terça-feira, 4 de setembro de 2018

Mais arte e cultura contra as chamas da barbárie.


Quem lê tanta noticia....Mas que também  ouve música boa, vai ao teatro e a cinema com frequência, além de frequentar museus e exposições certamente conseguirá melhor perceber e se defender das ciladas, armadilhas e pegadinhas embutidas na  narrativa dos grandes meios de comunicação, assim como de muitos  comentaristas de youtube, facebook , whatzapp e etc., e que buscam nos convencer  de que, entre outros absurdos, ser a Lei Rouanet a culpada  pelo incêndio que assassinou o museu nacional.

Ora,  muitos que repercutem postagens com esse tipo de argumento, muitas vezes nem sabe direito o que é a Lei Roaunet, o que sabem muitas vezes está  baseado  em imagens distorcidas e limitadas sobre o tema, as quais são reforçadas pelos argumentos da própria postagem.

Se tiverem acesso a fontes que explicam de boa fé, quais são os problemas e limites dessa lei, ficará sabendo que é uma lei de cunho neoliberal, aprovada em governos anteriores a era Lula e Dilma, que o responsável em última instância pela destinação da verba para os projetos culturais,  são os departamentos de marketing de grandes empresas, que os ministros da cultura Gilberto Gil e Juca Ferreira fizeram um grande esforço para diminuir a centralização e os privilégios, que a lei propositadamente  criou para favorecer grandes empresas e artistas que atraem grandes platéias, embora mesmo assim, uma quantidade significativa de projetos aprovados pela lei Rouanet, faça uma grande  contribuição para o enriquecimento cultural do brasileiro.

Quanto as saídas, além de nos organizarmos e nos mobilizarmos mais para lutar em favor da extinção da lei  que congela o investimento na área social por 20 anos, entre outras perversidades que o grande capital está patrocinando contra o nosso país e sua gente, faz-se  necessário um esforço pessoal e coletivo para buscarmos ler mais noticias de fontes progressistas, ouvir mais a boa música brasileira, assistir mais cinema nacional e com mais frequência visitar museus e exposições, inclusive aproveitando as oportunidades em que isso é oferecido gratuitamente ou com preços populares.  Aqui em Sergipe isso acontece no Festival de Arte de São Cristóvão, entre outros momentos.

Fazendo assim,  poderemos perceber o quanto isso pode colaborar para a nossa educação e saúde.  Aqui também vale a pena lembrar uma narrativa conservadora e muito utilizada pelos politicos que defendem os interesses do grande capital econômico,  o argumento que  é mais importante investir em outras necessidade mais urgentes da população, do que em cultura, afirmam que cultura é luxo.

Ora, quem  não sabe que em locais onde existem atividades culturais qualificadas   com regularidade, a violência não vira espetáculo, assim como melhora os conhecimentos de quem participa, melhora a saúde, inclusive a mental ou psíquica, além do potencial que muitas atividades artísticas e culturais tem para inserir pessoas no mercado de trabalho, seja como profissionais ou como fonte complementar de renda. 

E falar, escrever, pesquisar e divulgar informações que fortaleçam os argumentos que defendo acima, é uma luta sem trégua, do contrário, as chamas da barbárie ameaçam consumir ainda mais, o melhor da nossa humanidade e da nossa cultura,  inclusive por causa da redução dos investimento em educação e cultura.
Abaixo, o texto em acima em forma de canções e imagens.

Play list - A arte de viver da arte.





Acima e abaixo, um exemplo das possibilidades  de associação do ensino da arte com o ensino da matemática. Um exemplo bem simples e visualmente claro, entre tantas possibilidades.
 

 









Lembrem-se dos grandes canais de rádio e televisão, cujos donos pertencem a classe empresarial e as oligarquias politicas , os quais apresentam novelas e programas musicais que propagam esse tipo de comportamento.






segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Quem matou o Museu Nacional?






Depoimento de aluna da UFRJ que estava no prédio quando o fogo começou.



