blog da Cultura
informações sobre ações culturais de base comunitária, cultura periférica, contracultura, educação pública, educação popular, comunicação alternativa, teologia da libertação, memória histórica e economia solidária, assim como noticias e estudos referentes a análise de politica e gestão cultural, conjuntura, indústria cultural, direitos humanos, ecologia integral e etc., visando ao aumento de atividades que produzam geração de riqueza simbólica, afetiva e material = felicidade"
domingo, 19 de abril de 2026
Porque a arte pode salvar a educação? Como a arte pode salvar vidas? Ana Mae Barbosa, Jonh Dewey e Anisio Teixeira
19 de abril - Dia dos Povos Indígenas

Casaldàliga Fundació
19 de abril - Dia dos Povos Indígenas
“Roubaram as terras indígenas
e batizaram as fazendas
com nomes indígenas ausentes.
Aritana, onde estás?”
Pedro Casaldáliga transformou em poesia aquilo que muitos tentaram calar:
o roubo das terras, o silenciamento dos povos originários, a violência disfarçada de progresso.
Ao chegar ao Brasil, ele assumiu como missão entregar a vida à realidade indígena, negra e camponesa, denunciando injustiças e anunciando um caminho de amor, paz, justiça e solidariedade.
Neste 19 de abril, não celebramos um passado folclórico,
mas afirmamos a vida, a resistência e a dignidade dos povos indígenas,
que seguem cantando — mesmo quando a terra é ferida.
📜 Pedro Casaldáliga
uinta-feira, 18 de abril de 2013
erça-feira, 11 de agosto de 2020
terça-feira, 19 de abril de 2022
quarta-feira, 10 de dezembro de 2025
A maioria dos deputados e senadores sergipanos votam contra os indios e a favor da devastação do meio ambiente e da democracia...
⚠ Reportagem completa no site da Mangue
FESTIVAL RAIZES ANCESTRAIS
1992 (Quinientos años de que) || Belchior & Larbanois e Carrero
GUERREIRA SURARA - SURARAS DO TAPAJÓS
1992 (Quinhentos Anos de Que?)
CD Anexo da Tese de Doutorado de Babi Fonteles
Vítima relata abusos de pastor no Maranhão: ‘Ele dizia que, se eu me relacionasse com ele, estaria me relacionando com Deus'
A Polícia Civil do Maranhão desmantelou um verdadeiro cenário de horror e escravidão disfarçado de fé. O pastor David Gonçalves Silva, líder da congregação Shekinah House Church, localizada em Paço do Lumiar (MA), foi pr3so durante a operação batizada de “Falso Profeta”. Ele é acusado de manter um controle absoluto e doentio sobre mais de 150 fiéis através de um esquema brutal de castigos físicos, tortura psicológica e abusos sexuais.
Chicotadas e privação de comidaO nível de crueldade descoberto pela polícia é estarrecedor. Segundo as denúncias, os fiéis que descumpriam qualquer regra ou questionavam o líder sofriam punições físicas chamadas por ele de “readas”, que incluíam violentas chineladas e chicotadas. Como punição, o pastor também deixava as vítimas passando fome e as obrigava a escrever a frase “Eu preciso aprender a respeitar o meu líder” centenas de vezes em folhas de papel. O local onde os jovens dormiam era chamado pejorativamente de “baia” e eles eram tratados como “piões”.
A desculpa nojenta para o abus0
Além da violência física, o líder religioso usava a vulnerabilidade dos fiéis para cometer estupr0s, mirando principalmente em adolescentes e jovens do s3xo masculino, muitos deles resgatados de situações de rua. O relato de uma das vítimas evidencia a manipulação absurda: para coagir os jovens, o pastor afirmava que “se relacionar com ele, era estar se relacionando com Deus”.
Fim da linha
A investigação aponta que a congregação funcionava como um alojamento onde os fiéis eram totalmente isolados do mundo exterior e vigiados por câmeras até na hora do banho. O homem agora está atrás das grades e vai responder por estelionato, estupr0 de vulnerável e associação criminosa. A polícia já identificou vítimas no Maranhão, Pará e Ceará, e pede que outros frequentadores que sofreram abus0s percam o medo e denunciem.
sábado, 18 de abril de 2026
Teologia da Libertação – ORIGEM, DESAFIOS E CAMINHOS HISTÓRICOS – Padre José Soares de Jesus
"Em uma sociedade marcada por tanta desinformação e preconceitos é importante descobrir as raízes mais autênticas e sinceras da Teologia da Libertação nos evangelhos e no magistério da igreja."
