quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Obrigado Frei Sérgio

GUARDIÃO DA EMPATIA

Sergius na língua da Roma Antiga, representa “guardião”,

O protetor do todo violentado;

Servo atuante e abnegado

Capaz de repartir-se em muitos “Eus”;

Aquele que faz tudo pelos seus

Sem nunca exigir um bem trocado.

Com os Sem Terra, veio a ser um acampado

Dos camponeses tornou-se o Movimento;

Junto aos famintos, foi ânimo e fermento

E a voz de todos os pobres silenciados.

No assolamento foi fonte de otimismo...

Nos arrebates se fez comedimento;

Nos paradeiros tornou-se rebeldia

E nas refregas a força do argumento.

Nas grandes perdas e de puras fantasias

Se impôs como protótipo da esperança;

Um gesto, uma palavra, uma aliança...

Teceram a unidade no raiar do novo dia.

Na fronte altiva, o retrato da utopia...

Nas mãos amigas, a força da bondade

E a defesa da biodiversidade

Nunca se curvou aos pés da covardia.

Com as ideias fez muros e trincheiras

A intransigência serviu de companheira

E alterou o conteúdo da verdade.

Nunca aceitou o bem pela metade

Nem a injeção de veneno nas sementes.

Diante dos desvios manteve a coerência...

Das frustrações fez mastros de bandeiras

Pôs para cima a mística cancioneira...

Complementando as formas de consciência.

A ternura nos olhos fez o encanto....

Os anseios das mudanças se espalharam...

Os saberes e as culturas se cruzaram

Nas mensagens das antigas profecias.

Resta agora o caminho como espelho:

Ensinar as ideias e os bons conselhos

Nesta eterna escola do guardião da empatia.

Ademar Bogo

Certidão de Óbito poético ao Frei Sergio Görgen.

04 de fevereiro de 2026.

Lula na prisão em Curitiba: “me ajudou a atravessar momentos difíceis”

“A fé e as sábias palavras de Frei Sérgio durante suas visitas em Curitiba me ajudaram a atravessar com força e esperança os momentos difíceis da prisão injusta a que fui submetido”, afirmou Lula sobre o frade, que morreu aos 70 anos.

Por: Letícia Cotta

Publicado: 03/02/2026 - às 12h53

O  frade Sérgio Antônio Görgen, conhecido como Frei Sérgio, morreu nesta terça-feira (3), aos 70 anos, na comunidade dos Franciscanos em Candiota (RS). Frei Sérgio ficou conhecido por visitar o presidente Lula durante os mais de 580 dias em que ele esteve preso injustamente pela Lava Jato na Superintendência da Polícia Federal (PF) em Curitiba.

Nas redes, Lula lamentou o falecimento do amigo e afirmou que ele o ajudou a “atravessar momentos difíceis”.

“A fé e as sábias palavras de Frei Sérgio durante suas visitas em Curitiba me ajudaram a atravessar com força e esperança os momentos difíceis da prisão injusta a que fui submetido”, afirmou Lula.

“Ele carregava consigo uma história de vida exemplar. De luta e de sacrifícios pessoais – incluindo greves de fome – para garantir os direitos daqueles que vivem da agricultura familiar”, continuou.

Segundo Lula, “Frei Sérgio dedicou sua vida a cumprir o ensinamento de Cristo: ‘Dai de comer a quem tem fome’.

“Lutou pela alimentação do corpo e da alma. E deixa esta vida com sua missão cumprida, que seguirá servindo de exemplo e inspiração a todos nós. Descanse em paz, companheiro”, escreveu o presidente.

Frei Sérgio chegou a ser deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT) no Rio Grande do Sul, entre 1999 e 2002, e foi um dos fundadores do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), em 1996. Ele também atuou ativamente na resistência contra a Reforma da Previdência promovida no governo do golpista Michel Temer (MDB) e da jornada pela democracia, em 2018.

“O MPA se despede de uma de suas maiores referências, o semeador que espalhou a resistência e esperança em cada rincão do campesinato brasileiro. Que sua memória seja agora luz e força para as mãos que cultivam a terra. Frei Sérgio não morre; ele se encanta na luta”, destacou o MPA em nota.

“Nota de Falecimento de Frei Sérgio Görgen, o Profeta da Resistência Camponesa

É com imenso pesar, mas guiados pela esperança que ele sempre semeou, que o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) comunica o falecimento de seu dirigente histórico, Frei Sérgio Antônio Görgen.

Frade franciscano, escritor e intelectual orgânico das causas populares, Frei Sérgio foi mais do que um dirigente; foi um pastor que escolheu o “cheiro das ovelhas” e o barro das trincheiras. Sua partida deixa um vazio imenso na luta social brasileira, mas seu legado de soberania alimentar e dignidade camponesa permanece vivo em cada semente crioula plantada neste solo.

Uma Vida Entregue ao Povo do Campo

Natural do Rio Grande do Sul, Frei Sérgio (OFM) dedicou sua existência à articulação política e espiritual dos excluídos. Foi peça fundamental na fundação do MPA em 1996, nascido da urgência das secas e da necessidade de voz para o pequeno agricultor.

Sua trajetória foi marcada pelo sacrifício pessoal em prol do coletivo. Frei Sérgio utilizou seu próprio corpo como ferramenta de denúncia através de cinco greves de fome, destacando-se as lutas por crédito agrícola nos anos 90, a resistência contra a Reforma da Previdência em 2017 e a jornada pela democracia em 2018, em frente ao STF.

