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"Lula para Trump: ‘Ninguém vai nos derrotar através de mentiras’
(The Washington Post, 26.7.2026)
Há um ano, fiquei surpreso com a publicação, em uma plataforma digital, de uma carta do presidente Donald Trump impondo uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. O primeiro parágrafo se referia ao ex-presidente Jair Bolsonaro — que foi condenado ano passado por tentativa de golpe de Estado no Brasil e agora está em prisão domiciliar —, explicitando a motivação política por trás da medida.
Nas minhas conversas com o Presidente Trump desde então, salientei que não precisamos partilhar a mesma visão do mundo para prosseguir numa relação mutuamente benéfica entre os nossos países. Afinal, lideramos as duas maiores democracias e economias das Américas.
Negociações entre nós, juntamente com decisões da Suprema Corte dos EUA, desmantelaram a versão inicial das medidas tarifárias abrangentes. No entanto, este mês, desconsiderando dezenas de reuniões entre as nossas equipes, argumentos técnicos sólidos e documentos que entreguei pessoalmente ao Presidente Trump, o governo dos EUA impôs novas tarifas ao Brasil variando de 12,5% a 37,5%.
Como resultado, a Global Trade Alert, uma organização independente sediada na Suíça, estima que o Brasil e a Turquia são agora os dois países mais fortemente tarifados pelos Estados Unidos, atrás apenas da China. Isto apesar do superávit dos EUA com o Brasil no comércio bilateral de bens e serviços, que totalizou US$ 428 bilhões em 15 anos consecutivos.
Além de injustas, as novas tarifas são um erro estratégico: prejudicarão a economia dos EUA e a parceria com o Brasil. Vários setores industriais dos EUA dependem de insumos brasileiros. Alimentos, calçados, têxteis, móveis, autopeças e muitos outros produtos ficarão mais caros para os consumidores dos EUA.
As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram para o nível mais baixo desde 1997. Comparando os primeiros seis meses de 2025 e 2026, o comércio bilateral com os EUA caiu 12,8%, enquanto o comércio do Brasil com a União Europeia cresceu 6,1% e seu comércio com a China aumentou 15,9%.
A médio prazo, essas tarifas irão perturbar cadeias de abastecimento hoje profundamente integradas, e as empresas brasileiras substituirão os fornecedores norte-americanas por parceiros de outros lugares.
Isso diz muito sobre a inconsistência entre os interesses que os Estados Unidos proclamam em sua estratégia de segurança nacional e as políticas que seguem em relação ao Hemisfério Ocidental.
A América Latina e o Caribe não precisam de porta-aviões patrulhando suas águas nem de tarifas punitivas. O que nos falta são parceiros confiáveis e previsíveis. Numa época em que os EUA estão fechando seu mercado, outros países têm se apresentado como alternativas, oferecendo uma agenda positiva capaz de fomentar o desenvolvimento econômico e social.
Estou convencido de que unir forças em torno de iniciativas concretas que envolvam investimento, comércio e luta contra o crime organizado é o caminho a seguir para superar os males que afligem um hemisfério que pertence a todos nós.
Dividir o mundo em esferas de influência e buscar empreendimentos neocoloniais em busca de recursos estratégicos são gestos anacrônicos e retrocessos.
Apesar da longa história de intervenções políticas e militares dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe, houve momentos em que Washington se mostrou capaz de ser um parceiro digno de nossos interesses de desenvolvimento.
O Presidente Franklin D. Roosevelt implementou a Política de Boa Vizinhança, que procurava substituir o uso da força pela diplomacia na política externa dos EUA em relação à região. Essa abordagem contribuiu decisivamente para os estágios iniciais da industrialização do Brasil. Ao enfrentar a crise financeira de 2008, o Presidente George W. Bush incluiu três países latino-americanos na cimeira inaugural do Grupo dos 20 líderes.
Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é a guerra contra a fome, a pobreza e a desigualdade. E as únicas armas que devemos utilizar são o investimento, a transferência de tecnologia e o comércio justo e equilibrado.
Tentativas de impor restrições ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não serão aceitas. Nunca antes um secretário de Estado dos EUA declarou que o Brasil não é amigo dos Estados Unidos. Ninguém nos derrotará através de mentiras.
As alegações do presidente Trump contra o Brasil, tentando justificar tarifas, são infundadas. A liberdade de expressão não é um passe livre para atividades criminosas nas plataformas de redes sociais — não desistiremos de proteger as nossas famílias e crianças da ganância de um punhado de oligarcas tecnológicos. Nosso sistema de pagamento, PIX, não discrimina empresas dos EUA. e é uma referência internacional em infraestrutura pública digital. O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023, começamos a combater agressivamente os crimes ambientais e a reduzir drasticamente o desmatamento em todos os biomas brasileiros.
Respeitamos a soberania de outros Estados e negociamos com todos aqueles que sabem respeitar a nossa. A reciprocidade é a base de todas as relações entre as nações, e temos os mecanismos apropriados para garanti-la.
Estamos prontos para continuar engajados em um diálogo aberto e construtivo, como exige o relacionamento entre dois países como Brasil e Estados Unidos. Mas o destino do Brasil cabe somente aos brasileiros determinar — sem interferência estrangeira ou subserviência."
O corpo dele foi sepultado na Colina da Saudade, em Aracaju. Ele deixa esposa, uma filha e um neto.
