segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Conselhos de Cultura: Bahia amplia a participação, enquanto Sergipe continua preso à cápsula do tempo?

"Enquanto a Bahia avança para mais uma eleição direta de representantes da sociedade civil para o Conselho Estadual de Cultura, Sergipe mantém um modelo de escolha baseado em entidades, listas tríplices e nomeação pelo governador. A diferença, que expõe concepções distintas de participação social, já havia provocado críticas no debate legislativo de 2020, quando o então deputado estadual Iran Barbosa classificou o modelo sergipano como “conservador” e “antiquado” e defendeu que os representantes da sociedade civil fossem escolhidos por eleição."

Uma comparação entre Bahia e Sergipe mostra que a diferença não está apenas na composição dos Conselhos Estaduais de Cultura, mas na própria concepção de participação social. 

“Fica parecendo que em Sergipe estamos presos em uma espécie de cápsula do tempo. Mas, vida que segue. Imagine o quanto essa cultura de participação social rebaixada nos impede de voar mais alto.”

A frase pode parecer apenas uma provocação política. Mas, quando colocamos lado a lado os processos de composição dos Conselhos Estaduais de Cultura da Bahia e de Sergipe, ela ganha uma dimensão institucional bastante concreta.

Não se trata de afirmar que a Bahia tenha resolvido todos os problemas da participação social ou que os conselheiros sergipanos não tenham legitimidade. A questão é outra: como a sociedade civil participa da escolha daqueles que irão representá-la?

É nessa pergunta que os dois modelos se distanciam.

Bahia: a sociedade civil escolhe

Na Bahia, a Lei Orgânica da Cultura estabeleceu um modelo no qual dois terços dos integrantes do Conselho Estadual de Cultura são representantes da sociedade civil e um terço representa o Poder Público.

Mas o aspecto decisivo está na forma de escolha.

A representação da sociedade civil ocorre por meio de eleição, considerando segmentos culturais, processos do fazer cultural e territorialidade. A organização das vagas procura combinar a diversidade dos segmentos com a diversidade territorial do Estado.

A eleição não é, portanto, um detalhe administrativo. Ela é parte da própria arquitetura democrática do Conselho.

Em 2026, a Bahia voltou a abrir seu processo eleitoral, com cadastramento de candidatos e eleitores, habilitação, recursos e votação online. O processo prevê votação entre 13 e 15 de outubro de 2026.

Isso significa que a participação social não acontece apenas quando o Conselho se reúne.

Ela começa antes: na escolha de quem ocupará as cadeiras.

Sergipe: a sociedade civil participa, mas não escolhe diretamente

O modelo atualmente vigente em Sergipe foi estabelecido pela Lei nº 8.775, de 15 de outubro de 2020.

A lei define um Conselho de 16 membros, com composição paritária: oito representantes do Poder Público e oito da sociedade civil.

O Conselho tem funções importantes. É consultivo, deliberativo, normativo e de assessoramento ao Poder Executivo. Também participa da formulação da política cultural, acompanha e fiscaliza atividades do Sistema Estadual de Cultura e exerce funções de controle social.

A própria lei afirma que o Conselho se fundamenta na “transparência e democratização da gestão cultural” e que constitui uma instância de intervenção qualificada da sociedade civil na formulação das políticas culturais.

Mas há uma questão decisiva.

Os representantes da sociedade civil não são escolhidos por uma eleição aberta ao conjunto dos agentes culturais sergipanos.

O procedimento previsto pela lei passa por associações e grupos culturais, pelo Conselho e por listas tríplices. Essas listas são encaminhadas pela FUNCAP ao governador, que escolhe entre os nomes apresentados. Depois, as entidades ou instituições escolhidas indicam formalmente seus representantes.

Em termos simplificados:

Bahia:

sociedade civil → candidatura → eleitorado cultural → voto → conselheiro.

Sergipe:

entidades/grupos → lista tríplice → governador → escolha → entidade indica representante.

São dois modelos diferentes de legitimidade.

Mas essa discussão já havia sido feita em Sergipe em 2020

E aqui está talvez a parte mais importante dessa história.

Quando o Projeto de Lei nº 269/2020 chegou à Assembleia Legislativa de Sergipe, o então deputado estadual Iran Barbosa (PT) fez exatamente a crítica que hoje aparece quando comparamos o modelo sergipano com a experiência baiana.

O parlamentar solicitou que o projeto fosse retirado da pauta para que houvesse um amplo debate com os segmentos da cultura, inclusive por meio de audiência pública.

O pedido não foi atendido.

Em 13 de outubro de 2020, a Assembleia aprovou o projeto. Iran Barbosa foi o único deputado a votar contra.

Seu argumento merece ser recuperado porque não era uma crítica genérica.

Era uma crítica diretamente relacionada à democracia interna do Conselho.

Iran apresentou duas emendas ao projeto. Uma delas pretendia modificar justamente o mecanismo de composição baseado na lista tríplice.

Segundo o parlamentar, a escolha pelo governador, a partir de uma lista tríplice, era um método “conservador, antiquado”, incompatível com o modelo que deveria prevalecer em conselhos democráticos.

Sua defesa era clara: representantes da sociedade civil deveriam participar dos colegiados de política pública sem precisar passar pela aprovação do chefe do Poder Executivo.

A segunda emenda apresentada por Iran Barbosa ia ainda mais diretamente ao ponto.

Ela propunha que as entidades da sociedade civil que integrariam o Conselho fossem escolhidas por eleição, convocada por decreto do Poder Executivo, cabendo ao regimento interno disciplinar as normas e os procedimentos eleitorais.

A proposta foi rejeitada.

E o projeto foi aprovado.

“Conservador” e “antiquado”: por que essa expressão importa?

As palavras usadas por Iran Barbosa podem parecer fortes.

Mas a comparação com a Bahia ajuda a entender o que ele estava questionando.

Se um conselho possui a função de formular diretrizes, exercer controle social e participar da construção da política pública, uma pergunta democrática elementar é:

quem escolhe os representantes da sociedade civil?

Na Bahia, há uma resposta objetiva:

os próprios eleitores da sociedade civil cultural.

Em Sergipe, a resposta é diferente:

entidades e grupos culturais participam do processo de composição, o Conselho elabora listas tríplices e o governador faz a escolha entre elas.

Não é ausência de sociedade civil.

É uma sociedade civil cuja representação passa por uma mediação institucional maior.

O paradoxo de Sergipe: 2015 era mais participativo?

A história fica ainda mais interessante quando voltamos alguns anos.

Em 2015, Sergipe aprovou a Lei nº 8.005, que instituiu o Sistema Estadual de Cultura.

Naquele momento, o governador era Jackson Barreto.

A legislação estabeleceu princípios como democratização dos processos decisórios, participação e controle social e participação popular na gestão das políticas culturais.

Mais do que isso: a lei atribuía aos Fóruns Setoriais de Cultura a escolha, o acompanhamento da atuação e a destituição dos representantes da sociedade civil no Conselho Estadual de Cultura.

Ou seja, a legislação de 2015 estabelecia uma relação direta:

segmento cultural → fórum setorial → escolha do representante → acompanhamento → possibilidade de destituição.

Era uma concepção de participação social bastante significativa.

