prefeitura de Aracaju, da Coordenação Gestora prevista no edital, estrutura que deveria assegurar a participação conjunta da gestão pública e da OSC na definição das diretrizes do espaço.

Soma-se a isso a ausência de uma definição, em tempo hábil, sobre o modelo que sucederia o Termo de Colaboração. Como consequência, houve a interrupção das atividades da sala, sem que estivesse definida a transição para um novo modelo de gestão.

Para o Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe, uma transição dessa natureza deveria ter sido planejada, discutida com antecedência, sem que as atividades fossem interrompidas, especialmente por se tratar de um equipamento cultural público de extrema importância para o setor cultural.

Reforçamos, portanto, a urgência da publicação do próximo edital, que deve estabelecer um modelo de gestão que não se dissocie da finalidade cinematográfica e pública da Sala Walmir Almeida, assegurando uma programação diversa e o compromisso com a exibição da produção cinematográfica nacional e internacional, especialmente de obras que não encontram espaço nas grandes redes de cinema.

Esse modelo também deve definir com clareza as responsabilidades pela gestão dos bens e equipamentos instalados no espaço, garantindo sua preservação e utilização em benefício da população e do setor audiovisual.

A Sala Walmir Almeida é patrimônio público e integra uma política cultural construída ao longo de anos. Seu futuro, portanto, não deve ser definido apenas a partir de quem irá administrá-la, mas principalmente a partir da sua função pública e da sua vocação cinematográfica.

Qualquer modelo de gestão ou parceria deverá assegurar que o espaço permaneça acessível à população e ao setor audiovisual, fortalecendo a exibição cinematográfica, a formação de público, a circulação da produção nacional e internacional e o desenvolvimento das iniciativas culturais de Aracaju.

Att.,

Fórum Permanente do Audiovisual de Sergipe.

https://drive.google.com/file/d/1oHyHDEWJ7Ok5zs4yNW8FzZeSgtp6Ne3v/view

SOS Cine Walmir Almeida: ‘Cinema do Centro’ não pode virar mais uma porta fechada em Aracaju

Publicado em 11 de setembro de 2026 - às 10:00 - Fábio Rogério

O Cine Walmir é o único contraponto ao circuito comercial tradicional na capital sergipana. 

O Cine Walmir Almeida — carinhosamente conhecido como o Cinema do Centro — suspenderá suas atividades por tempo indeterminado a partir do próximo dia 15 de setembro. Como a gestão do espaço é realizada de forma compartilhada entre a AVBR Produções (Rosângela Rocha e Deyse Rocha) e a Secretaria Municipal da Cultura de Aracaju, a continuidade operacional da sala depende da formalização de um novo Termo de Cessão até que um novo edital seja publicado. 

Segundo nota da Secretaria, “a continuidade e o fortalecimento das atividades no local permanecem entre as prioridades da gestão municipal”. A realidade, no entanto, contraria a declaração: os trâmites internos de renovação poderiam e deveriam ter sido antecipados. A burocracia jamais pode se sobrepor à vida cultural da cidade, visto que, em nosso setor, a descontinuidade é sempre devastadora.

O que diríamos se uma escola pública fosse fechada? Um cinema público possui exatamente essa mesma força formadora. Ele não é mero passatempo: educa, expande sensibilidades, molda personalidades e nos ensina a enxergar o outro. Por isso, suspender as operações do Cine Walmir Almeida, ainda que em caráter temporário, equivale a fechar as portas de uma escola. Além disso, manter uma sala de exibição no centro de Aracaju tem um peso urbanístico, social e político incalculável. Significa preservar a região central, mantendo-a viva e ocupada para além do horário comercial, combatendo o esvaziamento urbano noturno e devolvendo as ruas à população. O centro de Aracaju precisa ser vivo, humano e pulsante.

A importância do Cine Walmir Almeida sobressai quando analisamos o circuito exibidor de Aracaju em sua totalidade. Atualmente, a cidade conta com seis cinemas: o Cinemark do Shopping Jardins (9 salas), o Cinemark do Shopping RioMar (7 salas), o Centerplex do Aracaju Parque Shopping (7 salas), o Cinesercla do Shopping Praia Sul (5 salas), além de duas opções de rua: o Cine Alquimia (no Espaço Alquimia) e o próprio Cine Walmir Almeida, ambos de sala única. 

