quarta-feira, 29 de julho de 2026

Cineclube Realidade realiza sessão especial nesta sexta feira (31) em evento do SIndoméstica SE para exibir o curta "Domésticas".

O curta-metragem Domésticas, produzido pela ONG ThemisGênero, Justiça e Direitos Humanos em parceria com a ONU Mulheres (Fundo de Igualdade de Gênero) e o fundo ELAS, conta a história de três mulheres trabalhadoras domésticas. Com direção de Felipe Diniz e realização da Casa de Cinema, o documentário integra o projeto “Trabalho Doméstico: Construindo Igualdade no Brasil”. O filme — lançado em 2016 será exibido nesta sexta-feira (31), às 14h, no Sindoméstica_SE, no Centro de Aracaju — acompanha o cotidiano de profissionais como a baiana Creuza Oliveira, presidenta da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas, e outras duas mulheres contatadas pela ONG a partir de atividades com a categoria.


A produção surge em um contexto fundamental: em 2013, a Themis começou a fortalecer redes da categoria com oficinas pelo país. No mesmo ano, foi aprovada a PEC que garante direitos às domésticas — regulamentada apenas em 2015 e que, ainda hoje, formaliza apenas cerca de 30% das trabalhadoras (dado de 2016). Diante da desvalorização, da discriminação, da vulnerabilidade e da herança racista e sexista que marcam a atividade, o objetivo do curta, conforme explica a coordenadora Michele Savicki, é mostrar essa realidade e fomentar o debate. “Queremos que as pessoas possam debater sobre elas e sobre a lei aprovada, que estejam atentas a isso”, afirmou. A produtora executiva Ana Luiza Azevedo, da Casa de Cinema, reforça que a ideia é continuar ampliando esse registro, "contar um pouco a história delas em vários lugares do Brasil".

E essa mensagem encontrou eco imediato. Desde suas primeiras exibições, o curta se transformou em um espelho doloroso para muitas espectadoras. Mais do que um registro audiovisual, a obra provocou uma onda de relatos sinceros nas redes sociais — memórias de infância roubada, promessas não cumpridas, humilhações silenciosas e uma luta incessante por reconhecimento e direitos trabalhistas. A seguir, uma reportagem construída a partir das vozes de quem viveu essa realidade na pele.

 “Doeu, me vi nesse filme”: a realidade das domésticas em depoimentos.

“Meu sonho era estudar”: a infância interrompida

Entre os depoimentos, um dos mais comoventes é o de uma mulher que, aos 13 anos, foi trabalhar na casa de uma professora. “O meu sonho era estudar, amava os livros, cheirava, abraçava, pedia para as crianças me ensinarem”, relembra. Ela caprichava no uniforme, mas o sonho esbarrava na rotina exaustiva: “Era muito trabalho, não dava tempo”. Viúva, sua mãe tinha muitos filhos, e ela foi trabalhar para diminuir as despesas de casa, com a promessa de que poderia estudar — promessa que, na prática, nunca se cumpriu.

Outra história semelhante é a de uma mulher que, com apenas 11 anos, foi levada para outra cidade com a promessa de brincar, mas acabou trancada em um apartamento, limpando e tomando banho gelado. “Quando eles saíam, eu ficava trancada no apartamento, com muito medo”, desabafa. “Foram tempos difíceis.” 

Invisibilidade e desumanização: “alicerce dos prédios”

A metáfora talvez mais forte veio de um dos comentários: “A empregada doméstica ou a diarista no Brasil são como alicerces dos prédios: fundamentais, mas invisíveis” . Essa invisibilidade se traduz em gestos cotidianos de desrespeito. Uma usuária relata que sua mãe, manicure, tinha uma amizade de longa data com uma cliente. Quando sua mãe faleceu, a cliente nunca mandou uma mensagem de pesar. Anos depois, ao reencontrá-la na igreja, a única pergunta foi: “Você faz unha igual sua mãe também?” — ou seja, ainda buscava uma serviçal.

O relato de uma sobrinha expõe a crueldade com que muitas são descartadas: sua tia trabalhou 46 anos na mesma casa, criou os filhos da patroa e abriu mão de constituir a própria família. Seu quarto era do tamanho de uma cama, sem água quente. “Quando ela adoeceu, eles não sabiam como descartá-la bem rápido”, conta. “Ela morreu deprimida, magoada pelo desprezo.” 

A luta por direitos: “para futilidades, pagam caríssimo”

A disparidade de valores é um dos pontos mais citados. “Para futilidades, os patrões pagam caríssimo. Para o direito das domésticas, tudo custa muito”, resume uma internauta. Outra denuncia: “Tem patrões que não querem pagar passagem e ainda dizem que queremos ganhar mais que eles que estudaram.” A resposta é direta: “É cada um limpar sua casa e organizar sua própria bagunça.

Apesar dos avanços legais — como a PEC das Domésticas e a LC 150/2015 —, muitos apontam que a exploração persiste. “Pra mim é uma escravidão até hoje. Fazem mil e uma coisas por um salário horrível e ainda são humilhadas”, desabafa uma jovem. Outra lamenta: “Minha mãe trabalhou 20 anos numa casa e saiu sem nada.” 

