domingo, 13 de janeiro de 2013

Agenda do Agente Cultural - Encontro Cultural de Laranjeiras



Quanto ao Encontro Cultural de Laranjeiras, a nossa pretensão era ter ido assistir ao show do Casaca de Couro  no dia 10/01, porém isto não foi possível. 

Decidimos ir no dia 12/01 (ontem), a  motivação para ir neste dia foi o aviso de um amigo da presença do  Uauiara, grupo de música e dança  regional do Pará, do qual sou admirador e que  estava mais uma vez na programação do sábado,  com isso, antecedi  e substituí a pretensão de ir no dia de hoje, 13/01.

 Qual a minha surpresa, chegando a cidade e ao  buscar no folheto da programação,  não encontrar o nome do grupo citado.
Liguei para o amigo e este informou que a fonte em que ele colheu a informação era o site da Tv Atalaia, o qual me foi enviado via e-mail para confirmação da informação. Fiquei de enviar uma reclamação a organização do evento.
19/12/2012 14:37
Fonte: site da TV Atalaia
Laranjeiras divulga programação do 38º Encontro Cultural

Confira a programação completa divida em circuitos;
 DIA 12 DE JANEIRO DE 2013
19h30 - Uauiara ( Belem/PA)


Quanto a programação do Encontro Cultural de Laranjeiras, a mesma foi objeto de criticas no facebook, por parte de professores e estudantes da UFS, este povo sem dinheiro para gastar e que critica tudo (risos), conforme a opinião do taxista que nos levou de volta para casa, após assistirmos eu e minha filha adolescente,  ao show de um outro grupo paraense, o Mistura Regional e  que estava na programação, apresentando  um estilo hibrido  tecno-pop-regional, bem misturado mesmo.

Antes desse momento,   assisti na igreja matriz a uma apresentação completa do Renantik, grupo de música antiga e depois fui dar uma espiadinha na apresentação do Corcunda de Notre Dame,  realização da Companhia das Artes Tetê Nahas. Nos  poucos minutos em que assisti as dificuldades de apresentação do  Corcunda, tanto para a equipe do espetáculo, como para o público, confirmei o quanto é urgente e necessário construir um teatro  em Laranjeiras, demanda lamentavelmente  pouco reclamada  pela maioria dos fazedores e consumidores  de cultura da cidade e do estado.

Em um dos momentos da noite, também assisti por alguns momentos a apresentação teatral de um grupo de jovens de Laranjeiras, mais uma vez, como no ano passado,  assisti a  um espetáculo carregado de preconceitos e discriminações sutis ou ás vezes,  nem tanto,  e com padrão  cênico  bem tradicional. Fica a dica para os professores e estudantes do Campus/UFS de Laranjeiras,  pesquisar/estudar este padrão de produção teatral local  e contribuir com oficinas, palestras e seminários de iniciação e/ou aperfeiçoamento voltado para os grupos juvenis de artes cênicas  da cidade e dos municípios do entorno.

Para concluir , com relação as criticas a programação não vejo problema em incluir cantores da cultura de massa na programação, só acho lamentável a quantidade de artistas da cultura da grande massa, em detrimeto de artistas que reúnem uma massa menor, em geral mais escolarizada e com maior renda, mas que tem público e por isso, também precisam  ser incluídos  Me refiro a artistas como Vanessa da Mata, Roberta Sá, Maria Gadu, Maria Rita, Patricia Polayne  e muito mais gente, inclusive as ligadas a área das artes cênicas.

Faz-se necessário também  trazer os artistas que fazem a nova música brasileira e  que atraem a atenção de um público jovem, universitário, cult e afins, presentes inclusive através  do campus das artes/UFS, localizado no centro histórico de Laranjeiras,  Me refiro a artistas como Criolo, Marcelo Camelo, O Circo Mágico, Marcelo Jeneci, Malu Magalhães, Vanguarte, Rapadura, BNegão, Clã Brasil e muito mais gente, inclusive as ligadas a área das artes cênicas.

Para quem quiser ouvir alguns dos nomes citados acima e outros também legais, é só clicar AQUI

Há também o problema do transporte, a entrada do entorno da  cidade histórica no dia 12/01, estava abarrotada de carros, e,   a partir das 22h  sem serviço de transporte público, com exceção de alguns taxistas, perdidos no emaranhado de carros particulares. Diante disso,  faz-se necessário  criar um sistema de controle de entradas de automóveis no entorno do  centro histórico  e prover locais para estacioamento, em especial nos dias de grandes  atrações ligadas a cultura de massa, como era o caso desta noite.

A despeito disso tudo, valeu mais uma vez prestigiar e contribuir com a divulgação do XXXVIIII Encontro Cultural de Laranjeiras, como também com as criticas destinadas a tornar cada vez mais um Encontro Cultural melhor. 


Para saber mais sobre o Encontro Cultural, clique AQUI

Zezito de Oliveira 

Agenda do agente cultural.