Por g1 SE
26/07/2026
O artista plástico sergipano Joubert Moraes morreu aos 78 anos, em Aracaju, neste sábado (25). A informação foi confirmada por familiares.
O velório aconteceu neste domingo (26) na Colina da Saudade, na capital, onde o corpo de Joubert também será sepultado. Ele deixa esposa, uma filha e um neto.
Joubert nasceu no dia 13 de dezembro de 1947 em Propriá, em uma família de artistas: o pai era poeta e escritor, a mãe cantora e bordadeira, e a irmã pintora.
O artista construiu mais de 55 anos de uma carreira rica com trabalhos de pintura, desenho, escultura, música, cenografia, poesia e diversas outras linguagens artísticas.
Ainda em vida, Joubert recebeu diversas premiações como o Prêmio Horácio Hora de Artes Plásticas e Prêmio J. Inácio, além de participações no Festival de Artes de São Cristóvão (FASC).
Aracajoubert - Jade Moraes
Joubert Moraes: A Alma Visual de Sergipe que Conquistou o Mundo
Por Blog da Cultura (conteúdo produzido com IA)
Quando se fala em artes visuais sergipanas, um nome ressoa com a força das dunas e a poesia do São Francisco: Joubert Moraes (1947–2026). Ao longo de mais de seis décadas de dedicação integral à criação, ele não apenas pintou e esculpiu — ele fundiu a identidade cultural de seu estado natal a uma linguagem estética universal, construindo pontes sólidas entre o Nordeste e o cenário artístico nacional e internacional.
Sua trajetória é um testemunho vivo de como a arte pode ser, ao mesmo tempo, profundamente enraizada e radicalmente livre. Vamos explorar a vida, a obra e o legado desse mestre que transformou Sergipe em tela e o mundo em seu ateliê.
O Artista que Carregava o São Francisco na Alma
Joubert Moraes nasceu em 13 de dezembro de 1947, em Propriá, às margens do Rio São Francisco. Filho de João Teixeira de Moraes, um celebrado poeta e escritor local, e de Dona Júlia, que se dedicava ao canto e ao bordado, o menino cresceu imerso em um ambiente profundamente poético. Curiosamente, o nome "Joubert" era o pseudônimo literário que seu pai utilizava para assinar crônicas e poesias na imprensa regional — um prenúncio da vocação artística que viria a se manifestar no filho.
Aos sete anos, mudou-se com a família para Aracaju, onde seu universo de referências se expandiu. Mas foi aos 13 anos que sua jornada como artista ganhou um impulso decisivo: sua irmã mais velha, Gêlda Maria, desistiu de pintar e doou ao jovem irmão todo o seu estoque de tintas, telas e pincéis.Foi o pontapé inicial de uma carreira que moldaria a identidade visual de todo um estado.
A Formação de um Mestre: Entre a Bahia e o Mundo
Na adolescência, já em Aracaju, Joubert tornou-se frequentador assíduo da pioneira Galeria Acauã, onde absorvia debates e arte contemporânea. Frequentou os ateliês de ícones da pintura sergipana como Florival Santos e J. Inácio, aprendendo técnicas de luz, cor e a valorização temática do Nordeste.
Em 1968, aos 21 anos, realizou sua primeira exposição individual na histórica Galeria de Arte Álvaro Santos, consolidando o fim de sua juventude artística.
Mas foi na Bahia que sua formação estética e intelectual atingiu novo patamar. No final dos anos 1960, mudou-se para Salvador para cursar o Curso Livre de Arte da Universidade Federal da Bahia, sob a tutela rigorosa do mestre Juarez Paraíso. Lá, sua mente se expandiu ao travar amizade com o arquiteto russo Lev Smarchevski e com o famoso navegador solitário Aleixo Belov, que o introduziram às teorias da geometrização e do abstracionismo internacional.
Integrou um efervescente núcleo de jovens artistas na Bahia, convivendo com nomes como Luiz Jasmim, Tatti Moreno e Fernando Coelho. E, sobretudo, assimilou uma lição fundamental: a arte não deveria ter amarras geográficas. Essa visão, consolidada pelo contato com o crítico Wilson Rocha, permitiu-lhe fundir a tradição literária paterna ao expressionismo pictórico.
A Pintura em Quatro Movimentos
A trajetória pictórica de Joubert Moraes é marcada por uma evolução contínua, que pode ser dividida em quatro fases distintas:
1. Fase Acadêmica e Clássica — Seu início foi focado no rigor do desenho anatômico, no domínio das proporções e nas técnicas tradicionais de luz e sombra. Uma base sólida que lhe daria liberdade para ousar depois.
2. Fase Surrealista e Psicodélica — Influenciada pelos anos 1970 e por sua vivência na Bahia, essa fase incorporou distorções formais, cores vibrantes e elementos oníricos. A realidade ganhava contornos de sonho.
3. Fase Abstrato-Expressionista — No amadurecimento, a cor e as texturas pesadas ganharam autonomia sobre as figuras. O gesto livre tornou-se protagonista, e a tela transformou-se em campo de experimentação emocional.
4. Fase Paisagística Universal — A síntese de sua carreira. Dunas, coqueiros e o litoral sergipano foram transformados em formas quase geométricas e poéticas. Era o Nordeste visto através de uma lente universal.
Quando a Tela Ganha Volume: A Escultura
Para Joubert, a escultura não foi uma ruptura, mas uma extensão natural da pintura. Ela surgiu como uma necessidade de fazer os volumes de suas telas saltarem para o espaço real.
