Nos comícios de Lula pelo país, a dança de rua virou protagonista. De SP a MG, do RJ a São José do Rio Preto, jovens de coletivos locais reinventam o "Rap do Silva" com seus corpos, ritmos e identidades — e transformam o jingle em expressão da cultura periférica. A cena emociona quem vê e carrega uma história de luta pelo direito da juventude ocupar palcos, ser reconhecida e produzir cultura. A comunicação da campanha ainda parece não ter percebido a potência desses momentos. Não há matéria especifica e nem cortes desse momento para as redes digitais.
Um dos momentos mais lindos dos comícios realizados pelo Presidente Lula em alguns estados do país é a apresentação de dança de rua, com grupos locais fazendo a releitura do Rap do Silva como jingle presidencial.
Uma das
melhores sacadas da campanha é a canção. E, no caso dos comícios, a ideia fica
ainda mais bonita quando ela é acompanhada por grupos de dança locais, de cada
região, que colocam seus corpos, seus ritmos e sua identidade nessa releitura.
O mesmo Rap do Silva vai ganhando outras formas, outros movimentos, outros
sotaques, sem perder a sua força e a sua origem popular.
E a sacada
é tão boa que o Flávio Bolsonaro pediu censura e André Mendonça aprovou. A
tentativa de retirar o jingle da propaganda eleitoral acabou, de certa forma,
revelando ainda mais a força e a repercussão que a música alcançou.
Quando
assisti este momento no primeiro comício de lançamento, em São Bernardo do
Campo, na histórica Vila Euclides, me apressei em escrever e publicar uma
postagem no Blog da Cultura sobre a alegria e a emoção que senti. E quem
conhece a minha história sabe o porquê.
Talvez seja
difícil explicar em poucas palavras por que aquela cena me tocou tanto. Mas
quem conhece a minha trajetória sabe que não estou olhando para esses meninos e
meninas apenas como espectador de um espetáculo. Há muitos anos venho
acompanhando, trabalhando e aprendendo com a cultura produzida nas periferias,
especialmente com as culturas juvenis, a
dança, o hip-hop, o teatro, o audiovisual e tantas outras formas de expressão
que nasceram e cresceram longe dos grandes centros e dos holofotes.
A Ação
Cultural nasceu justamente desse compromisso: acreditar que os jovens da
periferia não são apenas público ou beneficiários de projetos culturais, mas
produtores de cultura, criadores, artistas e sujeitos de sua própria história.
Desde as experiências com grupos de dança e iniciativas culturais no Conjunto
Jardim e em outras comunidades, inclusive como assessor/produtor do Ponto de
Cultura Juventude e Cidadania, tenho visto de perto o que acontece quando a
juventude encontra espaço, reconhecimento e oportunidade para expressar aquilo
que carrega dentro de si.
Por isso,
quando vejo hoje esses jovens ocupando o palco de um comício presidencial,
levando o street dance, o passinho e suas linguagens para dentro de um
acontecimento político dessa dimensão, eu não consigo assistir apenas como quem
vê uma bonita apresentação. Eu reconheço ali uma história que também é parte da
minha história, uma luta antiga pelo direito de a periferia produzir, ocupar
espaços e ser reconhecida pela sua cultura.
Naquele
primeiro momento, talvez eu ainda não tivesse a dimensão de que aquela cena que
tanto me emocionou se repetiria em outros lugares do país.
É bonito
perceber que não se trata apenas de uma música tocando em um comício. O Rap do
Silva está sendo apropriado pela juventude, pelos grupos de dança, pelas
culturas urbanas de cada território. A música é a mesma, mas os corpos que a
interpretam são diferentes.
E talvez
seja justamente aí que esteja uma das melhores sacadas dessa iniciativa.
Porque
quando uma campanha consegue fazer uma música chegar às periferias e, ao invés
de apenas pedir que os jovens a escutem, oferece espaço para que eles dancem,
criem, recriem e ocupem o palco com a sua própria linguagem, alguma coisa
diferente está acontecendo.
Foi
exatamente isso que enxerguei naquele primeiro comício e que me provocou tanta
alegria e emoção. Talvez por isso tenha sentido a necessidade de correr para o
Blog da Cultura e registrar o que estava vendo, no primeiro comício e hoje, enquanto grande parte da cobertura política continua
enxergando apenas o palanque, os discursos, as alianças e a disputa eleitoral.
E por isso
continuo achando que essa iniciativa merece uma atenção especial da comunicação
da campanha.
Produzir
cortes desses momentos, valorizar os grupos locais, identificar os dançarinos,
contar suas histórias e colocar esses vídeos nas redes seria uma forma muito
mais potente de mostrar ao Brasil aquilo que está acontecendo nos palcos dos
comícios.
Porque
talvez a comunicação da campanha ainda não tenha percebido completamente a
dimensão dessa iniciativa.
Não são
apenas alguns minutos de dança.
São jovens
de diferentes lugares do Brasil dizendo, através dos seus corpos, que também
fazem parte dessa história.
E talvez
seja essa a imagem que mais me emociona: o Rap do Silva deixando de ser
apenas ouvido para ser dançado.

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