sábado, 22 de março de 2008

Relatório de Atividades - 2005

CONQUISTAS
O ano de 2005 começou com uma grande conquista para todos os nordestinos: O concurso de projetos culturais do Banco do Nordeste do Brasil (BNB). O processo de inscrição e o formulário são muito simples. Participamos com dois projetos: um, cujo objetivo era uma oficina de teatro no conjunto Jardim, e outro voltado para palestras e oficinas de metodologia do trabalho social-educativo com arte. Infelizmente não fomos classificados.

Para o ano de 2006 enviamos novamente um, tendo como foco uma oficina de dança no conjunto Jardim e outro semelhante ao que foi enviado no ano passado, que trata de palestras e oficinas de metodologia do trabalho social-educativo com arte, sendo desta vez enviado através da Prefeitura da Barra dos Coqueiros, como parte integrante da programação do II Encontro Cultural do município a ser realizado, em dezembro de 2006.

Uma conquista no final de 2005 foi o registro em cartório. Está faltando obter o número do CNPJ, o que deve acontecer até o final de janeiro de 2006.

Em Janeiro/ Fevereiro de 2005 mais uma conquista foi conseguirmos romper um bloqueio na escolha dos delegados para representar o estado no Seminário de Culturas Populares em Brasília, que deveria contar apenas com representantes de grupos folclóricos mais inseridos na área de influência de setores ligados à Secretaria de Estado da Cultura, especialmente mestres e brincantes da cidade de Laranjeiras e funcionários do órgão estadual.

Graças à visita à home page do Ministério da Cultura (MINC) ficamos sabendo de uma oficina preparatória, aqui em Aracaju, para o seminário em Brasília, da qual ninguém no Estado de Sergipe ligado à área de cultura, no âmbito da sociedade civil, tinha conhecimento. Foi mantido contato com Isaac Galvão (Presidente do Sindicato dos Artistas) e com a representação do MINC no Nordeste, e a mobilização foi realizada. Isso possibilitou que fosse agregada qualidade à representação de Sergipe no seminário em Brasília
Na capital federal Zezito fez algumas intervenções, inclusive conseguindo aprovar propostas de diretrizes prioritárias no relatório final.

Esse mesmo problema aconteceu no final de 2004, quando da vinda de Élder Vieira, assessor da Secretaria de Programa e Projetos Especiais do MINC esteve presente para falar sobre o Programa Cultura Viva e poucas pessoas na cidade tiveram conhecimento. Navegando através da página do MINC ficamos sabendo e conseguimos mobilizar cerca de 60% dos presentes no auditório.

Uma boa notícia no final do ano foi a eleição de Lucy Paixão, secretária da Ação Cultural, (numa escolha bem disputada, em São Cristóvão) para representar Sergipe na Conferência Nacional de Cultura, em Brasília.

Uma outra conquista importante foi a programação dos almoços culturais na residência do Zezito e Irene. A idéia no princípio foi pensada para gerar algum lucro e contribuir para uma maior integração dos amigos, colaboradores e sócios da Ação Cultural. Mas ficou constatado que não gera lucro financeiro. Contribui todavia para aproximar as pessoas. Foram realizados três momentos em 2005: Fevereiro (feijoada), junho (café nordestino) e novembro (mocotó).
almoço cultural


Por ultimo, não podemos deixar de registrar o evento cultural que mais marcou o ano de 2005 para a Ação Cultural: O I Fórum Popular de Cultura. Feito com raça, coragem e na base do apoio dos amigos e compaheir@s e com a colaboração da Biblioteca Municipal Clodomir Silva, do SESC, do Centro Educacional Bem-Me-Quer e Casa Santa Zita, que cederam espaços para reuniões e realização de atividades ligadas ao evento.
Os aspectos positivos foram os seguintes:
• O trabalho na equipe de coordenação do evento com pessoas com as quais os integrantes da Ação Cultural não tinha desenvolvido atividades em comum antes, como Real, Flávio, Nely e Ademir.
• A grande divulgação através da mídia impressa (Jornal Cinform) e da Rádio Cultura;
• A presença de José Cleto do Recife como palestrante na 2º parte do fórum;
• As ações que realizamos como desdobramento do Fórum, como os fóruns locais e o primeiro intercâmbio e mostra de dança em Pirambu;
• O Novembro Negro, que contou com a colaboração de alguns ativistas do fórum;
• A elaboração da carta cultural da periferia.






Em termos de aspectos negativos, devemos superar:
• A sobrecarga em cima de poucas pessoas;
• A forma precária como foi realizado o registro escrito das palestras e dos debates.
Obs.: Houve um maior cuidado nos fóruns locais.
• Os altos custos do telefone que recaiu sobre uma pessoa.

OPORTUNIDADES

• No ano de 2005 alguns componentes da Ação Cultural participaram de algumas oficinas de planejamento e elaboração de projetos: Curso de Incubação de Cooperativas de Economia Solidária, em Aracaju, promovido pela Universidade Federal de Sergipe; Oficina “Como elaborar projetos para a Lei Rouanet” em Aracaju, promovido pela Universidade Federal de Sergipe; Participação na oficina de orientação sobre o edital de projetos culturais do BNB, em Aracaju; Participação na oficina de elaboração de projetos do programa Petrobrás Cultural, em Aracaju.
• Zezito, Luci e Irene participaram de oficinas de danças circulares em Aracaju com Álvaro Pantoja, do Centro Nordestino de Animação Popular,
• A Ação Cultural esteve representada por Zezito em diversas reuniões da Articulação pela Democratização da Mídia, que tem como proposta discutir alternativas de diálogo com os Movimentos Sociais e Estudantis, Rádios Comunitárias, Sindicatos, Organizações Não Governamentais na busca pela democratização da informação, com foco em ações referentes ao direito humano à comunicação.
Reconhecemos que essas questões devem ser trazidas para uma discussão com os integrantes da Ação Cultural e colaboradores para que a representação seja mais firme e expresse a vontade dos integrantes da ONG.
• O diretor-presidente da Ação Cultural participou dos seguintes eventos como palestrante:
No projeto Palco Giratório, discorrendo sobre o tema “Cultura e Cidadania” promovido pelo Departamento Nacional do SESC, em Aracaju; Na Conferencia Municipal da Barra dos Coqueiros, discorrendo sobre o tema “Política Municipal de Cultura”; No Encontro Nacional de Estudantes de Arte-Educação, discorrendo sobre o tema “Cultura e Movimentos Sociais”; No I Simpósio Cultural de Pirambu, discorrendo sobre o tema “Um outro mundo é possível através da arte”, promovido pela organização Veredas da Cultura; No I FAES – Festival de arte-educação e saúde do Conjunto Orlando Dantas, promovido pela Secretaria Municipal de Saúde, discorrendo sobre o tema: “Diversidade Cultural”.

DIVULGAÇÃO DAS INICIATIVAS CULTURAIS NA IMPRENSA

Fevereiro de 2005 - Arte na cesta básica de todos. (artigo) – Jornal Cinform
Abril de 2005 – Aracaju, seus 150 anos e a cultura que fica. (artigo) – Jornal Cinform
Maio de 2005 – Circuito estimula produção de cultura nos municípios (reportagem) – Jornal Cinform
Julho de 2005 – A conferência municipal de cultura vem aí. (artigo) – Jornal Cinform


Sobre o Fórum Popular de Cultura
Fórum Popular de Cultura – Bilhetim – 31 de Julho de 2005
Cultura dos Excluídos pede passagem – Jornal Cinform - 25 a 31 de julho de 2005
Ação Cultural promove Fórum – Jornal Cinform – 18 a 24 de julho de 2005
Opinião do Leitor – Artistas Anônimos – Jornal Cinform – 08 a 14 de julho de 2005
Montanha Cult/O sobe e desce da cultura – Jornal Cinform – 01 a 07 de agosto de 2005.
Breves – Fórum Popular – Jornal Cinform – 08 a 14 de agosto de 2005.
Fórum Popular - Jornal Cinform – 05 a 11 de setembro de 2005.

