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O primeiro dia da terceira turma da oficina de audiovisual com celular foi, de fato, marcante. E não poderia ser diferente. Assim como nas duas primeiras edições, esta iniciativa do coletivo cultural Ação Cultural (Ponto de Cultura certificado pelo Ministério da Cultura) carrega consigo a essência da novidade. No entanto, desta vez, o fator "novo" veio acompanhado de desafios que vão além da simples adaptação logística.
Mudaram os dias, os horários e os locais. Essa alteração, que à primeira vista pode parecer burocrática, revelou-se uma virada de chave fundamental: ela sinaliza uma mudança de público e, por que não dizer, de perspectiva. E é exatamente aí que a metodologia, embora consagrada, precisa ser revisitada.
A METODOLOGIA E O PÚBLICO
A base do curso é a mesma: uma metodologia pioneira e inovadora, aplicada pelo ministrante Marcel Magalhães, que ancora o aprendizado em duas tecnologias fundamentais: o celular e a Inteligência Artificial.
Porém, como bem observou nosso facilitador, a metodologia é viva. Ela se transforma a depender do público. Nesta nova turma, as discussões e abordagens sobre o "olhar" cinematográfico e a escolha das temáticas para os minidocumentários já apontam para um caminho distinto. A perspectiva dos novos alunos influencia diretamente a escolha dos personagens e das histórias a serem contadas, exigindo uma sensibilidade apurada do ministrante para conduzir o grupo sem perder a essência do aprendizado técnico.
O DEBATE ACALORADO: OS LIMITES E POSSIBILIDADES DA IA
Se a mudança de público já era um ponto de atenção, a discussão sobre a Inteligência Artificial elevou o nível do debate. E com razão.
Um dos participantes trouxe à tona questões urgentes e pertinentes que vão muito além do "como usar a IA generativa". Foram levantados pontos críticos que ecoam no cenário global:
O Problema Ambiental: A construção e manutenção dos data centers, essenciais para o funcionamento da IA, demandam um consumo altíssimo de água e energia. Até que ponto estamos dispostos a ir para alimentar essa tecnologia?
A Estagnação Criativa: A IA é alimentada por dados e informações do passado. Existe o risco real de uma repetição infinita de padrões, que pode levar à acomodação e ao embotamento da nossa capacidade de inovação humana.
A Apropriação Cultural e Intelectual: O uso de trabalhos de artistas, intelectuais e criadores de conteúdo para "treinar" as IAs, muitas vezes sem consentimento ou compensação, é uma ferida aberta que precisa ser discutida.
A RESPOSTA DO FACILITADOR: FERRAMENTA, NÃO FIM
As preocupações eram muitas, mas a resposta de Marcel Magalhães foi cirúrgica e equilibrada. Ele reconheceu a gravidade dos problemas, especialmente o ambiental, mas trouxe um contraponto lúcido:
"É uma ferramenta e, como tal, deve ser usada como meio e não como um fim."
Essa frase ecoou na sala. Marcel reforçou que a IA deve ser utilizada de forma parcial e sempre sob o comando de quem cria. Para extrair o melhor que a tecnologia pode oferecer, o criador precisa possuir uma base sólida de conhecimento técnico, estético e intelectual. Caso contrário, a IA não passa de uma muleta, ou pior, de um limitador.
Sobre a questão ambiental, a visão é de esperança cautelosa. É esperado que os avanços tecnológicos futuros ditem novos rumos para diminuir o forte impacto negativo dos data centers, mas a consciência sobre o problema agora é parte integrante do processo criativo.
A DEMOCRATIZAÇÃO DO AUDIOVISUAL
Apesar dos pesares, a mensagem final foi de empoderamento. Marcel trouxe o debate de volta ao chão da oficina: o celular e a IA, juntos, representam a democratização da produção audiovisual.
Há alguns anos, produzir um filme ou documentário exigia milhões de dólares ou reais em equipamentos e equipes técnicas. Hoje, com dezenas ou centenas de reais (incluindo um bom smartphone), é possível criar conteúdo de alta qualidade. A tecnologia que preocupa é a mesma que coloca o poder da narrativa nas mãos do povo, da comunidade.
CONCLUSÃO
O primeiro dia da terceira turma não foi apenas uma aula; foi um termômetro do nosso tempo. Ao mesmo tempo em que celebramos a acessibilidade e a inovação, somos forçados a encarar os dilemas éticos, ambientais e sociais que essas ferramentas carregam.
Neste novo ciclo da oficina, fica claro que o aprendizado vai além do manuseio do celular ou do prompt de IA. A verdadeira lição está em aprender a usar a tecnologia com consciência, responsabilidade e, acima de tudo, com um olhar crítico e humano.
Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.