Memória e Profecia

Como sobrevivente e cronista do Massacre da Fazenda Santa Elmira (1989), ele assumiu a missão de não deixar a história ser escrita apenas pelos vencedores. Através de obras como “Trincheiras da Resistência Camponesa” e “A Gente Não Quer Só Comida”, ele teorizou e defendeu a agricultura camponesa como um verdadeiro projeto de vida.

Frei Sérgio não apenas pregava o Evangelho, ele o vivia nas trincheiras da luta pela terra. Sua vida foi um testemunho de que a espiritualidade e o compromisso político com os pobres são faces da mesma moeda. Deixa-nos um legado de resistência e de um amor profundo pelo povo simples do campo.

Neste momento de despedida, reafirmamos o compromisso inabalável com as bandeiras que Frei Sérgio carregou com coragem até o fim. O MPA se despede de uma de suas maiores referências, o semeador que espalhou a resistência e esperança em cada rincão do campesinato brasileiro.

Que sua memória seja agora luz e força para as mãos que cultivam a terra. Frei Sérgio não morre; ele se encanta na luta. Ele segue vivo na Mística do nosso Movimento e no pulsar de cada coração que resiste. Frei Sérgio vive na luta do povo!”

AOS SETENTA ANOS

Ao completar setenta anos, roda um filme na cabeça da gente.

Nunca imaginei chegar a esta idade.

Mas se os anos se cumpriram, não resta dúvida, foi por Graça, pura Graça.

Então, só resta agradecer ao Senhor da Vida, em seu Filho e em sua Mãe. Com certeza, me ampararam e me seguraram. Muitas e muitas vezes, através das amizades, do companheirismo, da fortaleza comum, no suporte das duas famílias (a de sangue e a de hábito), das tantas e tantas orações, dos pedidos de “se cuide” (quase nunca obedecidos). É nos gestos que a Graça se faz prática e o Amor se faz vivo.

Chegar aos setenta tendo sofrido seis acidentes de carro, passado por cinco greves de fome, inúmeros conflitos sociais e fundiários, saindo ferido em dois, como diz o ditado popular, “só por Deus”.

Vivi em situações de muita dor (até hoje ecoam nos meus ouvidos o choro de crianças com fome nos barracos de acampamento e até me dói no mais fundo de mim a dor de enterrar crianças que morriam de fome) e muita tensão em tantos e tantos conflitos vividos, mas os tempos de alegria e confraternização foram infinitamente maiores. Algumas decepções, mas os testemunhos edificantes foram e são infinitamente maiores.

Lembro, neste filme da vida, dos direitos que não tive.

Não tive o direito de ter medo, mesmo carregado de temor, porque em tantos conflitos, uma covardia minha seria a derrocada para muita gente.

Não tive o direito de vacilar, embora inseguro e cheio de dúvidas, porque este vacilo comprometeria a firmeza na luta de tanta gente.

Não tive o direito ao desânimo, embora tantas vezes sem enxergar caminhos seguros, porque estavam tantos olhando em minha direção e uma pequena demonstração de desânimo de minha parte contaminaria o coração de muita gente e desistiriam de lutar pela dignidade de suas vidas.

Não tive direito ao cansaço, embora tantas e tantas vezes o espírito arrastou meu corpo exausto.

Não tive o direito de ter crise, nem vocacional, nem espiritual, nem de confiança no futuro, embora em meu interior tenha passado por várias e tantas, porque sentia a responsabilidade e o peso do hábito de São Francisco sobre os ombros na vocação que abracei.

E desde aquele dia em que, num conflito de terra na ocupação da Fazenda Anonni, em que a Brigada Militar avançava em direção ao povo e uma mulher puxou minha camisa e me disse “Frei, o senhor não vai fazer nada?” e eu, cheio de vergonha, avancei do meio do povo e fui para frente dos policiais, incapaz de dizer uma única palavra, abri os braços e parei bem próximo a eles – e as crianças com flores na mão, me seguiram e os policiais pararam – desde aquele dia, perdi também o direito à omissão.

Por isso, cheguei aos setenta meio assim, bruto, sincero demais, teimoso, xucro, irreverente, fora dos prumos estabelecidos, mas disposto e esperançoso na força do amor e da vida, pedindo sempre a Jesus e àqueles com quem caminho nas empreitadas da vida, que me farquejem e corrijam, para que meus muitos defeitos não sejam mais salientes que a Graça de Deus. Continuo acreditando na força do povo organizado, uma das expressões mais vigorosas da Graça e das Bênçãos divinas.

Um direito, porém, sempre me assistiu: a proteção de Maria e a presença amorosa e incômoda de Jesus.

Talvez, só por isso, tenha chegado aos setenta.

Gratidão enorme, a Deus e a tanta gente com quem os caminhos da existência propiciaram encontrar.

Frei Sérgio Antônio Görgen ofm

29 de janeiro de 2026.



Me fala de você

Zé Vicente


Vem, me fala tu de liberdade

Desta igualdade que todos queremos

Desta vida nova que todos buscamos

Desta paz que um dia encontraremos


Vem, me fala tu de tua vida

Desta amizade mais querida

Desta ansiedade de amar de novo

Desta tua vida doada ao povo


Vem, me fala tu de esperança

Deste novo ser criança

Desta paz sem ser bonança

Desta luta pra vencer

Vem me fala de você


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Justiça ou conveniência? Como a estratificação do sofrimento decreta a falência civilizatória do Direito. Silvana Andrade (*)

 



Uma ordem jurídica guiada pela gravidade da agressão, e não pela identidade dos envolvidos, reafirma seu papel civilizador. Quando o sistema adota critérios morais discriminatórios, deixa de cumprir sua função e permite que atrocidades fragilizem o pacto social.

