sábado, 3 de outubro de 2026

E se os hermanos pudessem votar no Brasil?

 Quando um argentino, colombiano ou outro latino-americano diz que gostaria de votar numa eleição brasileira, o que ele está dizendo sobre o Brasil — e sobre a própria América Latina?


Por que argentinos, colombianos, chilenos e outros latino-americanos, que não possuem sequer o direito de votar nas eleições brasileiras, estão acompanhando e, em alguns casos, manifestando publicamente apoio à candidatura de Lula? O que existe no Brasil que faz com que uma eleição nacional desperte interesse, identificação e até desejo de participação entre pessoas que vivem além das nossas fronteiras? E o que esse movimento pode nos dizer sobre nossas formas de pertencimento e sobre a maneira como construímos, muitas vezes sem perceber, uma história comum neste continente?

Foi a partir dessas perguntas que comecei a prestar mais atenção a algumas manifestações que vêm circulando nas redes sociais latino-americanas nestes dias de eleição brasileira, especialmente depois que uma reportagem da Folha de S.Paulo reuniu casos de argentinos e colombianos que expressaram publicamente sua simpatia por Lula. Uma delas me chamou particularmente a atenção: o argentino Lucas Tresca publicou um vídeo, em tom bem-humorado, dizendo que estava pensando em como votar em Lula tendo documento argentino.

A brincadeira poderia ser apenas mais uma entre tantas que circulam diariamente pelas redes, mas ganha outra dimensão quando percebemos que aquilo que está sendo compartilhado não é somente uma preferência eleitoral. Existe ali uma identificação construída por referências políticas, culturais e históricas que atravessam a fronteira e encontram eco em alguém que vive outra realidade nacional.

Costumamos pensar cultura como aquilo que produzimos nos teatros, cinemas, museus, bibliotecas, centros culturais, escolas, universidades, festas populares, terreiros, comunidades e espaços de criação. Tudo isso é cultura, evidentemente, mas ela também está na maneira como uma sociedade constrói seus símbolos, preserva suas memórias, interpreta seu passado, imagina seu futuro e reconhece no outro alguma coisa de si mesma.

É por isso que uma eleição pode adquirir uma dimensão que ultrapassa a disputa entre candidatos. As escolhas políticas carregam visões de mundo, valores, memórias e projetos de sociedade que circulam por diferentes linguagens e atravessam fronteiras.

O hermano que aparece na tela do celular

Lucas Tresca é argentino e ator, e seu vídeo ganhou repercussão justamente porque transforma uma impossibilidade jurídica em uma espécie de brincadeira política: como votar em Lula se não tenho documento brasileiro? Por trás do humor, entretanto, aparece uma preocupação relacionada ao cenário político latino-americano e às disputas ideológicas que atravessam diferentes países da região.

O mais interessante talvez esteja na forma como essa manifestação acontece. Não estamos diante de um documento partidário, de uma resolução diplomática ou de um pronunciamento oficial. Estamos diante de um artista que utiliza uma linguagem cotidiana, própria das redes sociais, para falar de política e estabelecer uma comunicação com pessoas que vivem em outro país.

Durante muito tempo, nossa experiência latino-americana foi construída através da música, da literatura, do cinema, do futebol, das telenovelas, das festas populares, dos movimentos sociais e das universidades. Hoje, a esse repertório se juntam os vídeos, os memes, os podcasts e as novas formas de comunicação digital. Mudaram a velocidade e os meios de circulação, mas permanece a capacidade de uma ideia, uma imagem ou uma canção encontrar eco muito além do lugar onde nasceu.

Talvez seja por isso que a expressão “hermanos”, tantas vezes utilizada pelos brasileiros de maneira quase folclórica para designar nossos vizinhos, possa adquirir agora outro significado. O hermano não é apenas aquele que mora do outro lado da fronteira, fala espanhol e torce por uma seleção diferente da nossa. Pode ser também aquele que acompanha nossas escolhas porque sabe que, de alguma maneira, elas poderão repercutir sobre seu próprio país.

De Galeano às redes sociais

Quando penso nessa circulação latino-americana, lembro de Eduardo Galeano e de sua capacidade de construir, através da literatura, uma narrativa do continente que não respeitava exatamente as fronteiras desenhadas nos mapas políticos. Em sua obra aparecem povos, trabalhadores, indígenas, camponeses, migrantes, artistas e personagens anônimos que compartilham histórias de exploração, resistência, esperança e luta.

