segunda-feira, 22 de junho de 2026

LIVE "CULTURA VIVA: DA SALA DE AULA AO TERRITÓRIO"

 "Cultura Viva: Da Sala de Aula ao Território – A Jornada Transformadora de uma Agente Jovem"

Data:  26 de junho de 2026

Horário: 19h

 Duração estimada: 60 a 90 minutos

Plataforma: YouTube (transmissão ao vivo)

Convidada: Iasmin Santos Feitosa – Agente Jovem Cultura Viva – Ponto de Cultura Ação Cultural (Aracaju/SE)

Mediação: Editor do Blog da Cultura 

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SOBRE A LIVE

O que acontece quando uma jovem sergipana mergulha nos bastidores da política cultural brasileira e sai transformada? Essa é a pergunta central da nossa próxima live, que receberá Iasmin Santos Feitosa, Agente Jovem Cultura Viva do Ponto de Cultura Ação Cultural, em Aracaju/SE.

Entre novembro de 2024 e junho de 2025, retomada neste ano de março até julho, Iasmin vive uma experiência que ela mesma define como "mais transformadora do que qualquer sala de aula". Nesta conversa aberta e descontraída, ela compartilhará os desafios, aprendizados e descobertas que marcaram sua trajetória como agente cultural.

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TEMAS QUE VAMOS ABORDAR

📌 A experiência transformadora 

📌 Os bastidores da política cultural 

📌 A viagem a São Paulo e a Rede Sacix 

📌 A ponte entre território e políticas públicas 

📌 Resistência, rede e futuro

PARA QUEM É ESTA LIVE

Esta live é para:

Jovens interessados em atuar na gestão e produção cultural

Agentes culturais, artistas e educadores

Estudantes e pesquisadores de políticas públicas e cultura

Qualquer pessoa que acredite no poder transformador da arte e da cultura comunitária

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DIFERENCIAL DA LIVE

Diferente de uma palestra tradicional, esta conversa será conduzida a partir de perguntas extraídas diretamente de um pequeno  relato autobiográfico da convidada, publicada no ABC Cultura Viva (https://pesquisaculturaviva.org/abc-cultura-viva/depoimentos/iasmin-santos-feitosa/ ) , garantindo profundidade, autenticidade e conexão com a experiência real vivida por ela.

Teremos também participação ao vivo do público nos comentários, com perguntas e interações em tempo real.

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SERVIÇO

O quê: Live "Cultura Viva: Da Sala de Aula ao Território"

Quem: Iasmin Santos Feitosa (Agente Jovem Cultura Viva)

Onde: https://www.youtube.com/@acaoculturalsergipe1

 Quando: 26/06/2026  às 19h

Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.

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5ª Sessão do Cine Realidade com filmes da15ª Mostra Difusão Cinema e Direitos Humanos acontece nesta sexta-feira em Aracaju com a segunda exibição do filme "Pau d'Arco"

 “Pau d’Arco” alia cinema e jornalismo em um retrato comovente sobre liberdade e violência no campo

Dia: 26 de junho às 16 horas - Endereço: Rua Marechal Floriano, 80 - Rua do fundo do centro de criatividade e próxima a Rua Laranjeira. - Bairro Getúlio Vargas...

Documentário acompanha dois personagens de um dos episódios mais brutais da luta pela terra no Pará.

Por Cine NINJA - 9 de abril de 2025 14:27

Por Clayton Nobre

O documentário “Pau d’Arco”, dirigido por Ana Aranha, teve sua estreia no festival É Tudo Verdade 2025 como uma denúncia contundente e profundamente humana sobre um dos episódios mais brutais da luta pela terra no Brasil contemporâneo: a chacina de dez trabalhadores sem-terra em Pau D’Arco, no Pará, ocorrida em 2017. Com produção da Repórter Brasil e da Amana Cine, o filme investiga os rumos pós-massacre, mas também o silêncio que tenta apagá-lo da memória nacional.

Para o público da Cinemateca de São Paulo, o festival apresentou Pau D’Arco sob a lembrança do clássico “Cabra Marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho. Ambos os documentários constroem um elo poderoso com a linhagem de um cinema comprometido com a escuta, dando rosto e voz a personagens que carregam a experiência do trauma, da luta e da resistência no campo.

Muitos de nós, ativistas sociais, acompanhamos o caso da Pau D’Arco por meio de mídias como a Repórter Brasil e o jornalismo da CPT, a Comissão Pastoral da Terra. Aqui é importante mencionar quais são os limites éticos e estéticos que aproximam o cinema e o jornalismo por uma causa tão importante. Estamos falando de um jornalismo investigativo que usa o documentário como forma de expandir a experiência estética junto a espectadores diante de um caso urgente e que precisa sensibilizar e ganhar amplitude. Em “Pau D’Arco”, a jornalista Ana Aranha e equipe somaram as potências tanto do jornalismo (a apuração, a investigação, o contato com as fontes) quanto do cinema (a construção de um bom roteiro, personagens carismáticos, edição e ritmo). E sendo cinema, temos a liberdade de nos envolver sem quaisquer amarras da neutralidade.

Já falamos por vezes como a chamada crise do jornalismo, em nossa opinião, sempre se configurou na crise de uma determinada figura do jornalista corporativo, que trabalha dentro dos limites de uma redação jornalística e se vê rebaixado diante do fim do papel do mediador. Isso porque os novos produtores de conteúdo, cada vez com mais acesso às tecnologias de comunicação, conseguem meios para narrar suas realidades sem mediações de terceiros. Na Amazônia, isso é igualmente salutar. Onde caberia o papel do jornalista profissional diante dessa realidade?

Com uma necessidade latente da Amazônia contar sua história em primeira pessoa — e mais que isso: ser vista e ouvida —, o documentário se apresenta, inicialmente, com uma mediadora distante e coloca em cena dois protagonistas do caso da Pau D’Arco. Com uma abordagem sensível, a câmera se aproxima de Fernando dos Santos, o único sobrevivente que não esconde sua identidade, e de José Vargas, advogado dos sem-terra, ambos alvos de constantes ameaças.