HOMENAGEM A MÁRIO JORGE
Na última sexta-feira, 11/01/2013,  estivemos participando da bela  homenagem ao poeta Mário Jorge. Legal se os poemas musicados apresentados naquela noite fossem disponibilizados em CDs. Da mesma maneira cai bem a produção de um audiovisual contando a vida e a obra do poeta.   Um site para registro e difusão da memória do poeta  também é legal e não custa muito caro. Por isso,  reitero a necessidade de mais recursos financeiros via edital, recursos do governo estadual, como dos governos municipais.
 A propósito dessa noite, escrevi e postei no facebook.
"Salve os poetas, os loucos e as crianças. Salve Mário Jorge!!
Uma noite de puro êxtase, a homenagem prestada ao poeta sergipano Mário Jorge, na segunda sexta de nosso janeiro de 2013.
A certeza de que a arte engajada, não precisa deixar de ser “arte”, na melhor acepção da palavra, para nos fazer olhar a vida com mais solidariedade e compromisso com a justiça e com a liberdade.
A alegria de poder sentir o potencial da criação artística que nos mostra outras formas de olhar um mundo cheio de imperfeições, mas sem abrir mão do encantamento e da magia que a razão nem sempre alcança.
A alegria de ter sido acompanhado por um colega professor e 6 alunos do ensino médio, tendo sido a primeira vez que 4 deles vai ao teatro.
A alegria de ter contado com o apoio da equipe diretiva e da coordenação do turno noturno da Escola Estadual Professora Júlia Teles, a qual mobilizou junto a Secretaria de Estado da Educação o transporte necessário para o deslocamento.
A alegria de participar de um evento promovido por um mandato parlamentar socialista, de fato, o qual compreende que homens e mulheres não tem somente fome somente do pão e sede de justiça, como sentem necessidade de saciar a fome de beleza e a sede de afeto.
Parabéns a todos que fizeram ou que apoiaram a noite de ontem no teatro Atheneu. Se queremos que a felicidade desabe sobre os homes, na feliz expressão de outro gênio da arte, Tom Zé, a trilha a ser seguida é esta. O abraço bem forte e carinhoso da luta pela justiça com a criação artistica.
Saiba mais, AQUI
NA CIDADE HISTÓRICA DE SÃO CRISTÓVÃO
Já ontem, sábado, 12/01/2013, estive representando a Ação Cultural em reunião com outros companheiros de outras três ongs culturais e com atuação na cidade de São Cristóvão. Foi dado  o pontapé  inicial de um planejamento de ações articuladas e coordenadas  visando cooperar com o  desenvolvimento cultural da cidade. Em momento oportuno divulgaremos os encaminhamentos.
Só que houve um lamentável contratempo. A demora para chegar ao local da reunião, localizada no centro histórico de São Cristóvão, próximo a Pça. São Francisco.  Como moro próximo a praça Dom José Thomaz (Siqueira Campos), me dirigi ao ponto de ônibus, por volta das 13h15. Em razão do  tempo de deslocamento ser de  30 a 40  minutos, poderia chegar até 14h30. Entretanto, dois micro-ônibus  não pararam por estarem lotados e ao me dirigir para pegar o transporte no ponto final, no centro de Aracaju, cerca de 15 minutos do ponto de ônibus onde eu estava , um dos micro-ônibus estava com problema no validador do cartão magnético de passagem e o que consegui embarcar teve o pneu furado durante o trajeto. Conclusão,  cheguei ao local da reunião perto das 16 horas.
E hoje,  13/01, leio a seguinte denuncia no site primeira mão: Transporte coletivo: Em andamento uma armação ilimitada
Preocupadas com a possibilidade de um mau desempenho no processo licitatório do transporte coletivo de Aracaju, algumas empresas estão dispostas a encerrar suas atividades, passando a parte boa delas, sem dívida, para uma nova marca registrada e deixando de lado a parte “podre”, formada por dívidas e ações judiciais, entre outras coisas. Os encaminhamentos desse tipo de procedimento já estão acontecendo e alguns grupos empresariais atuam no sentido de formar holding, uma espécie de “guarda-chuva” para comandar todos os empreendimentos de um mesmo grupo. As iniciativas para viabilizar empresas limpas, sem dívida, e em condições de entrar na disputa com boas chances de conquistar fatias do mercado do transporte coletivo de Aracaju e municípios vizinhos estão em andamento e, se bem-sucedidas, a licitação que está em curso vai terminar na mesmice.”

E o pior, saber que a maioria de nossos prefeitos são  reféns das empresas de transporte coletivo, em razão do financiamento de suas  campanhas. 

Zezito de Oliveira

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Oito fatos que marcaram a cultura brasileira em 2012