"A força histórica dos pobres", não é um conceito vago e sim um caminho que a Igreja não pode/deve prescindir, para não ser infiel a sua primeira vocação desde os apóstolos. Na origem das comunidades paulinas – tomando o período dos anos 55 até 80 – o que reluzia era o rosto de um Senhor pobre, destemido, profético e que animava a vida dos novos cristãos: “Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza” (2 Cor 8,9).
REVENDO UM pouco (os) NOS ATOS dos Apóstolos, os filhos e filhas da comunidade que demandavam atenção eram as viúvas e os pobres. Por isso, não podemos negar a importância de uma teologia que tem raízes na palavra de Deus: Atos 4,34-35. Ela também encontra subsídios nas encíclicas dos papas – como é o caso da Dilexi Te do Papa Leão XIV – e nas conferências episcopais da América Latina e Caribe.
Essa força foi tomada pela TdL e de modo singular nos ensina Leonardo Boff, que a prática da teologia deve levar em conta a realidade do povo que a circunda e falar da vida a partir do que se sente, se celebra e se busca transformar na vida eclesial e na sociedade. E o teólogo nos assegura: “A Teologia da Libertação deu um voto de confiança nos pobres, considerando-os protagonistas de sua própria libertação e atores na sociedade como a nossa que cria mais e mais pobres e vergonhosamente os despreza e relega à marginalidade”. Para melhor aprofundar, vamos apontar alguns caminhos históricos:
1. A base histórica. Toda pesquisa tem suas raízes que possam ajudar na reflexão. A TdL tem a sua origem na América Latina e o pensamento complexo e profundo de Gustavo Gutierrez, soube dar encaminhamento a este pensar teológico. Seu livro e também chamado de obra, Teologia da Libertação de 1971, é considerado o marco referencial para o estudo do método da TdL. Já na busca de uma hermenêutica e uma compreensão (guardemos bem essa palavra que em breve vamos debater) mais acurada, o melhor caminho é o da Conferência de Medellin. A força do pensamento teológico dos bispos em 1968, colheu toda a problemática social dos nossos povos e conseguiu dar a essa atividade um caráter teológico e profundamente salvífico. Como entender o amor compassivo de Deus, na história humana, excluindo os pobres? Como? Medellín soube apontar essa visão e coloca nos ombros da Igreja uma responsabilidade que condiz com sua missão e, por isso, ensina que: “No centro de sua atenção o homem deste continente, que vive um momento decisivo de seu processo histórico” (Introdução, n. 1.). A conferência não se furta a missão de esclarecer a raiz da pobreza e dos males que afligem nossos povos.
2. Mais traços de Medellin. Na carta aos Colossenses, Paulo ensina que “Jesus é o rosto invisível do Pai” (Col 1,15). O rosto de Jesus é tomado pelos seus seguidores? A Igreja na América Latina, guarda essa figura amorosa? Em Medellin foi exposta uma queixa imensa de que muitos bispos, o clero e até religiosos não se aproximam dos pobres e ostentam a riqueza de uma Igreja opulenta e distante dos pobres. Citemos Medellin:
“E chegam igualmente até nós as queixas de que a hierarquia, o clero e os religiosos, são ricos e aliados dos ricos. Sobre isso devemos esclarecer que com muita frequência se confunde a aparência com a realidade. Muitos fatores têm contribuído para a formação desta imagem de uma Igreja hierárquica rica. Os grandes edifícios, as residências dos párocos e religiosos, quando são superiores às dos bairros em que vivem; os veículos próprios, às vezes luxuosas; a maneira de vestir herdada de outras épocas, são alguns desses fatores” (n. 14,2).
