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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Tempos Difíceis e Utopias Comunitárias - Entrevista com Daniel Hilário

Acima.. Foto da sede de um dos mais importantes trabalhos com arte e juventude na periferia de São Paulo. (cidade Tiradentes)

Entrevista com Daniel Hilário
Participação de Valmir de Souza (Instituto Pólis)
Fonte: Cultura Viva, Politicas Públicas e Cultura de Paz.. 
Acesse toda a publicação no endereço...  www.polis.org.br/uploads/2005/2005.pdf
VS: Como você caracteriza a Cidade Tiradentes?
DH: A cidade Tiradentes quando eu mudei pra lá era e continuasendo um bairro novo, cheio de jovens, a maioria são jovens e tinhaessa dinâmica, como as pessoas não tinham muitas coisas elas se juntavam, muitas ONGs se organizaram – até a própria igreja – fizeram por merecer muitas políticas públicas e melhorou a situação do bairro.
Mas ao invés disso gerar mais união, isso gerou mais desagregamento, as ONGs foram cada uma pro seu lado, as pessoas foram cada uma pro seu lado. Quando houve a estabilização da moeda (que veio logo depois) ao invés dessa nova classe, chamada C, se unir, ela virou uma besta fera,extremamente egoísta, não faz questão das dinâmicas, surgiram casas noturnas no bairro, diminui muita coisa, a violência praticada por jovem

contra jovem diminuiu bastante. Em compensação o poder autodestrutivo dos jovens aumentou pra caramba. Autodestrutivo porque émuita bebida, muitos filhos feitos sem amor, essa busca desenfreada por liberdade e sexo. É uma liberdade que a gente vai se enforcar e recolher os resultados mais tarde.
Como eu sou filho da década de 1980, nossa adolescência foi quando jovens mais matavam e morriam a troco de nada. Hoje os jovensconsomem, tem o poder de consumo da classe, e a gente não sabe oque é prioridade. Eu fico ouvindo as pessoas deixarem a tela (TV) ditar o que é prioridade pra elas. Então a classe C entra em muitas dívidas e
não consegue o que é essencial para sua existência. E conforme for, a sociedade sempre modifica algumas coisas, a gente vai colher mais tarde os frutos dessa geração.

VS: Daniel, a ideia é fazermos uma radiografia da convivência, do que você mesmo experimenta no seu espaço, no seu território. Assim, o que você pensa da situação  na cidade de São Paulo e no seu bairro em relação à convivência das pessoas?

DH: Eu vejo que no decorrer do tempo as pessoas se entregam a um sistema de confinamento, confinadas em seus condomínios fecha dos e confinadas nos extremos da cidade. Isso gerou outros problemas sem criar solução para eles. Hoje, pra ter menos pessoas na rua e menoscontraste social, nós construímos muitos abrigos, orfanatos, cadeias, asilos, Centros de Referência Especializada da Criança e do Adolescente  (CRECA), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), tudo com confinamento das pessoas que não estão enquadradas no modelo. Então eu observo isso, a gente não consegue conviver com as pessoas confinadas, em um processo civilizatório à força.
Assim, eu até gostava quando era criança, tinha um lugar perto de
casa aonde os pais levavam os filhos pra tomar café da manhã e ter re
-
forço escolar, educação não-formal. Apesar de ser essa política de ajudar
o pai e a mãe que tinham que trabalhar, mas tinha outro sentido, tam
-
bém por que tinha poucas unidades na
cidade de São Paulo. Quando isso virou
uma política pública, que agora são os
Centros Culturais da Juventude (CCJs)
e os Centro de Crianças e Adolescentes
(CCAs), eles tiram toda a responsabili
-
dade dos pais de se fazerem presente, do afeto, para estarem presentes
através de coisas.
VS: Como você vê a relação da cidade Tiradentes com a cidade de São Paulo?
DH: Como eu ando aqui [pelo Centro], vejo que tem muita gente da
cidade Tiradentes trabalhando na cidade de São Paulo. A gente acorda
cedo - lá é uma área chamada Cidade Dormitório, mas hoje acho que a
dinâmica social melhorou um pouco essa situação no final de semana.
a gente negou o modelo
de família tradicional de
tal forma que não colo
-
camos nenhum outro
modelo no lugar