Fonte: Site Cultura e Mercado
| sexta-feira, 21 dezembro 2012 2 Comentários

Em 2012, o setor cultural brasileiro passou por mudanças e debates que podem apontar novos rumos políticos e mercadológicos para a área. Para encerrar o ano aqui no Cultura e Mercado, selecionamos oito fatos importantes para o país.
Qual mais além desses você indicaria?
Mudança no comando do Ministério da Cultura
No dia 11 de setembro, o Palácio do Planalto confirmou o convite da presidente Dilma Rousseff à então senadora Marta Suplicy (PT-SP), para substituir Ana de Hollanda no comando do Ministério da Cultura.
Já em seu discurso de posse, a nova ministra afirmou que uma de suas prioridades seria a aprovação do Vale Cultura – aprovado pelo Senado no dia 6 de dezembro.
Dois meses após assumir o cargo, em entrevistas aos principais jornais do país, Marta contou que pretende dar uma marca de “inclusão social” à sua gestão no ministério. Além de aprovar o Vale Cultura, ela pretende construir 360 CEUs das Artes — centros de produção cultural dotados, por exemplo, de biblioteca somente com livros artísticos. Também já começou a promover projetos e editais de incentivo à produção da cultura negra.
Marco civil da internet
A votação do Projeto de Lei 2.126/2011, o Marco Civil da Internet, foi adiada seis vezes desde que chegou à Câmara dos Deputados, em julho.
A meta do projeto é estabelecer direitos e responsabilidades no uso dos meios digitais, entre os quais a responsabilidade civil de provedores e usuários sobre o conteúdo publicado na internet e medidas para preservar e regulamentar direitos do usuário da rede como a liberdade de expressão e a privacidade.
A proposta sofre pressões principalmente por dois pontos: neutralidade e responsabilização de provedores por retirada de conteúdo – sendo que essa última ainda envolve discussões sobre direitos autorais, o que acabou gerando a intervenção do Ministério da Cultura.
Direito autoral
Além dos debates sobre direito autoral promovidos em torno do Marco Civil da Internet, esse tema também foi muito tratado em 2012 por conta da CPI do Ecad.
A Comissão investigou denúncias de irregularidades praticadas pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) na arrecadação e distribuição de recursos vindos do direito autoral de produções artísticas musicais e gerou um Projeto de Lei (PLS 129/2012), que trata do Novo Sistema de Gestão Coletiva de Direitos Autorais e estabelece normas para o exercício das atividades da entidade
Diante da pressão de artistas, servidores e dirigentes do Ecad, os senadores decidiram adiar a discussão da matéria para 2013.
Procultura
Em maio, Cultura e Mercado e Cemec promoveram em São Paulo o Seminário #procultura, que reuniu os principais agentes interessados no avanço do financiamento à cultura do Brasil em um dia de palestras, depoimentos e análises do texto que modifica a Lei Rouanet.
O deputado Pedro Eugênio (PT-PE), relator da proposta, apresentou os principais pontos a serem alterados na lei de incentivo à cultura brasileira.
O projeto traz novos recursos para o Fundo Nacional de Cultura, promete descentralizar os recursos territorialmente e criar linhas para privilegiar pequenos produtores e produtores independentes. Clique aqui para saber mais.
No início de 2013, é possível que os líderes da Câmara e o governo votem um requerimento de urgência para que o projeto seja levado a Plenário sem ter que passar pelas comissões de Financiamento e Tributação e de Constituição e Justiça. Depois disso, vai para o Senado.
Crescimento do mercado das artes plásticas
Estudo realizado pela Associação Brasileira de Arte Contemporânea (ABACT) e pelo projeto setorial de arte contemporânea da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), divulgado em maio, revelou que as galerias de artes monitoradas e que atuam no mercado primário (trabalham com o artista em atividade) cresceram em média 44% nos últimos dois anos.
O levantamento foi feito entre 40 galerias de sete estados brasileiros, que juntas representam cerca de 900 artistas. Essas mesmas galerias confirmam a tendência de internacionalização da arte contemporânea nacional, já que cerca de 48% dos seus artistas estão em coleções internacionais, enquanto 18% são representados por galerias estrangeiras e 20% dos seus negócios são gerados no exterior.
Junte-se a isso as visitações recorde em exposições, como a mostra “Impressionismo: Paris e a Modernidade”, no Centro Cultural Banco do Brasil, e “Caravaggio e Seus Seguidores”, no Museu de Arte de São Paulo (Masp).
Legado cultural da Copa
Segundo o Ministério da Cultura, durante a Copa do Mundo de 2014, são esperados no Brasil cerca de 600 mil turistas estrangeiros e uma movimentação de mais de 3,1 milhões de pessoas em todo o território nacional.
O assunto tem sido tema de diversos seminários e até de edital.
Em abril, a Câmara dos Deputados criou a Subcomissão Especial para o Legado Cultural. O grupo ficará encarregado de acompanhar a organização e os investimentos realizados em infraestrutura cultural na preparação para os megaeventos esportivos que o país sediará nos próximos anos.
Mudanças no mercado de entretenimento
Com o encalhe de ingressos para apresentações de grandes artistas internacionais e o cancelamento de shows, neste ano teve início um movimento que pode indicar mudanças estratégicas no mercado de entretenimento no Brasil.
Grandes empresas de entretenimento ao vivo uniram-se para criar duas associações, uma formada por produtoras de shows e musicais e outra por companhias que comercializam ingressos. A intenção é reduzir a proporção de meias-entradas ou, pelo menos, conseguir que os governos assumam a conta de parte do benefício.
Entidades de defesa do consumidor veem riscos para o público dos shows caso algumas demandas das novas associações sejam contempladas.
Por outro lado, já se fala em negociações mais intensas para baixar o valor dos cachês dos artistas internacionais e um aumento no número de cidades das apresentações para diluir custos, tentando expandir para além do tradicional circuito Rio-São Paulo.
Nova lei da TV paga
Sancionada em setembro de 2011, a Lei 12.485 entrou em vigor neste ano e, apesar de todas as polêmicas, já começa a movimentar o mercado audivisual nacional.
Até final de 2013, todos os canais brasileiros de séries, filmes, documentários e animação de TV paga deverão ter em sua grade de programação pelo menos 3h30 por semana de conteúdo nacional e de produção independente em horário nobre – embora algumas programadoras já estejam pedindo dispensa da obrigatoriedade.
Isso tem gerado um significativo aumento na procura por produtoras e roteiristas de produtos nacionais, provocando mudanças de hábitos e padrões em empresas estabelecidas e estimulando o crescimento de outras.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Malucos de Estrada: resistência e arte


Beleza da Margem · Belo Horizonte, MG
22/12/2012 
Imagine a oportunidade de mostrar num filme um modo de viver que poucos conhecem e capaz de inspirar tanta gente!

Sonhos, arte, poesia, cooperação, liberdade, revolução, desapego, igualdade, lutas... Sentimentos e ações que muitas vezes reprimimos em razão dos padrões sociais pré-estabelecidos, mas que são vividos intensamente por homens e mulheres que botaram uma mochila nas costas e o pé na estrada.

Mas quem são eles? Como vivem? No que acreditam?

O filme “Malucos de estrada: a reconfiguração do movimento hippie no Brasil” é uma iniciativa inédita que busca esclarecer a sociedade sobre a riqueza de valores deste universo cultural e colocar em discussão o atual processo de repressão que os artesãos vêm sofrendo.

Faça parte desta iniciativa conosco! Contribua para realização do filme e compartilhe nossa página.

Link: http://www.mobilizefb.com/malucosdeestrada




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domingo, 6 de janeiro de 2013

O que podemos aprender com hippies e punks para combater o consumismo

Fonte: Ópera Mundi
Absorvidos aparentemente pelo mercado, eles retornaram pela atualidade da crítica ao consumismo e desejo de produzir com autonomia

Atualmente há um determinado tipo de ideologia que conquistou grande parte da sociedade. Essa ideologia vem gerando consequências como prejuízo à saúde dos indivíduos, aumento da desigualdade social e degradação do meio ambiente. Trata-se de uma ideia sedutora e perigosa que hoje está mais difundida no mundo do que qualquer religião ou outra forma de pensamento. Essa ideologia é o consumismo.

Nenhuma sociedade sobrevive sem algum tipo de relação entre produção e consumo. O consumismo não é o mero incentivo ao consumo; é o pensamento de que uma vida boa e feliz depende inteiramente da quantidade de bens materiais que se pode consumir. Ao nível dos países, é a ideia de que o bem estar de uma nação deve ser medido apenas pelos números de produção e consumo de bens. Nesse contexto, o principal papel do Estado seria estimular a população para que consuma cada vez mais. Para o consumismo, o sucesso de uma sociedade ou de um indivíduo é medido simplesmente pela quantidade de produtos consumidos.

Essas noções estão de tal forma naturalizadas no imaginário coletivo que causa estranhamento demonstrar que elas representam uma ideologia cuja origem pode ser investigada à luz da história recente da sociedade ocidental.

