sábado, 29 de novembro de 2025

Filme ¨Evangelho da Revolução" será exibido no Cinema do Centro, Aracaju, em 13/12, com a apoio do Cineclube Realidade na mobilização do público.

 O Evangelho da Revolução, retrato impactante da América Latina 

                                                            Frei Betto  (*)

 O filme O Evangelho da Revolução, documentário de François-Xavier Drouet sobre o impacto político das Comunidades Eclesiais de Base e da Teologia da Libertação na conjuntura da América Latina, é uma obra de arte surpreendente. Longe de aderir ao panfleto fácil, a obra aposta em uma narrativa que mistura rigor documental, ousadia estética e uma dimensão profundamente humana para revisitar momentos de lutas revolucionárias em El Salvador, Brasil, Nicarágua e México. O resultado é um filme vigoroso, capaz de dialogar com quem viveu períodos de luta armada da segunda metade do século XX e o sentido bíblico da palavra “revolução” para camadas empobrecidas motivadas pela fé cristã. 

 Um dos aspectos mais positivos do filme é sua capacidade de iluminar personagens históricos — líderes políticos, pensadores, militantes anônimos — sem reduzi-los a caricaturas. A câmera acompanha cada figura com respeito, revelando contradições, medos, dúvidas e conquistas. Em vez de construir heróis idealizados, o filme apresenta pessoas reais, cuja força política nasce justamente da vulnerabilidade e da coragem cotidiana. Esse olhar humanizador fortalece a compreensão de que processos transformadores são feitos por gente comum: pobres, jovens, pessoas movidas por ética, empatia e um profundo senso de justiça.

 A direção aposta numa montagem engenhosa, que costura materiais de arquivo, depoimentos e registros históricos simbólicos. O ritmo é firme, mas nunca atropelado: o espectador é conduzido a refletir enquanto as imagens se desdobram com o mesmo ritmo das lutas populares por libertação. O filme sugere, sem didatismo, que a história é, por vezes, cíclica — e que os anseios por transformação retornam sempre que a sociedade se vê diante da desigualdade e da violência estrutural.

 A fotografia é outro destaque. Há um cuidado quase litúrgico com a luz: rostos tristes de pessoas oprimidas iluminados por uma árdua esperança; montanhas silenciosas sinalizando horizontes utópicos; depoimentos que evocam coragem e resistência. Essa estética confere ao filme uma aura poética, como se cada quadro fosse uma tentativa de captar não apenas fatos, mas o espírito de uma época. A beleza visual nunca é gratuita, sustenta a mensagem central de que a revolução também é feita de imaginação, sensibilidade e amor.

 O filme se destaca especialmente na forma como articula política e espiritualidade. Ao tratar a luta revolucionária como uma espécie de evangelho, boa-nova, anúncio de um mundo possível, a narrativa cria um campo fértil para a reflexão sobre ética, solidariedade e compromisso coletivo. A revolução não aparece como um mero gesto de violência, mas como opção paciente e comunitária em sociedades e contextos que suprimiram todas as vias pacíficas e democráticas. Esse enquadramento amplia o horizonte do espectador, que é convidado a enxergar a luta por transformação social como prática de cuidado, esperança e fé.

 O Evangelho da Revolução conecta passado e presente, traçando paralelos entre antigos ciclos de opressão e os desafios atuais, como a expansão do fundamentalismo evangélico e a inviabilidade da via revolucionária. Não se prende ao lamento: evidencia conquistas, aprendizados e, sobretudo, a persistência de pessoas que continuam acreditando na dignidade humana como base de qualquer mudança. Esse movimento dá ao público uma sensação de continuidade histórica, como se cada gesto de resistência fosse parte de uma longa corrente.

 O Evangelho da Revolução é, portanto, uma obra luminosa. Seu mérito maior talvez seja lembrar que, mesmo em tempos de desencanto, há vidas, ideais e experiências que insistem em apontar outro caminho. O filme celebra a coragem dos que ousaram sonhar e demonstra que a revolução, antes de ser uma proposta política, é um modo de caminhar à luz da fé e de realizar o projeto de Deus na história. 

 (*) é escritor, autor da tetralogia sobre os evangelhos - Jesus Militante (Marcos); Jesus Rebelde (Mateus); Jesus Revolucionário (Lucas) e Jesus Amoroso (João) - da editora Vozes, entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

Em 13 de dezembro, sábado, às 18 horas, o cinema do centro, localizado no Centro Cultural de Aracaju (Palácio - Museu Luiz Antônio Barreto), Pça. General Valadão,  estará exibindo o filme "O Evangelho da Revolução",  o primeiro documentário de longa-metragem sobre a teologia da libertação e a participação dos cristãos nas lutas revolucionárias na América Latina,  após  a exibição, um bate-papo com o doutor em filosofia e professor  Romero Venâncio (UFS).  

Leia também:


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Primeiro longa-metragem sobre a Teologia da Libertação na América Latina estreia no Brasil  

Chega ao Brasil Evangelho da Revolução, o primeiro documentário de longa-metragem dedicado à história da Teologia da Libertação na América Latina. Após circular por diversos festivais e estrear em cinemas de cinco países europeus, o filme passará por várias capitais brasileiras e estará disponível em múltiplas plataformas.  

SOBRE O CINECLUBE REALIDADE

O Cineclube Realidade teve as atividades do ciclo inicial realizadas na Escola Estadual Júlia Teles , de agosto de 2015 até outubro de 2017, abrindo com o filme filme "Uma onda no ar" (2008) e encerrando com o filme" Quando sinto que já sei" (2014).