Em um momento em que a Igreja Católica procura aprofundar o diálogo com os grandes desafios culturais do século XXI, poucas figuras possuem tanta relevância quanto o cardeal português José Tolentino de Mendonça. Poeta, ensaísta, teólogo e prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano, Tolentino tornou-se uma das principais vozes da Igreja contemporânea na defesa da cultura, da literatura e das artes como espaços privilegiados de encontro entre a experiência humana e a experiência religiosa.
Sua presença na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada entre os dias 22 e 26 de julho de 2026, representa mais do que a participação de um cardeal em um dos maiores festivais literários da América Latina. Ela simboliza uma mudança de paradigma na forma como a Igreja compreende sua relação com a cultura contemporânea.
Uma voz singular da Igreja portuguesa
Antes de assumir responsabilidades no Vaticano, José Tolentino de Mendonça já era reconhecido como um dos intelectuais mais influentes da Igreja Católica em Portugal. Sua trajetória sempre transitou entre a teologia, a poesia, a crítica literária e o ensino universitário.
Ao contrário de uma tradição eclesial marcada, muitas vezes, por um discurso predominantemente apologético, Tolentino propõe uma Igreja capaz de escutar a cultura antes de falar a ela. Em seus livros e conferências, dialoga com escritores como Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Herberto Helder, Maria Gabriela Llansol e Rainer Maria Rilke, demonstrando que a literatura não é apenas objeto de apreciação estética, mas também um espaço onde as grandes perguntas da existência continuam sendo formuladas.
Para o cardeal português, a arte não serve apenas para ilustrar a fé. Ela possui autonomia, densidade própria e capacidade de revelar aspectos profundos da condição humana. Essa compreensão aproxima a Igreja dos artistas, escritores e intelectuais, abrindo possibilidades de diálogo que ultrapassam as fronteiras confessionais.
A cultura no centro da missão da Igreja
Desde que assumiu o Dicastério para a Cultura e a Educação, Tolentino tem contribuído para consolidar uma das intuições centrais do pontificado do Papa Francisco: a evangelização passa necessariamente pelo encontro com a cultura.
Essa perspectiva encontra inspiração direta no Concílio Vaticano II, especialmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que convida a Igreja a compartilhar "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias" da humanidade.
Na prática, isso significa reconhecer que a literatura, o cinema, a música, as artes visuais, a filosofia, a universidade, as ciências humanas e até mesmo os desafios da cultura digital constituem espaços onde a Igreja pode aprender, dialogar e discernir.
Mais do que utilizar a cultura como instrumento pastoral, Tolentino propõe que ela seja reconhecida como um verdadeiro lugar teológico, isto é, um espaço onde Deus continua a falar através da história, da beleza, da criatividade e das inquietações humanas.
Os dilemas do homem contemporâneo
Talvez uma das razões para o reconhecimento internacional de José Tolentino de Mendonça esteja em sua capacidade de abordar as questões contemporâneas sem reduzi-las a debates exclusivamente morais.
Em seus livros, homilias e ensaios aparecem temas como:
a solidão;
a aceleração do tempo;
a crise da atenção;
o excesso de informação;
o silêncio;
a contemplação;
a vulnerabilidade humana;
a hospitalidade;
a busca de sentido;
a beleza como caminho espiritual.
Sua escrita combina densidade teológica e linguagem poética, tornando-se acessível tanto ao público religioso quanto aos leitores interessados em filosofia, literatura e espiritualidade.
A Flip 2026 e um encontro histórico
A presença de José Tolentino de Mendonça na 24ª Flip, realizada em Paraty entre 22 e 26 de julho de 2026, confirma essa vocação de diálogo.
Sua participação acontece na quinta-feira, 23 de julho, às 10 horas, na mesa "Saber de cor o silêncio", ao lado do escritor e poeta brasileiro Edimilson de Almeida Pereira, com mediação da jornalista Sofia Mariutti.
A escolha do tema não poderia ser mais coerente com sua obra. O encontro propõe uma reflexão sobre poesia, linguagem, silêncio e identidade, reunindo dois autores cuja produção literária se caracteriza pela atenção à memória, à experiência humana e à força transformadora da palavra.
O significado desse convite ultrapassa o ambiente literário. É raro que um cardeal em exercício na Cúria Romana participe da programação principal de um festival internacional de literatura. Sua presença evidencia o reconhecimento de que José Tolentino de Mendonça ocupa hoje um lugar relevante não apenas na Igreja Católica, mas também no pensamento cultural contemporâneo.
O que essa visita pode significar para a Igreja no Brasil?
Embora a participação de Tolentino na Flip não tenha caráter institucional junto à Igreja brasileira, sua presença pode exercer influência significativa sobre o debate pastoral e cultural.