No campo das ideias, o primeiro estímulo para o desenvolvimento da economia de consumo foi dado pelo escocês Adam Smith. Em 1776, o economista publicou o texto A riqueza das nações, no qual defendia que o verdadeiro progresso econômico ocorre quando os indivíduos são livres para buscar os próprios interesses. Assim, quando todos agem de forma egoísta, a sociedade como um todo se beneficia. Cabe ao Estado interferir o menos possível nessa dinâmica e apenas deixar que as pessoas invistam livremente em seus interesses individuais. Surge então a teoria que sustenta, até hoje, a essência do capitalismo.

Logo, as inovações técnicas da Revolução Industrial permitiram que um grande número de pessoas tivesse acesso a bens materiais que estavam nas mãos da elite. O princípio de democratização do consumo foi levado adiante por Henry Ford que, ao criar sua companhia, em 1901, tinha como objetivo que todas as classes pudessem adquirir um carro, até então um artigo de luxo. Ford realizou seu desejo em 1908, com o lançamento do primeiro Modelo T, um automóvel resistente, barato, simples de dirigir e fácil de consertar.

Wikimedia Commons

Hippies descansam durante shows do Festival de Woodstock

O industrial pretendia que seu carro popular fosse feito para durar e se preocupava em não fazer melhorias que tornassem o modelo anterior obsoleto. Graças ao desenvolvimento da linha de montagem e da escala de produção, Ford conseguiu baratear cada vez mais o preço de seu Modelo T, que passou de 950 dólares, em 1909, para 290 dólares, em 1924.

Devido ao desenvolvimento da linha de montagem, produtos industrializados mais complexos como os carros e os eletrodomésticos deixaram de ser privilégio e se tornaram acessíveis para muitos. As famílias médias norte-americanas logo possuíam bens materiais em abundância, destinados às mais diversas ações. As empresas, movidas por questões econômicas, mudariam radicalmente a visão e o papel do consumo na sociedade.

Durante a década de 1920, percebendo que logo poderiam ter um excesso de produção, as empresas resolveram investir no aumento da demanda. A solução seria fazer com que as pessoas quisessem comprar coisas novas mesmo que as coisas antigas ainda estivessem funcionando. Acabava a era do consumo que servia para suprir as necessidades. A criação e o constante estímulo à aquisição de bens materiais se tornariam ações centrais no desenvolvimento da sociedade. A chave para a prosperidade econômica era a criação organizada da insatisfação, pois se todos estivessem satisfeitos ninguém teria interesse em comprar coisas novas. A insatisfação social seria organizada de duas maneiras: a obsolescência dos produtos e a propaganda.

A obsolescência dos produtos faz parte de uma estratégia de mercado que pretende manter o consumo constante fazendo com que os produtos parem de funcionar (obsolescência programada) ou tornem-se obsoletos em pouco tempo (obsolescência percebida), tendo que ser substituídos.

A obsolescência programada consiste em simplesmente reduzir a vida útil do produto, fazendo com que ele funcione cada vez menos tempo. Esse tipo de obsolescência teve início com as lâmpadas elétricas. Em 1924, as lâmpadas duravam cerca de 2.500 horas, enquanto que em 1940 o padrão já havia sido reduzido para mil horas.

No que se refere à obsolescência percebida, trata-se da essência da política das empresas contemporâneas: lançamentos no mercado de novos modelos com mínimas atualizações, apenas com o objetivo de tornar obsoletos os produtos anteriores. Assim, os consumidores sentiriam a necessidade de se manter sempre atualizados com bens de última geração, descartando produtos antigos, ainda que estejam em funcionamento.

Hoje, tais estratégias comerciais, iniciadas na primeira metade do século XX, chegaram ao extremo, sobretudo em relação aos bens tecnológicos. Aparelhos de telefonia móvel são produzidos para serem trocados, em média, a cada ano. Um exemplo tradicional de obsolescência percebida é o Ipod: lançado em 2001, o aparelhinho já havia passado por seis “gerações” em 2009, levando-se em conta apenas o modelo “clássico”.

Se incluirmos as variações do mesmo produto, como o Shuffle, o Nano, o Mini e o Touch, são impressionantes 24 modelos de um mesmo produto, tudo isso em apenas 11 anos. Além disso, a bateria do primeiro modelo de Ipod era produzida para durar apenas um ano; depois desse período, o consumidor seria obrigado a comprar um novo produto, pois o aparelho era produzido de uma forma que praticamente impossibilitava a reposição de bateria.

De forma ampla, essas práticas comerciais aumentaram de forma drástica a demanda por recursos naturais e aceleraram a produção de lixo. Cada vez mais computadores, celulares e eletrodomésticos, ainda em pleno funcionamento, são descartados. A obsolescência dos produtos aumentou a demanda; mas isso ainda não era suficiente para as empresas, pois o consumidor não possuía a autonomia de escolher quando se atualizar. A solução seria encontrar uma forma de aumentar a insatisfação e estimular os desejos de consumo. Surgem então as técnicas de controle e de manipulação das massas desenvolvidas a partir das teorias psicanalíticas de Freud sobre o ser humano.

Eleito pela revista Time um dos norte-americanos mais influentes do século XX, Edward Bernays foi o criador da propaganda moderna. Ele utilizou as ideias de seu tio, Sigmund Freud, para manipular as emoções e os desejos das massas. Bernays acreditava que, ao conhecer as motivações das pessoas, seria possível influenciar seu comportamento sem que elas se dessem conta disso. Ao vincular bens materiais a desejos inconscientes, Bernays ensinou às indústrias como fazer as pessoas desejarem algo de que não precisam de fato.

A propaganda não se limitaria mais a apresentar o produto e a informar sobre suas qualidades. Agora, a publicidade teria o objetivo de influenciar a audiência, produzindo respostas emocionais e não racionais aos produtos. Nesse momento, surge a noção de consumismo como é compreendida atualmente, tornando-se uma forma de explorar mentes, emoções e identidades das pessoas. Medos e inseguranças são manipulados de modo a serem traduzidos em desejos de produtos materiais, e a sociedade é então condicionada a desejar sempre além.