Sua transição para a tridimensionalidade se consolidou em grandes monumentos públicos de metal e concreto, que dialogam com a arquitetura das cidades. O maior exemplo é a escultura "Formas e Cores", na Orla da Atalaia, em Aracaju — uma obra que traduz o dinamismo de seus quadros em linhas tridimensionais, tornando-se um marco urbano e um símbolo da identidade visual de Sergipe.
Música, Cenografia e a Arte Total
Joubert Moraes era um artista completo. Sua faceta musical e cenográfica revela um criador que via a arte como um campo integrado.
Como cenógrafo teatral, criou ambientações imersivas para peças locais, aplicando seu entendimento de espaço e iluminação dramática. Como músico, explorava a sonoridade regional e a MPB, enxergando o ritmo sonoro como um reflexo direto do ritmo visual de suas telas.
Para ele, som, palco e imagem faziam parte de uma mesma expressão artística. Essa unidade estética enriquecia não apenas suas performances, mas toda a sua concepção de arte.
O Legado: Reconhecimento e Projeção
A importância de Joubert Moraes para as artes plásticas sergipanas é imensurável. Suas obras incorporaram de forma inconfundível os elementos da natureza de Sergipe — dunas litorâneas, coqueirais, o São Francisco — criando uma assinatura que ajudou a definir o imaginário visual da região.
Ele rompeu barreiras técnicas locais ao transitar com maestria entre o rigor da proporção clássica, o psicodelismo surrealista e o abstracionismo expressionista, mostrando que a arte nordestina não precisava se restringir ao regionalismo estrito.
Seu talento atraiu a atenção de importantes intelectuais e críticos de arte nacionais, como Wilson Rocha, que elogiou sua produção pela complexidade de sua "lucidez pictórica" e profundidade psicológica.【
No âmbito institucional, consolidou-se como mestre local ao receber as maiores condecorações artísticas de Sergipe, incluindo o Prêmio Horácio Hora, o Prêmio J. Inácio e a prestigiada Comenda Cultural Tobias Barreto.
Sua relevância continuou ativa até o fim de sua vida. Em 2024, foi beneficiado pelo programa Funarte Retomada para a realização de sua grande exposição retrospectiva de 60 anos de carreira.
E suas obras superaram as fronteiras do Brasil, participando de mostras e integrando coleções em países como Estados Unidos, França, Portugal e Senegal.
Conclusão
Joubert Moraes nos deixou em 2026, mas sua obra permanece viva — nas galerias, nos espaços públicos, na memória afetiva de Sergipe e no coração de todos que contemplam sua arte. Ele foi, acima de tudo, um artista que nunca deixou de ser ribeirinho: carregava consigo a fluidez do São Francisco, a força das dunas e a poesia de seu povo.
Sua trajetória nos ensina que a arte verdadeiramente universal não nega suas raízes — pelo contrário, as celebra. E, ao celebrar Sergipe, Joubert Moraes celebrou a humanidade.
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Joubert e as cores da memória.
Por Pascoal Maynard no facebook
Há pessoas que partem, mas não vão embora. Permanecem nas ruas por onde caminharam, nas casas onde viveram, nas conversas que despertam sorrisos e, sobretudo, naquilo que criaram. Hoje, com a partida de Joubert, não consigo pensar apenas no artista consagrado. Minha memória insiste em reencontrar o menino e o jovem que fizeram parte da paisagem afetiva da minha infância.
Li, mais uma vez, o belo texto de Mário Britto, e algumas de suas palavras ganharam um significado ainda mais profundo. Ele escreve que Joubert nasceu "no seio de uma família de artistas". É verdade. Aquela casa parecia respirar arte. O pai, poeta e escritor; a mãe, cantora e bordadeira. Não era apenas uma família que apreciava a cultura; era uma família que fazia da beleza um modo de existir.
Nossa proximidade ia além da geografia. Eu morava na Praça Fausto Cardoso. Joubert, na Rua Maruim, entre as ruas Itabaiana e Pacatuba. Eram poucos passos de distância. Naquele centro de Aracaju, onde as ruas ainda tinham o ritmo das conversas nas calçadas e o tempo parecia caminhar mais devagar, as famílias se conheciam, os meninos cresciam juntos e as amizades eram construídas sem cerimônia, como se fizessem parte da própria paisagem.
Naqueles dias, ninguém imaginava que aquele rapaz de fala tranquila carregava dentro de si um universo inteiro de cores, formas e poesia. Mário Britto lembra que, ainda adolescente, Joubert "tinha o hábito de visitar galerias de arte, comparecia a todas as exposições e frequentava, assiduamente, os ateliês dos mestres J. Inácio e Florival Santos". Hoje percebo que aquele jovem já perseguia um destino que só ele conseguia enxergar com nitidez.
Depois veio Salvador, a Escola de Belas Artes, os encontros com outros artistas, as experiências com a abstração. A vida foi ampliando seus horizontes, mas nunca lhe arrancou as raízes. Joubert levava Sergipe consigo. Em cada tela, em cada escultura, em cada cenário que criou, havia sempre um pouco da terra que o viu nascer e da sensibilidade que floresceu nas ruas da velha Aracaju.