DESAFIOS
Durante o primeiro semestre de 2005 elaboramos e tentamos negociar o projeto “Revitalizando a escola através da ação cultural”, junto às Secretarias de Educação de Aracaju, São Cristóvão e Barra dos Coqueiros. Não obtivemos sucesso. Alguns fundamentos do projeto foram aproveitados na construção do fórum popular de cultura (edição 2006).
Um outro projeto elaborado e apresentado em 2005 para o Banco do Nordeste do Brasil, Superintendência de Sergipe, chama-se “Seminário - Cultura e Desenvolvimento Local”. A proposta foi bem recebida e poderemos negociá-lo junto a diversos patrocinadores para a obtenção de apoio, a partir do segundo semestre de 2006.
Também, em termos de projeto elaborado em 2005, - Show e oficina “Arte e Vida”, do poeta, compositor e cantor cearense Zé Vicente. Chegamos a fazer uma reunião onde apresentamos vídeos com clips e imagens de shows do artista, mas não conseguimos êxito em virtude da pequena participação de pessoas e entidades na reunião, que buscou ampliar as parcerias na realização do evento.
Pretendemos retomar as discussões do projeto no segundo semestre de 2006 na perspectiva de incorporação da proposta do Show e da oficina do Zé Vicente dentro da programação do Fórum 2007.
Uma pergunta constante que é feita para nós é por que não participamos do concurso de projetos do Programa Cultura Viva (MINC), cujo foco é promover inclusão através da cultura, semelhante ao da Ação Cultural. O problema esbarra no registro legal da entidade que deve ter no mínimo dois anos. Se esse impedimento não for incluído nos próximos editais poderemos participar mais cedo.
Outro desafio para 2005 é elaborar projetos para incluir a Companhia de Dança Rick di Karllo, a Companhia Teatral Pró-Cena, a Escola de Música Santa Cecília e o poeta Carlos Augusto Real, visando à participação dos mesmos nos diversos concursos, especialmente o do Banco do Nordeste (edição 2007).

FRUSTRAÇÕES

A Conferencia Municipal de Cultura foi a principal decepção no final do ano de 2005. Como foi em 2004, amargamos a falta de atenção da administração municipal em relação à lei que instituiu o Programa VAI.
Já a conferência estadual, não se realizou, o que comprova a permanente falta de compromisso e de responsabilidade do governo estadual com a gestão democrática da cultura.

LIMITES
O fórum intermunicipal de cultura, que foi iniciado após o retorno do seminário de culturas populares em Brasília, não decolou. A iniciativa contou com a participação de Tereza (de Pirambu) e Vânia (de São Cristóvão) e, da parte da Ação Cultural, Zezito e Maxivel. Foram realizadas diversas reuniões nas cidades de Pirambu e São Cristóvão, mas não houve continuidade. O saldo positivo foi a aproximação e/ou fortalecimento dos laços de amizade. Além das pessoas já citadas, Edineide (da Secretaria de Cultura da Barra dos Coqueiros) e Zailton (da Secretaria de Cultura de Japaratuba). Algumas das idéias que nortearam a realização do I Fórum Popular de Cultura têm origem nas reuniões do fórum intermunicipal.
Outro projeto que não decolou foi o Circuito Arte e Cidadania. Embora tenha sido realizado com relativo sucesso nas cidades de Pirambu e Itabaiana, não conseguimos parcerias para estendê-lo a outros municípios. Entretanto, algumas ações do projeto foram incorporadas aos fóruns locais.

Escritos sobre o fórum popular de cultura sob o calor da emoção.

"O Fórum Popular de Cultura foi um sucesso em todos os sentidos, em termos de quantidade chegamos a atingir 20% a mais do numero estimado que foi de 50 pessoas, as pessoas elogiaram bastante a organização e a dinâmica do evento, o debate entre os artistas da periferia, educadores e produtores culturais foi de alto nível. Os palestrantes – Chico Buchinho, Virgínia Lúcia, Antônio Cruz e Jeane Marcelino foram bastante elogiados certamente porque há um clamor popular querendo vida em abundância, mas vida com beleza. Como disse Caetano Veloso: “Gente e prá brilhar e não pra morrer de fome” e a Banda Titãs: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte” e digo mais “a gente quer arte e informação de qualidade para ajudar a construir um outro Brasil”.
Nossos agradecimentos em primeiro lugar ao Deus artista do universo e que também se diverte com as nossas criações e a Maria de Nazaré que gostava tanto de festa que nas bodas de caná pediu para seu filho transformar a água em vinho e a todos e todas que contribuíram para o sucesso do evento."


"Há alguns anos participei ativamente juntamente com artistas, lideranças do movimento popular, adolescentes, educadores populares ou sociais como queiram chamar de uma das coisas mais fantásticas em termos de mobilização social que foi a passeata contra a chacina das crianças da terra dura, naquele tempo eu era e continuo aprendiz embora hoje saiba de muito mais coisa do que antes.

Naquela passeata eu percebi que as lutas por mais justiça e por mais dignidade fica muito melhor quando busca denunciar as mazelas e o sofrimento que sofremos quando e feita com criatividade e com beleza.

O mesmo se aplicando a educação popular que pretende formar cidadãos muito mais que solidários como também cheios de beleza, ternura, criativo e éticos conforme aprendi nas oficinas do Centro Nordestino de Animação Popular e no curso de verão do Centro Ecumênico de Serviços a Evangelização e Educação Popular de São Paulo.

O tempo passou e através do Projeto Reculturarte no Bairro América com o apoio de agencias internacionais de cooperação como Visão Mundial, Cese, Unicef e duas vezes com a colaboração do Deputado Estadual Renatinho realizamos aquela que e considerada uma das melhores experiências de arte-educação popular e mobilização social em Aracaju.

Naquele tempo eu pensava que poderíamos construir a partir do projeto uma entidade cultural potente que fosse suficiente para resistir a omissão e negligencia de muita gente que hoje lamenta o fim daquela experiência, pensava que a fogueira da vaidade de muitos educadores que se julgavam superior aos outros não iria engolir todos inclusive aqueles que pensaram que iriam sair ilesos da irresponsabilidade de espalhar mentiras levianas, intrigas e fofocas contra os demais Mas ta bom, éramos todos jovens, sem muita experiência e apesar de alguns defeitos, idealistas e rebeldes.

E novamente aqui estamos, a vida nos da outra chance a partir da Rede PROVAI e posteriormente da criação da ONG Ação Cultural e novamente na realização deste fórum pude perceber que muita gente nova e outras companheiros velhos de guerra acreditam e lutam por um outro Brasil onde justiça e beleza possam se abraçar.
E os elogios ao evento foram muitos como organização, dinâmica e localização, palestrantes, diversidade de linguagens artísticas, raça/etnia, sexo, idade, nível de escolaridade, movimentos, religião, escolaridade, o nível dos palestrantes e como resposta que dei para alguns e que deixo aqui registrada o sucesso foi/e fruto da contribuição de muita gente.

Em primeiro lugar de DEUS pai/mãe todo(a) poderoso(a) e daqueles que nos judeus/cristãos chamamos de anjos, que os índios chamam de encantados e de orixás por aqueles ligados aos cultos afros.

Daqueles que acreditaram desde o inicio que o caminho e por ai e que participaram de todas as reuniões como Reall, Lucy e Flavio.

Da imprensa como a Radio Cultura e em particular a equipe do caderno de cultura do CINFORM que deu um apoio bem maior do que o esperado, o que surpreendeu muita gente especialmente os que desejam que o povo das comunidade marginalizadas continue com a alma pequena, sem acreditar na força da união, na necessidade de continuar lutando para ocupar espaços nas instancias de decisao, que continue crescendo o publico consumidor das porcarias da industria cultural , que os artistas e o povo da periferia não tenha auto-estima e que a maioria pense que não vale a pena continuar lutando por um outro mundo o qual para ser verdadeiramente possivel deve começar dentro da gente.

Agradecemos também o apoio da direção da biblioteca Clodomir Silva que acatou o pedido que fizemos de liberar uma sala para as reuniões, de Irma Simone, diretora da Casa Santa Zita que cedeu as instalações da Pastoral do Menor e que obteve a liberação do anexo do Centro Educacional Bem-Me-Quer."
José de Oliveira Santos "Zezito"
Coordenador Geral do I Fórum Popular de Cultura

A Escola fortalecendo a Cidadania Cultural.

* José de Oliveira Santos(Zezito)
Artigo escrito em 2001


Durante alguns anos como dirigente da Associação dos Moradores do Bairro América - AMABA, pude estabelecer contato com setores ligados ao movimento artístico e intelectuais de Aracaju. Esta aproximação se deu em virtude da necessidade de trabalhar aspectos da cultura, objetivando o reforço da auto estima da população daquele bairro, tão discriminado pelos setores dominantes e infelizmente reforçado por uma parcela bastante ampla dos próprios moradores.

