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Amanhã, 24/03/2026, na Paróquia São Pedro Pescador teremos o início da primeira turma de Audiovisual com
Celular: Cinema na Palma da Mão. Primeiramente, quero afirmar que a
continuidade será um sucesso, assim como foi nesta primeira fase de inscrições.
Chegamos a atingir a meta e contamos atualmente com 21 inscritos. Seriam 22,
mas houve uma desistência por motivo de choque de horário com o trabalho
profissional.
E por que continuará sendo um sucesso? Por causa do engajamento de
algumas pessoas da Paróquia São Pedro Pescador, sob a liderança do Padre José
Soares, e do envolvimento de pessoas ligadas direta ou indiretamente à Ação
Cultural — algumas delas inscritas nesta primeira turma.
Aos diretores e coordenadores das escolas do entorno da Paróquia, também o nosso agradecimento por abrir espaços para a divulgação.
Pela parte da Ação Cultural, trata-se da continuidade de uma ação
pioneira iniciada em 2012, com a primeira oficina de audiovisual para
estudantes residentes em comunidades periféricas, realizada por uma organização
cultural de base comunitária em Aracaju. A mesma Ação Cultural também foi
pioneira, em 2004, com a oficina de dança moderna — carro-chefe da iniciativa
cultural — que perdurou até 2017, juntamente com as oficinas de audiovisual, de
rap e o cineclube Realidade.
Após 2016, com a extinção do Ministério da Cultura, agravou-se o
problema da descontinuidade do Programa Cultura Viva — que já vinha mal das
pernas — e ficamos sem recursos suficientes para a contratação dos
profissionais qualificados e de ponta que tivemos desde antes de a Ação
Cultural fazer parte da Rede Cultura Viva, o que aconteceu em 2012.
Mesmo assim, prosseguimos com o cineclube, contando com os equipamentos
adquiridos graças à entrada na Rede Cultura Viva desde 2012 e com a boa vontade
e o compromisso deste que escreve, de Maxivel Ferreira e de Maira Ramos. Também
tivemos, no período da pandemia, a colaboração de Raoni Smith e Maxivel
Ferreira no apoio técnico às transmissões das 25 lives de formação cultural no
YouTube e Facebook, ainda disponíveis na primeira plataforma.
Assim, o início da oficina de Audiovisual com Celular se reveste da
maior importância para nós, porque desde 2016 é a primeira que realizamos —
portanto, dez anos depois da última, sendo que a primeira foi realizada em
2012. Também é a primeira com celular, pois as outras foram realizadas com
câmeras semiprofissionais. Fazemos essa memória porque é preciso valorizar o
pioneirismo de quem teve essa visão de trabalho com audiovisual e cineclube
como Ponto de Cultura, atuando em comunidades de pessoas em situação de
vulnerabilidade social e com poucas ofertas de acesso aos bens culturais.
Ao Ministério da Cultura, tanto antes, no período compreendido entre
2012 e 2016, como agora, desde 2023, o nosso reconhecimento.
E não podemos esquecer o Conjunto Jardim (Socorro): lembro dos diretores
de escolas no período, Everaldo Cruz — falecido recentemente, então diretor do
Colégio Leão Magno Brasil — e Rodrigo Damião, da Escola Estadual Júlia Teles.
Também foi parceiro importante o Padre Givanildo, no período em que foi pároco
nesse local.
BOLSOMASTER - Mais uma semana que o escândalo do Banco Master dominou os noticiários, e com as manchetes veio aquela velha tentativa de dizer que está todo mundo envolvido.
Mas vamos falar de forma simples?
Não foi a esquerda que ajudou o banco a crescer. Não foi governo Lula que abriu espaço pra esse tipo de operação. E não foram políticos de esquerda que aparecem passeando no jatinho do Vorcaro.
O que está vindo à tona mostra intimidade com gente da direita, inclusive figuras ligadas à família Bolsonaro. Relação política, apoio, circulação em campanha… não é coincidência.
E agora, com a possibilidade de uma delação do Vorcaro, tem muita gente preocupada, e não é “todo mundo”, não.
Quando tudo vira “todo mundo”, ninguém responde por nada e nós não vamos aceitar dividir essa conta!
Kaká Werá, escritor e ambientalista / Créditos: divulgação
Quando comecei a namorar Irene, minha companheira de vida, paraense, descendente do povo indigena Kaiapó que se denominam Mebêngôkre "povo da nascente da água", participamos juntos de uma vivência com Kaká Werá na Fazenda Mãe Natureza, em Neópolis, Sergipe. Isso foi no alvorecer do novo século. Uma vivência não apenas teórica, mas de muita profundidade: com caminhada na mata, roda em torno da fogueira, fumo de cachimbo com ervas colhidas na mata e dança circular (toré).