Mário Britto encontrou uma definição que dificilmente poderia ser mais feliz: "Joubert tem uma relação completa e visceral com a arte". Talvez porque, para ele, a arte nunca tenha sido apenas profissão. Era respiração. Era linguagem. Era uma forma de compreender o mundo. E quando Britto escreve que "toca violão com a mão direita, pinta com a esquerda e, com ambas, faz as esculturas", desenha, em poucas palavras, um homem inteiro, cuja criatividade parecia desconhecer limites.
Hoje suas obras estão espalhadas pelo Brasil e por tantos outros países. Permanecerão onde sempre estiveram: nas paredes, nos museus, nas instituições, nas praças e nas casas de tantos admiradores. Mas permanecerão, sobretudo, onde Mário Britto tão bem registrou: "na memória e no coração do povo sergipano".
Quanto a mim, guardo outra galeria. Não é feita de quadros. É feita de lembranças. As ruas do centro de Aracaju, os encontros casuais, as famílias vizinhas, o cotidiano simples de uma cidade que nos ensinou o valor da convivência. Quando penso em Joubert, vejo também aquele pedaço da cidade que moldou nossas vidas e que continua existindo dentro de nós, mesmo quando o tempo transforma tudo ao redor.
A morte tem o estranho poder de silenciar uma voz, mas nunca consegue apagar uma presença. Os artistas conhecem esse segredo. Eles sobrevivem naquilo que deixam para os outros. Joubert compreendeu isso sem precisar dizê-lo. Pintou sua permanência em telas, esculpiu-a na matéria e gravou-a na memória de todos que tiveram o privilégio de conviver com sua arte e com sua generosidade.
Hoje Sergipe perde um de seus maiores artistas. Eu me despeço também de um companheiro de paisagem, de um rosto familiar da minha infância e juventude, de alguém cuja trajetória me enche de orgulho por ter acompanhado, ainda que de perto e silenciosamente, os seus primeiros passos.
Costuma-se dizer que a morte encerra uma vida. Talvez. Mas nunca encerra uma obra construída com talento, sensibilidade e amor. A verdadeira arte é uma forma de eternidade.
Joubert encerra hoje sua travessia humana. Paradoxalmente, é também hoje que sua obra se torna ainda mais definitiva. Porque o artista parte, mas a arte permanece. E, enquanto houver um sergipano capaz de se emocionar diante de uma de suas telas, de uma de suas esculturas ou da lembrança de sua delicadeza, Joubert continuará entre nós.
No caso da citação da palavra Bauhaus em Eduardo e Mônica especialistas acreditam que a citação na canção faz mais sentido para uma banda britânica pioneira do pós-punk/rock gótico, a qual utilizou o mesmo nome para se identificar...
O Camarote.21 homenageia os 100 anos da Bauhaus. O jubileu da famosa escola de design, arquitetura e artes coloca a Alemanha em destaque no cenário cultural de 2019. A Bauhaus surgiu em 1919, na cidade de Weimar: uma escola que impactaria a nossa concepção estética até os dias de hoje. Mas o que se sabe sobre a Bauhaus? Na verdade, muito pouco. É hora de desvendar mais – e desmentir alguns mitos! Entre eles:
Puramente funcional, sem frescuras: isso é Bauhaus? Sim, mas nem sempre! O design da Bauhaus se mostrou também colorido, divertido e exuberante. Com espírito livre, não existiam tabus para os integrantes da Bauhaus.
Bauhaus: uma invenção alemã? Este mito está errado! A Bauhaus era multicultural – com professores e alunos vindos de várias partes do mundo. Mais tarde, muitos deles foram para o exterior e construíram edifícios internacionalmente lendários. Arieh Sharon é um deles.
O sucesso da Bauhaus é sempre associado a nomes como Walter Gropius, Hannes Meyer e Mies van der Rohe. Quer dizer que todos os grandes mentores foram homens? Não! O êxito da Bauhaus dependeu também de grandes mulheres, como Ise Frank e Lilly Reich.
Em 1933, os nazistas chegam ao poder e fecham a Bauhaus. Foi realmente o fim?
Depois do fechamento da escola se desenvolve uma relação contraditória entre o regime e alguns integrantes da Bauhaus – uma parte da história que muitos preferem esquecer.
A quase veneração pela arquitetura e pelo design da Bauhaus se mantém até hoje. Casas e móveis, essa é a verdadeira arte da Bauhaus, certo?! Errado! A Bauhaus também produziu outros ícones: conheça o trabalho da designer Anni Albers.
Depois de 100 anos de fundação...a Bauhaus é só história? Muito pelo contrário, as ideias da Bauhaus estão mais vivas do que nunca. Como no México, por exemplo, com o trabalho de tecelagem da designer Amor Muñoz.
P.S:: Ao término da leitura desse texto não se esqueça, votar na extrema direita é sempre sacrificar o desenvolvimento e evolução da arte e da cultura, consequentemente da democracia social e dos direitos humanos.
As trilhas de filmes produzidos por Barretão e depoimentos de profissionais do audiovisual
O “Cine Cultura” deste sábado (25/07) homenageia o cineasta e produtor Luiz Carlos Barreto, que faleceu nesta quarta (22/07) aos 98 anos.
Barretão foi responsável pela direção e produção de filmes de sucesso do cinema nacional, como “Bye Bye Brasil” (de Cacá Diegues), “Dona Flor e seus dois maridos” e “O que é isso, companheiro?” (dirigidos pelo filho de Luiz Carlos, Bruno Barreto). O programa apresenta as trilhas de filmes produzidos e dirigidos por Luiz Carlos Barreto e depoimentos de profissionais do audiovisual.