A memória escrita e fotográfica deste trabalho confirma a realização de diversas oficinas culturais, exibição de filmes e vídeos e semanas de arte (1987 e 1988). O sucesso crescente dessas iniciativas vem culminar em 1989, com a aprovação de auxilio financeiro por parte de duas agências de fomento a projetos sociais: Cese (Coordenadoria Ecumênica de Serviço) e Visão Mundial ao Projeto Reculturarte.

Este, nasceu da reflexão feita por alguns componentes da AMABA, em conjunto com o Centro Sergipano de Educação Popular (CESEP), grupos de jovens da Igreja São Judas Tadeu e posto de extensão da FEBEM, no bairro América.

Enquanto cidadão (adolescente ainda) me acostumei na freqüencia a espaços culturais. O fato de ter morado durante muitos anos no Rio de Janeiro, mais especificamente na baixada fluminense, favoreceu este hábito. Das melhores coisas me recordo com saudade: das idas inúmeras ao teatro do SESC e teatro João Caetano, da apresentação de musica clássica do projeto aquarius, promovido pelo jornal O Globo, a biblioteca nacional, a cinemateca do MAM, aos shows Primeiro de Maio (inclusive o de 1981 em que uma bomba explodiu no colo de um militar de direita) etc... Isto tudo, mesmo morando na periferia e ser aluno da escola publica.

Nesta ultima situação foram pouco os momentos em que fui estimulado a prática e a apreciação das diversas formas do fazer artístico. A lembrança mais forte é a apresentação de “Cinderela” por um grupo de teatro de bonecos, e de uma aula-espetáculo de um grupo musical, infelizmente não me recordo do gênero.

Como estudante universitário (entrei na Universidade Federal de Sergipe - UFS em 1990), no ano em que as atividades culturais estimuladas por aquela universidade estavam em decadência, ao contrario dos anos anteriores quando o campus foi um celeiro de artistas para a cultura sergipana, ainda pude ter o prazer de me deliciar(antes de entrar na universidade) com a melhor produção da cultura nordestina, através do Festival de Arte de São Cristóvão, uma das iniciativas mais brilhantes da UFS nos anos 70/80.

O resultado disto e mais as leituras de alguns brasileiros, como Darci Ribeiro, apaixonados pelo povo e pela cultura deste país, é que me tornei um cidadão preocupado e disposto a enfatizar os aspectos mais significativos da cultura brasileira, como elemento constitutivo do esforço para a construção de uma sociedade menos desigual. Segundo Darci:

“Não se tem em nenhum lugar do mundo uma nação feita com base na miscigenação.(...) A massa principal dos brasileiros é feita disso. Uma gente de uma beleza extraordinária, que guarda o patrimônio de talentos corporais do índio e do negro, a sabedoria imensa do índio sobre a floresta e que guarda do negro a imensa espiritualidade. Isso dá ao Brasil um élan. É um povo capaz de fazer coisas incríveis.” (Entrevista concedida ao Jornal do Brasil)

O problema é que infelizmente não estamos habituados a valorizar as nossas raízes negras e indígenas, o que contribui enormemente para um sentimento de inferioridade em relação aos países europeus e norte-americanos. Chegamos até a reforçar a idéia de que os motivos do nosso atraso é exatamente esta herança cultural, há quem afirme ainda hoje que se o país fosse colonizado pelos ingleses ou franceses seriamos uma nação desenvolvida, esquecendo que a maioria das ex-colonias inglesas e francesas tanto na África como na Ásia e na própria América, estão em condições semelhantes ou piores que as nossas. È incrível como adoramos falar mal de nós mesmos, segundo o jornalista Fernando Rosseti:

“Talvez nenhum outro país tenha uma falta de auto-estima tão grande. Ignorante, despreparado, analfabeto são adjetivos suaves com que o brasileiro se autoclassifica. O preconceito é ainda mais forte nas classes média e alta, que fazem questão de reafirmar constantemente sua superioridade em relação ao “povão”(...) Se o bate-papo for entre professores ou educadores, o amargor não tem limites: “Os alunos não querem nada”, “Esse povo não se interessa por Educação”. Não faltam críticas nem mesmo aos professores “despreparados”, “desinteressados”.

Uma das lembranças mais fortes do preconceito contra as raízes culturais negras é a das criticas feitas aos cariocas e baianos justamente aqueles que trazem no corpo, nos ritmos, na devoção aos orixás as marcas mais fortes da ancestralidade africana. Lembro da imagem de “irresponsável”, “festeiro”, “malandro” com a qual o baiano é estigmatizado pelo sergipano, da mesma forma como o carioca o é pelo paulista.
Isso se repete também em relação as áreas de moradia, como no Brasil Colonial, a “casa grande” de hoje, que são os bairros da zona sul referem-se aos bairros da “periferia”, que são as senzalas de hoje com os adjetivos mais desqualificados.

No entanto, é da periferia ou das “senzalas” de hoje, que vemos surgir os principais responsáveis pela nossa alegria nas tão aguardadas noites de sábado, quando nos dirigimos para os bares ou casa de shows, ou nas jovens tardes de domingo quando nos sentamos junto ao sofá, para ver o Faustão ou o Gugu ou para ouvir os cds dos grupos de pagode, reggae, rap ou os artistas da MPB.

E a alegria não é só nossa é também dos moradores dos morros, das favelas, das “baixadas fluminenses” espalhada pelo Brasil afora, quando assisto ou ouço o grupo Cidade Negra, como é bom ver gente do lugar onde morei e com o qual me identifico fazendo bonito no Brasil e no mundo. É bom se ver num espelho que apresente os descendentes dos negros e dos índios como seres capazes de criar beleza mostrando a outra cara de um mundo onde dizem, só tem violência e miséria.

E a escola pública, como se tem posicionado diante disto tudo? Muitos professores são originários da classe média, o pensamento de uma parcela significativa reproduz a visão preconceituosa e elitista da classe dominante, o mesmo se sucede com a maioria dos pais e alunos que tem vergonha do que são e do lugar onde moram. Além dos meios de comunicação, outro responsável por tudo isso e a própria escola que tem a sua estrutura de gestão e currículos organizados de forma ultrapassada e não condizente com o atual estagio de desenvolvimento da sociedade.

É bem verdade que alguma coisa mudou, em passado não tão distante, os livros didáticos de Historia apresentavam os índios como preguiçosos pela recusa em se deixar explorar, para o enriquecimentos dos portugueses.

Quanto aos negros, nunca houve e ainda não há preocupação com o estudo sobre o continente africano. Sobre Zumbi e a luta dos quilombos somente há poucos anos é dado algum destaque. A propósito da capoeira, só uma citação como traço de uma herança cultural, estimular e apoiar a prática nem pensar. Se não fosse o movimento de conquista do espaço escolar vindo de fora para dentro da escola, dificilmente teríamos algo semelhante em termos de dança afro dentro das unidades de ensino. O reggae e o rap, duas importantes formas de expressão cultural dos jovens negros da periferia, passam bem distante da preocupação da maioria dos profissionais da educação.

Apesar disso, ainda bem que alguns sinais positivos de uma mudança de caminhos já começam a se fazer notar . Na década de 90, do século passado, a perspectiva de abordagem da escola como um espaço sociocultural e os sujeitos que nela atuam como portadores de diferentes identidades, assume uma dimensão maior. Acredito que desta maneira a escola se encontra em condição de um diálogo mais profícuo e duradouro com aqueles que as freqüentam.

Assumindo com vontade e decisão este papel, aquilo que tem chegado com maior intensidade para dentro da escola que é a violência física, poderá ser atenuada quando as causas forem discutidas e reapresentadas em forma de ações educativa, que certamente terão na arte um canal privilegiado. Uma experiência realizada em Salvador merece ser apresentada para dar uma idéia bem real de como esta mudança pode ser operada:

"Afinal, quem é a escola senão as pessoas que a compõem? Cadeiras e carteiras quebradas. Alunos desinteressados. Paredes riscadas. Professores atrasados, desanimados. Janelas sem vidro. Banheiros sem pias. Este cenário é familiar para você? Provavelmente, sim. É comum para milhares de escolas espalhadas pelo Brasil afora.

Na Bahia também. Lá, porém, esse quadro que mais parece uma praça de guerra depois da batalha, mas que na verdade é uma escola, virou pano de fundo para uma história de amor. A história de Ritinha e Sinval. Ela é representante de classe, boa aluna. Ele, o bagunceiro, da turma do fundão. Os dois, tão diferentes, se apaixonam. E começam a construir um presente diferente: junto aos amigos, aos professores, a cadeiras, carteiras, paredes, janelas, enfim, à escola.

