domingo, 25 de janeiro de 2026

OFICINAS ONLINE PONTÃO GESTÃO VIVA 3.0

Desde o ingresso da Ação Cultural na Rede Cultura Viva, em 2011/2012, é a primeira vez que uma ação de formação cultural voltada à noções básicas de gestão administrativa e financeira — direcionada a gestores e produtores de base comunitária — ocorre com tamanha pujança e qualidade como agora, no início de 2026, por meio do Pontão de Gestão Viva 3.0.

Essa iniciativa representa um sonho antigo. Recordo-me que, antes de a Ação Cultural tornar-se um Ponto de Cultura — quando precisei me afastar da coordenação geral da entidade para dirigir o Complexo Cultural 'O Gonzagão' (2007 a 2009) —, organizamos ações com  artistas e grupos culturais do Conjunto Augusto Franco e adjacências, quadrilhas juninas principalmente, além dos queridos (as)  parceiros da Caravana Internacional Arco-Íris por La Paz, Pontão de Cultura Itinerante da Rede Cultura Viva, a época.  Para saber mais clique AQUI

Naquele momento, as políticas culturais e de cultura digital, iniciadas em 2003 no governo Lula com o ministro Gilberto Gil, estavam em plena expansão, incluindo a criação do Programa Cultura Viva. Com base nisso, firmamos parcerias com o SEBRAE para promover oficinas de elaboração de projetos, empreendedorismo cultural e em cooperativismo.  Clique AQUI , AQUI , AQUI e AQUI para saber mais.

A participação da Ação Cultural nessas oficinas foi decisiva para a aprovação do projeto 'Juventude e Cidadania' no edital de 2010 do MinC. Após meu retorno à entidade como assessor técnico da mesma, integrando a Rede Sergipe de Pontos de Cultura, ficou evidente a lacuna na formação administrativo-financeira e em legislação, e aqui me refiro aos Pontos de Cultura de toda a rede . 

Infelizmente, em vez de oferecerem suporte, gestores públicos limitavam-se e ainda hoje,  a criticar a suposta incapacidade dos  agentes culturais em lidar com a gestão pública e institucional, além da gestão de suas carreiras e elaboração e gestão de projetos, na maioria dos casos. Essa proposta do Pontão de Gestão Viva 3.0 surge, portanto, como um ação importante para preencher esse vazio histórico, se não em todos os temas, considerando já terem sido apresentados, nem sempre com o tempo a qualidade necessária, pelo menos em alguns outros, como noções básicas de contabilidade para organizações da sociedade civil e de contabilidade para projetos, por exemplo. Saiba mais AQUI e AQUI

Recentemente tomei conhecimento da extinção das duas quadrilhas existentes no Conjunto Augusto Franco, a Asa Branca e Luiz Gonzaga, como tantas em nossas cidades, sem falar da descaracterização. Saiba mais AQUI

Decerto, com iniciativas como as do Consórcio Cultura lá atrás e do Pontão Gestão Viva 3.0, essa situação poderá ser revertida e reforçada ainda mais pelo orçamento formidável da Lei Aldir Blanc e das políticas de acesso do MinC na atual gestão, para a inclusão da micro e pequena produção cultural na seleção dos editais da Lei Rouanet.

E não esqueçamos dos Conselhos de Politicas Culturais, afinal: 
Onde falta participação e controle social, surgem problemas na utilização do dinheiro público. Daí a importância de conselhos de participação social ativos e altivos, atuando tanto no plano da macropolítica — por meio de conselhos de políticas públicas — quanto na orientação do uso de recursos no território, neste caso, na forma de conselhos gestores. 

Zezito de Oliveira - Educador, agente/produtor cultural e pesquisador/escritor.



19/01/2026, das 10h às 12h Introdução ao Orçamento Público – PPA, LDO e LOA

Com Luiz Américo Paranatinga

Objetivo geral: Compreender a estrutura do orçamento público brasileiro e seus instrumentos de planejamento como base para a atuação cultural junto ao poder público. Conteúdo abordado: A oficina apresenta os conceitos fundamentais do Plano Plurianual (PPA), da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e da Lei Orçamentária Anual (LOA), explicando como esses instrumentos se articulam, como influenciam a formulação de políticas culturais e de que forma Pontos de Cultura podem identificar oportunidades de incidência, diálogo institucional e captação de recursos a partir do orçamento público.

20/01/2026, das 09 às 11h Licitações e Contratações com a Administração Pública

Com Dr. Luiz Jordão

Objetivo geral: Capacitar agentes culturais para compreender os processos de contratação pública e suas implicações na execução de projetos culturais. Conteúdo abordado: Aborda os princípios das licitações, modalidades de contratação, dispensa e inexigibilidade, além dos cuidados necessários para que OSCs e coletivos culturais possam contratar com a administração pública de forma segura, transparente e alinhada à legislação vigente, reduzindo riscos na execução e na prestação de contas.

 21/01/2026, das 09 às 11h MROSC – Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil

Com Dr. Luiz Jordão

Objetivo geral: Apresentar o MROSC como principal marco legal das parcerias entre OSCs e o poder público. Conteúdo abordado: A oficina explora a Lei nº 13.019/2014, seus instrumentos (termo de fomento, termo de colaboração e acordo de cooperação), responsabilidades das partes, etapas de celebração, execução e prestação de contas, com foco na realidade dos Pontos de Cultura e na gestão responsável de recursos públicos.