Essa tradição ajuda a perceber que a ideia de América Latina não nasceu apenas dos tratados diplomáticos ou dos projetos de integração econômica. Ela também foi construída por escritores, músicos, cineastas, artistas populares, educadores, movimentos sociais e comunidades que, ao longo de décadas, criaram uma memória compartilhada do continente.

Talvez seja por isso que, quando um argentino manifesta simpatia por uma eleição brasileira ou um colombiano se reconhece numa frase pronunciada por Lula, não estejamos necessariamente diante de uma novidade absoluta. A novidade está na velocidade e na escala com que essas identificações podem circular hoje.

O que antes poderia levar meses para atravessar fronteiras através de um livro, de um disco ou de uma fita de vídeo agora pode alcançar milhares de pessoas em poucas horas.

Uma memória que atravessa fronteiras

Há outro elemento importante nessa discussão: a memória.

Os países latino-americanos possuem histórias diferentes, mas também carregam experiências que apresentam impressionantes pontos de contato. Ditaduras militares, desigualdade social, colonialismo, racismo, concentração de terra, dependência econômica, exploração de recursos naturais, resistência popular, movimentos de trabalhadores e lutas por democracia fazem parte, em diferentes graus e momentos, da experiência de muitos países do continente.

Quando um argentino, um chileno ou um colombiano olha para o Brasil e identifica determinada disputa política como algo que também lhe diz respeito, não está necessariamente reproduzindo uma opinião importada. Pode estar acionando memórias próprias e relacionando experiências de seu país com aquilo que observa aqui.

É aí que a cultura funciona como um arquivo vivo. Ela guarda aquilo que os documentos oficiais muitas vezes não conseguem registrar inteiramente: sentimentos, símbolos, histórias familiares, canções, imagens, palavras e experiências que ajudam uma geração a compreender a outra.

Dos Pontos de Cultura à integração latino-americana

É impossível pensar nessa dimensão sem lembrar a experiência dos Pontos de Cultura e da Cultura Viva, que Célio Turino ajudou a formular e difundir no Brasil e em outros países.

A ideia de Cultura Viva parte de uma mudança importante na maneira de pensar as políticas culturais. Em vez de imaginar que o Estado deve simplesmente levar cultura para uma população considerada passiva, reconhece-se que as comunidades já produzem conhecimento, memória, arte e formas próprias de organização, cabendo às políticas públicas fortalecer, conectar e dar visibilidade a essas experiências.

Essa concepção permite pensar a integração latino-americana também a partir das comunidades, e não apenas dos governos.

Quando um grupo cultural brasileiro estabelece relação com um grupo argentino, colombiano, uruguaio ou chileno, pode estar construindo uma pequena experiência de integração regional. Ela começa pela música, pela dança, pelo teatro, pela memória, pela educação, pela comunicação comunitária e pelas práticas cotidianas, mas pode produzir consequências políticas importantes porque cria reconhecimento entre pessoas que antes se percebiam apenas como habitantes de países diferentes.

Talvez esse seja um dos sentidos mais profundos dessas trocas: permitir que o outro deixe de ser completamente estrangeiro.

O  colombiano e uma frase sobre soberania

O caso de Andre Arcos, colombiano, estudante de Direito e ativista LGBT+, ajuda a perceber essa relação. Ele publicou um vídeo depois de ouvir Lula afirmar, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

Arcos identificou naquela frase questões relacionadas à soberania, aos direitos sociais e às disputas políticas que também atravessam a Colômbia. Seu vídeo acabou alcançando brasileiros e pessoas de outros países latino-americanos.

O episódio mostra como uma frase política pode ganhar uma segunda vida quando entra no território digital. Ela deixa de pertencer exclusivamente ao discurso de quem a pronunciou e passa a ser reinterpretada por pessoas que vivem experiências diferentes.

É assim com uma canção, com um poema, com uma fotografia e também com uma frase política: aquilo que circula é apropriado, reinterpretado, contestado e transformado por quem recebe.

A Amazônia como território compartilhado

Talvez nenhum tema permita visualizar melhor essa dimensão do que a Amazônia.

Uma declaração da Rede Sindical Amazônica reuniu entidades de seis países — Brasil, Peru, Colômbia, Equador, Bolívia e Suriname — em torno de preocupações relacionadas à política amazônica, ao meio ambiente, aos trabalhadores e às comunidades da região.

É importante não transformar essa manifestação sindical numa suposta opinião geral das populações desses países, mas ela ajuda a perceber algo que frequentemente esquecemos quando pensamos a Amazônia apenas como território brasileiro.

A Amazônia também é território de povos indígenas que atravessam fronteiras nacionais, de línguas que não obedecem às divisões políticas, de rios que conectam comunidades, de tradições alimentares, conhecimentos sobre a floresta, formas de organização comunitária e histórias que precedem a criação dos Estados nacionais.

