
A sessão do Cineclube na Casa da Doméstica, sede do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Domésticos do Estado de Sergipe) realizada em 20 de junho de 2026 com a participação de 31 pessoas, manhã e tarde, exibiu os filmes "Eu sou raiz" , "As Lavadeiras do Rio Acaraú" e “No inicio do mundo”, provocando um profundo mergulho nas memórias afetivas das participantes. Os filmes desencadearam uma profusão incrível de lembranças da infância, da vida no interior, de familiares, de objetos como o pilão e a farinhada, além de cheiros e sabores ligados aos produtos da terra, bem como recordações das lavadeiras às margens do rio, com seus gestos de bater roupa na pedra e equilibrar bacias na cabeça. A conversa também abordou a origem do termo "Quilombola" e a negação histórica da educação às domésticas, emergindo ainda expressões de religiosidade tradicional, formas de medicina caseira e modos de nascer que marcaram gerações, com Dona Maria Jacira emocionando ao falar sobre a importância de manter vivas tradições como o Reisado, enquanto as representantes do Sindoméstico (SE) reforçaram que o objetivo é que as novas gerações conheçam e deem continuidade a essas raízes, garantindo que a memória coletiva dessas mulheres seja preservada como ato de resistência e afeto.



No último dia 20 de junho, a Casa da Doméstica, sede do Sindoméstico/SE (Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Domésticos do Estado de Sergipe), se transformou em uma sala de cinema muito especial. Das 9h às 10h30, reunimos 16 participantes (entre equipe e convidadas) e 15 no período da tarde, para uma sessão do Cineclube que foi, acima de tudo, uma viagem no tempo e um resgate da memória afetiva.
A proposta era simples, mas poderosa: assistir a dois curtas-metragens que retratam tradições profundamente enraizadas na cultura nordestina – "Eu sou raiz" e "As Lavadeiras do Rio Acaraú" – e, a partir deles, abrir rodas de conversa sobre nossas próprias histórias.
E o que aconteceu ali foi pura emoção.
O Pilão e a Farinha: O que é ser Quilombola?
Após a exibição do primeiro filme, mergulhamos em uma discussão sobre identidade e origem. Começamos com uma pergunta que parecia simples: "Quem sabe de onde veio o termo Quilombola?".
As respostas vieram com a sabedoria de quem viveu a história: "Os escravos revoltados que fugiam dos grandes fazendeiros, e iam diretamente para o 'Quilombo'".
Mas a conversa foi além da definição. Quando questionadas sobre por que essa história ainda é tão pouco conhecida, uma fala ecoou forte: "A educação foi negada às domésticas. Não tivemos educação." Essa frase resumiu a importância de projetos como este: ocupar espaços e resgatar o que nos foi tirado.
As lembranças vieram à tona com uma força tocante. Dona Maria Jacira de Santana emocionou a todos ao dizer: "Eu acredito que o que a mestra faz, é o que minha mãe fazia. Nunca foram à escola, viviam em casa de farinha. Tudo o que minha mãe fez, eu aprendi com ela. Continuamos com essas histórias para não deixar que elas morram, como o Reisado."
Para a jovem Paula, neta de Maria, a experiência foi de descoberta: "Foi novo pra mim. Ver tradições diferentes para as pessoas jovens dessa geração."
E não faltaram relatos sobre objetos que povoam o imaginário de quem cresceu no interior. O pilão, por exemplo, foi protagonista. Nildete recordou: "Meus pais eram da roça, plantavam lá, faziam farinha, plantavam café, faziam cuscuz também. Usaram muito o pilão." Outra participante completou: "O 'pilão' me lembrou dos meus tempos de criança. Usava e batia a castanha com farinha."
Águas do Acaraú: A Poesia do Cotidiano
O segundo filme, "As Lavadeiras do Rio Acaraú", trouxe à tona um outro universo de afeto: o das margens dos rios, das pedras de bater roupa e das bacias na cabeça.
A pergunta que guiou a roda foi sobre os sentimentos despertados pela representação da vida das lavadeiras. As respostas foram um coro de memórias vivas:
"Quando eu era pequena, ia lavar roupa com minha mãe, tia, primas. E até hoje tenho costumes de fazer como elas faziam, como bater a roupa no chão pra lavar, e espremer bem os panos. Muito bom lembrar."
"Lembrei que ia com a minha mãe muitas vezes lavar roupa no rio, batismos a roupa na pedra, e estendia na cerca."
"É uma lembrança viva que nunca vamos esquecer. Está gravado na nossa mente pelo resto da vida."