Em 2020, sob o governo de Belivaldo Chagas, foi aprovada a nova lei específica do Conselho Estadual de Cultura.

E a forma de composição mudou.

A nova lei passou a trabalhar com a lógica das entidades, listas tríplices e escolha pelo governador.

É importante não atribuir pessoalmente aos governadores a autoria integral desses modelos: as leis são resultado de processos legislativos e administrativos mais amplos.

Mas a cronologia é importante:

2015 — Governo Jackson Barreto: Sistema Estadual de Cultura com previsão de participação dos Fóruns Setoriais na escolha, acompanhamento e destituição dos representantes da sociedade civil.

2020 — Governo Belivaldo Chagas: nova legislação do Conselho, com composição paritária e escolha dos representantes da sociedade civil por meio de listas tríplices submetidas ao governador.

E foi justamente durante a tramitação dessa segunda legislação que Iran Barbosa tentou alterar o modelo.

Há ainda outro elemento interessante no debate de 2020.

O documento apresentado pelos artistas que apoiavam as alterações defendidas por Iran Barbosa propunha que o Conselho Estadual de Cultura fosse tratado de maneira semelhante ao Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial.

Na legislação daquele conselho, as organizações da sociedade civil são escolhidas por assembleia específica, convocada oficialmente pelo Poder Executivo.

Portanto, a discussão não era simplesmente uma defesa abstrata de “mais democracia”.

Existia, dentro da própria legislação sergipana, um exemplo de outro caminho possível para a escolha de representantes da sociedade civil.

Iran Barbosa apresentou essa alternativa durante a discussão do Conselho de Cultura.

Mas suas emendas foram rejeitadas.

A classe artística também se manifestou

Antes da votação, o parlamentar encaminhou à Presidência da Assembleia e à liderança do Governo um documento assinado por organizações e segmentos da classe artística sergipana.

Participaram da manifestação representantes do audiovisual, música, circo, dança, teatro e técnicos.

Entre as organizações citadas estavam o Fórum Permanente do Audiovisual Sergipe, o Sindicato dos Músicos de Sergipe, o Coletivo Aracaju Pela Música e o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de Sergipe (SATED/SE).

O documento defendia que o projeto fosse retirado para análise e aperfeiçoamento.

E, caso continuasse sua tramitação, reivindicava mudanças no modelo de representação da sociedade civil.

Portanto, havia naquele momento uma reivindicação concreta de setores organizados da cultura sergipana por maior participação na escolha dos representantes do Conselho.

Uma lei pode falar em democracia e ainda produzir uma participação limitada

Esse é o ponto central que a comparação permite revelar.

A Lei nº 8.775/2020 diz que o Conselho se fundamenta na democratização da gestão cultural.

Isso é positivo.

Mas os princípios democráticos precisam aparecer também nos procedimentos.

Não basta afirmar que a sociedade civil participa.

É preciso perguntar:

participa de quê?

Participa das reuniões?

Participa das conferências?

Participa das discussões?

Participa das consultas?

Participa da fiscalização?

Tudo isso é importante.

Mas há uma dimensão anterior:

participa da escolha de quem vai representá-la?

É aí que Bahia e Sergipe se afastam.

O que está em jogo não é apenas uma cadeira

Pode parecer uma discussão burocrática sobre quem ocupa oito cadeiras.

Não é.

Um conselho de cultura é um espaço onde se cruzam interesses, prioridades, recursos públicos, editais, patrimônio, produção artística, políticas territoriais e direitos culturais.

Quando a representação é eleita, cria-se uma relação política entre:

eleitor → representante → Conselho → sociedade.

Quando a representação nasce de uma indicação institucional e de uma nomeação, a relação é diferente:

entidade → representante → Conselho → entidade/Poder Público.

Isso não significa que o segundo modelo seja necessariamente ilegítimo.

Mas significa que são graus diferentes de participação democrática.

E é justamente essa diferença que merece ser debatida.

A “cápsula do tempo”

Talvez agora seja possível compreender melhor a expressão:

“Fica parecendo que em Sergipe estamos presos em uma espécie de cápsula do tempo.”

A cápsula não está nos artistas.

Não está nos conselheiros.

Não está na cultura sergipana.

Está em um mecanismo institucional de representação que não acompanhou plenamente a evolução das formas de participação social na política cultural.

A cultura brasileira mudou.

Hoje existem Pontos de Cultura, coletivos, redes, grupos comunitários, agentes culturais independentes, produtores, artistas que trabalham fora das instituições tradicionais, iniciativas digitais e uma enorme diversidade de sujeitos culturais.

Muitos deles não se reconhecem necessariamente em uma estrutura associativa tradicional.

A pergunta contemporânea deveria ser:

como essas pessoas participam da escolha daqueles que falarão em seu nome no Conselho Estadual de Cultura?

A Bahia oferece uma provocação

A Bahia não deve ser copiada mecanicamente.

Seu modelo também tem desafios.

Mas sua experiência mostra que é possível transformar a escolha dos representantes da sociedade civil em um processo eleitoral permanente, articulando segmentos e territórios.

Em 2024, o processo eleitoral baiano registrou milhares de eleitores habilitados e dezenas de candidaturas.

Em 2026, a Bahia está novamente realizando seu processo eleitoral.

Enquanto isso, Sergipe permanece com o mecanismo estabelecido pela Lei nº 8.775/2020.

É essa diferença que torna a comparação tão importante.

“Voar mais alto”

A segunda parte da frase talvez seja ainda mais importante:

“Imagine o quanto essa cultura de participação social rebaixada nos impede de voar mais alto.”

Uma participação mais ampla não serve apenas para produzir conselhos mais democráticos.

Ela pode produzir políticas culturais melhores.

Quanto mais gente participa da escolha dos representantes, maior tende a ser a diversidade de demandas que chegam ao Conselho.

Um conselheiro eleito precisa dialogar com quem o elegeu.

Precisa prestar contas.

Precisa voltar aos segmentos.

Precisa ouvir os territórios.

Precisa defender suas posições.

Isso pode gerar conflito.

Mas conflito democrático não é necessariamente um problema.

Pode ser exatamente o mecanismo que impede que uma política cultural seja construída apenas dentro dos gabinetes.

Um Conselho forte não precisa ser um Conselho contra o governo.

Pode ser um Conselho que ajude o governo a enxergar aquilo que o governo, sozinho, não consegue enxergar.

A pergunta que permanece

Em 2020, Iran Barbosa tentou alterar o projeto para estabelecer eleição dos representantes da sociedade civil.

Sua emenda foi rejeitada.

O deputado foi o único parlamentar a votar contra o projeto.

Seis anos depois, a Bahia está novamente mobilizando candidatos e eleitores para escolher seus representantes no Conselho Estadual de Cultura.

Diante disso, talvez seja hora de recuperar aquela discussão que ficou para trás.

Não necessariamente para copiar a Bahia.

Mas para perguntar:

Por que a sociedade cultural sergipana não poderia escolher diretamente seus representantes no Conselho Estadual de Cultura?

E mais:

O modelo de 2020 ainda corresponde à cultura de participação social que Sergipe deseja construir em 2026?

Essa talvez seja a questão mais importante.