À primeira vista, percebemos dois grupos distintos nesse cenário: as grandes redes situadas em shoppings (multiplex) e os cinemas independentes localizados fora deles. Na prática, contudo, o Cine Alquimia acaba reproduzindo rigorosamente a mesma lógica de mercado dos multiplex. Seu histórico de curadoria apresenta uma alta aderência à programação das grandes redes. Se historicamente não podemos esperar muito dos cinemas de shopping — que sempre cederam pouquíssimo espaço ao cinema brasileiro e não hollywoodiano —, é lamentável constatar que uma sala de rua, sem vínculos com megacorporações, renda-se à mesma mentalidade comercial focada em blockbusters.

É nesse cenário que o Cine Walmir Almeida surge como o grande contraponto ao circuito tradicional de Aracaju. Focado em cinematografias diversas e atento a filmes que exploram linguagens e estéticas para além dos blockbusters, o espaço destaca-se por oferecer uma programação praticamente exclusiva na cidade, além de ser o único cinema a exibir produções sergipanas. Para ilustrar essa relevância, basta observar o caso de Nosso Segredo, de Grace Passô. Vencedor do prêmio de melhor filme brasileiro no Festival de Gramado deste ano, a obra só chegou aos espectadores de Aracaju graças ao Cine Walmir Almeida. Quando a obra vencedora de Gramado é ignorada pelos demais cinemas da cidade, a importância do Cine Walmir Almeida torna-se incontestável.

O preço do ingresso no Cine Walmir Almeida é praticamente a metade do que é cobrado nos outros cinemas da cidade. É um diferencial social imenso, mas que torna a bilheteria insuficiente para cobrir os custos operacionais de uma programação regular ao longo de toda a semana. Em qualquer lugar do mundo, os cinemas voltados para a exibição de filmes que não sejam blockbusters sobrevivem com incentivos e aportes públicos. Cultura não é gasto, e sim investimento para o futuro de sua população.

A construção de uma política pública estruturante para o audiovisual em Aracaju é urgente. A gravidade da situação fica evidente diante da não adesão do município aos Arranjos Regionais do Fundo Setorial do Audiovisual, o que resultou na perda de investimentos vitais para um setor essencial na geração de emprego, renda e identidade cultural. 

Considerando que esse mercado movimentou R$ 70,2 bilhões no PIB brasileiro apenas no ano passado — representando 0,7% da economia nacional —, a criação de uma coordenação específica dentro da pasta da Cultura torna-se imprescindível, tanto por seu peso econômico quanto simbólico. Diante desse cenário, cabe à Secretaria Municipal da Cultura sair da inércia e agir com rapidez para impedir que o Cine Walmir Almeida feche as portas.

Fábio Rogério

Cineasta, sergipano e pai de Rudá. Dirigiu duas dezenas de curtas e é co-diretor do longa Um minuto é uma eternidade para quem está sofrendo, vencedor de Melhor Filme na Mostra Aurora (Tiradentes 2025). É também criador do podcast Conversas de Cinema (Spotify). 

https://manguejornalismo.org/sos-cine-walmir-almeida-cinema-do-centro-nao-pode-virar-mais-uma-porta-fechada-em-aracaju/


Fiar imagens para tecer o mundo: em apoio ao ‘Cinema do Centro’

Única sala de Aracaju com curadoria fora do padrão de mercado, o caso do Cine Walmir Almeida expõe o que se perde quando uma sala de cinema suspende as atividades

12 de setembro de 2026

Em 15 de setembro, o Cine Walmir Almeida — mais conhecido como ‘Cinema do Centro’ — suspenderá suas atividades. Reaberto em maio de 2025 com recursos da Lei Paulo Gustavo, o espaço acumulou mais de 600 sessões, cerca de 11 mil espectadores e 170 títulos exibidos, sendo 136 internacionais e 36 nacionais, marca que supera até a exigência da Cota de Tela. Para seguir operando, a sala depende de um novo Termo de Cessão pelo município, mecanismo de fomento que sustente programação, manutenção e preços acessíveis.

Dezesseis meses de rotina

Os números reportados, para além do retorno bem-sucedido de uma estrutura física, indicam o que um equipamento cultural alcança quando funciona. Desde que reabriu, foram dezesseis meses que formaram rotina e constituíram público. 

A gestão do cinema, por sua vez, fica a cargo da AVBR Produções, conduzida por Rosângela Rocha e Deyse Rocha, junto à Secretaria Municipal da Cultura. Apesar de algumas ressalvas à gestão atual, é inegável que houve uma premissa que a programação sustentou semana após semana: exibir é uma etapa formativa da cadeia produtiva do audiovisual. Afinal, uma grade que atravessa filmes brasileiros e internacionais em pouco mais de um ano, aberta a parcerias com mostras, cineclubes e ações de extensão universitária, trata o espectador menos como um consumidor do que como uma pessoa em formação.

