domingo, 26 de abril de 2026

A presidente da UNE, Lula, os jovens, as ruas e os celulares. Por Moisés Mendes

 Publicado por Moisés Mendes - Atualizado em 25 de abril de 2026 às 22:32

Bianca Borges. Foto: Reprodução

Fonte DCM

Se nem celular tem, como o presidente Lula pode querer entender os jovens? Como poderá enfrentar Nikolas Ferreira, que domina o celular e as redes sociais? Esse é um resumo possível de uma das pautas da presidente da UNE, Bianca Borges (foto), em entrevista ao Estadão.

Já sabemos que os jovens, as abelhas e os tico-ticos despareceram da cena pública. E agora se sabe que Lula pode até se comunicar bem com os bichos, mas não com os jovens. Porque não capta os sons dos jovens, também por não ter celular.

Essa é a frase de Bianca: “De um lado, o Lula que não tem nem celular; do outro, o Nikolas Ferreira, que caminhou mil quilômetros outro dia só para ir gravando stories e fazer cortes para as redes sociais”.

Lula talvez seja o mais jovem presidente que o Brasil já teve desde o golpe que instalou a República. Um jovem agora com 80 anos. Tem vitalidade física, vigor retórico e dedicação intensa, desde o primeiro governo, às demandas dos jovens. Alguém falará do jovem Collor, mas esse era apenas um maratonista.

Lula tem atrevimento, atitudes, espírito de jovem. Mas não tem celular, e esse detalhe pode ser parte do diagnóstico. Nikolas filma o que faz ou simula fazer, em caminhadas, enchentes em Minas e aglomerações. É o que a direita faz melhor do que a esquerda. Principalmente para produzir mentiras e ódio.

Num cenário em que as pesquisas indicam o aumento do reacionarismo entre os jovens, Lula está perdendo apoio porque o mundo mudou e as conversas, os dilemas e os sonhos são outros. Toda a esquerda perdeu, também pela incapacidade de renovação de quadros, fala e ações, que o próprio Lula já abordou.

A direita tem, além do deputado transfóbico bem celularizado, muitos outros exemplos de jovens lideranças, com ou sem mandato, com poder de fala e de síntese. Todos com celulares de última geração, alguns com dezenas celulares.

A UNE hoje liderada por Bianca foi uma entidade de combate antes e depois da ditadura, e muitos nomes das esquerdas ascenderam como líderes estudantis. Lindberg Farias e Orlando Silva foram os últimos a ganhar mandato e projeção nacional. Ninguém mais com expressão política e voto veio depois.

Há muito tempo a União Nacional dos Estudantes não tem a mesma relevância como trincheira de luta. É provável que a UNE tenha envelhecido mais do que Lula, porque os estudantes já não se agrupam, nem em uniões estaduais e municipais de secundaristas, nem nos DCEs das universidades, com a mesma força que tiveram até as manifestações pelo impeachment de Collor em 1992.

Como, nesse ambiente, querer mais conexão do poder com os jovens? Comprar um celular e treinar Lula com um pau de selfie? Reduzir a dependência que Lula tem do seu fotógrafo Ricardo Stuckert, para que o presidente se vire sozinho com um celular Huawei Mate XT Ultimate Design, considerado uma Ferrari perto do iphone 16 da Apple?

Pode ajudar, mas não vai resolver. Em artigo recente na Folha, a jornalista Lúcia Guimarães, que mora em Nova York, escreveu sobre a ausência dos jovens americanos nas ruas.

As manifestações, informa Lúcia, têm cada vez mais gente de mais idade. São pessoas já perto dos 50 anos. Os jovens não lutam mais, contra as guerras e contra o fascismo, como lutaram por tanto tempo e chegaram a lutar até contra Trump.

Lúcia escreveu: “Uma professora universitária (Dana Fisher) que monitora o perfil demográfico do No Kings registrou que a idade média da manifestação de junho de 2025 foi de 36 anos; a de outubro passado foi de 44 anos; e o protesto recordista de 28 de março de 2026 foi o mais grisalho, com idade média de 48 anos”.

A jornalista pergunta: por que os jovens sumiram? As respostas tentadas são: pela clausura das telas e das redes, por desencanto com as instituições, por desprezo pelos partidos e pelos políticos e por medo da polícia.

Na Argentina, uma tradição dos anos 90, que parou por alguns anos e voltou com força no governo de Milei, são as manifestações de rua das quartas-feiras. Promovidas por idosos.

Todas as quartas eles caminham em direção ao Congresso ou à Casa Rosada, levam bordoadas da polícia e retornam na outra quarta. Há jovens nas caminhadas contra o governo do gângster da criptomoeda, mas os atos são essencialmente uma luta de velhinhos e velhinhas.

Os jovens estão mais no celular do que nas ruas, não só em Buenos Aires. E as ruas sempre foram deles desde o dia em que começaram a atirar paralelepípedos na polícia em Paris, lá em 1968.

Bianca tem 26 anos, é militantes do PCdoB e está preocupada com a pouca conexão dos jovens com a memória e com a História e com a desconexão do governo e de Lula com os jovens. O que está acontecendo também no Brasil?

E aí surgiu o celular na pauta da sua entrevista. Mas o celular, como diria o ferreiro sabido, é uma ferramenta. Que põe os jovens em conexão e, ao mesmo tempo, convida jovens, adultos maduros e idosos a ficarem em casa. Um celular na mão de Lula talvez não mude quase nada.