Penalizar com rigor não é exagero, é dever do Estado. Sempre que o Judiciário se retrai diante de crimes brutais, abre espaço para a impunidade e compromete a confiança da sociedade nas garantias legais. O vácuo deixado pela omissão estatal não permanece vazio, é perigosamente preenchido pelo ímpeto da autotutela, em que a vingança privada suplanta a soberania da lei e retrocede o convívio ao estágio da barbárie. A sanção não nasce da vingança, mas da necessidade de estabelecer parâmetros éticos que impeçam a repetição dos delitos e evitem que o sofrimento seja tratado como algo aceitável. Essa linha de contenção protege diretamente quem foi atingido e preserva a própria esfera pública.

O horror possui uma semiologia própria, que se exprime pela força da virulência, pela ruptura causada, pelo sofrimento imposto e pela ameaça que projeta sobre todos. São esses elementos que deveriam orientar a resposta penal. Quando há tolerância seletiva, consolidam-se relações de dominação. Algumas existências passam a ser tratadas sem valor, enquanto outras recebem atenção ampliada. Uma sociedade que hierarquiza quem merece mais amparo oficializa a desigualdade e a injustiça.

Fatos recentes envolvendo uma sequência desumana de assassinatos de cães e gatos em diferentes regiões do país inserem-se nesse mesmo padrão de estratificação de vidas. Corpos mutilados, tortura, envenenamentos deliberados, espancamentos e assassinatos praticados com extrema perversidade não configuram desvios pontuais, mas manifestações de uma violência que se testa publicamente, medindo os limites da indiferença institucional.

O assassinato do cão Orelha, ocorrido em Santa Catarina, que teve forte repercussão nacional e internacional, comprovou o abismo entre a indignação social e o anacronismo jurídico brasileiro, exigindo um rigor penal que acompanhe a evolução ética e a dignidade animal reconhecidas pela consciência social moderna.

Nesse contexto, torna-se imprescindível a aplicação da Teoria do Elo. Estudos criminológicos sobre psicopatia comprovam que a crueldade contra animais raramente ocorre de forma isolada e, por isso, funciona como um indicador precoce de comportamentos violentos em relação a outros seres humanos, permitindo antecipar e prevenir danos interpessoais. A violação de seres cujas capacidades sensoriais são semelhantes às nossas revela um ciclo de brutalidade que ultrapassa as fronteiras da espécie.

A violência contra animais, tradicionalmente tratada como infração menor por uma cultura antropocêntrica, subestima sofrimentos não humanos, ignora evidências científicas sobre senciência e mantém vínculo direto com outras formas de conflito social. Tratar esses crimes com leniência, sob o argumento da diferença de espécie, é reproduzir uma lógica de exclusão moral que, ao longo da história, sustentou a legitimação da opressão contra grupos humanos arbitrariamente considerados inferiores.

Uma mudança de perspectiva não é utopia jurídica e encontra respaldo em acenos legais, ainda tímidos, como a Lei 14.064/20, que aumentou a pena para maus-tratos a cães e gatos, e na jurisprudência crescente que reconhece animais como seres sencientes e sujeitos de proteção legal.

A justiça que se pretende contemporânea precisa abandonar filtros morais seletivos. O critério central, repito, deve ser a intensidade da agressividade e suas consequências concretas. Apenas assim o sistema jurídico se afasta do personalismo punitivo e se aproxima de sua finalidade primordial.

Proteger a vida em todas as suas expressões exige firmeza e coragem para aplicar penas máximas quando a violência atinge níveis intoleráveis. Qualquer desvio desse caminho compromete as vítimas e corrói o próprio sentido de humanidade.

 (*)jornalista, fundadora e presidente da ANDA (Agência de Notícias de Direitos Animais). É membra especialista do Fórum Global de Segurança Alimentar e Nutrição (FAO) e conselheira ad hoc da UNESCO-SOST no Brasil. Integra o Diversitas da USP, a Abraji e a Rede Nacional de Combate à Desinformação.
 musica - Homenagem a Orelha cão vítima da maldade.


Te chamavam de Orelha E você vinha correndo Como quem diz “tô aqui” Mesmo sofrendo por dentro Quem te feriu não sabia O anjo que tava ali Um cãozinho não entende ódio Só sabe existir Como quem diz “tô aqui” Mesmo sofrendo por dentro Quem te feriu não sabia O anjo que tava ali Ele morava na rua, mas tinha endereço No coração de quem passava e dava um pedaço de pão Orelha era livre, era do vento e do sol Da areia da Praia Brava ao nascer do farol Dez anos olhando o mar, esperando o dia Um carinho, um chamado, um resto de alegria Não tinha dono no papel, mas tinha multidão Que dividia o almoço, a água e a proteção Virou mascote da praia, parte do lugar Quem chegava sentia ele antes de pisar Um latido manso, um olhar que entendia Que amor também mora onde ninguém via Como quem diz “tô aqui” Mesmo sofrendo por dentro Quem te feriu não sabia O anjo que tava ali Mas o mundo às vezes erra E a maldade cruza a mão Quem não entende um cãozinho Não entende o coração Ô Orelha… dói falar de você A rua ficou vazia desde que você se foi Te fizeram mal, mas não levaram O amor que você deixou em nós Hoje a Praia Brava chora A saudade não sai do chão Você virou memória viva Que não sai do nossos corações Se alguém ouvir sua Historia Que aprenda com a tua dor Maus-tratos não são destino Carinho também é amor Na rua também nasce anjo De pelo, pata e olhar Quem alimenta um cãozinho Também aprende a amar Ô Orelha, descansa em paz No colo da eternidade Seu nome virou memória Seu amor virou saudade Que aprenda com a sua dor Maus-tratos nunca vencem O amor Você partiu cedo demais Sem merecer o adeus Mas deixou em nós a certeza Que o bem sempre esta em Deus


A história é como nuvem - Célio Turino


 História de três irmãs migrantes, deportadas e encarceradas na Guatemala, ilustra a crueldade sistêmica contra imigrantes nos EUA e a resistência humana através da arte.

