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domingo, 14 de fevereiro de 2016

O carnaval de Dom Hélder e do Pastor Mozart Noronha


O meme acima é recorrente no carnaval, gosto  dele e nos últimos anos, tenho-o  trazido por ocasião da época do carnaval, sem antes não deixar de lembrar que é necessário considerarmos o contexto de época em que as palavras acima foram ditas.

Decerto que eram  tempos mais delicados do que estes,  ou tempo em que poderiámos encontrar mais pessoas e gestos delicados do que na atualidade, mesmo que situações de sofrimento e dor também pudessem ser encontradas fora  ou dentro dos espaços de  carnaval.

Como acredito mais na segunda alternativa, a de que mesmo com a poderosa mercantilização e as tentativas do eterno  regresso à um tipo de sociedade mais "falso moralista",  repressora, anti-democrática e injusta, de muitos contrários  ao carnaval,  é possivel encontrarmos e fortalecermos locais e formas de brincar o carnaval,  da forma mais próxima ao espirito preconizado por Dom Hélder.

A este propósito,  sabemos de programas socioculturais, de convivência e fortalecimento de vinculos, além de escolas, familias, comunidades tradicionais ou alternativas que buscam fazer algo neste sentido.

Que cresça sempre mais este movimento em prol de um carnaval menos comercial e mais comunitário, mas que cresça com atenção apurada aos aspectos artisticos e culturais mais genuínos  e criativos.

Que tal como em um espetáculo, filme  ou exposição de época, possamos nos sentir  ao adentrar a estes espaços de carnaval redivivo como nos  tempos de Dom Hélder? Que bom  podermos  entrar como em uma espécie de tunel do tempo e por algumas horas,  termos a sensação de voltarmos a uma espécie de paraiso perdido.

Para isso,  não podemos esquecer de profissionais como historiadores ou artistas de teatro, artistas plásticos e etc.,  que poderão colaborar bastante neste sentido, criar o clima, o ambiente, as sensações, e,  na falta deles, com sensibilidade, pesquisa e compromisso estético pode-se conseguir um bom resultado.

Por outro lado, em nossos tempos atuais,  podemos participar com o mesmo espirito de  Dom Hélder. Como podemos constatar no relato crônica do pastor Mozart Noronha.
 Zezito de Oliveira - Educador e Produtor Cultural

E já que falamos em tempos da/de delicadeza..


 ANTES QUE CHEGUE A QUARTA-FEIRA

Pastor Mozart Noronha
07 de Fevereiro de 2016

Fomos, o Pastor Jose Kowalska Prelicz, Leonir Knaul Kowalska, Ana Sophia Knaul Kowalska, a Diácona Vilma Petsch e eu, um Pastor Emérito, todos pertencentes, com certo orgulho, à Santa, Católica e Apostólica Igreja Evangélica de Confissão Luterana.

Todos nós tínhamos estado no culto matutino e participado da Santa Comunhão, antecipada da Confissão Comunitária, através da qual fomos absolvidos dos nossos pecados que na verdade nem eram tantos.Eu,por exemplo,tinha passado a noite dormindo e entendo que enquanto dormimos não cometemos pecados pois "...aos seu amados o Senhor dá enquanto dormem".(Sl.127,2)

Convictos do perdão antecipado fomos ver um pouco do famoso carnaval de rua em Ipanema. Vimos gente de todas as cores, de todos os sexos com uma incrível variedade de fantasias. Alguns jóvens me abordaram admirados e procuravam tocar nas minhas barbas pensando que eu estava fantasiado de Papai Noel. Logo descobrimos que a multidão não nos permitia caminhar pelas ruas e resolvemos voltar para casa de Deus onde Ele permite que moremos. Entretanto estávamos todos fascinados com as pessoas que passavam pela Rua Barão da Torre, número noventa e oito, onde está encravada a Paróquia Bom Samaritano.

Fizemos uma rápida assembléia e tomamos, por unanimidade, a decisão de colocarmos cadeiras na porta do templo que fica protegido por um grande portão. A ideia que partiu do Pastor José Kowalska e da Diácona Vilma foi de transformarmos a tarde de hoje em uma oportunidade para evangelização dos carnavalescos.

O pastor abriu a porta principal de igreja. Leonir, fiel à tradição sulista, trouxe chimarrão e têrêrê(não sei como se escreve), Vilma contribuiu com várias cervejas,Ana Sophia sentada emsua cadeira de praia distribuindo simpatia. Tudo estava preparado.Agora deveríamos esperar os evangelisáveis. Foi um sucesso! Logo um rapaz parou em frente do templo e leu a inscrição: Paróquia Bom Samaritano (IECLB). Do lado de fora sorriu e disse:

 Sou um padre da Igreja Católica na Paraiba. Abri o portão e ele entrou. Logo lhe foi oferecida a cuia de chimarrão. Ele tomou um gole e não gostou. Eu como um pernambucano agauchado disse-lhe que ele tinha que beber até o fim. Ele fez a gentileza e bebeu tudo. Só que jurou por todos os santos jamais passar perto de um ritual chimarrônico. Chegou a vezde se agir de forma diaconal. Três ou quatro mocinhas pararam em frente do portão principal, uma olhou para nós com cara de desespero e pediu para entrar e fazer xixi. Eu abri o portão e lhe disse: Menina, "aqui você tem lugar", inclusive para fazer xixi!

Ana Sophia a conduziu ao toalete. Ela agradeceu o nosso gesto de termos aplicado a pastoral do apóstolo Tiago de que a fé sem obras é morta e ganhou folhetos evangelísticos da Comunhão  Martim Lutero. Uma moça que já tinha bebido umas dez cervejas não teve tempo de pedir para ir ao banheiro, fez xixi na frente do portão. Os dois pastores fecharam os olhos. Não recorreram à conhecida "lei do xixi". Aproveitamos aqueles momentos para resolver todos os problemas da nossa querida e amada Igreja Luterana(IECLB). 

Amanhã estaremos no mesmo lugar e no mesmo horário. Fiquei pensando se no próximo ano não seria interessante que a paróquia organizasse um Bloco de Carnaval com o lema Salvos Por Graça e Fé. A Diácona Vilma seria a Porta Bandeira e o Pastor José o Mestre Sala.

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Quando adolescente morei no Rio de Janeiro e lembro de ter visto/ouvido o pastor Mozart, em um ato ecumênico em favor dos padres franceses presos no Araguaia e ameaçado de expulsão do Brasil por defender posseiros oprimidos pelo latifundio na amazônia. Foi no Instituto Bennet em Botafogo. Me recordo de um ato na cinelândia e que contou com a presença dele, não lembro o motivo. Muito bom poder compartilhar dos seus pensamentos e práticas por aqui.

Zezito de Oliveira



Leia mais:


Carnaval, a opinião de Dom Hélder, e de outras pessoas. (edição 2014)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014-  Postado originalmente neste blog em 2012

Carnaval (a opinião de Dom Hélder)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013


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