O TRAÇO que procuramos é outro e a TdL ajudou a Igreja a descobrir uma postura mais digna de sua própria vocação, trazendo para o conjunto das ações pastorais os anseios de quem busca a libertação da exclusão e que deve encontrar no evangelho e na Igreja, a motivação de sua missão. Quem assume o papel de agente de pastoral, não pode negar a defesa do evangelho e com ele, a defesa de quem não consegue viver com dignidade (Mateus 25,31-46). Se a prática religiosa é necessária, é também vital para nós cristãos, não separar o corpo e suas dores, o espírito e sua busca de interioridade que formam uma única coisa. A TdL deseja abrir espaços de reflexão na Igreja e fora dela, para os mesmos agentes de pastoral que desejam compreender a interpretação que essa teologia faz da história de nosso povo, da prática de Jesus de Nazaré, da realidade sofrida dos pobres e excluídos e da prática pastoral que vive atenta ao que acontece ao nosso redor. Teologia da Libertação é caminho de liberdade, profundidade e resistência na fé, na cultura, na sociedade e na política, para quem crê no Jesus que foi perseguido e julgado até a morte pelo poder político e religioso do império e do sinédrio.
3. A TdL na atualidade. Os debates atuais seguem fazendo da teologia o centro da vida da Igreja. Percebe-se de um lado a carência de formação teológica e pastoral do nosso povo – inclusive por culpa de parte do clero – e de outro lado, notamos grandes discursos teológicos, artigos e livros que apontam caminhos para a vida da Igreja e da sua identidade. Daqui brota uma pergunta: não seria melhor pôr em relevo o Evangelho? Qual a pertinência teológica em insistir sobre dados racionais da fé, quando nos distanciamos do evangelho de Jesus? Sendo assim, a TdL continua sendo atual e no pensamento iluminador do padre José Comblin (in memorian) podemos ver o seguinte: a liberdade cristã e o evangelho, encontraram eco na sua obra teológica, porque Comblin foi “o grande profeta da Igreja dos pobres’”, desafiando-nos a não perder de vista a Jesus, sua missão libertadora e o impulso que ele deu para que seus seguidores e seguidoras, continuassem o caminho traçado por ele.
Na obra de Comblin e de tantos outros teólogos e teólogas, a TdL continua buscando identificar os desafios que hoje se apresentam à Igreja, ao mundo globalizado, à constante exclusão dos pobres e as questões pertinentes que o papado de Francisco suscitou, como a imigração e a questão ecológica. A TdL é sim comprometida com as transformações sociais e procura atualizar mecanismos de leitura da realidade que nos ajudam a enxergar o porquê de sua pertinência, sua inserção na vida cristã atual e uma constante proximidade com o evangelho de Jesus. Nas sábias palavra do Padre Comblin, a conclusão desse primeiro texto sobre a TdL: “A identidade da Igreja somente pode ser recuperada a partir da identidade do cristianismo. A Igreja não é um fim em si própria, mas está à serviço do Reino. Somente um retorno ao evangelho pode fornecer base sólida a uma identidade firme no meio do mundo atual. O evangelho cristão é sinônimo de vocação para a liberdade”.
Obs. No próximo texto vamos abordar alguns números do documento da Sagrada C. Doutrina da Fé – Liberdade Cristã e Libertação de 1986.
Leia também:
Müller e a Teologia da Libertação “normalizada”
“Pobre e para os pobres”. As palavras do Papa são também o título do mais recente livro de Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Um texto que parece ser o passo definitivo para uma Teologia da Libertação “normalizada”. O volume, que conta com o prólogo de Francisco, foi apresentado em um auditório do Vaticano, a alguns passos da Praça de São Pedro, e com um relator surpresa: Gustavo Gutiérrez.
Müller é o principal artífice dessa “normalização” de uma corrente de pensamento que ainda provoca ardentes debates na América Latina. Ele é, há décadas, amigo pessoal de Gutiérrez, “pai” dessa teologia. Após a apresentação do livro, o recente cardeal alemão explicou aos jornalistas a razão pela qual a apoia sem hesitar.
A entrevista é publicada por Vatican Insider, 27-02-2014 . A tradução é do Cepat.
Leia AQUI
O VIOLONCELO. Por Célio Turino
Jovem negro e favelado é injustamente preso por semelhança em álbum policial, mas libertado após amigos músicos tocarem em frente ao presídio em ato de resistência e comoção social.
A arte como arma: foto no Turano faz parte do Favelagrafia Foto: Anderson Valentim/Favelagrafia
Justino
Justino, o filho do Justo, aquele que se
apega à Justiça. Nome que veio do avô como honra ao passado e promessa de
futuro. Menino nascido no Morro da Grota, um daqueles
lugares que a cidade esquece como se quisesse fazer sumir da paisagem; mas
que não consegue.