Eles não são apenas fontes: são os pilares da narrativa, sujeitos ativos da história que se constrói. E que personagens! Fernando, assumidamente homossexual, conecta-se com o espectador pela ânsia de liberdade. Fernando não é apenas testemunha de uma tragédia, mas disso que é o desejo mais primoroso de um camponês que luta pela reforma agrária: a vida simples. Resistir pelo território não é apenas resistir ao chumbo e à reintegração de posse, mas por uma vida em sua plenitude. 

Durante o debate que assistimos após a exibição na Cinemateca, o entrosamento entre Ana e Vargas, o outro protagonista, era evidente. Em diversos momentos, Vargas afirmou que passou a encarar Ana quase como uma analista durante a construção do documentário. Em certa parte do filme, gravada durante a pandemia, vemos vídeos diários que Vargas gravava para Ana e para a Repórter Brasil, em que relata seu cotidiano de resistência e o sentimento de injustiça, ainda mais latente após ser ele próprio vítima de um processo judicial injusto. Assim como Fernando, ainda que de outro modo, Vargas se desnuda diante da própria câmera que ele opera, chora, emociona e nos mobiliza.

Não é exagero dizer que “Pau d’Arco” nos atinge com a força de uma verdade que já não cabe mais nos moldes do jornalismo tradicional. Mas, ao contrário do “soco no estômago” que muitas vezes se usa para definir filmes de denúncia, o impacto aqui é outro: é a construção de um vínculo afetivo, de um desconforto que nasce da escuta atenta e da empatia com os personagens e, no decorrer, a construção de um sentimento de mobilização. A narrativa não nos agride, ela nos convoca.

Ana Aranha, na verdade, começa a se revelar como personagem justamente neste momento de convocação, em que o espectador se sente impelido a uma participação mais ativa diante da impunidade e da injustiça. É como se ela representasse o espectador em um momento de revolta, dúvidas e questionamentos.

Mas há coisas que o jornalismo por si só não é capaz de operar e o cinema nos traz essa oportunidade de modo sublime. Os diálogos de Fernando e Vargas sobre a vida no campo e na cidade — a imagem que ilustra o cartaz do filme —, e depois os diálogos de Ana e Vargas sobre o ativismo, sobre a nossa impotência diante da impunidade, sobre a necessidade de nos manter ativos e resilientes, são momentos de rara intimidade e potência política. Não há concessões à espetacularização da dor, o que vemos são encontros entre pessoas que, em lugares diferentes da luta, compartilham a urgência de continuar. É nesses instantes que o filme transcende a denúncia para se tornar também um espaço de elaboração coletiva, de construção de sentido.

Democracia seletiva

O caso da chacina de Pau D’Arco, mais do que uma tragédia isolada, escancara o projeto de violência histórica que marca a luta pela terra no Brasil. O spoiler não é dos melhores. Assassinos permanecem soltos, mandantes desconhecidos e a denúncia extrapola o fato em si: trata-se de uma região marcada por outros massacres, como o de Eldorado do Carajás, e que carrega consigo os escombros de uma redemocratização inconclusa. Em Pau D’Arco, os algozes foram forças policiais, portanto o Estado brasileiro. O mesmo Estado que, ao fim da ditadura militar, deixou soltos seus operadores da repressão, manteve viva a metodologia da tortura e da eliminação de corpos indesejados, e perpetuou uma lógica de guerra contra os pobres, os pretos e os trabalhadores do campo.

E precisamos reconhecer nossa responsabilidade nessa redemocratização eterna. Quando a Lei da Anistia, ao fim de 1979, exclui os “criminosos comuns” — pretos, pobres, de periferia, os que roubavam pão, os que foram expulsos do campo para a marginalidade das cidades — em detrimento de “criminosos políticos” do rol de vítimas da ditadura, ela ajuda a consolidar um pacto que ainda hoje estrutura a violência institucional no Brasil e deixa aberta a tampa da ditadura. Nossa democracia foi seletiva em sua memória. Parte da militância, ao priorizar os artistas exilados e os estudantes brancos da PUC, negligenciou a violência que se abatia (e ainda se abate) sobre os corpos subalternizados. Reconhecer isso é fundamental para enfrentarmos o fascismo e o conservadorismo estrutural que persistem. A partir daquele ano, um conjunto de ocupações de fazendas improdutivas em diferentes estados deu corpo a um movimento agrário, fundado oficialmente em 1984, que viria a se tornar o maior do mundo. Contudo, a lógica militar já sedimentava sua noção de inimigo interno e operava a força ostensiva contra movimentos sociais, sindicais, do campo e das florestas.

Ana Aranha fala aos espectadores que “Pau d’Arco”, agora lançado e finalizado, segue para uma fase importante para o cinema político e ambiental: a produção de impacto. Pois o impacto não é um fim em si mesmo. A partir de agora, seu processo de distribuição é um ato político. Filmes socioambientais como este não deveriam existir apenas para colecionar prêmios ou enaltecer biografias, por mais que o mérito artístico exista — e de fato existe. Eles devem provocar incidência na sociedade, ocupar casas legislativas, alimentar o debate público e colaborar para a justiça. Assim também, o jornalismo.


Depois de sobreviver à chacina em que a polícia matou 10 sem-terras, a principal testemunha do crime e seu advogado lutam por justiça e pelo direito à terra. Ao seguir seus passos por sete anos na Amazônia Paraense, são revelados acontecimentos chocantes na tentativa de encobrir o crime.


Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.


O que estão dizendo os frequentadores da programação de São João sob a batuta da prefeitura de Aracaju e do Governo do Estado?

Aqui o blog da Cultura reafirma o papel de observatório popular da cultura de forma critica e independente. 

A fonte inicial para o levantamento abaixo foi realizada com base na afirmação de uma professora de artes da rede pública, no faceboo

"o Forró Caju está infinitamente melhor para quem quer dançar forró de verdade, destaco além das atrações,   um piso espetacular pra dançar no palco pequeno

E você? Concorda ou discorda da opinião e argumentos  abaixo. Deixe sua opinião com argumentos nos comentários aqui no  blog, no instagram ou no facebook. 