Dessa tragédia toda do assassinato do Museu Nacional, no que diz respeito aos pesquisadores, duas pontas mais atingidas: os mais velhos e os mais novos. Os mais velhos viram suas pesquisas, seus cadernos de campo, teses orientadas, materiais audiovisuais, fotografias, memórias, suas histórias de vida arderem em chamas. Os mais novos, fazendo mestrado e doutorado num contexto desses em que o governo e as elites sinalizam para o desmonte da ciência e da educação pública, vêm ruir o futuro. Para os primeiros eu digo que tudo de mais importante que realizaram sobreviverá nas histórias e memórias que contaremos e escreveremos. Nenhum incêndio apagará isso. Aos mais novos, digo que fiquem firmes, mantenham a esperança. Vocês não estão sozinhos.
Prof.ª Adriana Facina - UFRJ


É PRECISO ENTENDER OS SINAIS... UMA NOTA

Por paixão, desabafo, sinceridade e um pouco de esperança vi as chamas do museu Nacional como sinal de alguma coisa para além da tragédia que é para a cambaleada memória brasileira. Aquelas chamas do domingo não podem ser apenas uma destruição das coisas que o museu abrigava (o que, de fato, foi e muitos já o disseram nessas redes). Essas chamas começaram talvez em 1964, 2013, 2014, 2016... 


Sinto uma grande dificuldade nessa hora em estar atento aos sinais... Mas sei que é preciso... O primeiro sinal e o mais evidente vem de 2016 e o golpe atual: um descaso completo com a cultura que esse “governo Temer” e seus aliados têm com qualquer produção cultural deste país. Desde o primeiro ao atual ministro da cultura: cada idiota pior do que outro no quase morto MINC.

As chamas do Museu Nacional eram quase “previsíveis”, faltando apenas a data. Foi tragicamente ontem. O segundo sinal vem de 1964 ou a nossa esfinge histórica sempre a nos devorar. As chamas deste domingo deveriam nos fazer pensar como toda uma memória cultural foi destruída e continua naqueles e naquelas que defendem o golpe e a ditadura de 1964 (jovens em sua maioria... O que só prova a nossa sequela histórico-cultural!!!). Um terceiro sinal vem de 2013 e aquelas chamas nas ruas tudo junto e misturado. Direita e esquerda e tantos mais sem identidades prévias. 

Um governo que futuramente seria golpeado por aqueles que tinha como aliados. Esse governo Dilma não soube entender o porquê daquelas chamas. Foi consumido por elas e legou de resto uma direita que soube tirar proveito do instante, se cacifou nos parlamentos e grupos de direita em redes sociais até hoje...

A maior derrota das jornadas de junho de 2013 nesse Brasil não pode ficar de fora da nossa memória... Estamos hoje ardendo nas chamas dessa memória ainda em andamento... 

O quarto sinal é o entreatos de 2014-2016 e suas consequências em andamento. Uma presidenta eleita democraticamente (nessa limitadíssima e estranha democracia, diga-se!) e que fazia um governo péssimo... Foi golpeada... Por um parlamento provadamente por eles mesmos desqualificado, golpista, corrupto em sua maioria e por uma mídia da casa grande em jogo simbiótico com um grande setor do poder judiciário... Esses grupos abriram um portal incontrolável politicamente falando.

Resultado: estamos vendo tudo nesse triste processo eleitoral de plantão e que vai de uma brutal crise econômica a um rebaixamento da cultura política de forma incalculável. Estamos queimando como madeira ainda verde nessa “cultura eleitoral”. 

Basta ver apenas um sinal que nos vem de 2016 com força: Bolsonaro e toda a “cultura” que carrega. O desprezo pela história, pela cultura, pela inteligência, pela ciência... O museu nacional em chamas e um candidato ao cargo mais alto do país usando colinha na palma da mão para repetir bobagens e impropérios. Precisa sinal maior para nos informar as consequências das chamas do Museu Nacional nesse futuro-do-presente-brasil?