A história de Ritinha e Sinval é ficção. É o enredo da peça Cuida Bem de Mim, a partir do projeto Quem Ama Preserva. O projeto é uma parceria do Liceu de Artes e Ofícios e da Secretaria de Educação da Bahia, que desenvolveu oficinas de teatro com 570 alunos e 310 professores da rede pública de ensino baiana sobre a depredação das escolas.

Depois do trabalho com estudantes e educadores, foi escrito o texto da peça. Os autores Luiz Marfuz e Filinto Coelho têm longa experiência em teatro.
Marfuz conta que, antes das oficinas, sua idéia de escola se resumia ao espaço físico das salas de aula e corredores. Com a experiência, percebeu que o problema era mais profundo. Incluía a destruição institucional da escola, das relações pessoais, dos papéis mal desempenhados por diretores que não dirigem, professores que não ensinam e alunos que não aprendem.

È uma situação que se repete em cada sala de aula do Distrito Federal, no Rio, em São Paulo, em Minas, no Rio Grande do Sul, no Ceará, no Pará e na Bahia falta então transformar a história de Ritinha e Sinval em realidade. Falta fazer baile, fazer música, fazer teatro, fazer arte, fazer jornal na escola. Fazer do quebra-quebra, do descaso, do desinteresse uma história de amor. Quem se habilita?”


Sem dúvida o processo de mudanças desencadeado por esta postura levará a transformação da visão do mundo de todos os sujeitos envolvidos. Inclusive o preconceito contra a população da periferia e a baixa auto-estima dos moradores. Da mesma forma como o comportamento dos alunos também será afetado de forma positiva, assumindo posturas de maior diálogo e cooperação com colegas e professores com reflexos, inclusive, na melhoria dos indicadores de aprendizagem. Embora o caminho para chegar até lá seja árduo e longo.

Lorene dos Santos, em sua dissertação de mestrado sobre a mudança do currículo de História, na perspectiva abordada acima, destaca o seguinte:

“A idéia de que a história deveria promover um diálogo entre diferentes culturas / temporalidades, num contraponto permanente entre presente / passado, também parte da perspectiva de que é pela contraposição com a diferença que se constrói a identidade. Além disso, a idéia de se trabalhar com a realidade vivenciada cotidianamente, problematizando-a, buscando compreendê-la a partir de sua historicidade, seria uma forma de resgatar as várias dimensões de identidade das quais os sujeitos da aprendizagem são portadores. Nesse sentido, questões relativas a gênero, etnia, faixa etária e tantas outras, parecem encontrar, no ensino da história, um campo fértil para a sua problematização.”

No entanto, existe um sério obstáculo para isso se tornar possível, citando outro autor Lorene dos Santos apresenta a seguinte questão:

“...os professores alegam pouco preparo para abordar questões que tratam de discriminação, preconceito, diferenças culturais, em sala de aula. Uma pesquisa, efetuada com docentes da área de História, Estudos Sociais, mostrou que a falta de formação e informação é apontada como um dos principais obstáculos para abordar esses temas. (PINTO, 1993: 44)”

Embora a citação privilegie a disciplina História, por se tratar de um estudo sobre o ensino desta matéria na rede escolar de Belo Horizonte, é evidente que todos os aspectos relacionadas a questão da identidade (gênero, etnia, faixa etária, religião) diz respeito a todas as outras disciplinas.

Para o professor e/ou estudante interessados em tornar a escola um espaço de criação e liberdade, lugar onde a diferença seja conhecida e valorizada, as alianças para tornar realidade este desejo parecem fortalecidas. Digo “parecem” porque, infelizmente, na maioria das vezes, aquilo que representa um avanço em termos de legislação e de documentos oficiais não é assumido de forma efetiva pelos estratos mais baixos da hierarquia do poder. Basta lembrar da ausência de uma proposta permanente de atualização, para os professores da rede publica de ensino em nosso estado, visando suprir as demandas colocadas que colocamos em destaque A Lei de Diretrizes e Bases, entre outros exemplos, destacamos o Art. 26 § 4º.

“O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e européia.”

Este ponto de vista é fortalecido pelo tema transversal “Pluralidade Cultural” contido nos documentos dos PCNs:

“Para viver democraticamente em uma sociedade plural é preciso respeitar e valorizar a diversidade étnica e cultural que a constitui. Por sua formação histórica, a sociedade brasileira é marcada pela presença de diferentes etnias, grupos culturais, descendentes de diversas nacionalidades, religiões e línguas.(...) Essa diversidade etnocultural freqüentemente é alvo de preconceito e discriminação, atingindo a escola e reproduzindo-se em seu interior. A desigualdade que não se confunde com a diversidade, também está presente em nosso país como resultado da injustiça social. Ambas as posturas exigem ações efetivas de superação”.

E é neste sentido que propomos o projeto “Circuito Cultural Arte e Cidadania nas Escolas” que objetiva formar núcleos de cultura e cidadania para contribuir para que os anseios de uma escola mais inclusiva, plural e prazerosa se torne realidade, contribuindo para que as distancias entre as palavras e os atos sejam abreviadas o mais rapidamente possível, para o bem de todos e felicidade geral nação.
* É Professor de Historia e Educador Popular

RECULTURARTE: Experiência comunitária de Arte - Educação em Aracaju

Por
José de Oliveira Santos (Zezito)
Artigo escrito em 1997

O presente artigo tem como objetivo apresentar um resgate histórico – critico, a partir da vivência pessoal e do reexame da memória escrita produzida nos 06 (seis) anos de existência do Projeto Reculturarte.

O inicio da experiência, em 1989 deu-se a partir do esforço conjunto da Associação dos Moradores e Amigos do Bairro América (AMABA), do Centro Sergipano de Educação Popular (CESEP) cuja sede naquele momento estava situada no Bairro América, com a participação de membros dos grupos de jovens da Igreja São Judas Tadeu, e em alguns momentos com a participação da assistente social do posto de extensão da Fundaçao Estadual de Bem Estar do Menor (FEBEM) no bairro América.

No início de 1989 foi promovida uma série de reuniões com o intuíto de engajar um grupo expressivo de jovens num esforço coletivo de recuperação da dignidade e cidadania das crianças e adolescentes. Após algumas tentativas de elaboração de estratégias para agrupar, socializar, reeducar e formar grupos de produção e geração de renda , junto ao publico infanto - juvenil , decidiu-se utilizar a arte e recreação, considerando que devia-se partir daquilo que é mais ligado ao mundo da criança e que por isso favorece mais a sua grupalizaçao.

Com o objetivo de melhorar a capacidade de intervenção dos jovens, foram realizadas algumas atividades de formação destacando-se nesse ano a realização de um Encontro de Jovens do bairro América, que reuniu representantes de 10 (dez) grupos, incluindo alguns de bairros adjacentes. O tema do encontro foi “A questão do menor abandonado em nosso meio”. Esse evento buscou também ampliar a quantidade de pessoas comprometidas com a proposta de trabalho.

Em termos de ação direta com as crianças, os registros dão conta da realização de um campeonato de bola de gude em maio, uma quadrilha junina em junho, e uma tarde de lazer em outubro de 1989. O grupo de capoeira já existente na AMABA desde 1988 foi incorporado a proposta de trabalho. Outra experiência inicial foi a turma do teatro, animado por um jovem do grupo teatral da igreja e a turma da dança, animada por uma professora, responsável pela organização da quadrilha junina. A formação da cooperativa dos guardadores de carro difere das outras iniciativas pela proposta de organizar os meninos que trabalhavam em frente a igreja, para obterem maiores condições de trabalho e aumento na renda financeira. Depois de algum tempo, em virtude da falta de experiência dos jovens educadores no trato das questões ligadas ao mundo do trabalho, a alfabetização e a recreação foram incorporadas como proposta de intervenção junto aos guardadores de carros.

Com o íntuito de oferecer condições de compra de material necessário para a realização das atividades foi solicitado e aprovado o apoio financeiro da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) de Salvador-Ba.

Em Setembro de 1989 acontece a participação do assessor do Projeto Reculturarte, José da Guia Marques, e três adolescentes no II Encontro Nacional de Meninos e Meninas de Rua, que reuniu em Brasília 700 crianças e 200 educadores do Brasil e de alguns países da América Latina para a discussão de problemas gerais ligados a infância e para pressionar os políticos e autoridades visando a aprovação do estatuto da criança e do adolescente.

Esse encontro contribuiu para o conhecimento de novas linhas de trabalho e iniciou o processo de articulação regional e nacional do Projeto Reculturarte com o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua.