Em termos de números de participação, na sessão de estreia, em agosto de 2015, a quantidade em horário de pico chegou perto da meta pretendida de 20 pessoas,  Em geral, a meta esperada sempre foi essa, porém, poucas vezes chegamos a esse número. A média de participação ficou na maioria das vezes em 10 pessoas, a exceção de outras duas sessões com 30 e 50 pessoas. 

O Cineclube suspendeu suas atividades deste primeiro  ciclo no ano de 2017 em razão de adversidades decorrentes das mudanças na gestão pública federal, ascensão de Michel Temer a presidência da república em 2016.

No ano de 2019, a experiência adquirida com o Cineclube Realidade fez com que dois integrantes da Ação Cultural liderassem a retomada da proposta, inaugurando o segundo ciclo nos bairros de Aracaju, sendo agora de forma itinerante, com o nome de Cineclube Circular e com temática voltada para filmes que trouxessem questões mais urgentes e “nervosas” do contexto contemporâneo, tanto no âmbito politico, como nos âmbitos cultural, social, econômico e ambiental. Sendo esta iniciativa interrompida entre outras razões por causa da COVID, a qual foi  decretado como pandemia em  dia 11 de março de 2020 pela OMS.

No inicio de 2024 foi inaugurado o terceiro  ciclo na Igreja São Pedro Pescador e no SAME – Lar de Idosos, localizados no Bairro Industrial com média que variou entre 30 e 60 pessoas nas 9 sessões realizadas. 

Neste ano de 2025,  realizamos uma bem sucedida participação no circuito difusão 14ª Mostra Cinema e Direitos Humanos, confira AQUI,  o que pretende-se repetir novamente com a nossa participação na 2º Mostra Mercosul Audiovisual nestes meses de novembro e dezembro. AQUI.


Para este  final de 2025 e durante 2026 o Cineclube Realidade foi contemplado com um dos componentes  principais do Projeto Ação Cultural Juventude e Cidadania,   apresentado em seleção pública através do  Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) e da Política Nacional Cultura Viva com participação da Fundação Cultural de Aracaju (Funcaju) - Prefeitura de Aracaju.

O projeto em tela prevê,  além da sessões de cinema mensal, oficina de audiovisual com celular (março-abril-2026), oficina de teatro popular (abril-maio-2025), mostra cultural (maio-2026), seminário introdutório de educação popular, ação cultural e participação social (junho-2026) e transmissão aberta de formação cultural no youtube (agosto-setembro-outubro 2026).

Outras cidades:



sexta-feira, 28 de novembro de 2025

A RELIGIÃO SEM ESPIRITUALIDADE DE BOLSONARO. NOTA - Por Romero Venâncio (UFS)

Assista AQUI

 Bolsonaro e todo esse pântano para o qual ele (e seus aliados) arrastou o/um Brasil deveria ser um sinal de alerta. Bolsonaro não está morto, por certo. Ainda respira pelos decadentes aparelhos que lhe restam. Uma bizarra família; um bando de alucinados que sabem quase nada de nada; um grupelho de políticos oportunistas; “religiosos” anticomunistas que viam nele um “messias” para além do nome e um rebotalho da direita internacional que o seguiam sem saber da falta de qualidade que tem a figura. Paciência. Uma insana guerra cultural e esse modelo hegemônico de uso das redes digitais levou (leva!) a estas coisas e situações. Não baixemos a guarda.

Vou me concentrar num ponto que vejo como relevante numa brevíssima análise de uma faceta triste desse ser mais triste ainda que é Bolsonaro. Quero recordar aqui um livro que li ainda durante a pandemia: “O cadete e o capitão: a vida de Jair Bolsonaro no quartel” de Luiz Maklouf Carvalho, editora Todavia, 2019. Metade do livro é de documentos e fontes primárias de como foi a vida militar de Bolsonaro nos anos 70 e 80. O livro acaba quando ele entra na política. A formação de Bolsonaro pela leitura de Maklouf Carvalho foi um “circo de horrores” e de um oportunismo sem igual. Um homem doente por dinheiro e por levar vantagem em tudo. Um militar típico formado numa força armada em tempos de ditadura. Só que o livro explica mais do que pretende. Aquelas divisas abstratas e quase-messiânicas que as forças armadas fazem seus militares decorarem, em Bolsonaro virou mera peça de retórica. Muito mais para intimidar as pessoas do que força de convicção para a vida. As “últimas horas do fim” deste capitão deste singular novembro de 2025 quando foi recolhido a carceragem da polícia federal em Brasília, demonstram tudo isto e muito mais. Vai do patético ao deprimente. Sem grandeza. Um homem sem qualidades.

Bolsonaro se pendurou num discurso religioso superficial e farsesco como lhe é próprio e pagará por isto quando precisar de uma autêntica espiritualidade. Verá não tem o que nunca foi seu. A experiência religiosa tem dessas peças. Podemos brincar com religião e até “teatralizar” uma fé que não temos. Mas isto terá um preço e no mais das vezes, amargo. Não quero me limitar aqui a uma dimensão catequética da fé. Não é isto. Trata-se de tentar buscar algo mais profundo de uma figura que fez gato e sapato da religião cristã para se eleger e para enganar religiosos-eleitores. Manipulou ao extremo o sentimento religioso que nunca lhe pertenceu. Talvez o momento real em que ele mais precisaria de uma espiritualidade que vem de dentro, ele não tem e nem terá. Essas coisas não nascem da noite para o dia numa vida. Ele tinha/tem um vazio compensado por atitudes de cafajeste que em nada lembra uma iniciação espiritual. Uma experiência religiosa séria não é fuga e nem trampolim político. Uma experiência religiosa séria não é trampolim para nada. Agora, pode muito nos ajudar nas adversidades inevitáveis na/da vida.



quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Lançamento dos livros “Sementeira” e “Fios da História” de Célio Turino no Ponto de Cultura Atelier Travessia.