"A percepção de que o Forró Caju 2026 está superior para quem deseja dançar forró encontra respaldo na forte aprovação popular registrada nas etapas descentralizadas, nas praças lotadas, na valorização do repertório tradicional nordestino e na qualidade da programação artística. Embora a Vila do Forró da Orla mantenha relevância turística e cultural, muitos frequentadores têm destacado que o ambiente do Forró Caju favorece mais a experiência do baile e da dança."



 1. Aprovação popular registrada pela imprensa

Na abertura da programação descentralizada no Augusto Franco, a própria cobertura jornalística destacou depoimentos de moradores, comerciantes e frequentadores elogiando a iniciativa de levar a festa para perto dos bairros. O público relatou satisfação com a estrutura e com a possibilidade de participar sem grandes deslocamentos.

2. Praças lotadas como indicador de aceitação

O encerramento da etapa do Augusto Franco foi marcado por praça lotada e grande presença popular. A cobertura destacou que a adesão do público foi interpretada como uma validação da estratégia da Prefeitura de descentralizar os festejos e aproximar a programação das comunidades.

3. Programação considerada forte e diversificada

Um dado objetivo reforça sua impressão sobre a qualidade artística: o Forró Caju 2026 reuniu 109 atrações, sendo cerca de 67% artistas sergipanos, combinando nomes tradicionais do forró com atrações de grande apelo popular. Entre os artistas citados estavam Alceu Valença, Elba Ramalho, Trio Nordestino, Mestrinho, Calcinha Preta, Wesley Safadão e diversos representantes da cena local.

4. Valorização do forró tradicional

Diversas reportagens destacaram que a programação procurou privilegiar os ritmos nordestinos e artistas ligados à tradição junina. Para quem gosta de dançar forró, esse aspecto pesa bastante na avaliação da festa, porque influencia diretamente o ambiente do público e a ocupação da pista.

5. O contraste com a Orla

Embora a Vila do Forró na Orla da Atalaia continue sendo um dos principais polos juninos do estado, sua proposta é mais ampla, misturando shows, apresentações culturais, gastronomia, turismo e circulação de visitantes. Já o Forró Caju, especialmente em alguns espaços menores e mais focados no baile, tende a favorecer quem quer efetivamente dançar por horas.

Músicos

O sanfoneiro e vocalista da banda Casaca de Couro, Joaquim Casaca de Couro, afirmou que participar do Forró Caju representa uma oportunidade de fortalecer a cultura nordestina e valorizar a produção musical sergipana. A fala foi registrada durante a abertura da programação no Augusto Franco.

Já artistas sergipanos ouvidos durante o lançamento da programação destacaram positivamente o fato de mais de 67% das atrações serem locais, enxergando a edição como um fortalecimento da cena cultural do estado.

Dançarinos e professores

Uma das entrevistadas pela cobertura do segundo dia no Augusto Franco, identificada como praticante de dança de salão e forró, resumiu sua relação com a festa dizendo: "O forró é a minha vida". O depoimento foi apresentado no contexto de elogios ao ambiente criado para os dançarinos e amantes do gênero.

A professora Gabriela Santos, moradora do bairro, também foi destacada entre os participantes da programação descentralizada, em reportagem que enfatizou a boa recepção da iniciativa junto à comunidade local.

Produtores e agentes culturais

O secretário municipal de Cultura, Paulo Corrêa, avaliou que a descentralização se consolidou como uma iniciativa importante para a cultura, para a economia e para a população, destacando a permanência do público mesmo sob chuva na abertura do evento.

A estratégia de descentralização também foi apresentada como uma das marcas centrais da edição 2026, aproximando os festejos dos bairros e ampliando o acesso da população às manifestações culturais.

Frequentadores e moradores

A aposentada Ely Oliveira declarou:

"A Prefeitura de Aracaju está de parabéns por promover um forró de verdade."

O depoimento foi dado durante a abertura do Forró Caju no Augusto Franco.

A estudante Anne Raquel afirmou que a descentralização facilitou sua participação:

"Hoje é minha primeira vez e estou amando."

Ela relatou que anteriormente evitava comparecer devido à concentração da festa em um único local.

A empresária Lívia Raulino elogiou a estrutura e a valorização da cultura nordestina:

"A Prefeitura está no caminho certo ao descentralizar o São João."

Ela também destacou a presença dos artistas sergipanos na programação.

Opiniões espontâneas nas redes sociais

Em uma discussão recente no Reddit sobre o Forró Caju realizado na região dos mercados, um frequentador afirmou:

"É mais tranquilo de ir e voltar do que a orla, não tem violência, tem menos tumulto e são dois palcos."

Outro usuário relatou:

"Clima de São João raiz. É muvuca, é suor, é gente dançando até na calçada."

Um terceiro participante, que afirmou frequentar o evento há anos por motivos profissionais, comentou que a segurança estaria "alta para um ambiente até pequeno" e avaliou o evento como tranquilo. 

Pesquisa acima realizada com o apoio de IA  

Uma pesquisa quantitativa e qualitativa de caráter cientifico mais abrangente,  independente e recorrente (ao longo dos anos)  pode ser uma boa ideia para universidades, especialistas no tema e etc...

Abaixo, um outro olhar de  quem viveu um momento em Aracaju de um São João radicalmente mais autêntico e comunitário.

São João de Aracaju: Quando a Sanfona Era a Estrela da Festa

 20 de junho de 2026  

Emanuel Rocha*

Memórias de um tempo em que a comunidade era o palco, a sanfona era soberana e o forró contava a história do povo nordestino.

Estamos em junho, o mês das festas juninas. O Nordeste se enche de cores, bandeirinhas e fogueiras, e no ar já se sente aquele chamado antigo da sanfona anunciando que a festa vai começar. É tempo de celebrar uma das tradições mais bonitas e representativas da cultura nordestina.

E se há algo que o tempo não apaga, é a memória dos grandes São Joões que Aracaju viveu, especialmente entre as décadas de 1950 e o início dos anos 1990. Naqueles tempos, a festa era mais que diversão. Era encontro, fé, partilha e vida comunitária.