Luiz Carlos Barreto (1928–2026): o produtor que fez do cinema brasileiro uma indústria
Redação
22 jul 26
Divulgação
Luiz Carlos Barreto
Morreu aos 98 anos Luiz Carlos Barreto, o Barretão, ao fim de uma dura luta pela saúde. Com ele se encerra uma das trajetórias mais longevas e decisivas da história do audiovisual nacional, iniciada nos bastidores do Cinema Novo e estendida por mais de seis décadas de produção ininterrupta. Sua partida deixa um amplo vazio, pessoal e profissional: vai-se o amigo, o mestre e o guia — a referência de talento, força, resiliência e liderança de toda uma indústria.
Barreto foi um cineasta completo no sentido mais literal do termo: fotógrafo, roteirista, diretor, documentarista, produtor, distribuidor e formulador de política. Não havia campo do audiovisual que não conhecesse em profundidade. Mesmo aos 90 e poucos anos, incorporava a evolução da tecnologia com rapidez e a capacidade de adaptar suas obras a cada novo tempo — empenhado, ainda recentemente, em levar seus títulos mais emblemáticos à alta definição. Seu legado intelectual é profundo e perpétuo.
Nascido em 20 de maio de 1928, em Sobral, no interior do Ceará, Barreto chegou ao cinema pela porta do jornalismo. Foi repórter fotográfico da revista O Cruzeiro entre 1950 e 1963, no auge da publicação comandada por Assis Chateaubriand, com quem conviveu de perto e a quem sempre creditou parte de sua formação como leitor de país. A vocação cinematográfica se revelou em 1961, quando cobriu, para a revista, as filmagens de Barravento, o primeiro longa de Glauber Rocha, no litoral baiano. Dali em diante, o repórter que sabia enquadrar o Brasil não voltaria mais atrás.
Do Cinema Novo à construção de um mercado
A entrada efetiva no meio veio como roteirista, ao lado de Roberto Farias, em O assalto ao Trem Pagador (1962). Logo assinaria a fotografia de Vidas secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, clássico absoluto do Cinema Novo e prêmio da crítica no Festival de Cannes de 1964. Em 1965, abandonou de vez o jornalismo para se dedicar exclusivamente ao cinema.
Foi então que Barreto revelou sua contribuição mais duradoura: a de organizador e empreendedor de uma cinematografia que, até então, vivia de gestos isolados. Fundou a Difilm, distribuidora que reuniu diversos diretores do Cinema Novo sob uma mesma estrutura — um raro exercício de articulação industrial num cinema historicamente pulverizado. Em seguida, ao lado da mulher e sócia Lucy Barreto, criou a L.C. Barreto Produções Cinematográficas, uma das mais importantes e longevas produtoras do país, responsável por dezenas dos títulos que definem o cânone nacional.
Como produtor e coprodutor, seu currículo confunde-se com a própria história do cinema brasileiro moderno: Terra em transe* (1967), de Glauber Rocha, prêmio da crítica em Cannes; Brasil ano 2000 (1969), de Walter Lima Jr., Urso de Prata em Berlim; Bye Bye Brasil (1979), de Cacá Diegues; Memórias do cárcere (1983), de Nelson Pereira dos Santos, novamente premiado em Cannes. Documentou também o Brasil popular em Garrincha, alegria do povo (1963) e Isto é Pelé (1974), e chegou ao século XXI com títulos como Bossa Nova (2000) e Flores raras (2013). Ao longo da vida, Barreto contabilizava um universo de cerca de 150 títulos, entre produções e coproduções, com aproximadamente 70 a 80 filmes assinados pela produtora e 30 adaptações literárias — "filmamos o Brasil do extremo Norte ao extremo Sul", resumia.
O produtor de bilheteria — e de prestígio
Se o Cinema Novo lhe deu a formação, foi na conquista do público que Barreto cravou seu nome no mercado. Dona Flor e seus dois maridos (1976), dirigido pelo filho Bruno Barreto, tornou-se um marco: mais de 10 milhões de espectadores e um dos maiores fenômenos de bilheteria da história do cinema brasileiro. Barreto gostava de lembrar que o filme havia superado, nas salas nacionais, Tubarão, de Steven Spielberg — episódio que, para ele, era mais do que anedota: era a prova de que o cinema brasileiro podia dominar o próprio mercado.
Duas vezes levou o país à disputa do Oscar, com filmes dirigidos pelos filhos: O Quatrilho (1996), de Fábio Barreto, e O que é isso, companheiro? (1997), de Bruno Barreto, ambos finalistas na categoria de melhor filme estrangeiro. Poucos produtores brasileiros reuniram, numa só trajetória, bilheteria recorde e reconhecimento nos grandes festivais e na Academia.
Nos últimos anos, sua obra foi celebrada em retrospectivas no Lincoln Center, em Nova York, no segmento Cannes Classic do Festival de Cannes, na Cinemateca Portuguesa e no Festival de Berlim. Em 2024, recebeu a Medalha da Abolição, principal honraria do governo do Ceará. Recentemente, seu acervo fotográfico — testemunho de um Brasil registrado lente a lente — foi destinado ao Instituto Moreira Salles, passando a integrar um dos mais importantes arquivos do fotojornalismo brasileiro.