Travessia Literária no Ponto de Cultura Atelier Travessia! 📚

No dia 30/11, às 16h, abrimos as portas para um encontro especial com Célio Turino, referência continental em Cultura Viva e Bem Viver. 

Será o lançamento dos livros “Sementeira” e “Fios da História”, obras que inspiram, provocam e nos convidam a olhar o mundo com mais sensibilidade, memória e transformação. ✨📖

Venha viver essa travessia com a gente! 

📍 Rua Minas Gerais, 201 – Higienópolis, SP

🎟 Entrada gratuita


Uma realização da Oëkobr, Travessia Produções Artísticas e Atelier Travessia, com parcerias incríveis: Mapas, BKC, Oficina Cult, Cenografia da Lu Grecco, Chocolates Priscyla França e Vinícola Aurora. 

Apoio: Dep. Estadual Simão Pedro. 

Um momento de diálogo, afeto e partilha literária. Você é mais que convidado! ✨📚💛

#travessialiterária

#pontodecultura

#ateliertravessia

#celioturino

#sementeira

https://www.instagram.com/reel/DRflI9OkRf4/?igsh=MTVhc2hwOTFtMGIwOQ== 


 Luta de Classes 

“Na luta de classes todas as armas são boas: 

pedras, noite, poemas”

Paulo Leminski


A história gira 

atravessa fronteiras 

abre veredas

rasga o véu

pisa no medo 

rompe barreiras.


Pedras, noite, poemas,

são boas armas, 

a pedra voa,

a noite cobre,

a poesia encanta.


Mas... 

de nada adiantarão

se não juntarem mão com mão, 

se não houver vozes em coro, 

abraços apertados, 

festa na praça, 

tambor a estremecer o chão, 

povo que canta, 

silêncio que escuta.


Para mudar o mundo

há que ter decisão,

pedras a desafiar coturnos,

noite a guardar o amanhã,

poemas a escrever nos muros...


Para mudar o mundo 

há que ter coragem de sonhar e se unir,

fazer a mudança profunda, de raiz e seiva,

nos hábitos e costumes,

nas maneiras de fazer e Ser.


E...

conhecer história,

guardar memória,

se encontrar,

ficar junto.

Extraído do novo livro de Célio Turino, FIOS DA HISTÓRIA – poemas, pela editora Clóe


quarta-feira, 26 de novembro de 2025

O PNC está incompleto sem a Cultura Viva como eixo estratégico

 O problema

A Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, redes estaduais, regionais e municipais, agentes culturais, gestores públicos, artistas, mestres e mestras convocam a sociedade brasileira — que reconhece o valor dos Pontos e Pontões de Cultura — para pedir que a Cultura Viva seja reconhecida como eixo estratégico do PNC 2025–2035. Assine, compartilhe e mobilize! aqui

Foto: Amanda Tropicana - Celebração dos 20 anos da Cultura Viva, em Salvador (BA)

   A Política Nacional Cultura Viva é uma das mais importantes conquistas da cultura brasileira, nascida dos territórios e comunidades do Brasil e que, pela sua força transformadora, inspirou políticas semelhantes em diversos países da América Latina. Há mais de 20 anos, ela reconhece, fortalece e conecta Pontos e Pontões de Cultura que atuam onde a política pública raramente chega: nas periferias urbanas, nos quilombos, aldeias, comunidades tradicionais de matriz africana, favelas, comunidades ribeirinhas e em tantos outros territórios de criação, memória e resistência.

Agora, no momento em que o Congresso discute o novo Plano Nacional de Cultura (PNC) 2025–2035, a Cultura Viva não foi incluída, apesar de sua relevância histórica, institucional e federativa. Por isso, nós — redes, gestores, mestres, coletivos e agentes culturais de todo o país — estamos mobilizados para garantir que esta política seja reconhecida como eixo estratégico, estruturante e autônomo do novo PNC, já que é ela que fortalece o Sistema Nacional de Cultura, democratiza o acesso e sustenta a base das demais políticas culturais no Brasil.

Através deste abaixo-assinado, nos dirigimos respeitosamente ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva; à Ministra da Cultura, Margareth Menezes; ao Ministro da Casa Civil, Rui Costa Pimenta; à Ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), Gleisi Hoffmann; ao Ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos; ao Líder do Governo na Câmara, Deputado José Guimarães (PT-CE); à Presidenta da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, Deputada Denise Pessôa (PT-RS); e à Deputada Federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), autora da Lei Cultura Viva e da PNAB.

Por meio desta mobilização nacional, solicitamos a alteração urgente da omissão da Política Nacional Cultura Viva no texto atual do Plano Nacional de Cultura (PNC) 2025–2035, para que seja incluída como eixo estratégico, estruturante e autônomo.

Quem a PNCV reconhece, fortalece e transforma

A PNCV é uma das políticas públicas mais inovadoras e transformadoras da cultura brasileira, e seu foco é quem faz cultura na ponta — ou no Ponto. Conforme a Lei Cultura Viva, ela reconhece, fortalece e fomenta iniciativas culturais desenvolvidas por entidades e coletivos de base comunitária que atuam de forma continuada em seus territórios, preservando identidades, memórias, práticas culturais, processos criativos e modos de vida.

Ao apoiar essas iniciativas, a PNCV sustenta redes culturais vivas, fomenta autonomia e pertencimento e fortalece processos culturais que nascem nos territórios — ampliando o direito à cultura e promovendo criação, transmissão de conhecimentos e cidadania cultural.