Resiliência e esperança: “graças a Deus, estudei muito”

Em meio à dor, há relatos de superação. A mesma mulher que começou aos 13 anos conseguiu, anos depois, estudar à noite e trabalhar de dia. “Terminei ensino médio, fiz Enem”, conta com orgulho, embora lamentando não ter concluído a faculdade de fisioterapia. “Eita, tenho história pra contar.”

Outras vozes celebram as conquistas: “Graças a Deus, hoje o direito está esclarecido para acabar com essa escravidão no Brasil” . E há quem veja no curta uma ferramenta de transformação: um professor de história do Ceará conta que usa o documentário em suas aulas na periferia , e uma internauta defende que “deveria ser obrigatório assistir esse documentário nas escolas”.

Os depoimentos revelam que o curta “Domésticas” não é apenas um filme — é um retrato cru de uma realidade que ainda persiste. São histórias de infâncias roubadas, de corpos invisibilizados, mas também de resistência. Como resume uma das participantes: “Temos direitos atualmente, obrigada a vocês que lutaram por essa conquista!” A luta, porém, continua — e cada relato é um lembrete de que o trabalho doméstico, essencial para o funcionamento de tantos lares, merece ser tratado com a dignidade que sempre lhe foi negada.


Programa voltado para qualificação de profissionais do setor cultural de Aracaju está com inscrições abertas

 A prefeita de Aracaju, Emília Corrêa, divulgou nesta quarta-feira, 29, o Plano de Formação Artístico e Cultural 2026. A iniciativa é destinada para a qualificação de artistas, agentes culturais, produtores, fazedores de cultura e demais profissionais do setor cultural da capital


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As inscrições são gratuitas e seguem abertas. A programação reúne cursos, oficinas e palestras voltados ao fortalecimento da cadeia produtiva da cultura.

O programa contempla capacitações em áreas estratégicas, como elaboração e gestão de projetos culturais, formalização profissional, uso de ferramentas digitais, prestação de contas, comunicação, captação de recursos, produção executiva de eventos e formação artística.

O plano também beneficiará estudantes da rede municipal de ensino e usuários dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), ampliando o acesso à formação cultural e incentivando o desenvolvimento de talentos em diferentes territórios da cidade.

Em vídeo publicado em suas redes sociais, Emília destacou a importância do projeto para os artistas que não possuem condições financeiras para capacitação de suas trajetórias profissionais.

“Imagine um artista que tem talento e tem uma ideia incrível, mas não tem recursos pra botar pra frente. Aí ele encontra um edital que pode financiar, só que quando ele vai se inscrever, o edital pede orçamento, cronograma, documentação, prestação de contas…Ele sabe fazer arte, o que ele não sabe é como transformar o talento dele em um projeto capaz de conquistar aquela oportunidade”, explicou a prefeita.

O plano inicia em agosto e segue até o mês de novembro. As datas oficiais das oficinas de agosto devem ser divulgadas ainda nesta quarta, 29.

Para os interessados, as inscrições são limitadas e podem ser realizadas por meio de formulário disponível no Instagram da Secult Aracaju ou AQUI. 




 

 

 


Vamos assistir ECOS DO TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO? Será que podemos contar com mais presença de professores da educação básica e superior, estudantes dos cursos de teatro da UFS e cursos livres, de História , Audiovisual, Comunicação e lideranças ligadas ao movimento negro? E com quem mais?


 O documentário Ecos do Teatro Experimental do Negro lança um olhar contemporâneo sobre a presença negra nas artes brasileiras. O roteiro utiliza a encenação de peças históricas do TEN, fundado por Abdias Nascimento, como fio condutor narrativo. Unindo performances clássicas a depoimentos de artistas influenciados pelo movimento, a obra revela a resistência contra o blackface e a evolução do teatro negro, conectando o legado de 1944 aos coletivos atuais.



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Critica

Ecos do Teatro Experimental do Negro parte da história de um dos movimentos culturais mais importantes do Brasil para discutir um tema que permanece atual: quem ocupa os espaços de representação e quem ainda precisa lutar para ser visto. Ao revisitar o legado do Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias do Nascimento, o documentário não se limita a reconstruir um capítulo da história do teatro brasileiro. Ele evidencia como muitas das questões levantadas décadas atrás continuam presentes nas artes e na sociedade.

A direção de Daniel Solá Santiago encontra um equilíbrio interessante entre a pesquisa histórica e a reflexão contemporânea. Em vez de organizar uma narrativa puramente cronológica, o filme estabelece um diálogo entre passado e presente por meio de encenações, imagens de arquivo e depoimentos de artistas que ajudam a compreender a dimensão política e cultural daquele movimento. Essa estrutura impede que a obra se transforme apenas em uma aula de história e aproxima o espectador das discussões propostas.


segunda-feira, 27 de julho de 2026

Ele é um Silva que se tornou presidente do Brasil e sabe defender a democracia e a soberania da nação


O Rap do Silva original. Aqui

"Lula para Trump: ‘Ninguém vai nos derrotar através de mentiras’

(The Washington Post, 26.7.2026)

Há um ano, fiquei surpreso com a publicação, em uma plataforma digital, de uma carta do presidente Donald Trump impondo uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. O primeiro parágrafo se referia ao ex-presidente Jair Bolsonaro — que foi condenado ano passado por tentativa de golpe de Estado no Brasil e agora está em prisão domiciliar —, explicitando a motivação política por trás da medida.