Um agente das políticas audiovisuais
Mais do que produzir filmes, Barreto pensava o sistema que os tornava possíveis. Foi presença constante na formulação de políticas para a produção nacional e um dos mais insistentes defensores da autossustentabilidade da indústria audiovisual brasileira. Sua militância remonta aos tempos do Grupo Executivo da Indústria Cinematográfica (GEICINE) e atravessa toda a era da Embrafilme, período que ele considerava o ápice da conquista de mercado pelo cinema nacional. Foi um dos principais líderes da sociedade civil no processo de construção, entre 1993 e 2012, do atual marco legal do audiovisual brasileiro.
"A luta toda do cinema brasileiro foi a de conquistar o seu próprio mercado. Isso foi conseguido na época da Embrafilme. Chegamos a alcançar 42% do mercado", declarou ao Correio Braziliense, em 2023. Na mesma entrevista, comparava aquele patamar com o cenário mais recente — "hoje, não temos nem 1%. Isto é um escândalo" — e cobrava do Estado a regulação e o arcabouço criado pela Medida Provisória 2228-1.
Barreto fazia questão de situar o cinema acima das disputas ideológicas do momento. "O cinema tem que ser livre e independente de direita ou esquerda. O cinema é uma atividade ampla, de pensamento largo", afirmou, citando Roberto Rossellini: "O cinema é a alma de cada país." Para ele, filme era, simultaneamente, obra de autor e produto de uma indústria — e essa dupla natureza foi a bússola de sua atuação como empresário e como articulador político do setor.
Sua ausência se faz sentir num momento particularmente delicado. O cinema brasileiro vive hoje um quadro de alarmante desordem estrutural, e é difícil não imaginar que, tivesse Barreto conservado a saúde nesses últimos dois anos, em condições de exercer suas conhecidas capacidades de articulação e liderança, a situação não seria tão grave. Que seu exemplo ilumine os operadores políticos do presente.
Legado
Patriarca de uma das mais influentes famílias do cinema brasileiro — ao lado de Lucy Barreto e dos filhos Bruno, Fábio (morto em 2019) e Paula, que está à frente da L.C. Barreto, mantendo em atividade a produtora que carrega as iniciais do pai e dá continuidade ao legado da família —, Luiz Carlos Barreto deixa uma obra que é, ao mesmo tempo, acervo estético e infraestrutura de mercado. Foi um dos raros que entenderam, desde cedo, que o cinema brasileiro só existiria de forma perene se tivesse público, distribuição e política pública sustentando a criação.
Ao mercado que ajudou a fundar, Barretão lega a certeza incômoda e mobilizadora que repetiu por décadas: um país só é dono de sua imagem quando é dono de suas telas.
Aqui na Filme B guardamos dele uma lembrança à altura do personagem. Um dia, o telefone da redação tocou e do outro lado estava o próprio Barretão, pedindo para falar com o Paulo. Diante da ausência, foi logo ao ponto: "Ah, é que escreveram aí uma matéria sobre mim me chamando de lendário. Sempre que escrevem sobre mim botam esses adjetivos. Parece que eu morri. Quem escreveu?" Prometemos tirar o adjetivo. "Obrigado", respondeu, satisfeito, o lendário cineasta Luiz Carlos Barreto.
A Lucy, Bruno, Paula e Cláudio, netos, netas, bisnetos e bisnetas, o carinho e as condolências da Filme B.
Sobre a primeira parte do segundo módulo da Oficina "Cinema na Palma da Mão".
Realizada no dia 26 de julho de 2026, das 14h às 17h, no Aracaju Shopping Parque, a primeira parte do segundo módulo da oficina de audiovisual com celular contou com a equipe formada por Marcel, Raoni, Iasmin e Zezito, totalizando 16 participantes. A aula teve como foco central o ensino de técnicas básicas de edição de vídeo, utilizando o aplicativo CapCut como ferramenta principal.
Para fundamentar o aprendizado teórico, foi apresentada uma aula expositiva com slides, seguida pela instalação do aplicativo nos celulares dos participantes. Marcel conduziu um passo a passo detalhado composto por dez etapas essenciais: inicialmente, realizou-se a sincronização do material; em seguida, a remoção de excessos (tanto gerais quanto específicos do entrevistado) e a aproximação das falas; na sequência, procedeu-se aos cortes precisos para definição da montagem final, à inserção de trilha sonora e à adição de imagens de apoio (fotos e vídeos); por fim, foram incluídos textos e créditos, além da aplicação de transições e correção de cor.
Na parte prática, os grupos que já haviam realizado as entrevistas reuniram-se para editá-las, contando com a supervisão direta de Marcel e Raoni. Paralelamente, o grupo que ainda não havia gravado seu material seguiu a dinâmica proposta, observando e registrando o passo a passo para que estejam aptos a editar suas futuras entrevistas. Dessa forma, a oficina conseguiu integrar teoria e prática de maneira equilibrada, garantindo que todos os participantes evoluíssem no manuseio da ferramenta, independentemente da fase em que se encontravam no processo de produção audiovisual.