Mas é certo que a situação poderia ser melhor se tivéssemos mais jovens nas ruas para defender os idosos que um dia foram à guerra. Mas aí é preciso sair um pouco do celular. E as ruas terão que ter de novo algum sentido.

domingo, 12 de abril de 2026

13º ENFP em São Bernardo: 1.500 vozes se unem para fortalecer a democracia e o Bem Viver

O 13º ENFP (Encontro Nacional de Fé e Política) é um evento organizado pelo Movimento Nacional de Fé e Política que reúne lideranças religiosas, militantes de movimentos sociais e intelectuais de todo o Brasil. Realizado entre 24 e 26 de abril de 2026 em São Bernardo do Campo (SP), o encontro utiliza a metodologia do "Ver-Julgar-Agir" para articular espiritualidade e transformação social.

Neste momento histórico, o 13º ENFP busca oferecer as seguintes contribuições:

Fortalecimento da Democracia: Propor caminhos para enfrentar a extrema direita no Brasil e no mundo, incentivando candidaturas progressistas que se comprometam com as lutas sociais e o bem comum. 

Construção do "Bem Viver": Refletir sobre um projeto de país que supere o individualismo e o desencanto, integrando a fé cristã com práticas políticas voltadas para a justiça social e a paz. 

Protagonismo das Periferias e Minorias: Ampliar o espaço para as vozes e lutas de mulheres, movimentos negros, povos originários e das artes nas periferias, reafirmando a diversidade como pilar democrático. 

Esperança Ativa: Atuar como um espaço de resistência e reconstrução ética diante de crises ambientais e desigualdades crescentes, mobilizando a sociedade civil para a ação concreta. 

O encontro é visto como uma oportunidade de reafirmar o compromisso ético com os direitos humanos e a transformação coletiva, especialmente em um cenário de fragmentação social. 

Essa mesa de abertura do  13º Encontro Nacional Fé e Politica reúne Márcia Lopes, Marina Silva e Frei Betto. 

 Com o tema Fortalecer a Democracia, o Esperançar e o Bem Viver, o movimento reúne cerca de mil e quinhentas pessoas de todo o país. O encontro busca refletir sobre os desafios do nosso tempo através da metodologia do Ver-Julgar-Agir, com foco em: * Enfrentar a extrema direita e fortalecer a democracia. * Construir um projeto de país orientado para o Bem-viver e o Reino de Deus. * Ampliar as lutas das mulheres, movimentos negros e povos originários. * Realçar o papel das artes e das juventudes nas periferias.


Terceiro dia do 13º ENFP diretamente de São Bernardo do Campo. Com o tema Fortalecer a Democracia, o Esperançar e o Bem Viver, o movimento reúne cerca de mil e quinhentas pessoas de todo o país.

O encontro busca refletir sobre os desafios do nosso tempo através da metodologia do Ver-Julgar-Agir, com foco em:

 * Enfrentar a extrema direita e fortalecer a democracia.

 * Construir um projeto de país orientado para o Bem-viver e o Reino de Deus.

 * Ampliar as lutas das mulheres, movimentos negros e povos originários.

 * Realçar o papel das artes e das juventudes nas periferias.

Domingo – 26/04: 

7h – Café (Área Externa – Ginásio)

8h30 – Mística (Palco Principal – Ginásio)

9h – Grande Plenária de convergência (Palco Principal – Ginásio) 

10h30 – Leitura da carta do Encontro (Palco Principal – Ginásio) 

11h - Mística de encerramento (Palco Principal – Ginásio) 

12h30 - Almoço e encerramento do 13º ENFP 


Um pouco de teoria para aprimorar nossas lutas – Pedro A. Ribeiro de Oliveira

https://fepolitica.org.br/um-pouco-de-teoria-para-aprimorar-nossas-lutas-pedro-a-ribeiro-de-oliveira/



sábado, 25 de abril de 2026

O 25 de Abril: uma data que conecta Portugal, Itália e Brasil. Por Zezito de Oliveira

 O 25 de Abril é uma data significativa para italianos, portugueses e para todos os que, ao redor do mundo, se dedicam à luta contra o fascismo. Mais do que uma efeméride europeia, essa data carrega conexões profundas também com o Brasil — seja por laços culturais, pela participação militar ou pelos debates contemporâneos sobre democracia e autoritarismo.

Portugal: a Revolução dos Cravos

Em Portugal, o 25 de Abril de 1974 ficou conhecido como a Revolução dos Cravos. Diferente de outros movimentos de ruptura política, essa revolução foi marcada por sua singularidade: ocorreu de forma quase pacífica, com os soldados colocando cravos vermelhos nos canos de seus fuzis e a população saindo às ruas em apoio. Os símbolos que ecoam até hoje são as flores e a canção "Grândola, Vila Morena", de Zeca Afonso, que serviu de senha para deflagrar o levante e cujos versos falam em "terra da fraternidade" e "terra da liberdade". Essa data representou o fim do chamado Estado Novo, a longa ditadura salazarista que durou mais de quatro décadas.

Itália: a libertação do nazifascismo

Já na Itália, o 25 de Abril celebra a libertação do país do regime fascista de Benito Mussolini e da ocupação nazista, em 1945. Foi o dia da insurreição geral das forças de resistência — os partisans — que culminou na queda e na execução do ditador. Nesse contexto, um elemento frequentemente esquecido é a participação brasileira: cerca de 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foram enviados para lutar ao lado dos Aliados na Campanha da Itália. Muitos desses combatentes perderam a vida no campo de batalha, retornando em caixões ao Brasil ou voltaram com graves sequelas físicas e psicológicas.

