sábado, 5 de setembro de 2026

Dois tesouros do cinema nacional chegam ao streaming pela primeira vez na Retrospectiva Helena Ignez

 Luísa Pécora

Jornalista e criadora do site Mulher no Cinema

Diante dos 22 filmes que integram a Retrospectiva Helena Ignez na Itaú Cultural Play, é natural que o espectador busque algum tipo de guia – recomendações do que ver para conhecer as mais de seis décadas de carreira de uma artista única que, aos 87 anos, segue trabalhando como atriz, diretora, roteirista e produtora.

Tal guia certamente incluirá marcos do cinema brasileiro, como O assalto ao trem pagador (1962); clássicos do Cinema Novo, como O padre e a moça (1966); obras realizadas em parceria com Rogério Sganzerla (1946-2004), como A mulher de todos (1969); e as obras que a própria Helena dirigiu, como A moça do calendário (2017).

Aproveito, então, para destacar dois filmes menos conhecidos que chegam ao streaming pela primeira vez graças à iniciativa da IC Play.

O primeiro é O grito da terra, de Olney São Paulo (1936-1978), lançado em 1964, ano do golpe militar no Brasil. A trama contrasta a história de duas jovens mulheres que vivem no sertão da Bahia, filhas de agricultores pobres. Mariá, personagem de Helena, quer ajudar sua comunidade a enfrentar a seca e a exploração de comerciantes e latifundiários. Já Loli, interpretada por Lucy Carvalho, vê a batalha como perdida e busca uma forma de ir embora.

Na época de seu lançamento, O grito da terra foi alvo de censura e teve sua trajetória limitada. Mais recentemente, o acesso à obra era restrito, pela falta de uma cópia digitalizada, que agora, com o suporte da IC Play, foi realizada a partir de matrizes em película guardadas pela Cinemateca Brasileira.

Outro filme da Retrospectiva Helena Ignez era não apenas raro, mas, de fato, inédito. América do sol, de Léo Duarte, foi rodado em 2000, de forma independente, numa parceria entre a produtora Plus Ultra e a Universidade Federal Fluminense (UFF). Os recursos cobriram as filmagens, mas não a finalização, realizada só agora, 26 anos depois, também com o apoio da IC Play.

A obra parte da descoberta de uma estranha criatura em águas brasileiras para brincar com a ficção científica e fazer crítica social. Numa participação breve, mas marcante, Helena reaparece como Sônia Silk, a protagonista de Copacabana, mon amour (1970), antológica até no nome.

Em seu icônico vestido vermelho, Sônia evoca tanto o Brasil que resiste quanto o espírito da Belair, produtora que Helena fundou com Júlio Bressane e Rogério Sganzerla nos anos 1970. América do sol não está no mesmo nível dos filmes do trio, mas reflete o impacto de um cinema feito com poucos recursos e liberdade total.

https://www.itauculturalplay.com.br/content/collections/retrospectiva-helena-ignez

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