A história é como nuvem, 

balé nos céus que persiste na dança do vento.

Movimento, formas e cores, 

sem parar, sem descanso. 

Nuvem que se faz e desfaz, 

vapor d’água que se forma e muda de forma. 

Nuvem que se compõe e desaparece no ar.

Crianças-Nuvem

Crianças adoram olhar as nuvens. Brincam com elas, descobrem formas, inventam imagens, riem. Crianças são como nuvem. Como rio que flui conduzido por sua beira, nuvens se deslocam e são deslocadas pelas margens que são o vento, a umidade, a temperatura e a pressão. Como rio que flui, suas águas jamais são as mesmas. Crianças fazem travessuras como rio em movimento, jamais se deixando prender às beiradas, bordas e margens.

Nove, oito, seis anos de idade... 

Três irmãs. 

As três irmãs, cuja história conto agora, são filhas de imigrantes salvadorenhos não documentados e viviam no sul do Texas. Muita gente, mundo afora, agora, no início de 2026, tem se indignado e se espantado, se revoltado com as ações da ICE (polícia de imigração e alfândega) contra imigrantes vivendo nos EUA. Puro terror. Porém, lamento informar, essas perseguições não são de agora. Estão mais intensas e performáticas, contra as quais a população decente entre os estadunidenses tem se insurgido. E está pagando com prisões e morte. Até o momento, dois cidadãos dos Estados Unidos da América foram assassinados pelo ICE por conta da solidariedade que prestavam aos migrantes. Dois entre os estadunidenses, porque entre os imigrantes já são mais de cinquenta assassinatos nos últimos meses; de menos repercussão midiática, por migrantes e invisíveis aos olhos do mundo. 

Prender, encarcerar e deportar crianças filhas de migrantes é algo corriqueiro naquele país. De muitos anos e governos. Separando as crianças dos pais, inclusive. Foi o que aconteceu com a história das três irmãs. Capturadas, aprisionadas e deportadas para um país estranho a elas, a Guatemala. 

Um dia as meninas saíram a fazer travessuras pelas ruas. Como as milhões de crianças em qualquer lugar do mundo. São crianças. São nuvem. Foi quando conheceram a ética e a justiça de um Sistema opressor, racista, explorador, ganancioso, egoísta, implacável.

Três irmãs

As três irmãs foram detidas pela polícia dos Estados Unidos, presas e sequestradas. Deportadas para serem jogadas n’algum canto da América Central. Os pais sequer puderam saber para onde seriam levadas.

Três meninas, três irmãs. 

Nove, oito e seis anos... 

Abandonadas sem os pais 

cujo sonho americano 

evaporou feito nuvem.


Meninas do Não-Lugar, 

vapor d’água que se desfaz, 

apátridas de nascimento, 

não tiveram chance.


Pesadelo de quem acorda assustado em um país igualmente cativo

Como pesadelo de quem acorda assustado, não deixaram rastro, apenas lembrança e dor no peito. Meninas de um sonho sequestrado, expulsas de um país, sem dó ou piedade. Isso aconteceu antes de Trump, acordo dos tempos de Obama. Meninas levadas a um lugar estranho, que sequer era a terra de sua ascendência, trancadas numa Casa de Migrantes.

Guatemala, Terra Maia, 

país tão bonito e histórico,

terra de vulcões e lindos tecidos,

colorida parte do mundo 

igualmente sequestrada. 

Meninas cativas num país em igual cativeiro. Cativos sob o peso de muitos acordos assinados. O sequestro do país aconteceu em um Final de Semana que nunca terminou; Week-End na Guatemala, de Miguel-Ángel Astúrias, vale ler para entender. 

Entre os acordos firmados com os Estados Unidos: Casas de Migrantes. Eufemismo para Casas de Detenção em que migrantes deportados pelo Grande Irmão do Norte são jogados e trancafiados. Incluindo crianças. Como as três irmãs dessa história. 

Para a deportação não importa o país de origem. Ao migrante capturado, detido, acorrentado, basta ter ascendência na América Central. Esse é o termo do Acordo. À Guatemala cabe se encarregar do cárcere dos sequestrados em troca de aporte financeiro em tostões. No tempo em que escrevo essa história também El Salvador assinou acordo vil com prisão para quarenta mil.

Obra de arte que se cria e destrói 

As meninas foram sequestradas e deportadas sem que os pais soubessem. Enviadas à Guatemala, aprisionadas. 

Três irmãs. 

Nove, oito e seis anos...

Um sussurro do universo, 

obra de arte que se cria e destrói. 

Com essa história, que já escrevi e contei em outras formas, meu desejo é tocar os corações e as consciências das pessoas. Agora tento novamente no formato de ensaio literário, ou como se queira classificar esse meu jeito de torto de escrever sobre a realidade. O que me importa é que a história circule, toque quem leia e, de alguma maneira, ajude a interromper a infâmia.

Basta um ponto, uma atitude. 

Prestem atenção no que pode acontecer. 

Basta alguém. 

O Ponto de Cultura Frida Kahlo, na Cidade da Guatemala, dirigido por um casal de artistas, Beatriz Sandoval e Ronald Carrillo, obteve permissão para dar aulas de desenho e pintura às meninas detidas na Casa-Prisão. 

Um sopro de humanidade, 

feito nuvem, 

se formou.