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Mas a gente tem que estar junto por querer estar junto, não por não ter
outra opção, acho que vai passando por esse caminho. Como a maioria
das pessoas não está lá para educar essas crianças, os pais não estão lá,
estão aqui, nos bairros onde tem emprego pra buscar o pão de cada dia
pros seus filhos. E essa questão de falta de compromisso, eu sempre
falo de reeducação masculina, porque há falta de compromisso: tem
muito filho de mãe solteira, são muitas crianças que nascem, crescem,
sobrevivem sem uma referência positiva masculina.
VS: E como é a convivência entre jovens e adultos? Tem momentos de encontros?
DH: O encontro entre gerações é muito difícil. Acho que o contato
que existe é com seus educadores, seus pais, os professores e a sociedade
de uma maneira geral. Pra mim é como o brilho do vagalume, a gente
entende que brilha, mas não consegue entender como isso funciona
direito. Acho que os jovens também veem isso, os adultos numa dinâ
-
mica e eles querem algumas coisas, não sabem o que realmente querem,
querem o que as pessoas dizem que é legal, e eles também querem ter
esse modelo de família, a gente negou o modelo de família tradicional
de tal forma que não colocamos nenhum outro modelo no lugar, e o
arranjo familiar se impôs através da situação e não pela condição.

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VS: Daniel, quanto à questão da violência, você comentou que diminuiu a
violência direta, mas por outro lado os jovens estão mais ligados na droga, sexo sem
proteção, moças jovens engravidando e tal. Você acha que esse modo de vida tem
relação com algum tipo de violência? É uma reação à violência ou o quê? Como se
caracteriza essa aparente não violência?
DH: Eu vejo que o índice de homicídio diminuiu em todos os bair
-
ros, diminuiu bastante. Outros delitos aumentaram, furtos qualificados,
bastante divulgados pelos meios de comunicação. Mas esse poder au
-
todestrutivo tem a ver com a busca pela vida, não é a busca pela morte.
As crianças crescem com a noção do “sem limite”. Algumas pessoas
que vieram de outra classe social, achando que “o céu é o limite” e,
pra ultrapassar o céu elas falam que “a cadeia é o limite”. Essa falta de
saber moderar o seu limite, acho que as pessoas tem um limite, outras
não tem mais limite. Os jovens querem usufruir da vida porque eles
têm ideia de que a vida é curta, porque ele viu o pai dele se ferrando a
vida inteira e percebeu que não trouxe bens materiais, e essa frustração
que o pai ou a mãe passou pra ele, faz ele querer usufruir mais do que
a sociedade produz e o que a sociedade produz, é uma sociedade total
-
mente consumista onde as pessoas são felizes pelo que elas conseguem
obter. Tudo se obtém e se usufrui como uma praga que obtém tudo
que precisa em um lugar e vai pra outro lugar, gerando várias lacunas,
e a classe C também está entrando nessa dinâmica, e isso se reflete na