Ontem, sexta-feira, 24/072026. tive o privilégio de assistir ào ensaio aberto da sequência de cenas curtas trabalhadas ao longo do processo de ensino-aprendizagem da primeira oficina de teatro popular do Ponto de Cultura Ação Cultural em 2025, depois de 10 anos de suspensão.
acima atores realizando exercicios de memorização antes da apresentação final na atividade ensaio aberto
O que posso garantir é que o burburinho que ouvi durante os quatro dias em que estive próximo ao grupo — tanto alunos inscritos quanto professores — correspondia exatamente ao que vinha sendo comentado e que já havia sido registrado no primeiro artigo sobre a oficina, disponível no blog da cultura. aqui
Da parte dos alunos, confirmo a impressão do professor Raimundo Venâncio, que me disse ter se surpreendido com o talento dos inscritos e com o compromisso e a responsabilidade de todos, sem distinção. O que vi durante as apresentações foi exatamente isso: atores e atrizes bem centrados em seus papéis, buscando uma interpretação fluida, com pouca hesitação, esforçando-se para extrair o que os personagens tinham de mais expressivo e desafiador — e não era pouco, pois os textos escolhidos carregam uma densidade psicológica e existencial intensa.
Mais importante ainda: os temas das histórias colocam em cena questões fundamentais, que nos fazem pensar sobre o mundo em que vivemos. Questões que, na verdade, atravessam o convívio humano e social há séculos, reaparecendo sob novas roupagens ao longo do tempo. Basta lembrar do drama de Hamlet, de Shakespeare — um príncipe que se vê diante do pai assassinado pelo próprio tio, que ainda trai o irmão com a cunhada para apossar-se do trono. Um conflito de poder, lealdade e identidade que ressoa até hoje, em diferentes contextos. E não custa recordar que Shakespeare, embora hoje seja considerado um clássico erudito, foi, em sua época, um autor de peças bastante populares, que dialogava diretamente com o gosto e as inquietações do público comum — algo que esta oficina resgata com maestria.
Entre as outras cenas curtas, algumas me chamaram particularmente a atenção por abordarem questões bem contemporâneas, que me fizeram recordar o conceito de amores líquidos, cunhado pelo filósofo polonês Zygmunt Bauman — relações frágeis, descartáveis, que se esvaem como água. Outra cena, de forma inteligente e inventiva, valeu-se da linguagem da literatura de cordel para misturar São Pedro, o Céu, o Diabo e um ex-deputado num diálogo cuja conclusão nos oferece uma reflexão aguda sobre como construímos o céu e o inferno aqui mesmo na Terra, por meio de nossas escolhas políticas e éticas.
Embora nos tempos atuais as peças de Shakespeare, assim como as de outros autores clássicos e contemporâneos, estejam, em geral, distantes do grande público — restritas a circuitos especializados ou a temporadas elitizadas —, iniciativas como a do Ponto de Cultura Ação Cultural vêm justamente para romper essa barreira. Ao trazer o teatro popular para o centro da comunidade, elas reafirmam a arte como direito de todos, e não como privilégio de poucos. Mais do que entretenimento, essa oficina demonstra que o teatro pode ser um espaço de formação crítica, de acolhimento de vozes diversas e de reinvenção coletiva da realidade.
Ao final, fica a certeza de que a semente lançada nesses dias já germinou — não apenas nos talentos revelados, mas na consciência de que a cena, quando é genuinamente popular, reflete e transforma a vida. Que venham as próximas oficinas, e que o burburinho continue, pois ele é o sintoma de uma cultura viva, pulsante e necessária.
Hoje, sábado, 25/07/2026 será o encerramento, com o segundo ensaio aberto para familiares e amigos convidados. Às 16h30 no pátio do espaço de convivência da Paróquia São Pedro Pescador.
No dia 22 de agosto a apresentação das cenas serão repetidas na Mostra Arte e Cidadania juntamente com outras apresentações culturais, musica, audiovisual, hip-hop e maculelê mirim do povoado São Braz de Nossa Senhora do Socorro em homenagem ao dia 22 de agosto, comemorado como dia do folclore.
Abaixo a lista dos textos de onde as cenas foram retiradas:
1. Sou Criança (Ivone Boechat)
2. Seu Darlei (Nicolás Monastéri)
3. Valsa N° 6 (Nelson Rodrigues)
4. Hamlet (William Shakespeare)
5. Espelho, Espelho Meu! (Nicolás Monastéri)
6. Campanha Eleitoral (Maviel Melo)
7. A Encalhada (Ingrid Guimarães e Aloísio Abreu)
*Recorte da Peça Cócegas
"Hamlet" soviético é exibido hoje
21 de Junho de 1999
PAULO SANTOS LIMA
free-lance para a Folha
A obra mais conhecida de William Shakespeare é exibida hoje numa versão que nem todos conhecem ou esperavam conhecer.
"Hamlet", produção soviética de 1964 dirigida por Grigory Kozyntsev, integra o ciclo Teatro, Cinema e Psicanálise, promovido pela Sala Cinemateca em parceria com a Sociedade Brasileira de Psicanálise.
Após a exibição do filme, o psicanalista Luis Carlos Menezes e o crítico e professor de Letras da USP José Miguel Wisnik -mediados pelo também psicanalista Uracy Simões- abrem mesa-redonda para discutir o filme e a obra do dramaturgo inglês.
Enganam-se os que esperam ver um filme de técnica rústica. Antes de qualquer metáfora política, "Hamlet" ("Gamlet", em russo), é uma adaptação em princípio fiel ao texto original. Há, ainda, um rigor estético e narrativo como pouco se vê nessas transposições.
Como no original, Hamlet é o príncipe que ouve o fantasma de seu pai pedindo vingança por ter sido assassinado pelo irmão, que assumiu o trono da Dinamarca.