Para desenhar há que escolher motivos, as inspirações. A cada nova visita o casal de artistas sugeria um tema, uma fruta, uma flor, uma história de memória. Certo dia o tema foi “Nuvens”. Mas... As crianças não sabiam desenhar nuvens. A imagem havia sido apagada da lembrança. Nuvens se movendo no céu, como vê-las através das grades numa Casa-Prisão?!?!

Ainda assim decidiram desenhar. 

O casal levou as crianças para perto das grades nas janelas. 

Os pescocinhos se contorceram. 

Os olhinhos esticaram. 

As cabeças encolheram.

As imaginações alargaram.

- Enxergaram as nuvens!


Lápis e tinta a domar medos


Um balé de liberdade aconteceu, 

dança desenhada na cabeça e nos céus, 

vento a modelar formas, 

lápis e tinta a domar medos.

Até de uma prisão entre grades é possível avistar as nuvens, desenhá-las e pintá-las. O encontro com as meninas deixou marca de beleza e encantamento. Mas se desfez. 

Como sonho que se desfaz ao acordar. 

Como nuvem que esvai com o vento. 

Os desenhos das irmãs esvaíram. Feito nuvem.


Onde estarão agora? 


Escutei essa história em 2017, quando em viagem à América Central para escrever o livro “Cultura a unir os povos”, lançado em Castelgandolfo, território Vaticano na Itália, onde os Papas passam os verões e que Francisco, o Papa do sul do mundo, transformou em espaço para encontros e histórias. No Brasil o livro foi republicado sob o título “Por todos os caminhos – Pontos de Cultura na América Latina”, editado pelo SESC. Esta e outras histórias da América Latina está lá. Desde então, sempre que eu avisto nuvens no céu, recordo das meninas que nunca conheci. Também quando vi pela televisão a imagem daquele menininho com cinco anos de idade, gorro de lã azul para se proteger do frio, preso junto ao pai, migrante equatoriano em Minneapolis, tão indefeso.

Onde as meninas estarão agora?

E as tantas mais? 

Brincadeira tão singela e tão difícil para alguns. 

Imaginar formas e seres entre nuvens de algodão.

- Olhem aquela! 

- Parece uma montanha se movendo no céu.

- E a outra?!?! 

- Um pássaro tão pequenino...

Sumiu.


Nuvem Passageira - Hermes Aquino


01- Curso Por Todos os Caminhos: Pontos de Cultura pela América Latina com Célio Turino




A Politica Nacional de Cultura Viva como vacina para prevenir a contaminação social e politica da cultura de ódio propagada por muitas lideranças politicas e religiosas.

Os textos abaixo explicam a razão pela qual me dedico e me empenho tanto na realização da Teia Sergipe 2026, agora na etapa da pós produção,  ainda que esta tarefa acarrete um significativo desgaste. É importante esclarecer que minha crítica expressa na manchete acima,  não se dirige à religião em si — até porque sou católico —, mas sim à instrumentalização da fé das pessoas para fins de ganho político e econômico.

Nesse contexto, compreendo o programa Cultura Viva como um potente mecanismo para fomentar uma cultura de paz. E, para isso, apenas palavras não bastam: é necessário ação concreta, um compromisso que se materialize em práticas e políticas públicas efetivas.  

Zezito de Oliveira

O que a mídia não fala sobre o The Send

Travestido de festival gospel, evento é âncora do fundamentalismo cristão. No Brasil é dominado por bolsonaristas

Caracterizado por rica infraestrutura, o The Send Brasil teve mescla de apresentações musicais dos Estados Unidos e das mais destacadas do gospel do Brasil, com pregações religiosas de personagens estadunidenses e de evangélicos conservadores brasileiros. Entre outros estiveram presentes Malafaia e Dallagnol. Em anos anteriores, Bolsonaro e Damares participaram.

O festival The Send aconteceu ao mesmo tempo em cinco capitais  neste final de semana – Belém, Belo Horizonte, Recife, Curitiba e em Goiânia.

O crescimento do gospel como força cultural e de mobilização social no Brasil ganhou mais um capítulo neste fim de semana com o The Send Brasil, encontro que aconteceu de forma simultânea em estádios de diferentes regiões e reuniu milhares de pessoas em torno de uma proposta que vai além do formato de show ou congresso religioso. No Brasil, o movimento é representado pelo líder cristão Teo Hayashi, que atua como porta-voz e articulador da iniciativa, apresentada como um projeto contínuo de engajamento, ação social e responsabilidade coletiva, com forte adesão do público jovem.

O The Send tem como principal missão a evangelização em massa na América. Através de um discurso “pop” e descolado, o evento usa a juventude como massa de manobra para a propagação do movimento. “Estamos crendo e nos preparando para fazer o maior envio missionário da história: milhares de cristãos incendiados pelo amor de Deus, comprometidos a transformar universidades, escolas, nações e a realidade de crianças órfãs e em vulnerabilidade no nosso país”, diz o portal do The Send Brasil.

Por trás do discurso voltado ao jovem, porém, há um viés ultraconservador e colonizador. O movimento foi criado em 2016, depois que missionários dos grupos evangélicos The Call e Youth With a Mission (Jocum, em português), ambos dos Estados Unidos, se juntaram pra organizar um evento missionário no estádio Gathering, de Los Angeles. Na época, o evento reuniu 70 mil pessoas.

Além do The Call e Jocum, outros seis grupos fazem parte da organização do The Send: Dinamus, Lou Engle, Lifestyle Christianity, CFAN, Jesus Image e Circuit Riders. Segundo informações compartilhadas pela ativista cristã Camila Mantov no Twitter, parte dos membros desses “ministérios” também fazem parte do Capitol Ministries, grupo evangélico de extrema direita fundado em 1996 pelo pastor americano Ralph Drollinger e que tem o objetivo de “converter” políticos a uma visão evangélica de governança.