 22/01/2026, das 10 às 12h Política Cultura Viva – Legislação e Certificação

Com Davy Alexandrisky

Objetivo geral: Compreender os fundamentos legais da Política Nacional Cultura Viva e o papel dos Pontos de Cultura. Conteúdo abordado: Apresenta a legislação que institui a Política Cultura Viva, seus princípios, diretrizes e instrumentos, abordando o conceito de gestão compartilhada, o protagonismo da sociedade civil e a importância dos Pontos de Cultura como estratégia de democratização do acesso, da produção e da fruição cultural.

 23/01/2026, das 10 às 12h Como Formalizar Juridicamente seu Empreendimento Cultural 

Com Heitor Collet

Objetivo geral: Orientar coletivos culturais sobre caminhos jurídicos para formalização e reconhecimento institucional. Conteúdo abordado: A oficina discute os diferentes modelos de formalização (associação, MEI, cooperativa, entre outros), suas vantagens e limitações, bem como os requisitos legais e documentais para que grupos culturais possam se estruturar juridicamente e acessar políticas públicas e mecanismos de fomento.

 26/01/2026, das 10h às 12h Noções de Contabilidade para Pontos de Cultura (OSCs)

Com Daniel Menezes

Objetivo geral: Introduzir conceitos contábeis essenciais para a gestão de Organizações da Sociedade Civil. Conteúdo abordado: Apresenta noções básicas de contabilidade aplicada ao terceiro setor, incluindo registros contábeis, obrigações fiscais, demonstrativos financeiros e cuidados específicos para OSCs, fortalecendo a gestão transparente e a sustentabilidade institucional dos Pontos de Cultura.

 27/01/2026, das 10 às 12h Noções de Contabilidade para Projetos Culturais

Com Daniel Menezes

Objetivo geral: Capacitar agentes culturais para organizar financeiramente projetos culturais. Conteúdo abordado: A oficina aborda conceitos práticos de controle financeiro, fluxo de caixa, organização de documentos fiscais e acompanhamento de despesas, relacionando esses elementos diretamente às exigências de editais, termos de fomento e leis de incentivo.

28/01/2026, das 10h às 12h Projetos – Da Elaboração à Prestação de Contas

Com Heitor Collet

Objetivo geral: Apresentar o ciclo completo de um projeto cultural, do planejamento ao encerramento. Conteúdo abordado: Discute as etapas de concepção, elaboração, execução, monitoramento e prestação de contas de projetos culturais, destacando a coerência entre objetivos, metas, orçamento e resultados, com foco em boas práticas exigidas por editais e órgãos públicos.

29/01/2026, das 10h às 12h Desenvolvendo a Planilha Orçamentária

Com Heitor Collet

Objetivo geral: Aprofundar o conhecimento sobre elaboração e gestão de orçamentos de projetos culturais. Conteúdo abordado: A oficina trabalha a construção detalhada de planilhas orçamentárias, memória de cálculo, unidades de medida, compatibilização com cronogramas e adequação às normas de editais e legislações, reduzindo riscos de glosas e inconsistências.

30/01/2026, das 10 às 12h Produção de Campo e Logística

Com Wesley Cardozo

Objetivo geral: Capacitar agentes culturais para planejar, organizar e executar a produção de campo e a logística de projetos e eventos culturais de forma eficiente, segura e integrada. Conteúdo abordado: A oficina aborda os princípios da produção de campo e da logística aplicada à cultura, incluindo planejamento operacional, cronogramas, fluxos de trabalho, montagem e desmontagem, transporte, hospedagem, alimentação, gestão de equipes, fornecedores e insumos, bem como a articulação entre produção, técnica e comunicação, oferecendo uma visão prática e estratégica para a execução organizada de ações culturais em diferentes territórios e contextos.

 02/02/2026, das 10 às 12h Redação para Projetos

Com Heitor Collet Objetivo geral: Aprimorar a escrita técnica e estratégica de projetos culturais. Conteúdo abordado: Aborda técnicas de redação aplicadas a editais, com foco em clareza, coerência, argumentação, alinhamento com políticas públicas e critérios de avaliação, auxiliando agentes culturais a fortalecerem a competitividade de suas propostas.

03/02/2026, das 10 às 12h Captação de Recursos - Leitura de Editais

Com Heitor Collet

Objetivo geral: Capacitar agentes culturais para interpretar e analisar editais de fomento. Conteúdo abordado: A oficina ensina como ler editais de forma estratégica, identificando requisitos, critérios de avaliação, obrigações do proponente e oportunidades, reduzindo erros formais e ampliando as chances de aprovação.

04/02/2026, das 10 às 12h Captação de Recursos - Lei de Incentivo

Com Heitor Collet

Objetivo geral: Compreender os mecanismos das leis de incentivo à cultura. Conteúdo abordado: Apresenta o funcionamento das leis de incentivo, etapas de submissão, aprovação, captação e execução de projetos, além das responsabilidades do proponente e das estratégias de relacionamento com patrocinadores.

[05/02/2026, das 10h às 12h Captação de Recursos - Emendas Parlamentares

Com Heitor Collet

Objetivo geral: Apresentar o funcionamento das emendas parlamentares como fonte de financiamento cultural. Conteúdo abordado: Discute o ciclo das emendas, articulação política, elaboração de propostas, celebração de termos de fomento e cuidados na execução, contextualizando esse instrumento na realidade das OSCs e Pontos de Cultura.

 06/02/2026, das 10 às 12h Sustentabilidade Financeira - Lean Canvas para Negócios

Com Daniel Domingues

Objetivo geral: Introduzir ferramentas de planejamento estratégico para sustentabilidade financeira. Conteúdo abordado: Apresenta o modelo Lean Canvas adaptado à economia da cultura, auxiliando Pontos de Cultura e agentes culturais a refletirem sobre proposta de valor, públicos, fontes de receita, custos e parcerias estratégicas.