Meses antes, famílias e vizinhos já começavam os preparativos. As ruas se transformavam em grandes arraiais a céu aberto. Bandeirinhas coloriam os céus, mastros eram erguidos e as fogueiras se tornavam o coração da festa. Havia até disputas amistosas para saber qual rua estava mais bonita e animada.

Nas comunidades populares, os festejos ganhavam identidade própria. O Arraiá do Josa, no Novo Paraíso, atraía multidões ao som da zabumba e da sanfona. O Arraiá das Veias mantinha uma saudável rivalidade, levando os forrozeiros a circularem de um lado para outro em busca da melhor animação. Muitos chegavam a pé, de bicicleta ou a cavalo; outros vinham em seus automóveis, atraídos pela fama dos festejos.

No bairro América, o Arraiá do Alto do Miolo iluminava as noites com muito forró. Já no Cirurgia, o lendário Arranca Unha atravessava madrugadas embalado pelo fole, pelo triângulo e pela zabumba. Cada bairro tinha sua marca, seu jeito de festejar e suas histórias para contar.

As noites costumavam começar com as novenas dedicadas a Santo Antônio, São João e São Pedro. A fé reunia as famílias e fortalecia os laços da comunidade. Mas bastava a última oração terminar para que as cadeiras fossem afastadas e o forró tomasse conta do ambiente. A sanfona puxava os primeiros acordes e ninguém conseguia ficar parado.

Os sanfoneiros eram os grandes reis da festa. Muitos tocavam por amor à tradição, sem luxo, sem camarins e sem grandes exigências. O pagamento vinha no sorriso do povo, na casa cheia e na alegria de ver gerações inteiras dançando juntas.

Nem tudo era solenidade. Havia também as brincadeiras que arrancavam gargalhadas. O famoso cordão cheiroso, quando aceso por algum gaiato, espalhava um odor tão forte que fazia a multidão se dispersar correndo e rindo. E quando algum dançarino exagerava na animação, não faltava um sanfoneiro bem-humorado para interromper a música e fazer uma observação espirituosa que virava motivo de risos para o resto da noite.

Ao redor das fogueiras aconteciam os batizados simbólicos e os casamentos matutos. Eram tradições que fortaleciam os vínculos entre vizinhos e amigos. Quando a fogueira virava brasa, começavam as conversas, as histórias e as lembranças compartilhadas entre gerações.

Também havia as famosas batalhas de busca-pés. Em terrenos abertos, grupos de jovens se enfrentavam em meio a faíscas, estampidos e muita adrenalina. Era uma diversão típica de uma época em que os festejos ocupavam todos os espaços da cidade.

E nenhuma festa estaria completa sem a culinária junina. Nas mesas fartas apareciam milho cozido, pamonha, canjica, mungunzá, pé de moleque, bolo de macaxeira, bolo de puba e os tradicionais licores. Mais do que comida, era um gesto de acolhimento. Sempre havia lugar para mais um à mesa.

Aracaju se iluminava com centenas de fogueiras espalhadas pelos bairros. O cheiro da madeira queimando se misturava ao milho assado e ao som distante das sanfonas. As ruas se tornavam espaços de convivência, onde crianças brincavam, jovens namoravam e os mais velhos contavam histórias enquanto observavam o movimento da festa.

Hoje os festejos são diferentes. Os grandes palcos, os equipamentos modernos e as multidões passaram a ocupar o centro das celebrações. É natural que a cultura se transforme com o passar do tempo. O problema surge quando a busca por públicos cada vez maiores começa a empurrar para o canto aquilo que deu origem à própria festa.

Em muitas cidades, o forró autêntico passou a disputar espaço com atrações que pouco ou nada têm a ver com a tradição junina. A sanfona, a zabumba e o triângulo, símbolos maiores da identidade nordestina, muitas vezes cedem lugar a espetáculos que poderiam acontecer em qualquer época do ano e em qualquer lugar do país. Trocam-se as raízes pela popularidade momentânea, como se a cultura precisasse abandonar sua essência para continuar existindo.

Não se trata de rejeitar o novo, mas de preservar aquilo que faz do São João uma celebração única. Afinal, uma festa sem identidade pode reunir multidões, mas dificilmente conseguirá transmitir às futuras gerações o mesmo sentimento de pertencimento que marcou os antigos arraiais.

Que os festejos continuem crescendo, atraindo visitantes e movimentando a economia. Mas que nunca esqueçam que sua maior riqueza não está nos refletores nem nos cachês milionários. Está na cultura popular que lhes deu origem, na sanfona que embalou gerações, nos arraiais erguidos pelo próprio povo e no forró que contava, em versos e melodias, a história do Nordeste.

Porque, se a tradição virar apenas decoração de palco, as bandeirinhas continuarão colorindo o céu, as fogueiras continuarão acesas e as multidões continuarão chegando. Mas algo essencial terá sido perdido. E quando a sanfona deixar de ser a estrela da festa, o São João poderá continuar existindo, mas já não será o mesmo que vive na memória e no coração do povo nordestino.

* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor  e repórter fotográfico

https://roacontece.com.br/2026/06/20/sao-joao-de-aracaju-quando-a-sanfona-era-a-estrela-da-festa/

E por último,  a visão  de quem pensa com um olhar mais comercial, o que é considerado por muitos como predatório e inconsequente.. 