Historicamente, a Igreja no Brasil desenvolveu uma sólida tradição de reflexão sobre justiça social, pobreza, direitos humanos, democracia e cuidado com a criação. Essas prioridades permanecem fundamentais.
Entretanto, a contribuição de Tolentino sugere uma ampliação desse horizonte. Cultura, arte e literatura deixam de ser compreendidas como temas periféricos para se tornarem dimensões essenciais da própria evangelização.
Essa perspectiva pode estimular dioceses, universidades católicas, centros culturais e instituições de formação a estabelecer um diálogo mais intenso com escritores, artistas, cineastas, músicos e pesquisadores.
A Campanha da Fraternidade e uma nova sensibilidade cultural
É importante destacar que a escolha dos temas da Campanha da Fraternidade pertence à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), resultado de um processo colegiado de discernimento pastoral.
Não seria correto afirmar que a visita de José Tolentino de Mendonça levará diretamente à escolha de um tema voltado à arte ou à cultura.
Contudo, sua reflexão pode fortalecer uma percepção cada vez mais presente na Igreja: a de que muitos dos desafios sociais possuem também uma dimensão cultural.
Nesse sentido, futuras campanhas poderiam incorporar temas relacionados à cultura do encontro, à educação para a sensibilidade, à formação estética, ao patrimônio cultural, à cultura digital, à leitura, à preservação da memória e ao papel das artes na construção da dignidade humana.
Mais do que uma campanha "sobre arte", seria uma compreensão da cultura como dimensão transversal da vida cristã e da missão da Igreja.
Uma Igreja que aprende a escutar
Talvez a maior contribuição de José Tolentino de Mendonça seja deslocar uma pergunta tradicional.
Durante muito tempo, a preocupação predominante foi saber como a Igreja poderia utilizar a cultura para transmitir sua mensagem.
Tolentino propõe outra questão: como a Igreja pode escutar aquilo que a cultura contemporânea tem a dizer sobre o ser humano, suas esperanças, suas angústias e sua busca por sentido?
Essa inversão de perspectiva representa uma das mudanças mais profundas do pensamento católico contemporâneo. Ela não relativiza a fé, mas amplia sua capacidade de diálogo.
Num mundo marcado por polarizações, crises de sentido e profundas transformações culturais, a presença de José Tolentino de Mendonça na Flip 2026 sinaliza que literatura, poesia, arte e espiritualidade continuam sendo caminhos privilegiados para compreender a condição humana. E talvez seja justamente nesse encontro entre beleza, cultura e transcendência que a Igreja encontre novas formas de anunciar o Evangelho às gerações do século XXI.
POETA, CARDEAL NO VATICANO E ATRAÇÃO DA FLIP, PORTUGUÊS JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA VAI REZAR MISSA EM PARATY E LANÇA ANTOLOGIA EM QUE CONVOCA ‘DISSIDENTES’, COMO PASOLINI E PATTI SMITH, PARA PENSAR A ESPIRITUALIDADE
SEGUNDO CADERNO
O PADRE QUE QUER SER POEMA
RUAN DE SOUSA GABRIEL
ruandesousagabriel@...com.br
O GLOBO
O primeiro
poema escrito pelo português José Tolentino Mendonça já traçava um mapa do que
viria a ser sua obra. Todas as suas preocupações literárias (e espirituais) já
se anunciavam nos versos de “A infância de Herberto Helder”, publicado em 1990.
O título presta homenagem ao autor nascido na Ilha da Madeira (assim como
Tolentino) que se firmou como o maior nome da chamada Poesia Experimental
Portuguesa. Os primeiros versos do poema juntam o Antigo e o Novo Testamento, o
relato da Criação e a abertura do Evangelho de João.
Na versão
de Tolentino, o princípio não era o Verbo, mas “a ilha”. E “o Espírito de Deus/
abraçava as águas”, como no Gênesis. Nas estrofes seguintes, o eu lírico
recorda um tempo ancestral, quando olhava as estrelas e não pensava que
houvesse perigo naqueles “corpos de fogo”; espanta-se com a natureza da poesia
(“não sabia que todo o poema/ é um tumulto/ que pode abalar/ a ordem do
universo”) e termina por descobrir o divino para além de toda racionalidade:
“Nesse tempo/ ainda era possível/ encontrar Deus/ pelos baldios/ isto foi
antes/ de aprender a álgebra”.
O mistério
que é intrínseco ao fazer poético, e que pode nos colocar em contato com o
sagrado, sempre foi a maior das obsessões de Tolentino.