Nas minhas conversas com o Presidente Trump desde então, salientei que não precisamos partilhar a mesma visão do mundo para prosseguir numa relação mutuamente benéfica entre os nossos países. Afinal, lideramos as duas maiores democracias e economias das Américas.

Negociações entre nós, juntamente com decisões da Suprema Corte dos EUA, desmantelaram a versão inicial das medidas tarifárias abrangentes. No entanto, este mês, desconsiderando dezenas de reuniões entre as nossas equipes, argumentos técnicos sólidos e documentos que entreguei pessoalmente ao Presidente Trump, o governo dos EUA impôs novas tarifas ao Brasil variando de 12,5% a 37,5%.

Como resultado, a Global Trade Alert, uma organização independente sediada na Suíça, estima que o Brasil e a Turquia são agora os dois países mais fortemente tarifados pelos Estados Unidos, atrás apenas da China. Isto apesar do superávit dos EUA com o Brasil no comércio bilateral de bens e serviços, que totalizou US$ 428 bilhões em 15 anos consecutivos.

Além de injustas, as novas tarifas são um erro estratégico: prejudicarão a economia dos EUA e a parceria com o Brasil. Vários setores industriais dos EUA dependem de insumos brasileiros. Alimentos, calçados, têxteis, móveis, autopeças e muitos outros produtos ficarão mais caros para os consumidores dos EUA.

As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram para o nível mais baixo desde 1997. Comparando os primeiros seis meses de 2025 e 2026, o comércio bilateral com os EUA caiu 12,8%, enquanto o comércio do Brasil com a União Europeia cresceu 6,1% e seu comércio com a China aumentou 15,9%.

A médio prazo, essas tarifas irão perturbar cadeias de abastecimento hoje profundamente integradas, e as empresas brasileiras substituirão os fornecedores norte-americanas por parceiros de outros lugares.

Isso diz muito sobre a inconsistência entre os interesses que os Estados Unidos proclamam em sua estratégia de segurança nacional e as políticas que seguem em relação ao Hemisfério Ocidental.

A América Latina e o Caribe não precisam de porta-aviões patrulhando suas águas nem de tarifas punitivas. O que nos falta são parceiros confiáveis e previsíveis. Numa época em que os EUA estão fechando seu mercado, outros países têm se apresentado como alternativas, oferecendo uma agenda positiva capaz de fomentar o desenvolvimento econômico e social.

Estou convencido de que unir forças em torno de iniciativas concretas que envolvam investimento, comércio e luta contra o crime organizado é o caminho a seguir para superar os males que afligem um hemisfério que pertence a todos nós.

Dividir o mundo em esferas de influência e buscar empreendimentos neocoloniais em busca de recursos estratégicos são gestos anacrônicos e retrocessos.

Apesar da longa história de intervenções políticas e militares dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe, houve momentos em que Washington se mostrou capaz de ser um parceiro digno de nossos interesses de desenvolvimento.

O Presidente Franklin D. Roosevelt implementou a Política de Boa Vizinhança, que procurava substituir o uso da força pela diplomacia na política externa dos EUA em relação à região. Essa abordagem contribuiu decisivamente para os estágios iniciais da industrialização do Brasil. Ao enfrentar a crise financeira de 2008, o Presidente George W. Bush incluiu três países latino-americanos na cimeira inaugural do Grupo dos 20 líderes.

Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é a guerra contra a fome, a pobreza e a desigualdade. E as únicas armas que devemos utilizar são o investimento, a transferência de tecnologia e o comércio justo e equilibrado.

Tentativas de impor restrições ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não serão aceitas. Nunca antes um secretário de Estado dos EUA declarou que o Brasil não é amigo dos Estados Unidos. Ninguém nos derrotará através de mentiras.

As alegações do presidente Trump contra o Brasil, tentando justificar tarifas, são infundadas. A liberdade de expressão não é um passe livre para atividades criminosas nas plataformas de redes sociais — não desistiremos de proteger as nossas famílias e crianças da ganância de um punhado de oligarcas tecnológicos. Nosso sistema de pagamento, PIX, não discrimina empresas dos EUA. e é uma referência internacional em infraestrutura pública digital. O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023, começamos a combater agressivamente os crimes ambientais e a reduzir drasticamente o desmatamento em todos os biomas brasileiros.

Respeitamos a soberania de outros Estados e negociamos com todos aqueles que sabem respeitar a nossa. A reciprocidade é a base de todas as relações entre as nações, e temos os mecanismos apropriados para garanti-la.

Estamos prontos para continuar engajados em um diálogo aberto e construtivo, como exige o relacionamento entre dois países como Brasil e Estados Unidos. Mas o destino do Brasil cabe somente aos brasileiros determinar — sem interferência estrangeira ou subserviência."