 09/02/2026, das 10h às 12h Acessibilidade: Conceitos e Direitos

Com Dilma Negreiros

Objetivo geral: Compreender os fundamentos da acessibilidade e seus marcos de direitos, qualificando Pontos de Cultura e agentes culturais para planejar ações culturais inclusivas e alinhadas às normas brasileiras. Conteúdo abordado: A oficina apresenta conceitos-chave de acessibilidade (física, comunicacional, atitudinal, metodológica, digital e arquitetônica), a noção de desenho universal e o entendimento de acessibilidade como direito, discutindo deveres e responsabilidades de projetos culturais.

 10/02/2026, das 10h às 12 Sustentabilidade – Conceitos Iniciais

Com Isa Boechat Objetivo geral: Introduzir conceitos fundamentais de sustentabilidade aplicados à cultura. Conteúdo abordado: Apresenta os pilares da sustentabilidade (ambiental, social e econômica), sua relação com projetos culturais e a importância da adoção de práticas responsáveis e conscientes no planejamento e na execução de ações culturais.

11/02/2026, das 10h às 12h Sustentabilidade em Eventos – ABNT NBR ISO 20121

Com Isa Boechat

Objetivo geral: Apresentar normas e boas práticas para a gestão sustentável de eventos culturais. Conteúdo abordado: A oficina aborda os princípios da ABNT NBR ISO 20121, discutindo planejamento, mitigação de impactos, engajamento de públicos e fornecedores, e estratégias para tornar eventos culturais mais responsáveis e alinhados a padrões internacionais.

 23/02/2026, das 10h às 12h Elaborando um Plano de Comunicação Com Julia Sinder 

Objetivo geral: Capacitar agentes culturais para estruturar planos de comunicação estratégicos e coerentes com os objetivos de projetos culturais. Conteúdo abordado: A oficina aborda os fundamentos do planejamento em comunicação aplicada à cultura, incluindo definição de objetivos comunicacionais, públicos estratégicos, mensagens-chave, identidade, cronograma de ações, canais e formatos, além de indicadores de alcance e engajamento, auxiliando Pontos de Cultura e agentes culturais a organizarem ações de divulgação consistentes, integradas e alinhadas às exigências de editais, patrocinadores e políticas públicas.

 24/02/2026, das 10h às 12h Campanhas em Redes Sociais

Com Julia Sinder

Objetivo geral: Introduzir estratégias de divulgação digital para projetos culturais. Conteúdo abordado: Discute planejamento de campanhas em redes sociais, segmentação de público, noções básicas de métricas de acompanhamento, com foco em ampliar alcance, engajamento e visibilidade de ações culturais.

 25/02/2026, das 10 às 12h Elaboração de Press Kit e Portfólio

Com Heitor Collet

Objetivo geral: Orientar agentes culturais na organização de portfólios institucionais e artísticos. Conteúdo abordado: A oficina aborda os elementos essenciais de um press kit, como release, fotos, vídeos, textos institucionais e identidade visual, fortalecendo a comunicação e a imagem pública de projetos e coletivos culturais. Também foca na estrutura, linguagem e curadoria de conteúdo para portfólios, destacando a importância do histórico de atuação, registros e resultados como elementos estratégicos em processos seletivos e editais.

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Leia também: 

A Produção Cultural em 2026: o fim da era do “desespero do edital”
Por Pascoal Maynard(*)
Começo este ano com uma sensação diferente. Se em 2024 e 2025 eu ainda respirava o ar da reconstrução, tentando acompanhar a retomada dos mecanismos de fomento que haviam sido desmantelados, agora percebo que o jogo mudou. O Ministério da Cultura deixou claro: entramos na fase da consolidação técnica.
Como produtor cultural, sinto na pele o impacto dessa transição. As recentes orientações sobre a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e o balanço da Secretaria Executiva do MINC, mostram que não estamos mais diante de iniciativas isoladas, mas de um sistema robusto, permanente e altamente fiscalizado. É como se a profissão tivesse ganhado novas regras — e ignorá-las significa ficar para trás.
Ao analisar a passagem do Ciclo 1 para o Ciclo 2 da PNAB, o fomento agora funciona em fluxo contínuo. Não há mais espaço para a lógica dos editais que “aparecem e somem”. O sistema exige domínio absoluto sobre prazos, reprogramação de saldos e uma prestação de contas rigorosa. É um novo patamar de profissionalização: quem não dominar a técnica de gestão financeira verá os recursos passarem pelas mãos dos estados e municípios sem conseguir captar nada para seus projetos.
Essa mudança marca o fim definitivo da era do improviso, do “desespero do edital”. O que começa agora é a era da gestão estratégica de carreira. Não se trata apenas de política cultural, mas da reescrita das regras do ofício.
Escrevo este artigo não apenas como observador, mas como alguém que vive diariamente os desafios da produção cultural. O recado do Ministério da Cultura foi direto: acabou a fase da reconstrução, agora é hora da consolidação técnica. E eu confesso — isso me inquieta.
E aqui está a verdade que muitos não querem ouvir: quem não dominar a gestão financeira, quem não entender prazos, reprogramações e prestações de contas, ficará para trás. Não adianta reclamar da burocracia — ela agora é parte indissociável da profissão. O produtor cultural que insiste em viver apenas da inspiração vai descobrir que a inspiração, sozinha, não paga contas nem garante relevância.
Eu sei que dói admitir, mas a inspiração não basta. Criatividade sem estratégia é apenas hobby. Se você quer viver de cultura em 2026, precisa assumir que sua carreira é uma empresa — e que a gestão é tão vital quanto a criação.
Durante anos, muitos produtores viveram na lógica do improviso. Era o “desespero do edital”: correr atrás de oportunidades esporádicas, inscrever projetos às pressas, torcer por aprovação e, quando não vinha, culpar a burocracia. 
É hora de abandonar a romantização da arte como se fosse suficiente para sustentar uma carreira. Criatividade sem estratégia é hobby. Inspiração sem técnica é apenas passatempo. Se você quer viver de cultura em 2026, precisa assumir que sua carreira é uma empresa — e que a gestão é tão vital quanto a criação.
Ou você se profissionaliza, ou desaparece.
(*) É  jornalista, documentarista  e produtor cultural. Atualmente exerce o cargo de Assessor Especial da Funcap, Presidente do Conselho Estadual de Cultura e apresentador do programa Expressão na Aperipê TV.
Artigo acima publicado no facebook em 20 de janeiro de 2026