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atitude do adolescente, do adulto, por exemplo, no trânsito que não quer
deixar espaço pro outro, na relação com a esposa...
VS: Você diria que é uma sociedade competitiva?
DH: É, eu acho que é mais que uma competição. O jovem sai
querendo usufruir de tudo que é melhor, e usufruir até das pessoas.
Os relacionamentos que eu observo são cada vez mais rápidos (“a fila
anda como escada rolante”). Os relacionamentos, as relações pessoais
(“‘tá comigo, tá me servindo pra algum propósito eu quero, senão
não, bola pra frente”). Até emprego, as pessoas antigamente ficavam
15 anos num emprego, hoje eu vejo pessoas que ficam três anos num
emprego e já arruma pretexto pra ser mandado embora pra pegar
o dinheiro e comprar um automóvel, pra comprar alguma coisa pra
satisfazer seus desejos.
VS: Daniel, você diz aqui num texto que escreveu: “Olhar pro mundo é ver a
consequência da política da ausência que resulta em violência”. Você poderia explicar
essa “política da ausência”?
DH: Quando eu me mudei pra cidade Tiradentes tinha menos fave
-
las, e tinha favelas próximas da minha casa. Tiradentes não foi feita pra
ter favelas, foi feita para ter bairros residenciais pras pessoas dormirem
e irem trabalhar nas empresas do centro da cidade, por isso apelidaram a

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cidade Tiradentes de cidade dormitório. Eu fico pensando nessas coisas:
em São Paulo, é pra estar desse jeito, a gente não se coloca, as pessoas
não se colocam por nós, por isso eu digo que é uma política de ausência.
Quando eu me mudei pra Tiradentes tinha uma favela com 27 fa
-
mílias vivendo em estado de alojamento. O Estado não interferiu e
aumentou pra cinco mil pessoas morando naquela situação e isso acon
-
tece na cidade inteira, a política da ausência. E acontece também com a
classe média. A classe média e a classe rica quando têm algum benefício,
esse é um cenário que você ajudou a construir também. A classe pobre
também é omissa, ausência de ambas as partes, a classe pobre acredita
que alguém deve fazer algo por ela. E automaticamente hoje, por elas
terem essa cultura ainda, é um misto disso, um hibridismo. Alguém
espera que façam algo por ela. Você faz algo pela classe, pelo grupo e
em vez disso projetar mais o bem, para ali.
Vejo pessoas que foram beneficiadas com bolsas-moradia, vale gás,
com as políticas sociais da Prefeitura. Se ela melhorou sua situação, acha
que o Estado fez sua obrigação porque arrecada muito imposto. Agora,
pergunta se ela já fez isso por outra pessoa: não!. Então é diferente das
coisas ruins, as coisas ruins geram mais resultados lá pra frente, geram
ciclos que se repetem. O ciclo da violência vai gerar mais violência. Eu
acredito que a paz não é um ciclo, ela é um “C”, tá faltando um peda
-
cinho pra fechar a bolinha.

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VS: Agora, quanto ao elemento que o Hamilton Faria citou, da Rede de
Artistas, a questão da arte, da vulnerabilidade social e cultural, como você vê isso
na cidade Tiradentes? Claro que o contexto da politica da ausência é importante
porque gera a vulnerabilidade. As ausências são várias, não só ausência do Estado
como também de ação da sociedade que você mencionou. E as várias classes sociais
e a arte em tudo isso, como você vê?
DH: Eu sou um cara da década de 1980, então quando eu era
criança, estava virando adolescente, fui influenciado pela década de
1990, pelos grupos de samba, uma visão idealizada da mulher, essa
crítica muito ferrenha dos grupos de Hip Hop que começaram a surgir
nos Estados Unidos. Acredito que o jovem e a criança não conhecem
o mundo das palavras, eles conhecem o mundo das ações. Então, como
aquilo não se tornou ação efetiva, ele procurou outras coisas, essa mu
-
dança que pregavam, ele não viu essa revolução, essa mudança efetiva
que a história mostra. Somos todos seres políticos e sociais, mas isso não
diz automaticamente que amanhã ou depois de amanhã vai acontecer
uma mudança significativa na sociedade. Acho que é uma crise de men
-
talidades, e as crianças são mais parecidas com seu tempo. No tempo
de hoje, se você for observar, todas as músicas, não importa o gênero
musical, pegam o possível, mas as coisas que precisamos está na escala
do impossível, aquilo que não é visto, sabe? Temos que reconstruir o
imaginário dos jovens. Hoje os jovens falam em ter tudo. E a cultura está