CAFÉ FILOSÓFICO | 22/03/2026 | A COSMOVISÃO DO BEM-VIVER - KAKÁ WERÁ
Hoje pela manhã (23/03/2026), ao acordar no pequeno hotel onde estive hospedado em Poço Redondo, depois de um potente festival de teatro enraizado na cultura local, procurava ouvir canções ou alguma conversa que não fosse sobre política nacional ou internacional — essa deixo para mais tarde, porque está pesado — e me deparei com essa conferência do sábio Kaká Werá. Se buscarmos ouvir com bastante atenção a sua fala, encontraremos a confluência da cosmovisão indígena com a de outras culturas, africana, oriental, assim também com uma parte da cultura ocidental, aquela que gerou um Baruch Spinoza, um Francisco de Assis, um Leonardo Boff, um Marcelo Barros, um Francisco de Roma.
Para escrever esta segunda postagem sobre o 2º Festival de Teatro do Alto Sertão Sergipano, recorri à bela e sábia canção de Milton Nascimento: 'Notícias do Brasil (Os Pássaros Trazem)'. Na primeira parte, tomei a liberdade de adaptá-la ao festival; o restante da letra fala do evento por si só."
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão, a exceção são algumas redes digitais
Veio no vento do quadrante nordeste-sudeste deste tempo calorento , do vento que sopra do sertão para o litoral.
Esta noticia voa nas asas planas e às vezes sinuosas da arte e da cultura e pode vir também de algumas regiões de Fortaleza, de Recife e de Natal.
No sertão nordestino, onde a terra exige resistência e a fé caminha ao lado da luta diária pela sobrevivência, algumas figuras ultrapassam os limites da própria biografia e passam a integrar a memória coletiva de um povo. Assim foi a trajetória de Frei Enoque Salvador de Melo, religioso franciscano que marcou profundamente a história social e política do Alto Sertão de Sergipe.
Frei Enoque - Arquivo Pessoal
Frei Enoque nasceu em 1943, no estado de Pernambuco, na cidade de Cachoeirinha, tendo sido registrado civilmente no município de Belo Jardim. Filho de uma família simples do interior nordestino, cresceu em meio à religiosidade popular e às dificuldades da vida rural que historicamente marcaram o Nordeste brasileiro.
Sua caminhada religiosa ganhou direção a partir de 1966, quando teve contato com o frei franciscano Angelino Caio Feitosa. Esse encontro marcaria profundamente sua vida e sua vocação pastoral, inspirada pela espiritualidade de Francisco de Assis, marcada pela simplicidade, pela proximidade com os pobres e pela defesa dos marginalizados.
Chegando a Sergipe, Frei Enoque iniciou seu trabalho pastoral na região do Baixo São Francisco, integrando a Diocese de Propriá, que à época era conduzida pelo bispo Dom José Brandão de Castro. Nesse período, a Igreja Católica brasileira vivia um processo de renovação inspirado pelo Concílio Vaticano II, que incentivava os religiosos a se aproximarem das comunidades mais pobres e marginalizadas, promovendo uma pastoral comprometida com a justiça social e a transformação das realidades rurais.
No sertão sergipano, especialmente em Poço Redondo, Frei Enoque encontrou o espaço onde sua vocação se realizaria plenamente. Percorrendo estradas de terra, visitando comunidades rurais e celebrando missas em pequenas capelas, aproximou-se profundamente da vida do povo sertanejo. Conversava com agricultores, escutava trabalhadores rurais e acompanhava de perto as dificuldades impostas pela seca, pela pobreza e pelo isolamento das regiões mais distantes.
Naquele tempo, religiosos como Frei Enoque caminhavam pelas comunidades, visitavam casas simples e partilhavam o cotidiano das famílias do sertão. Era uma igreja presente na poeira das estradas, nas pequenas capelas e nas reuniões comunitárias. Hoje, muitos percebem que parte dessa tradição parece ter se enfraquecido. Em alguns setores da Igreja, multiplicam-se religiosos mais preocupados com a visibilidade das telas, com transmissões em redes sociais e aparições na televisão, enquanto a presença junto aos pobres e marginalizados parece cada vez mais rara. A memória de figuras como Frei Enoque recorda que a força da fé, no sertão, sempre esteve na proximidade concreta com o povo.
Entre as causas que abraçou esteve também a defesa do povo indígena Xocó, que vive na histórica Ilha de São Pedro, às margens do Rio São Francisco. Durante décadas, os Xocós enfrentaram conflitos pela posse de suas terras e pressões para abandonar o território. Frei Enoque tornou-se um “Xocó de coração”, compreendendo que a luta indígena era a raiz de todas as lutas pela terra no Brasil, e usando sua voz para denunciar nacionalmente o genocídio silencioso que se desenrolava.
Um dos episódios mais dramáticos que marcou sua atuação aconteceu após uma tragédia em Santa Rosa dos Ermírios. Um ônibus que circulava entre povoados pegou fogo, transportando passageiros, combustível e botijões de gás de cozinha. O incêndio transformou o veículo em uma armadilha mortal, provocando a morte de várias pessoas queimadas vivas. Diante do silêncio das autoridades, Frei Enoque denunciou publicamente as condições inseguras do transporte por meio dos meios de comunicação da época, iniciando um processo lento de melhorias e maior fiscalização nos transportes do sertão.