Um problema de gestão

Para remontar a cronologia dos fatos. No dia 17 de julho, a Prefeitura realizou uma escuta pública sobre o projeto e sinalizou que o Termo de Cessão seria encaminhado até agosto, acompanhado de um novo edital de credenciamento. A convocação circulou sobretudo por grupos do próprio setor, e a reunião teve repercussão mínima na imprensa local. Sem cobertura e sem divulgação posterior dos encaminhamentos, prazos, condições de cessão e responsabilidades de cada parte não chegaram ao público que frequenta a sala.

Agosto terminou sem oficialização e publicação do edital. Em nota, a Secretaria afirma que a continuidade e o fortalecimento das atividades permanecem entre as prioridades da gestão municipal e informa que o texto está em análise na Procuradoria-Geral do Município, com expectativa de publicação em setembro.

O ponto administrativo, contudo, é evidente: o vencimento de um termo de cessão é uma data conhecida no momento em que ele é assinado. Não se trata, portanto, de um evento imprevisto, de força maior ou de contingência orçamentária súbita. E, apesar da Prefeitura dispor de instrumentos de transição — termo de cessão provisório, prorrogação excepcional — que existem precisamente para impedir que a tramitação burocrática paralise um serviço, nenhum foi acionado. O que desloca o problema do campo da impossibilidade jurídica para o campo da gestão. Com isso, é lastimável como a prioridade não chegou a ser um dado de rotina de trabalho dentro da pasta.

Essa rotina que não se firmou, por sua vez, incide diretamente sobre aquilo que se vê na cidade. Tomada pelo circuito multiplex, Aracaju possui 28 salas espalhadas por 3 redes e uma sala de rua, o Cine Alquimia. Mas, como observa Fábio Rogério, em texto para o Mangue Jornalismo, o Alquimia opera com alta aderência à programação das grandes redes. Ou seja, das trinta salas da capital, apenas a do ‘Cinema do Centro’ sustenta uma curadoria desviante do padrão de mercado.

Trinta salas e o mapa do país

O caso local reproduz um quadro nacional amplamente documentado. Segundo dados da Ancine referentes a 2024, 88% das salas brasileiras funcionam em shopping centers; das 3.510 em operação, apenas 423 são salas de rua, e seis em cada dez salas novas continuaram sendo inauguradas em centros comerciais. A geografia da exibição no país se organiza em torno do consumo fechado e uma grade que replica a mesma lista de lançamentos de Norte a Sul. Nunca custou tão caro ser globalizado, isn’t that right?

Uma sala de rua, por outro lado, produz outro efeito sobre a cidade. Devolve a circulação a pontos em horários nos quais o comércio fecha, cria motivo de deslocamento para quem gostaria de ter uma opção fora do shopping, aproxima o cinema de preços compatíveis com a renda de quem pertence a realidades opostas ao ciclo pretendido pelos elefantes brancos que empilham lojas e mais lojas. Assim como as disputas pelo São Luiz em Recife, pelo Olympia em Belém e pelo Belas Artes em São Paulo, trata-se de uma disputa pela permanência e preservação do espaço urbano. Parte indissociável do quadro que compõe o Centro Cultural de Aracaju, o ‘Cinema do Centro’ ocupa uma posição no desenho da cidade, equipamento público que garante o contato com diferentes linguagens.

Fiar imagens

Dessa forma, a pergunta que a pesquisadora Kênia Freitas instaura como guia para processos curatoriais vem a calhar: “o que há mais para ver?”. Quando transposta à operação de um cinema, ela pressupõe uma configuração material, mobilizada por uma programação que assume riscos independente do retorno do público na semana seguinte, sendo capaz de se sustentar semanalmente e de recolocar filmes das mais variadas que visam, dentre outras propostas, a remediação do olhar.

O ato de olhar, no entanto, é uma operação que exige tempo e reincidência. Quando um filme acaba, outro começa a florescer no seu interior, visto que a imagem se faz no contato com a próxima, e é dessa fricção entre pontos de vista que se constitui o repertório. Um espectador que tem a possibilidade de atravessar 170 títulos em pouco mais de um ano, distribuídos entre cinematografias, durações e regimes narrativos distintos, constrói uma base comparativa que grade nenhuma de multiplex pode oferecer. E, apesar de estarmos localizados em um período histórico de adensamento das visualidades, as telas miniaturizadas que acompanham cotidiano dispersam a cada dia nossa atenção, colocando poucos espaços como a sala de cinema em uma posição capaz de reivindicar uma mediação sensível, que responde ao contexto mencionado com duração e com repetição variada. Infelizmente, é esse hábito que uma suspensão como a do Cinema do Centro interrompe.