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Cadernos de Proposições para o Século XXI
indo também por esse caminho, as músicas sertanejas, as universitárias,
etc, estão mais ligadas ao comércio. O Hip Hop, o Rap e o Funk vão
nessa linha, e acreditam também que o dinheiro é um fator que deixa
ele incolor. O problema do mundo de hoje são os cinzas! O que eu digo
que são os cinzas é que as pessoas tanto da classe rica quanto da classe
pobre se posicionam de maneira sempre híbrida, em tudo, porque o
que ele mais quer é obter vantagem. Se ele está numa situação pior, ele
quer obter vantagem das políticas públicas. Se ele está numa situação
melhor, ele tenta obter vantagem colocando os funcionários deles com
cargo menor, fazendo acúmulo de funções e pagando menos.
VS: O Hamilton Faria lembrou que em um evento você comentou algumas
questões importantes para a contemporaneidade. Você poderia retomar alguns pontos?
DH: Falei muito da questão de a gente reconstruir o papel do mas
-
culino, a referência positiva do masculino que eu comentei que precisa
reconstruir. Nos movimentos sociais eu vejo muito a presença da mu
-
lher, e quem é que fica pra educar as crianças? Onde é que estão os
homens? Por que os homens ainda são a sociedade e como eles estão?
E eu fico vendo essas mães solteiras que têm muito orgulho de ser mãe
solteira, essas mudanças precisam ser trabalhadas pelas políticas públicas
e até saber como lidar com isso, porque essas situações estão virando
um monte de outros atritos, e temos que admitir que não sabemos lidar

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com essa nova realidade e a gente tenta suprir essa situação com coisas!
E cria uma criança ligada ao mercado.
VS: Você acha que nesse contexto de não saber lidar com novas realidades, as
expressões “cultura de paz” ou “diálogos pela paz” ou “educar pela paz”, soam
vazias? Isso tem repercussão na sociedade, ecoa nos movimentos, nas pessoas?
DH: As pessoas confundiram paz, não é a paz grega que domina,
confundem paz com apatia. A paz hoje está na contramão da história,
a história hoje está numa dinâmica de “viver intensamente”. Quando
se fala de ter aula de meditação na escola, inserida pelo MEC, isso está
na contramão da história, pois você está falando pras pessoas terem
mais tempo de reflexão. Quando você propõe redução da carga horá
-
ria trabalhista você também está na contramão da história, ter roda de
convivência entre os funcionários, ou qualquer proposta, sugestões para
melhorar o serviço, esse trabalho integrado entre os funcionários (Mas
a empresa que visa o lucro não pensa no indivíduo que trabalha na sua
empresa como um todo. Só vemos o que nos divide não o que nos une,
e a paz vai nesse ponto: o que nos une? Nós temos filhos diferentes
que são educados numa educação diferente, mas nossos filhos vão ter a
oportunidade de brincar juntos? A gente vai proporcionar isso? Por que
assim, se tem uma empresa que tem vários funcionários e vários salários
e, devido ao salários que eles têm, eles vivem e convivem em diferentes

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grupos sociais. Se você cria uma creche dentro da sua empresa onde seu
funcionário pode conviver com o funcionário do operacional (pessoa da
faxina, segurança, etc), então se dá uma possibilidade. Uma pessoa tem
o leque todo aberto, o outro mais fechado, e o que tem leque aberto não
é tão aberto assim porque ele tem pouco convívio com outros grupos
sociais e aquelas pessoas que tem contato com vários grupos sociais que
são as pessoas do operacional, sabe-se muito pouco sobre elas.
VS: É verdade, há uma indiferença em relação e até uma ideia de invisibilidade
dessas pessoas. Agora, pra pensarmos no futuro, qual o cenário futuro pra você,
tanto pra cidade Tiradentes quanto pra São Paulo, uma cidade grande, com vários
problemas? Como você veria uma cidade melhor pra convivência social?
DH: Eu sou da época do bairro, do mutirão que foi construído
junto e que foi falsa união, união que as pessoas tinham um propósito
de construir a casa. Acho que se você quer um futuro melhor, a união
vai vir de uma opinião ideológica, não da condição social. Aquela ar
-
gumentação simbólica do herói, que eu faço isso e atrás de mim, eu
deixo um legado de pessoas que vão se sensibilizar com o ato que eu
fiz e perceber que através disso a gente pode dar um outro caminho
para o que está sendo feito. Então, eu não me incomodo de morar a
quilômetros e quilômetros do Centro de São Paulo, o que me incomoda
é saber que aquele foi o único lugar que deixaram pra mim. Quando