Porque, no fundo, não estamos discutindo apenas a composição de um Conselho.

Estamos discutindo que lugar a sociedade civil deve ocupar na construção da política cultural de Sergipe.

E talvez a verdadeira saída da “cápsula do tempo” não seja simplesmente trocar os nomes dos conselheiros.

Seja permitir que a própria sociedade cultural escolha, acompanhe, cobre e, democraticamente, renove seus representantes.

Aí sim poderemos falar em voar mais alto.

E para quem tiver oportunidade de conversar sobre politica cultural com os dois candidatos melhores posicionados na disputa eleitoral para governador de Sergipe a partir de 2027.

Se nosso artigo pergunta:

“Sergipe está preso em uma cápsula do tempo?”

a pergunta aos dois candidatos à reeleição pode ser extremamente objetiva:

Se eleitos, Fábio Mitidieri e Valmir de Francisquinho pretendem revisar a Lei nº 8.775/2020 para democratizar a escolha dos representantes da sociedade civil no Conselho Estadual de Cultura, adotando eleições diretas por segmentos e territórios, como ocorre na Bahia?

 Zezito de Oliveira (Argumento  e revisão) com apoio da IA Chat GPT

Sobre o primeiro debate com os presidenciáveis, que não assisti ontem na Band, um paralelo com o que aconteceu com os festivais de música na década de 1960.

 Quando o espetáculo devora a democracia

O que os festivais de música da televisão brasileira dos anos 1960 têm a ver com a política-espetáculo que domina a televisão e as redes sociais de hoje? Em ambos os casos, a exploração da rivalidade, da provocação e das torcidas transformou a disputa em entretenimento — uma fórmula capaz de gerar audiência, mas que também levanta uma questão incômoda: até que ponto a busca pelo espetáculo pode corroer a própria democracia?

Há uma linha de continuidade, ainda que não linear, entre os grandes festivais de música da televisão brasileira dos anos 1960 e a política-espetáculo dos nossos dias.

Nos festivais, a televisão descobriu que a competição podia ser transformada em espetáculo. A disputa entre compositores e intérpretes ganhou torcidas, rivalidades, vaias, aplausos e personagens. A música continuava sendo o objeto formal da competição, mas o conflito entre os concorrentes passou a ser, ele próprio, parte do produto televisivo.

A fórmula era poderosa: quanto maior a rivalidade, maior a emoção; quanto maior a emoção, maior a audiência.

Décadas depois, a televisão aplicaria lógica semelhante à política. Os candidatos deixaram de ser apresentados apenas como representantes de programas, partidos e projetos de governo. Progressivamente, passaram também a funcionar como personagens de uma narrativa. O moderado, o agressivo, o outsider, o provocador, o moralista, o “politicamente incorreto”. O debate eleitoral passou a ser, muitas vezes, menos uma comparação entre propostas e mais uma disputa entre personalidades.

As redes sociais levaram esse processo a uma dimensão ainda maior.

Na televisão, a moeda era a audiência. Nas redes, é o engajamento. E nada produz engajamento com tanta facilidade quanto a indignação, a provocação e o conflito.

Uma frase agressiva pode gerar um vídeo. O vídeo gera uma reação. A reação produz outro vídeo. Jornalistas comentam. Adversários respondem. Militantes compartilham. Memes são produzidos. O algoritmo distribui tudo novamente.

O conflito passa, assim, a alimentar a si próprio.

Quando a briga vira o produto

O problema começa quando a disputa deixa de ser um meio e passa a ser o próprio conteúdo.

Uma democracia precisa de conflito. É natural e saudável que partidos, candidatos e cidadãos discordem profundamente. O problema não está na existência do antagonismo, mas na transformação do adversário em inimigo e da divergência em espetáculo permanente.

Nesse ambiente, o candidato que apresenta uma proposta complexa pode ter menos visibilidade do que aquele que produz uma frase explosiva.

Uma explicação econômica de dez minutos pode ser derrotada, em audiência, por quinze segundos de provocação.

Uma discussão sobre política pública pode desaparecer diante de um insulto.

E uma eleição pode começar a ser acompanhada como se fosse um campeonato: cada eleitor torce para que seu lado “vença” o outro, independentemente da qualidade dos argumentos.

É aqui que a comparação com os festivais dos anos 1960 se torna especialmente interessante.

Os festivais ajudaram a televisão brasileira a descobrir que a competição podia ser um espetáculo. Mas, quando a competição passou a depender cada vez mais do espetáculo, o próprio formato começou a se desgastar.

Há uma lição possível nessa história.

Um espetáculo pode acabar quando aquilo que deveria servir ao conteúdo passa a dominar o conteúdo.

A política pode seguir o mesmo caminho?

É uma pergunta incômoda.

Pode a política-espetáculo contribuir para destruir uma democracia?

Não seria correto atribuir às emissoras ou às redes sociais, isoladamente, o poder de destruir uma democracia. Democracias possuem instituições, Constituições, eleições, Parlamentos, Judiciário, imprensa, partidos e organizações da sociedade civil.

Mas instituições não vivem apenas de regras formais. Elas também dependem de uma cultura política.

Uma democracia precisa que os adversários reconheçam mutuamente sua legitimidade. Precisa que uma derrota eleitoral seja aceita como parte do jogo. Precisa que o vencedor não trate o derrotado como inimigo a ser eliminado. Precisa, sobretudo, que os cidadãos consigam distinguir entre uma disputa política legítima e uma guerra permanente de identidades.

A política-espetáculo pode corroer justamente essas condições.

Se o político é recompensado por ser cada vez mais agressivo, ele terá incentivo para aumentar a agressividade.

Se a emissora ganha audiência com o confronto, terá incentivo para explorar o confronto.

Se o influenciador ganha seguidores com a indignação, terá incentivo para produzir mais indignação.

Se o algoritmo distribui aquilo que provoca reações, os conteúdos mais polarizadores terão vantagem sobre aqueles que exigem reflexão.

Nenhum desses atores precisa necessariamente conspirar com os demais.

Basta que todos sigam seus próprios incentivos.

O resultado coletivo pode ser muito diferente da intenção individual de cada participante.

O adversário como inimigo

Talvez esteja aí o maior perigo.

A democracia transforma adversários em competidores. A política-espetáculo corre o risco de transformá-los em inimigos.

Quando isso acontece, a vitória deixa de significar simplesmente conquistar o governo. Passa a significar impedir que o outro exista politicamente.

A eleição deixa de ser:

“Qual projeto deve governar?”

e passa a ser:

“Como impedir que eles governem?”

Essa mudança é profunda.

Porque, quando o adversário é visto como uma ameaça existencial, qualquer instrumento parece justificável para derrotá-lo. A mentira pode ser tolerada. A desumanização pode ser aceita. A violência verbal pode ser celebrada. As instituições podem ser atacadas quando produzem uma decisão desfavorável.

E, pouco a pouco, a própria democracia passa a ser tratada como legítima apenas quando produz o resultado desejado.

O paradoxo do espetáculo

Há, então, um paradoxo.

A televisão e as redes sociais podem ampliar enormemente a participação política. Podem dar voz a grupos que antes não tinham espaço. Podem aproximar candidatos dos eleitores. Podem democratizar a circulação de informações.