Ainda assim, o 25 de Abril italiano é menos lembrado no Brasil do que o português. As razões são múltiplas: as relações históricas e culturais mais fortes com Portugal (a começar pela língua comum) e o contexto de 1974, quando tanto Portugal (ainda sob Salazar) quanto o Brasil (sob a ditadura militar de Geisel) viviam regimes autoritários. Essa proximidade tornou a Revolução dos Cravos mais familiar aos brasileiros, com artistas como Chico Buarque compondo canções emblemáticas como "Tanto Mar" em solidariedade à liberdade portuguesa.

Para assistir a um dos mais importantes filmes sobre a Revolução dos Cravos, Capitães de Abril, dirigido por Maria de Medeiros,  aqui  Sinopse: "Em Portugal, na noite de 24 de abril de 1974, o rádio tocava uma canção proibida, "Grândola". Era o esperado sinal para o grupo militar que iria mudar o destino do país. Ao som da voz do poeta José Afonso, as tropas avançaram, marchando sobre Lisboa. Em contraste com a trágica tentativa do ano anterior, a Revolução dos Cravos se desenrolou como uma grande aventura, em busca da paz e de lirismo."

A canção que une as memórias

Para resgatar a memória do 25 de Abril na Itália, uma canção se destacou: "Bella Ciao". Cantada pelos partisans durante a resistência, tornou-se um ícone mundial da luta antifascista. Recentemente, um vídeo que viralizou na internet mostrou bispos brasileiros cantando essa melodia em um encontro recreativo, o que reacendeu o debate sobre o papel da Igreja Católica diante do fascismo — tanto na Itália quanto no Brasil.

A Igreja Católica entre dois lados

Vale lembrar que a Igreja Católica não teve uma posição única e monolítica em relação aos regimes autoritários. Na Itália, houve católicos que apoiaram Mussolini, especialmente após os Pactos de Latrão de 1929, que concederam vantagens significativas à Igreja. Contudo, também houve padres, freiras e leigos que participaram ativamente da resistência, arriscando suas vidas para proteger judeus e perseguidos. Um exemplo disso pode ser encontrado no filme Roma Cidade Aberta de Roberto Rossellini, a sinopse afirma: "Entre os anos de 1943 e 1944, a cidade de Roma, ocupada pelos nazistas, é declarada cidade aberta, a fim de evitar bombardeios aéreos. Neste momento comunistas e católicos unem-se para combater os alemães e as tropas fascistas." Assista aqui.

No Brasil, durante a ditadura militar (1964-1985), setores da Igreja apoiaram o regime, vendo nele um baluarte contra o "perigo comunista". Outros, no entanto — particularmente aqueles vinculados à Teologia da Libertação —, opuseram-se corajosamente à repressão e defenderam os direitos humanos.

O caso recente do padre José Eduardo

Esse histórico torna ainda mais instigante um episódio recente. No Brasil, tivemos um padre diretamente envolvido nas investigações sobre os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Trata-se do padre José Eduardo de Oliveira e Silva, da Diocese de Osasco (SP). Ele foi indiciado pela Polícia Federal em novembro de 2024 como suposto integrante do chamado "núcleo jurídico" do esquema que tentava elaborar uma minuta de decreto para instituir um regime de exceção e impedir a posse do governo eleito.

De acordo com as investigações, o padre teria participado de uma reunião no Palácio do Planalto em novembro de 2022, ao lado de Filipe Martins (ex-assessor de Bolsonaro) e do advogado Amauri Feres Saad, apontado como mentor intelectual da chamada "minuta do golpe". Além disso, a PF encontrou mensagens enviadas por ele pedindo que fiéis por meio de Frei Gilson, entre outros padres,  fizessem uma "oração do golpe" — uma corrente de preces direcionada a generais de quatro estrelas e ao então ministro da Defesa, para que tivessem "coragem de salvar o Brasil".  

 A "oração" enviada, datada de novembro de 2023, pedia a católicos e evangélicos que incluíssem em suas preces os nomes do então ministro da Defesa e de outros 16 generais. O texto solicitava a Deus que desse a eles "coragem para salvar o Brasil, ajudasse-os a vencer a covardia e os estimulasse a agir com consciência histórica e não apenas como funcionários públicos de farda".

No entanto,  embora indiciado pela PF, o padre nunca foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Em fevereiro de 2026, a PGR decidiu não oferecer denúncia contra ele, por considerar que não havia elementos suficientes para sustentar uma acusação formal. 

Conclusão

Dessa forma, o 25 de Abril revela-se uma data de memória multifacetada que conecta Portugal, Itália e Brasil por diferentes fios históricos: em Portugal, a Revolução dos Cravos de 1974 marcou o fim pacífico de uma longa ditadura com seus símbolos de flores e canção; na Itália, a libertação de 1945 do nazifascismo, exemplificada pela resistência dos partisans e pelo hino "Bella Ciao", contou com a participação decisiva de 25 mil soldados brasileiros da FEB; no Brasil, embora a data italiana seja menos lembrada por razões culturais e políticas, o país se vê novamente confrontado com o debate sobre autoritarismo e o papel da Igreja Católica — que, tanto na Europa quanto aqui, jamais teve uma posição monolítica, dividindo-se entre apoiadores de regimes opressores e corajosos defensores da democracia. como no exemplo de bispos como Dom José Cabral Luciano Duarte  (in memorian) na época da ditadura militar  em Aracaju e  Padre José Eduardo (Osasco), em tempos mais recentes e no segundo caso Dom Hélder , Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldaliga, entre outros no passado. No presente,  seguindo a trilha da democracia e da justiça social com reformas estruturais,  destacamos Padre Júlio Lancellotti, Dom Orlando Brandes (emérito de Aparecida), Dom José Ionilton (Marajó), Dom Leonardo Steiner (cardeal arcebispo de Manaus), entre outros.