Morre o artista plástico sergipano Joubert Moraes e com ele um pouco da Aracaju pacata e com ares de interior..

O corpo dele foi sepultado na Colina da Saudade, em Aracaju. Ele deixa esposa, uma filha e um neto.

Por g1 SE

26/07/2026 

O artista plástico sergipano Joubert Moraes morreu aos 78 anos, em Aracaju, neste sábado (25). A informação foi confirmada por familiares.

O velório aconteceu neste domingo (26) na Colina da Saudade, na capital, onde o corpo de Joubert também será sepultado. Ele deixa esposa, uma filha e um neto.

Joubert nasceu no dia 13 de dezembro de 1947 em Propriá, em uma família de artistas: o pai era poeta e escritor, a mãe cantora e bordadeira, e a irmã pintora.

O artista construiu mais de 55 anos de uma carreira rica com trabalhos de pintura, desenho, escultura, música, cenografia, poesia e diversas outras linguagens artísticas.

Ainda em vida, Joubert recebeu diversas premiações como o Prêmio Horácio Hora de Artes Plásticas e Prêmio J. Inácio, além de participações no Festival de Artes de São Cristóvão (FASC).


Joubert Moraes: A Alma Visual de Sergipe que Conquistou o Mundo

Por Blog da Cultura (conteúdo produzido com IA)

Quando se fala em artes visuais sergipanas, um nome ressoa com a força das dunas e a poesia do São Francisco: Joubert Moraes (1947–2026). Ao longo de mais de seis décadas de dedicação integral à criação, ele não apenas pintou e esculpiu — ele fundiu a identidade cultural de seu estado natal a uma linguagem estética universal, construindo pontes sólidas entre o Nordeste e o cenário artístico nacional e internacional.

Sua trajetória é um testemunho vivo de como a arte pode ser, ao mesmo tempo, profundamente enraizada e radicalmente livre. Vamos explorar a vida, a obra e o legado desse mestre que transformou Sergipe em tela e o mundo em seu ateliê.

O Artista que Carregava o São Francisco na Alma

Joubert Moraes nasceu em 13 de dezembro de 1947, em Propriá, às margens do Rio São Francisco. Filho de João Teixeira de Moraes, um celebrado poeta e escritor local, e de Dona Júlia, que se dedicava ao canto e ao bordado, o menino cresceu imerso em um ambiente profundamente poético.  Curiosamente, o nome "Joubert" era o pseudônimo literário que seu pai utilizava para assinar crônicas e poesias na imprensa regional — um prenúncio da vocação artística que viria a se manifestar no filho.

Aos sete anos, mudou-se com a família para Aracaju, onde seu universo de referências se expandiu. Mas foi aos 13 anos que sua jornada como artista ganhou um impulso decisivo: sua irmã mais velha, Gêlda Maria, desistiu de pintar e doou ao jovem irmão todo o seu estoque de tintas, telas e pincéis.Foi o pontapé inicial de uma carreira que moldaria a identidade visual de todo um estado.

A Formação de um Mestre: Entre a Bahia e o Mundo

Na adolescência, já em Aracaju, Joubert tornou-se frequentador assíduo da pioneira Galeria Acauã, onde absorvia debates e arte contemporânea. Frequentou os ateliês de ícones da pintura sergipana como Florival Santos e J. Inácio, aprendendo técnicas de luz, cor e a valorização temática do Nordeste.

Em 1968, aos 21 anos, realizou sua primeira exposição individual na histórica Galeria de Arte Álvaro Santos, consolidando o fim de sua juventude artística.  

Mas foi na Bahia que sua formação estética e intelectual atingiu novo patamar. No final dos anos 1960, mudou-se para Salvador para cursar o Curso Livre de Arte da Universidade Federal da Bahia, sob a tutela rigorosa do mestre Juarez Paraíso. Lá, sua mente se expandiu ao travar amizade com o arquiteto russo Lev Smarchevski e com o famoso navegador solitário Aleixo Belov, que o introduziram às teorias da geometrização e do abstracionismo internacional.

Integrou um efervescente núcleo de jovens artistas na Bahia, convivendo com nomes como Luiz Jasmim, Tatti Moreno e Fernando Coelho.  E, sobretudo, assimilou uma lição fundamental: a arte não deveria ter amarras geográficas. Essa visão, consolidada pelo contato com o crítico Wilson Rocha, permitiu-lhe fundir a tradição literária paterna ao expressionismo pictórico.

A Pintura em Quatro Movimentos

A trajetória pictórica de Joubert Moraes é marcada por uma evolução contínua, que pode ser dividida em quatro fases distintas:

1. Fase Acadêmica e Clássica — Seu início foi focado no rigor do desenho anatômico, no domínio das proporções e nas técnicas tradicionais de luz e sombra. Uma base sólida que lhe daria liberdade para ousar depois.

2. Fase Surrealista e Psicodélica — Influenciada pelos anos 1970 e por sua vivência na Bahia, essa fase incorporou distorções formais, cores vibrantes e elementos oníricos. A realidade ganhava contornos de sonho.

3. Fase Abstrato-Expressionista — No amadurecimento, a cor e as texturas pesadas ganharam autonomia sobre as figuras. O gesto livre tornou-se protagonista, e a tela transformou-se em campo de experimentação emocional.