Mas exatamente as mesmas ferramentas podem incentivar a radicalização.

A questão não é voltar a uma suposta época de ouro em que a política era racional e civilizada. Essa época nunca existiu plenamente.

A questão é reconhecer que a forma pela qual discutimos política também influencia a política que conseguimos fazer.

Uma sociedade que recompensa permanentemente o grito terá dificuldade para ouvir.

Uma sociedade que recompensa o insulto terá dificuldade para argumentar.

Uma sociedade que transforma todo adversário em inimigo terá dificuldade para conviver com a diferença.

E uma sociedade que transforma cada eleição em uma batalha pela sobrevivência talvez tenha dificuldade para aceitar a alternância de poder.

O alerta dos festivais

Os festivais da década de 1960 não desapareceram simplesmente porque as pessoas deixaram de gostar de música.

Eles foram vítimas de transformações muito mais amplas da televisão, da indústria cultural, da censura, do mercado e do próprio ambiente político brasileiro. Mas existe uma ironia histórica importante: a mesma lógica de espetáculo que ajudou os festivais a alcançar um sucesso extraordinário também contribuiu para desgastar o formato.

A competição havia se tornado tão importante quanto a música.

Talvez seja essa a advertência que podemos transportar para o presente.

A política precisa de competição. Precisa de oposição. Precisa de conflito.

Mas, se o espetáculo se tornar mais importante que as propostas, se a provocação se tornar mais importante que os argumentos e se a destruição do adversário se tornar mais importante que a disputa democrática, poderemos descobrir tarde demais que aquilo que produzia audiência também estava destruindo o ambiente que tornava a competição possível.

Os festivais acabaram.

A democracia não precisa acabar para ser profundamente transformada.

Ela pode continuar existindo formalmente, com eleições, partidos e instituições, enquanto perde gradualmente aquilo que lhe dá substância: tolerância, pluralismo, confiança, respeito às regras e disposição para aceitar que o adversário também tem direito de participar do jogo.

Talvez essa seja a pergunta que deveríamos fazer diante da política-espetáculo de nossos dias:

estamos usando a televisão e as redes para tornar a democracia mais participativa — ou estamos transformando a democracia em um espetáculo no qual a audiência depende cada vez mais da briga?

Os festivais nos deixaram uma pequena lição sobre os limites do espetáculo.

Um espetáculo pode morrer quando aquilo que deveria servir ao conteúdo passa a dominar o conteúdo.

E talvez nossa democracia esteja diante do mesmo desafio.

Os festivais foram vítimas da transformação da competição em espetáculo. Nossa democracia poderá ser vítima da transformação do espetáculo em competição política permanente.

As emissoras de televisão podem contribuir para elevar o nível dos debates eleitorais ao estabelecer critérios objetivos para limitar o número de participantes, como representação no Congresso, desempenho nas pesquisas ou relevância eleitoral. O problema não está em adotar esses critérios, mas em aplicá-los de forma seletiva. Se a falta de representação parlamentar é utilizada para excluir candidatos de determinados partidos, o mesmo critério deve valer para candidatos de direita, extrema direita, centro ou esquerda.

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A imagem de espontaneidade que marcou os grandes festivais de música da TV Record nos anos 1960 precisa ser relativizada. Depoimentos de protagonistas e estudos sobre o período mostram que a emissora não se limitava a registrar as rivalidades que surgiam entre os artistas: a própria estrutura dos festivais era concebida para produzir antagonismos e mobilizar as torcidas.

Paulo Machado de Carvalho Filho, responsável pela área artística da Record e pelos festivais, comparou a concepção daqueles programas à de “espetáculos de luta livre”, nos quais era necessário estabelecer antagonistas e mobilizar a opinião do público em torno da disputa. Estudos acadêmicos que analisaram os festivais também apontam que a Record e seus parceiros utilizaram o programa para promover artistas, discos e músicas, enquanto a imprensa ajudava a alimentar os antagonismos.

O caso de 1967 é especialmente revelador. A rivalidade entre diferentes concepções de música brasileira — incluindo a oposição entre a MPB tradicional e a incorporação da guitarra elétrica — foi incorporada ao próprio espetáculo. Caetano Veloso percebeu rapidamente essa lógica e, em entrevista de 1968, afirmou que o festival era, antes de tudo, um meio lucrativo descoberto pelas televisões.

O episódio de “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, também revela a enorme pressão criada pelo ambiente. Gil chegou a ficar apavorado antes de sua apresentação, em meio à tensão provocada pela escolha de apresentar a música acompanhado pelos Mutantes e pelas guitarras elétricas, justamente quando a questão da guitarra havia se transformado em um dos grandes conflitos simbólicos da música brasileira.

Há ainda relatos segundo os quais a própria emissora organizou a famosa passeata contra as guitarras como estratégia de promoção do festival, transformando uma controvérsia musical em acontecimento de grande repercussão.

Pablo Marçal e a escalada dos conflitos nos debates de 2024

A participação de Pablo Marçal nos debates da eleição para a Prefeitura de São Paulo, em 2024, produziu uma sequência incomum de conflitos que alterou inclusive as regras e a organização dos programas. Em 15 de setembro, no debate da TV Cultura, o candidato José Luiz Datena agrediu Marçal com uma cadeira após uma troca de provocações. O programa foi interrompido, Datena foi expulso e Marçal foi levado ao Hospital Sírio-Libanês, onde permaneceu em observação e recebeu alta na manhã seguinte. O boletim médico registrou traumatismo no tórax e no punho direito, sem complicações associadas.

Uma semana depois, em 23 de setembro, Marçal foi expulso do debate promovido pelo Grupo Flow por descumprir as regras do encontro, depois de advertências relacionadas a ataques e à insistência em acusações contra adversários. O episódio foi seguido por uma agressão envolvendo um assessor de Marçal e o marqueteiro de Ricardo Nunes nos bastidores.

A sequência de episódios levou organizadores de debates posteriores a reforçar medidas de segurança e alterar o cenário. A RedeTV!, por exemplo, fixou as cadeiras no chão; a Record também adotou cadeiras fixadas e substituiu copos de vidro por copos de plástico. Outros debates estabeleceram regras mais rígidas contra palavrões, apelidos ofensivos e comportamentos que pudessem interromper o programa.

O caso tornou-se particularmente significativo para a discussão sobre política-espetáculo porque os conflitos produziram enorme repercussão fora dos próprios debates. A agressão de Datena a Marçal transformou-se em um dos episódios mais emblemáticos da campanha e passou a circular amplamente nas redes sociais e na imprensa. A cobertura internacional chegou a descrever a eleição paulistana daquele ano como marcada por confrontos e violência incomuns.

Leonardo Sakamoto

Sempre defendi, feito maritaca com cãibra, que candidato ao Executivo deve ir a debate. Mas não me furto à análise: Lula e Flávio Bolsonaro venceram o da Band neste domingo (23) justamente porque faltaram. Que debate ruim, meu Deus do céu.