A cidade do Rio de Janeiro é emoldurada
pelos morros.
Morros de tirarem o fôlego até encontrarem
céu e mar.
Mãe lavadeira, pai ausente, o menino
cresceu entre barracos e ladeiras, sempre com o ouvido atento aos sons do mundo.
Numa manhã de sábado, assistiu uma apresentação musical com instrumentos e
arranjos diferentes dos que estava acostumado a escutar. Era uma Orquestra Sinfônica
apresentando-se na quadra da Escola de Samba.
Foi quando o destino afinou a alma dele com
a música.
Na profusão de instrumentos, um, em
especial, chamou a atenção do menino: o violoncelo.
Violoncelo, uma caixa de ressonância com
braço e cordas a transmitir tristeza e felicidade. Corpo de madeira escura que
mais parecia o corpo de uma mulher que chorava e se alegrava ao mesmo tempo. O instrumento
fez com que ele se encantasse até o último acorde.
No dia seguinte o menino já dedilhava
cordas de arame num instrumento improvisado em madeiras de caixa de feira. O
gosto era tanto que a mãe decidiu inscrever o filho em oficinas de música que
estavam a acontecer no Ponto de Cultura existente na favela.
Anos passaram-se.
Justino teve a vida guiada pelo compasso
da música em sinfonia. De posse de seu violoncelo, podia ensaiar em casa todos
os dias. Também fez do instrumento seu meio de trabalho, apresentando-se em
escolas ou padarias, festas ou pequenos concertos. Por toda favela Justino
seguia com seu violoncelo nas costas. Os ombros haviam se amoldado ao peso do
instrumento. Ele atravessava becos, vielas, tomava ônibus lotado. Sempre com o
instrumento nas costas. Jovem negro, favelado, carregado o violoncelo. E
suportando olhares desconfiados.
Um crime no caminho
Era domingo.
O rapaz acordou cedo, como sempre.
Desceu o morro, como sempre.
Dirigia-se à padaria próxima à favela, onde
iria tocar na hora do almoço.
Repertório ensaiado, camisa lavada e
passada pela mãe, esperança nos olhos.
No meio do caminho houve um crime.
Não importa qual,
nem quem o cometeu.
Para essa história
só importa uma coisa, o violoncelista de pele negra foi o acusado. Como prova, a
imagem dele identificada em um álbum de fotografias da polícia. Nada mais. Nenhuma
testemunha além daquela que identificou o rosto do jovem negro no álbum da
polícia.
Nenhuma arma.
Nem o resultado do
roubo.
Nada mais.
Só uma prova: a cor
da pele.
Identificado como
criminoso, Justino foi acusado pela Justiça por assalto à mão armada. De nada
adiantaram as provas de inocência, abundantes, registradas em foto e vídeo. Tampouco
as declarações da dona da padaria que o contratou. Nem os depoimentos de
conhecidos, da gente do Ponto de Cultura, do maestro. Nem o histórico de bom
rapaz. Nada.
Nada mais contou.
Nem os vídeos do público que o gravara tocando Bach na padaria. Ele já havia
sido parado antes, numa dessas batidas policiais, e fora fotografado. Estava no
álbum como suspeito. Uma testemunha o havia identificado. Já era o suficiente.
Era negro, carregava um estojo grande nas costas, que facilmente poderia
esconder uma arma, o produto do roubo.
Ao ver a foto, a
vítima afirmou atordoada:
- Foi ele!
A história persiste.
Teima, enfrenta,
afronta, condena.
Ele era negro, carregava a culpa. A juíza, olhos treinados em papéis, não quis assistir os vídeos nem
escutar os sons. Conduziu-se apenas pelos autos, pelo depoimento da vítima e a
acusação dos policiais. As demais testemunhas não estavam no local do
acontecido. Eram só declarações. E os vídeos poderiam ter sido gravados em
outra data, foi o que alegou a Justiça, desconfiada. Não importava que a arma
do crime ou o fruto do roubo não tivessem sido encontrados. A epiderme foi a
prova inconteste.
Condenado por semelhança em álbum de
delegacia, Justino foi trancado no presídio de Benfica. Lá onde a cidade
abandona aqueles que quer fazer sumir da paisagem.
O som da sinfonia
foi substituído pelo som do sofrimento.
Entre grades, o
jovem sentia-se só.
Mas não foi
abandonado.