Sua base legal e institucional é sólida

A PNCV está amparada em um marco normativo consistente:

Lei 13.018/2014 — Lei Cultura Viva

Lei 14.399/2022 — Política Nacional Aldir Blanc (PNAB)

Decreto 11.740/2023 — Regulamentação da PNAB

Lei 14.903/2024 — Marco Regulatório do Fomento à Cultura

A omissão no PNC e o que estamos pedindo

A PNCV não foi incluída no novo Plano Nacional de Cultura, apesar de:

atender plenamente aos critérios formais para ser eixo estratégico;

ser transversal a todos os outros eixos;

possuir governança e institucionalidade consolidadas;

estar enraizada no Sistema Nacional de Cultura;

operar o maior mecanismo de fomento direto da cultura brasileira;

garantir participação social, controle social e gestão compartilhada;

estruturar políticas locais de cultura em milhares de municípios.

A ausência da PNCV como eixo estratégico, estruturante e autônomo é um equívoco político, técnico e simbólico que compromete a coerência do próprio PNC.

Por isso, pedimos:

Que o Governo Federal articule com sua base no Congresso a correção imediata da omissão, assegurando a inclusão da PNCV como eixo estratégico, estruturante e autônomo no PNC.

Que o Congresso Nacional insira explicitamente a PNCV como EIXO ESTRATÉGICO, ESTRUTURANTE E AUTÔNOMO no texto final do Plano Nacional de Cultura 2025–2035.

Com isso, convidamos todas as pessoas, organizações, entidades, redes, mestras e mestres, coletivos e apoiadores da Cultura Viva a assinar este abaixo-assinado, promover debates, rodas de conversa e articulações territoriais, mobilizar suas redes sociais, pressionar parlamentares, gestores e lideranças políticas e fortalecer a defesa dessa política que há décadas transforma o Brasil pela cultura.

 “A Cultura Viva é a força da cultura brasileira que começa nos territórios.”

Vamos garantir que a PNCV esteja onde sempre deveria estar: no coração do PNC.

 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Lula na entrega do documento do Plano Nacional de Cultura reafirma ser o governo da revolução cultural brasileira soberana e democrática. O que isso significa na prática?

🔥Lula lança novo Plano Nacional da Cultura e convoca 'romper com o fascismo' em revolução cultural🔥

quinta-feira, 10 de julho de 2025

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Mambembe em Cena: Do Quilombo da Maloca ao Palco da Rebeldia”

 Emanuel Rocha*

22 de novembro de 2025  

Quando o palco vira trincheira e a comédia, resistência

Numa Aracaju que respirava sonho e poesia, onde o vento cochichava segredos nas esquinas e o riso morava em cada beco, nasceu, em 1983, o Grupo Teatral Mambembe. Era filho do Quilombo da Maloca, gestado no calor da invenção e no improviso cheio de ginga. Os dois Antônios, Campos e Santos, teceram a travessura, lançaram a semente e acordaram a cidade com um teatro livre, faceiro, atrevido e com o coração maior que o Mercado Municipal.

Mas foi em 1985 que a magia decidiu chegar de verdade, e veio com elegância. Surgiu Virgínia Lúcia, artista de olhar cortante e alma que falava com as estrelas. Ela não entrou na trupe, pousou como quem sopra vida nova, trazendo outro compasso para o tambor, outro brilho para a cena e uma coragem bonita de virar o mundo de cabeça pra baixo. Com ela, o grupo se despediu da saudade do teatro engessado e abriu os braços para a arte viva, que é arma e festa, pensamento e brincadeira, resistência e encanto, tudo junto e misturado, do jeito que só Aracaju entende.

O Mambembe bebeu da fonte do Imbuaça, como quem encontra um poço encantado no próprio quintal. Fez morada nesse encanto e trouxe para o seu fazer a esperteza do cordel, a sabedoria brincalhona do circo-teatro e o fervor do teatro de rua popular. Cada cena virou grito, cada riso virou ironia afiada, cada gesto se abriu como janela para as dores e esperanças das periferias, que sempre tiveram o que dizer e nunca perderam a vontade de cantar.

E lá vinha Virgínia Lúcia, com sua escrita que cortava e acariciava ao mesmo tempo, abrindo horizontes para o Mambembe com a ousadia de quem nunca aprendeu a pedir licença. Sob sua pena inquieta, o grupo percorreu Sergipe de ponta a ponta, levantando poeira nos povoados, ocupando praças com poesia desobediente e cruzando fronteiras para ecoar em outros cantos do país. Em cada cidade ficava um rastro de riso crítico e encanto rebelde. Assim, o Mambembe foi se tornando lenda viva, trupe insurgente, militante e travessa, daquelas que entram pela porta da frente do coração e ali se instalam, sem jamais pedir permissão.

Foi no apagar das luzes da década de 1980 que Raimundo Venâncio entrou em cena. Não anunciou chegada, apenas surgiu, como personagem que o destino escreve de surpresa. Caminhou pelo terreiro do Mambembe com a naturalidade de quem sempre pertenceu ao enredo, e o grupo, ao vê-lo, pareceu reconhecer um velho companheiro de sonho. Raimundo trazia nos olhos o brilho das praças e nas veias a pulsação do verso. Sua presença tinha o dom de fazer o público rir e pensar ao mesmo tempo, como se a poesia soprasse segredos no ouvido da consciência. E assim, sob refletores inventados e estrelas cúmplices, sua palavra virou luz que dançava entre o riso e a revolta.

Logo Raimundo tornou-se farol no meio da trupe, luz teimosa apontando caminhos mesmo quando a neblina insistia em cair. Entrou em cena com corpo e alma em montagens que marcaram época, como Quem Matou Zefinha?, espetáculo que cutucava a ferida das injustiças e expunha, com ousadia e sarcasmo, as dores que o poder tentava esconder sob o tapete da indiferença. Era teatro que perguntava em voz alta, chamava o povo pelo nome e fazia de cada riso uma faísca de consciência, mostrando que a luta também pode nascer da poesia, da gargalhada e do peito valente que não aceita calar.