Dedico o artigo acima a uma colega professora sergipana,  descendente de italianos, Isabela Chizolini, que  me lembra o legado anarquista, socialista e comunista pela sua indignação, coragem e prontidão para a luta, trazido pelos imigrantes anticapitalistas e antifascistas  da peninsula itálica que chegaram ao Brasil no inicio do   século XX

P.S.: De Sergipe tivemos a presença no momento musical com  Bella Ciao, do bispo Dom Genivaldo de Estância.


Com apoio da IA deepseek em algumas informações factuais e revisão do texto... 

O 25 de Abril português aqui no blog

Bispos em momento de lazer cultural cantam Bella Ciao. Nem todos bispos católicos se parecem com o bispo do Auto da Compadecida


'Dama dos Cravos', símbolo da revolução que pôs fim à ditadura em Portugal, morre aos 91 anos

Celeste Caeiro foi quem começou a distribuir flores para os soldados na chamada 'Revolução dos Cravos', em 25 de abril de 1974. Movimento foi a base para o estabelecimento da democracia no país.

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/11/15/dama-dos-cravos-simbolo-da-revolucao-que-colocou-fim-a-ditatura-em-portugal-morre-aos-91-anos.ghtml


Bispos do Brasil divulgam mensagem ao povo e alertam para violência, desigualdade e crise social

https://www.cnbb.org.br/bispos-do-brasil-divulgam-mensagem-ao-povo-e-alertam-para-violencia-desigualdade-e-crise-social/




sexta-feira, 24 de abril de 2026

NA CASA QUE FALTA PÃO, TODO MUNDO GRITA E NINGUÉM TEM RAZÃO. Velhinho de Taubaté por Mário Jéfferson Leite Melo


O Velhinho, curioso como só ele, resolveu dar um passeio pelos grupos de zap — esse novo coliseu onde gladiador não usa espada, usa áudio de três minutos e textão com dedo nervoso. E bastou abrir a porta digital pra perceber: o pão sumiu da mesa, mas o barulho continua farto. É gente discutindo como se estivesse decidindo o destino do mundo, quando na verdade mal consegue decidir quem leva o café e quem lava a xícara.

E lá estavam eles, companheiros de trincheira, se engalfinhando com palavras afiadas, confundindo divergência com guerra santa, e transformando reunião em ringue. Cada um com sua verdade no bolso, mas ninguém com paciência no coração. Porque no zap, meu amigo, todo mundo é general — o problema é que falta soldado disposto a ouvir ordem que não seja a própria.

O Velhinho coçou o queixo e pensou: “Uai… tão brigando por quê mesmo?” E quanto mais lia, menos entendia. Era reunião que não foi reunião, convite que não era convite, representação que representava ninguém e todo mundo ao mesmo tempo. Um tal de “eu fui”, “eu não fui”, “você disse”, “eu não disse”... e no meio disso tudo, a tal da cultura, coitada, sentada no canto, esperando alguém lembrar que ela existe pra além do ego ferido.

Porque enquanto uns discutem se a cadeira é de madeira ou de plástico, ninguém percebe que a mesa está quebrada.

E o mais curioso — ou trágico — é que todos ali estão do mesmo lado. Ou deveriam estar. Mas o tal do “fogo amigo” virou esporte oficial. Um atira no outro achando que está acertando o inimigo, quando na verdade está só abrindo mais buraco no próprio barco. E barco furado, meu filho, não afunda só um — afunda todo mundo junto, com direito a discurso inflamado até o último gole d’água.

O Velhinho lembrou então de um causo antigo: dois irmãos brigavam pela herança de uma casa que ainda nem tinham terminado de construir. Enquanto discutiam quem ficaria com a sala, o teto caiu. E ficaram os dois sem sala, sem teto e com a razão — cada um segurando a sua, como quem segura um troféu inútil.

É disso que se trata.

Debate é coisa bonita. Divergência é motor. Mas quando o respeito sai pela porta, a inteligência pula pela janela. E o que sobra? Vaidade, ruído e uma coleção de certezas que não constroem nada. Como já dizia aquele sopro lúcido de Eduardo Galeano, o mundo moderno anda transformando o que é prazer em obrigação — e talvez a cultura esteja sendo empurrada pro mesmo abismo: deixando de ser encontro pra virar disputa de território.

E enquanto isso, lá fora, quem realmente não quer política pública de verdade agradece. Porque nada é mais eficiente do que um grupo desunido tentando provar quem tem mais razão enquanto perde o essencial: o sentido coletivo.

O Velhinho então bateu o cajado no chão — não pra fazer barulho, mas pra ver se alguém escutava — e soltou:

“Briga de irmão não se vence, se aparta. E quanto mais demora, mais caro fica o conserto.”

No fim das contas, quem grita mais alto não ganha — só cansa primeiro.

Quem fala sozinho não lidera — só ecoa no vazio.

E quem esquece o coletivo… vira plateia da própria derrota.