A Sinfonia
Como a Cultura Viva
que se faz viva por todas as formas e jeitos, jovens da Orquestra da Grota, irmãos e irmãs de som e
favela, vestiram suas roupas mais solenes, lavadas e perfumadas pelas mães.
Foram ao presídio carregando seus instrumentos musicais como quem caminha para
uma batalha.
Apresentaram suas
armas:
flautas e
harmônicas,
violas, violinos,
violoncelo.
Na porta do presídio, levantaram-se e afinaram os instrumentos.
E ali, tocaram. Tímidos, depois firmes.
A flauta soou como prece.
O violino, rasgou o ar como lamento.
As violas ressoaram como chamado à luta...
...até que o arco do violoncelo rompeu o muro do presídio e
atravessou as grades. Lá dentro, carcereiros baixaram os olhos e os presos se
colocaram em reverência.
A cidade ouviu.
Alguém gravou.
O vídeo correu.
A história circulou.
Dias depois o portão se abriu.
Lento, como se ao mundo pedisse perdão. Dele saiu Justino com o
violoncelo nas costas, como escudo, como resposta. O jovem violoncelista caminhou
em direção aos amigos que o esperavam. Sentou-se no asfalto, pegou o violoncelo
e começou a tocar.
Pura poesia!
Partitura viva de um povo que insiste em compor a sua Sinfonia como
Justiça.
Desafiaram o
silêncio.
Jovens negros,
pobres, favelados, desprezados.
Armados com arcos
de crina de cavalo, violinos e violoncelos de pau-brasil.
Tocaram cordas pela
liberdade do amigo.
Pela música
ergueram-se em desassombro.
Nas portas do
presídio a orquestra persistente apresentou a Sinfonia daqueles que resistem.
Arte, sons de luta
e libertação mudam os destinos do mundo.
E mudaram o destino
de Justino.
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Outra Política: o comunismo singular de Kerala
Em estado indiano, um PC antidogmático recorre a serviços públicos e participação para desmercantilizar a vida e produzir bem-estar e igualdade. Seus trunfos: mobilização social incessante, recusa ao espírito burocrático e decentralização.
Portal Outras Palavras - https://outraspalavras.net/outrapolitica/outra-politica-o-comunismo-singular-de-kerala/
A Frente de Esquerda, uma coligação de partidos liderada pelo Partido Comunista da Índia (Marxista), foi eleita no meu estado natal, Bengala Ocidental, em 1977 e permaneceu no poder por trinta e quatro anos. Quando eu era criança, sua permanência parecia tão sólida quanto as estrelas e a lua. Em 2004, os partidos comunistas detinham cinquenta e três das 545 cadeiras no parlamento indiano. Vinte anos depois, nas eleições de 2024, os três partidos comunistas juntos conquistaram oito cadeiras. À medida que sua participação eleitoral diminuía, o Partido Bharatiya Janata (BJP), de orientação nacionalista hindu, ascendeu, e o Congresso Nacional Indiano, de centro-esquerda, tornou-se praticamente indistinguível do BJP em questões econômicas. Ambos os partidos trabalharam para privatizar ativos estatais, remover restrições de licenciamento para empresas nacionais e atrair capital multinacional em uma corrida global para atrair corporações estrangeiras. Em Bengala, as políticas econômicas da Frente de Esquerda na década de 2000 seguiram um caminho semelhante, e o partido utilizou leis de desapropriação para confiscar terras agrícolas de meeiros e concedê-las a empresas nacionais e internacionais. Confrontos violentos sobre direitos de propriedade da terra em Singur e Nandigram levaram milhões de eleitores tradicionais da Frente de Esquerda — de vendedores ambulantes e motoristas de riquixá a pequenos agricultores e meeiros — a abandonar a coligação, culminando em sua derrota em 2011.
A história é diferente em Kerala, o estado indiano que testemunhou as conquistas mais impressionantes e duradouras do Partido Comunista. Lar de 35 milhões de pessoas (mais do que a Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca juntas), o estado é há muito admirado e estudado em todo o mundo como um modelo de desenvolvimento humano por seus altos níveis de educação, saúde e engajamento cívico, combinados com baixa desigualdade de renda. Além disso, Kerala é uma sociedade heterogênea, com diversidade religiosa — 25% da população é muçulmana, 20% é cristã e 55% é hindu — e muitas comunidades étnicas e de castas diferentes.