Para aumentar o desejo das pessoas, o consumismo instiga as inseguranças e as carências emocionais, gerando cada vez mais ansiedade e depressão nos indivíduos. Tal fato ocorre pois a propaganda na cultura consumista é baseada em uma falsa promessa de felicidade. Os bens materiais são vendidos como uma forma de suprir carências que não são do âmbito material. Estimula-se a busca da solução de problemas emocionais através da aquisição de produtos comerciais. A propaganda vende a ideia de que mais produtos nos farão mais amados, mais estimados, mais felizes e mais valorizados. A verdade é que, quanto mais tempo o indivíduo gasta focado na aquisição dos bens, menos tempo ele possui para cultivar vínculos afetivos com a família, os amigos e a comunidade.

A dinâmica “mais produtos = menos vínculos” não foi pensada ao acaso. Bernays acreditava que as massas eram irracionais e perigosas e que deveriam ser controladas. Para ele, a democracia sem o controle da população configurava um fator de risco para a estabilidade social. Nesse sentido, seu método de propaganda buscava manter as massas ocupadas em busca da felicidade através de bens materiais. Quanto mais o consumismo é estimulado, menos as pessoas se interessam pela participação ativa na política.

Na cultura consumista, as pessoas são induzidas a acreditar que a felicidade não depende do Estado ou da sociedade, mas dos produtos criados pelas empresas. O cidadão que busca a realização pessoal através da participação política transforma-se no consumidor que passivamente aguarda as empresas realizarem seus desejos. A liberdade política torna-se então a liberdade de consumir. Dessa forma, a combinação de democracia e consumismo é a fórmula perfeita para manter o povo longe do poder e preservar o status quo.

Wikimedia Commons

Punks acompanham show da banda Anti-Nowhere League

Além da apatia política, a cultura consumista estimula o egoísmo, a inveja e promove a desagregação social. Em uma sociedade baseada no consumismo, não basta ter o suficiente para viver bem; o consumismo é comparativo. Assim, manipula-se o desejo a fim de possuir mais do que o outro: mais do que o vizinho, mais do que o colega de trabalho, mais do que as pessoas que aparecem nas mídias sociais e tradicionais. Isso gera uma infinita insatisfação e um ciclo de consumo cada vez em proporções maiores. As pessoas tornam-se isoladas, centradas nos próprios desejos; e, por sua vez, a sociedade é construída de forma mais fragmentada.

O consumo tem se consolidado como o objetivo central da vida pessoal, arregimentando as esferas do lazer, da cultura, da vida social e familiar. Os shoppings estabeleceram-se como novos templos de dedicados súditos, espaços nos quais as pessoas reúnem-se, consomem e passam seu tempo livre. Entretanto, deve-se observar que, ao contrário dos antigos templos e das praças públicas, nos shoppings a vida social se empobrece e é reduzida ao simples ato solitário de comprar.

Porém, o consumismo nem sempre triunfou sem oposição. Algumas vozes dissonantes surgiram no decorrer do século XX. Dentre elas, as mais expressivas estão ligadas à cultura hippie nos anos 1960, e do movimento punk, nos anos 1970.

A cultura hippie floresceu nos anos 1960 nos EUA, epicentro do consumismo. Os hippies rejeitavam as hierarquias e as instituições estabelecidas, contestavam os valores da classe média, opunham-se às armas nucleares e à guerra e eram comumente vegetarianos. Eles utilizavam-se de artes alternativas como o teatro de rua e o rock psicodélico para expressar suas ideias e valores. Opondo-se à política tradicional, cultivavam ideias não doutrinárias e libertárias em favor da paz, do amor e da vida em comunidade.

Desiludidos pela sociedade moderna extremante individualista, egoísta e competitiva, decidiram viver em comunidades próprias e independentes, adotando um estilo de vida coletivo que estimulava a cooperação e a comunhão com a natureza. Nessas comunidades, as decisões são consideradas coletivamente, não havendo hierarquias, e todos os participantes exercem alguma função. Adota-se como prática o cultivo dos próprios alimentos e o comércio ocorre entre os moradores através da troca ou da permuta.

Já a cultura punk surgiu nos anos 1970 nos EUA e na Inglaterra. Ela se caracteriza por ser um movimento extremamente urbano que, de forma ampla, defende uma visão anarquista centrada na autonomia do indivíduo, opondo-se à mídia tradicional, ao Estado, às instituições religiosas e às grandes corporações capitalistas.

A primeira manifestação cultural do punk foi no âmbito musical. O punk rock surge como a retomada de um estilo autêntico, no qual o mais importante é a expressão individual, pois os membros estavam profundamente decepcionados com a cena do rock que, na época, se mostrava vinculada à grande indústria da música. O showbizz americano e inglês tinha como preocupação produzir estrelas e divulgá-las em grandes shows, criando artistas que, na visão dos punks, careciam de autenticidade.

Assim, a cultura punk começou a produzir músicas curtas e bastante simples, tocadas com pouco mais do que três acordes, sendo facilmente reproduzidas por qualquer pessoa sem formação musical. Essa concepção musical tinha como objetivo instigar outros jovens a criar suas próprias bandas. Surgia então uma grande expressão do anticonsumismo: a cultura do “faça você mesmo” (do inglês do it yourself – DIY).

O princípio do “faça você mesmo” relaciona-se ao questionamento tanto da necessidade de comprar coisas quanto dos processos existentes que impulsionam a dependência do indivíduo às estruturas sociais vigentes. De acordo com a cultura punk, os indivíduos podem se expressar e produzir trabalhos sérios, ainda que com recursos limitados. As bandas punks gravavam suas próprias músicas, produziam e distribuíam os álbuns, e se apresentavam em garagens ou em porões, evitando o controle das grandes corporações e assegurando a liberdade de suas performances. Suas ideias circulavam através de fanzines, isto é, publicações caseiras realizadas, editadas e distribuídas por fãs.

Aparentemente, esses dois movimentos culturais perderam a força inicial após alguns anos, tendo sido, de certa forma, assimilados pela moda e pela sociedade consumista, ainda que isso soe paradoxal. Entretanto, pode-se afirmar que suas ideias demonstravam força suficiente para, cinquenta anos depois, ressurgirem como uma possibilidade alternativa à atual cultura de consumo.