O problema é que o jovem príncipe (Innokenti Smoktunovsky, ator de prestígio na época, mas, convenhamos, com 39 anos, um tanto velho para o papel) não sabe como viabilizar a vingança, uma vez que não há provas fáceis que incriminem seu tio. Outra questão: sua mãe, Gertrudes, traiu o rei com o cunhado.
Quem é culpado, o quanto é culpado e o quanto a natureza humana contribuiu para esse e outros crimes é o dilema que faz de Hamlet um louco para os cortesãos.
Não é só. Junto a traições de amigos -o único confiável é Horácio- e tentativas de assassinato, ele ainda nutre um amor tortuoso por Ofélia (a bela Anastasiya Vertinskaya), mulher que cai na verdadeira loucura, aquela que leva à destruição.
Apesar de parecer um filme dos anos 50, o "Hamlet" soviético possui fotografia e cenografia adequadas, simples e cumprindo a caracterização do texto. O diretor não o rodou como teatro-filmado, ao contrário, mantém uma câmera sempre em panorâmicas e travel-lings, instigando o olhar do espectador que mais se ateria ao discurso da obra shakespeareana.
Adaptações de "Hamlet" não faltam. Pelo menos 25 versões "fiéis" existem -do "Hamlet" de Clement Maurice (1900) ao "Hamlet" de Michael Almereyda (99), passando pelos ótimos "Hamlet" de Laurence Olivier (48) e de Kenneth Branagh (96) e o péssimo de Franco Zeffirelli (90).
O que só fortalece a leitura de Grigory Kozyntsev. Basta a última sequência, que mostra o protagonista carregado por espadas.
A primeira mesa da programação principal da Flip, nesta quinta-feira (23), reuniu os “sedentos de palavras”, na expressão de José Tolentino de Mendonça. O cardeal e poeta português conversou com o poeta mineiro Edimilson de Almeida Pereira sobre o silêncio e o tumulto causados pelo poema. E, a partir de uma pergunta da mediadora, a também poeta e editora da Tinta-da-China Brasil Sofia Mariutti, sobre a profanação que ela enxerga na obra dos dois.
“Profanar não é destruir, é dar outro uso”, disse Tolentino de Mendonça citando o filósofo italiano Giorgio Agamben. “A poesia serve para profanar o silêncio, usá-lo de outra forma. Poetas tentam devolver ao silêncio a gramática da vida”.
Mais do que isso, acrescentou Pereira, é o que silencia provocando o ruído. “A poesia devolve o silêncio que a sociedade nos tira”, disse. Não à toa, o nome da mesa era “Saber de cor o silêncio”, título de um poema de Orides Fontela, a homenageada da Flip 2026.
Também não foi por acaso que Mariutti perguntou sobre a relação entre a prática espiritual e a escrita de poesia. Tolentino de Mendonça, além de cardeal, esteve na “shortlist” de sucessores do Papa Francisco e é prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação no Vaticano. Na noite de quarta (22), celebrou uma missa, bastante concorrida, no centro histórico de Paraty.
“O ato artístico é sempre espiritual. A fé é a disponibilidade para o nomadismo interior”, afirmou. Tolentino de Mendonça ainda contou que, em seu trabalho, passa horas escrevendo relatórios nada poéticos. “Mas ir ao osso desses textos sem adjetivos é uma escola de poesia, porque o poema se constrói com substantivos, não com adjetivos”.
E, como toda arte para ele, nasce da dor: “Experimentar na carne a ferida, não só a cicatriz, a lembrança do que dói, é também a expansão, o parto, essa coisa cósmica de um passar a dois, o encontro daquilo que se abre”.
Para Edimilson de Almeida Pereira, nas culturas populares, a ideia de ferida não se instala. “Para algumas comunidades, talvez ferida seja algo muito concreto e letal. O contraponto da ferida é a consciência de que a vida é, a um só tempo, momentânea e infinita”.
Transformação tradicional
Os dois poetas também falaram sobre a convivência de tradição e experimentação em suas obras. “Na perspectiva das culturas afrodiaspóricas, não há dicotomia entre o que é tradicional e o que é transformação. São comunidades que vivem deslocamentos, não só geográficos, mas de visão de mundo. O paradoxo entre modernidade e tradição está nos poetas populares, e temos trabalhado nessa perspectiva”, disse Pereira.
O poeta-cardeal Tolentino de Mendonça, conhecido por seu interesse na cultura pop contemporânea (entre outros, é fã da cantora Rosalía e do cineasta Pier Paolo Pasolini), disse buscar a ponte entre a tradição oral e a escrita, entender como os poemas passaram de orais para escritos. “Minha avó, que era analfabeta, foi minha primeira biblioteca. Quando fui trabalhar na biblioteca do Vaticano, quis recordar minha avó e todos os analfabetos que têm sido, por séculos, responsáveis pela transmissão da literatura.”
Em vários momentos da conversa, os dois fizeram leituras de seus poemas. Em uma dessas ocasiões, o sino da igreja matriz de Paraty tocou enquanto Tolentino de Mendonça recitava. “A poesia é uma só. A dos sinos, das palavras, de tudo”, disse a mediadora. “O espanto é o umbigo do mundo. Quando somos capazes de espanto, estamos vivos. A poesia tem que ser a iniciação para o espanto”, emendou, muito poeticamente, Tolentino de Mendonça.
Flip 2026
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026.
Sugestão do editor do blog para quem gosta de música brasileira. As que estão abaixo dialogam com a palestra acima, mas não só estas, outras contribuições podem ser enviadas via comentários ..