— Acredito
muito no que disse o poeta catalão Joan Brossa: “O poeta não quer fazer poesia;
quer ser poema” — diz o simpático escritor de 60 anos, que parece fazer poesia
enquanto fala. — A reflexão sobre o trabalho poético é, no fundo, uma busca
sobre o que significa habitar o mundo poeticamente. Se eu tivesse de dizer qual
era a grande invenção humana, não diria a roda, mas a palavra. O homem viu na
palavra a possibilidade de transporte da própria consciência, de conhecimento
de si e de encontro com o outro.
COM O PAPA
FRANCISCO
“A infância
de Herberto Helder” abre “Os enigmas singulares”, a primeira antologia de
Tolentino publicada no Brasil. Ele vem lançá-la na 24ª Festa Literária
Internacional de Paraty (Flip), que começa na próxima quarta-feira e homenageia
a poeta Orides Fontela. Na quinta, às 10h, o português conversa com o
brasileiro Edimilson de Almeida Pereira sobre os enigmas da poesia.
Mas
Tolentino não estará em Paraty apenas como poeta. Na quarta, às 18h30, antes da
abertura oficial da Flip, ele rezará uma missa na Igreja Matriz de Nossa
Senhora dos Remédios, no centro histórico da cidade.
Sim,
Tolentino é padre. Ou melhor: cardeal. Foi nomeado em 2019 pelo Papa Francisco
e atualmente é prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, na Cúria
Romana. É responsável por supervisionar a educação católica no mundo todo,
proteger o patrimônio artístico da Igreja e liderar os diálogos com o setor
cultural. O cardeal já deu aula em instituições católicas no Brasil e teve
livros de teologia editados por aqui. Mas sempre quis mesmo é que sua poesia
chegasse ao país.
— Sou
devedor da tradição literária brasileira. Sei que, para o público da Flip, a
poesia não é disciplina universitária, material para teses de doutorado, mas é
instrumento humano, pão de cada dia, que ajuda a construir a cidade e mapear a
vida — diz Tolentino, que falou ao GLOBO por vídeo do Vaticano, embora tivesse
“Portugal nas costas”, como destacou (atrás dele, impunha-se o quadro
“Biblioteca em fogo”, da franco-portuguesa Maria Helena Vieira da Silva).
POESIA NÃO
DEVOCIONAL
Tolentino
se tornou sacerdote em 1990, mesmo ano em que lançou seu primeiro livro, “Os
dias contados”. Sua poesia, no entanto, não é devocional nem está preocupada em
reafirmar dogmas, mas investiga, de peito aberto, as diferentes dimensões da
espiritualidade. Um bom exemplo é o poema “Grafito”, que traz uma epígrafe do
filósofo francês Emmanuel Levinas (“O poema é o ato espiritual por excelência”)
e, em seguida, lista tudo o que “o poema pode conter”. Para espanto do leitor,
o que cabe nesse “ato espiritual” é tudo aquilo que, à primeira vista, nada tem
de divino, mas é banal e às vezes terrível: “venenos”, “excursões campestres”,
“uma bicicleta caída junto às primeiras paixões sombrias”, “uma guerra civil”,
“um disco dos Smiths”.
Em outro
poema, “Para ler aos noviços”, ele afirma que “Deus não aparece no poema/
apenas escutamos a sua voz de cinza” e indica o “modo verdadeiro de rezar”:
“Estende o teu corpo longo do barco/ que desce silencioso o canal/ e deixa que
as folhas mortas dos bosques/ te cubram”. “Rezar deve ser como essas coisas/
que dizemos a alguém que dorme/ temos e não temos esperança alguma”,
confunde-nos o cardeal-poeta em “O esterco do mundo”.
Em suas
investigações sobre o divino, Tolentino percorre a sabedoria de pensadores e
artistas que chama de dissidentes, como o cineasta soviético Andrei Tarkóvski,
o italiano Pier Paolo Pasolini e a americana Patti Smith. São personalidades
com aspirações espirituais, mas não se submeteram a ortodoxias e apontam uma
relação questionadora e livre com a religião e o sagrado.
— Esses
artistas são mestres inesperados da vida espiritual, que me ajudaram a perceber
a fé como dissidência. De fato, a fé é uma dissidência do visível. Ter fé é
dizer que o que nós vemos não é tudo. Crer é uma luta. Na Bíblia, Jacó sai
mancando do seu encontro com Deus — diz Tolentino, autor do poema “Patti Smith
explica o Cântico dos Cânticos”, o livro poético (e erótico) do Rei Salomão que
está na Bíblia. — O que uma artista com o percurso de Patti Smith tem a dizer
certamente interessa a quem crê.
O cardeal é pop
José Tolentino Mendonça, que cita “um disco dos Smiths” num de seus escritos,
fala sobre nomes como Tarkóvski: “Esses artistas são mestres inesperados da
vida espiritual”, diz. “A fé é uma dissidência do visível. Ter fé é dizer que o
que nós vemos não é tudo. Crer é uma luta”.