4. Fase Paisagística Universal — A síntese de sua carreira. Dunas, coqueiros e o litoral sergipano foram transformados em formas quase geométricas e poéticas. Era o Nordeste visto através de uma lente universal. 

Quando a Tela Ganha Volume: A Escultura

Para Joubert, a escultura não foi uma ruptura, mas uma extensão natural da pintura. Ela surgiu como uma necessidade de fazer os volumes de suas telas saltarem para o espaço real. 

Sua transição para a tridimensionalidade se consolidou em grandes monumentos públicos de metal e concreto, que dialogam com a arquitetura das cidades. O maior exemplo é a escultura "Formas e Cores", na Orla da Atalaia, em Aracaju — uma obra que traduz o dinamismo de seus quadros em linhas tridimensionais, tornando-se um marco urbano e um símbolo da identidade visual de Sergipe.

Música, Cenografia e a Arte Total

Joubert Moraes era um artista completo. Sua faceta musical e cenográfica revela um criador que via a arte como um campo integrado.

Como cenógrafo teatral, criou ambientações imersivas para peças locais, aplicando seu entendimento de espaço e iluminação dramática. Como músico, explorava a sonoridade regional e a MPB, enxergando o ritmo sonoro como um reflexo direto do ritmo visual de suas telas.

Para ele, som, palco e imagem faziam parte de uma mesma expressão artística. Essa unidade estética enriquecia não apenas suas performances, mas toda a sua concepção de arte. 

O Legado: Reconhecimento e Projeção

A importância de Joubert Moraes para as artes plásticas sergipanas é imensurável. Suas obras incorporaram de forma inconfundível os elementos da natureza de Sergipe — dunas litorâneas, coqueirais, o São Francisco — criando uma assinatura que ajudou a definir o imaginário visual da região. 

Ele rompeu barreiras técnicas locais ao transitar com maestria entre o rigor da proporção clássica, o psicodelismo surrealista e o abstracionismo expressionista, mostrando que a arte nordestina não precisava se restringir ao regionalismo estrito.  

Seu talento atraiu a atenção de importantes intelectuais e críticos de arte nacionais, como Wilson Rocha, que elogiou sua produção pela complexidade de sua "lucidez pictórica" e profundidade psicológica.【

No âmbito institucional, consolidou-se como mestre local ao receber as maiores condecorações artísticas de Sergipe, incluindo o Prêmio Horácio Hora, o Prêmio J. Inácio e a prestigiada Comenda Cultural Tobias Barreto. 

Sua relevância continuou ativa até o fim de sua vida. Em 2024, foi beneficiado pelo programa Funarte Retomada para a realização de sua grande exposição retrospectiva de 60 anos de carreira.

E suas obras superaram as fronteiras do Brasil, participando de mostras e integrando coleções em países como Estados Unidos, França, Portugal e Senegal. 

Conclusão

Joubert Moraes nos deixou em 2026, mas sua obra permanece viva — nas galerias, nos espaços públicos, na memória afetiva de Sergipe e no coração de todos que contemplam sua arte. Ele foi, acima de tudo, um artista que nunca deixou de ser ribeirinho: carregava consigo a fluidez do São Francisco, a força das dunas e a poesia de seu povo.

Sua trajetória nos ensina que a arte verdadeiramente universal não nega suas raízes — pelo contrário, as celebra. E, ao celebrar Sergipe, Joubert Moraes celebrou a humanidade.

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Joubert e as cores da memória. 

Por Pascoal Maynard no facebook

Há pessoas que partem, mas não vão embora. Permanecem nas ruas por onde caminharam, nas casas onde viveram, nas conversas que despertam sorrisos e, sobretudo, naquilo que criaram. Hoje, com a partida de Joubert, não consigo pensar apenas no artista consagrado. Minha memória insiste em reencontrar o menino e o jovem que fizeram parte da paisagem afetiva da minha infância.

Li, mais uma vez, o belo texto de Mário Britto, e algumas de suas palavras ganharam um significado ainda mais profundo. Ele escreve que Joubert nasceu "no seio de uma família de artistas". É verdade. Aquela casa parecia respirar arte. O pai, poeta e escritor; a mãe, cantora e bordadeira. Não era apenas uma família que apreciava a cultura; era uma família que fazia da beleza um modo de existir.

Nossa proximidade ia além da geografia. Eu morava na Praça Fausto Cardoso. Joubert, na Rua Maruim, entre as ruas Itabaiana e Pacatuba. Eram poucos passos de distância. Naquele centro de Aracaju, onde as ruas ainda tinham o ritmo das conversas nas calçadas e o tempo parecia caminhar mais devagar, as famílias se conheciam, os meninos cresciam juntos e as amizades eram construídas sem cerimônia, como se fizessem parte da própria paisagem.

Naqueles dias, ninguém imaginava que aquele rapaz de fala tranquila carregava dentro de si um universo inteiro de cores, formas e poesia. Mário Britto lembra que, ainda adolescente, Joubert "tinha o hábito de visitar galerias de arte, comparecia a todas as exposições e frequentava, assiduamente, os ateliês dos mestres J. Inácio e Florival Santos". Hoje percebo que aquele jovem já perseguia um destino que só ele conseguia enxergar com nitidez.