O Grupo Mambembe se destaca também por uma postura firme que nem vento teimoso dobra. É daqueles coletivos que olham o poder nos olhos e respondem com arte, ironia e coerência. Nunca se vendeu, jamais trocou sua alma por promessa bonita de governo que pouco entendia o povo, e às vezes até caminhava contra ele. Prosseguiu adiante com a teimosia boa de quem sabe onde pisa e por que pisa.

A arte do Mambembe caminhou junto das lutas sociais, não como sombra, mas como força viva que enfrentou o silêncio e desafiou o esquecimento. Foi um grupo que nunca se curvou aos poderosos, nem baixou a cabeça diante da censura, da indiferença ou do medo. Permaneceu de pé, risonho e combativo, fazendo do palco uma trincheira e da poesia uma arma de esperança. Cada gesto era bandeira, cada palavra, chamado à consciência. O Mambembe não apenas encenou: gritou junto, chorou junto, sonhou junto. Em cada praça, reacendeu a chama antiga da cultura sergipana, essa que só arde quando o povo se reconhece em cena e entende que arte também é forma de lutar.

Não faltou humor, nem veneno, nessa caminhada atrevida. Em 1993, o Grupo Mambembe invadiu as ruas de Aracaju com Passaram a Mão no Buraco do Meu Bem, espetáculo que já fazia o povo rir só pelo título e seguia derrubando máscaras a cada cena. Mas, por trás da gargalhada, vinha a ferroada: uma sátira ácida à política pública de saúde do governo estadual, que tropeçava mais que paciente em fila de posto. Com sorriso maroto, gestos exagerados e aquele deboche certeiro que só o povo domina, o grupo desmontou discursos, escancarou falcatruas e cutucou a ferida do poder. Esse é o Mambembe que nunca se rendeu ao afago dos poderosos, que fez da criatividade sua arma e da arte seu instrumento de informação e resistência, mostrando que riso também pode ser rebeldia e que o palco é lugar de luta, consciência e liberdade.

Essa mistura audaciosa de poesia com riso cortante virou marca registrada do Mambembe. Eles pegam o drama pesado da vida popular e o vestem com cordel, samba, rock e circo, criando um tempero que é metade beleza, metade desatino, todo revolucionário. O público não assiste, participa. Não é plateia, é cúmplice da piada que incomoda. Ri, mas sem esquecer da indignação necessária. É assim que o Mambembe transforma cada apresentação num pequeno levante, leve no jeito, forte na mensagem.

O grupo sempre caminhou lado a lado com movimentos sociais, sindicatos e causas populares de Sergipe, levando o teatro como farol em tempos de escuridão. Politizava cada apresentação com a ousadia de quem sabia que arte também é arma e esperança. Era palco que convidava o público a pensar, rir, se indignar e, se possível, sair dali com vontade de mudar o mundo. O Mambembe não representava por representar: despertava, cutucava, lembrava que cada aplauso podia ser também um grito por transformação.

Além das ruas de Aracaju, o Mambembe espalhou sua chama pelo interior sergipano e por estados vizinhos, levando seu teatro-poesia de resistência como quem protege um lume sagrado na palma da mão. Em cada povoado, em cada praça, reafirmava a identidade do povo e cutucava com coragem as desigualdades escondidas nas dobras do cotidiano. O circo-teatro, a palhaçaria consciente e o diálogo direto com o público transformavam o palco em território comum, onde artista e cidadão se misturavam num mesmo gesto de humanidade, rompendo a distância entre quem cria e quem vive a arte.

Assim, o Grupo Mambembe e seus incansáveis integrantes (dos fundadores Antônio Campos e Antônio Santos, à liderança inventiva de Virgínia Lúcia e à força poética e militante de Raimundo Venâncio), junto de tantos atores, técnicos e colaboradores, escreveram uma das páginas mais vibrantes da cultura brasileira. São prova viva de que, quando a arte se une à consciência, o teatro deixa de ser apenas espetáculo e se torna pulsação de vida, esperança e revolução. O Mambembe segue presente em cada esquina, em cada plateia improvisada, em cada coração fervoroso de Sergipe, lembrando que, enquanto houver povo e poesia, o palco jamais se apaga.

E assim chegamos ao último aplauso, aquele que não se apaga e continua ecoando no peito de cada sergipano. Porque o Mambembe não foi apenas um grupo, foi abraço coletivo, farol teimoso e riso resistente nas horas mais duras. Foi arte que não pediu licença para existir. Por isso, sindicatos, associações, movimentos sociais, artistas, professores, estudantes, gente de toda esquina e de toda quebrada têm motivo de sobra para agradecer de pé a existência desse bando arretado que ousou transformar tristeza em reflexão, dor em poesia e injustiça em gargalhada crítica, e com isso manteve viva a chama da esperança no palco da vida.

O Mambembe ensinou que o teatro pode ser espada e flor ao mesmo tempo, que a rua é palco legítimo e que o coração do povo é plateia que nunca dorme. E até hoje, quem passa pelas praças de Aracaju ainda sente aquele pulsar escondido no vento, um ritmo leve que parece sussurrar: aqui já houve teatro que disse verdades com humor, que provocou esperança com deboche e que acendeu coragem com poesia.

Por tudo isso, Sergipe tem motivo de sobra para se orgulhar e preservar a memória desse grupo que ousou desafiar o poder, atravessou fronteiras, levou alegria aos lugares mais distantes e transformou a arte em arma, fé e coragem.