Porque onde falta pão, o grito pode até ser alto…

mas nunca será solução.

sábado, 11 de abril de 2026

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Bispos em momento de lazer cultural cantam Bella Ciao. Nem todos bispos católicos se parecem com o bispo do Auto da Compadecida

Líderes da Igreja Católica cantaram juntos, neste fim de semana, a canção italiana Bella Ciao, hino da resistência antif4scista contra Benito Mussolini. Conhecida como noite cultural, a celebração ocorreu em meio à 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Aparecida, no interior de São Paulo.

Em outro vídeo postado pela CNBB nas redes sociais, os religiosos cantam o clássico brasileiro Asa Branca, de Luiz Gonzaga. Os bispos aparecem nas imagens em clima de diversão, com diversos instrumentos musicais, como sanfona, tambor, violão, pandeiro, triângulo e chocalho.

Entre os participantes, estão dom Fernando Arêas Rifan, bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, idealizador da celebração no retiro, e dom Antônio Emídio Vilar, arcebispo de Rio Preto.

Bella Ciao (“Adeus, linda” ou “Querida, adeus”, em tradução livre) é uma canção folclórica da Itália. Tornou-se um hino de liberdade durante a Segunda Guerra Mundial. A canção é historicamente associada aos partigiani (partidários) que lutaram contra o f4scismo e a ocupação n4zista no período. 

 "Bella Ciao" é uma canção folclórica italiana que se tornou um hino mundial de resistência, liberdade e antifascismo, comumente associada aos partigianos que lutaram contra o fascismo de Mussolini na Segunda Guerra Mundial. Originada no final do século XIX, a melodia era inicialmente cantada por trabalhadoras ("mondinas") nos campos de arroz do norte da Itália, lamentando as duras condições de trabalho, antes de ter sua letra adaptada nos anos 40 para a luta partidária. 

Origem e Evolução:

Raízes (Século XIX): Acredita-se que a melodia original surgisse nas plantações de arroz no norte da Itália, relatando o trabalho exaustivo das mondinas. Alguns estudos apontam influências de antigas canções Klezmer. 

Adaptação Partidária (Anos 1940): A letra atual foi modificada durante a Segunda Guerra Mundial para representar os partigianos italianos que lutavam contra as tropas nazistas e fascistas. 

Significado da Letra: A música narra a despedida de um combatente de sua amada ("adeus bela") para lutar pela liberdade, pedindo para ser enterrado na montanha, sob a sombra de uma bela flor, caso morra como guerrilheiro. 

Simbolismo e Popularidade:

Hino de Resistência: Embora sua conexão direta com o uso diário pelos combatentes seja debatida, tornou-se o principal símbolo da resistência antifascista italiana. 

Protesto Global: A canção é amplamente utilizada em manifestações por todo o mundo, simbolizando a luta contra a opressão, como protestos em Istambul (2013) e Hong Kong (2014). 

Cultura Pop: A popularidade da música aumentou drasticamente no mundo com a série da Netflix, La Casa de Papel, onde é entoada como um hino de resistência contra o sistema. 

A música é um hino atemporal de liberdade, cantado em celebrações como o Dia da Libertação da Itália (25 de abril). 



Festa della Liberazione: o significado do 25 de abril na Itália

Leia AQUI 

O Bispo de O Auto da Compadecida: hipocrisia e avareza em forma de sátira

No clássico O Auto da Compadecida, o Bispo interpretado por Lima Duarte é muito mais do que uma autoridade religiosa: ele é a personificação da crítica de Ariano Suassuna à hipocrisia e à corrupção moral. Longe da virtude esperada de um líder espiritual, o personagem se destaca pela arrogância, avareza, covardia e fofoca. Sua preocupação com o dinheiro e o poder terreno, exemplificada na trama do testamento falso do cachorro, revela uma Igreja institucionalizada mais interessada em lucro do que em compaixão. No famoso julgamento final, o Bispo está entre os condenados, escapando da punição apenas pela intercessão da Compadecida. Um retrato satírico e brilhante que segue atual e divertido.

Se quiser, posso ajustar o tom para mais informal ou mais analítico, conforme o estilo do seu blog.

Inteligência Artificial e o empobrecimento da Igreja como centro de dados. Artigo de Massimo Faggioli

 

Fonte: Revista digital IHU da Unisinos.

Quando os estudiosos escreverem sobre a história do envolvimento da Igreja Católica com a tecnologia da informação moderna, dedicarão uma seção ao mês de março de 2026, quando o Vaticano publicou dois documentos importantes sobre o mundo digital emergente.

O artigo é de Massimo Faggioli,  professor de Eclesiologia Histórica e Contemporânea no Instituto Loyola da Trinity College Dublin. É coeditor do Manual Oxford do Vaticano II e seu livro mais recente é Teologia e educação superior católica: além da nossa crise de identidade (Orbis Books), publicado por Sapientia, 16-03-2026. 

Eis o artigo.

O primeiro é o relatório do Grupo de Estudos nº 3 sobre a fase de implementação do Sínodo sobre a Sinodalidade (2021-2024), intitulado A Missão no Ambiente Digital, que aborda a questão de como a Igreja pode aprender com, adaptar-se a e levar adiante a sua missão num universo virtual. Foi publicado em 3 de março e parte de uma constatação: “A cultura digital já é um lugar onde as pessoas vivem, pesquisam e formam comunidade, e deve ser tratada como um verdadeiro lugar de missão.”