Forró dividido enfraquece os festejos juninos de Aracaju

em 16 jun, 2026 8:30

Adiberto de Souza

 Diferente de Campina Grande e Caruaru, onde os festejos juninos são concentrados, em Aracaju o forrobodó é fatiado em locais diferentes. Na Orla de Atalaia, o governo de Sergipe promove o milionário Arraiá do Povo, enquanto a Prefeitura espalhou o Forró Caju por vários pontos da cidade. O governador Fábio Mitidieri (PSD) alardeia que promove o maior São João à beira-mar do Brasil, já a prefeita Emília Corrêa (PL) jura que sua gestão faz o mais animado São João dessas paragens. Certamente, se estado e município concentrassem os recursos e esforços num único evento, Aracaju poderia concorrer de igual para igual com Campina Grande e Caruaru, como já aconteceu no passado. Vale ressaltar que essa divisão de palcos começou em 2003, quando o então governador João Alves Filho instalou a Vila do Forró na Orla de Atalaia. O objetivo era concorrer com o tradicional Forró Caju, promovido pela gestão do ex-prefeito Marcelo Déda (PT) nos mercados centrais da capital sergipana. Desde então, assa disputa entre o governo e a prefeitura para ver quem faz o evento mais bonito só diminui a visibilidade dos festejos juninos em nível nacional e, por consequência, reduz o interesse dos turistas, que acabam optando pela grandiosidade do São João de Pernambuco e da Paraíba. Simples assim!

https://infonet.com.br/blogs/adiberto/forro-dividido-enfraquece-os-festejos-juninos-de-aracaju/

O acervo do blog  da cultura sobre o ciclo junino. AQUI

Senado aprova o PL 4.088/2023 que consiste na inclusão obrigatória de "educação política e direitos da cidadania" no currículo de toda a educação básica do Brasil.

O PL 4.088/2023 consiste na inclusão obrigatória de "educação política e direitos da cidadania" no currículo de toda a educação básica do Brasil. Aprovada pelo Congresso Nacional em junho de 2026, a proposta altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). 
Abaixo estão os principais pontos sobre o funcionamento prático do projeto:
O que muda na prática
Nova temática oficial: O texto insere os termos "educação política" e "direitos da cidadania" diretamente no Artigo 26 da LDB. 
Fortalecimento legal: A LDB já exigia o estudo da "realidade social e política". O projeto torna a abordagem desse tema mais explícita e rigorosa nas salas de aula. 
Abrangência total: As diretrizes serão aplicadas em todas as etapas de ensino, englobando a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio. 
O que o PL não faz (Limitações atuais)
Sem matéria nova: O projeto não cria uma nova disciplina na grade horária. A decisão de fundar uma matéria específica dependeria do Conselho Nacional de Educação (CNE).
Indefinição de etapas: O texto aprovado não detalha em qual ano escolar específico os conceitos serão aprofundados.
Perfil docente em aberto: Não há determinação sobre qual formação o professor deve ter para ministrar esses conteúdos. 
Situação atual do projeto
De autoria da deputada Renata Abreu (Podemos-SP), a matéria teve votação quase unânime. O texto seguiu diretamente para a sanção ou veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 
Os defensores afirmam que a proposta consolida a formação de cidadãos conscientes sobre o papel das instituições. Por outro lado, alas críticas manifestaram receio quanto a possíveis vieses ideológicos na aplicação do conteúdo. 
Como essa necessidade de educação politica nas escolas é manifestada em documentos das conferências de educação?
Nos documentos das conferências nacionais de educação, a necessidade de uma educação política não aparece como a defesa de partidos, mas sim fortemente vinculada aos conceitos de formação para a cidadania, fortalecimento da democracia e direitos humanos. 
Historicamente, as resoluções da Conferência Nacional de Educação (CONAE) servem de base para os Planos Nacionais de Educação (PNE). Nesses textos textuais e políticos, a urgência de debater a política nas escolas se manifesta em quatro pilares principais: 
1. Defesa do Estado Democrático de Direito
Os textos finais das conferências (especialmente as edições mais recentes, como a CONAE 2022 e a CONAE 2024) apontam que a escola pública tem a função social de recompor e garantir a ordem democrática. Os documentos argumentam que, para proteger a democracia de extremismos e da desinformação, os estudantes precisam aprender o funcionamento das instituições e a importância da participação social. 
2. Gestão Democrática e Vivência Prática dentro da Escola
A educação política nas conferências é tratada como algo que vai além da teoria dos livros didáticos. Os relatórios defendem a gestão democrática do ensino público, estimulando: 
A criação e o fortalecimento de grêmios estudantis autônomos;
A participação ativa de alunos e familiares nos Conselhos Escolares;
Processos de escolha de diretores com envolvimento da comunidade escolar.
Os documentos assumem que a vivência política cotidiana dentro da escola é a preparação primária para a cidadania externa. 
3. Integração com os Direitos Humanos e Educação Crítica
Nas discussões das conferências, a formação política é indissociável de uma educação crítica contra as desigualdades do país. Os textos base demandam currículos que abordem frontalmente: 
O combate ao racismo e discriminações étnico-raciais (em linha com as diretrizes da LDB);
O respeito à diversidade cultural, social e de gênero;
A consciência socioambiental como dever político do cidadão e do Estado. 
4. Resposta ao Esfriamento do Engajamento Jovem
Os debates que precedem a redação das propostas da CONAE frequentemente diagnosticam um paradoxo: ao mesmo tempo em que a Constituição garante direitos políticos precoces (como o voto facultativo aos 16 e 17 anos), os jovens relatam apatia ou falta de preparo prático para exercer suas escolhas. As deliberações das conferências usam esse dado para exigir que o Estado articule a educação formal com ferramentas que deem autonomia crítica aos estudantes. 
 Como o Plano Nacional de Educação (PNE) traduz essas demandas em metas
O Plano Nacional de Educação (PNE) funciona como a principal ferramenta legal para converter as diretrizes ideais das conferências em objetivos práticos com prazos determinados.
No texto da lei do PNE, as demandas por educação política não costumam vir em formato de disciplinas isoladas. Elas são integradas de forma transversal e na estruturação da gestão escolar.
Abaixo estão as metas e estratégias principais do PNE que traduzem esse mandato de formação cidadã:
Meta 19: Gestão Democrática (O foco principal) 
Esta meta exige a implementação prática da gestão democrática na educação pública, entendida pelas conferências como a própria vivência da educação política. 
Estratégias de participação: Determina o repasse de verbas atrelado à existência de Conselhos Escolares ativos, compostos por professores, pais e alunos. 
Garantia de organização: Prevê o estímulo e a garantia de espaço para a criação de grêmios estudantis e associações de pais, permitindo que os estudantes exerçam a política interna da escola.
Escolha de diretores: Incentiva critérios técnicos associados à participação da comunidade escolar para a nomeação de diretores, em vez de indicações puramente políticas externas. 
Meta 7: Qualidade da Educação Básica 
O PNE vincula a qualidade do aprendizado ao desenvolvimento de competências que vão além da matemática e da linguagem.
Educação em Direitos Humanos: Uma das estratégias centrais foca na difusão de diretrizes de direitos humanos, diversidade e sustentabilidade socioambiental nos currículos escolares.
Cultura da paz e não violência: Exige o desenvolvimento de ações para superar o preconceito, a discriminação e a violência nas escolas, temas considerados a base para o debate político saudável em sociedade. 
Metas 2 e 3: Ensino Fundamental e Ensino Médio
O PNE prevê a renovação dos currículos dessas etapas com foco no protagonismo juvenil.
Currículos integrados: As diretrizes e estratégias dessas metas impõem que as redes de ensino construam currículos que dialoguem com a realidade social, econômica e política local dos jovens.
Abordagem transversal: Obriga as escolas a trabalharem temas contemporâneos (como o funcionamento dos poderes, direitos do consumidor e cidadania digital) dentro das matérias tradicionais, como História, Sociologia e Filosofia.
Meta 15: Formação de Professores 
A tradução prática dessas demandas exige docentes preparados para mediar debates complexos.
Reformulação dos cursos de Pedagogia e Licenciatura: O plano estipula que a formação inicial e continuada dos professores inclua explicitamente debates sobre direitos humanos, relações étnico-raciais e práticas de gestão democrática.
Quais  os desafios que impediram o cumprimento total da Meta 19 no plano anterior?
A análise das políticas educacionais brasileiras revela um momento de transição importante, marcado pelo encerramento formal do plano anterior e pela sanção do novo PNE, desenhado para vigorar até 2036.
Os Desafios do Plano Anterior (Por que a Meta 19 não foi cumprida?)
A antiga Meta 19 determinava que estados e municípios estabelecessem, em até dois anos (ou seja, até 2016), condições legais e estruturais para a gestão democrática do ensino público. No entanto, relatórios oficiais do Inep apontaram que ela foi uma das metas com menor índice de cumprimento. Os principais motivos foram: 
Prevalência da indicação política (Apadrinhamento): Os microdados do Censo Escolar revelaram que em mais de 56% das escolas públicas do país, a escolha do diretor continuou dependendo exclusivamente de indicação do Poder Executivo local (prefeitos e governadores), sem qualquer consulta à comunidade. 
Baixa adesão ao modelo híbrido: Menos de 7% das escolas brasileiras conseguiram implantar o modelo ideal previsto, que combinava uma seleção técnica prévia (mérito e desempenho) com eleições diretas. [1, 2]
Falta de punição e indução financeira: O PNE anterior previu apoio técnico da União, mas não instituiu mecanismos vinculantes ou sanções financeiras diretas para os entes federados que descumprissem o prazo de dois anos. 
Fragilidade institucional dos órgãos de base: Embora os Conselhos Escolares estivessem formalmente criados na maioria dos municípios, na prática operavam sem autonomia financeira e sem capacitação adequada para professores, pais e alunos exercerem a fiscalização política real. 
As Novas Propostas de Metas para o PNE Atual
O novo plano substitui o modelo de 20 metas fechadas por uma estrutura de 19 objetivos estratégicos desdobrados em 73 metas. Fruto de debates intensificados a partir da CONAE 2024, a nova proposta tenta blindar a participação e a formação política por meio de novos caminhos institucionais: 
Vinculação ao Sistema Nacional de Educação (SNE): Aprovado em formato definitivo próximo à sanção do PNE, o SNE funciona como um organizador federativo (nos moldes do SUS). As novas metas de gestão democrática agora ganham instâncias tripartites específicas (União, estados e municípios) para pactuação obrigatória, reduzindo o isolamento das políticas municipais. 
Equidade Interseccional como Eixo: O novo plano traz indicadores específicos para mitigar assimetrias de raça, gênero e localização socioeconômica na participação e no acesso à educação pública, convertendo a equidade em uma métrica auditável.
Regulamentação e Financiamento da Gestão: O texto foca na criação de uma Lei de Responsabilidade Educacional e em metas associadas aos novos repasses do Fundeb e do Fundo Social, amarrando o recebimento de verbas complementares de inovação à comprovação de processos eleitorais democráticos para conselhos e diretores.
Educação Digital e Combate à Desinformação: Inclui propostas explícitas sobre cidadania e educação digital nas escolas como ferramentas de letramento político, capacitando estudantes a discernir fake news e engajar-se criticamente nos canais virtuais de participação pública. 