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você pensa em políticas públicas, você está pensando na questão de
mobilidade desses indivíduos, em como conviver com outros grupos.
Daí falam: “já é querer demais”, daí a sociedade vai querer demais. Mas
se você observar, o ser humano quis chegar até a lua, e chegou, porque
não pode querer hoje ter relações mais sadias? E ele sabe que as relações
mais sadias começam não só com a distribuição de renda, mas passa
também pelo diálogo, de entender o outro nas suas dificuldades.
VS: Daniel, você acha que a Virada Cultural é um fator de agregação das
pessoas? Penso nas pessoas do centro, da zona oeste, norte, sul, leste, mas de bairros
mais distantes da zona leste. Você acha que tem algum sentido pra esses bairros,
as pessoas vêm para a Virada Cultural? A Virada Cultural propicia convivência
de pessoas diferentes?
DH: A Virada Cultural começou com a política da Marta Suplicy
(Prefeita de SP -2000-2004) que tinha o Agosto Negro, muito ligado aos
movimentos do Hip Hop. A Virada Cultural veio dessa mesma verba.
Eu vejo vários grupos sociais, vários teatros e as pessoas frequentando,
estão consumindo mais arte, estão querendo usufruir daquilo que a
outra classe disse que era bom.
A Virada Cultural virou um evento. Ela poderia ser a menina dos
olhos da cidade, política pública de cultura, mas antes disso ela teria
que ser feita mensalmente ou semanalmente em pequenos pontos com

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os próprios aparatos públicos da cidade de São Paulo. Então quando
pudermos fazer nossas pequenas viradas culturais dentro das unidades
de cultura dos Centros Educacionais Unificados (CEUs), do Centro
Cultural Banco do Brasil (CCBB), dos pequenos eventos que também
tem a proposta de agregação de grupos diversos que fosse uma política
de trazer diversidade para todos os aparatos públicos e a Virada Cultural
fosse o
stand up
, o maior evento com diversidade. Mas na Virada Cultural
as pessoas agendam, pegam os grupos, fazem um monte de seleção e
demonstram isso numa data, virando uma espécie de carnaval.
VS: Você acha que a Subprefeitura no seu bairro poderia proporcionar esses
momentos de ação cultural para a população?
DH: Lá tem o Centro Cultural da Juventude, os CEUs, agora tem o
Centro Cultural com apoio da França. Às vezes a gente dá para nossos
filhos o que eles querem e às vezes a gente dá o que eles precisam. Eu
vejo que os jovens estão nesse processo de autonomia devido à própria
tecnologia, eles podem produzir suas músicas com programa, produz
sua cultura, seu forró universitário. Mas as pessoas estão sempre visando
o público e eu não sei onde está o bom gosto. Está em quem produz ou
em quem consome? Então como somos uma geração ímpar, temos refe
-
rências meio tortas, estamos criando uma geração de consumidores, não
de pessoas que questionam nossa realidade, porque o que os meninos