O fio interrompido

Apesar de que a preservação e manutenção de um cinema envolva fatores por vezes demasiadamente complexos, como estrutura física, cronograma e critério técnico. O que se prejudica primeiro, e mais rápido, com uma suspensão é o público. Os dezesseis meses de rotina construídos até o momento podem se dispersar em poucas semanas de porta fechada, e reconstruir confiança e frequência custa caro em termos orçamentários.

Fiar imagens é um trabalho contínuo. Interrompido o fio, a retomada não acontece no ponto em que parou, uma vez que, ao refazer a torção, guarda-se a marca da emenda. Enquanto a porta do ‘Cinema do Centro’ permanecer fechada, quem perde é a própria população, que segue sem um espaço capaz de abarcar as sensibilidades de uma formação baseada no encontro, na possibilidade de acessar outras geografias e linguagens. 

Sintomaticamente, caberá a uma sessão do Entreato, cineclube parceiro da sala, encerrar — provisoriamente, espera-se — as atividades nesta segunda-feira (14/09), com Lola Montès (1955), de Max Ophüls. Um filme clássico diante de um grupo de cinéfilos que pulsam, anseiam pelo cinema. Quem sabe uma proposta de recomeço. 

Texto adaptado de um ensaio publicado originalmente na Jovens Persas.

Lwidge de Oliveira

Mestrando em Cinema e Narrativas Sociais pelo PPGCINE/UFS. Crítico de cinema pela Revista Nostalgia e editor pela Jovens Persas. Curador de cinema pelos festivais internacionais de Itabaiana (SE) e Ribeirão Preto 




Vitória da Cultura: A Luta pela Continuidade do Cinema do Centro em Aracaju

 Uma conquista coletiva que reafirma o compromisso com o audiovisual sergipano

A mobilização popular em defesa da Sala Walmir Almeida — carinhosamente conhecido como Cinema do Centro — alcançou uma vitória histórica para a cultura de Aracaju. Após intensa pressão do público frequentador, artistas, cinéfilos e da sociedade civil organizada, foi anunciada a continuidade das atividades do espaço, sob a gestão da AVBR Produções, em parceria com a Secult Aju.


A Voz do Público que Não Se Calou

Desde o anúncio da possibilidade de paralisação das sessões, o público se organizou de forma espontânea e contundente. Nos comentários que inundaram as redes sociais, ficou evidente que o Cinema do Centro não é apenas uma sala de exibição, mas um verdadeiro patrimônio cultural da cidade.

"O cinema do centro é um espaço cultural necessário para Aracaju. O trabalho realizado pela @avbrproducoes não pode parar."

"Não pode acabar a única sala de cinema plural. Referência no nordeste."

"Um cinema alternativo, um dos únicos que nos possibilita o acesso a filmes fora do circuito comercial mundial. Podemos até não sermos muitos, mas precisamos que o cinema do centro sobreviva."

A comoção foi geral. Entre lágrimas, aplausos virtuais e manifestações de solidariedade, o recado foi claro: a cultura não pode ser interrompida.

Um Espaço de Resistência e Diversidade

A Sala Walmir Almeida consolidou-se como um espaço de encontro, acesso ao audiovisual e de uma programação que contempla diferentes públicos, indo muito além do circuito comercial. Sua relevância transcende as fronteiras de Aracaju, atraindo espectadores de cidades circunvizinhas que encontram no cinema um refúgio para a sétima arte em sua forma mais autêntica.

"O cinema Walmir Almeida é um verdadeiro oásis em pleno centro de Aracaju. É nele que nos refugiamos e mergulhamos no fascínio da 7ª arte que não é mostrada nas salas convencionais."

"Precisamos desse cinema! É um espaço de cultura, de encontros e de muita aprendizagem!"

A programação diversificada, que inclui desde documentários internacionalmente premiados até produções nacionais, como o filme "Gonzaguinha - Da maior liberdade", demonstra o compromisso do espaço com a democratização do acesso à cultura.

A Pressão Popular e a Resposta Institucional

A mobilização não se limitou às redes sociais. O público exigiu posicionamento da prefeita Emília Corrêa, do secretário de Cultura e dos órgãos competentes — Secult Aju e Funcaju. A cobrança foi direta e incisiva:

"A cidade clama por um posicionamento rápido e efetivo da @secultaju e @funcaju. Não esperaremos calados!"

"Existe cultura além do São João em Aracaju. E aí? Bora trabalhar?"

A resposta veio. Em comunicado oficial, foi anunciada a continuidade das atividades, com um apelo ao público:

"Por isso, necessitamos que o público compareça às sessões para que possamos honrar o compromisso com as distribuidoras dos filmes, com os colaboradores que trabalham para o funcionamento do cinema, garantindo a continuidade das atividades!"