O Mambembe foi e continua sendo centelha de sonho e resistência, lembrando que o riso também pode ser gesto de luta e que a poesia, quando encontra o povo, vira força capaz de mover o mundo.

Fica, então, nosso agradecimento cheio de encantamento e sorriso torto. Obrigado ao Mambembe por existir, resistir e insistir. Obrigado por colocar poesia no meio da poeira, por arrancar riso onde só havia silêncio, por ensinar que a revolução também pode ter cheiro de picolé, som de sanfona e brilho de lampião.

Mesmo com seu término, o Mambembe permanece aceso no tempo, feito brasa teimosa que o vento não apaga. Sua voz ainda sopra nas esquinas, sua gargalhada ainda mora nas praças, seu passo ainda ecoa nos becos onde a esperança aprende a dançar.

Que essa chama continue viva, brincalhona e danada, batendo firme no coração de quem cruza as praças, os becos e os sonhos de Sergipe, terra que aprendeu, com o Mambembe, que a arte é coragem disfarçada de alegria e que nenhum fim é capaz de apagar o que nasceu do povo, do riso e da luz.

* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor  e Repórter fotográfico

https://roacontece.com.br/2025/11/22/mambembe-em-cena-do-quilombo-da-maloca-ao-palco-da-rebeldia/

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

11ª MOSTRA MOSFILM DE CINEMA SOVIÉTICO E RUSSO na plataforma Spcine Play, entre os dias 24 de novembro a 8 de dezembro.

 Seis longas e um curta metragem compõem a edição online da programação da 11ª MOSTRA MOSFILM DE CINEMA SOVIÉTICO E RUSSO, que acontece na plataforma Spcine Play, entre os dias 24 de novembro a 8 de dezembro



Entre os destaques da programação estão filmes selecionados em virtude da comemoração dos 80 ANOS DA VITÓRIA sobre o nazifascismo na Segunda Guerra Mundial, um curta e um longa-metragem do cineasta KAREN SHAKHNAZAROV, que completa, este ano, 50 anos de carreira, e o clássico O ENCOURAÇADO POTEMKIN (1925), que chega aos 100 anos em 2025. 

Os filmes de Karen Shakhnazarov apresentados na mostra são o curta metragem “Devaneio de Primavera” (1975), primeiro filme do diretor, e o longa “No Submundo de Moscou” (2023), que será apresentado em versões dublada e legendada. 

O DIA DA VITÓRIA será relembrado na mostra através dos filmes “O Caminho Para Saturno” e “O Fim de Saturno”, ambos de 1967, sobre a infiltração de um oficial da inteligência soviética na escola de espionagem nazista Saturno. A direção é de Villen Azarov, e ambos os longas foram restaurados pelo Estúdio Mosfilm em 2025. 

Completam a programação “A Queda da Dinastia Romanov” (1927), da pioneira dos documentários de compilação, Esfir Shub, e a ficção científica “O Segredo da Noite Eterna” (1955), de Dmitry Vassilev.

PROGRAMAÇÃO GRATUITA!
Para acessar: www.spcineplay.com.br 

Disponível em: 
Smart TVs: LG, Samsung e Roku
Celulares e Tablets: Google Play Store (Android) e Apple Store (iOS)
Outras formas: Pode ser acessado por notebooks e também via Chromecast.



O ENCOURAÇADO POTEMKIN
1925 / P&B / 71 MIN. / ÉPICO 
Direção: Serguey Eisenstein

Roteiro: Nina Agadzhanova, Serguey Eisenstein e Grigori Aleksandrov

Com Andrei Fait, Aleksandr Antonov, Ivan Bobrov e Grigori Aleksandrov

Em 1905, marinheiros do Potemkin rebelam-se. A população da cidade portuária de Odessa apoia a revolta e é brutalmente reprimida. O encouraçado dispara contra o Quartel General czarista e parte ao encontro da frota do Mar Negro, visando sublevá-la.

Classificação Indicativa: não recomendado para menores de 14 anos

Curiosidades:

Baseado em eventos reais, e um dos filmes mais influentes da história do cinema, “O Encouraçado Potemkin” completa 100 anos em 2025

Revolucionou a linguagem cinematográfica, principalmente no que concerne à montagem.

A QUEDA DA DINASTIA ROMANOV

1927 / P&B / 62 MIN. / DOCUMENTÁRIO

Direção e roteiro: Esfir Shub

Documento histórico sobre os grandiosos e ao mesmo tempo trágicos eventos que marcaram a história da Rússia na virada do século XIX para o XX. As imagens, que retratam a vida do povo e da elite governante, demonstram claramente a gravidade das contradições sociais da Rússia pré-revolucionária.

Classificação Indicativa: não recomendado para menores de 10 anos

Curiosidades:

Esfir Shub foi pioneira na criação dos “documentários de compilação” (feitos a partir de imagens de arquivo de eventos reais), sendo este filme considerado o primeiro do gênero.

O filme foi realizado para comemorar o aniversário de 10 anos da Revolução de Outubro

O SEGREDO DA NOITE ETERNA

1955 / COR / 79 MIN. / FICÇÃO CIENTÍFICA

Direção: Dmitry Vassilev

Roteiro: Igor Lukovsky

Com Ivan Pereverzev, Danuta Stolyarskaya, Mikhail Astangov, Konstantin Bartashevich

Uma explosão no fundo do Oceano Pacífico faz com que a vegetação subaquática aumente rapidamente de tamanho. Denisov, pesquisador de um Instituto de Oceanologia que testemunhara o desastre, presume que o fenômeno se deva a um novo elemento radioativo, que deve ser estudado com urgência. Ele precisa descer ao fundo do oceano, mas começa a perder a visão por conta do efeito da radiação.