A culpa não foi dos jornalistas nem dos veículos, que tentaram tirar propostas e contradições de quem apareceu. O problema foram os presentes. Renan Santos xingou adversários de “cadelas” e produziu cortes que animam red pills e a extrema direita; Augusto Cury distribuiu autoajuda; Ronaldo Caiado administrou mal o tempo e parecia mais interessado em atacar Lula do que em se apresentar ao país. Entre propostas frágeis, bravatas e ideias que atropelavam a Constituição, sobrou pouco debate de verdade.

O resultado foi perverso: Lula e Flávio, com 39% e 33% no Datafolha, pareceram jogar a série A sem entrar em campo, enquanto os demais protagonizavam uma pelada de chutões e caneladas. Renan deve ter ganhado votos, mas boa parte tende a voltar para Flávio. A desidratação dos candidatos menores pode até ajudar a empurrar a eleição para uma decisão no primeiro turno, para qualquer um dos lados.

Lula ainda deu entrevista à Record no mesmo horário e teve mais audiência que as críticas feitas a ele no palco.

No fim, quem saiu ganhando foi quem dormiu. Como Gilberto Kassab, vice de Caiado e presidente do PSD, flagrado cochilando na plateia. Quem nunca?

O argumento lógico do texto acima é meu. A IA fez a pesquisa e ajudou a organizar melhor o argumento.

Zezito de Oliveira

domingo, 23 de agosto de 2026

Como "Anistia 79" reavivou minhas lembranças da democracia e da esperança. Por Zezito de Oliveira

 Ao assistir "Anistia 79", da diretora Anita Leandro, que grande alegria rever nomes conhecidos da luta pela anistia e pelas liberdades democráticas, tanto nas bases da sociedade como nas instâncias do poder.


Em 1979, eu era um jovem de 18 anos e já ardia em paixão pelos gigantes da nossa MPB — Chico, Caetano, Milton, Gil, Nara, Clara, Paulinho da Viola, Gal, Luiz Gonzaga, Dominguinhos e a nascente banda Cor do Som —, além do pop rock dos Beatles e de Peter Frampton. Minha memória guarda com emoção a presença dos primeiros nos dois shows de 1º de Maio no Riocentro, em 1980 e 1981. 

No entanto, merece atenção o perigo que corremos no segundo deles — tanto os artistas quanto o público —, algo que só viemos a descobrir tempos depois. Do mesmo modo, a luta pela democracia e por uma sociedade justa e igualitária exercia sobre mim um fascínio que se alimentava das páginas dos jornais da imprensa independente e, eventualmente, do Jornal do Brasil — um jornal liberal, mas democraticamente sincero, que abria um espaço generoso e privilegiado para a arte e a cultura, como quem oferece abrigo à imaginação em tempos de cerco.

Na cobertura dos jornais, dos que aparecem no filme me lembro de Modesto da Silveira e de Edson Khair, e do meu engajamento, mesmo limitado, na campanha deles. Isso a distância, porque o acompanhamento e a torcida que tinha por eles era pelos jornais e pelos grandes cartazes de campanha espalhados, em especial no centro e na zona sul, isso antes de poder votar, o que só veio a acontecer quando retornei a Sergipe com a família, em 1982. Neste ano, votei em Milton Coelho, à época integrante do PT, tendo sido militante e dirigente do velho partidão, como o PCB ficou conhecido.

Daqui de Sergipe, a surpresa em encontrar Jackson Barreto na saída do cinema. Muito feliz e bem de saúde, saudei-o como velho camarada, e ele lembrou dos nomes que citei acima e de outros que aparecem no filme, incluindo os velhos companheiros com mandatos parlamentares como os dois que citei, assim como ele também, deputado naqueles anos em que parlamentares podiam ser cassados por suas opiniões políticas progressistas mais à esquerda.

Dentre aqueles lutadores que não exerceram mandatos, gostei de ver e ouvir Apolônio de Carvalho, veterano da Guerra Civil Espanhola e da Resistência Francesa ; Gregório Bezerra, quadro fiel do Partido Comunista; e Manoel da Conceição, líder camponês do Maranhão . O filme, um achado sensacional de imagens gravadas em 16mm em Roma, em junho de 1979 , foi montado de forma cativante, intercalando as filmagens da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil — o maior encontro da esquerda brasileira no exílio  — com entrevistas atuais desses lutadores que ainda estão entre nós, emocionando-se ao reverem o próprio passado .

Através do filme, podemos conhecer mulheres incríveis, incluindo pela inteligência e combatividade, estas que não receberam destaque no noticiário e na historiografia como protagonistas da história. Das mulheres que aparecem no filme, lembrei de Terezinha Zerbini, uma das fundadoras e principais líderes do Comitê Brasileiro da Anistia, e da impactante trajetória de Denise Crispim, cujo depoimento no Tribunal Russell II, em 1974, abre o documentário . Grávida, ela foi torturada, e seu companheiro, Eduardo Leite (Bacuri), foi assassinado após 109 dias de tortura . Sua história é um fio condutor emocionante no filme.

Ao mesmo tempo em que me encontrava com Jackson, isso aconteceu junto com a professora Silvana Bretas. Ela citou estar lendo O Passo de Estefânia, da professora e assistente social Núbia Marques. O livro aborda as agressões, a violência e a repressão impostas à figura feminina em uma sociedade desigual. A protagonista Estefânia atua como assistente social e vivencia o dilema ético diante da burocracia do sistema e da humilhação imposta aos cidadãos marginalizados na busca por direitos básicos. O ex-governador lembrou de Núbia Marques com muita gratidão por sua humanidade, inteligência e compromisso com a transformação social. Ele recordou que Núbia Marques foi fundadora do Comitê Sergipano de Anistia.

Sobre o filme, é muito bom poder ter um aulão sobre o Brasil contemporâneo, um Brasil cujas elites buscam retardar ou abortar a construção do país plenamente democrático, justo e soberano. O filme faz uma necessária correção histórica, esclarecendo que a anistia não pode ser vista como um simples acordo ou conciliação. Fica claro que seus defensores tinham um projeto mais condizente com as expectativas e anseios por justiça e reparação, mas perderam, por conta do estado autoritário que vigorava. O documentário de Anita Leandro, vencedor dos prêmios de melhor filme pelo júri oficial e popular na Mostra de Tiradentes , evidencia como essa transição "feita por cima" deixou intacto o aparato repressivo e garantiu a impunidade dos torturadores .

Um estado autoritário que nunca deixou de manter seus tentáculos por dentro, visando, como citamos acima, dificultar ou abortar as movimentações em favor de mais democracia, mais participação, mais direitos, mais felicidade geral.

Por último, como seria bom se um filme como esse pudesse estar acessível para outros públicos e outros espaços, bem além do público de classe média que mora em Aracaju, em especial àqueles que vivem no centro ou nos bairros que formam a Aracaju antiga, para que a memória e a reflexão crítica cheguem a todos.

Como um dos filmes de uma mostra temática especial — com duração de, quem sabe, uns dois anos — da programação do Tela Brasil e de uma mostra Cinema e Direitos Humanos. Esses filmes seriam disponibilizados para acesso de Pontos de Exibição de diversos tipos existentes país afora, acompanhados de um guia de exibição.