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narram na música é o cotidiano da vida. A produção cultural hoje está
muito baixa e outro grupo social tem uma produção cultural que é muito
mais válida. Quando eu falo da Tiradentes, gosto da Subprefeitura,
mas ela sempre valorizou o que está em alta, o que traz público e o
público virou nosso medidor do que é bom e do que é certo. Numa
época, a Subprefeitura fez um Festival Gospel porque as igrejas pen
-
tecostais têm um grupo grande, e trouxeram bastante público. Depois
a Subprefeitura viu que os jovens não estavam mais se interessando
em Festival Gospel, mesmo sendo a igreja que mais cresce no mundo.
Hoje a Subprefeitura faz muito
Festival de Funk, porque traz
público e esse público é barato
e fazem comercial de graça pra
um monte de outras coisas. A
Prefeitura tem seu calendário
anual, com eventos grandes, o
aniversário da Tiradentes, cito
meu bairro especificamente,
mas de modo geral não tem uma politica pública focada na cultura uni
-
versitária, ainda não conseguimos chegar nesse grupo que todo mundo
menciona.
Nos movimentos sociais eu vejo
muito a presença da mulher, e
quem é que fica pra educar as
crianças? Onde é que estão os
homens? Por que os homens
ainda são a sociedade e como
eles estão?

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Cadernos de Proposições para o Século XXI
VS: Quanto à articulação dos artistas locais, você acha que eles estão articulados?
DH: Acredito que não, fizemos a Rede de Artistas lá em Tiradentes
e a articulação mais forte só houve quando teve financiamento externo,
porque tinha o Centro Cultural da Espanha que estava financiando a
Rede de Artistas. Esta rede, através de minha pessoa e de outras pessoas,
estava catalisando os artistas a
se propor e se mobilizar em
torno de algo. Quando o fator
externo saiu, as pessoas, com
suas necessidades, foram fazer
outras coisas pra sobreviver e
com isso o movimento diminuiu. Mas o que nós propomos é inserir
-
mos nossas atividades no calendário da Prefeitura, de poder propiciar
e colocar na agenda cultural do bairro essa diversidade.
A gente já propôs muitas coisas, principalmente pelas Conferências,
acho que muitas coisas já foram escritas. Vejo as pessoas fazendo confe
-
rências em cima de conferências, gastando celulose, ao invés de imple
-
mentar aquilo que já foi proposto. O difícil nesse mundo é ser simples,
as pessoas já começam pelo complexo. O que eu quero é que a diversi
-
dade esteja presente na agenda cultural do bairro, e depois do bairro que
esteja presente na agenda cultural do estado, da cidade, da prefeitura, do
município. Isso é o mais simples, mas as pessoas pensam no cachê, se
Só vemos o que nos divide não
o que nos une, e a paz vai nesse
ponto: o que nos une?

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comparando a uma pessoa que tem 20 anos de trabalho. Por isso falo
que nosso discurso é muito ligado ao aspecto econômico. O menino
do bairro quando quer participar do festival, ele já está pensando no
cachê, comparando com o cachê de uma pessoa que já é consagrada. E
fala “ah, mas vou fazer de graça?”.
VS: Mas é uma questão também, não é tão simples: “por que pagam pros
outros e ele vai fazer de graça?” Claro que é um discurso economicista, mas você tem
que encontrar um meio termo de convivência dessas pessoas para que elas possam
também apresentar e ver isso também, elas “não vivem de brisa”.
DH: Mas essa que é a grande questão: nem todos movimentos de
arte fazem alguma coisa importante ligado à arte e ficam pra posteri
-
dade. As pessoas da periferia pensam em viver de futebol, música e
pequenos delitos porque elas acreditam que esse é o mundo que deixa
-
ram para elas. Elas só conseguem ter prazer com coisas que os animais
fazem, brigando, etc. Assim, vamos mostrar nossa complexidade como
indivíduos, nós não queremos só comida, não queremos só saber votar,
aprender a falar, a complexidade humana. O que é negado a ele e ele
não percebeu ainda, está num discurso muito superficial, foi negado a
ele a humanidade: o tudo que a humanidade produz é coletivamente de
forma direta ou indireta, e quando alguém se apropria disso, consegue
mais qualidade de vida, e fica mais preparado pra criar um filho de bem.

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