Professor Romero Venâncio - UFS

 
O Brasil inteiro cabe nessa imagem.
Há 500 anos ardemos no fogo do Epistemicidio
queimaram índios
negros
mulheres
crianças
Quilombos
Aldeias inteiras.
Fomos edificados sobre os ossos calcinados de muitos.
Herdamos o medo
a covardia
A tradição de matar inocentes e depois pedir perdão.
O passado, para nós, é alicerce para ser esquecido.
Ô senhor cidadão, quantos auxilios moradias,
pagos a quem tem onde morar,
salvariam o Museu Nacional do fogo?
O dinheiro público gasto para saber quem é o dono de um barquinho de lata, compraria quantos sistemas de proteção a incêndios?
A miserável lei que proibiu investimentos, por duas décadas, em saúde, cultura, educação, arderá nos neurônios de quem votou a favor?
O silêncio de quem devia gritar não incomoda?
Vocês têm culpa por esse fogo!
Vocês, ocos de tudo,
se contentem em visitar os Museus de Cera em Miami.
O Museu Nacional Brasileiro,
hoje desolação,
é a metáfora cruel do país em chamas,
a Nação transformada em escombros e cinzas.

Prof.º Mário Resende - UFS 



Mariana e o Museu Nacional, dois resultados de descaso. A negligência pode trazer efeitos devastadores. Destruiu-se a natureza em 2015, a cultura em 2018.
Poderiam nunca ter acontecido. Mas a gota d’água ou a faísca apenas destruíram o que estava descuidado.
O Brasil precisa mudar, urgentemente. Não dá para falar em fatalidade. Precisamos cuidar antes, a tempo, do que é precioso.


Prof.º Renato Janine Ribeiro - USP

Para matar o golpe dos vampiros, não basta votar em Haddad/Lula tão somente. teremos que cravar uma estaca no coração deles, votando prioritariamente em 13, 50 e 65 para os outros cargos. Além disso, muita organização, formação e mobilização. O incêndio que destruiu o prédio e o acervo precioso do Museu Nacional, representa simbolicamente o mal que já provocaram e que ainda podem provocar.

Profº Zezito de Oliveira - SEED/SE


A mídia jura chorar com o incêndio no Museu Nacional. Fala em destruição, perda imensurável, em descaso. Mentira. CANALHA. CÍNICA. Essa mesma mídia, todos os dias, cobra, interfere e festeja os cortes das verbas públicas para educação e cultura.

 Jornalista Cristian Goes



Juca Ferreira: incêndio é fruto da boçalidade do atual governo e da cumplicidade do seu ministro


Para o ex-ministro da Cultura, “o incêndio nos diminuiu, a todos nós brasileiros. Me deu a impressão que o Brasil chegou a um ponto onde jamais teria que ter chegado”.

Lula regulou e revolucionou política de museus

 ·Que coincidência lamentável e estranha.
#HojeNaHistória O Brasil viveu um momento histórico em um dia como hoje, no ano de 1822. Nesta data, Maria Leopoldina, então princesa regente do Brasil por conta de uma ausência de Dom Pedro, assinou o decreto da Independência, declarando o Brasil separado de Portugal. Ela usou seus atributos de chefe interina do governo para fazer uma reunião com o Conselho de Estado, ocasião em que o documento foi assinado. Após a assinatura do decreto, ela enviou uma carta a D. Pedro para que ele proclamasse a Independência do Brasil. O papel chegou a ele no dia 7 de setembro de 1822, quando D. Pedro proclamou o Brasil livre de Portugal, às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo. => https://goo.gl/4AsxAg
: "O Supremo avalizou a terceirização irrestrita sancionada por Temer. A responsabilidade passa a ser das terceirizadoras... E se elas quebrarem?
A responsabilidade será do patrão, o Estado ou o privado. E aí, na vida real? Entre na fila e queixe-se ao juiz. Ou ao bispo... Grande queima de carteiras de trabalho.
Surrado o clichê, mas o incêndio no Museu Nacional no Rio, neste domingo,2, soa metáfora do que vive e morre no Brasil.
Aquele Palácio foi residência da família real portuguesa a partir de 1808. E dos Imperadores do Brasil. Ali foi votada a primeira Constituição da República.
A História virou cinzas porque cortaram verbas nos últimos 4 anos. Cortes na Cultura como um todo.
Mas não faltou verba para o aumento nos salários dos ministros do Supremo, teto para o funcionalismo público.
Acordo fechado com Temer e o Supremo se concedeu aumento de 16,38%. Os salários saltam de R$ 33 mil para R$ 39 mil.
Impacto previsto para aumentos em cascata: R$ 4 bilhões ao ano. R$ 1 bilhão e 400 na União, R$ 2 bilhões e 600 nos Estados.
Verbas para Investimentos ou educação ou saúde pagarão essa conta."
jornalista Bob Fernandes

domingo, 2 de setembro de 2018

Aracaju fazendo memória agradecida de Medellin e apoiando o Papa Francisco. Só Alegria!