Na verdade, longe de estarem esquecidos, muitos desses valores permanecem na nossa cultura em áreas inusitadas. É possível afirmar que a contracultura dos anos 1960 promoveu o desenvolvimento do computador pessoal e a organização da internet. A concepção de uma grande rede mundial sem fronteiras, sem qualquer autoridade central, na qual indivíduos são livres para compartilhar informações, deve-se à influência hippie da cultura americana. Os valores hippies baseados nas ideias de comunhão e de colaboração mostram-se cada vez mais presentes no mundo virtual e tecnológico. Exemplo disso são os sites de construção coletiva estilo wiki; bem como os softwares livres e de código aberto, nos quais todos podem contribuir livremente e de forma espontânea para o desenvolvimento, o compartilhamento, a edição e a difusão de ideias e de conhecimento.

Na sociedade contemporânea, a internet permite o compartilhamento de ideias, tornando-se um instrumento capaz de estimular novas formas de consumo e de conexão entre as pessoas. A noção de consumo colaborativo vem crescendo em meio à troca de ideias, pondo em cena práticas alternativas que envolvem trocar, emprestar, reusar e revender objetos. Torna-se cada vez mais comum grupos que se organizam e se reúnem a fim de trocar roupas, brinquedos e livros; planejando caronas; compartilhando carros e aparelhos eletrônicos; praticando a permuta de serviços; fazendo uso do sistema de book crossing ou couchsurfing. As atividades são realizadas e negociadas diretamente entre as pessoas, estimulando os laços de comunidade e permitindo viver bem com menos dinheiro. Em tais práticas, o indivíduo é valorizado pelo modo como interage com a comunidade, marcando o surgimento de um novo tipo de capital: o capital social.

O movimento do “faça você mesmo” hoje é mais presente do que nunca. Através de vídeos e aulas pela internet, na rede é possível ter acesso a possibilidades infinitas de aprender a produzir e a divulgar suas próprias realizações, fugindo da cultura passiva consumista e buscando a realização pessoal de forma ativa. Hoje pode-se plantar vegetais em casa, fazer cerveja caseira, costurar as próprias roupas e até mesmo produzir objetos manufaturados.

A produção pode ser individual ou coletiva, e os objetos podem ser feitos para o próprio consumo ou para a venda, pois o século XXI aumentou a produtividade da produção de pequena escala. Pode-se exercitar a criatividade, desenvolver novas habilidades e talentos e a criatividade em novas formas de produzir bens de consumo. A ética do “faça você mesmo” dá poder aos indivíduos e às comunidades, encorajando o emprego de abordagens alternativas para a solução de problemas.

Assim, observa-se que a sociedade consumista enfraquece os laços sociais, estimula o individualismo, e retira a autonomia dos indivíduos, que se tornam consumidores passivos, cujo único poder é a escolha entre a marca A ou a marca B. Em contrapartida, a cultura hippie e seus ideais fortalecem a ideia de coletividade e de colaboração. O princípio do “faça você mesmo” estimula a autonomia, dá poder e liberdade aos indivíduos.

Um novo modelo cultural pode entrar em cena, criado à luz de ações que priorizam a partilha de produtos e de conhecimentos, a produção de bens de consumo, e o comprometimento crítico por seu modo de vida, a fim de consolidar conexões sociais e comunitárias.

Meio século depois do surgimento dos hippies, eles e os punks são mais atuais que nunca: já temos todas as ferramentas que possibilitam promover uma sociedade mais feliz, socialmente mais justa e ecologicamente sustentável, bem como o desenvolvimento de uma economia de abordagem essencialmente humana, e não simplesmente monetária. Teremos coragem para usá-los?

(*) Texto publicado originalmente no blog Outras Palavras

Políticas culturais - Dores de autor

Fonte: Carta Capital

05.01.2013 07:02
Administrado por Gilberto Gil e Juca Ferreira no governo Lula e durante 20 meses por Ana de Hollanda sob Dilma Rousseff, o Ministério da Cultura não tem ainda uma política de Estado a apresentar. Não observava isso um detrator, mas a própria titular da pasta, dois meses após sua posse, ocorrida em 13 de setembro deste ano. A ministra Marta Suplicy garantia então, em entrevistas a jornais brasileiros, desejar fazer da obtenção dessa política sua marca, com a ressalva de que também fora esta a missão a ela confiada pela presidenta do País. Entre as qualidades de Marta para assumir essa incumbência, talvez a mais importante, a exceder seu domínio gerencial à frente da prefeitura de São Paulo, tenha sido a habilidade em lidar com os meandros do poder. Pragmática, ela que insistira na própria candidatura à prefeitura, mas fora derrotada em suas intenções por Lula, agora se licenciava do Senado para assumir um MinC em crise e empenhar-se de maneira decisiva para o sucesso da candidatura de Fernando Haddad.