“Sem essa orientação, é bem mais difícil chegar a políticas públicas que satisfaçam a Deus e que sejam benéficas ao progresso da nação”, afirma Drollinger em um dos estudos em seu site. Segundo informações do El País, o pastor realizava encontros semanais com membros do alto escalão do governo de Donald Trump, incluindo o vice-presidente Mike Pence, e o secretário de Estado, Mike Pompeo.

Fonte: OPINIÃO, NOTÍCIAS E ANÁLISES SOCIOPOLÍTICAS com "O Globo", "The Intercept Brasil", "Coletivo Bereia" e "DCM".

QUANDO A FÉ VIRA ARMA: O ATAQUE DE SILAS MALAFAIA AOS PROFESSORES

No último sábado (30/01), durante o evento evangélico “The Send”, realizado na Arena Pernambuco, em Recife, o pastor Silas Malafaia utilizou o púlpito — e a visibilidade de um grande ajuntamento religioso — para promover ataques diretos aos professores e às instituições de ensino. Em um discurso inflamado, marcado por simplificações grosseiras e alarmismo ideológico, acusou docentes de “enganarem” estudantes e conclamou jovens cristãos a se prepararem para um suposto “enfrentamento” nas universidades.

Sob o já gasto e impreciso rótulo de “marxismo cultural”, Malafaia construiu uma narrativa conspiratória segundo a qual escolas e faculdades seriam espaços de controle do pensamento, onde quem discorda de pautas da chamada “ideologia de gênero”, do aborto ou das pautas relacionadas à diversidade sexual seria automaticamente silenciado e ridicularizado. Trata-se de uma retórica conhecida, mas não menos perigosa: a fabricação de um inimigo difuso para mobilizar medo, ressentimento e obediência.

Não se trata apenas de opinião religiosa. O discurso de Malafaia é político, deliberadamente político, e profundamente irresponsável. Ao estimular jovens a enxergarem a educação como campo de batalha, ele reforça a desconfiança contra professores, fragiliza o diálogo e contribui para a corrosão de um dos pilares da democracia: a escola como espaço de formação crítica, plural e emancipadora.

Eventos como o “The Send”, ao oferecerem palco a figuras amplamente conhecidas por disseminar ódio, atacar minorias e alinhar-se sem pudor à extrema-direita, revelam muito mais do que fervor espiritual. Revelam um projeto de poder. Malafaia não fala isoladamente; ele representa um tipo de liderança religiosa que se alimenta do conflito permanente, da ideia de que a fé precisa estar sempre “sob ataque” para justificar sua autoridade, seu protagonismo midiático e seu trânsito privilegiado nos corredores da má política.

Não é coincidência que, ao seu redor, gravitem lideranças envolvidas com o que há de mais degradante na política brasileira: autoritarismo, corrupção e oportunismo. Ainda assim, apresentam-se como árbitros morais da sociedade, atacando professores, numa inversão cínica de valores — profissionais historicamente desvalorizados, mal remunerados e essenciais para o futuro do país — como se fossem agentes de uma conspiração.

A lógica é simples e eficaz. Para manter relevância, poder e um estilo de vida marcado por luxo e influência, é preciso oferecer ao público uma narrativa permanente de guerra cultural. Nela, conceitos vagos e distorcidos como “ideologia de gênero” funcionam como espantalhos ideológicos, capazes de mobilizar medos profundos, especialmente o medo de que “algo esteja sendo ensinado” às crianças sem o controle das famílias ou das igrejas.

Nesse jogo, a escola se torna alvo central. As famílias confiam à educação formal a formação de seus filhos, e isso desperta ansiedade, insegurança e desejo de controle. Líderes fundamentalistas exploram esses sentimentos ao insinuar que professores estariam “colocando ideias” na cabeça dos estudantes. O resultado é um pânico moral que rapidamente se transforma em hostilidade contra a educação pública e seus profissionais.

Não é por acaso que professores surgem, com tanta frequência, como inimigos imaginários nesse tipo de discurso. Eles representam a dúvida, o pensamento crítico, a diversidade de ideias e a convivência com o diferente — tudo aquilo que ameaça uma fé reduzida à obediência cega e à hierarquia rígida de líderes que não admitem questionamento.

Criar adversários externos é mais fácil — e mais lucrativo — do que enfrentar as próprias contradições, os escândalos e a pobreza ética de um projeto religioso que se confunde cada vez mais com um projeto autoritário de poder. Quando a fé vira arma, quem perde não são apenas os professores. Perde a educação, perde a democracia e perde a própria espiritualidade, esvaziada de amor, justiça e compromisso com a verdade.

                 https://www.instagram.com/p/DURjpAUFCtc/?igsh=MWUzZDU4dXEzNXI3eg==

Saiba mais sobre a preparação e realização da Teia 2026  dos Pontos e Pontões de Cultura em Sergipe.

AQUI

A IMPORTÃNCIA DOS FÓRUNS DOS PONTOS DE CULTURA.



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Homenagem ao Padre Pinto - A luz da Lapinha em Salvador..

 

Padre, bailarino e artista plástico, Padre Pinto marcou a história da Igreja Católica, durante uma apresentação em que se vestiu de Oxum, em Salvador. Depois do episódio que repercutiu no Brasil, o padre foi afastado, transferido para outra paróquia e protagonizou novos episódios polêmicos. 

Duas décadas depois, moradores e religiosos da Lapinha indicam o legado do religioso e as cicatrizes deixadas por sua ausência no bairro. Padre Pinto morreu em 2019, quando já atuava no bairro de São Caetano.