Do seminário  sobre os 50 anos de Medellin promovido pela Cáritas Sergipe e parceiros, uma sugestão para o arcebispo de Aracaju, Dom João Costa.

➽Destinar recursos para realizar uma amplo  mutirão de pesquisa/diagnóstico  sobre as razões que levaram muitos católicos a sair da igreja, assim como as razões daqueles que  permanecem.  Essa pesquisa,  pode ter a assessoria  de professores e estudantes das universidades católicas de origem dos dois professores.

As conclusões dessa pesquisa,  poderão orientar novos modelos metodológicos e pastoral, além de  oferecer subsídios para formação de  seminaristas,  atualização do clero e  formação permanente do laicato.

Uma das conclusões que me chegaram após acordar  na manhã deste domingo, após dois dias bastantes felizes da minha vida como católico relativamente afastado,  residente em Aracaju.  Para isso, além da iniciativa da Cáritas, contando com total apoio de Dom João Costa, arcebispo metropolitano de Aracaju nomeado pelo Papa Francisco, nos deparamos com a qualidade dos intelectuais católicos, professores Luiz Carlos Luz Marques, da Universidade Católica do Recife (UNICAP) e Ney de Souza, da Pontificia Universidade Católica de São Paulo. (PUC).

As referências que tínhamos dos dois eram as melhores e ao final como dizem os amigos da Bahia. Só Alegria! Pois além de muito preparados  intelectualmente, os professores, também padres,  estão  completamente antenados com o espirito de Francisco, até porque são filhos espirituais de Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Hélder Camara e de outros pastores com cheiro de ovelhas. Assim como este que escreve. 

E já que as palavras e a forma como o tema foi abordado  podem ser comparadas com  um   concerto musical de Egberto Gismonti ou de Chico Buarque e Gilberto Gil, tomo a liberdade de fazer essa analogia aqui e repetir o bordão popular. As palavras dos dois professores "soaram como músicas em meus ouvidos”.

E para dizer que não falei do que pode  melhorar, precisamos trazer mais o espírito de Paulo Freire para perto da gente, com a  destinação de um maior tempo para que os participantes possam se conhecer mais, aprender  uns com os outros, conectar os conhecimentos dos assessores com o que cada um tem, com o que traz e etc. Mesmo que isso tenha sido feito em dois momentos,  precisamos de mais, de muito mais participação, autonomia e protagonismo leigo, o que não pode ficar apenas em palavras, faz-se necessário mais compreensão, projeto e método, com a vibe de Dom Hélder e do grande educador popular Jesus de Nazaré.

E por falar em Paulo Freire e no naipe dos nomes que citei aqui, entre outros que fizeram e fazem os nossos dias melhores, é com esses que eu vou.

E como os nossos textos estão cheios de musica ao fundo, deixo como sugestão “Vamos fazer dessa noite, a noite mais linda do mundo”.  Por mais dias e noites, como  esses  dias 31 e 01 de setembro de 2018, quando fizemos amnésis ou memória agradecida dos dias em que o episcopado latino americano se reuniu  na cidade de Medellin na Colômbia, com a finalidade de adaptar com ousadia  e criatividade  as conclusões do  Concilio Vaticano II para a realidade da América Latina.

 Que sejamos capazes de fazermos o mesmo aqui em Aracaju, para que a barca de Pedro continue navegando sem o risco de virar ou de continuar  jogando ao mar um bocado de gente boa.  Olê, Olê, Olà.

Zezito de Oliveira - educador, agente/produtor cultural e blgueiro.

Profº Luiz Carlos

Profº Ney Souza



Roda de conversa na noite de sábado.

 As fotos são de participantes presentes ao seminário.
Para quem quer aprofundar o estudo sobre a Conferência Episcopal de Medellin.

Referência Imprescindível para a Igreja atual: Medellín 50 anos - dois livros fundamentais.