Até porque, se os saudosos da ditadura não vencerem as eleições em 2026 — o mais provável —, eles prosseguirão com o trabalho de sabotagem ao avanço das "liberdades democráticas" em nosso país, expressão que retiro do filme, em especial nos momentos da discussão coordenada por Manoel da Conceição. Um trabalho de sabotagem que opera com respaldo dos grandes veículos de comunicação, que atuam nesse sentido de forma ambígua ou velada, fortalecendo as máquinas de desinformação e o negacionismo histórico da extrema direita. O que pode levar à retomada do governo em 2030, com a aliança devastadora entre a direita neoliberal, a direita fisiológica e a direita neofascista.

Por último, os familiares dos lutadores do povo sofrem "o pão que o diabo amassou", como é mostrado no filme, o que lembra o que se sucede com os familiares de Lula nestes tempos: dona Marisa, o neto Arthur Lula da Silva , que faleceu em 2019, quando o ex-presidente se encontrava preso em Curitiba, e o filho Fábio Luís Lula da Silva , que atualmente é alvo de vazamentos ilegais e intrigas alimentadas pela grande mídia.

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Democracia Cultural em Ação: Poesia, Música e Afeto na 4ª Mostra Arte e Cidadania

 Por Zezito de Oliveira e Iasmin Feitosa


Foto da exposição comemorativa dos 22 anos da Ação Cultural - Iasmin Feitosa

No último sábado, 22 de agosto de 2026, a Paróquia São Pedro Pescador, no Bairro Industrial, foi palco de um encontro que transcendeu a ideia de mero evento cultural. A 4ª edição da Mostra Arte e Cidadania , realizada pela Ação Cultural Juventude e Cidadania, materializou na prática um conceito caro aos que militam pela democratização efetiva da arte: a democracia cultural.

Como bem pontuou Zezito De Oliveira, um dos idealizadores do projeto, a diferença é sutil, mas profunda. Não se tratou de levar cultura às pessoas, como no modelo de democratização cultural, mas sim de fazer cultura com as pessoas. A tarde de atividades foi o exercício vivo de um aprendizado gestado no curso Agentes Culturais Democráticos promovido pela Universidade Federal da Bahia com apoio do Ministério da Cultura, onde o protagonismo comunitário é a chave. Isabela, educadora e produtora cultural responsável pelo meritório trabalho com as crianças e adolescentes do povoado São Braz (Socorro), juntamente com seu companheiro Givanildo, também educador e produtor cultural,  participou do curso agentes culturais democráticos junto com este que escreve, e a inserção do tema "as três dimensões da cultura" é fruto das discussões realizadas no referido curso.

No caso da mostra Arte e Cidadania, a proposta foi pensada e executada por um grupo de agentes culturais comunitários, apoiados por recursos públicos através da Política Nacional de Cultura Viva. E bote cultura viva nisso: cultura viva de base comunitária, plural, diversa, mas invisibilizada — até dentro da própria comunidade, também por conta dos nichos ou das bolhas culturais formadas, sem contar a força dos grandes meios de comunicação, os quais, por conta de interesses ligados à questão do lucro fácil e imediato, escolhem dar destaque à produção cultural mais rasteira, mais consumível, mais pobre em matéria de significado.

A Poesia como Ato de Resistência

O encontro foi um antídoto contra o "estado de expectadoras e consumidoras" que a indústria do entretenimento nos impõe. Grandes estruturas do campo da comunicação e do entretenimento, associadas a grupos políticos, investem milhões em shows musicais com um formato de produção que deixa as pessoas completamente em estado de espectadoras,  consumidoras, e alienadas. — diferente do "estado de poesia", como bem definido pelo genial Chico César em uma canção.

Esse espírito esteve presente desde o início, com a palavra forte e reflexiva de Zezito, que abriu os trabalhos, e a acolhida sensível do Padre Soares, que uniu fé, arte  e cidadania em um mesmo abraço comunitário.

A poesia popular de matriz tradicional, representada pela força do cordel do professor e pesquisador João Emanuel, emocionou ao declamar versos que ecoam a missão de quem estudou, se formou, mas que mantém uma conexão profunda com suas raízes periféricas e sertanejas. De outro modo, a poesia contemporânea e de denúncia tomou conta do espaço com a jovem Yala Souza. Nascida e criada na Matinha, região discriminada do bairro, Yala traduziu em suas rimas a insatisfação com as injustiças, o preconceito e a força da mulher periférica, representando com maestria a arte que resiste e transforma.

Música, Memória e o Encontro de Gerações

Uma das felizes descobertas do percurso formativo que resultou na mostra foi o músico Rafael Durval. Indicado por adolescentes da oficina de audiovisual com celular para participar da produção de um documentário de laboratório e conclusão da mesma.  Rafael levou ao palco a diversidade musical que transita entre a MPB, o pop rock e o forró pé de serra, acompanhado por Ana Maia e Alex Santos. Sua apresentação foi antecedida pela exibição do minidocumentário "A Música da Fé", produzido pelos jovens, que emocionou ao contar sua trajetória como músico na igreja católica.

O evento também se notabilizou pelo cuidado com seus participantes. Em um gesto de afeto, Rose, integrante da "Sopa Solidária", foi homenageada por iniciativa de Rafael  com um "parabéns" coletivo, demonstrando que o tecido cultural do bairro é feito de afeto e pertencimento.

A Força da Tradição e o Futuro

Para fechar com chave de ouro, a tradição afro-indígena tomou conta do espaço com a apresentação vibrante do grupo Maculelê Mirim, do Instituto Piadinhas. A performance contagiou crianças e adultos, que foram convidados a sair da passividade e vivenciar o ritmo, formando uma roda de experiência lúdica e sensorial que selou a confraternização entre todos ao final.

E, por último, o maculelê mirim foi uma feliz descoberta por ocasião da Teia Estadual dos Pontos de Cultura. Vale lembrar que o dia do folclore é comemorado em 22 de agosto. Quando marcamos este dia para apresentação do Maculelê Mirim, Isabela me lembrou desta coincidência da data, mas não fiz essa citação durante o evento. Contudo, na real, a melhor forma de lembrar do folclore — ou da cultura popular, termo que prefiro — não poderia existir senão com a poesia popular do mestre João Emanuel e do Maculelê Mirim, dentro do contexto como foi realizado na mostra Arte e Cidadania.

A Exposição e os Desafios da Realização

A programação da 4ª Mostra Arte e Cidadania foi realizada de forma compacta em razão de alguns limites, mas foi interessante por ter sido dentro da própria comunidade. Fazer no teatro também faz sentido e é uma experiência válida, por conta de razões técnicas e por permitir deslocar o público para uma experiência diferente e enriquecedora, já que para muitos é a primeira vez que isso acontece.

A montagem da exposição atrasou por razões de necessidade de afastamento de uma das pessoas que participou da preparação, durante alguns  dias,  por questões de saúde, porém ficou bonita e representou a primeira vez que montamos uma exposição dentro da mostra. Em razão do atraso, não houve condições para a maioria das pessoas terem acesso à mesma de forma completa, mas circularemos com a exposição alusiva aos 22 anos da Ação Cultural em outros eventos e a colocaremos para acesso público por meio digital no blog da cultura.

Conclusão: A Cultura como Tecido Social

A 4ª Mostra Artística e Cultural não foi apenas um evento; foi um manifesto pela vida. Mesmo diante dos desafios da descontinuidade de políticas públicas como o Cultura Viva entre 2016 e 2022,  a juventude e os agentes culturais do Bairro Industrial demonstraram que é possível resistir e criar.

