sábado, 5 de setembro de 2026

O Rap do Silva ganha os corpos e as culturas de cada lugar

 Nos comícios de Lula pelo país, a dança de rua virou protagonista. De SP a MG, do RJ a São José do Rio Preto, jovens de coletivos locais reinventam o "Rap do Silva" com seus corpos, ritmos e identidades — e transformam o jingle em expressão da cultura periférica. A cena emociona quem vê e carrega uma história de luta pelo direito da juventude ocupar palcos, ser reconhecida e produzir cultura. A comunicação da campanha ainda parece não ter percebido a potência desses momentos. Não há matéria especifica e nem cortes desse momento para as redes digitais. 


Um dos momentos mais lindos dos comícios realizados pelo Presidente Lula em alguns estados do país é a apresentação de dança de rua, com grupos locais fazendo a releitura do Rap do Silva como jingle presidencial.

Uma das melhores sacadas da campanha é a canção. E, no caso dos comícios, a ideia fica ainda mais bonita quando ela é acompanhada por grupos de dança locais, de cada região, que colocam seus corpos, seus ritmos e sua identidade nessa releitura. O mesmo Rap do Silva vai ganhando outras formas, outros movimentos, outros sotaques, sem perder a sua força e a sua origem popular.

E a sacada é tão boa que o Flávio Bolsonaro pediu censura e André Mendonça aprovou. A tentativa de retirar o jingle da propaganda eleitoral acabou, de certa forma, revelando ainda mais a força e a repercussão que a música alcançou.

Quando assisti este momento no primeiro comício de lançamento, em São Bernardo do Campo, na histórica Vila Euclides, me apressei em escrever e publicar uma postagem no Blog da Cultura sobre a alegria e a emoção que senti. E quem conhece a minha história sabe o porquê.

Talvez seja difícil explicar em poucas palavras por que aquela cena me tocou tanto. Mas quem conhece a minha trajetória sabe que não estou olhando para esses meninos e meninas apenas como espectador de um espetáculo. Há muitos anos venho acompanhando, trabalhando e aprendendo com a cultura produzida nas periferias, especialmente com as culturas juvenis,  a dança, o hip-hop, o teatro, o audiovisual e tantas outras formas de expressão que nasceram e cresceram longe dos grandes centros e dos holofotes.

A Ação Cultural nasceu justamente desse compromisso: acreditar que os jovens da periferia não são apenas público ou beneficiários de projetos culturais, mas produtores de cultura, criadores, artistas e sujeitos de sua própria história. Desde as experiências com grupos de dança e iniciativas culturais no Conjunto Jardim e em outras comunidades, inclusive como assessor/produtor do Ponto de Cultura Juventude e Cidadania, tenho visto de perto o que acontece quando a juventude encontra espaço, reconhecimento e oportunidade para expressar aquilo que carrega dentro de si.

Por isso, quando vejo hoje esses jovens ocupando o palco de um comício presidencial, levando o street dance, o passinho e suas linguagens para dentro de um acontecimento político dessa dimensão, eu não consigo assistir apenas como quem vê uma bonita apresentação. Eu reconheço ali uma história que também é parte da minha história, uma luta antiga pelo direito de a periferia produzir, ocupar espaços e ser reconhecida pela sua cultura.

Naquele primeiro momento, talvez eu ainda não tivesse a dimensão de que aquela cena que tanto me emocionou se repetiria em outros lugares do país.

Em São Bernardo do Campo, o Rap do Silva ganhou a dança de rua e o street dance do Street Breakers Crew.

Em Belo Horizonte, na Praça da Estação, foram os dançarinos e coletivos representantes do Passinho de BH que fizeram a sua releitura coreografada.

No Rio de Janeiro, em Bangu, no Estádio Moça Bonita, foi a vez do Passinho Carioca. E ali havia algo ainda mais emocionante: 13 crianças do Complexo da Penha levando para o palco a linguagem do passinho carioca, ao som do Rap do Silva.

E agora, no dia de hoje, 05/09/2026, , em São José do Rio Preto, assisto novamente a uma apresentação nos mesmos moldes, com a dança urbana ocupando o espaço do comício e dando ao jingle uma nova dimensão.

É bonito perceber que não se trata apenas de uma música tocando em um comício. O Rap do Silva está sendo apropriado pela juventude, pelos grupos de dança, pelas culturas urbanas de cada território. A música é a mesma, mas os corpos que a interpretam são diferentes.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das melhores sacadas dessa iniciativa.

Porque quando uma campanha consegue fazer uma música chegar às periferias e, ao invés de apenas pedir que os jovens a escutem, oferece espaço para que eles dancem, criem, recriem e ocupem o palco com a sua própria linguagem, alguma coisa diferente está acontecendo.

Foi exatamente isso que enxerguei naquele primeiro comício e que me provocou tanta alegria e emoção. Talvez por isso tenha sentido a necessidade de correr para o Blog da Cultura e registrar o que estava vendo, no primeiro comício e hoje,  enquanto grande parte da cobertura política continua enxergando apenas o palanque, os discursos, as alianças e a disputa eleitoral.

E por isso continuo achando que essa iniciativa merece uma atenção especial da comunicação da campanha.

Produzir cortes desses momentos, valorizar os grupos locais, identificar os dançarinos, contar suas histórias e colocar esses vídeos nas redes seria uma forma muito mais potente de mostrar ao Brasil aquilo que está acontecendo nos palcos dos comícios.

Porque talvez a comunicação da campanha ainda não tenha percebido completamente a dimensão dessa iniciativa.

Não são apenas alguns minutos de dança.

São jovens de diferentes lugares do Brasil dizendo, através dos seus corpos, que também fazem parte dessa história.

E talvez seja essa a imagem que mais me emociona: o Rap do Silva deixando de ser apenas ouvido para ser dançado.





quinta-feira, 13 de agosto de 2026



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