Honestino Guimarães é frequentemente lembrado como símbolo da resistência contra a ditadura militar. Mas o que o filme de Aurélio Michiles faz, com sensibilidade e rigor, é devolver ao mártir sua humanidade: o jovem torcedor do Vasco, o pai ausente pela perseguição, o militante de bom humor, o apaixonado por samba e literatura. Em uma narrativa que mistura depoimentos e reconstituições dramáticas, o docudrama revela um Honestino para além do mito, que amava o Brasil a ponto de ficar, mesmo sabendo que isso poderia custar sua vida.
Assisti Honestino na sessão deste último domingo, 16/08, no Cinema do Centro e gostei do que vi. O filme retorna em Aracaju nesta Quinta(20/08) – 18h10 e na Segunda (24/08) 16h
Percebi, no filme, um líder político que gostava de viver em suas múltiplas formas: para além da militância, era apaixonado por literatura, futebol, samba e mulheres. Seu pai teve importância central em sua formação humana integral — incluindo as dimensões ética, política e religiosa. Como pai de uma menina recém-nascida, Honestino não pôde estar tão presente quanto gostaria, dada a condição de perseguido e ameaçado de morte que enfrentava. Amava profundamente o Brasil e o seu povo. Foi um homem destemido: poderia ter escolhido o exílio e sabia dos riscos que correria ao ficar, mas fez essa opção com lucidez e convicção.
O filme correspondeu aos elogios que encontrei em alguns veículos de comunicação. Um dos principais foi o fato de a história ser contada no formato docudrama, o que significa uma narrativa que intercala depoimentos diretos com a interpretação de atores. Essas encenações podem se dar de forma direta, com os atores reproduzindo cenas e dialogando entre si, ou como pano de fundo — em alguns casos, de modo performático — com narração em off.
Um exemplo em "Honestino" são os momentos da atuação de Bruno Gagliasso, que transpõem os escritos reais do líder estudantil. Com isso, a montagem premiada do filme dá vida e movimento a cartas, poemas e arquivos inéditos, revelando um lado profundamente humano de Honestino como pai, filho e amigo, para além do mito político.
E isso torna o ato de assistir a filmes assim uma experiência sensorial muito interessante, o que não quer dizer que documentários mais convencionais também não produzam uma boa experiência estética, mas é sempre bom quando a imaginação e o orçamento permitem buscar ir além do que leva muitos documentários a ficarem com cara de reportagem jornalística.
Uma cena com forte carga dramática que me marcou é quando Bruno Gagliasso, interpretando Honestino, denuncia a invasão da polícia e do Exército no ICC (Instituto Central de Ciências), popularmente conhecido como "Mininhocão", localizado no campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB).
Além da interpretação visceral, na cena que reconstitui a invasão da Ditadura Militar ao Instituto Central de Ciências (ICC) da UnB, a inserção de cartazes coloridos chama a atenção e assume uma dupla função estética e simbólica, fundamental para a narrativa. Ao mesmo tempo em que as cores vivas e vibrantes geram um acentuado contraste com o concreto cinzento do "Mininhocão", elas quebram visualmente a uniformidade opressiva e escura das fardas policiais que avançam sobre o campus. Além de criar esse forte choque visual, o uso de tintas coloridas reflete a própria efervescência cultural e a influência da Pop Art que ditavam a estética dos protestos globais de 1968, traduzindo graficamente o caráter plural, artístico e pulsante da juventude liderada por Honestino Guimarães em contraposição à rigidez do regime autoritário.
Os depoimentos dos familiares de Honestino também nos mostram o quanto a questão da perseguição aos lutadores pela democracia e contra a ditadura afetou as famílias, deixando um rastro de sofrimento, em especial para quem estava mais próximo.
Um exemplo é o relato de Maria Rosa Leite Monteiro, mãe de Honestino. A passagem mais cruel e marcante reconta o momento em que agentes militares dão a ela a falsa esperança de que visitaria o filho na prisão; em vez disso, as autoridades a levam para uma sala vazia coberta de sangue. O depoimento de Juliana Guimarães, filha de Honestino, traz para a tela a dimensão mais íntima e dolorosa do desaparecimento forçado: o silêncio da ausência. Tendo apenas três anos de idade quando o pai foi sequestrado em 1973, Juliana relata no filme que guarda consigo apenas uma única lembrança real e vaga de Honestino: uma tarde de sol em um parquinho na Praia de Botafogo. Todo o restante de seu afeto precisou ser construído ao longo da vida de forma indireta, ouvindo as histórias contadas por terceiros e tentando decifrar a imagem do pai por meio de poucas fotografias antigas.
Um aspecto que me chamou especialmente a atenção em Honestino é a trajetória do jovem militante ligada também a uma dimensão religiosa e humanista, que participou de sua formação e de sua visão de mundo. Essa passagem é particularmente significativa porque revela que sua formação política não pode ser compreendida apenas a partir da radicalização ideológica que marcou os anos seguintes. Havia, em sua trajetória, uma matriz humanista e cristã que dialogava com a preocupação com a justiça social e a transformação da sociedade, ainda que a AP posteriormente passasse por profundas mudanças e assumisse referências marxistas e maoístas. Essa dimensão aparece no filme não como uma simples profissão de fé, mas através de cartas, poemas, afetos e relações pessoais que ajudam a revelar o universo interior de Honestino. E é justamente aí que a narrativa ganha uma dimensão simbólica poderosa: sua clandestinidade, perseguição, prisão, tortura e desaparecimento podem ser lidos como uma espécie de "Paixão" contemporânea.
Por fim, o filme Honestino também chama atenção por recuperar dimensões pouco exploradas da vida do dirigente estudantil: o jovem apaixonado por futebol e torcedor do Vasco, que mesmo perseguido pela ditadura encontrava espaço para jogar bola; o homem de bom humor, carismático e agregador, capaz de construir vínculos para além da militância; o leitor, frequentador da praia, amigo, marido e pai. As lembranças de Isaura Botelho, Shoshana Rapoport e de sua filha Juliana ajudam a revelar as relações afetivas e familiares que existiam por trás do personagem político. Esses elementos são fundamentais porque humanizam Honestino e rompem com a imagem congelada do "mártir da ditadura": antes de ser presidente da UNE, clandestino e desaparecido político, ele era um jovem de apenas 26 anos, apaixonado pela vida, pelos amigos, pelo futebol, pela literatura e pelas pessoas que amava.
Video premiado pelo Concurso UnB - 30 Anos (Universidade de Brasilia, setembro de 1992)
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