A Copa do Mundo de 2026, sediada por Estados Unidos, Canadá e México, reacende o fascínio nacional pelo futebol, mas também expõe as contradições de uma seleção brasileira que se tornou espelho de um país em declínio. Enquanto para alguns o torneio representa um raro momento de união e esperança num mundo fragmentado por guerras e desigualdades, críticos apontam que o atual futebol brasileiro, marcado pelo individualismo e pela alienação, reflete a decadência social e econômica do Brasil. Para Gilberto Maringoni, o ocaso da "ginga" e do futebol-arte coincide com o avanço do neoliberalismo e da desindustrialização. Já Romero Venâncio vê na convocação de Neymar e no comportamento dos jogadores — imersos numa cultura de ostentação, religiosidade vazia e desconexão com a realidade nacional — o sintoma mais agudo de uma "sociedade ruim" que produz um "futebol pior". Por outro lado, Marcelo Barros defende que, apesar da mercantilização do esporte, a Copa ainda pode ser um ensaio para um mundo mais solidário, desde que não sirva como alienação e que a política mereça a mesma atenção crítica que se dedica ao futebol. O que está em jogo, portanto, vai além das quatro linhas: é a própria ideia de Nação e de futuro que se debate no campo.

Noruega supera o Brasil com dois gols de Haaland. 📸 Reuters
Gilberto Maringoni -
FUTEBOL E DESENVOLVIMENTO: O AUGE DE UM PAÍS
O auge do futebol brasileiro (1950-94) se deu no período do nacional-desenvolvimentismo. Ele começa na brilhante campanha de 50 (fomos invictos à exceção da final), passa pela conquista de quatro Copas e da formação de duas seleções irrepetíveis no plano global (1970-82). Revelamos os maiores craques do mundo, ganhamos três vezes o mundial de clubes (Santos em 1962-63 e Flamengo 1981) e inventamos a ginga e o futebol-arte. São construções e conquistas que coincidem com o tempo em que o Brasil tinha projeto de futuro, com a ampliação de direitos sociais, a criação da CSN, da Petrobrás, do BNDES, da Eletrobrás, da Embraer e do II PND, entre outros tentos. Seu ocaso acontece com a chegada do tucanato e do neoliberalismo selvagem. Tivemos um soluço temporão em 2002. O neoliberalismo, a partir de FHC até a atualidade, marca a desesperança e a desindustrialização de um lado e nossa decadência em campo, de outro. Temos hoje o futebol da privatização, do ajuste e do arcabouço e o fim dos times em que o talento era coletivo. Agora é a vez do exibicionismo individualista, típico dos tempos da supremacia dos mercados e das finanças. Ou seja, a mediocridade e a falta de perspectiva dão o tom dentro e fora do campo. Assistimos 11 empresários de si mesmo correndo atrás da bola por 90 minutos, assim como temos empresas estratégicas em mãos privadas correndo atrás de bônus para seus acionistas. A superação da decadência do país não é bandeira de nenhum dos principais candidatos à presidência. Tentemos pelo menos ganhar tempo, escolhendo o menos pior.
Por trás e para além da Copa do Mundo
@~Marcelo Barros
Nesses dias, o mundo inteiro está centrado no Campeonato Mundial de Futebol. Cada vez que a nossa seleção entra em campo, o Brasil inteiro para diante do televisor. Mesmo quem não gosta de futebol sente-se envolvido na torcida.
Em um mundo dominado por mais de 50 guerras sangrentas e que, cada dia, testemunha cenas de genocídio e desumanidade, de repente, parece que tudo está bem. O governo dos Estados Unidos continua a tratar os migrantes, como se fossem descartáveis. Manda a polícia disparar contra pessoas desesperadas que cruzam a fronteira. No entanto, durante essas semanas da Copa do Mundo acolhe jogadores de todo o mundo y ganha milhões e milhões, graças às pessoas que enchem os estádios para ver, ao vivo, as partidas.
O futebol e o amor aos esportes são valores inquestionáveis. Não podem ser culpabilizados pela forma pouco democrática e transparente, com a qual os campeonatos são preparados. O esporte e, nesse caso específico, o futebol, é expressão do encontro de culturas. Leva os povos ao conhecimento uns dos outros, ao diálogo e à compreensão humana. Mesmo com o seu caráter competitivo e responsável por envolver tantas emoções, algumas vezes, conflitivas, no futebol, a luta acontece em torno de uma bola e não com o uso de armas ou estratégias militares. As manifestações racistas que, uma vez ou outra, ainda ocorrem nas partidas, assim como episódios de violência entre torcidas são crimes que maculam a verdadeira natureza do futebol.
É evidente que o caráter comunitário do futebol constitui, sem dúvida, uma lição para uma sociedade que não leva a sério o fato de que todos e todas dependem uns dos outros. Talvez a Copa do Mundo seja o único evento no qual países africanos competem e são tratados em pé de igualdade pelos seus parceiros europeus e norte-americanos, que durante séculos os exploraram e os saquearam. Esses jogos parecem mostrar um mundo unido. Neles, a humanidade assemelha-se a um grupo de crianças, em torno de uma bola, a brincar com os seus amigos do bairro.
Apesar de todos esses valores, o futebol não pode ser o equivalente moderno do antigo circo romano, criado para alienar as massas. Todos sabem que, atualmente, o futebol já não é o mesmo dos primeiros tempos do rei Pelé. No mundo dominado pelo mercado, tornou-se negócio milionário. Assim mesmo, é possível manter uma consciência crítica e até fazer da Copa do Mundo uma espécie de ensaio para um mundo mais unido e solidário. O futebol, com as suas regras e disciplina, pode ser como preparação para superar sectarismos e ensaiar o mundo como imensa pátria, para toda a humanidade, em uma relação nova e mais justa com a natureza.