Depois veio Salvador, a Escola de Belas Artes, os encontros com outros artistas, as experiências com a abstração. A vida foi ampliando seus horizontes, mas nunca lhe arrancou as raízes. Joubert levava Sergipe consigo. Em cada tela, em cada escultura, em cada cenário que criou, havia sempre um pouco da terra que o viu nascer e da sensibilidade que floresceu nas ruas da velha Aracaju.

Mário Britto encontrou uma definição que dificilmente poderia ser mais feliz: "Joubert tem uma relação completa e visceral com a arte". Talvez porque, para ele, a arte nunca tenha sido apenas profissão. Era respiração. Era linguagem. Era uma forma de compreender o mundo. E quando Britto escreve que "toca violão com a mão direita, pinta com a esquerda e, com ambas, faz as esculturas", desenha, em poucas palavras, um homem inteiro, cuja criatividade parecia desconhecer limites.

Hoje suas obras estão espalhadas pelo Brasil e por tantos outros países. Permanecerão onde sempre estiveram: nas paredes, nos museus, nas instituições, nas praças e nas casas de tantos admiradores. Mas permanecerão, sobretudo, onde Mário Britto tão bem registrou: "na memória e no coração do povo sergipano".

Quanto a mim, guardo outra galeria. Não é feita de quadros. É feita de lembranças. As ruas do centro de Aracaju, os encontros casuais, as famílias vizinhas, o cotidiano simples de uma cidade que nos ensinou o valor da convivência. Quando penso em Joubert, vejo também aquele pedaço da cidade que moldou nossas vidas e que continua existindo dentro de nós, mesmo quando o tempo transforma tudo ao redor.

A morte tem o estranho poder de silenciar uma voz, mas nunca consegue apagar uma presença. Os artistas conhecem esse segredo. Eles sobrevivem naquilo que deixam para os outros. Joubert compreendeu isso sem precisar dizê-lo. Pintou sua permanência em telas, esculpiu-a na matéria e gravou-a na memória de todos que tiveram o privilégio de conviver com sua arte e com sua generosidade.

Hoje Sergipe perde um de seus maiores artistas. Eu me despeço também de um companheiro de paisagem, de um rosto familiar da minha infância e juventude, de alguém cuja trajetória me enche de orgulho por ter acompanhado, ainda que de perto e silenciosamente, os seus primeiros passos.

Costuma-se dizer que a morte encerra uma vida. Talvez. Mas nunca encerra uma obra construída com talento, sensibilidade e amor. A verdadeira arte é uma forma de eternidade.

Joubert encerra hoje sua travessia humana. Paradoxalmente, é também hoje que sua obra se torna ainda mais definitiva. Porque o artista parte, mas a arte permanece. E, enquanto houver um sergipano capaz de se emocionar diante de uma de suas telas, de uma de suas esculturas ou da lembrança de sua delicadeza, Joubert continuará entre nós.

Adeus, meu querido Joubert.


A história da importante escola de design, arquitetura e artes da Alemanha pré nazista. A Bauhaus, também citada na música Eduardo e Mônica da banda Legião Urbana

 No caso da citação da palavra  Bauhaus em Eduardo e Mônica  especialistas acreditam que a citação na canção faz mais sentido para uma banda britânica pioneira do pós-punk/rock gótico, a qual utilizou o mesmo nome para se identificar...


O Camarote.21 homenageia os 100 anos da Bauhaus. O jubileu da famosa escola de design, arquitetura e artes coloca a Alemanha em destaque no cenário cultural de 2019. A Bauhaus surgiu em 1919, na cidade de Weimar: uma escola que impactaria a nossa concepção estética até os dias de hoje. Mas o que se sabe sobre a Bauhaus? Na verdade, muito pouco. É hora de desvendar mais – e desmentir alguns mitos! Entre eles:

Puramente funcional, sem frescuras: isso é Bauhaus? Sim, mas nem sempre! O design da Bauhaus se mostrou também colorido, divertido e exuberante. Com espírito livre, não existiam tabus para os integrantes da Bauhaus.

Bauhaus: uma invenção alemã? Este mito está errado! A Bauhaus era multicultural – com professores e alunos vindos de várias partes do mundo. Mais tarde, muitos deles foram para o exterior e construíram edifícios internacionalmente lendários. Arieh Sharon é um deles.

O sucesso da Bauhaus é sempre associado a nomes como Walter Gropius, Hannes Meyer e Mies van der Rohe. Quer dizer que todos os grandes mentores foram homens? Não! O êxito da Bauhaus dependeu também de grandes mulheres, como Ise Frank e Lilly Reich.

Em 1933, os nazistas chegam ao poder e fecham a Bauhaus. Foi realmente o fim?  

Depois do fechamento da escola se desenvolve uma relação contraditória entre o regime e alguns integrantes da Bauhaus – uma parte da história que muitos preferem esquecer.