O I Encontro de Crianças e Adolescentes do bairro América e a passeata contra a violência foram resultados da influencia positiva do Encontro em Brasília. Esses dois eventos e o I Festival Infantil foram os momentos de maior destaque no ano de 1990. A passeata contra a violência, inicialmente prevista para ser realizada no bairro América, tornou conhecido o Projeto Reculturarte além dos limites da comunidade, em virtude da revolta de expressivos setores da sociedade aracajuana contra a ação do grupo de extermínio que assassinou quatro crianças no bairro Terra Dura.

Inicialmente, a passeata contra a violência faria um protesto contra a morte de diversas crianças e adolescentes no bairro América que, segundo versões da policia, eram causadas pelas disputas internas entre os grupos de viciados e traficantes.

A partir das denuncias de garotos sobreviventes e da comprovação da participação de policiais na chacina da Terra Dura ficou confirmado que a famosa “guerra da maconha” era uma intervenção de setores da policia e da imprensa. Diante disso a AMABA aceitou a proposta de outras entidades e artistas para a realização de uma mobilização de protestos em conjunto.

Alem da articulação local, a passeata foi vinculada a a campanha nacional “Não Matem Nossas Crianças” coordenada pelo Centro de Apoio as Populações Marginalizadas (CEAP) do Rio de Janeiro que enviou a Aracaju um representante, Ivanir Santos.

De acordo com a entrevista concedida ao Jornal de Sergipe em 27 de novembro de 1990, Ivanir Santos afirmou que sua presença em Sergipe tinha por objetivo conhecer com profundidade a real situação dos menores marginalizados do Estado. “Foi surpreendente para mim, ver o Secretário de Segurança do Estado afirmar num programa local que o numero de casos de assassinatos de menores não era tão alto em Sergipe e verificar, junto aos dados da OAB, o registro de cerca de 140 mortes”, disse. Ivanir Santos explicou que o CEAP deverá fazer uma investigação própria sobre a situação em Sergipe para enviar os dados a Anistia Internacional.

Prosseguindo a experiência bem sucedida de realização dos momentos de formação, foi realizado em setembro de 1990, o 1O Encontro de Educadores do bairro América. Nesse momento, foi realizado um levantamento dos avanços e dos entraves que dificultavam a melhoria da qualidade do trabalho com as crianças e adolescentes. Nesse mesmo ano foi celebrado o convênio com a Visão Mundial, que garantiu a remuneração permanente de alguns educadores e a compra de equipamentos e material de consumo para as atividades (capoeira, dança, teatro, banda afro, esporte, alfabetização, jornal e artesanato) e eventos especiais (festival infantil, retiros, passeios, encontros de educadores e festas)
Com isso o Projeto Reculturarte passou a distinguir a AMABA em relação as demais associações de moradores, pelo destaque da ação cultural, envolvendo crianças e jovens.

Em termos de ação educativa o dia-a-dia do projeto foi realizado através de uma serie de atividades em dias alternados e por eventos de formação e momentos de lazer realizados de forma esporádica.

As atividades foram realizadas na AMABA e em espaços cedidos pela Paroquia São Judas Tadeu (durante os dois primeiros anos de funcionamento do projeto) e em campos, praças, ruas e etc. Do total de tempo destinado para cada atividade, a maior parte foi empregada em ensaios e treinos, o tempo restante para conversas sobre questões internas da atividade ou assuntos de interesse das crianças e adolescentes, com destaque para a questão das drogas, violência e sexualidade.

Com o objetivo de ampliar o tempo para abordagem dos diversos temas, foi realizado em 1995 uma experiência de formação, através dos programas de reflexão: Afetividade, Zumbi dos Palmares e Solidariedade, que eram realizados durante os sábados e serviam como preparação para os retiros realizados em chácaras, escolas, e espaços da igreja (destinados para encontros de fins de semana), onde os temas dos programas de reflexão eram aprofundados.

Quanto a questão de tempo, as atividades foram realizadas com uma média de um a três encontros semanais com duração de duas horas por encontro. O numero de participantes variou de dez (teatro) até cinqüenta (banda).

Algumas atividades estiveram presentes com poucos momentos de interrupção, desde o inicio do Projeto, como é o caso da banda, da dança, do esporte e da capoeira.

A capoeira já existia na AMABA antes mesmo da criação do Projeto Reculturarte, a partir de um projeto do setor de cultura negra da Secretaria de Cultura do município (atualmente FUNCAJU). O Projeto denominado Capoeiração, de 1988, durou apenas um ano, tendo o grupo se constituído a partir da disposição do mestre Alvinho Sucuri e de alguns alunos interessados. Foi a única atividade que mereceu um estudo mais completo por parte de Rita Leolinda, estagiária de Serviço Social da Universidade Federal de Sergipe (UFS), no ano de 1990.

Segundo o relatório de pesquisa o grupo, na época (Maio a Agosto de 1990), contava com dezenove membros assíduos, da faixa etária entre 7 e 14 anos. Já naquele momento a autora apontava alguns limites e problemas, que também apareceriam em analises e discussões relacionadas a outras atividades em anos seguintes.

Rita Leolinda destacou uma grande identificação cultural ligada a capoeira e a mobilização do grupo baseada na própria atividade, embora não seja este o propósito principal do projeto, conforme percebeu a estagiária. Quanto a escolarização, “O índice de repetência 60% e mais de três vezes, é alto” (Rita 1990:16). A autora percebeu também certa reprovação quanto a participação do sexo feminino nos treinos e a utilização de apelidos pejorativos a alguns membros de cor negra acentuada. Quanto a participação de meninas no grupo, essa realidade foi modificada em 1993, com a entrada de algumas adolescentes no grupo, embora não tenha havido continuidade dessa participação.

Quanto a questão do preconceito racial, a proposta do programa de reflexão sobre os 300 anos de Zumbi dos Palmares (1995) incluiu o racismo como principal tema dos debates.

Para o entendimento da dinâmica do projeto em 1993, visto a partir do olhar de um grupo de vinte crianças e cinco educadores que se reuniram na cidade de Propriá, vale a pena transcrevermos a síntese das várias opiniões acerca do que era bom e do que era ruim naquele momento. As coisas boas eram: alegria, brincadeira, lazer, arte, amor (que muitas vezes não encontramos na família), paz, refugio para os problemas, momento novo agora e sempre, uma forma diferente de ensinar e aprender, desejo de transformar a sociedade, Jesus presente naquilo que gostamos. As coisas ruins eram: injustiças, falsidades, engano, confusão, poucos fazem e muitos criticam, medo do projeto acabar ou dos meninos não poderem levar a frente.

Quando aquilo que diz respeito as dificuldades do relacionamento interpessoal, a não superação de muitos desses problemas provocou o afastamento de muitos educadores(as), meninos(as), assim como de sócios e dirigentes. Se isso não levou ao fim do projeto, sem duvida nenhuma quebrou um pouco o encanto inicial, já que a proposta daqueles que formularam a idéia original ia em sentido contrário as valores individualistas e competitivos que vigoram na sociedade atual.

Em termos conclusivos, embora até o ano de 1995, já que, a partir do segundo semestre de 1996, não estamos mais presentes enquanto dirigentes da AMABA, nem enquanto educadores a constatação que fazemos é que, em termos de resultados, a experiência do projeto foi feliz quanto a grupalizaçao, socialização e reforço da auto-estima de um grupo expressivo de crianças negras e pobres do bairro América. 

Vale lembrar o sentimento de satisfação e alegria compartilhados por muitos daqueles que estiveram presentes, tanto na condição de realizadores como na condição de convidados, quando da apresentação de produção cultural em alguns momentos, caso do festival infantil (1990 a 1994) e festa Kizomba (1995). O que se viu foi muita beleza, originalidade e sentido de cooperação por parte de todos os envolvidos. No entanto, outras medidas relacionadas a melhoria do padrão socio-economico-cultural, ou não foram levadas em conta ou as tentativas de implementá-las foram bastante tímidas. Pelo fato de ter estado presente no Projeto Reculturarte desde o inicio, confirmo as duas hipóteses.

O estudo de Rita Leolinda acerca da atividade de capoeira já apontava para a necessidade, manifestada pelos próprios meninos, do reforço escolar e cursos profissionalizantes.

Já foi dito que o Movimento Popular está em crise por não ter se preocupado com a estética e com a mística, tendo se reduzido apenas ao aspecto político.