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Como a (des)informação sobre o Irã chega até a gente?

 



“Para uma iraniana, falar tem se tornado insuportavelmente difícil. Parece que sempre alguém está falando por você. Se afinal te deixam falar, é apenas para confirmar aquilo que eles já acreditam. Eles perguntam: ‘vocês esperam ajuda dos Estados Unidos ou de Israel? O número de mortos é mesmo 12 mil?’ Mas ninguém nos perguntou nada quando o regime fascista que nos governa se tornou campeão em execuções”, discursou a representante do movimento iraniano “Feminists4Jina”, durante uma manifestação em Berlim na semana passada.

A cobrança da jovem iraniana, representante de uma organização que emergiu depois das gigantescas manifestações de 2022, em protesto por Jina Mahsa Amina, que morreu depois de ter sido presa por usar o véu “de modo incorreto”, faz todo o sentido quando a gente acompanha as notícias e comentários sobre o Irã, que praticamente não tem imprensa independente nem livre acesso à Internet.

 Do lado da direita ocidental, o que se vê é a redução de um país com mais de 4 mil anos de história, com uma cultura riquíssima e uma população de 86 milhões de habitantes, a uma terra de terroristas fanáticos e religiosos barbudos, que deve ser invadida pelos Estados Unidos. De outro lado, no mesmo Ocidente, há uma esquerda que não entende os protestos monumentais por liberdade que vem desde a Revolução Islâmica – que, em 1979, levou os aiatolás ao poder e à imposição da Sharia (a lei islâmica) – atribuindo-os simplesmente à influência de potências interessadas em desestabilizar o regime e expandir seu domínio sobre o Oriente Médio.

Porém, a realidade é bem mais complexa, como alertou a jovem ativista iraniana na Alemanha, herdeira de um feminismo combativo que já levou duas mulheres de seu país a conquistar o Nobel da Paz: Narges Mohammadi, presa pela última vez no ano passado, que conquistou o prêmio em 2023; e Shirin Ebadi, que ganhou o Nobel 20 anos antes, e foi entrevistada no Irã pela jornalista Adriana Carranca, a quem recorri para tentar entender um pouco melhor sobre o país em que ela trabalhou como enviada especial. 

“Muitas pessoas que apoiaram a Revolução Islâmica, como a própria Shirin Ebadi, acreditavam que o Aiatolá Khomeini instauraria uma democracia. Ele falava em democracia islâmica, que é algo que soa para muitas pessoas, embora o Irã não seja um país tão religioso nem totalmente xiita – tem muitos ateus, muitos Zoroastristas (religião anterior ao Islã). Boa parte dos ativistas que derrubaram a monarquia – que era odiada pela população – acreditavam que haveria um estado democrático, como havia na época do (Mohammad) Mossadegh, o primeiro-ministro nacionalista que foi derrubado (em 1953) pelos britânicos e americanos. Veja que ironia”, diz a jornalista. 

“Hoje, o líder supremo tem praticamente a última palavra em tudo, inclusive para confirmar a eleição à presidência. E tem a última decisão em praticamente todas as outras áreas. Ele está desde 1989, é um cara de mais de 80 anos, em descompasso com a juventude do país, que está cansada de ser vigiada e importunada pela política de costumes”, explica.

 Para Carranca, os jovens (70% da população nasceu depois da revolução) e as mulheres (que ocupam 67% das vagas nas universidades) não vão desistir da democracia, de uma imprensa livre, do acesso à Internet, e de direitos iguais para as mulheres. “Mesmo os jovens carregam essa herança cultural do império persa e se compreendem como um lugar de 4,5 mil anos de história. Eles vêem esse regime como passageiro: o que são quarenta anos diante de cinco mil anos de uma cultura maravilhosa?”, pergunta Carranca, lembrando que o movimento reformista, de oposição ao regime, se iniciou assim que a população se deu conta de que os aiatolás não queriam democracia.

“Havia muitos jornais independentes reformistas, em farsi, e aí o governo fechava, eles reabriam, certamente eles ainda existem até hoje, mas são ainda mais perseguidos em momentos de crise. A maior parte das informações que temos vem de ONGs, de iranianos fora do país – os da diáspora – que têm acesso às redes, e de alguns correspondentes internacionais. Não é fácil conseguir um visto de jornalista para o Irã, por isso a maioria deles são britânicos-iranianos, americanos-iranianos, que trabalham para agências e jornais ocidentais, mas não é fácil obter informação do regime mesmo estando lá. Isso dificulta, mas por si só não impede a circulação de informações sobre o país – ontem mesmo eu estava conversando com uma iraniana”, conta Adriana Carranca.