"Minha mãe até hoje lava roupas assim, em pequenos tanques. Põe o pano na cabeça, pega a bacia e faz."
Ficou claro que essas imagens não são apenas do passado; elas são rotina, identidade e resistência.
De Portas Abertas para o Futuro
Para encerrar a manhã, a representante do Sindoméstico (SE) fez questão de agradecer a presença do Cineclube e reforçar o propósito daquele encontro:
"O objetivo é vocês (membros do sindicato e familiares) conhecerem nossas tradições. Queremos que vocês, jovens, dêem continuidade às nossas tradições, que conheçam elas melhor. Preservar nossas raízes. Por isso, a importância de receber esse projeto. Nosso sindicato sempre está de portas abertas para todas."
E foi com essa mensagem de acolhimento e esperança que nos despedimos. O Sindoméstico mostrou que, enquanto houver rodas de conversa, filmes e vontade de compartilhar, a história não se perde – ela se renova.
Acima, anotações por Iasmin Feitosa e abaixo por Zezito de Oliveira
No horário da tarde, após a exibição do filme "Eu sou raiz" a frase "Tudo que vem do pobre vira preconceito" proferida por Erivânia de Siriri, sintetiza uma dolorosa verdade sobre a sociedade brasileira contemporânea: práticas e saberes ancestrais, que por séculos garantiram a sobrevivência e o bem-estar de comunidades inteiras, são frequentemente relegados ao plano do arcaico, do atrasado ou do "coisa de pobre". Essa desvalorização, no entanto, revela menos sobre a qualidade dessas tradições e mais sobre as feridas abertas de uma hierarquia social que menospreza suas próprias raízes, enquanto as elites as ressignificam em alguns casos, muitas vezes, como um produto exótico e instagramável.
Esse fenômeno é particularmente evidente quando observamos o universo dos saberes femininos e populares. As rezadeiras e parteiras, figuras centrais na saúde comunitária, são um exemplo lapidar. Durante gerações, foram elas que acolheram partos, rezaram meninos e meninas para afastar o mau-olhado e curaram males que a medicina convencional não alcançava. No entanto, esse conhecimento empírico e profundamente humano foi, por muito tempo, alvo de um preconceito estrutural. Como bem apontado, "até os pobres têm esse preconceito" por Erivânia, internalizando a ideia de que o saber popular é inferior ao saber institucionalizado. O desprezo pela benzedeira ou pela parteira é, portanto, uma ferida autoinfligida, um ato de negação da própria história e da sabedoria dos mais velhos — um desrespeito que se manifesta até na ausência do simples pedido de "bença", que outrora selava o vínculo entre gerações.
Curiosamente, enquanto as camadas mais pobres e as periferias urbanas se afastam dessas práticas por vergonha ou desejo de ascensão, observa-se um movimento inverso entre as classes mais abastadas. Conforme afirmou Shirley "Os mais ricos estão aderindo mais", mas de forma "instagramável". A presença de doulas e parteiras em partos humanizados, a busca por rituais de cura e o resgate de técnicas artesanais são frequentemente filtrados pela estética das redes sociais. O Instagram, nesse contexto, serve como uma ferramenta ambivalente: ao mesmo tempo que permite "romper com a bolha" e dar visibilidade a essas práticas, também as descaracteriza, transformando-as em tendências passageiras, descoladas de sua função social original e da dura realidade de quem sempre as praticou por necessidade, não por escolha.
O filme "As lavadeiras do Rio Acaraú" suscitou o debate sobre a questão da escolha versus a imposição é o cerne da dignidade. Enquanto para muitas mulheres de mais idade, como Erivania de Siriri, a lida no rio São Francisco — lavar roupa com a água viva do rio — não é motivo de saudade, mas sim de lembrança de um esforço descomunal ("tinha que andar muito"), para a nova geração, esse contato se torna uma reconexão voluntária com a história. "Escolher é uma coisa; ser forçada é outra", e é nessa escolha que reside a possibilidade de uma verdadeira conservação cultural. Não se trata de romantizar a pobreza ou o trabalho exaustivo, mas de reconhecer o valor intrínseco de um saber que a máquina de lavar, símbolo da modernidade que "desempregou muita gente", não pode replicar: a maciez da roupa lavada no rio, a textura do amendoim "amansado" no pilão — um objeto que muitos, como a Rivian só o viu na casa da sogra, desconhecem.
