O Velhinho de Taubaté ficou encostado no poste vendo a vida cultural acontecer como sempre acontece no Brasil: sem patrocínio, sem garantia e sem plateia garantida — mas com uma teimosia que daria inveja a qualquer política pública. De um lado, o teatro de rua improvisando cenário com pano e coragem; do outro, o músico afinando o violão pra cantar num barzinho onde o cachê depende mais do humor do dono do que do talento; mais adiante, uma bailarina ensaiando na calçada, desviando de buraco, moto barulhenta e da velha indiferença nacional. E no meio disso tudo, uma verdade incômoda: no Brasil, o artista não falta — o reconhecimento é que vive ausente.
E o Velhinho, com aquele olhar de quem já entendeu o enredo antes do terceiro ato, soltou: “No Brasil, o artista abre empresa pra ver se fecha as contas… mas quase sempre fecha é o sonho.”
Porque o teto do MEI virou uma espécie de teto de vidro: você enxerga o crescimento, mas se bater ali, corta. O artista que começa a dar certo entra numa zona perigosa — não a da fama, mas a da fiscalização. Trabalha sexta, sábado e domingo, troca o descanso por apresentação, a família por agenda, o lazer por sobrevivência… e ainda precisa fazer conta pra não ultrapassar o limite. É o único lugar do mundo onde agenda cheia vira motivo de preocupação.
“Cuidado pra não dar certo demais”, aconselha o sistema, como se fosse um pai zeloso — só que é o contrário: é um sistema que pune quem insiste em crescer.
O Velhinho conheceu um rapaz que fazia cinema itinerante. Levava tela, projetor, som… chegava onde o Estado nunca chegou. Criançada sentada no chão, olho brilhando, gente vendo filme como quem descobre outro mundo. Cultura pura, na veia. Mas no fim do mês, a conta era outra: “Se eu fizer mais duas sessões, passo do teto”, disse o rapaz. E ali, naquele exato momento, o Velhinho entendeu o tamanho da distorção: no Brasil, levar cultura demais pode virar erro contábil.
E enquanto isso, lá em cima, discutem “impacto fiscal”. O Velhinho deu uma risada curta: “Impacto fiscal é bonito no papel. Quero ver explicar isso pra quem troca aplauso por boleto.”
Porque o artista brasileiro não vive de glamour — vive de improviso. Não vive de palco — vive de oportunidade. Não vive de estabilidade — vive de insistência. E mesmo assim, quando tenta se organizar, quando tenta fazer certo, quando tenta emitir nota, pagar imposto, ser reconhecido… descobre que entrou num jogo onde a regra principal é: não cresça demais.
É um país que trata artista como peça decorativa quando convém e como problema quando prospera. Invisível quando precisa de apoio, visível quando precisa pagar imposto. Obsoleto quando pede política pública, moderno quando entra na estatística da economia criativa.
O Velhinho coçou a cabeça e mandou outra, dessas que parecem simples, mas não são: “O Brasil ama a cultura… só não suporta quem vive dela.”
E talvez seja isso que mais doa. Não é a falta de talento — isso o país tem de sobra. Não é a falta de esforço — isso transborda nas ruas, nas praças, nos bares, nas periferias, nas estradas de terra. É a falta de coerência. É o abismo entre o discurso e a prática. É transformar o artista em herói no discurso… e em sobrevivente na vida real.
No fim da tarde, o Velhinho olhou aquele cenário todo — a arte acontecendo apesar de tudo — e soltou a frase que ficou ecoando mais do que qualquer aplauso: “No Brasil, ser artista não é profissão… é resistência com CNPJ.”
E saiu andando, devagar, como quem já viu esse filme antes.
Só que dessa vez, com um detalhe diferente: o final ainda não foi escrito… mas, se depender de quem insiste em criar, ele não vai terminar em silêncio.
Taubaté 22 de abril de 2026