A quase veneração pela arquitetura e pelo design da Bauhaus se mantém até hoje. Casas e móveis, essa é a verdadeira arte da Bauhaus, certo?! Errado! A Bauhaus também produziu outros ícones: conheça o trabalho da designer Anni Albers.

Depois de 100 anos de fundação...a Bauhaus é só história? Muito pelo contrário, as ideias da Bauhaus estão mais vivas do que nunca. Como no México, por exemplo, com o trabalho de tecelagem da designer Amor Muñoz.

P.S:: Ao término da leitura desse texto não se esqueça,  votar na extrema direita é sempre sacrificar o desenvolvimento e evolução da arte e da cultura, consequentemente da democracia social e dos direitos humanos. 

Aos 98 anos Luiz Carlos Barreto um dos baluartes do cinema brasileiro nos deixa e a Rádio Cultura Brasil , a TV Brasil e o canal Brasil nos apresentam uma parte do seu legado.

 

Cine Cultura

Homenagem a Luiz Carlos Barreto

As trilhas de filmes produzidos por Barretão e depoimentos de profissionais do audiovisual

O “Cine Cultura” deste sábado (25/07) homenageia o cineasta e produtor Luiz Carlos Barreto, que faleceu nesta quarta (22/07) aos 98 anos.

Barretão foi responsável pela direção e produção de filmes de sucesso do cinema nacional, como “Bye Bye Brasil” (de Cacá Diegues), “Dona Flor e seus dois maridos” e “O que é isso, companheiro?” (dirigidos pelo filho de Luiz Carlos, Bruno Barreto). O programa apresenta as trilhas de filmes produzidos e dirigidos por Luiz Carlos Barreto e depoimentos de profissionais do audiovisual.

Ouça! 




Luiz Carlos Barreto (1928–2026): o produtor que fez do cinema brasileiro uma indústria
Redação
22 jul 26
Divulgação

Luiz Carlos Barreto

Morreu aos 98 anos Luiz Carlos Barreto, o Barretão, ao fim de uma dura luta pela saúde. Com ele se encerra uma das trajetórias mais longevas e decisivas da história do audiovisual nacional, iniciada nos bastidores do Cinema Novo e estendida por mais de seis décadas de produção ininterrupta. Sua partida deixa um amplo vazio, pessoal e profissional: vai-se o amigo, o mestre e o guia — a referência de talento, força, resiliência e liderança de toda uma indústria.

Barreto foi um cineasta completo no sentido mais literal do termo: fotógrafo, roteirista, diretor, documentarista, produtor, distribuidor e formulador de política. Não havia campo do audiovisual que não conhecesse em profundidade. Mesmo aos 90 e poucos anos, incorporava a evolução da tecnologia com rapidez e a capacidade de adaptar suas obras a cada novo tempo — empenhado, ainda recentemente, em levar seus títulos mais emblemáticos à alta definição. Seu legado intelectual é profundo e perpétuo.

Nascido em 20 de maio de 1928, em Sobral, no interior do Ceará, Barreto chegou ao cinema pela porta do jornalismo. Foi repórter fotográfico da revista O Cruzeiro entre 1950 e 1963, no auge da publicação comandada por Assis Chateaubriand, com quem conviveu de perto e a quem sempre creditou parte de sua formação como leitor de país. A vocação cinematográfica se revelou em 1961, quando cobriu, para a revista, as filmagens de Barravento, o primeiro longa de Glauber Rocha, no litoral baiano. Dali em diante, o repórter que sabia enquadrar o Brasil não voltaria mais atrás.

Do Cinema Novo à construção de um mercado

A entrada efetiva no meio veio como roteirista, ao lado de Roberto Farias, em O assalto ao Trem Pagador (1962). Logo assinaria a fotografia de Vidas secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, clássico absoluto do Cinema Novo e prêmio da crítica no Festival de Cannes de 1964. Em 1965, abandonou de vez o jornalismo para se dedicar exclusivamente ao cinema.

Foi então que Barreto revelou sua contribuição mais duradoura: a de organizador e empreendedor de uma cinematografia que, até então, vivia de gestos isolados. Fundou a Difilm, distribuidora que reuniu diversos diretores do Cinema Novo sob uma mesma estrutura — um raro exercício de articulação industrial num cinema historicamente pulverizado. Em seguida, ao lado da mulher e sócia Lucy Barreto, criou a L.C. Barreto Produções Cinematográficas, uma das mais importantes e longevas produtoras do país, responsável por dezenas dos títulos que definem o cânone nacional.

Como produtor e coprodutor, seu currículo confunde-se com a própria história do cinema brasileiro moderno: Terra em transe* (1967), de Glauber Rocha, prêmio da crítica em Cannes; Brasil ano 2000 (1969), de Walter Lima Jr., Urso de Prata em Berlim; Bye Bye Brasil (1979), de Cacá Diegues; Memórias do cárcere (1983), de Nelson Pereira dos Santos, novamente premiado em Cannes. Documentou também o Brasil popular em Garrincha, alegria do povo (1963) e Isto é Pelé (1974), e chegou ao século XXI com títulos como Bossa Nova (2000) e Flores raras (2013). Ao longo da vida, Barreto contabilizava um universo de cerca de 150 títulos, entre produções e coproduções, com aproximadamente 70 a 80 filmes assinados pela produtora e 30 adaptações literárias — "filmamos o Brasil do extremo Norte ao extremo Sul", resumia.