‘Os enigmas
singulares’
Autor: José Tolentino Mendonça.
Editora: Assírio & Alvim / Grupo Porto Editora.
Páginas: 216.
Preço: R$ 99,90.
‘PASOLINI
PERCEBEU QUE A RELIGIÃO É NECESSÁRIA’, NA PÁGINA 2
ADMIRAÇÃO POR PASOLINI E ROSALÍA E CURIOSIDADE PELA TECNOLOGIA
Se com Patti
Smith o cardeal entendeu o Cântico dos Cânticos, com Pasolini ele aprendeu
“sobre a blasfêmia/ que a santidade tem de ser”, conforme lemos no poema
“Retrato de Pasolini em Nova York”, um dos poemas mais bonitos do livro. No
posfácio a “Os enigmas singulares”, o organizador do volume, Marcio Cappelli,
afirma que o escritor português elegeu o italiano como “uma espécie de
artistas-modelo”. Marxista, homossexual e um dos intelectuais mais
interessantes do século XX, Pasolini admirava o cristianismo e o papel da
religião popular na cultura.
— Num tempo
em que a religião era uma espécie de endereço ilegítimo para a razão, Pasolini
percebeu que a religião é necessária para entender o humano, que está ligada a
um mundo primordial, selvagem — afirma Tolentino. — Ele foi um visionário, que
estabeleceu um corte na modernidade. Sua lucidez áspera nos oferece uma
gramática para entender o mundo.
SONÂMBULOS RUMO À IA
Outra
artista que o cardeal admira é Rosalía, que se apresenta no Rio mês que vem.
Ano passado, quando a espanhola lançou “Lux”, disco que pergunta como amar a
Deus e ao mundo como se fossem um só e a mesma coisa, Tolentino declarou que
ela havia captado “uma profunda necessidade na cultura contemporânea de se
aproximar de razões espirituais, de cultivar uma vida interior, de valorizar a
experiência religiosa”. O escritor percebe que os meios intelectuais e
artísticos já não têm tanta aversão ou desconfiança da religião como no
passado.
— Onde há
20 anos havia preconceito, suspeitas e distanciamento, há uma curiosidade sábia
— diz ele, acrescentando que, no início de sua carreira, seus fiéis não sabiam
que ele era poeta e seus leitores ignoravam que fosse padre. — Hoje sou
apresentado como as duas coisas. Ambas me pedem tudo. A poesia pede que eu seja
poeta e a vida religiosa pede que eu seja religioso. Cada uma me pede uma
inteireza.
Como
sacerdote e poeta, Tolentino celebrou a encíclica “Magnifica Humanitas”,
publicada em maio, na qual Leão XIV pede pela preservação da dignidade e da
autonomia humanas em meio ao avanço da inteligência artificial. O cardeal
afirma que a mensagem do papa fomenta o debate e combate a desinformação e o
“sonambulismo cultural que nos faz avançar em fila para um destino desconhecido
em vez de pensar, negociar e construir o futuro em liberdade”. Ele não descarta
eventuais colaborações poéticas com a tecnologia, mas faz questão de sublinhar
os limites da máquina.
— A
literatura do futuro vai ser fazer em diálogo com essa ferramenta — diz o
português. — A IA pode gerar literatura, mas sempre como resultado da
interlocução com o ser humano. Porque a IA não chora, não reza, não pede perdão
e, sozinha, também não faz poesia. Ela só imita pensamento e emoção. E o poeta,
como esclareceu Fernando Pessoa de uma vez por todas, não imita, ele finge.
Essa será sempre a diferença entre o humano e a máquina. (Ruan de Sousa
Gabriel)
CARDEAL-POETA
AFIRMA QUE A CULTURA HOJE TEM UMA ‘CURIOSIDADE SADIA’ EM RELAÇÃO À RELIGIÃO E
CELEBRA ENCÍCLICA DE LEÃO XIV SOBRE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
‘A infância
de Herberto Helder’
“No
princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude
das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia
que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar a ordem do
universo agora
acredito
Eu era
quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isto foi
antes
de aprender a álgebra”
ROSALIA FULL CONCERT LUX TOUR LOS ANGELES (4K)
Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos
Patti Smith no Chelsea Hotel — fotografia de David Gahr
Deitamo-nos juntos na noite ilegal trespassados por faíscas de prata Talvez fôssemos sem saber nessa hora a senha aguardada por mundos futuros Talvez desvendássemos um centro para as rosas e agora é de lá que partem os comboios a decidir o curso dos impérios Pouco importa que tenha chegado a aurora aos bares que cumprem horário nocturno e o cheiro dos desinfectantes mostre como se apagam os vestígios do amor
Por meio de um poema escrito pelo próprio Tolentino intitulado “Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos”. Ele imagina a artista punk interpretando o texto bíblico. Aqui está o contexto completo:
1. O que é o Cântico dos Cânticos (O contexto bíblico)
É o livro mais poético, sensual e erótico do Antigo Testamento. Ele descreve o desejo, o corpo e o amor entre um amado e uma amada. Na tradição católica, ele é lido como uma alegoria do amor entre Deus e a alma humana. Tolentino resgata essa dualidade: o amor humano e o amor divino não se opõem, eles se encontram.