 REVER - Revista de Estudos da Religião

 v. 18, n. 2 (2018): Conferência de Medellín: 50 anos depois. (para acessar clique no sumário abaixo)

Bispos do Regional NE 3 da CNBB manifestam apoio ao Papa Francisco



P.S.:  - As razões para a manifestação de apoio ao Papa Francisco
 O CAMPO DE BATALHA DENTRO DA IGREJA.

As trincheiras mudaram de comando. No longo governo de João Paulo II e de Bento, mais breve, a ala do poder, dita conservadores, foram influentes e determinantes nos rumos da Igreja. Causaram grandes estragos na América Latina. Futricas, fofocas e farpas eram abundantes contra os assim classificados de progressistas, comunistas ou ditadores da Teologia da Libertação. Porém, nenhum teólogo da libertação, nenhum bispo ou cardeal progressista chegou a expor o papa com ofensas e pedir sua renúncia. 

Hoje, a coisa mudou radicalmente. No centro está Francisco, que chegou da periferia do mundo, não foi aceito pelo centro da Igreja, assim chamada a corrente europeia e mantenedora dos bons costumes e da tradição, mesmo que a Igreja em muitos países da Europa esteja em colapso. Com Francisco, na trincheira de uma Igreja em Saída, menos burocrática, clerical e serviçal, estão os que comungam com o resgate do Jesus do Evangelho, muito mais do que o Jesus da inquisição.


OS escândalos de abusos sexuais a crianças e a pessoas vulneráveis foi a faísca para os conservadores de plantão julgarem com suas armas sujas a periferia da Igreja, ou seja, Francisco. No fundo o que não se aceita é que um papa tenha a coragem de abrir as gavetas fechadas do Vaticano II e exponha o que já foi refletido nos anos 60: Igreja samaritana, dos pobres, missionária, em saída, dialogante, com a leveza do Evangelho e com menos poeira de museu. O que estes conservadores querem mesmo é o poder do centro. Desejam uma Igreja centralizadora, perseguidora, castradora da reflexão teológica e fechada nos muros da "cristandade". 


No meio desta guerra fria religiosa católica que envolve purpurados que prometeram publicamente dar a vida pela Igreja e defender o papa, estão grupos de cristãos leigos e leigas formados nas escolas da inquisição, do jansenismo, pelagianismo, gnosticismo e dos cátaros. Grupos que se julgam donos da verdadeira doutrina e querem sangue, porque o deus deles é sádico e desejoso de sangue humano. 


Francisco sobreviverá, acredito eu, porque permaneceremos com o papa; aliás, o católico por convicção não pede a renúncia do papa como o fez este cardeal Viganó, mas deseja que a barca de Pedro continue firme, mesmo no meio da tempestade. O católico que está com o pé no chão e na ação evangelizadora não mira o papa como inimigo da fé, mesmo que às vezes discorde com ele. O católico que ama a Igreja reza e invoca o Espírito Santo e não a fumaça de satanás.
VIVA FRANCISCO.
Pe. João Mendonça - sdb

 
P.S.: -  Uma questão que paira no ar, seja de forma direta ou subjacente. Foi objeto de abordagem no seminário em tela.
 
O PADRE-TRIDENTINO E A IGREJA DO ATRASO

Além do chamado padre-celebridade, nosso tempo é testemunha de uma novidade que de nova não tem nada, nem o nome. Trata-se da figura que tem sido reabilitada entre muitos presbíteros e com anuência de uma significativa parte do povo: o padre-tridentino, ou seja, o padre que embora viva no século XXI, atua como se estivesse no século XVI. Seria isso possível?

Primeiro devemos lembrar que a Igreja Católica se rege sob as decisões do Concilio Vaticano II entre outras. Fora disso é desobediência formal e inequívoca. Não reconhecer o último Concílio, além de ser um ato hostil a autoridade da Igreja, significa desconsiderar que centenas de bispos não foram capazes de entender e traduzir em doutrina e documentos o que o Espírito Santo os inspirava. Pior. É achar que em meio a tantos bispos somente uma meia dúzia contrária às decisões conciliares está correta, e que o resto se bandeou para os lados da heresia pura e simples.


Vivemos num tempo em que a maioria das pessoas sequer viu de longe uma missa em latim. Assim sendo, porque muita gente, incluindo certos padres, quer voltar ao tempo das batinas, dos barretes, da missa de costas para o povo, etc? Assistimos perplexos a uma enormidade de jovens sacerdotes que preferem Trento ao Vaticano II. Ainda que haja oficialmente espaço para missas em latim, porque dar visibilidade a uma prática tão distante de nossa eclesiologia atual?