Quando discutimos a Amazônia apenas como recurso econômico ou patrimônio ambiental, deixamos de enxergar essa dimensão humana. Não estamos falando apenas de árvores. Estamos falando de povos, modos de vida e conhecimentos que constituem uma das maiores riquezas do continente.

A Argentina de Milei e a disputa de imaginários

Há também a dimensão política da Argentina de Javier Milei, que não pode ser ignorada, especialmente porque Milei atravessou a fronteira para participar de uma atividade política relacionada à candidatura de Flávio Bolsonaro.

O contraste com o vídeo de Lucas Tresca é curioso: enquanto um cidadão argentino brinca com a impossibilidade de votar no Brasil, o presidente de seu país participa presencialmente de uma atividade política brasileira. São situações completamente diferentes, mas ambas ajudam a mostrar como a política de um país pode repercutir intensamente no debate público de outro.

Nesse terreno aparecem também diferentes ideias sobre o papel do Estado, os direitos sociais, a soberania nacional, a economia e a integração regional. São disputas que não se limitam aos programas partidários. Envolvem diferentes maneiras de imaginar a sociedade e o futuro.

Quando a América Latina olha para o Brasil

Há muito tempo nós, brasileiros, olhamos para os Estados Unidos e para a Europa em busca de referências culturais, políticas e econômicas. Consumimos suas músicas, seus filmes, seus livros, suas séries e seus debates políticos, muitas vezes conhecendo muito mais aquilo que acontece em Washington, Paris ou Londres do que aquilo que ocorre em Buenos Aires, Bogotá, Montevidéu, La Paz ou Assunção.

Essa assimetria também é resultado de uma história marcada pela dificuldade de reconhecer plenamente nossos próprios vizinhos.

Por isso, talvez seja interessante prestar atenção quando acontece o movimento inverso e latino-americanos começam a olhar para o Brasil não apenas como mercado, potência econômica ou país de futebol, mas como referência política e cultural.

O que eles estão vendo?

Talvez vejam um país que ocupa uma posição estratégica na América do Sul, possui uma produção cultural gigantesca, uma enorme diversidade social, uma das maiores populações negras do mundo fora da África, grande diversidade indígena e uma presença decisiva na discussão sobre a Amazônia e o clima.

Mas é importante lembrar que essas são leituras de grupos e indivíduos específicos, não uma visão uniforme da América Latina.

E se os hermanos pudessem votar?

A pergunta que dá título a este texto continua sendo uma provocação, porque estrangeiros não votam nas eleições brasileiras simplesmente por desejarem fazê-lo. A democracia possui regras, território, cidadania e instituições, e são os eleitores brasileiros que têm a responsabilidade de decidir os rumos políticos do país.

Mas alguém pode não votar no Brasil e, ainda assim, acompanhar nossa música, estudar nossa literatura, assistir ao nosso cinema, participar de uma rede cultural brasileira, defender a preservação da Amazônia, admirar um artista brasileiro, criticar nossas políticas públicas ou manifestar preocupação com os rumos da nossa democracia.

É por isso que talvez devêssemos olhar com mais atenção para esses argentinos, colombianos, chilenos e outros latino-americanos que estão falando sobre a eleição brasileira. Não para transformar suas manifestações em argumento eleitoral, nem para imaginar que representam a América Latina inteira, mas para compreender o que existe no Brasil que consegue produzir identificação fora das nossas fronteiras.

Talvez a resposta esteja em parte na história que compartilhamos.

Antes de sermos países com bandeiras, governos, moedas e documentos diferentes, fomos sociedades atravessadas por processos de colonização, resistência, migração, mestiçagem, desigualdade e criação cultural. Nossas diferenças são reais e precisam ser respeitadas, mas elas não anulam os vínculos construídos ao longo dos séculos.

Quando um argentino brinca que gostaria de votar no Brasil, quando um colombiano transforma uma frase de Lula em conteúdo para suas redes, quando um partido chileno publica uma declaração sobre a eleição brasileira ou quando organizações sindicais de diferentes países amazônicos discutem os rumos da política brasileira, estamos diante de manifestações muito diferentes entre si, mas que revelam algo comum: a América Latina continua procurando maneiras de conversar consigo mesma.

E se os hermanos não podem votar no Brasil, podemos pelo menos escutar por que estão olhando para cá.

O que eles estão enxergando no Brasil que talvez nós, de tão acostumados a olhar para dentro, tenhamos deixado de perceber?

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