As lições da crise da AMABA/ Projeto Reculturarte de 1993, quando a maior parte dos membros do conselho deliberativo pediu demissão, aponta em sentido contrário a afirmação anterior. No caso da AMABA/Projeto Reculturarte, uma das principais razões do “racha” foi a ênfase excessiva no aspecto cultural (estética). Sobre o assunto, conforme o relatório do primeiro encontro de avaliação institucional da AMABA, de Maio de 1993, a opinião do grupo dissidente a respeito dessa questão foi expressa da seguinte forma: ”Tendência a reduzir o trabalho da AMABA a atividades culturais. Há dois grupos perseguindo objetivos diferentes”.

Em minha opinião, a concepção inicial acerca da ação cultural foi pensada de forma integrada, buscando através da arte expressar os sentimentos da população do bairro América acerca da realidade de opressão e de abandono, e ao mesmo tempo, organizar e mobilizar as pessoas diretamente envolvidas, assim como os moradores em geral. Se em alguns momentos o retrato da miséria e das injustiças foi apresentado com competência, a organização e a mobilização para as conquista acerca da melhoria da qualidade de vida ficaram a desejar.

Colaboradores
Revisão Maxivel Ferreira
Digitação Irene Smith

PROJETO RECULTURARTE: UM ESPETÁCULO POSSÍVEL AO CAMINHO DO DESAFIO DA INCLUSÃO SOCIAL NO LAZER
Jussara da Silva Rosa
Luiz Carlos Vieira Tavares
Mestrandos do curso de Educação Física da UNIMEP

RESUMO: No intuito de relatar nossa experiência profissional em um projeto social desenvolvido por uma associação de moradores, é que objetivamos com este artigo trazer para a arena das discussões a possibilidade de diálogo sobre essa prática, divulgando e ampliando nossas ações, bem como, apontar possibilidades para a experiência inclusiva do lazer, e aqui no caso específico na dança, por acreditar que ela permite ao seu participante um verdadeiro sentir, pensar, agir, perceber e reagir enquanto ser humano histórico e cultural na dinâmica de suas relações.

INTRODUÇÃO

O Projeto Reculturarte é desenvolvido no Bairro América da cidade de Aracaju. O Bairro América no seu surgimento era caracterizado como suburbano, mas com o crescimento da cidade hoje já não é mais possível caracterizá-lo por este aspecto.

A história desse bairro começa com a instalação do Reformatório Penal do Estado nesta região, que a partir daí, passou a ser conhecida como “Caatinga da Penitenciária”.

A maioria dos presos nesta época eram do Estado de Sergipe. As suas famílias ao se deslocarem para a capital, na intenção de visitá-los deparavam-se com problemas de acomodação (abrigo) e retorno, visto que nesta época não tinha transporte diariamente. Diante dessas dificuldades as famílias dos presidiários começaram armar tendas e barracos nas redondezas da penitenciária. Porém, estas famílias não foram os primeiros habitantes, pois, já morava lá, o carroceiro e o enfermeiro da penitenciária.

O judeu José Zúkema ao observar esta situação começou a lotear estes terrenos por preços acessíveis para estas famílias e até mesmo para ex-presidiários. Não se sabe ao certo se José Zúkema era realmente dono dessas terras ou se foi apenas o loteador. Zúkema viveu muito tempo na América, mas precisamente nos Estados Unidos, foi por este motivo que ele deu a “Caatinga da Penitenciária” o nome de América.

Desde o seu início o bairro é constituído por uma população de baixa renda, onde a maioria dos trabalhadores são absorvidos na construção civil, no serviço público (servente, vigilante, professor), faxineiras e desempregados. As famílias são grandes, de estrutura frágil, em que a figura do esposo é freqüentemente trocada, além de possuírem grande número de filhos. Estes, por sua vez começam a trabalhar nos primeiros anos de vida para auxiliarem no orçamento de casa.

O bairro é hoje marcado por uma série de problemas sociais que vão desde os mais simples de infra-estrutura até os mais complexos e lamentáveis problemas sociais.
Foi por perceber estes problemas que um grupo de moradores do bairro sentiu a necessidade de criar uma associação que amenizasse ou até mesmo superasse tais problemas, e é a partir desta intenção que surge a Associação de Moradores e Amigos do Bairro América (AMABA).

A AMABA é uma entidade comunitária que foi fundada em 14 de abril de 1983 por um grupo de moradores preocupados com a situação de abandono do bairro, que só é lembrado pelas autoridades na época de eleições. E hoje se caracteriza por ser uma entidade profundamente comprometida e reflexiva com os problemas sociais tais como: violência, saúde, educação, ecologia e lazer.

Na intenção de obter dos governantes um compromisso mais efetivo com a população do bairro e também de bairros vizinhos, a diretoria, coordenadores e moradores se reúnem em comissão para solicitar audiência ao governador, prefeito e secretários; promove abaixo-assinados; denuncia à imprensa as irregularidades e quando é necessário promove atos públicos na intenção de sensibilizar e mobilizar a comunidade para uma atitude política diante das desigualdades e injustiças sociais.

Diante das reivindicações feitas por esta associação, a conquista de uma sede própria e a aquisição do Registro da mesma, foi bastante significativo para que o bairro ganhasse uma nova roupagem.

O bairro hoje dispõe de saneamento básico, ruas pavimentadas, segurança comunitária, arborização, instalação de espaços físicos para o lazer (praças, quadras e teatro de arena).
Outras conquistas vieram, um programa denominado “Cinema nos Bairros”, patrocinado pela Secretaria de Cultura do Município; um outro programa que consistia em visitas ao Centro de Criatividade, onde as crianças e adolescentes tinham a oportunidade de participar de oficinas artísticas e assistir aos espetáculos teatrais gratuitos; a criação de uma “Rádio Comunitária”, cujos equipamentos foram comprados com o apoio da CESE (Coordenadoria Ecumênica de Serviço); e por fim, a criação do “Projeto Reculturarte”.

Este projeto nasceu da reflexão feita por alguns componentes da AMABA em conjunto com o CESEP (Centro Sergipano de Educação Popular) e com o posto de extensão da FEBEM (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor), em cima da necessidade de estar repensando sobre a apropriação dos espaços destinados ao lazer, bem como o uso de seu conteúdo, visto que as crianças e adolescentes desse bairro não dispunham de muita opção de lazer.

Foi por reconhecer uma defasagem nos conteúdos culturais de lazer, com práticas voltadas quase que exclusivamente para o esporte (futebol) e com a utilização apenas da quadra como espaço para essa prática, que a associação investigou junto à população desse bairro de que forma eles entendiam o lazer e quais as atividades físicas de lazer eles tinham interesse em participar.

De posse dos resultados desta investigação, a associação com o intuito de desmistificar o entendimento que os moradores desse bairro e de uma forma geral a sociedade sergipana, tinham em relação ao lazer, visto que, compreendiam apenas como uma forma de descanso, divertimento, válvula de escape e coisa de desocupado ou de quem tem dinheiro, passou a desenvolver as seguintes atividades: dança, capoeira, música, teatro, artes plásticas, jogos e brincadeiras populares, esportes.

De acordo com Marcellino (1995, p.70), “é preciso que o lazer, além de suas funções de descanso, evasão, e entretenimento, atenda também as necessidades de desenvolvimento cultural”.

Como parte integrante da sociedade brasileira e sergipana, atuando na vida cultural e sócio-política, a AMABA tem procurado entender os conflitos sociais existentes em nossa sociedade, analisando-os e procurando encontrar formas alternativas de solução, é neste sentido que o Projeto Reculturarte funciona, objetivando por meio das atividades lúdico-culturais inserir crianças e adolescentes no convívio e na participação social.

O Projeto Reculturarte contando com o apoio financeiro da CESE e da Visão Mundial, passou a contratar educadores amadores e profissionais, para desenvolver suas atividades.

Nesta perspectiva, o projeto vem contribuindo para a ampliação do entendimento do lazer, por acreditar que este ao mesmo tempo em que possa estar desenvolvendo uma atividade alienante e conformista, pode também se apresentar como uma atividade revolucionária e transformadora a caminho da criticidade e criatividade.
Nos apoiando no pensamento de Marcellino (1998, p.156), ele nos diz que:

Apesar de tudo e embora não de modo exclusivo, é particularmente no tempo de lazer, que são vivenciadas situações geradoras de valores que poderiam ser chamados de “revolucionários”. São reivindicadas formas de relacionamento social mais espontâneas, a afirmação da individualidade, a consciência com, ao invés do domínio da natureza.