Uma das possíveis respostas está no modelo de Igreja. Hoje vemos emergir essa geração de padres e fieis, sobretudo jovens, que quer uma igreja ostensiva refletida no poder, no dinheiro e na comodidade. Buscam uma liturgia do século XVI, com paramentos dos tempos do Papa Alexandre VI, todos evidentemente muito caros. Querem que a Igreja, e sobretudo o sacerdócio, seja marcado por atitudes externas, principalmente as que identificam e colocam o padre num patamar distinto das pessoas. Por outro lado, não abrem mão das benesses do século XXI, a saber: o carro mais caro e luxuoso, o celular e o computador de última geração, roupas e calçados de marca, só para ficar em poucos exemplos. O mesmo vale para muitos fieis que defendem uma igreja tridentina. Estes vão a missa em latim, com padres usando manípulo, e mulheres usando véu. Mas quando termina a missa, usam seu carro importado de última geração para ir almoçar nos shoppings de luxo. Gostam de viagens em primeira classe nos aviões. Seus filhos estudam nas mais modernas e caras instituições de ensino. Usam e abusam da modernidade na vida cotidiana. No entanto para a Igreja querem o atraso e a incoerência. 


Não seria mais interessante que além da igreja tridentina que tanto apreciam, pudessem viver em todos os aspectos da vida como há 500 anos? Que tal abrir mão da eletricidade, ou da água corrente dentro de casa ou movimentar-se em carroças ou ainda num caso de doença grave, como um câncer por exemplo, abrir mão da quimioterapia ou da morfina e tentar resolver o problema com chazinhos aromáticos?

A figura do padre-tridentino teve o seu momento histórico onde foi possível ser coerente com o tempo em que se vivia. Aliás vale lembrar, que uma boa parte do sacerdócio que se viveu nessa época, o foi na pobreza, na simplicidade de vida e na assistência aos pobres. Hoje o modelo tridentino de Igreja, que tanta gente aplaude, é distante das necessidades reais das pessoas. Esse modelo implica numa visão ostensiva, moralista e por vezes racista do mundo que nos cerca. Pior ainda: todo esse aparato medieval serve muitas vezes de cortina de fumaça para escamotear problemas gravíssimos na Igreja, que todos sabemos muito bem quais são.


O tempo atual tem sido pródigo em atitudes de ódio e de humilhação de minorias bem como de pessoas que perderam toda dignidade humana. Lamentavelmente cristãos que se acham piedosos e defensores da “verdadeira tradição”, engrossam dia a dia as fileiras do facismo moderno travestido de “moral e bons costumes”. O sacerdócio que se apresenta com roupagem e mentalidade medievais só faz reforçar essas atitudes anti evangélicas, depondo contra a missão da Igreja que não está mais no século XVI, portanto precisa dialogar e servir a humanidade do seu tempo. Nosso século está cheio de incoerências, mas também tem muita coisa boa. 


A Igreja muito fez e muito faz pela humanidade quando dela se aproxima com seu coração fraterno, despojado e serviçal. O sacerdócio talvez seja uma das maiores oportunidades de aproximação da Igreja com o Povo de Deus. Não é necessário que voltemos cinco séculos de história para sermos coerentes. Podemos dispensar a roupagem medieval e vestir-nos daquela que realmente toca o coração do homem e da mulher de hoje. Essa vestimenta não precisa ser ostensiva, não precisa servir para afirmação da autoridade. O hábito e a batina de hoje é a vida evangélica naquilo que ela tem de mais desafiador: a solidariedade para com os que sofrem onde quer que eles se encontrem, mas sobretudo e principalmente com os pobres. 

Essa solidariedade exige que não nos comportemos como meros expectadores, ricos e distantes, e sim como irmãos, nos sofrimentos, nas lutas, na busca por uma vida de esperança, paz e justiça social. Em suma: menos prepotência e mais simplicidade. Menos carreirismo e mais fraternidade. Menos ostentação e mais Evangelho.
 

Pe. Alex Sandro Sudré. msc