Padre Pinto 
wikipédia

José de Souza Pinto, SDV (Salvador, Bahia[1], 23 de março de 1947 — Salvador, 4 de abril de 2019) foi um padre da Igreja Católica da cidade de Salvador, capital da Bahia, que ficou conhecido por sua postura crítica aos paradigmas da igreja, causando não só espanto e grande escândalo mas também admiração popular de setores progressistas da igreja. Em uma cidade marcada pelo sincretismo religioso, onde o Catolicismo é mesclado há séculos com a Umbanda e o Candomblé, Padre Pinto ousou ir além da praxe católica baiana, marcada pelo ocultamento do africano, que, embora presente no íntimo dos fiéis, se revela apenas episodicamente - como nas festas que incluem lavagem da escada do Senhor do Bonfim, (referência a Xangô), onde tradições africanas são preponderantes. Padre Pinto expôs a maneira como grande parte dos fiéis já interpretam o culto católico na cidade, e, como sói acontecer em toda a história do Catolicismo com clérigos impetuosos e inovadores, sofreu ferrenha repressão por parte da rígida hierarquia da Igreja - ainda que contando com amplo apoio e simpatia popular. Acabou por ser afastado da Paróquia da Lapinha em Salvador pelo clero baiano.

Membro da Congregação do Verbo Divino, que reúne padres com talentos artísticos, artista plástico e bailarino, o Padre José Pinto confecciona seus próprios paramentos e vestes. Revelou-se para o país na Festa de Reis de 2006 (06 de janeiro), quando celebrou a missa com trajes característicos de Oxum, deusa das águas doces no Candomblé. Na mesma celebração, apresentou passos de dança também relacionados à religião Candomblé, Umbanda, bem como a dos povos indígenas do Brasil.

Padre Pinto, depois do episódio, participou de diversos programas de televisão, nas quais expôs críticas mordazes a Igreja Católica. Defendeu o fim do celibato, dentre outras mudanças que julga necessárias no rito católico. Em 21 de maio de 2006, após ampla repressão por parte da Igreja, revelou sua intenção de tornar-se pai de santo.

Produziu uma série de quadros sobre a Guerra de Canudos, em homenagem a Antônio Conselheiro, que foi doado ao Instituto Popular Memorial de Canudos, em Canudos, onde encontra-se em exposição permanente. Além disso, expôs quadros na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia.

Em 2012, foi noticiado que Padre Pinto havia se reconciliado com o clero baiano. Voltando a atuar como padre, agora na Igreja de São Caetano, bairro de Salvador, levava uma vida tranquila, evitando chamar a atenção da mídia.[2]

Morreu no dia 4 de abril de 2019 aos 72 anos. Ele havia sofrido um Acidente vascular cerebral em novembro do ano anterior.[3]

Referências
 «'Nem a Igreja para uma alma livre': fiéis contam histórias sobre Padre Pinto». www.correio24horas.com.br. Consultado em 27 de março de 2025
 Gilvan Nascimento, Correio 24 Horas. «Padre Pinto e a vida reservada em São Caetano». Consultado em 22 de abril de 2012

A JOGADA DE KASSAB - Por Renato Janine. "Sua meta atual é recriar uma direita não bolsonarista, ou seja, tentar extrair o “vírus” bolsonarista que contaminou a direita,"

Gilberto Kassab é um dos mais hábeis políticos do Brasil – apenas Lula é mais hábil. Enquanto o presidente converte votos, mesmo insuficientes no Congresso, em políticas públicas audaciosas o mais que é possível, Kassab converte votos, ainda que insuficientes, em governabilidade – obviamente de caráter conservador. Sua meta atual é recriar uma direita não bolsonarista, ou seja, tentar extrair o “vírus” bolsonarista que contaminou a direita, visto que somente com Bolsonaro ela conseguiu vencer eleições presidenciais (na verdade, uma – a única que ela ganhou nos últimos vinte anos) ou, pelo menos, eleger governadores em vários dos principais estados, formando uma frente do centro-sul, situada entre a direita e a extrema-direita.

Kassab quer tirar a direita do bolsonarismo e reconstruir uma direita não extremista, emancipando-a do combo ditadura-censura-tortura. Isso não significa, porém, uma direita democrática, no sentido substantivo. Essa “direita não bolsonarista” terá como diferença principal aceitar a democracia enquanto procedimento: aceitará vitórias, mas também derrotas eleitorais, sem recorrer a golpes. Pois em 2022-23 os derrotados tentaram um golpe, procurando nas ruas levar a uma intervenção das forças armadas, motivo pelo qual Bolsonaro acabou condenado.

Essa opção da direita pela via eleitoral foi a obra iluminista do antigo MDB, especialmente de Ulysses Guimarães, completada por Fernando Henrique Cardoso nos pleitos de 1994 e 1998, já remotos. Contudo, o conceito de democracia foi radicalmente expandido pelo PT e pela esquerda, já no século XXI, ao colocarem na pauta a questão da igualdade – chamada de inclusão social. Apesar de essa inclusão ter se dado em boa parte via poder aquisitivo e acesso ao consumo, o que limitou sua capacidade de transformar corações e mentes, e por isso mesmo sua aptidão a disputar a hegemonia ideológica, ela é difícil de extirpar. Uma das razões para a derrota de Bolsonaro em 2022 foi justamente sua aversão a essa pauta, pois muitos, sobretudo os mais pobres, sentiram que a vida piorou sob seu governo.

A democracia assim deixava de ser apenas igualdade jurídica – algo que a direita poderia aceitar, na ideia de que “um homem, um voto” sustenta tradicionalmente a disputa política –, e passou a incluir a ideia de uma redução intensa da desigualdade social e eliminação da injustiça na sociedade. 