Compromissado com a prática da cidadania, o Projeto Reculturarte inclui o lazer como uma das dimensões culturais do ser humano, em que este é estimulado para a vivência de sua existencialidade, numa relação concreta consigo mesmo, com os outros e com o seu contexto.

Como exercício de cidadania este projeto tem possibilitado aos seus participantes o conhecimento dos seus direitos e de seus deveres, a consciência ambiental, a imaginação, a autonomia e a alegria, a criticidade e criatividade.

Ainda nos apoiando em Marcellino (1998, p. 156), o lazer:

É uma questão de cidadania, de participação cultural. Entendo por participação cultural a atividade não conformista, mas crítica e criativa, de sujeitos historicamente situados. Entendo, ainda, a participação cultural como uma das bases para a renovação democrática e humanista da cultura e da sociedade, tendo não só a instauração de uma nova ordem social, mas de uma nova cultura.

A nossa relação direta com esse projeto ocorreu por meio da dança. Em 1993, surge a oportunidade de ministrar aulas de dança nesta associação, o que nos deixou bastante motivados, bem como inseguros frente as dúvidas que tínhamos em relação ao conteúdo e ao estilo de dança que ensinaríamos naquela comunidade.

As crianças e adolescentes que freqüentavam esse projeto manifestavam um certo fascínio pela dança afro e pela dança de rua como uma forma de protesto, talvez por conta dos movimentos de luta e resistência contra as injustiças sociais que esta associação desenvolvia.

Foi então aí a nossa maior escola de dança, aprendemos bastante com aquelas crianças e adolescentes. Foi lá também que começamos a refletir sobre o corpo que dança, pois, nos víamos na missão de ensiná-las o que na verdade não compreendíamos, encontrando-nos completamente descontextualizados da história daquela comunidade, bem como daqueles corpos. Corpos que tinham fome e sede de aprender, corpos que desejavam veemente uma oportunidade de se fazer presente no mundo, corpos que buscavam a liberdade e autonomia e que acreditavam na felicidade.

Como acreditávamos na dança como uma forma de linguagem da expressão humana e enquanto tal, uma obra de arte aberta a diversos sentidos e significados, fizemos a opção de desenvolver nossas ações nesta perspectiva. Visto que, a dança enquanto obra de arte aberta e inacabada pode estar representando a possibilidade do movimento constante da criação e reflexão por meio da experiência vivida. Ela pode ainda possibilitar ao corpo dançante uma transcendência temporária de sua cotidianidade, não como forma de fuga, mas como condição de reflexão de sua realidade.
Assim, a poética do corpo dançante configura-se na vivência da corporeidade, que é experiência perceptiva da realidade sensível.

Como experiência vivencial, a dança proporciona um perceber-se presente no sentido estético da corporeidade e motricidade.
Para Dantas (1999, p.28):

O movimento do corpo dançante designa um deslocamento, uma transformação e identificação com impulso corporal, com a capacidade de projeção do corpo no tempo e no espaço. Um corpo ao dançar, entrega-se ao ímpeto do movimento, deixando-se deslocar e transformar. Ele atravessa o espaço, joga com o tempo, brinca com as leis, diverti-se com o seu peso, provoca dinâmicas inusitadas.

Nesta entrega ao movimento, desenvolvemos uma atmosfera muito agradável. Utilizamos a improvisação por ser um jogo em que sua principal regra é estar aberto e sensível as propostas que vão surgindo. Dantas, (1999, p. 102) nos diz que:

Há na improvisação uma predisposição para atuar de acordo com o momento: o improvisador está pronto para transformar toda circunstância em ocasião, todo acidente em possibilidade e se dispõe a explorar constantemente a memória à procura de soluções inusitadas para as situações criadas pelo jogo.

Neste sentido, as pesquisas e composições coreográficas que desenvolvíamos neste projeto já não eram mais uma iniciativa só nossa, mais sim de todo um grupo. Essa construção ocorria na coletividade, o que nos aproximava cada vez mais por meio do diálogo e do encontro.

Para Pinto (2004), o diálogo deve ser corporificado no sentido de estar atuando contra as desigualdades de oportunidades e concretizando a possibilidade de “acesso a melhores condições de vida”.
Ainda para Pinto (2004, p. 200):

O diálogo, aberto, sem preconceitos, sem querer tirar vantagem em tudo, considerando os sonhos pessoais e coletivos, é o caminho que vejo como mais promissor nesse sentido. A construção de conhecimento e intervenção voltadas à qualidade de vida implica, pois, possibilidades de politização, ou melhor, de conscientização sobre o que é vivido [...] Neste sentido, os problemas surgidos nas nossas intervenções devem ser tratados como oportunidade de educação lúdica para a autonomia: escolhas, negociações, tomadas de decisão e participação coletiva.

O ser humano autônomo no contexto do nosso trabalho, é aquele que se indigna com caminhos já percorridos e pré-estabelecidos, arriscando-se em novos horizontes e desbravando novos rumos traçados por ele mesmo, com possibilidades inclusive de superação dos seus limites.

Na dança o ser humano autônomo transcende o corpo oprimido na busca de sair da acomodação para a transformação, deslocando-se da ingenuidade para a criticidade e criatividade. É a possibilidade de se estabelecer redes de conexões para a conservação ou revolução da concretude histórica do ser humano. “Falar de transcendência do corpo oprimido, portanto, é o mesmo que falar de desejos, relações e mudanças deste corpo. [...] Transcender é, então, matar a morte para que a vida viva” (LIMA JR., 1998, p.27).
É exatamente nesta recusa da opressão que a AMABA, vem desenvolvendo o Projeto Reculturarte, criando novos mecanismos de libertação, para que crianças e adolescentes continuem expressando de forma intensa e significativa a sua existência. Desta forma, a dança enquanto uma das atividades desenvolvidas por este projeto e enquanto uma das manifestações do ser humano tem representado um desses mecanismos para sua expressão.

CONCLUSÃO
A inclusão cultural no lazer e aqui no caso específico da dança, só se constituirá enquanto aprendizagem significativa seja na associação, na escola, na rua, no barracão ou no palco a partir do momento que valorizar o corpo dançante enquanto corpo-sujeito, que traz em si as marcas de sua cultura, que é um corpo que na sensibilidade perceptiva de sua existencialidade conta, faz e refaz história, na dimensão de seu próprio tempo e espaço.
Acreditamos que seja nesta perspectiva que a dança possa contribuir com a inclusão social e cultural no lazer, possibilitando ao corpo dançante por meio da experiência lúdica e artística, o encontro com corpos que dançam, com corpos que assistem e com o mundo, rompendo com o silêncio que esses corpos carregam em si por conta de uma educação autoritária e alienante, e por conta de um modo de produção que só visa o consumo, resgatando nos mesmos a imaginação, o prazer, a auto-estima e, a coragem de desbravar novos caminhos, por meio das experiências vividas, percebidas e sentidas.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

DANTAS, Mônica. Dança o enigma do movimento. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1999.
LIMA JR., José. Corpoética, cosquinhas filosóficas no umbigo da utopia.São Paulo: Paulinas, 1998.
MARCELLINO, Nelson C. Lazer e humanização. Campinas: Papirus, 1995.
_____________ . Educação Motora e Políticas Públicas. In: I Congresso Latino-Americano de Educação Motora. II Congresso Brasileiro de Educação Motora. Foz do Iguaçu. 1998.
PINTO, Leila Mirtes S. M. Educação Física, Corporeidade, Lazer: Diálogos com Amigos sobre “Riscos a Correr”. In: MOREIRA, Wagner. e SIMÕES, Regina (Orgs) Educação Física, Intervenção e Conhecimento Científico.Piracicaba: Editora Unimep, 2004.

ZÉ VICENTE. Quem é este cantor?

ALI ADIANTE
Zé Vicente
Tantos caminhos andados
tantos shows realizados
tantos olhares brilhantes
tantos abraços trocados
tantos carinhos queridos
tanto passado guardado

Chegamos.
É um outro tempo,
que seja novo!
Um descanso rápido,
um momento prá deitar na varanda
e escutar o bem-te-vi,
cochilar sonhando
com o que há de vir
de belo
de bênçãos
de canções...

Desço
ao meu riacho velho,
existe aí um fio d’água na areia
e avencas singelas na s barreiras!
Acalmo a sede,
contemplo a babugem verdinha
no rastro das chuvas de janeiro.

Silencio,
para sentir o cheiro da terra,
a fala da terra
o espírito da terra!

Reconheço-me
cada vez mais nativo
e todas as vibrações
das árvores, das flores, dos pássaros...
encontram eco em meu corpo.