domingo, 21 de junho de 2026

Pilão, rio e reza: quando o cinema fez bater mais forte o coração das mulheres do Sindicato das Domésticas de Sergipe e convidadas.

 

A sessão do Cineclube na Casa da Doméstica, sede do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Domésticos do Estado de Sergipe) realizada em 20 de junho de 2026 com a participação de 31 pessoas, manhã e tarde, exibiu os filmes "Eu sou raiz" , "As Lavadeiras do Rio Acaraú"  e “No inicio do mundo”,  provocando um profundo mergulho nas memórias afetivas das participantes. Os filmes desencadearam uma profusão incrível de lembranças da infância, da vida no interior, de familiares, de objetos como o pilão e a farinhada, além de cheiros e sabores ligados aos produtos da terra, bem como recordações das lavadeiras às margens do rio, com seus gestos de bater roupa na pedra e equilibrar bacias na cabeça. A conversa também abordou a origem do termo "Quilombola" e a negação histórica da educação às domésticas, emergindo ainda expressões de religiosidade tradicional, formas de medicina caseira e modos de nascer que marcaram gerações, com Dona Maria Jacira emocionando ao falar sobre a importância de manter vivas tradições como o Reisado, enquanto as representantes do Sindoméstico (SE) reforçaram  que o objetivo é que as novas gerações conheçam e deem continuidade a essas raízes, garantindo que a memória coletiva dessas mulheres seja preservada como ato de resistência e afeto.