Mas isso é demais para a direita brasileira, pois coloca em questão seus privilégios. Direitos são universais; privilégios são, por definição, privados, parciais e excludentes. Pois esse conceito mais amplo de democracia, a direita, mesmo não bolsonarista, não vai aceitá-lo plenamente. Não se dispõe, mais, a sacrificar os anéis para não perder os dedos. Quer tudo. 

A direita brasileira foi duplamente contagiada pelo bolsonarismo: convencida de que, apelando para a baixaria, demagogia, extremismo e fake news, poderia ganhar eleições; e, por outro lado, perturbada no conteúdo da política, que retrocedeu ao século passado, abrindo mão da priorização da ascensão social para os mais pobres – ponto inegociável das políticas petistas e de centro-esquerda.

A restauração de uma direita não bolsonarista não é – ainda? – um retorno aos tempos em que o PSDB era um partido de centro-direita, que disputava o poder com a centro-esquerda. O que emerge é algo mais conservador ou reacionário: políticos situados entre a direita e a extrema-direita. Kassab, habilidoso, sabe que mesmo que quisesse não se voltaria ao centro-direita do qual fez parte – como vice de José Serra na prefeitura de São Paulo ou ministro de Dilma Rousseff.

Temos, assim, o retorno de uma direita não bolsonarista, mas também não propriamente democrática, se por democracia entendermos não apenas respeito aos resultados eleitorais – que Kassab certamente nutre –, mas também empenho em políticas de redução da desigualdade. Essa agenda não estará presente entre candidatos de direita, sejam bolsonaristas ou não.

Do ponto de vista da candidatura Lula, a aposta num segundo turno contra Flávio Bolsonaro seria mais fácil, representando um confronto radical entre civilização e barbárie. Contudo, para o Brasil, talvez fosse bom desidratar o nome Bolsonaro e que a direita, mesmo não assumindo pautas igualitárias, deixasse de ser golpista.

Dependendo disso, pode ser em 2030 nenhum Bolsonaro se mostre competitivo na política nacional, fechando-se o parêntese bolsonarista. Outra coisa, porém, é fazer com que a direita retorne aos tempos de Fernando Henrique e assuma, pelo menos em parte, a pauta social que começou – ainda que limitadamente – a ser adotada em seus governos, antes de conhecer a grande expansão no petismo.

Para concluir: nossa direita, nos tempos do condomínio PSDB-PFL, com liderança do primeiro no Executivo e predomínio do segundo no Congresso, acreditou que podia ser uma direita europeia, com tintas fortes de social-democracia. Isso passou. Pode voltar, será bom chegarmos a um tempo em que a pauta da redução da desigualdade seja comum a todos os partidos que disputem a hegemonia, mas ainda estamos longe disso. Nossa direita continua, fortemente, brasileira. E dizer isso não é um elogio.


VOCÊS SABIAM DISSO??? A diferença entre igualdade, equidade e inclusão é que a igualdade trata todos de forma uniforme, a equidade reconhece as diferenças individuais e a inclusão é um método para promover a equidade e a diversidade. E juntas, tem o objetivo de promover a justiça social, a partir do reconhecimento da diversidade e da necessidade de ajustar desequilíbrio. #educacaoinfantil #autismo #psicomotricidade #educacaofisicaespecial #movimento #educacaofisica #educacaofisicaadaptada #sindromededown #tea #inclusao #respeito

domingo, 1 de fevereiro de 2026

ANDRÉ BAZIN, CINEMA & O CATOLICISMO. NOTA.CONVITE

André Bazin nasceu em 1918, na França, e faleceu prematuramente em 1958, aos 40 anos, deixando uma obra teórica curta em extensão, mas imensa em profundidade e influência. Fundador da revista Cahiers du Cinéma, a revista de cinema mais importante de todos os tempos, ele não apenas escreveu sobre filmes, mas formou uma geração inteira de cineastas e críticos que criaram, anos depois, a Nouvelle Vague francesa. Para o problemático jovem François Truffaut  — um dos diretores mais célebres da história do cinema francês — ele foi mais do que um mentor teórico: quase como um pai adotivo, deu-lhe proteção, orientação e abrigo por alguns anos. Todos os seus comentadores afirmam a simpatia e a generosidade que acompanhava o crítico de cinema. Sempre destacam seu cuidado com os animais (gatos, em particular).

Há um lado conhecido de Bazin ainda pouco estudado: seu catolicismo. Como um homem de inteligência rara, de esquerda, europeu/francês/secularizado e tendo uma série de colegas ateus e bem críticos do  catolicismo francês se torna e se manteve católico? teria o cinema algo com isto? Usou Bazin o cinema como instrumento doutrinário católica? (hoje/domingo às 20h aprofundaremos essas questões numa sobre cinema e catolicismo) a melhor explicação para o catolicismo de Bazin foi dada por Ismail Xavier (USP):

“Com sua profissão de fé no cinema, Bazin traduz um movimento de reconciliação do pensamento religioso com o mundo moderno e pode observar a tela sem a moldura moralista da desconfiança na imagem e no que nela é apego à esfera da carne.” (In: Apresentação de “O que é o cinema?”. André Bazin. Cosac Naify, 2014).

CONVITE - LIVE. RELIGIÃO & CINEMA

CATOLICISMO e CINEMA: O CURIOSO CASO DE ANDRÉ BAZIN

Romero Venâncio (UFS)

01/2. Domingo. Às 20h

No Instagram romerojunior4503

Pedaços de Eternidade: André Bazin e o Realismo no Cinema e na Arte

– por Victor Bruno

https://unamuno.com.br/andre-bazin-pedacos-de-eternidade/