O produtor de bilheteria — e de prestígio

Se o Cinema Novo lhe deu a formação, foi na conquista do público que Barreto cravou seu nome no mercado. Dona Flor e seus dois maridos (1976), dirigido pelo filho Bruno Barreto, tornou-se um marco: mais de 10 milhões de espectadores e um dos maiores fenômenos de bilheteria da história do cinema brasileiro. Barreto gostava de lembrar que o filme havia superado, nas salas nacionais, Tubarão, de Steven Spielberg — episódio que, para ele, era mais do que anedota: era a prova de que o cinema brasileiro podia dominar o próprio mercado.

Duas vezes levou o país à disputa do Oscar, com filmes dirigidos pelos filhos: O Quatrilho (1996), de Fábio Barreto, e O que é isso, companheiro? (1997), de Bruno Barreto, ambos finalistas na categoria de melhor filme estrangeiro. Poucos produtores brasileiros reuniram, numa só trajetória, bilheteria recorde e reconhecimento nos grandes festivais e na Academia.

Nos últimos anos, sua obra foi celebrada em retrospectivas no Lincoln Center, em Nova York, no segmento Cannes Classic do Festival de Cannes, na Cinemateca Portuguesa e no Festival de Berlim. Em 2024, recebeu a Medalha da Abolição, principal honraria do governo do Ceará. Recentemente, seu acervo fotográfico — testemunho de um Brasil registrado lente a lente — foi destinado ao Instituto Moreira Salles, passando a integrar um dos mais importantes arquivos do fotojornalismo brasileiro.

Um agente das políticas audiovisuais

Mais do que produzir filmes, Barreto pensava o sistema que os tornava possíveis. Foi presença constante na formulação de políticas para a produção nacional e um dos mais insistentes defensores da autossustentabilidade da indústria audiovisual brasileira. Sua militância remonta aos tempos do Grupo Executivo da Indústria Cinematográfica (GEICINE) e atravessa toda a era da Embrafilme, período que ele considerava o ápice da conquista de mercado pelo cinema nacional. Foi um dos principais líderes da sociedade civil no processo de construção, entre 1993 e 2012, do atual marco legal do audiovisual brasileiro. 

"A luta toda do cinema brasileiro foi a de conquistar o seu próprio mercado. Isso foi conseguido na época da Embrafilme. Chegamos a alcançar 42% do mercado", declarou ao Correio Braziliense, em 2023. Na mesma entrevista, comparava aquele patamar com o cenário mais recente — "hoje, não temos nem 1%. Isto é um escândalo" — e cobrava do Estado a regulação e o arcabouço criado pela Medida Provisória 2228-1.

Barreto fazia questão de situar o cinema acima das disputas ideológicas do momento. "O cinema tem que ser livre e independente de direita ou esquerda. O cinema é uma atividade ampla, de pensamento largo", afirmou, citando Roberto Rossellini: "O cinema é a alma de cada país." Para ele, filme era, simultaneamente, obra de autor e produto de uma indústria — e essa dupla natureza foi a bússola de sua atuação como empresário e como articulador político do setor.

Sua ausência se faz sentir num momento particularmente delicado. O cinema brasileiro vive hoje um quadro de alarmante desordem estrutural, e é difícil não imaginar que, tivesse Barreto conservado a saúde nesses últimos dois anos, em condições de exercer suas conhecidas capacidades de articulação e liderança, a situação não seria tão grave. Que seu exemplo ilumine os operadores políticos do presente.

Legado

Patriarca de uma das mais influentes famílias do cinema brasileiro — ao lado de Lucy Barreto e dos filhos Bruno, Fábio (morto em 2019) e Paula, que está à frente da L.C. Barreto, mantendo em atividade a produtora que carrega as iniciais do pai e dá continuidade ao legado da família —, Luiz Carlos Barreto deixa uma obra que é, ao mesmo tempo, acervo estético e infraestrutura de mercado. Foi um dos raros que entenderam, desde cedo, que o cinema brasileiro só existiria de forma perene se tivesse público, distribuição e política pública sustentando a criação.

Ao mercado que ajudou a fundar, Barretão lega a certeza incômoda e mobilizadora que repetiu por décadas: um país só é dono de sua imagem quando é dono de suas telas.

Aqui na Filme B guardamos dele uma lembrança à altura do personagem. Um dia, o telefone da redação tocou e do outro lado estava o próprio Barretão, pedindo para falar com o Paulo. Diante da ausência, foi logo ao ponto: "Ah, é que escreveram aí uma matéria sobre mim me chamando de lendário. Sempre que escrevem sobre mim botam esses adjetivos. Parece que eu morri. Quem escreveu?" Prometemos tirar o adjetivo. "Obrigado", respondeu, satisfeito, o lendário cineasta Luiz Carlos Barreto.

A Lucy, Bruno, Paula e Cláudio, netos, netas, bisnetos e bisnetas, o carinho e as condolências da Filme B.