A notícia foi recebida com euforia:

"Finalmente. Mais do que JUSTO!"

"Sábia decisão. Segue nossa sala de cinema! Viva a arte!"

"Vitória do cine vitória!"

"Que notícia boa demais, que alívio!"

"Vida longa ao Cinema do Centro!"

O reconhecimento aos envolvidos também foi destaque:

"Obrigada à todes, pelo apoio, que foi imprescindível para essa tomada de decisão coletiva, entre AVBR Produções e Secult Aju."

"Obrigado @secultaju. Viva o cinema de arte e independente. @avbrproducoes @cinemadocentro. Estamos juntos, nas poltronas e nas trincheiras."

"Agradecemos pelo espaço de diálogo que foi garantido à gestão, assim como ao público, que se manifestou de maneira clara nos últimos dias pela importância de manutenção ininterrupta junto ao @cinemadocentro, nossa melhor sala da cidade. Continuaremos unidos em prol da diversidade cinematográfica e do acesso a filmes que nos transformem."

Depois da Vitória: a Cultura Segue Viva, mas Precisa de Plateia

Mas talvez o comentário mais necessário para esta nova etapa tenha sido este:

"Manter o Cine Walmir Almeida (Cinema do Centro) de portas abertas foi uma conquista que precisa ser valorizada, mas não adianta nada lutar para não fechar e não ir lá. É preciso ocupar o espaço e frequentar de verdade. O cinema precisa pulsar, ser vivo, e quem dá essa vida somos nós. Ir ao cinema é também sobre conexão e sociabilidade. É sentar ao lado de quem você nunca viu e ser contagiado pela reação da plateia. Quem frequenta o Cinema do Centro não é um mero consumidor. Lógica de consumo a gente deixa para as redes multiplex que estão em todos os shoppings de Aracaju. Precisamos entender que nenhum cinema focado em exibir filmes fora do circuito dos grandes blockbusters sobrevive só com o dinheiro da bilheteria. Manter um espaço assim funcionando é um desafio imenso. Por isso, é fundamental que a Secretaria de Cultura de Aracaju entenda que não dá para operar um cinema público na mesma lógica de um cinema comercial. A missão de um equipamento público é exatamente oferecer uma programação diferente do que já temos nos shoppings. Se jogarem o cinema nessa lógica predatória do mercado, ele perde a alma e vira só mais uma sala qualquer na cidade."

A fala é um alerta e um convite. Outro comentário reforçou:

"O público precisa exigir mesmo. Se não ocupar, entra no esquecimento e no descaso."

E houve quem garantisse:

"Amém. Eu vou sempre que posso."

A vitória, portanto, não termina no anúncio: ela se confirma na presença diária, na compra do ingresso, na divulgação, na participação das sessões e na defesa permanente do espaço.

A dimensão coletiva da conquista também ficou evidente:

"A mobilização, quando em conjunto, faz tudo acontecer! Viva o cinema do centro. Ainda bem!"

"Parabéns para os que levaram as denúncias das arbitrariedades da ADM. Municipal em relação ao fechamento da sala cinematográfica, a prefeitura se sentiu emparedada e não tinha outra alternativa se não cumprir as reivindicações dos munícipes do audiovisual."

E, claro, o desejo de que a programação siga forte:

"agora pode vir o documentário do Gonzaguinha"

"Melhor cinema da cidade… lá assisti filmes inesquecíveis! E Rosângela é patrimônio nosso!"

"notícia que encanta!"

"Vida longa ao Cinema do Centro!"

O Papel da Sociedade Civil e da Imprensa Cultural

A vitória também foi resultado do trabalho incansável de veículos de comunicação comprometidos com a cultura, como o Blog da Cultura, que publica artigos e notícias em defesa do cinema de rua e do cineclubismo.

"O blog da cultura continuará cumprindo o papel de fortalecer o cineclubismo e o cinema de rua... "

O apoio de figuras públicas, como a advogada Glicia Salmeron, que verbalizou a indignação coletiva, foi fundamental para dar visibilidade à causa.

"Obrigado @gliciasalmeronadv por verbalizar a opinião de todos nós."

Uma Vitória que é de Todos

A continuidade do Cinema do Centro é uma conquista de toda a sociedade sergipana. É a prova de que a mobilização popular, quando organizada e determinada, pode reverter quadros adversos e garantir o direito à cultura.

"Toda a minha solidariedade aos colegas cinéfilos e a @avbrproducoes! O nosso espaço não pode acabar devido à valorização da cultura do audiovisual... VIDA LONGA AO CINEMA DO CENTRO!"