Ao final, a diretora-presidente da Ação Cultural, Maíra Ramos, lembrou o rico ambiente cultural familiar que lhe formou, e  que reforça a participação dela na Ação Cultural,  para que isso seja estendido a mais crianças, adolescentes e jovens.  A mostra cumpriu seu papel de valorizar o artista local, promover o diálogo entre cultura, fé e cidadania, e devolver ao bairro a dignidade de ser produtor e não apenas consumidor de cultura.

Tanto as lideranças progressistas  que estão no governo, como as que estão à frente dos sindicatos e dos grandes movimentos populares precisam entender a importância estratégica do investimento em cultura e comunicação, em especial a cultura de base comunitária e a comunicação digital. Do contrário, quem perderá é a democracia e o processo humanista civilizatório.

Porque, como nos lembrou Zezito, a cultura é simbólica, cidadã e econômica — e, acima de tudo, é o fio que pode unir  as comunidades  de maneira mais  virtuosa . Que a Cultura Viva continue a pulsar forte nas periferias, alimentando o estado de poesia que nos faz humanos.






quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Ellacuría e Romero: aquela outra Igreja que Wojtyla e Ratzinger desmantelaram

 

Ellacuría e Romero | Informaçõesj

Rafael Narbona

20 de agosto de 2026 - 08:34

Publicado em Religion Digital

A libertação, por motivos de saúde, de Inocente Orlando Montano Morales , coronel do exército salvadorenho e vice-ministro da Segurança Pública, e um dos mentores do assassinato, em 1989, de Ignacio Ellacuría, de outros cinco jesuítas e de duas mulheres (Elba e Celina) que trabalhavam na UCA em San Salvador, oferece um bom pretexto para lembrarmos daquela outra igreja contra a qual Wojtyla e Ratzinger lutaram com tanta veemência e sucesso. Hoje, uma nova geração de jovens padres, formados sob princípios fundamentalistas, controla a maioria das paróquias e, em diversas ocasiões, utiliza homilias para propagar slogans de extrema-direita, o que levou quase todos os progressistas a se distanciarem da Igreja ou mesmo a perderem a fé.

Ignacio Ellacuría nasceu em 1930 em Portugalete, mas em 1975 naturalizou-se salvadorenho para demonstrar sua solidariedade a um povo que sofria com níveis intoleráveis ​​de pobreza, opressão e desigualdade. Austero, sério e reflexivo, ingressou na Companhia de Jesus aos dezessete anos, estudou filosofia em Quito e teologia em Innsbruck, onde assistiu às aulas de Karl Rahner, que exerceu forte influência em sua perspectiva intelectual e religiosa. Ordenado sacerdote em 1962, cursou o doutorado na Universidade Complutense de Madrid sob a orientação de Xavier Zubiri, que o consideraria, posteriormente, o sucessor de sua obra filosófica.

Em 1967, Ellacuría retornou a El Salvador para lecionar na Universidade Centro-Americana Simeón Cañas (UCA), mantendo sua colaboração com Zubiri, a quem visitava frequentemente durante suas viagens à Espanha. A Conferência de Medellín de 1968 marcou um ponto de virada em sua trajetória intelectual. Ellacuría endossou todas as conclusões da Conferência: o capitalismo é um pecado estrutural; a opção preferencial pelos pobres não é uma bandeira ideológica, mas a essência da mensagem do Evangelho; é necessário criar comunidades de base para transformar a Igreja a partir de baixo; e a libertação dos oprimidos por meio da educação e da mobilização popular não é uma tarefa política, mas a forma mais preeminente de luta para alcançar a realização histórica do Reino de Deus.

Nos anos seguintes, Ellacuría conheceu o Padre Arrupe, e logo se tornaram amigos . Ambos compartilhavam a ideia de que os povos crucificados são a verdadeira imagem de Cristo e a certeza de que a redenção do mundo não ocorrerá enquanto o sofrimento deles não terminar. Fora dos pobres, não há salvação. O Reino de Deus não é uma abstração. Ele começa aqui e agora, e consiste em os pobres terem o suficiente para comer, viver e desfrutar de dignidade e liberdade. Em contraste com o capitalismo, que reduz a vida humana a uma mercadoria e explora o planeta sem pensar no amanhã, Ellacuría propõe uma civilização da pobreza, baseada na austeridade e na solidariedade. Não devemos acumular, mas compartilhar. Ninguém tem direito ao supérfluo enquanto houver pessoas que não têm o essencial.

Em 1976, Ellacuría publicou o artigo “Ao Seu Serviço, Minha Capital”, no qual instava camponeses e operários a se organizarem e reivindicarem seus direitos trabalhistas e sociais. Era inaceitável que uma minoria desfrutasse de vasta riqueza e propriedades enquanto a maioria dos salvadorenhos vivia em condições miseráveis ​​e recebia salários irrisórios que não lhes permitiam suprir suas necessidades básicas. A oligarquia reagiu prontamente. Os esquadrões da morte da junta cívico-militar incluíam os jesuítas entre seus alvos. Em 1977, o padre Rutilio Grande foi assassinado a tiros quando se dirigia para celebrar a missa. Grande havia incentivado os camponeses a formarem sindicatos para defender seus direitos e, em um sermão, declarou que, se Jesus reaparecesse em El Salvador, seria acusado de subversão, correndo o risco de ser crucificado novamente.

Romero viajou a Roma e encontrou-se com Wojtyla, mas só encontrou um muro de incompreensão e frieza. A insatisfação do papa polonês dissipou as hesitações do regime civil-militar, que ordenou o assassinato do arcebispo.

Óscar Romero, arcebispo de San Salvador, ficou chocado ao saber do assassinato de Rutilio e proibiu o governo de comparecer ao funeral, ciente de que este era o principal responsável pelo crime. Romero, que até então fora um padre conservador, mudou sua perspectiva e tornou-se o principal defensor dos direitos humanos em um país devastado pela guerra civil. A burguesia reagiu com slogans anticlericais: "Padres de Belzebu, vão para Moscou!", "Cumpram seu dever patriótico, matem um padre!". Alarmado pelos crimes dos esquadrões da morte e da Guarda Nacional, que atuavam em conjunto, Romero viajou a Roma e se encontrou com Wojtyla, mas só encontrou um muro de incompreensão e frieza. A insatisfação do papa polonês dissipou as hesitações do regime civil-militar, que ordenou o assassinato do arcebispo. A atitude de Wojtyla contrasta tragicamente com a de Paulo VI, que protegeu ativamente Pedro Casaldáliga na década de 1970, quando a ditadura militar tentou expulsá-lo do país ou assassiná-lo. Para reforçar sua autoridade, Montini nomeou Casaldáliga bispo e exclamou como advertência: “Quem toca em Pedro, toca em Paulo ”. Sem a proteção de João Paulo II, Romero tornou-se uma figura extremamente vulnerável. Seu assassinato era agora apenas uma questão de tempo. Em 24 de março de 1980, uma bala de fragmentação atravessou seu peito enquanto ele celebrava a missa. Nos bairros da oligarquia, seu assassinato foi comemorado com música, dança e champanhe.