Essa transferência de conhecimento, portanto, não pode ser um ato de nostalgia forçada, mas um processo orgânico de resistência cultural. A memória das "prensas antigas" da casa de farinha, das "casas de taipa" e dos rituais de cura precisa ser conservada, como nos mostram as histórias de Ana, em Aracaju, e Rivian, em Areia Branca, que se reconectaram com suas histórias ao revisitar ou quando passara a residir em povoados. Esse reencontro é terapêutico, pois a "conservação das crenças para transmitir aos mais jovens" não é apenas um ato de preservação histórica, mas um exercício de saúde coletiva.
Ao resgatar o parto com parteiras e doulas, a reza para curar o mau-olhado ou a simples técnica de socar amendoim, não estamos negando o progresso, mas sim afirmando que a vida é uma continuidade. Como disse Quitéria, presidente do sindicato, "a vida é a continuidade nos filhos". A tradição não é um monumento estático do passado, mas uma força viva que, para sobreviver, precisa da natureza como palco e do respeito como alicerce. A verdadeira riqueza está em tecer um futuro que não despreze o ontem, curando a ferida do preconceito com o bálsamo do reconhecimento e da dignidade, para que o saber popular deixe de ser um tabu e se torne, finalmente, um patrimônio de todos.
Abaixo, texto escrito por Zezito de Oliveira ao chegar em casa à noite, com base nas conversas após a exibição do filme "No inicio do mundo" e que finalizou a 4ª Sessão do Cine Realidade na sede do Sindicato das domésticas de Sergipe.
Uma sessão de exibição de filmes de/e para mulheres pode significar um momento mágico extraordinário, pode ser um instante inesquecível, marcado por uma atmosfera encantadora e em alta sintonia.
Foi o que ocorreu hoje em uma sessão do Cineclube Realidade em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Domésticos do Estado de Sergipe (SIndoméstico_SE) , integrada à programação da 15ª Mostra Difusão Cinema e Direitos Humanos, que terminou com uma discussão formidável sobre a relação saudável com a partida de pessoas queridas para uma “outra espécie de vínculo”, como canta Caetano Veloso na canção "Sampa".
Uma sessão em que um dos filmes fez as mulheres presentes falarem de sonhos – uma delas contou ter tido um sonho semelhante ao da menina do desenho animado exibido, “No Início do Mundo”, sonhos em que vivos e mortos dialogam, o que me fez lembrar da memória agradecida da minha mãe, que esteve presente em mim desde o início da manhã. Foi a maior sessão que realizamos desde a criação do Cineclube Realidade, em 2015: pela manhã e à tarde, com a repetição de dois filmes, “Eu Sou Raiz” e “Lavadeiras do Rio Acaraú”, para grupos de mulheres diferentes, e a exibição de “No Início do Mundo”, uma única vez.
Ao falar dos sonhos em que pessoas vivas e mortas interagem, fiz menção à cosmovisão dos povos originários ou indígenas, o que significa dizer um outro jeito de enxergar e entender a vida após a morte, diferente da cosmovisão cristã.
E, ao lembrar da palavra sonho, que aparece em dois filmes, concluo este texto recordando o que afirma um dos nossos grandes intelectuais sobre a importância dos mesmos.
Para Ailton Krenak, líder indígena, escritor e filósofo brasileiro, que usa a sabedoria ancestral para nos ensinar a proteger a Terra e adiar o fim do mundo, o sonho não é uma fantasia boba, mas um guia para a vida. Enquanto o homem ocidental acha que o sonho é algo individual e pessoal, os povos indígenas o veem como um espaço coletivo para conversar com a natureza e com os antepassados. Dessa forma, sonhar funciona como uma ferramenta prática que traz curas e respostas que a lógica não consegue encontrar, ajudando as pessoas a guiarem suas escolhas cotidianas e a imaginarem um futuro melhor.
Uma canção que fala da magia de viver, me vem a lembrança ´para finalizar... Ela fala do amor que encanta, amor que dói, e esperança de que o tempo traga de volta a luz.
Magia, mente de marfim, pele de cetim
Pelos dourados ao Sol, sinto que sou um paiol
Pronto para explodir
Vida, porque tu és assim, se afasta sempre de mim
Como um peixe no mar a nadar
Como um peixe no mar a nadar
Com os seus olhos de lince, serpente de emoção, ilusão
Enfeitiça o meu coração
A uma estrela-do-mar não se pode dizer não
Tempo, seque logo o meu pranto
Acorde de novo o meu canto
Faça de mim uma estrela a brilhar
https://www.youtube.com/watch?v=K5pwIyU_c6Q
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https://se.cut.org.br/noticias/sao-joao-cinema-e-curso-de-informatica-no-sindomestica-se-7589