"O público cinéfilo e a sociedade civil sergipana exige a continuidade do Cinema do Centro. Não sossegaremos enquanto não for garantido pleno funcionamento do Cinema do Centro."

Agora, mais do que nunca, é fundamental que o público continue frequentando as sessões e apoiando as atividades do espaço. A vitória é apenas o começo de uma nova etapa: a consolidação do Cinema do Centro como um polo de cultura, resistência e democratização do audiovisual em Aracaju.

"Agora pode vir o documentário do Gonzaguinha!"

Gonzaguinha, da Maior Liberdade. Dir. Susana Lira. Documentário Musical. BR. 2026. 108 min. A12 Sessões: Qui, 17/09 às 18h; Sab, 19/09 às 16h30; Dom, 20/09 às 16h

“Gonzaguinha, Da Maior Liberdade” é um filme que busca resgatar em letras, imagens e sons, a fúria e a poesia de um dos artistas mais importantes para a construção e a discussão popular de nossa história democrática: Luiz Gonzaga Jr.
"Obrigada à TODS pelo apoio, que foi imprescindível para essa tomada de decisão coletiva, entre AVBR Produções e Secult Aju."

Que esta vitória sirva de exemplo e inspiração para outras lutas culturais em todo o país. A cultura não pode ser interrompida. A cultura é resistência. A cultura é vitória.

E que a luta não pare por aqui:

"A biblioteca Clodomir Silva reabre quando? Uma vergonha o que estão fazendo com aquele espaço!"

Porque a cultura de Aracaju precisa de todos os seus equipamentos vivos.

Viva o Cinema do Centro! Viva a Cultura de Aracaju!

"No novo tempo, apesar dos castigos, estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos pra nos socorrer." — Ivan Lins



Cineclube Realidade promove sessão especial do documentário "Como Ela Faz?" na Casa da Doméstica durante o Setembro Amarelo

Iniciativa do Sindomestico-SE em parceria com a Ação Cultural/Cine Realidade  reuniu trabalhadoras domésticas para debate sobre sobrecarga feminina, saúde mental e a invisibilidade do trabalho de cuidado


No último sábado, 12 de setembro de 2026, a Casa da Doméstica, em Aracaju, foi palco de uma sessão especial do Cineclube Realidade. A exibição do documentário "Como Ela Faz? – Episódio 1: O Trabalho", dirigido por Tatiana Villela, integrou a programação de formação do Setembro Amarelo, campanha nacional de valorização da vida e prevenção ao suicídio. A atividade, realizada em parceria com o Sindomestico-SE, reuniu 17 participantes, entre trabalhadoras domésticas, equipe organizadora e convidados.

O evento teve início às 11h e se estendeu até 12h45, combinando a projeção do documentário com um debate mediado pelo curador do Cine Realidade, Zezito de Oliveira, apoiado por Iasmin Feitosa, responsável pelo registro das falas no debate, no qual as participantes compartilharam experiências pessoais e refletiram sobre os temas abordados na obra.

O documentário

"Como Ela Faz? – O Trabalho" acompanha um dia na vida de 13 mulheres – entre astrônomas, jogadoras de futebol, filósofas, enfermeiras, professoras, diaristas e executivas – para revelar o significado amplo e complexo da palavra trabalho. A produção evidencia como a dupla ou tripla jornada, a carga mental e a desigualdade de gênero atravessam o cotidiano feminino, com especial atenção às trabalhadoras domésticas.

A narrativa do documentário parte de histórias reais e testemunhos pessoais, apresentando personagens como Cida, Adriana, Cris, Maitê, Kamila, Djamila, Duilia, Tábata, Gabriela, Carla, Jéssica, Gina e Nina. São mulheres que, em suas jornadas diárias, enfrentam desafios constantes no acesso à educação, salário, cuidados com a casa e os filhos, ascensão na carreira e reconhecimento profissional. O fosso que separa homens e mulheres – e também mulheres brancas e mulheres negras – em termos de oportunidades é apresentado como uma realidade ainda persistente.

O debate: vozes que ecoam a realidade

Após a exibição, o debate proporcionou um espaço de escuta e partilha. As falas das participantes revelaram não apenas identificação com o documentário, mas também a urgência de se discutir a sobrecarga feminina e suas consequências para a saúde mental.

Uma das participantes relatou como percebeu a reprodução de padrões geracionais em sua própria família:

"Peguei a última parte do filme e me identifiquei com uma cena. Quando casei, a mãe do meu marido colocava a comida dele, e eu acabei fazendo o mesmo. Até que passei a agir diferente com meus filhos, ensiná-los a serem independentes. Se eu aprendi sozinha, eles também podem, independente de serem homens."