“Esses protestos mais recentes foram diferentes dos anteriores porque reuniram muito mais gente do interior, de comerciantes, é uma população mais heterogênea do que aquela formada principalmente por mulheres e jovens urbanos que protestaram pela morte de Mahsa. Tem um componente econômico forte, e não apenas pelo bloqueio ao Irã, mas também pelas decisões do próprio regime, por suas falhas, por seu investimento em áreas não prioritárias para os iranianos, que estão sofrendo com o custo de vida, com os apagões, com a deterioração da infraestrutura. O regime está corroído por dentro, falta aparecer uma liderança capaz de se apresentar como uma alternativa política, porque os protestos ainda são muito descentralizados”, explica. 

Pergunto para ela se uma intervenção dos Estados Unidos não complicaria ainda mais a vida da oposição iraniana. “Certamente, porque quando há uma ameaça externa, os protestos param. Os iranianos são nacionalistas, eles acabam apoiando o governo nesses casos, como a gente viu durante os bombardeios de junho passado. Uma forma que os Estados Unidos poderiam ajudar é promovendo, investindo financeiramente nos grupos iranianos de direitos humanos, de monitoramento, não como uma intervenção externa. Os iranianos querem e podem reconstruir sua democracia, sem paternalismo”.

Volto ao Instagram das jovens mulheres do “Feminists4Jina” e anoto a parte final daquele impactante discurso em Berlim. “Ninguém nos perguntou nada por quase 5 décadas, levante após levante, enquanto as pessoas amadas por nós eram executadas, presas, ou baleadas pelo país, seus corpos desaparecidos ou vendidos para as famílias. Ninguém perguntou como o estupro e o assassinato se tornaram tão baratos e fáceis. Ninguém nos perguntou nada porque nossas vidas só importam quando se tornam relevantes para os países ocidentais ou para as audiências ocidentais”.

“Nós exigimos vida, nós exigimos dignidade, nós exigimos liberdade”, essa é a voz do Irã. Para começar a ouvi-la é bom desconfiar dos porta-vozes ocidentais – de direita ou esquerda, da imprensa ou de governos.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Em O Agente Secreto, o povo tem cara de povo. Por Fabiane Albuquerque, doutora em sociologia e escritora no Le Monde Diplomatique em Português.

Vencedor em Cannes, o filme de Kleber Mendonça tem o olhar de quem anda pela cidade. Se passa em 1977, mas parece hoje. Tem madame que deixa empregado morrer; delegado miliciano; tem frevo, música e ritmo acelerado de quem sofre e festeja, tudo ao mesmo tempo


Por Le Monde Diplomatique Brasil e Outras Palavras

Publicado 04/06/2025 às 15:27 - Atualizado 04/06/2025 às 15:32

Por Fabiane Albuquerque, no Le Monde Diplomatique Brasil

E o filme começou. O fusca amarelo de Marcelo estaciona num posto de gasolina. Posto nada, uma bomba no meio do nada, um senhor barrigudo com a camisa aberta, com o mesmo fenótipo dos homens da Vila Brasilândia em São Paulo, em bares nos fins de semana, ou do meu sertão mineiro. O lugar é meio deserto, parece a paisagem descrita por Guimarães Rosa, região onde cresci: terra seca, “onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morar”. Um corpo morto jogado no chão está lá há dias, diz o funcionário, sem que autoridade nenhuma tome nota, pois, afinal, no sertão “há coisas de medonhas demais”, aponta o escritor mineiro. A banalidade das nossas mortes está toda ali, naquela cena, com as moscas que sobrevoam o cadáver em decomposição, fazendo um barulho que a gente chega a passar a mão na cara, para afastá-las. Nem polícia se move, o povo é que cobre o morto e ainda convive com a inhaca. É a força do lugar sobre o pensamento, não o contrário, como diz Guimarães Rosa. Talvez o sertão do Norte seja diverso.

E, a gente segue com o olhar e se depara com uma coisa prazerosa, que chega a encher a alma. Tem morte, sim, mas tem gente com cara de gente. Vida do povo mesmo, não de gente que não é da gente imitando a gente. Porque diversidade mesmo, só no meio popular. A gente anda pelas classes médias e a pequena burguesia (porque a grande nem vemos) e se depara com uma coisa assustadora: todo mundo igual, fisicamente e esteticamente. As mulheres brancas, todas de cabelos lisos e “loiricizadas”, os homens de camisa polo, as roupas todas de cores sóbrias, de tonalidades únicas, as caras plastificadas, com dentes do desenho da Barbie. E eu não sei distinguir a classe média de Fortaleza, daquela de São Paulo, Rio de Janeiro ou Porto Alegre. Se tem uma proeza que admiro no Capitalismo é isso, ele consegue uniformizar uma classe e fazê-la acreditar que é livre e autêntica.

Dona Sebastiana recebe Marcelo no prédio que toma conta. Ele, o protagonista foge para reconstruir a vida ao lado do filho, tentando esconder-se dos jagunços que não vestem roupas esfarrapadas, usam chapéu de couro e andam a cavalo. O jagunço é sudestino e, a mando de um poderoso com nome italiano (olha a ironia), sobe o Brasil acima para executar Marcelo. Quebrando estereótipos, é crítica ao sudestino e ao sulista, que sempre pousaram o olhar narcísico sobre o Nordeste achando feio tudo o que não é espelho. O Nordeste, no filme, é que está olhando para baixo. Para essa gente que chega lá, chamando certos tipos de trabalho, “trabalho de bicho”. E, o “bicho” não esquece isso, não. Vai vendo.