Classificação Indicativa: livre

Curiosidades:

O diretor do filme, Dmitry Vassilev, foi assistente de direção de dois clássicos do cinema soviético: “Lenin em Outubro”, de Mikhail Romm, e “Aleksandr Nevsky”, de Serguey Eisenstein.

O filme estreou primeiro na televisão, em junho de 1956, e posteriormente nos cinemas, em setembro do mesmo ano.

O CAMINHO PARA SATURNO

1967 / P&B / 82 MIN. / GUERRA

Direção:  Villen Azarov

Roteiro: Mikhail Bleyman, Vassily Ardamatsky, Villen Azarov

Com Mikhail Volkov, Georgy Zhzhenov, Arkady Tolbuzin e Valentina Talyzina

O Capitão Krylov, oficial de inteligência soviético, infiltra-se na organização altamente secreta “Saturno” com o objetivo de conquistar a confiança dos líderes do centro de sabotagem hitlerista e transmitir uma mensagem importante a Moscou.

Matriz restaurada pelo Estúdio Mosfilm em 2025

Classificação Indicativa: não recomendado para menores de 14 anos

Curiosidades:

Baseado na obra de V. Ardamatsky, “Saturno é Quase Invisível”, por sua vez inspirado na vida do agente russo Aleksandr Ivanovich Kozlov.

Tropas reais do Distrito Militar dos Cárpatos adicionaram autenticidade às filmagens, e em vez de cenários foram usadas locações reais, requerendo uma enorme quantidade de filme.

O FIM DE SATURNO

1967 / P&B / 95 MIN. / GUERRA

Direção: Villen Azarov

Roteiro: Mikhail Bleiman, Vassily Ardamatsky, Villen Azarov

Com Mikhail Volkov, Lyudmila Maksakova, Georgy Zhzhenov e Vladimir Pokrovsky

Nessa continuação de “O Caminho Para Saturno”, o oficial de inteligência soviético Krylov trabalha na organização de espionagem alemã “Saturno”, no território ocupado da Bielorrússia, sob o nome de Kramer. Ele transmite a Moscou os nomes e características dos sabotadores nazistas enviados à retaguarda soviética.

Matriz restaurada pelo Estúdio Mosfilm em 2025

Classificação Indicativa: não recomendado para menores de 14 anos

Curiosidades:

Baseado na obra de V. Ardamatsky, “Saturno é Quase Invisível”, por sua vez inspirado na vida do agente russo Aleksandr Ivanovich Kozlov.

Villen Azarov, batizado em homenagem a Vladimir Ilich Lenin, escolheu o tema de Saturno inspirado pela trajetória do pai, Avraam Azarov, major da segurança do Estado, por conta do cinquentenário da Agência de Inteligência Soviética.

DEVANEIO DE PRIMAVERA

1975 / COR / 22 MIN. / DRAMA

Direção: Karen Shakhnazarov

Roteiro: Vassily Shukshin e Karen Shakhnazarov

Com Aleksandr Safronov, Nina Grebeshkova, Gueorgy Burkov e Nikolai Smirnov

O jovem médico Solodovnikov é enviado a um hospital em uma zona rural para um período de três anos de residência. Constantemente atrasado para suas tarefas diárias, o rapaz faz planos ambiciosos para sua carreira, e os descreve em seu diário que marca a chegada da Primavera.

Classificação Indicativa: não recomendado para menores de 10 anos

Curiosidades:

Curta metragem de estreia do diretor Karen Shakhnazarov, e seu trabalho de conclusão de curso no Instituto Estatal de Cinema (VGIK)

Inspirado no conto “Um passo à frente, Maestro!”, do escritor e cineasta Vassily Shukshin

NO SUBMUNDO DE MOSCOU

2023 / COR / 129 MIN. / AVENTURA

Direção: Karen Shakhnazarov / Roteiro: Elena Podrez, Ekaterina Kochetkova, Karen Shakhnazarov / Música: Yury Poteenko

Com: Konstantin Kryukov, Mikhail Porechenkov, Anfisa Chernykh e Evgeny Stychkin

Moscou, 1902. O famoso diretor de teatro Konstantin Stanislavsky, em busca de inspiração para uma nova peça, decide se aprofundar na vida do “submundo” da cidade. Ele pede ajuda a Vladimir Gilyarovsky, reconhecido especialista nas periferias de Moscou. Juntos, eles vão ao lendário bairro dos bandidos, Khitrovka, e se envolvem na investigação do assassinato de um misterioso residente local: um sikh indiano com um passado sombrio…

Classificação Indicativa: não recomendado para menores de 14 anos

Curiosidades:

Inspirado no romance “O Signo dos Quatro”, de Arthur Conan Doyle e em um evento real: a tour de Stanislavsky acompanhado por Gilyarovsky pelo distrito de Khitrovka.

O filme estreou em 18/05/23, em 1800 salas de cinema da Rússia, depois de liderar as pré-vendas de ingressos na semana anterior.

A COP30 apresentou avanços reais? O que diz uma especialista

 Como se pode avaliar o que foi obtido ao longo do processo de negociação que começou bem antes da realização do evento em si?

https://revistaforum.com.br/global/2025/11/23/cop30-apresentou-avanos-reais-que-diz-uma-especialista-192722.html

A COP30, realizada em Belém (PA), terminou neste sábado (22) e contou com resoluções aprovadas por consenso entre os Estados-membros da ONU, além de compromissos voluntários assumidos fora do processo formal de negociação. Diante dos resultados, como se pode avaliar o que foi obtido ao longo do processo de negociação que começou bem antes da realização do evento em si?