o Ministério da Cultura não tem ainda uma política de Estado a apresentar. Foto: Clayton de Souza/Estadão Conteúdo
Marta Suplicy está à frente do ministério, portanto, não em razão de seu notório saber em torno da administração da cultura, mas porque, espera-se, saberá desempenhar o jogo político exigido pela função. Sua antecessora, ligada ao universo da canção popular como intérprete e habituada a empenhar-se pelas culturas regionais enquanto funcionária da Funarte, se revelara, em mão contrária, inapetente para o diálogo, desarmada para construir os próprios quadros no ministério e isolada pela comunidade digital desde que, no discurso de posse, esclarecera ao Brasil que “sem artista não há arte”. Em lugar de expor claramente suas ideias, Ana se fechara para a imprensa e para setores que, fortemente mobilizados pelas redes sociais, insistiam na predominância de políticas públicas de acesso progressivo e ilimitado à indústria cultural. Marca das gestões de Gil e Ferreira, tal acesso tendia a ser ampliado pela nova lei de direitos autorais, que na primeira versão, em alguns casos, determinava o fim do desígnio do autor sobre a própria obra. Esse anteprojeto, que recebeu nova redação sob a administração de Ana, representava a negação das crenças da então ministra sobre a propriedade do autor em relação à sua criação.
Como ocorrera antes a Gil e Ferreira, contudo, Ana não recusaria uma política cultural baseada essencialmente em dinheiro renunciado, advindo de leis de incentivo, como essencial à administração da área. O uso fez a norma. Em 2013, por exemplo, Marta terá à sua disposição 2,9 bilhões de reais, mas esse valor recorde se terá por insuficiente para fazer andar a contento a cultura de um país de tais dimensões, carente de equipamentos culturais elementares, como museus, teatros e bibliotecas, e pleno de reclames por parte dos setores que aqui produzem. A mudança nesse padrão apenas começa a ser implantada. No dia 29 de novembro, a Câmara e o Senado promoveram sessão solene para promulgar a Emenda Constitucional 71/12, que institui o Sistema Nacional de Cultura. Aprovada por meio da Proposta de Emenda à Constituição 416/05, a proposta ficou conhecida como PEC da Cultura e prevê a ampliação progressiva dos recursos públicos para o setor cultural.
A percepção de que o governo brasileiro carecia de uma política de Estado nessa área teria sido óbvia até mesmo para um longínquo observador da produção nacional. A maior parte do Brasil que faz arte precisa servir-se de renúncia fiscal, recorrendo a leis como a Rouanet, ou seu trabalho se inviabilizará. Em alternativa à lei, há o corpo a corpo do artista em relação aos seus patrocinadores e ao público que paga ingressos ou, às vezes, é preciso recorrer ao crowdfunding (financiamento coletivo). E ele também pode acionar instituições como o Serviço Social do Comércio, em especial o de São Paulo, que oferece agenda e infraestrutura a essa produção sem esperar retorno comercial para sua marca. Informalmente, entre os artistas, diz-se que o Sesc é o “verdadeiro” Ministério da Cultura do Brasil. Ali, quem produz arte será financiado integralmente e não se submeterá ao mercado. Principalmente, terá a oportunidade de fazer chegar ao público sua criação livre, sendo pago para isso.

Marta Suplicy e o desafio de pôr fim ao conflito entre o acesso à arte e a criação. Foto: Antonio Cruz/ABr
Enquanto a política de Estado da cultura não se estabelece, a maior briga ainda é por tornar verdadeiramente estimuladora, não excludente, a principal lei dita de incentivo em atividade no País. O deputado federal Pedro Eugênio (PT-PE), relator da reforma dessa legislação na Câmara, prevê em seu texto mudanças que, se aprovadas, dobrariam o valor investido hoje (perto de 1,6 bilhão de reais). Em relação ao texto que tramita desde 2007, as principais mudanças sugeridas são contrapartidas claras, aumento do limite de renúncia fiscal e fortalecimento de um fundo gerido pelo governo federal. Para que a contrapartida seja feita, Eugênio sugere um sistema de pontuação pelo qual a renúncia fiscal concedida a incentivadores cresça à medida que o projeto estabeleça ingressos gratuitos e ações educativas. O relator propõe que o teto do imposto destinado pelas empresas a projetos culturais passe dos atuais 4% do IR devido para 6%. A proposta tornaria maior o Fundo Nacional de Cultura e faria crescer o investimento anual no setor para 3,2 bilhões de reais. Os recursos do fundo, cujos beneficiários são escolhidos pelo governo, não por empresas, passariam de 256 milhões para 800 milhões de reais. Se aprovado na comissão, o projeto irá à Comissão de Constituição e Justiça antes de seguir para o Senado, o que estava previsto ainda em 2012.
Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que, até 1995, a maior parte do dinheiro da área da cultura vinha do ministério. Em 2010, segundo o Ipea, o dinheiro incentivado, portanto liberado de pagamento de imposto, alcançava os 90%. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo de 9 de novembro, Marta se declarou “bastante” incomodada com o fato de uma área crucial não ser tratada aqui como instrumento de desenvolvimento econômico. “Em virtude da pouca importância que se tem dado à cultura por todos os governos é que foi desenvolvido um método bastante engenhoso (de renúncia fiscal) que funciona, mas tira das mãos do ministério a possibilidade de fazer uma política de Estado mais forte.” Dilma pediu a Marta que interfira na política de patrocínio das estatais.
A ministra diz pretender que a inclusão social oriente seu ministério. Um dos símbolos dessa diretriz é o vale-cultura, cujo projeto de lei foi sancionado por Dilma Rousseff em 27 de dezembro. O vale concede 50 reais por mês aos contratados em regime CLT que ganhem até cinco salários mínimos. Mas, analisado sob o signo da polêmica, ele não beneficiará os aposentados, segundo estabelecia a versão inicial do projeto, tampouco funcionários públicos federais e estagiários. Somente receberão o benefício os empregados das empresas que aderirem ao projeto. O contratado, que poderá optar por não desfrutar do benefício, terá um desconto de até 10% do valor do vale em seu salário. Ele poderá utilizar o dinheiro na compra de produtos como livros e DVDs, mas setores da produção cultural ainda discutem se o instrumento deveria ser aplicado à aquisição de bens da indústria cultural globalizada, como os blockbusters. Para Marta, seriam essenciais ainda a construção de 360 CEUs das Artes, centros de produção cultural dotados, por exemplo, de biblioteca somente com livros artísticos, batizados pela ministra de “o Bolsa Família da Alma”, e a aplicação de projetos e editais de incentivo à produção da cultura negra.
Questionada sobre essa última meta, a ministra aproveita para se declarar favorável às cotas raciais no País das desigualdades. É gritante, ela diz, que dos projetos da Lei Rouanet atualmente em análise, 71 sejam do Norte e 5.374, do Sudeste. Na distribuição de valores, o Norte recebe 1,6% e o Sudeste, 67%. “Com os negros ocorre algo semelhante”, ela considera. “Porque eles têm menor condição de acesso a meios para elaborar e depois, aprovados pela Rouanet, não conseguem captar. É mais ou menos como a Região Norte. Ninguém quer patrocinar. É péssimo falar isso. Mas o que vamos fazer? Cruzar os braços?”, disse ao Estado.