No último dia 20 de junho, a Casa da Doméstica,  sede do Sindoméstico/SE (Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Domésticos do Estado de Sergipe), se transformou em uma sala de cinema muito especial. Das 9h às 10h30, reunimos 16 participantes (entre equipe e convidadas) e 15 no período da tarde, para uma sessão do Cineclube que foi, acima de tudo, uma viagem no tempo e um resgate da memória afetiva.

A proposta era simples, mas poderosa: assistir a dois curtas-metragens que retratam tradições profundamente enraizadas na cultura nordestina – "Eu sou raiz" e "As Lavadeiras do Rio Acaraú" – e, a partir deles, abrir rodas de conversa sobre nossas próprias histórias.

E o que aconteceu ali foi pura emoção.

O Pilão e a Farinha: O que é ser Quilombola?

Após a exibição do primeiro filme, mergulhamos em uma discussão sobre identidade e origem. Começamos com uma pergunta que parecia simples: "Quem sabe de onde veio o termo Quilombola?".

As respostas vieram com a sabedoria de quem viveu a história: "Os escravos revoltados que fugiam dos grandes fazendeiros, e iam diretamente para o 'Quilombo'".

Mas a conversa foi além da definição. Quando questionadas sobre por que essa história ainda é tão pouco conhecida, uma fala ecoou forte: "A educação foi negada às domésticas. Não tivemos educação." Essa frase resumiu a importância de projetos como este: ocupar espaços e resgatar o que nos foi tirado.

As lembranças vieram à tona com uma força tocante. Dona Maria Jacira de Santana emocionou a todos ao dizer: "Eu acredito que o que a mestra faz, é o que minha mãe fazia. Nunca foram à escola, viviam em casa de farinha. Tudo o que minha mãe fez, eu aprendi com ela. Continuamos com essas histórias para não deixar que elas morram, como o Reisado."

Para a jovem Paula, neta de Maria, a experiência foi de descoberta: "Foi novo pra mim. Ver tradições diferentes para as pessoas jovens dessa geração."

E não faltaram relatos sobre objetos que povoam o imaginário de quem cresceu no interior. O pilão, por exemplo, foi protagonista. Nildete recordou: "Meus pais eram da roça, plantavam lá, faziam farinha, plantavam café, faziam cuscuz também. Usaram muito o pilão." Outra participante completou: "O 'pilão' me lembrou dos meus tempos de criança. Usava e batia a castanha com farinha."

Águas do Acaraú: A Poesia do Cotidiano

O segundo filme, "As Lavadeiras do Rio Acaraú", trouxe à tona um outro universo de afeto: o das margens dos rios, das pedras de bater roupa e das bacias na cabeça.

A pergunta que guiou a roda foi sobre os sentimentos despertados pela representação da vida das lavadeiras. As respostas foram um coro de memórias vivas:

"Quando eu era pequena, ia lavar roupa com minha mãe, tia, primas. E até hoje tenho costumes de fazer como elas faziam, como bater a roupa no chão pra lavar, e espremer bem os panos. Muito bom lembrar."

"Lembrei que ia com a minha mãe muitas vezes lavar roupa no rio, batismos a roupa na pedra, e estendia na cerca."

"É uma lembrança viva que nunca vamos esquecer. Está gravado na nossa mente pelo resto da vida."

"Minha mãe até hoje lava roupas assim, em pequenos tanques. Põe o pano na cabeça, pega a bacia e faz."

Ficou claro que essas imagens não são apenas do passado; elas são rotina, identidade e resistência.

De Portas Abertas para o Futuro

Para encerrar a manhã, a representante do Sindoméstico (SE) fez questão de agradecer a presença do Cineclube e reforçar o propósito daquele encontro:

"O objetivo é vocês (membros do sindicato e familiares) conhecerem nossas tradições. Queremos que vocês, jovens, dêem continuidade às nossas tradições, que conheçam elas melhor. Preservar nossas raízes. Por isso, a importância de receber esse projeto. Nosso sindicato sempre está de portas abertas para todas."

E foi com essa mensagem de acolhimento e esperança que nos despedimos. O Sindoméstico mostrou que, enquanto houver rodas de conversa, filmes e vontade de compartilhar, a história não se perde – ela se renova.

Acima, anotações por Iasmin Feitosa e abaixo por Zezito de Oliveira

No horário da tarde, após a exibição do filme "Eu sou raiz" a  frase "Tudo que vem do pobre vira preconceito" proferida por Erivânia de Siriri,  sintetiza uma dolorosa verdade sobre a sociedade brasileira contemporânea: práticas e saberes ancestrais, que por séculos garantiram a sobrevivência e o bem-estar de comunidades inteiras, são frequentemente relegados ao plano do arcaico, do atrasado ou do "coisa de pobre". Essa desvalorização, no entanto, revela menos sobre a qualidade dessas tradições e mais sobre as feridas abertas de uma hierarquia social que menospreza suas próprias raízes, enquanto as elites as ressignificam em alguns casos, muitas vezes, como um produto exótico e instagramável.

Esse fenômeno é particularmente evidente quando observamos o universo dos saberes femininos e populares. As rezadeiras e parteiras, figuras centrais na saúde comunitária, são um exemplo lapidar. Durante gerações, foram elas que acolheram partos, rezaram meninos e meninas para afastar o mau-olhado e curaram males que a medicina convencional não alcançava. No entanto, esse conhecimento empírico e profundamente humano foi, por muito tempo, alvo de um preconceito estrutural. Como bem apontado, "até os pobres têm esse preconceito" por Erivânia, internalizando a ideia de que o saber popular é inferior ao saber institucionalizado. O desprezo pela benzedeira ou pela parteira é, portanto, uma ferida autoinfligida,  um ato de negação da própria história e da sabedoria dos mais velhos — um desrespeito que se manifesta até na ausência do simples pedido de "bença", que outrora selava o vínculo entre gerações.

Curiosamente, enquanto as camadas mais pobres e as periferias urbanas se afastam dessas práticas por vergonha ou desejo de ascensão, observa-se um movimento inverso entre as classes mais abastadas. Conforme afirmou Shirley "Os mais ricos estão aderindo mais", mas de forma "instagramável". A presença de doulas e parteiras em partos humanizados, a busca por rituais de cura e o resgate de técnicas artesanais são frequentemente filtrados pela estética das redes sociais. O Instagram, nesse contexto, serve como uma ferramenta ambivalente: ao mesmo tempo que permite "romper com a bolha" e dar visibilidade a essas práticas, também as descaracteriza, transformando-as em tendências passageiras, descoladas de sua função social original e da dura realidade de quem sempre as praticou por necessidade, não por escolha. 