Outra participante destacou a importância de criar filhos – especialmente meninas – para a autonomia:

"Tenho uma menina, e agora vai nascer outra. Eu crio ela de uma forma que ela seja independente, para que não dependa de ninguém. Minha irmã e eu temos uma mãe que por muitos anos foi doméstica,  Achei esse filme muito necessário, pois fala sobre as diferenças emocionais, financeiras e raciais entre os gêneros."

A discussão também abordou a educação de meninos e a necessidade de não reproduzir desigualdades:

"Tenho seis filhos. Tenho receio só de um, dos meus três filhos homens, ele tem um jeito arrogante de falar. Os outros dois são tranquilos e parceiros. Não é porque meus filhos vão casar com as filhas de outros, que não irei deixar de orientar meus meninas e minhas meninas de maneira igual. Não quero que meus filhos façam com as filhas dos outros o que outros podem fazer com as minhas filhas. Tem que aprender a não fazer diferença entre os filhos, deve sempre orientá-los."

Saúde mental e esgotamento: relatos de quem vive a sobrecarga

Um dos momentos mais impactantes do debate foi quando as participantes foram convidadas a refletir sobre esgotamento mental e físico. Os relatos evidenciaram a gravidade da situação enfrentada por muitas mulheres.

Uma das trabalhadoras compartilhou sua trajetória de superação:

"Eu já passei por isso. Hoje aprendi a lidar mais com essa situação. Vou ao psicólogo, comecei a dividir minhas tarefas, pensar no meu bem, na minha saúde, minhas próprias atividades. Com toda essa ajuda, comecei a ver que eu tinha que fazer divisões, senão eu continuaria presa naquela exaustão."

Outra participante descreveu um quadro de sofrimento intenso:

"Lido do jeito que dá. Não consigo dormir, me irrito fácil, tudo me estressa. Quando chego em casa, choro devido ao acúmulo do estresse que não consigo lidar.  Tenho dois filhos, um com TDAH e outro hiperativo, e quando ambos se estressam, a bolha estoura. Isso também é um agravante pra mim. Pra homem que trabalha fora, é fácil porque a casa é o lugar de paz dele. Mas pra quem trabalha dentro de casa, vira uma bolha sufocante."

A discriminação de gênero no ambiente de trabalho também foi pauta:

"Eu consegui um trabalho em uma fábrica, estava tudo ótimo. Mas, quando engravidei, senti que tudo desandou pra mim. Chegava à noite do trabalho, estava quase enlouquecendo de tanto cansaço. Chegava em casa e não tinha tempo pra cuidar de mim. Pelo meu bem-estar, saí do trabalho, terceirizei meu serviço de casa. Eu tinha acabado de ser promovida no trabalho, e depois de saberem da minha gravidez, simplesmente desandou. Senti que houve uma discriminação nessa questão."

Setembro Amarelo: falar para prevenir

A escolha do documentário para a sessão do Setembro Amarelo não foi aleatória. A campanha, que ocorre anualmente em setembro, tem como objetivo fortalecer a valorização da vida e a prevenção do suicídio. Uma das principais estratégias de prevenção é a criação de espaços seguros onde as pessoas possam falar sobre seus sentimentos, reconhecer seus limites e buscar ajuda.

"Como Ela Faz? – O Trabalho" contribui para essa reflexão ao mostrar que o sofrimento não é sinal de fraqueza e que o cansaço não é fracasso. Ao retratar o cotidiano de mulheres reais e os fatores que podem produzir sofrimento ao longo do tempo, o documentário ajuda a quebrar estigmas e a promover a saúde mental.

A importância de cuidar de quem cuida

A formação promovida pelo Sindomestico-SE parte de uma pergunta fundamental: Quem cuida de quem cuida?

Valorizar as trabalhadoras domésticas significa reconhecer a importância do seu trabalho e defender condições dignas, direitos, respeito, remuneração justa, descanso e saúde. Cuidar da saúde mental não pode ser visto apenas como uma responsabilidade individual – é preciso olhar para as condições sociais e de trabalho que produzem sobrecarga e sofrimento.

Iniciativas como esta vão além da exibição de um filme. São oportunidades para conversar, ouvir, compartilhar experiências, conhecer direitos e fortalecer a organização coletiva. Porque cuidar de si também é um direito. E nenhuma mulher precisa carregar o mundo inteiro sozinha.

Serviço:

Evento: Sessão Especial do Cineclube Realidade – "Como Ela Faz? – Ep. 1: O Trabalho"

Local: Casa da Doméstica/Sindomestico-SE, Aracaju

Data: 12 de setembro de 2026

Realização: Ação Cultural em parceria com Sindomestico-SE

Participantes: 17 pessoas

O Cineclube Realidade é uma iniciativa de formação cultural que promove exibições seguidas de debates, incentivando a reflexão crítica sobre temas sociais relevantes.

Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.

Para quem quiser assistir o filme no youtube. AQUI  (episódio - O trabalho)


O filme completo. AQUI

Também nos dia de hoje, 15/09,  uma das mulheres que integra o documentário faleceu.
Amelinha Teles. Presente!! 





segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Entre a Bolha e o Palco: O Debate entre Chavoso da USP e Mamãe Falei e a Estética da Rinha Política

 


O recente encontro entre o sociólogo e influenciador Thiago Torres, conhecido como Chavoso da USP, e o ex-deputado Arthur do Val, o Mamãe Falei, reacendeu uma das discussões mais complexas da comunicação digital contemporânea: qual é o limite e a real eficácia do diálogo entre polos ideológicos radicalmente opostos na internet?

O evento, que reuniu duas das figuras mais emblemáticas da polarização política brasileira dos últimos anos, dividiu opiniões de forma simétrica e jogou luz sobre as táticas de engajamento que movem as redes sociais.
A Polarização das Reações: Críticas vs. Elogios
Sem dados estatísticos oficiais, a repercussão do encontro revelou uma divisão clara entre as bolhas ideológicas de cada participante. Longe de haver um consenso ou uma maioria absoluta, o público reagiu dentro de moldes previsíveis:
  • No campo progressista e de esquerda: Predominou um tom de forte desaprovação. Seguidores e ativistas que acompanham o trabalho de base de Chavoso da USP criticaram severamente a iniciativa. O principal argumento foi de que sentar-se à mesa com Arthur do Val — um político cassado após o vazamento de áudios com declarações sexistas sobre refugiadas ucranianas — representava uma "reabilitação de imagem" inadequada para uma figura pública em declínio.
  • No campo liberal e ligado ao MBL: O tom foi de comemoração e validação. O público de Arthur do Val celebrou o encontro como uma demonstração de "coragem para o debate" e disposição para o enfrentamento de ideias fora da própria zona de conforto.
  • Os entusiastas do formato: Um grupo menor, composto por espectadores de podcasts e debates independentes, elogiou o evento de forma neutra, defendendo que a conversa pacífica entre opostos é saudável para a democracia, independentemente do espectro político.
As Vozes da Discordância: Exemplos de Críticas
As cobranças direcionadas a Thiago Torres focaram, majoritariamente, na ética da concessão de palcos virtuais. Críticos argumentaram que "dar espaço para o Mamãe Falei depois de seu histórico é ajudar a limpar a imagem de alguém punido institucionalmente".
Outra vertente de críticas apontou para a assimetria do ganho de engajamento, sugerindo que "o Chavoso faz um trabalho gigante nas periferias, mas o MBL é uma máquina de recortes; a esquerda não ganha nada com isso, eles sim". Por fim, houve quem apontasse o espetáculo em si, definindo o encontro como "uma rinha política que prioriza o entretenimento e os cortes de 'mitadas' ou 'lacradas' para o TikTok, em vez de uma discussão estrutural profunda".
A Defesa de Chavoso da USP: Furar a Bolha como Tática
Diante das cobranças de sua própria base, Chavoso da USP veio a público defender sua estratégia de atuação. Segundo o influenciador, o objetivo central de aceitar debates com figuras da direita não é convencer o oponente, mas sim disputar a audiência que o segue.
Torres argumenta que, ao apresentar dados sólidos e formulações estruturadas que desmontam a retórica liberal em seu próprio terreno, ele é capaz de plantar dúvidas na mente de jovens que flertam com o conservadorismo. Além disso, o sociólogo destacou a necessidade tática de projetar as pautas da esquerda em espaços de grande alcance, subvertendo a lógica dos algoritmos que frequentemente limitam o alcance orgânico de criadores progressistas.
Conclusão: Diálogo ou Entretenimento?
O debate entre Chavoso da USP e Mamãe Falei sintetiza o dilema da comunicação política moderna. Para alguns, o enfrentamento direto é uma necessidade imperiosa da guerra cultural, a única forma de evitar que uma bolha domine a narrativa digital por completo. Para outros, a prática esvazia o debate programático, transformando divergências profundas sobre o destino do país em um espetáculo de entretenimento monetizável.
No fim, o episódio demonstra que, na arena das redes sociais, o conteúdo do debate muitas vezes importa menos do que a capacidade de converter o conflito em cliques — restando saber quem, de fato, consegue capitalizar politicamente após o encerramento da transmissão