Com o passar dos anos, sua liderança ultrapassou o campo religioso e social. A confiança que o povo sertanejo depositava nele acabou levando-o também para a vida política. Frei Enoque Salvador de Melo foi eleito prefeito de Poço Redondo por três vezes, experiência rara para um religioso que decidiu assumir diretamente a administração pública de um dos municípios mais emblemáticos do Alto Sertão sergipano. Em seus mandatos, buscou ampliar políticas sociais, melhorar as condições de vida da população rural, fortalecer a presença do poder público nas comunidades mais distantes e dar ênfase à educação, incentivando a construção e melhoria de escolas, ampliando o acesso ao ensino nas comunidades rurais e defendendo a educação como instrumento fundamental para transformar a realidade do sertão. Posteriormente, por orientação da Igreja, afastou-se da política partidária, retornando integralmente à vida religiosa e pastoral.
Entre suas iniciativas culturais mais conhecidas está a criação da celebração conhecida como Missa do Cangaço, realizada na histórica Gruta do Angico, local onde, em 1938, tombaram Lampião e Maria Bonita. A celebração transformou o espaço marcado pela violência em um local de memória, reflexão e encontro com a história do sertão.
Entre as muitas histórias que cercam sua trajetória, guardo também uma lembrança pessoal. Tive a felicidade de conhecê-lo e conversar com ele algumas vezes. Nosso último encontro aconteceu em 2019, quando eu e a professora da Universidade Federal de Sergipe, Erna Barros, fomos entrevistá-lo para o documentário Angicos de Fora a Fora. Naquele momento Frei Enoque já enfrentava problemas de saúde, mas mesmo assim nos recebeu com a mesma gentileza e simplicidade que sempre o caracterizaram. Conversou longamente sobre o sertão, sobre a fé e sobre as lutas do povo que marcaram sua caminhada. Ficou claro, mais uma vez, que Frei Enoque não foi um santo, mas um homem do bem, profundamente comprometido com seu povo.
Quando sua morte foi anunciada em uma sexta-feira, 13 de março de 2026, muitos sertanejos sentiram que o sertão perdia uma de suas vozes mais marcantes. Na tradição cristã, a sexta-feira recorda a memória da paixão de Jesus Cristo, dia que simboliza sofrimento, mas também esperança.
Hoje, nas margens do Rio São Francisco e nas estradas de terra do interior sergipano, a lembrança de Frei Enoque continua viva entre agricultores, ribeirinhos e comunidades sertanejas. Mais do que religioso ou político, ele permanece na memória do povo como alguém que escolheu caminhar ao lado dos mais simples, compartilhando suas lutas, suas dores e suas esperanças, deixando um legado que une fé, justiça social e compromisso com a educação.
(*) Historiador, poeta popular, escritor e repórter fotográfico
Nutro a ideia de que algo precisa ser feito, dentro do possível, do mínimo, do impossível.
Não existe flexibilização na luta de classes. Em muitos casos, a condição financeira é um entrave, na maioria das vezes também; não é uma mera alusão, nem uma metáfora desconexa ou difusa.
É o meu entendimento: quando olho para as camadas de baixo, vejo que o assunto não são as políticas culturais.
Então escrevo, luto para aprender e pensar outras saídas. Já ouvi isso, saca? Vou rir. Uma visão barata e míope de que nós, vindos das camadas de baixo, somos só intuição.
Pelo contrário, passamos por aprendizados diários.
Andando na viela da minha rua, vi um cachorro chamado Felipe foi assim que o cara o chamou. Parei. Era louco. O cara falava um monte com o Fifi, e ele só latia. Surreal.
As drogas são poderosas.
Eu quero atravessar as tempestades com boas ideias. Quero entender o que são as políticas culturais, para a minha formação e para a revolução interna. Mas também quero construir outro pensando, a partir do Sul da cosmos visão dos de baixo, enquanto for possível, como muitas pessoas têm feito, mesmo que, às vezes, sejam ideias feias, que te enganam pelo encantamento, enquanto o universo sopra em mim.
Então mostro para o Felipe que fazer gestão cultural é como administrar sua casa: a mãe é prefeita, a tia mais velha é a cultura, que gesta a vida com cuidado, as filhas são as vereadoras e as crianças, a população que clamam por brincadeiras.
E tudo tem seu tempo. A cultura é o que impede a gente de perder a nossa humanidade.
Por isso, justifico que as políticas culturais são tão importantes para mim.
Por favor: um café com leite e pão na chapa.
Neri Silva Silvestre:Produtor cultural, articulador e gestor cultural, idealizador do Sarau na Quebrada, poeta e agitador cultural. Sempre foi um sujeito inquieto. Quando jovem lança com o grêmio escolar, o Jornal Macunaíma, daí não parou mais. Esteve à frente como coordenador do 1° Ponto de Cultura de Santo André (SP) de 2010/2013. Produziu inúmeros eventos que vão da música à literatura.