2. Quem é Patti Smith para Tolentino (O contexto artístico)
Patti Smith é a "poetisa do punk", visceral, crua e profundamente espiritual. Na infância, foi criada católica, e isso transborda em obras como o disco Easter e o livro Just Kids. Para Tolentino, ela representa a "dissidente" perfeita: alguém que vive a espiritualidade com paixão, mas sem se submeter a dogmas ou a moralismos rígidos.
3. O conceito dos "mestres inesperados" (O contexto teológico)
No artigo do jornal, Tolentino diz que “esses artistas são mestres inesperados da vida espiritual”. Ele acredita que a fé não é uma certeza, mas uma luta (como a de Jacó com o anjo). Para ele, Deus não fala apenas dentro das igrejas; Ele fala através da arte que é autêntica, inquieta e que ousa perguntar.
4. A explicação poética (O encontro entre o sagrado e o profano)
Quando Tolentino escreve um poema onde Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos, ele está dizendo o seguinte: "Se você quer entender a paixão divina descrita na Bíblia, não procure apenas os teólogos. Procure uma artista que entende de desejo, de amor, de dor e de poesia bruta".
Na visão do cardeal, a artista punk é capaz de traduzir para a linguagem do século XXI aquilo que o texto milenar da Bíblia já dizia: que o sagrado não é algo frio ou distante, mas algo que arde, que pulsa e que está profundamente enraizado na experiência humana.
Em resumo: O contexto é a defesa de que a arte (mesmo a mais profana, como o punk rock de Patti Smith) tem autoridade espiritual para falar sobre Deus. Tolentino usa Patti Smith como uma ponte para mostrar que a Igreja precisa escutar a cultura contemporânea, e não apenas ensiná-la.
O cinema
brasileiro vive um momento de celebração e resgate histórico. Neste mês de
julho de 2026, uma das obras mais emblemáticas da nossa cinematografia retorna
às salas escuras de cara nova: Xica da Silva (1976), dirigido por
Cacá Diegues. O longa-metragem ganha um relançamento comercial em cópia digital
totalmente remasterizada em 4K, oferecendo ao público a chance de (re)descobrir
a força dessa narrativa na tela grande.
Mais do que
uma sessão de cinema, assistir a essa versão é uma oportunidade de testemunhar
a restauração de um patrimônio cultural indispensável.
O Impacto Histórico: Protagonismo e Subversão
Lançado
originalmente em 1976, em plena ditadura militar, Xica da Silva
tornou-se um fenômeno instantâneo de público, arrastando mais de 3 milhões de
espectadores aos cinemas. O filme reconta a história real de Francisca da Silva
de Oliveira, uma mulher escravizada que, no século XVIII, conquistou sua
alforria e ascendeu ao topo da sociedade do Arraial do Tijuco (atual
Diamantina, MG) ao se unir ao contratador de diamantes João Fernandes de
Oliveira.
O grande
trunfo da obra foi romper com os padrões do audiovisual da época ao colocar uma
mulher negra no centro absoluto da narrativa. Interpretada
magistralmente por Zezé Motta, Xica não é retratada apenas como uma vítima do
sistema colonial, mas como uma figura inteligente, sedutora e estrategista. Ela
subverte a lógica da opressão e passa a ditar as regras do jogo social,
mandando e desmandando na elite branca local.
Cacá
Diegues utilizou a ironia, o humor, a carnavalização e o erotismo para
construir uma verdadeira "fábula política". Em vez de focar
exclusivamente na dor da escravidão, o filme celebra o direito ao prazer, à
ostentação e à alegria como formas legítimas de resistência e sobrevivência dos
oprimidos.
Por que Assistir à Versão Remasterizada em 4K?
Se o filme
já é um clássico acessível em outros formatos, por que vale a pena sair de casa
para assisti-lo nos cinemas em 2026? A resposta está na preservação e na
experiência sensorial.
1. Excelência Visual e Sonora
O processo
de restauração digital em ultra-alta definição (4K) recupera a vivacidade
original da película de 35mm. Detalhes minuciosos dos figurinos de época, as
cores vibrantes das festas coloniais e a fotografia exuberante ganham uma
nitidez nunca antes vista nas telas modernas. Além disso, a trilha sonora
icônica, composta por Jorge Ben Jor, ressoa com máxima fidelidade acústica nas
salas de som imersivo.