Seria ótimo que a Política merecesse a mesma atenção crítica e a mesma participação consciente que o futebol suscita. Que, para os cargos de representação política, nos governos e nas câmaras legislativas, encontrássemos pessoas sensíveis e capazes de trabalhar em equipe e, ao mesmo tempo, soubessem respeitar regras da boa convivência, com os seus adversários.
Seria ótimo se as comunidades cristãs lembrassem de que, nos primórdios do cristianismo, o apóstolo Paulo comparou o caminho da fé aos jogos antigos em um estádio e escreveu: «Não sabem que, no estádio, todos os atletas correm, mas apenas um recebe o prémio? Corram, pois, de forma a poderem alcançá-lo. Para as competições, os atletas têm de se abster de muitas coisas, e fazem-no para obter uma coroa perecível. Nós corremos por uma coroa incorruptível. Assim, eu corro, mas não como quem corre, sem saber para onde vai. Luto, mas não como quem dá golpes no ar. Submeto o meu corpo à disciplina, para que não aconteça que, enquanto prego aos outros, eu próprio seja reprovado» (1 Cor 9, 24–27).
A SELEÇÃO BRASILEIRA COMO SINTOMA. NOTINHA
Romero Venâncio (UFS)
“Vem aí dias piores./ O tempo adiado até nova ordem/
surge no horizonte.”
Ingeborg Bachmann
Junho, 2026. Início de copa do mundo de futebol (EUA, Canadá e México). É notório e histórico que o futebol exerce em nós brasileiros/brasileiras um poder magnético ainda grande. Diminuiu um tantinho, mas ainda nos fascina e nos mobiliza. De camisas amarelas à álbum de figurinhas; das crianças aos adultos… Os jogos assistidos coletivamente em bares ou em espaços que aglomeram; as discussões acaloradas sobre o time; as escalações discutíveis…
Pela importância que o futebol tem no tecido social brasileiro, nós podemos fazer uma reflexão que vai além de torcedor e torcidas. Podemos ver no futebol elementos de como anda o país nessa atual quadra histórica. Hoje, ficou mais nítido o abismo dentro do futebol que é, no fundo, o abismo social que vive o Brasil (e o mundo!). Temos um futebol na era das “Big techs" e seu “Vale do silício”. Estamos falando de conglomerados poderosos e onipresentes em nossas vidas. são as maiores e mais influentes empresas de tecnologia do mundo (como Apple, Microsoft, Google, Amazon e Meta). Elas dominam o mercado digital, ditam tendências globais e centralizam serviços de nuvem, redes sociais e inteligência artificial.
Sem ser saudosismo e sem querer que o passado seja melhor que o presente, é público e notório (vendo em arquivos nessas redes digitais) que nosso futebol já foi melhor, mesmo quando não ganhou copa do mundo (caso da seleção de 1982!). E isto não significa que o capitalismo na captura do futebol foi “melhor” e tão diferente de hoje. Nada disso. A questão é outra. A relação umbilical entre cultura das academias; redes digitais, futebol e o comportamento dos jogadores reconfigurou quase tudo na ideia que temos de futebol hoje. E Neymar (o ex-jogador mais famoso em atuação, ainda!) é o sintoma mais acabado de onde chegamos. A própria ideia de Neymar ainda ser convocado para uma copa do mundo em muito explica essa situação em que estamos enfiados nessa hora de Brasil (quase sempre em transe!).
Nunca fomos tão ricos em músculos, preparo físico, uso de cremes corporais, ostentação, exibicionismos… Mas nunca fomos tão pródigos em jogador supostamente cristão; alheio à realidade do país, tolos em redes digitais e vitimados e protagonistas de uma “cultura bolsonarista”. O paradoxo: praticam um esporte que é coletivo por natureza e se tornam atletas individualistas em tudo que fazem. Em nada parecem saber sobre cultura solidária. A busca por um heroísmo doentio por conta do prazo de validade de um jogador de futebol vira uma luta desenfreada por riqueza e ostentação. Celebridades vazias (termos quase tautológico!), sem grandeza alguma. Jovens apequenados que viram modelos para outros jovens que estão numa enorme fila de empobrecidos. O que nos deixa entrever: o futebol que é tão social e popular em nada se liga a saúde pública, educação pública, justiça social… Ou seja, tudo que diz respeito à uma ideia de Nação. Jogadores que vivem imersos num cristianismo atoleimado com suas pobres coreografias com dedinho apontado para cima e gritando um palavreado de culto cristão em igrejas alienadas num campo de futebol, nos deveriam fazer pensar. Nesse campo, Neymar, Frei Gilson e Silas Malafaia se equivalem culturalmente.
O jogo deste dia 13/6/2026 contra a seleção do Marrocos foi apenas um sintoma aprofundado de uma situação sem volta do futebol brasileiro. Estamos vivendo uma grande mutação em toda a cultura do futebol. Sem ilusões, já estamos em dias ruins para o futebol e para o que restou do país. Ou seja: sociedade ruim, futebol pior. Mas tudo bem calibrado pelos “tigrinhos” e seus ganhadores de plantão & perdedores de sempre.
Romero Venâncio (UFS)
https://www.instagram.com/reel/DZh6pI4A-Ap/?igsh=MTY2OGRqZjRodnQ3bA==
https://youtu.be/FpuR7pTLFjE?is=kyLcNTjMvUer55sW
Live. Teologia & Sociedade
A SELEÇÃO BRASILEIRA, A ALIENAÇÃO RELIGIOSA E UM NACIONALISMO SEM NAÇÃO
Romero Venâncio (UFS)
14/6. Domingo. Às 20h
No Instagram romerojunior4503
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