quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Cem anos de uma profecia política

 



Marcelo Barros

 

Nesta quinta-feira, 13 de agosto, no mundo inteiro, comunidades e movimentos populares celebram o centenário de nascimento de Fidel Castro Ruz, um dos líderes máximo da revolução cubana. Fidel foi um profeta que mostrou ao mundo que, mesmo na perigosa proximidade do império estadunidense, é possível organizar a sociedade humana de modo mais justo e igualitário.  

Aparentemente, é estranho chamá-lo de profeta porque ele se declarava não religioso. Em geral, até hoje, profecia ainda soa como palavra religiosa. Profeta ou profetiza seria a pessoa que exerce a função de porta-voz do próprio Deus. No entanto, na história bíblica e em outras tradições espirituais, frequentemente, profetas e profetizas, profetas e profetizas foram perseguidos por líderes religiosos e muitos foram martirizados, como hereges e como ateus.

Na realidade, há profetas que se assumem como mensageiros ou mensageiras de Deus. São profetas assumidos. Embora não se use essa palavra nas tradições hinduístas, o Mahatma Gandhi foi assumido como profeta do Hinduísmo. O Pastor Martin-Luther King, o bispo Oscar Romero e a Irmã Dorothy Stang foram profetas do Cristianismo.

No entanto, há também profetas não religiosos. Estes não se assumem como profetas, mas, por sua vida, tornam-se testemunhas e porta-vozes do projeto divino de justiça ecossocial para o mundo. Assim foi, na África do Sul, a figura de Nelson Mandela; em Angola, o testemunho do mártir Patrice Lumumba e aqui no Brasil, Zumbi dos Palmares, ou mais recentemente Chico Mendes, profeta da defesa da floresta e Marielle Franco, profetiza da dignidade da Política. Nunca se apresentaram, ou pensaram em si mesmos como profetas, mas o são.

Ao lembrar dessas figuras, é importante não idealizar profetas e profetizas, porque isso seria desumanizar a profecia. Todas essas pessoas tinham defeitos pessoais e fragilidades. Nem por isso, deixam de ser profetas do projeto divino no mundo. As pessoas não precisam estar de acordo com todas as ações e todas as palavras de Fidel Castro para reconhecer nele uma profecia social e política. É à medida que são humanos e, portanto, passíveis de erros, que os profetas e as profetizas testemunham que a Palavra Divina se faz carne e manifesta-se em nossa humanidade como ela é.

Nesse centenário do nascimento de Fidel Castro, crentes e não crentes devemos aprofundar qual foi e é a profecia de Fidel, não apenas para a Cuba, ameaçada e atacada pela desumanidade do império, mas para o mundo e, principalmente, para o nosso continente afrolatíndio.

Sem dúvida, um elemento importante da profecia de Fidel foi ajudar o heroico povo cubano a mostrar ao mundo que um país pequeno e pobre do Caribe pede ser referência de solidariedade internacional, em áreas como saúde, educação e cultura.

Hoje, a profecia de Fidel torna-se cada vez mais coletiva. É a de todo um povo que resiste e, sem se isolar, encontra formas de preservar sua forma própria de se organizar, em um mundo sempre mais excludente e desigual. Há mais de 65 anos, Cuba colocou-se como o primeiro território livre das Américas. Hoje, apesar de todos os ataques e do bloqueio genocida do império estadunidense, o povo cubano, mesmo ferido e tão fortemente atacado, continua fiel à sua profecia de liberdade e nos interpela sobre o que fazemos para que todo o continente possa ser libertado.   

Nos primeiros anos da revolução cubana, a maioria do clero e da hierarquia católica posicionaram-se de forma reacionária e oposta à causa dos oprimidos, o movimento revolucionário cubano defendia o ateísmo e considerava a religião como essencialmente alienada e aliada aos opressores. A partir da década de 1970, por toda a América Latina, cristãos e cristãs, padres e pastores, participavam de movimentos sociais de libertação. Por todo o continente, floresciam comunidades eclesiais de base. A Teologia da Libertação era ensaiada, em ambientes católicos e evangélicos. Ao testemunhar isso, o governo e a sociedade cubana abriram-se mais ao diálogo com o Cristianismo da Libertação e com outros grupos religiosos. Testemunha disso foi o diálogo e a amizade formada entre Fidel Castro e Frei Betto. O livro “Fidel e a Religião” foi traduzido em muitos idiomas e percorreu o mundo inteiro.

Uma vez, em São Félix do Araguaia, um jovem procurou o bispo Pedro Casaldáliga e lhe disse: “Bispo, eu sou ateu”. O bispo lhe respondeu:

- De qual deus você é ateu? Dependendo de qual for, eu também sou.

Para ser profeta ou profetiza do projeto divino no mundo, é importante rejeitar o deus do império, aquele do qual as notas de dólar afirmam: Nós acreditamos em Deus. Devemos ser ateus em relação a um Deus que se confunde com poder e legitima injustiças estruturais, racismos, patriarcalismos, homofobia, o genocídio do povo palestino. Até hoje, esse deus é invocado por fascistas que dizem: deus acima de tudo!

Conforme o evangelho, no julgamento final, Jesus não perguntará às pessoas se foram religiosas ou não. O único critério será a ética e a solidariedade humana: “Tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber...” “O que, em meu nome,  fizestes a um desses pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25).

Desde ao menos a última década do século XX e hoje, parece que cada vez mais, grupos religiosos e grande parte da Igreja Católica e também de outras Igrejas cristãs tornam-se cada vez mais autocentrados. Fecham-se ao diálogo com as culturas contemporâneas. Assim, mostram-se incapazes de testemunhar o projeto divino da liberdade e da amorosidade social, assim como de colaborar com a parte melhor da humanidade, para construirmos uma sociedade mais justa e fraterna.  

Diante dessa realidade, torna-se urgente insistir no testemunho profético da Boa Notícia de Jesus Cristo, para além dos templos, com as comunidades eclesiais de base, em um novo modo de ser Igreja, como ensaio de nova forma da humanidade organizar-se.

Junto com todos os movimentos populares e grupos da sociedade civil, celebremos o centenário de Fidel Castro para aprendermos a ser mais fieis ao profeta Jesus de Nazaré e a todos os profetas e profetizas de um novo mundo necessário, urgente e possível.

 

 

 

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