O Agente Secreto segue o rumo de Bacurau, onde quem nasce lá, gente é. É preciso afirmar isso o tempo todo para o Brasil não esquecer. E, dá vontade de ser vizinha de Sebastiana, ô velha arretada! Tem angolano refugiado, tem homem que não consegue ser homem do jeito que os outros esperam, tem mãe solo, tem solidariedade e até feirinha orgânica. É gente que ninguém dá nada, mas incomoda demais os poderosos. Ah! Sem contar que o Agente Secreto, Marcelo, ou melhor, Armando, é pesquisador de uma Universidade Pública do Nordeste, e tem cara de comunista. Tem pesquisa de ponta, de não deixar nada a desejar aos intelectuais do Sul, que falam do Brasil como se só existisse o eixo Rio e São Paulo. A esposa, Fátima, que mulher, que mulher! Ela fez o que todo brasileiro preto gostaria de fazer diante de um branco, rico, safado e explorador. Mandou tomar no orifício enrugado circular, no meio do restaurante. Por quê? Porque o cabra tinha tomado “banho de indústria” e, no alto da sua arrogância, a mesma que acha tudo que vem do povo, bagunçado, confuso, afolado, longe do perfume francês dos dirigentes do PSDB, ou dos colunistas da Folha de São Paulo que, dos seus apartamentos ou restaurantes chiques, decidem que o é digno de ser publicado, o que é alta literatura, o que é um bom cinema, o que é a moda, o que o Feminismo deve fazer e até o que é e pensa o povo. Porque a gente, descendente das Carolinas de Jesus, oriundas dos quartos de despejo, tem gosto, sim, senhor, e não somos obrigadas a gostar de filme sobre família burguesa, com quarto de empregada, sobretudo quando a empregada pronuncia três frases.

O Thriller se passa em 1977, mas parece hoje, minha gente. Então não dá para saber se é Brasil de 2025 ou Brasil daquela época. Tem rico que deixou o filho da empregada morrer, após mandar a mulher sair para fazer um serviço na rua, e o menino sair pelo portão e ser atropelado. Tem cabimento? Oxe! Mas isso acontece ainda hoje, quando a madame, no meio da pandemia, manda a empregada doméstica passear com os cachorros e coloca o seu filho, menino preto de cinco anos, num elevador e aperta o botão de subir. Subiu o menino. Tem delegado miliciano, que atrela a máquina pública com os interesses da burguesia. Tem até militar expulso da corporação porque ninguém lá o suportava. E virou assassino de aluguel. Já aquele expulso, o da nossa época, ah, que desastre! O cabra virou presidente e deu no que deu. Pois bem, o miliciano sai de São Paulo para matar Marcelo e, como todo bom sudestino, contrata um matador local, caboclo, pinta boa, carregador, o mesmo que faz “trabalho de bicho”. Olha, o povo de Pernambuco não esquece das coisas, não. Eu tenho um amigo de lá que me joga na cara coisas de vidas passadas. A gente sabe que por lá, arrogância de sudestino não se cria. Eles riem na cara dele, sem ele saber. E, dito e feito. O cabra que chamou o outro de bicho, como bicho morreu. Mas o povo de Recife não é perverso, não. Não dessacraliza a vida. Até para miliciano tem vela, porque Deus, no final, é pai de todos.

Tem frevo também, música de ritmo acelerado, com movimentos acrobáticos. A dança ferve assim como a vida, junto com a violência diária, a dureza e o desmando dos poderosos à frente das instituições. Frevo, sim. O povo sofre e cai na folia. Na Europa, quando o povo sofre, é tudo separado, primeiro se sofre, depois se festeja, se festeja e depois sofre, cada coisa tem a sua vez. Lá, não. Sofre e festeja. Tem amasso em praça pública, tudo envolvido numa estética do popular, sem ridicularizar e, onde um olhar aburguesado vê sujeira, desordem, tudo encardido, até a pele do povo, tem é vida. Porque, como diz um amigo italiano, comunista do sul da Itália: “Limpeza é coisa de burguês”. E, não é que ele tem razão?! A gente viaja para Nápoles, vê a cidade suja, os prédios precários, os carros velhos, o trânsito todo embolado, mas a força da cultura popular e da resistência ao fascismo, só um olhar menos afobado e “desaburguesado” pode captar. Em 1943, durante quatro dias, os napolitanos botaram para correr a tropa alemã. O povo jogou vasos sanitários dos apartamentos na cabeça dos nazistas. Num lugar extremamente ordenado, “limpo”, uma coisa dessas não seria possível. Primeiro iriam pensar no porcelanato e no mármore, caros demais para se jogar. Verona, no Norte do país, por exemplo, é tão limpa, tão limpa, que tem uma lei que proíbe dar esmola no centro histórico. Olha só! Para manter a cidade limpa, é preciso renunciar à caridade e espantar os mendicantes. É isso o que está por trás da estética burguesa. Eu não troco o Recife por Curitiba nem a pau. A obra de Kleber Mendonça é do contra poder, das relações com um pólo.

Ah, ia-me esquecendo da perna cabeluda. A perna que botou para quebrar. A lenda urbana dos anos 1970. Na praça da pegação, ela apareceu para colocar ordem, porque o meu povo do sertão de cima, tem os seus limites. Mas não a ordem da polícia de Tarcísio, em São Paulo, ou dos moradores dos bairros de classe média, que atacam o padre Júlio Lancelotti por entregar comida aos pobres. A perna é esta força invisível que vinga a vida na ausência da justiça. Ela aterroriza mesmo. Pode até dizer que é mentira, vocês aí de baixo, gente que se acha mais evoluída, mas acredita em coisas piores. Por exemplo, que os bandeirantes eram homens desbravadores e empreendedores. Eram nada. Um bando de assassinos de povos indígenas que começou a grilagem de terras, entrando na mata para arrancar riqueza. Para a nação? Não, claro. Para o bolso dos mais ricos. Abriram caminhos para o agronegócio, sim, senhor. Vai lá ver como está o Estado de Goiás hoje, outrora terra de tantos povos nativos, passarinhos, lobos guará, árvores frutíferas e muita água doce. Acreditam até que o povo preto tem inveja de mulher “branca, bonita e rica”. A pessoa é a cara do espantalho dos milharais da minha infância.