O segundo documento é Quo vadis, humanitas? (“Para onde vais, humanidade?”). Foi divulgado um dia depois, em 4 de março, pela Comissão Teológica Internacional e centra-se nas implicações da tecnologia para a antropologia cristã. O argumento central pode ser resumido na abertura do parágrafo 108: “Os desafios decorrentes do progresso da biotecnologia, da robótica e da inteligência artificial, mas também da imaginação cultural generalizada, põem em causa a experiência elementar que os seres humanos têm de si mesmos em termos concretos, isto é, a experiência na qual moldam a sua identidade.”

O fato de esses desenvolvimentos na tradição católica em torno da tecnologia da informação estarem ocorrendo durante o sexagésimo aniversário do Concílio Vaticano II tem um efeito potencialmente alienante. O decreto conciliar Inter mirifica, “sobre os meios de comunicação social”, é um dos primeiros documentos aprovados pelos padres conciliares, em 1963. Sua visão da relação da Igreja com os meios de comunicação pressupunha um mundo onde existiam guardiões encarregados de filtrar, selecionar e controlar o fluxo de informações disseminadas ao público: de fato, a Igreja era um desses guardiões, e não apenas nos meios de comunicação católicos, mas também com certa influência nos meios de comunicação seculares.

As reflexões do magistério sobre os meios de comunicação de massa no período pós-Vaticano II compreenderam os desafios que a Igreja enfrentava na crescente sociedade midiática. As implicações da eclesiologia do Concílio foram observadas na transição do eclesiocentrismo para o cristocentrismo, explicitada em um documento do Vaticano de 1971 que destacava “Cristo como o Comunicador Perfeito” (Communio et Progressio, Instrução Pastoral sobre os Meios de Comunicação Social, emitida pelo Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais).

Poucos anos depois, em 1975, Paulo VI já notava o problema de que “o cansaço produzido hoje em dia por tanta conversa fiada e a relevância de muitas outras formas de comunicação não devem, contudo, diminuir o poder permanente da palavra nem causar uma perda de confiança nela” (Evangelii Nuntiandi, 1975, par. 42).

Contudo, mesmo em 2013, no primeiro documento programático do Papa FranciscoEvangelii Gaudium, a palavra “digital” nunca é usada. Dois anos depois, em 2015, o Vale do Silício entrou em contato com o Vaticano para iniciar um diálogo sobre o futuro da tecnologia da informação e como torná-la “boa”.

Mas esse era o Vale do Silício de 2015. Nesta última década, muita coisa mudou na cultura moral, antropológica e (para)religiosa dos novos senhores do universo. O que também mudou foi um certo sensus technologiae, a sensação de confiança que temos neste novo mundo. O fácil acesso à mais recente tecnologia da informação e um ambiente digital sem regras nos fizeram acreditar que não havia mais intermediários, que cada um era seu próprio autor, editor, publicador e assessor de imprensa. Acontece que existem intermediários — apenas novos, menos visíveis e menos responsáveis. A igreja claramente não é um desses intermediários.

A revolução digital pode vir a ser tão consequente quanto a Reforma Protestante (por exemplo, a relação pessoal com as Escrituras graças à imprensa) ou a Revolução Francesa (o fim do antigo regime da cristandade). Essa revolução digital amplia uma cultura midiática que demonstra, a cada dia, menos interesse pelo passado como algo a ser aprendido e valorizado, e não simplesmente monetizado. Como já argumentei em outro lugar, o cristianismo, e o catolicismo em particular, não podem prescindir de um forte senso de passado.

Para os indivíduos e corporações responsáveis ​​por essas tecnologias, o melhor mundo é aquele abandonado à completa anomia e fragmentação. É um caos planejado, mas não é o “nada”. Há uma ideia “pararreligiosa” de uma nova gênese, “e então houve luz”, originada numa concepção semidivina da IA ​​como Deus “na máquina”, um “Deus in machina” em vez do artifício teatral grego do “ Deus ex machina”. Certas concepções de história, tradição, pessoa humana, natureza, cosmos e Deus estão sendo desafiadas de maneiras que fazem o Iluminismo, o Marxismo, Darwin e a psicanálise parecerem insignificantes em comparação.

Mas, em meio a toda essa turbulência, a igreja ainda ocupa um lugar especial. Podemos constatar isso pelo investimento ideológico feito pelos magnatas da tecnologia do Vale do Silício e seus seguidores políticos em uma forma particular de “cristianismo”, um ativo no mercado de visões de mundo que ainda possui algum valor. Nessa abordagem “cristã”, persiste a antiga tentação neoconservadora de conquistar Roma e o catolicismo romano como um passaporte ideológico que confere o direito de ultrapassar as barreiras da modernidade política, especialmente a democracia liberal – como disse recentemente Alberto Melloni, de enxergar o catolicismo como uma “Groenlândia moral”.

Mas existe outra tentação, dentro da Igreja, que é transformá-la em apenas mais um centro de dados — para fins de marketing, para apropriação ideológica, não importa. Isso representa, em todos os sentidos, uma diminuição do catolicismo, pois significaria, na prática, o uso dos textos da tradição católica como matéria-prima — dados gratuitos — para conteúdo de inteligência artificial “que as pessoas compram de nós por metro”, como disse Sam Altman, CEO da OpenAI, em março de 2026.

Trata-se, na prática, da comercialização de vozes teológicas digitais geradas por inteligência artificial, que visam competir com a verdade viva, sacramental e encarnada do cristianismo. A heresia, no sentido de desvio formal do ensinamento ortodoxo, seria, nesse ponto, um problema quase menor.