Para a professora de Direito da Universidade de Melbourne, Jacqueline Peel, especialista de renome internacional na área de direito ambiental e de mudanças climáticas, houve progressos no financiamento climático e na adaptação às mudanças já em curso. "No entanto, os esforços para acabar com a dependência dos combustíveis fósseis estagnaram diante da forte resistência das potências petrolíferas. Grande parte do progresso em Belém ocorreu fora das negociações principais", aponta ela.

Combustíveis fósseis

Em artigo publicado no The Conversation, a especialista pontuou que o Brasil tinha um plano: angariar apoio para um roteiro de eliminação gradual dos combustíveis fósseis, defendido pelo presidente Lula e fortemente impulsionado pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. "O plano recebeu apoio de mais de 80 países, incluindo grandes exportadores de combustíveis fósseis como Noruega e Austrália. Antecipando resistência, o Brasil trabalhou para ampliar o apoio fora das negociações principais antes de apresentá-lo formalmente", conta.

"Não funcionou. Ao final da COP30, toda menção a um roteiro para os combustíveis fósseis havia sido removida do texto dos resultados finais, após forte reação negativa de países como Rússia, Arábia Saudita e Índia, além de muitas economias emergentes", pontua a especialista. "Em vez disso, os países concordaram em lançar o 'Acelerador Global de Implementação […] para manter o limite de 1,5°C ao nosso alcance' e 'evando em consideração' as decisões anteriores da COP. Essa iniciativa será conduzida pela Presidência brasileira da COP30 e pelos líderes das negociações da COP31 do próximo ano, Turquia e Austrália."

COP30: Confira o que foi decidido

Peel ressaltou que o presidente Lula prometeu continuar defendendo um roteiro para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis no G20 e que a Colômbia e os Países Baixos realizarão uma conferência sobre a eliminação gradual dos combustíveis fósseis em abril de 2026. "O texto da decisão da COP30 também faz referência a um 'evento de alto nível em 2026', que poderá ocorrer no Pacífico . Sem os obstáculos ao consenso nessas reuniões, uma coalizão de países dispostos a colaborar poderia fazer progressos reais no estabelecimento de cronogramas e na troca de ideias políticas para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis."

Financiamento climático

A professora de Direito diz que a decisão de desenvolver um mecanismo de transição justa foi saudada como uma vitória para os trabalhadores e as comunidades. O objetivo deste novo mecanismo será aumentar a cooperação internacional, a assistência técnica, o desenvolvimento de capacidades e a partilha de conhecimentos à medida que os países avançam rumo a uma economia global de baixo carbono.

"Esses fundos destinam-se a ajudar as nações mais expostas a danos climáticos severos, geralmente mais pobres e com baixas emissões. Essas nações lideraram a luta para triplicar o financiamento climático até 2030, partindo dos US$ 40 bilhões (A$ 62 bilhões) acordados na COP26, quatro anos atrás. Mas o texto acordado apenas 'solicita esforços para pelo menos triplicar o financiamento para adaptação até 2035', o que adia o prazo e não estabelece uma meta de financiamento", explica.

Ela destaca ainda uma outra iniciativa brasileira, o Fundo para Florestas Tropicais, que assegurou US$ 9,5 bilhões em promessas de financiamento, o que é um recorde na COP. Também foi consolidado o suporte a um roteiro para acabar com o desmatamento, firmado com 92 apoiadores.

"O sucesso dessas iniciativas de combate ao desmatamento demonstra a eficácia da Agenda de Ação da COP, que visa impulsionar ações climáticas fora das negociações formais e inclui compromissos de empresas, investidores e da sociedade civil. À medida que as negociações formais se emperram, essas vias alternativas podem acabar substituindo as negociações como motor do progresso", assinala.

Consenso

Segundo Peel, surgirão também questionamentos sobre a adequação dessas negociações baseadas em consenso, visto que esse tipo de mecanismo pode ser manipulado por grupos que buscam obstruir o processo.

"Para muitos, a COP30 será considerada um fracasso em relação aos combustíveis fósseis e na resolução das grandes lacunas entre as promessas nacionais de redução de emissões e o que é necessário para limitar o aquecimento a 1,5°C", diz ela. "Isso é verdade. Mas outra perspectiva seria a de que essas negociações trouxeram avanços reais em áreas importantes, apesar dos consideráveis ??desafios."

"Negociadores de 194 países compareceram e continuaram a conversar e trabalhar juntos para enfrentar a crise crescente. Quase metade desses países demonstrou estar pronta para começar a se desvencilhar dos combustíveis fósseis, apoiando o roteiro de eliminação gradual. Eles não precisam esperar por um consenso da ONU para agir. Os exportadores de combustíveis fósseis só têm poder enquanto outras nações comprarem e dependerem de seus produtos", analisa, vislumbrando novas possibilidades futuras além daquelas ditadas pelo consenso na COP.

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COP30: Confira o que foi decidido

A COP30 era “a hora da verdade”, mas a verdade é que o mundo rico não tem pressa nenhuma em parar de fritar o planeta. O rascunho do texto final é fraco: ninguém quer assumir o fim dos combustíveis fósseis nem pagar a conta da adaptação de um clima já descontrolado. Produtores de petróleo empacam, países ricos fogem do cheque, países pobres exigem o básico: financiamento. Não é falta de esforço do Brasil, é sobra de ganância global. Já passamos do limite dos 1,5°C e seguimos apostando num negacionismo-light: “mudanças climáticas existem, mas deixa eu queimar mais petróleo antes”. Vendem capitalismo verde, mas ele parece mais banqueiro pintado de guache no carnaval. Ainda dá para mudar o rumo, mas, como diria Santo Agostinho, traga-me a virtude, mas não ainda. 

Marina é aplaudida de pé após fala no encerramento da COP30: 'Progredimos, ainda que modestamente'