O filme "As lavadeiras do Rio Acaraú" suscitou o debate sobre a questão da escolha versus a imposição é o cerne da dignidade. Enquanto para muitas mulheres de mais idade, como Erivania de Siriri, a lida no rio São Francisco — lavar roupa com a água viva do rio — não é motivo de saudade, mas sim de lembrança de um esforço descomunal ("tinha que andar muito"), para a nova geração, esse contato se torna uma reconexão voluntária com a história. "Escolher é uma coisa; ser forçada é outra", e é nessa escolha que reside a possibilidade de uma verdadeira conservação cultural. Não se trata de romantizar a pobreza ou o trabalho exaustivo, mas de reconhecer o valor intrínseco de um saber que a máquina de lavar, símbolo da modernidade que "desempregou muita gente", não pode replicar: a maciez da roupa lavada no rio, a textura do amendoim "amansado" no pilão — um objeto que muitos, como a Rivian  só o viu na casa da sogra, desconhecem.

Essa transferência de conhecimento, portanto, não pode ser um ato de nostalgia forçada, mas um processo orgânico de resistência cultural. A memória das "prensas antigas" da casa de farinha, das "casas de taipa" e dos rituais de cura precisa ser conservada, como nos mostram as histórias de Ana, em Aracaju, e Rivian, em Areia Branca, que se reconectaram com suas histórias ao revisitar ou quando passara a residir em povoados. Esse reencontro é terapêutico, pois a "conservação das crenças para transmitir aos mais jovens" não é apenas um ato de preservação histórica, mas um exercício de saúde coletiva.

Ao resgatar o parto com parteiras e doulas, a reza para curar o mau-olhado ou a simples técnica de socar amendoim, não estamos negando o progresso, mas sim afirmando que a vida é uma continuidade. Como disse Quitéria, presidente do sindicato,  "a vida é a continuidade nos filhos". A tradição não é um monumento estático do passado, mas uma força viva que, para sobreviver, precisa da natureza como palco e do respeito como alicerce. A verdadeira riqueza está em tecer um futuro que não despreze o ontem, curando a ferida do preconceito com o bálsamo do reconhecimento e da dignidade, para que o saber popular deixe de ser um tabu e se torne, finalmente, um patrimônio de todos.

Abaixo, texto escrito por Zezito de Oliveira ao chegar em casa à noite,  com base nas conversas após a exibição do filme "No inicio do mundo" e que finalizou a 4ª Sessão do Cine Realidade na sede do Sindicato das domésticas de Sergipe.  

Uma sessão de exibição de filmes de/e para mulheres pode significar um momento mágico extraordinário, pode ser um instante inesquecível, marcado por uma atmosfera encantadora e em alta sintonia.

Foi o que ocorreu  hoje em uma sessão do Cineclube Realidade em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Domésticos do Estado de Sergipe (SIndoméstico_SE) , integrada à programação da 15ª Mostra Difusão Cinema e Direitos Humanos, que terminou com uma discussão formidável sobre a relação saudável com a partida de pessoas queridas para uma “outra espécie de vínculo”, como canta Caetano Veloso na canção "Sampa".

Uma sessão em que um dos filmes fez as mulheres presentes falarem de sonhos – uma delas contou ter tido um sonho semelhante ao da menina do desenho animado exibido, “No Início do Mundo”, sonhos em que vivos e mortos dialogam, o que me fez lembrar da memória agradecida da minha mãe, que esteve presente em mim desde o início da manhã. Foi a maior sessão que realizamos desde a criação do Cineclube Realidade, em 2015: pela manhã e à tarde, com a repetição de dois filmes, “Eu Sou Raiz” e “Lavadeiras do Rio Acaraú”, para grupos de mulheres diferentes, e a exibição de “No Início do Mundo”, uma única vez.

Ao falar dos sonhos em que pessoas vivas e mortas interagem, fiz menção à cosmovisão dos povos originários ou indígenas, o que significa dizer um outro jeito de enxergar e entender a vida após a morte, diferente da cosmovisão cristã.

E, ao lembrar da palavra sonho, que aparece em dois filmes, concluo este texto recordando o que afirma um dos nossos grandes intelectuais  sobre a importância dos mesmos.

Para Ailton Krenak, líder indígena, escritor e filósofo brasileiro, que usa a sabedoria ancestral para nos ensinar a proteger a Terra e adiar o fim do mundo, o sonho não é uma fantasia boba, mas um guia para a vida. Enquanto o homem ocidental acha que o sonho é algo individual e pessoal, os povos indígenas o veem como um espaço coletivo para conversar com a natureza e com os antepassados. Dessa forma, sonhar funciona como uma ferramenta prática que traz curas e respostas que a lógica não consegue encontrar, ajudando as pessoas a guiarem suas escolhas cotidianas e a imaginarem um futuro melhor.

Uma canção que fala da magia de viver, me vem a lembrança ´para finalizar... Ela fala  do amor que encanta, amor que dói, e esperança de que o tempo traga de volta a luz.

Magia, mente de marfim, pele de cetim

Pelos dourados ao Sol, sinto que sou um paiol

Pronto para explodir

Vida, porque tu és assim, se afasta sempre de mim

Como um peixe no mar a nadar

Como um peixe no mar a nadar

Com os seus olhos de lince, serpente de emoção, ilusão

Enfeitiça o meu coração

A uma estrela-do-mar não se pode dizer não

Tempo, seque logo o meu pranto

Acorde de novo o meu canto

Faça de mim uma estrela a brilhar


https://www.youtube.com/watch?v=K5pwIyU_c6Q

Leia também:

São João, Cinema e Curso de Informática no Sindoméstica/SE

https://se.cut.org.br/noticias/sao-joao-cinema-e-curso-de-informatica-no-sindomestica-se-7589