Do ponto de vista empresarial e político, fez todo o sentido que Peter Thiel fosse a Roma para suas palestras secretas sobre o Anticristo em março de 2026. Essas palestras coincidiram com os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, o que alguns chamaram de "a primeira guerra da IA". Aconteceu também enquanto a primeira encíclica do Papa Leão XIV passava por revisões finais, um documento programático para o papado que muitos acreditam que dedicará muita atenção à IA e à revolução tecnológica.

Em breve veremos qual é a posição do ensinamento do Vaticano, embora a tradição católica até o Papa Leão XIV já tenha dado algumas indicações claras.

Uma questão ainda maior é como o catolicismo nos EUA lidará com este “admirável mundo novo”. Após a Revolução Francesa, houve uma tentativa de forçar os líderes da Igreja a jurarem lealdade ao novo poder secular, considerado superior ao Papa. Essa tentativa fracassou. Sob o recente pontificado do Papa Francisco, forças internas da Igreja tentaram um golpe semelhante. Agora, o desafio à Igreja vem de um espírito digital global e incorpóreo, que tem aliados tanto nos poderes deste mundo quanto na Igreja atual. A Igreja certamente sobreviverá, mas qual será o custo para nossas almas e nossa humanidade?

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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Cultura respira tempo livre: o interesse de artistas, técnicos e espaços culturais no fim da escala 6x1

  1. Cultura respira tempo livre: o interesse de artistas, técnicos e espaços culturais no fim da escala 6x1

 O fim da escala 6x1 (seis dias de trabalho por um de descanso) interessa diretamente aos artistas, trabalhadores e fazedores da cultura porque esses profissionais frequentemente enfrentam jornadas exaustivas, baixa remuneração e falta de tempo para criar, estudar, ensaiar, participar de eventos ou simplesmente descansar. Com uma carga de trabalho tão pesada, sobra pouco espaço para a produção cultural, que exige tempo livre, criatividade e condições dignas de trabalho. Além disso, muitos atuam de forma autônoma ou informal, sem direitos trabalhistas básicos, e a redução da jornada seria um passo importante para valorizar o trabalho cultural, ampliar o acesso à produção artística e melhorar a qualidade de vida desses profissionais, que são essenciais para a vida social e econômica do país.



Por que o fim da escala 6X1 para quem trabalha nela interessa aos artistas, técnicos , produtores, casas de espetáculos, teatros, centros culturais, livrarias e etc...

O fim da escala 6x1 interessa a toda a cadeia cultural e criativa — artistas, técnicos, produtores, equipamentos culturais (teatros, livrarias, centros culturais, casas de espetáculo) — por um motivo central: a cultura depende do tempo livre e do poder de consumo da população.

Sem tempo de descanso e lazer, não há público para consumir cultura. Sem público, não há sustentabilidade para espaços culturais, nem trabalho para artistas e técnicos. Vamos detalhar:

1. Para quem trabalha na escala 6x1 (o público da cultura)

  • Sem tempo livre = sem ir ao teatro, cinema, show, livraria, museu ou evento cultural.

  • Cansaço extremo inviabiliza o acesso à produção cultural como espectador ou como praticante amador (dança, música, teatro comunitário, escrita, etc.).

  • Sem direito à desconexão, a pessoa não desenvolve repertório cultural, não forma hábito de consumo cultural, e a cultura deixa de ser parte de sua vida.

2. Para artistas, técnicos e produtores

  • Dependem do público. Se o potencial espectador está preso 6 dias por semana, a demanda por eventos culturais encolhe.

  • Muitos artistas e técnicos também trabalham em outros empregos 6x1 para sobreviver, restando pouco tempo para ensaiar, produzir, estudar ou se aperfeiçoar.

  • A rotina exaustiva reduz a quantidade e a qualidade da produção cultural local, especialmente fora dos grandes centros.

3. Para casas de espetáculo, teatros, centros culturais, livrarias

  • Esses espaços precisam de fluxo constante de pessoas em dias úteis e fins de semana. Com a escala 6x1, o trabalhador só tem 1 dia de folga, geralmente usado para obrigações domésticas, não para lazer pago.

  • Menor circulação de público → menor bilheteria, menor venda de livros, menor consumo no bar do teatro, menor ocupação de salas.

  • Isso força esses espaços a reduzir programação, demitir ou fechar, gerando um ciclo vicioso de desmonte da infraestrutura cultural.

4. Impacto estrutural na economia da cultura

  • O fim da 6x1 libera tempo e renda relativa (mais horas livres estimulam pequenos gastos com cultura).

  • Aumenta o público potencial para eventos diurnos, sessões noturnas, oficinas, lançamentos de livros, ensaios abertos, feiras culturais.

  • Gera mais trabalho para técnicos de som, luz, palco, bilheteiros, seguranças, produtores, divulgadores, gráficas (filipetas, livros) etc.

5. Exemplo prático

Um trabalhador que sai do emprego às 18h, chega cansado às 19h30 e tem que acordar às 5h no dia seguinte não vai a uma peça de teatro que começa às 21h. Com a 6x1, o único dia livre é um domingo já tomado por afazeres.
Com um modelo de trabalho mais humano (ex.: 4x3 ou 5x2), sobra noite e folga real para consumir e fazer cultura.

Conclusão: O fim da escala 6x1 interessa à cultura porque cultura se faz com tempo livre e se sustenta com público presente. Sem isso, a cadeia toda — do artista ao dono da livraria — definha. É uma pauta que une trabalhadores comuns, criadores e empresários culturais

|Existem pesquisas quantitativas que sustentam diretamente o argumento de que o fim da escala 6x1 beneficiaria a cadeia cultural. Os dados mostram uma relação clara: jornadas longas e exaustivas reduzem drasticamente o tempo disponível para o consumo de cultura, e os trabalhadores que mais precisam de descanso são justamente os que menos conseguem acessar atividades culturais presenciais.