As conquistas de Kerala são ainda mais notáveis porque a Índia é um dos países mais desiguais do mundo, e a desigualdade de renda tem piorado consistentemente nas últimas duas décadas. Em todo o país, mais de 10% da população está abaixo da linha da pobreza definida pelo governo indiano; em Kerala, esse número é inferior a 1%. O governo estadual está determinado a reduzir ainda mais esse percentual. Nos últimos anos, implementou diversos programas para proteger as pessoas nesse grupo. Este ano, anunciou a eliminação da “extrema pobreza” de 64.006 famílias mais vulneráveis, incluindo aquelas que não têm moradia, não possuem bens ou perderam seu principal provedor de renda por doença ou falecimento. Essa conquista foi alcançada pelos governos locais, que identificaram famílias em cada vila e município e lhes ofereceram moradia, renda e assistência médica. Os formuladores de políticas podem debater se a extrema pobreza foi “erradicada”, mas essa discussão é em parte acadêmica. Há uma enorme lacuna entre Kerala e o resto da Índia no que diz respeito ao combate à pobreza e à crescente desigualdade.
Kerala nem sempre foi um lugar tão igualitário. Até meados do século XIX, 13% da população era escravizada, a maioria trabalhando em plantações. O fim da escravidão pouco mudou para a maioria dos membros das castas escravizadas, que trabalharam como meeiros em plantações e sofreram estigma social e exclusão até o século XX.
Como uma sociedade segregada por casta, classe e religião se tornou uma comunidade igualitária? A resposta está na alimentação. Durante a Segunda Guerra Mundial, uma crise de fome ameaçou a região. Grande parte do arroz consumido em Kerala era importado da Birmânia, que havia sido conquistada pelos japoneses. Em Bengala, os britânicos criaram condições de fome ao estocar arroz e desviar grãos para o esforço de guerra, causando a morte de 3 milhões de pessoas. Em Kerala, membros do recém-formado Partido Comunista da Índia mobilizaram agitações em massa por toda a região para impedir o açambarcamento por especuladores, estabelecer bancos de grãos locais e distribuir arroz por meio de um sistema de racionamento que abrangia todas as aldeias. Embora as rações fossem escassas e muitos passassem fome, a fome foi evitada e, quando a Índia se tornou independente em 1947, Kerala já havia estabelecido o Sistema Público de Distribuição. Essas medidas para proteger as pessoas da fome se popularizaram entre todas as castas e religiões, e o povo de Kerala elegeu os comunistas para o poder na primeira eleição do estado, em 1957.
Uma vez no governo, os comunistas defenderam a reforma agrária. Não obtiveram sucesso completo na apropriação e redistribuição de terras, mas reforçaram as leis federais existentes para limitar o tamanho das propriedades rurais e garantiram os direitos dos arrendatários por meio do registro dos meeiros. Mais importante ainda, o governo instituiu uma lei que permitia a todos os meeiros possuírem seu próprio barraco e o terreno onde ele se encontrava. Mesmo sem um campo próprio, ter uma casa própria representava uma transformação drástica. Isso fez com que mais de 90% dos habitantes de Kerala se tornassem proprietários de imóveis, dando-lhes um lugar no mundo e um patrimônio que poderiam valorizar.
Durante anos, os governos de Kerala investiram até 30% do orçamento anual em educação pública. Criaram bibliotecas em todas as aldeias e movimentos de alfabetização com educadores voluntários para garantir que todos os adultos — até mesmo ex-trabalhadores braçais e meeiros — aprendessem a ler e escrever. Estabeleceram clínicas de saúde pública em todas as aldeias, com foco especial em cuidados maternos, infantis e para idosos. Na década de 1970, Kerala apresentava taxas de alfabetização, expectativa de vida e mortalidade infantil comparáveis às de países europeus, embora seu nível de renda fosse semelhante ao do restante da Índia. Acadêmicos da área de desenvolvimento, como Amartya Sen, elogiaram as características únicas do “modelo de Kerala”, que desafiou a premissa dos economistas de que riqueza ou nível de renda é a melhor (ou única) medida e indicador de bem-estar humano ou social. Na década de 1990, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) criou um Índice de Desenvolvimento Humano, baseado em grande parte no modelo de Kerala, que mede saúde e educação, além da renda, para estabelecer o nível de desenvolvimento de um país.