Dos projetos da Lei Rouanet atualmente em análise, 71 são do Norte e 5.374, do Sudeste. Foto: Renato Araújo/ABr

Marta tem falado pouco e com cautela, na tentativa de não acirrar os ânimos. Mas ela já sente a força das rivalidades no que se refere à questão crucial a ter marcado a gestão de Ana de Hollanda, o autor e seus problemas. Em 1975, por pressão dos artistas, foi criado o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), àquela época, contudo, fiscalizado pelo Conselho Nacional de Direito Autoral (CNDA), extinto durante o governo Collor. Ana de Hollanda não via necessidade de fazer a fiscalização por meio de um órgão externo, argumentando pela autonomia do Escritório. Marta, contudo, já decidiu que trabalhará para a fundação de um organismo independente a acompanhar a atuação do Ecad, reivindicação dos próprios artistas acolhida pela CPI do Senado. Eles haviam ainda solicitado, em março de 2011, a criação de uma secretaria da música a operar no ministério nos moldes da Secretaria do Audiovisual, por entenderem que o setor também exigiria atenção específica. É uma proposta ainda não considerada, como aquela partida da Associação Brasileira de Música Independente, para que um servidor central arrecade e distribua os direitos autorais relativos a cada fonograma nele registrado e acessado pelo usuário de banda larga.
Outro importante desafio será o estabelecimento do marco civil da internet, cuja votação foi adiada pela quinta vez em novembro. Um ponto polêmico é a responsabilização dos provedores pela retirada de um conteúdo (novela, filme, música). Esse dispositivo envolve discussões acerca de direitos autorais, o que gerou a intervenção do MinC. Hoje, uma notificação de autor basta para que os provedores de aplicações na internet (plataformas, redes sociais, portais) retirem um conteúdo online. A não retirada implica processo judicial para o provedor. Mas o novo texto propunha a mudança da regra. Não mais bastaria um aviso simples para que a remoção fosse feita, mas uma notificação judicial. Os defensores do acesso irrestrito aos produtos da indústria cultural na rede se veem desencantados com a possibilidade de tudo ficar como está. Os detentores de direitos autorais e Marta, não. Por enquanto, a ministra diz considerar o notice and takedown, como é conhecida a ferramenta vigente, segundo a qual basta uma notificação simples para a remoção de um conteúdo, a maneira mais correta de proteger um autor, este que constitui o fulcro e a origem de toda a discussão cultural destes dias.

Balanço anual no micro: brotos no deserto

05/01/2013

 Desde Santo Agostinho (“em cada homem há simultaneamente um Adão e um Cristo”),  passando por  Abelardo (“sic et non”), por Hegel e Marx e chegando a Leandro Konder sabemos que a realidade é dialética. Vale dizer, ela tem contradições  porque os opostos não se anulam mas se tencionam e convivem permanentemente gerando dinamismo na história. Isso não é um defeito de construção mas a marca registrada do real. Ninguém melhor o expressou que o pobrezinho de Assis ao rezar: ”onde houver ódio que eu leve o amor, onde houver trevas que eu leve a luz, onde houver erros que eu leve a verdade…” Não se trata de negar ou anular um dos polos, mas de optar por um, o luminoso e reforçá-lo a ponto de impedir que o outro negativo não seja  tão destrutivo.
A que vem esta reflexão? Ela quer dizer que o mal nunca é tão mau que impeça a presença do bem; e que o bem nunca é tão bom que tolha a força do mal. Devemos aprender a negociar com estas contradições. Num artigo anterior tentei um balanço do macro, negativo; assim como estamos, vamos de mal a pior. Mas dialeticamente há o lado positivo que importa realçar. Um balanço do micro nos revela que estamos assistindo, esperançosos, ao brotar de flores no deserto. E isso está ocorrendo por todas as partes do planeta. Basta frequentar os Fórums Sociais Mundiais e as bases populares de muitas partes para notar que vida nova está explodindo no meio das vítimas do sistema e mesmo em empresas e em dirigentes que estão abandonando  o velho paradigma e se põem a construir uma Arca de Noé salvadora.
Anotamos alguns pontos de mutação que poderão salvaguardar a vitalidade da Terra e garantir  nossa civilização.
O primeiro é a superação da ditadura da razão instrumental analítica, principal responsável pela devastação da natureza, mediante a incorporação da inteligência emocional ou cordial que nos leva a envolvermo-nos com o destino da vida e da Terra, cuidando, amando e buscando o bem-viver.
O segundo é o fortalecimento mundial da economia solidária, da agroecologia, da agricultura orgânica, da bioeconomia e do ecodesenvolvimento, alternativas ao crescimento material via PIB.
O terceiro é o ecosocialismo democrático que propõe uma forma nova de produção com a natureza e não contra ela e uma necessária governança global.
O quarto é o bioregionalismo que se apresenta como alternativa à globalização homogeneizadora, valorizando os bens e serviços de cada região com sua população e cultura.
O quinto é o bem viver dos povos originários andinos que supõe a construção do equilíbrio entre seres humanos e com a natureza à base de uma democracia comunitária e no respeito aos direitos da natureza e da Mãe Terra ou o Indice de Felidadade Bruta do governo do  Butão.
O sexto é a sobriedade condividida ou a simplicidade voluntária que reforçam a soberania alimentar de todos, a justa medida e a autocontenção do desejo obsessivo de consumir.
O sétimo é o visível protagonismo das mulheres e dos povos originários  que apresentam um nova benevolência para com a natureza e formas mais solidárias de produção e de consumo.
O oitavo é a lenta mas crescente acolhida das categorias do cuidado como pré-condição para realizar uma real sustentabilidade. Esta está sendo descolada da categoria desenvolvimento e vista como a lógica da rede da vida que garante as interdependências de todos com todos assegurando a vida na Terra.
O nono é penetração da ética da responsabilidade universal, pois todos somos responsáveis pelo destino comum nosso e o da  Mãe Terra.
O décimo é o resgate da dimensão espiritual, para além das religiões, que consente nos sentir parte do Todo, perceber a Energia universal que tudo penetra e sustenta e nos faz os cuidadores e guardiães da herança sagrada recebida do universo e de Deus.
Todas estas iniciativas são mais que sementes. Já são brotos que mostram a possível florada de uma Terra nova com uma Humanidade que está aprendendo a se responsabilizar, a cuidar e a amar, o que afiança a sustentabilidade deste nosso pequeno Planeta.
Veja L.Boff e M.Hathaway  O Tao da Libertação: explorando a ecologia da transformação (Vozes 2012)