Mas, voltando ao filme. Tem algo de muito inovador na arte de Kleber Mendonça. E vou dizer o que é: o cabra ainda anda a pé pela cidade de Recife, acredita? É que quem anda a pé vê as coisas por outro ângulo, vê gente, fala com gente, sente o cheiro da cidade. Artista que perde isso, fica a cara de Woody Allen, que circula infinitamente ao redor dos dramas do bairro de Manhattan. Aí o povo assiste e dá risada. Só os críticos, a “intelligentsia”, gosta. O povo mesmo ri do rico que ri de si mesmo. O filme de Kleber Mendonça é crítica social com deboche. Povo sofre, mas sofre com classe. É dona Sebastiana fofoqueira, é funcionário do centro de identificação que trepa no meio do expediente, é a datilógrafa que canta o novato, na cara dura, é a consulta odontológica no meio da trepada. Porque povo, minha gente, não tem ordem cronológica e nem pauta pré-estabelecida. A vida flui e se reinventa. Massa demais. Recomendo.


Fabiane Albuquerque é doutora em sociologia e escritora, autora dos livros Cartas a um homem negro que amei e Ensaio sobre a raiva.





"O mundo explodindo, o fascismo a todo vapor e eu aqui: sonhando em ser um cantor, sofrendo a perda de um amor." Por Leo Cavalcanti


 

"A canção "Eu Aqui Sonhando" soube captar o clima tenso e "cabuloso" dos tempos do  golpe contra Dilma e da ascensão da extrema-direita sob a liderança de Bolsonaro a partir de 2015. Apesar do alívio com a derrota dele nas urnas em 2022 e os processos decorrentes — especialmente contra ele e contra os organizadores dos acampamentos e atentados que culminaram no 8 de Janeiro —, o fantasma da extrema direita ainda nos assombra. Isso se intensifica pelo fato de os EUA não terem punido os extremistas lá, ao contrário do que ocorreu aqui no Brasil. "E eu aqui sonhando" também reflete a tensão que acompanha essa outra camada, sendo agora mais interna ou pessoal, pensar mais em si, agir de forma mais individual ou em pequenos coletivos em forma de "guetos" também conhecido como nichos ou tribos, OU.... como na reflexão abaixo do Armandinho. 
ZdO     
O mundo explodindo e eu ainda aqui sonhando em ter um amor

O mundo explodindo e eu ainda aqui sonhando

Sonhando solitário a minha dor

Do fato dado de estar inundado por um sonho

Barragens se rompendo e eu ainda aqui querendo aquele amor

As lamas escorrendo e eu ardendo por um sonho

Um certo cara e o seu calor

Tão displicentemente ele entra nos meus sonhos

Sonhos de amor

E ele já não me quer mais

Por que ele entrou assim

No fundo de dentro de mim?

Tanta gente sem amor

E eu pedindo por favor

Pra ele me salvar de mim

E o mundo em chamas por aí

E não será a última vez

Sete bilhões de solidões

Fascismo a todo vapor

Medo, ignorância e dor

E eu sem saber mais de mim

Por que me sinto só assim?

Ele já tem um novo amor

Por que isso dói tanto aqui?

Eu achei que era amor

Fascismo se espalhando e eu ainda insistindo em ser um cantor

Pessoas sendo mortas e eu ainda aqui com medo

De ser alguém aquém de quem eu sou

De não dar conta de cantar o canto dos meus sonhos

Cantos de amor

Como se não coubesse em mim

O canto que se pede aqui

Num mundo em pleno desamor

Medo, ignorância e dor

E eu pedindo por favor

Pra ele me salvar de mim

E o mundo em chamas por aí

Fascismo a todo vapor

Ele já tem um novo amor

Por que ele entrou assim

No fundo de dentro de mim?

Sete bilhões de solidões

Tanta gente sem amor

E não será a última vez

Por que me sinto só assim?

Eu achei que era amor

Eu achei que era amor

Eu, eu achei...

O mundo explodindo e eu ainda aqui sonhando



Ele já gravou dois discos, teve música integrando trilha de novela, foi elogiado por inúmeros artistas de peso da música brasileira, fez turnês internacionais e participou de programas como "Som Brasil", sucesso da emissora Rede Globo. Colaborou com Elza Soares, Arnaldo Antunes, Fernanda Takai, Tulipa Ruiz e muitos outros. Hoje, este rapaz da capital paulista de coração bahiano nos conta a história e os eventos que culminaram na canção "Ainda aqui sonhando", que segundo nossa criadora e hostess Bella Nogueira, é das canções mais lindas e necessárias que ouviu na última década. Leo Cavalcanti, esse ser de voz diferenciada, que toca tão bem seu violão, escreve durezas doces. Escancara a confusão nesta letra, o fascismo atropelando o povo, como as lamas das barragens que varreram cidades. Enquanto divaga sobre o mundo em chamas lá fora, questiona se dentro de si tem o que se faz necessário para ser o que é: um artista brilhante. Leo retrata estes cenários muito bem na composição, relembrando a figura já lendária de Marielle Franco.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Diversidade religiosa, dom divino para a humanidade. Por Marcelo Barros (*)

A ONU consagra o 21 de janeiro como “dia mundial das religiões”.  Essa data se tornou importante em um mundo cada vez mais marcado pela diversidade cultural e religiosa. No Brasil, onde,  historicamente, as religiões de matriz africana e as tradições espirituais indígenas, sempre foram marginalizadas e hostilizadas, nas últimas décadas, vimos crescer ações de preconceitos e violações aos direitos dos grupos religiosos considerados minoritários. Por isso, a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, alterada pela Lei nº 9.459, de 15 de maio de 1997,  considera crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões. Apesar disso, em todo o país, diariamente, ocorrem ataques a templos de cultos afro-brasileiros e agressões a comunidades que os praticam. 