Quando mais ando
mais retorno para as raízes
deste chão que me gerou.

Pela janela
desta hora
antevejo as bandeiras vivas,
erguidas há séculos,
nos braços teimosos do meu povo!

Vamos lá,
subamos juntos
sigamos juntos
marcando na agenda do futuro
o nosso compromisso
fiel e firme
com a felicidade
que já provamos e sabemos,
que pode estar ali... Adiante!

ORIGENS

Zé Vicente, José Vicente Filho, terceiro dos dez filhos de José Vicente Sobrinho, Zezinho Paraibano, como foi conhecido, e Susana de Oliveira Barros. O pai, como já diz seu nome popular, natural do município de Catolé do Rocha, na Paraíba; a mãe, cearense, do município de Orós.
Foi nessa Família de lavradores, gente simples, festiva, religiosa, apaixonada pela poesia de Cordel e Luiz Gonzaga, que Zé Vicente foi criado, e mesmo hoje, aos 50 anos e muitas viagens a serviço da arte, mantém-se ligado ao seu lugar, sua gente, suas raízes. Nos intervalos da agenda, lá vai ele, 450 quilômetros de estrada, para a roça, no Sítio Aroeiras-Orós, onde está sua mãe, hoje com 76 anos, alguns irmãos, parentes, amigos e sua horta, adubada com cartas recebidas de amigos(as) e admiradores(as), as árvores sobreviventes, as quais chama com os nomes de quem ama.

O ESTUDO

Desde a escolinha municipal, na vizinhança do Sítio Aroeiras, das professoras: Teresinha, Geraldinha, Petrina, até o Curso de Teologia com a orientação do DEPA – Departamento de Pesquisa e Assessoria, em Recife, entre 1981 a 1986, foram muitos caminhos. Concluiu primário no distrito de Guassussê, com provas de Admissão ao Ginásio, em Orós. Todo o Ginásio e 2º Grau foi na cidade de Iguatú, onde esteve plenamente engajado ao Movimento Estudantil, na Pastoral da Juventude. Aí iniciou sua carreira artística, sendo um dos fundadores do Grupo de Teatro Amador – TAI, escreveu, dirigiu e atuou como ator, durante os anos de 1974 a 1979. Neste período, deu seus primeiros passos no contato com o violão e criou seus primeiros versos poéticos de Cordel, poesia popular na Região Nordeste.
Ainda em Iguatú, compôs uma Equipe que produzia e apresentava um programa de Rádio destinado ao público jovem, comunicando poesias, noticias gerais, músicas, cartas, entrevistas etc. O programa: “Juventude em ação”, ia ao ar nas noites de sábado, pela Rádio Iracema de Iguatú. Todo o trabalho era numa visão mais crítica, o que implicou em pressão e conseqüente corte do programa, já que estávamos em pleno regime da Ditadura Militar.
Além do Estudo Escolar, Zé Vicente fez vários Cursos: Iniciação Cinematográfica, na Fundação Pe. Ibiapina em Crato-Ce, de Radialista, através do Sindicato dos Radialistas do Ceará, Curso de Formação Bíblica pelo CEBI – Centro de Estudos Bíblicos, Curso de Verão do CESEP-Centro Ecumênico de Serviço ~Evangelização e Educação Popular, em São Paulo, Curso de Inverno em João Pessoa, na Paraíba, nesses últimos já atuando como artista, cantor e animador.


TRABALHO PROFISSIONAL

Antes de 1988, quando passou a viver profissionalmente como Poeta e Cantor, Zé Vicente, além de lavrador, trabalhou como professor municipal em Orós, como Técnico em Orientação Comunitária, compondo uma Equipe de Coordenação de um Projeto para construção de 450 casas populares em regime de mutirão em Iguatu-Ceará, após as grandes enchentes de 1974.
Trabalhou, oito anos,como Agente de Pastoral, na Diocese de Crateús, nas áreas de Comunidades Eclesiais de Base, Pastoral da Terra e Radialista, produzindo e apresentando programas nas emissoras locais, com a Equipe de Comunicação da Diocese. Nessas área de Comunicação, Zé Vicente, foi criador, juntamente com outras pessoas, de dois Boletins Populares: “CONSTRUÇÃO” em Iguatu e “O ROCEIRO” em Crateús, este, ainda em circulação.
Hoje, a música e a poesia, através de Shows e Oficinas realizadas por todo o Brasil e em alguns países do exterior como a Nicarágua (em 1989), Itália (em 1992), África do Sul(em 2001) é a ação permanente, mas nem por isso, exclusiva na vida de Zé Vicente. Cada vez que retorna das viagens , está lá, na roça onde nasceu, na sua horta, revolvendo a terra-mãe, produzindo cartões ecológicos e animando os parentes e vizinhos para se organizarem, e buscarem juntos novas relações com a natureza e com os outros. Cultivando frutos e poesia, música e novas alternativas de vida.

CARREIRA ARTÍSTICA

A poesia está presente na vida de Zé Vicente desde criança, quando a família, cultivava o costume de recitação de Romances inteiros de Cordel, nas sombras das árvores, em baixo das latadas. Alguns tios e o próprio pai, decoravam partes ou textos integrais dos livretos de Cordel que eram recitados com vibração e graça à luz de lamparinas e de fogueiras.
Na Escola, desde cedo, Zé começou a participar das datas comemorativas, recitando poesias.

Por volta de 1975 a 1979, começou a compor versos. Alguns chegaram a ser publicados:

 “Carta aos Brasileiros”-1978, baseado no documento, coordenado pelo jurista Gofredo da Silva Teles, lançado em São Paulo, exigindo a volta da democracia ao país.

 “Os Direitos das Crianças”- em l979, no ano internacional da criança, publicado pela Editora Vozes.

 “Frei Titto e o Dragão”- em l988, a biografia de Frei Tito de Alencar morto em conseqüência das torturas sofridas ao ser preso junto com outros companheiros dominicanos; publicado pelo CEPE, Centro Frei Tito, em São Paulo.

 “Recado Nordestino”- em 1990, sobre a seca e o uso da mesma por grupos políticos corruptos.

“História do 1º.de Maio”- em l982, contando em cordel o histórico referente a data.

“A Saga do vô Manuel e Mãe das Dores” em l997 e 2001 – narrando em versos as histórias de seus avós paternos, pôr ocasião do centenários de nascimento dos mesmos.
“José de Nazaré” – 2002, para comemorar os 50 anos da devoção ao santo padroeiro da família, que ainda hoje festeja na casa da mãe do Zé, todo o mês de março.
E vários outros poemas.
Na música, Zé Vicente começou a compor e divulgar a partir de 1982, quando morava em Crateús –CE. Desde então gravou:

“Canto das Comunidades”. K-7 com cantos das CEBs.

Músicas: “Baião das Comunidades”, e “Quero ver
Acontecer” gravadas em disco por Paulinas-COMEP.

“Caminhos da América”. Pela Verbo Filmes – SP.

“Festa dos Pequenos”. COMEP, Paulinas.

“Em Canto”. Em K-7. Depois reproduzido em
disco pela COMEP em 1992 – em CD

“Sempre Vida”. COMEP, Paulinas.

“Acorde América”. K-7. Trabalho em sintonia com os
500 anos de colonização da América.

“ZÉ VICENTE, PRESENTE”. Pela COMEP. Disco, CD , K-7.

“PRESENTE, en español”. COMEP.CD


“NÓS”. K-7. Por ocasião da Turnê “Excluídos e
Excludentes” do MARCA, na Itália. MD STUDIO-Ce.

“Sol e Sonho”. CD- música-popular. COMEP.


“Nas horas de Deus, amém”. CD. Benditos populares

“Zé Vicente, Nativo” CD –Paulinas-COMEP

“Tempos Urgentes”- Livro com CD, de poemas. Paulinas.

“CANTAR”- CD para UNICEF, Ceará, canta e dirige a arte.

“Guassussê, Canto da Memória”- compondo oito músicas.

“Dádivas”- CD Celebrativo- Paulinas-COMEP (solo)
Além da produção e dos shows, Zé Vicente assessora Oficinas de Arte-Vida, com dinâmicas para sensibilização e capacitação de novos artistas e é um dos membros fundadores do MARCA – Movimento de Artistas da Caminhada, que reúne cerca de 200 (duzentos) artistas de várias modalidades da arte, em vários Estados do Brasil, desde l990.

Cantar com profunda convicção a fé que dá razão a esperança, a solidariedade, a liberdade, a vida, paz, a festa!

Fortaleza-CE, 2004