Abaixo, organizo as principais evidências:

1. Jornadas exaustivas deixam tempo residual para lazer e cultura
A principal evidência quantitativa vem de uma tese de doutorado da Unicamp (2023), que analisou trabalhadores de aplicativos (uberização) — categoria que enfrenta jornadas frequentemente superiores à escala 6x1 .

Categoria Horas trabalhadas por dia Tempo para eventos culturais (dia útil) Tempo para eventos culturais (folga)
Motoristas de app 13,99h 0 min 20 min
Motoboys 12,52h 0 min 11,25 min
Ciclistas entregadores 12,51h 0 min 46,25 min
Principais achados da pesquisa :

Em dias úteis, nenhum dos entrevistados registrou qualquer participação em eventos culturais (shows, teatros, cinemas, exposições).

O tempo livre restante é dedicado majoritariamente a atividades passivas (assistir TV, descansar) — entre 2,5h e 2,8h por dia.

A conclusão do pesquisador: “O tempo dedicado ao lazer é apenas residual”, e a precarização do trabalho “não respeita fronteiras” .



2. A principal barreira para acesso à cultura é financeira, mas tempo livre é fator crítico
A 6ª edição da Pesquisa Hábitos Culturais (Datafolha/Fundação Itaú, 2025), com 2.432 entrevistados em todo o país, identificou :

34% apontam o custo como principal entrave para atividades culturais presenciais (ingressos: 22%; transporte: 19%).

31% mencionam a insegurança/violência.

No entanto, outras pesquisas complementares mostram que o tempo também é um fator determinante. O Retratos da Leitura no Brasil (Instituto Pró-Livro, 2025) revelou que :

46% dos não leitores afirmam não ter tempo para ler.

Entre as justificativas para não ler, também aparecem “não ter paciência” (26%) e “dificuldade de concentração” (36%) — sintomas comuns de fadiga por jornadas excessivas.
3. O que os brasileiros fazem no tempo livre? (E o que isso indica sobre a escala 6x1)
A mesma pesquisa Hábitos Culturais mostra quais atividades dominam o tempo livre dos brasileiros :

Atividade Percentual
Ouvir música (em casa) 85%
Assistir filmes/séries 74%
Atividades ao ar livre 61%
Ir a shows 45%
Ir a bibliotecas 65% (dos que gostam)
Ir a museus 53% (dos que gostam)
Observação relevante: As atividades que exigem deslocamento, planejamento e gasto (shows, museus, teatro) têm participação muito menor do que as atividades domésticas e de baixo custo. Isso reforça que, para o trabalhador exausto, o consumo cultural se restringe ao que pode ser feito em casa .

4. A demanda social por mais tempo livre é real e crescente
Em audiência pública sobre o fim da escala 6x1 na Alesp (março de 2026), o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, declarou :

“O povo está pedindo mais tempo para si, para a família, para a educação, para a cultura, para o lazer. É um direito das pessoas.”

Segundo o ministro, 66% dos trabalhadores formais já atuam na escala 5x2, mas há um contingente significativo (cerca de 15 milhões) que ainda trabalha seis ou sete dias por semana, com impacto direto na qualidade de vida e no acesso a bens culturais .

5. Evidência indireta: setor cultural já opera com jornada reduzida
Uma pesquisa do Cedeplar/UFMG (2025) sobre a oferta de trabalho de artistas no Brasil concluiu que :

A relação entre horas trabalhadas e lazer é inversamente proporcional: quanto maior a jornada em empregos não-artísticos, menor o tempo disponível para atividades artísticas e culturais.

Artistas tendem a valorizar o trabalho não-pecuniário (realização pessoal), mas são pressionados por jornadas longas em outros empregos para sobreviver — exatamente o padrão da escala 6x1.

Resumo dos dados que sustentam o argumento
Evidência Fonte Ano
Trabalhadores uberizados têm 0 min/dia para eventos culturais Tese Unicamp 2023
46% dos não leitores alegam falta de tempo para ler Instituto Pró-Livro 2025
34% apontam custo como barreira; 31% violência Datafolha/Itaú 2025
Atividades culturais presenciais (shows, museus) têm adesão de 45-53% Datafolha/Itaú 2025
66% dos trabalhadores já estão na escala 5x2; 34% ainda em jornadas extensas Ministério do Trabalho 2026
Conclusão
Sim, há pesquisas quantitativas robustas que demonstram que jornadas de trabalho excessivas (como a escala 6x1) são incompatíveis com o consumo cultural regular. Os dados mostram que:

Trabalhadores com jornadas de 12h+ não conseguem participar de eventos culturais presenciais .

A falta de tempo é uma das principais barreiras declaradas para atividades como leitura .

A demanda social por mais tempo livre está explicitamente associada ao desejo de mais cultura, lazer e educação .

Portanto, o fim da escala 6x1 não é apenas uma pauta trabalhista — é uma política estruturante para o fortalecimento da cadeia cultural brasileira.


Fim da escala 6x1: CCJ da Câmara discute e vota PEC que reduz a jornada de trabalho; veja a votação

LÍDER DO PL TENTOU BARRAR FIM DA JORNADA 6x1 E LEVOU INVERTIDA DE TÚLIO GADÊLHA | Cortes 247