2. A Experiência Coletiva do Cinema
Xica da
Silva foi feito para a tela grande. A energia da atuação de Zezé Motta, o
ritmo ágil da montagem e o calor das cenas coletivas ganham outra dimensão
quando compartilhados no escurinho do cinema. É a oportunidade de vivenciar o
filme com o mesmo impacto emocional que arrebatou plateias há exatamente
cinquenta anos.
3. Conexão entre Gerações
Promovido
por iniciativas de difusão do cinema nacional, este relançamento permite que as
novas gerações de cinéfilos tenham contato direto com a história viva do nosso
país. Discutir raça, gênero e poder no Brasil de 2026 a partir de um filme de
1976 mostra o quão atemporal e necessária permanece a obra de Cacá Diegues.
Um Encontro Marcado com a História
Xica da
Silva em 4K é um manifesto de que o cinema brasileiro tem passado, presente e
futuro. É um convite para celebrar a força de Zezé Motta, a genialidade de Cacá
Diegues e a riqueza cultural de uma personagem que se recusou a aceitar o lugar
que a história oficial tentou lhe impor. Garanta o seu ingresso e prestigie o
nosso cinema na sua melhor forma!
Abaixo, para assistir depois de assistir filme:
Cinema Nosso | Xica da Silva (1976): O Impacto Cultural e Cinematográfico da Obra de Cacá Diegues
Plebe Rude, Herbert Vianna, Jaques Morelenbaum - Até Quando Esperar – 40 Anos
Não é nossa culpa
Nascemos já com uma bênção
Mas isso não é desculpa
Pela má distribuição
Com tanta riqueza por aí
Onde é que está? Cadê sua fração?
Com tanta riqueza por aí
Onde é que está? Cadê sua fração?
Até quando esperar?
E cadê a esmola
Que nós damos sem perceber?
Que aquele abençoado
Poderia ter sido você
Com tanta riqueza por aí
Onde é que está? Cadê sua fração?
Com tanta riqueza por aí
Onde é que está? Cadê sua fração?
Até quando esperar a plebe ajoelhar
Esperando a ajuda de Deus?
Até quando esperar a plebe ajoelhar
Esperando a ajuda de Deus
Posso
Vigiar teu carro?
Te pedir trocados?
Engraxar seus sapatos?
Posso?
Vigiar teu carro?
Te pedir trocados?
Engraxar seus sapatos?
Sei, não é nossa culpa
Nascemos já com uma bênção
Mas isso não é desculpa
Pela má distribuição
Tanta riqueza por aí
Onde é que está? Cadê sua fração?
Até quando esperar a plebe ajoelhar?
Esperando a ajuda de Deus
Até quando esperar a plebe ajoelhar?
Esperando a ajuda do divino Deus
Fonte: Musixmatch
Compositores: Carlos Augusto Woortmann / Andre Philippe De Seabra / Andre Pinheiro Machado Mueller
Em 1985, em
pleno processo de redemocratização do Brasil, a banda de punk rock Plebe Rude
lançava um dos maiores hinos de protesto da música nacional: "Até
Quando Esperar". Com versos cortantes como "Tanta riqueza por
aí / Onde é que está? Cadê sua fração?" e "Mas isso não é
desculpa pela má distribuição", a canção escancarava a ferida da
desigualdade estrutural do país.
Quatro
décadas depois, esse manifesto sonoro continua assustadoramente atual. O
diálogo entre a arte da Plebe Rude, as investigações do jornalismo independente
e a criação de novas políticas públicas revela que a disputa pelo orçamento da
cultura ainda é um dos campos de batalha mais intensos do Brasil contemporâneo.
O Banquete dos Megashows: O Dossiê "Farras" e a Má
Distribuição
O portal De
Olho nos Ruralistas publicou uma investigação contundente: o Dossiê
Farras. O relatório revelou um cenário alarmante onde apenas 40 artistas de
grande apelo comercial (majoritariamente ligados ao circuito do agronegócio e
das feiras de rodeio) concentraram mais de R$ 3 bilhões em verbas
municipais e estaduais de cultura.
Enquanto
municípios inteiros decretavam estado de calamidade pública ou sofriam com a
falta de saneamento básico e postos de saúde, prefeituras injetavam cachês
milionários em apresentações únicas. A "má distribuição" denunciada
pela Plebe Rude ganhou números, gráficos e nomes próprios. O dinheiro que
deveria irrigar a identidade e a subsistência de comunidades locais acabou
capturado por oligopólios do entretenimento corporativo.