Os comunistas têm alternado entre o poder e a oposição em Kerala (governaram o estado por trinta dos últimos sessenta e oito anos). Mesmo após a queda da União Soviética, coalizões lideradas por comunistas retornaram ao poder em praticamente todos os ciclos eleitorais, alternando com governos de coalizão liderados pelo Congresso. Essas coalizões podem ter bases eleitorais diferentes, mas variam pouco em essência. Todos os partidos governam a partir de um consenso compartilhado sobre políticas de saúde, educação e bem-estar social que respondem às necessidades em constante evolução da população. Alguns esquerdistas criticaram os sucessos comunistas em Kerala como ideologicamente comprometidos. É verdade que, de certa forma, os governos liderados por comunistas em Kerala rejeitaram a ortodoxia ideológica, o que lhes permitiu servir melhor seus eleitores. Isso pode ser visto em políticas consensuais de bem-estar social e economia, mas também na forma como o partido aborda a religião. Kerala é há muito tempo uma das regiões mais religiosas da Índia, e os comunistas locais aprenderam a ser pragmáticos e a moderar seu discurso antirreligioso — uma lição que a esquerda mais ideológica da Índia não aprendeu. Em vez de travar batalhas culturais, os comunistas de Kerala entendem cada eleição como parte de uma luta contínua para fornecer escolas, clínicas, alimentos, fontes de crédito, licenças para pequenos negócios, segurança e dignidade para todas as pessoas.
Em Kerala, não há diferença nos resultados de desenvolvimento entre as regiões ou entre a cidade e o campo. E em termos de saúde e educação, os três principais grupos religiosos são praticamente iguais, ao contrário de estados como Bengala Ocidental, onde existem grandes diferenças entre o status socioeconômico da maioria hindu e as minorias muçulmana e cristã. Isso foi alcançado por meio de medidas conscientes de descentralização do poder. Em Kerala, houve um esforço para garantir que as políticas governamentais em educação, saúde e outras áreas fossem administradas de forma equitativa pelo próprio povo, por meio de governos locais em cada vila, em vez de por burocratas na capital do estado.
Na década de 1990, por exemplo, Kerala realizou um experimento radical de planejamento participativo em conselhos municipais e de aldeias. Fundos estaduais foram redistribuídos para os governos locais, enquanto milhares de pessoas participavam de debates sobre a melhor forma de planejar as necessidades de suas comunidades. Isso contrastava fortemente com a tradição do planejamento estatal indiano, geralmente conduzido por especialistas não eleitos em Nova Delhi ou nas capitais estaduais. O experimento gerou inúmeras novas políticas e programas locais, como um movimento de lixo zero para acabar com o descarte de resíduos, planejamento espacial para a segurança das mulheres, captação de água da chuva, construção de barragens naturais, cuidados paliativos para idosos e novas cooperativas de trabalhadores e agricultores. Em sua sequência, o governo iniciou um programa estadual massivo para aumentar o emprego feminino. Em vez de um esquema de cima para baixo, o Kudumbashree, como o programa ficou conhecido, era administrado localmente por meio de conselhos de aldeias que ajudavam as mulheres a encontrar empregos assalariados e a iniciar seus próprios pequenos negócios. Após o Kudumbashree, mais mulheres entraram para a política em todo o estado. O programa recente para erradicar a pobreza extrema foi administrado de forma semelhante por meio dos governos locais. Ele também ofereceu ajuda específica e direcionada — para reformar uma casa ou abrir um pequeno comércio — às famílias mais vulneráveis.
Kerala demonstra que, se as pessoas forem protegidas do risco e da incerteza por um governo que lhes proporcione acesso a alimentação, moradia, educação de qualidade e cuidados básicos de saúde, elas se sentirão motivadas a cuidar de muitos outros problemas. As necessidades das pessoas mudam com o tempo, e um sistema político bem-sucedido precisa ser responsivo a essas mudanças. Não é uma política ou ideologia específica que sustenta o modelo de Kerala; é a visão de uma sociedade unificada, construída sobre valores e compromissos compartilhados. Isso inclui o compromisso com o bem-estar de cada pessoa na sociedade, seja ela rural ou urbana, muçulmana, cristã ou hindu, independentemente da casta. A lição é simples: dê às pessoas o poder de moldar as políticas públicas onde vivem e trabalham, e elas farão as mudanças necessárias.
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