No dia 21 de janeiro de 2000, Gildásia dos Santos, conhecida como Mãe Gilda de Ogum, Ilyaorixá do Ilê Abassá em Salvador, BA, morreu em decorrência de agressões e humilhações sofridas por parte de grupos neopentecostais. Em sua memória, em 2007, Lula, então Presidente da República, instituiu o 21 de janeiro como o Dia de combate à intolerância religiosa. 

É claro que não basta combater a intolerância e viver a tolerância. As pessoas toleram aquilo que não podem evitar. A lei pede respeito. Só uma cultura aberta à pluralidade e uma espiritualidade amorosa suscita abertura de coração para aprender uns dos outros. 

De 2007 até hoje, em vários estados do país, criaram-se comissões de defesa da diversidade. Apesar disso, em todo o Brasil, continuam a ocorrer atos de discriminação e de violência, principalmente contra religiões e cultos de matriz africana. Às vezes, a intolerância é clara, outras vezes, camuflada sob o pretexto de protesto contra barulho dos tambores ou contra sacrifício de animais. 

Em todo o país, a cultura vigente ainda tem resquícios dos tempos nos quais a religião dos senhores brancos era a única aceita e condenava às religiões negras e indígenas.  Hoje, isso configura-se como racismo religioso e precisa ser denunciado e combatido. Infelizmente, nos dias de hoje, grupos pentecostais e também católicos parecem herdar da velha Cristandade sua herança mais negativa e trágica: a pretensão de ser religião dominante. Alguns grupos religiosos ainda vivem a fé como ideologia de conquista guerreira que não admite o direito do outro e do diferente. Querer que o Brasil seja católico ou pentecostal é não somente desrespeito à Constituição Federal que prescreve a laicidade, aberta a todas as formas de crença, como é contrário ao que a própria espiritualidade cristã propõe: amor universal e o profundo respeito pelas diferenças. 

Conforme o evangelho, o próprio Jesus advertiu: “Na casa do meu Pai, há muitas moradas” (Jo 14, 1). Em outro texto, apesar de, no início, ter rejeitado, Ele acabou por aceitar curar a filha da mulher sírio-fenícia que tinha outra religião e chegou a elogiar a sua fé (Mc 7, 24- 30). Curou o filho do oficial romano e predisse que muitos virão do Ocidente e do Oriente e se sentarão à mesa de Deus, enquanto alguns que se consideram fieis, ficarão de fora (Mt 8, 11- 12). 

Todas as religiões pregam amor, compaixão e misericórdia. Entretanto, quando se tornam dogmáticas e autoritárias, transformam-se em instrumentos de fanatismo e canais de intolerância. Confundem a verdade com uma forma cultural de expressar a verdade. Absolutizam dogmas e acabam justificando conflitos e guerras em nome de Deus. 

Atualmente, a diversidade cultural e religiosa não é só um fato que, queiramos ou não, se impõe à humanidade. É principalmente graça divina e bênção para todas as tradições religiosas. Para que entre as religiões, o diálogo possa ser profundo, cada grupo tem de reconhecer o que Deus lhe revela, não só a partir da sua própria tradição, mas do caminho religioso do outro. No tempo do nazismo, de uma prisão alemã, escrevia o pastor Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano: Deus está em mim, mas para me abrir ao outro. Em mim, é uma presença fraca para mim mesmo e é forte para o outro. Ele está no diferente, mas a sua presença é para mim. Assim, Deus é amor e se encontra quando encontramos o outro, o diferente”. 

(*) É  monge beneditino, escritor e um dos expoentes da Teologia da Libertação no Brasil.  Nasceu 1944, em Recife (PE) e  foi ordenado padre em 1969 por Dom Hélder Câmara.  É autor de mais de 50 livros, assessor de movimentos sociais como o MST e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), e membro da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo.  Recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela UFPB em 2021.




Intolerância religiosa segue como violação recorrente com mais de 2 mil casos em 2026

Religiões de matriz africana concentram os maiores números de denúncias, com 228 registros

Por: Agência Gov | via MDHCPublicado: 22/01/2026 - às 12h02





terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Razão e Emoção - Paixões derrotaram a razão nas democracias contemporâneas, diz historiador francês.

Pierre Rosanvallon, referência em estudos sobre as democracias contemporâneas, afirma à Folha que, em sociedades divididas e polarizadas, práticas sociais como a vigilância sobre as instituições precisam ser aprofundadas para enfrentar a desconfiança dos cidadãos com o sistema político. Para o historiador francês, os novos populismos mostram que a questão cultural passou a estruturar a dinâmica social e que a democracia, antes o conflito racionalizado de interesses, se tornou o confronto desenfreado das paixões.

Abaixo, trecho da ótima entrevista de Eduardo Sombini com o historiador francês Pierre Rosanvallon na Ilustríssima, na Folha deste domimgo. Ele propõe várias chaves para a compreensão do desgaste dos partidos e do crescimento de lideranças carismáticas e autoritárias. E nos ajuda a compreender o fenômeno que, por aqui, foi resumido na expressão 'pobre de direita'.