O Combustível do Sistema: Orçamento Secreto e Emendas Pix
Como essa
engrenagem bilionária se sustenta? A resposta está nas mutações do orçamento
federal. Nos últimos anos, mecanismos como as Emendas de Relator (o
Orçamento Secreto) e as Emendas Pix (Transferências Especiais)
transformaram a forma como o dinheiro chega aos municípios.
Falta de Rastreabilidade: Nas
"Emendas Pix", o recurso federal cai diretamente na conta
corrente da prefeitura. Sem a necessidade de aprovar um projeto técnico
prévio em ministérios, o dinheiro perde a destinação específica.
O Atalho da Inexigibilidade: Com o
caixa cheio, prefeitos utilizam brechas da Lei de Licitações (alegando a
"inviabilidade de competição") para contratar megashows com
empresários exclusivos por dispensa. Sem concorrência, os preços inflam e
o dinheiro público vira plataforma de palanque político em anos
eleitorais.
É o retrato
perfeito do verso: "E cadê a esmola que nós damos sem perceber?"
— o imposto do cidadão transformado em festa clientelista.
A Resposta Estrutural: Como a Lei Aldir Blanc (PNAB) Blinda a Cultura
É contra
essa lógica de "esmola" e apadrinhamento político que surge a Política
Nacional Aldir Blanca de Fomento à Cultura . Instituída como uma política
permanente e descentralizada, a Lei Aldir Blanc foi desenhada justamente para que a
"plebe" não precise mais se ajoelhar para acessar o direito
constitucional à cultura.
Ao
contrário do fluxo livre e obscuro das emendas parlamentares, a Lei Aldir Blanc
possui travas institucionais rígidas que impedem o financiamento de megashows
corporativos:
1. Verba Carimbada (O PAAR)
Os
municípios não podem gastar o dinheiro da Lei Aldir Blanc como querem. Eles devem submeter
um Plano de Aplicação dos Recursos (PAR) ao Ministério da
Cultura. Se o recurso foi destinado a pontos de cultura ou periferias, ele é
blindado e não pode pagar o cachê de uma grande estrela sertaneja.
2. Obrigatoriedade de Editais Públicos
A lei
proíbe a contratação direta para a execução de suas metas. O dinheiro é
distribuído obrigatoriamente por Chamamentos Públicos, Prêmios e Editais.
Qualquer trabalhador da cultura precisa submeter um projeto, que será avaliado
por comissões técnicas independentes, pulverizando os recursos na base.
3. Tetos e Cotas de Inclusão
Os editais
limitam o valor máximo por projeto, inviabilizando cifras milionárias. Além
disso, as cotas obrigatórias (para negros, indígenas e territórios periféricos)
garantem que a verba chegue a quem constrói a cultura viva no dia a dia, e não
aos mesmos oligopólios de sempre.
4. Controle Social e Conselhos de Cultura
O prefeito
não decide sozinho. A Lei Aldir Blanc exige a realização de escutas públicas com a
sociedade civil e a validação dos Conselhos Municipais de Cultura,
tirando o caráter secreto da gestão do dinheiro.
Conclusão: Da Resistência à Gestão
A denúncia
da Plebe Rude em 1985 ecoa no jornalismo investigativo do Dossiê Farras,
mostrando que a estrutura coronelista de desvio de prioridades públicas ainda
resiste. No entanto, ferramentas democráticas como a Lei Aldir Blanc
provam que é possível desenhar um Estado onde a cultura seja tratada como
direito e soberania, e não como barganha política.
A lição que
fica é clara: para que a má distribuição acabe, o orçamento não pode ser
secreto. Ele precisa ser público, transparente, disputado e, acima de tudo,
popular.
💬 E na sua cidade? Você tem acompanhado
como os recursos da Lei Aldir Blanc estão sendo aplicados pelos editais locais?
Deixe seu comentário abaixo e vamos debater!
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gostou deste artigo e quer acompanhar mais debates sobre políticas públicas e o
ecossistema cultural do Brasil, informe-nos quais outros temas ou análises
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O papel dos Pontos de Cultura na
resistência comunitária.
Como fiscalizar o orçamento do seu
município através dos portais de transparência.
Reflexos de poesia!
"Às escondidas
Os primeiros chuviscos restituem-nos
o incrível cheiro da terra
mas nós estaremos quem sabe longe
do que tem significado
Preenchemos a inscrição numa piscina municipal
não sabemos bem o motivo ou não dizemos a ninguém
como os dias nos pedem a dureza
ofegante,instintiva
que têm para os nadadores as braçadas
Uma sombra nos acalma
Uma claridade nos dói
Cedo receamos a felicidade daquelas imagens
que reencontramos dentro de nós
e não se ligam a nada"
de Igual Para Igual(2001)
José Tolentino Mendonça