O clima de repressão obrigou Ellacuría a buscar refúgio na Espanha, mas em 1989 ele retornou a El Salvador, ciente de que planos para assassiná-lo já haviam sido elaborados. Infelizmente, os piores temores logo se concretizaram. Em 16 de novembro, o Batalhão Atlacatl invadiu a UCA à noite e assassinou a sangue frio Ellacuría e seus companheiros jesuítas Ignacio Martín Baró, Segundo Montes, Amando López, Juan Ramón Moreno e Joaquín López y López. Para eliminar quaisquer testemunhas, os soldados também alvejaram a tiros Elba Julia Ramos, a cozinheira, e sua filha de 16 anos, Celina. Em suas anotações sobre o massacre, Jon Sobrino, que escapou por estar viajando, escreveu: “Elba e Celina representam as vítimas totalmente indefesas, cujo martírio silencioso nos deixa sem palavras diante do mistério da crueldade humana. Os jesuítas morreram pela justiça; Elba e Celina morreram porque estavam lá, no lugar dos pobres. O sangue de nossos irmãos e irmãs não clama por vingança, mas por justiça, verdade e uma profunda conversão de nossa sociedade.”

Em 16 de novembro, o Batalhão Atlacatl invadiu a UCA à noite e assassinou Ellacuría e seus companheiros jesuítas Ignacio Martín Baró, Segundo Montes, Amando López, Juan Ramón Moreno e Joaquín López y López a sangue frio. Para eliminar eventuais testemunhas, os militares também balearam Elba Júlia Ramos, a cozinheira, e sua filha Celina, de 16 anos.

Óscar Romero só foi canonizado em 2018. A beatificação de Rutilio Grande foi adiada para 2022, e o processo de beatificação e canonização de Ignacio Ellacuría só teve início em 2023. Todos esses procedimentos ocorreram durante o pontificado de Francisco. Em contraste, Escrivá de Balaguer foi elevado aos altares em 2002 por vontade de João Paulo II. O contraste é escandaloso e nada acidental. Wojtyla usou a canonização de Balaguer para interromper as reformas de abertura promovidas pelo Concílio Vaticano II e para fortalecer seu compromisso com uma Igreja autoritária e resistente à modernidade. Além disso, como apontou Hans Küng, o Opus Dei contribuiu com uma grande quantia para estabilizar as finanças do Vaticano e financiar a campanha de repressão contra a Teologia da Libertação.

Óscar Romero só foi canonizado em 2018. A beatificação de Rutilio Grande foi adiada para 2022, e o processo de beatificação e canonização de Ignacio Ellacuría só teve início em 2023. Todos esses procedimentos ocorreram durante o pontificado de Francisco. Em contraste, Escrivá de Balaguer foi elevado aos altares em 2002 por vontade de João Paulo II. O contraste é escandaloso e nada acidental.

Ignacio Ellacuría alinhou-se com as maiorias empobrecidas e exploradas, mas sem endossar o caminho revolucionário. Embora tenha utilizado ferramentas hermenêuticas marxistas para criticar o capitalismo, rejeitou suas alternativas políticas, por acreditar que estas não ofereciam soluções verdadeiramente humanas. Assim como Óscar Romero, Ellacuría defendia “uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desvinculada de todo poder temporal e corajosamente comprometida com a libertação de todos os homens e mulheres”. Estima-se que, entre 1960 e 1990, entre 100 e 150 padres e religiosos católicos foram assassinados por esquadrões da morte por defenderem os direitos dos camponeses e trabalhadores. Se incluirmos freiras, seminaristas e catequistas leigos comprometidos, o total aproximado chega a vários milhares de vítimas, visto que houve perseguição sistemática contra as comunidades eclesiais de base, os padres operários ou das favelas e os teólogos da libertação.

Os nomes de Ellacuría e Óscar Romero continuam a incomodar a direita salvadorenha. Ellacuría defendia a "historicização" de conceitos. A solidariedade deve ser algo concreto, encarnado. O Reino de Deus não é meramente uma utopia espiritual, mas um horizonte libertador que nos impulsiona para um futuro sem injustiça, miséria ou desigualdade. Para que "não haja mais uma morte", como Ellacuría repetidamente afirmava, devemos desmantelar as estruturas políticas e sociais que geram pobreza, desespero e falta de esperança. A mesa compartilhada é a imagem que melhor expressa a mensagem de Cristo. O Evangelho "clama por um modelo de sociedade em que todas as pessoas, e não apenas algumas, possam desfrutar das melhores condições para serem mais plenamente humanas, mais felizes e mais humanitárias; para que todas as pessoas possam viver com dignidade como filhos do mesmo Pai e irmãos e irmãs uns dos outros".

A solidariedade com os oprimidos abre a janela para a transcendência. O cristianismo “vê nos mais necessitados, de uma forma ou de outra, os redentores da história, os privilegiados do reino de Deus, em oposição aos privilegiados deste mundo”. A missão da Igreja é cumprir a utopia formulada no Evangelho de Mateus: “Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo”. O que resta da Igreja defendida por Óscar Romero e Ignacio Ellacuría? Muito pouco, quase nada. Wojtyla e Ratzinger conseguiram erradicar o impulso renovador das comunidades eclesiais de base e cederam todo o poder aos movimentos leigos fundamentalistas .

Apesar da abertura de Francisco e Leão XIV, a maioria dos católicos abraçou um misticismo barato e as posições políticas mais reacionárias. Todos aqueles que se escandalizam porque o pároco Juan Carlos Rodríguez del Pozo comentou, em sua homilia em Torrelavega, Cantábria, que a Assunção da Virgem deveria ser interpretada como um símbolo ou uma alegoria e não como um fato histórico, não se incomodam quando um barco vira e os homens, mulheres e crianças que tentam chegar à Europa para escapar da fome, da pobreza e da guerra se afogam.

 Embora façam o sinal da cruz meticulosamente, não dão ouvidos ao Evangelho quando diz: “Tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me acolhestes; necessitei de roupas, e me vestistes; estive doente, e me visitastes; estive na prisão, e me vistes”. No entanto, ecoam as palavras vergonhosas de Argüello, presidente da Conferência Episcopal Espanhola, que descreveu a tragédia de Ceuta como uma invasão. 

Óscar Romero e Ignacio Ellacuría lutaram por uma Igreja pobre para os pobres, uma Igreja de solidariedade e compromisso. Wojtyla e Ratzinger preferiram promover pompa, solenidade e a busca da salvação pessoal, sem compreender que a essência do cristianismo é a fraternidade, como afirma a Primeira Epístola aos Coríntios: “Ainda que eu tenha o dom da profecia, e conheça todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que eu tenha tamanha fé que possa transportar os montes, se não tiver amor, nada serei”. Aparentemente, João Paulo II e Bento XVI derrotaram Ellacuría e Romero, mas o sangue derramado por amor ao próximo é sempre mais frutífero do que qualquer ato de autoritarismo. Perder a esperança não é ser cristão. É por isso que aguardo ansiosamente o dia em que a Igreja será novamente um sopro de liberdade e não um recinto sombrio onde respirar se torna cada vez mais difícil.