Entre Eros e Thanatos: pulsão de vida, pulsão de morte e a escolha brasileira
Uma leitura psicanalítica e decolonial da polarização no BrasilO Brasil é atravessado por um contraste profundo entre forças de ligação, cuidado e criação — que aqui chamo, metaforicamente, de pulsão de vida — e forças de dissolução, violência e morte — que chamo de pulsão de morte. Não se trata de reduzir a psicanálise a um rótulo eleitoral, mas de usar essa chave para pensar o pano de fundo da polarização atual, que não é apenas ideológica ou partidária, como, à primeira vista possa parecer.
Essa ambivalência não nasce hoje. Ela se constitui na formação histórico-racial brasileira: colonização, escravidão, racismo, patriarcado e violência sexual sistemática contra mulheres indígenas e negras. Esses processos submeteram corpos e almas a uma violência colossal e ambígua, produzindo identificações e posições internalizadas: senhor e escravo, opressor e oprimido não habitam apenas o outro; habitam também cada um de nós, como herança colonial e como superego social. Isso nos confunde e nos torna, muitas vezes, perplexos diante de escolhas cruciais.
Neste momento eleitoral, essa disputa se condensa. De um lado, forças sociais, políticas e simbólicas que apontam para a vida, a democracia, o cuidado e a inclusão se reúnem em torno do nome de Luiz Inácio Lula da Silva. De outro, forças que favorecem políticas de morte, exclusão, violência de Estado e necropolítica se expressam na candidatura do filho de Jair Messias Bolsonaro. Mas é preciso rigor: nenhum lado encarna puramente Eros ou Thanatos. A psicanálise ensina que vida e morte caminham juntas, e que a escolha ética consiste em favorecer, dentro de nós e na nação, as forças de ligação, preservação e ampliação da vida.
Somos nós, descendentes desses homens e mulheres, que iremos às urnas neste domingo. Que a pulsão de vida — ou, melhor dizendo, as forças sociais da vida — prevaleçam em cada um de nós e no conjunto da nação, para que o voto em favor da vida, da vida em abundância para todos e todas, forme maioria, de preferência no primeiro turno.
Qual das duas canções abaixo pode representar melhor a escolha da maioria nas eleições deste domingo?
As duas? Talvez...
Legião Urbana - Perfeição
Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos covardes
Estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado que não é nação
Celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Tânatos
Perséfone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre e todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo, nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão
Vamos festejar a inveja
A intolerância, a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror de tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou essa canção
Venha
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha, que o que vem é perfeição
Bruna Caram - O Que É O Que É (Gonzaguinha) - Alívio Ao Vivo
Eu fico com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
No gogó!
Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah, meu Deus, eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
Simbora, povo!
Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah, meu Deus, eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
E a vida?
E a vida, o que é? Diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração?
Ela é uma doce ilusão? Ê-ô
Mas e a vida?
Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é, o que é, meu irmão?
Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo
É uma gota, é um tempo que nem dá um segundo
Há quem fale que é um divino mistério profundo
É o sopro do criador numa atitude repleta de amor
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é e o verbo é sofrer
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Fico com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah, meu Deus, eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
Simbora, povo!
Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah, meu Deus, eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita (bonito!)
Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ah, meu Deus, eu sei, eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar
O que é, o que é (GONZAGUINHA) - Verônica Ferriani e Gian Correa (Ao Vivo)
Abaixo uma bela canção bônus na linda interpretação de Bruna Caram e de Norberto Vinhas
DE VOLTA AO COMEÇO - Bruna Caram canta Gonzaguinha
A live completa.
Gonzaguinha - O que é o que é - Daíra e Paulo Beto
A PEC que acaba com a escala 6x1 está parada no Senado desde que passou pela CCJ. Davi Alcolumbre marcou o início da discussão em plenário para terça-feira (6), dois dias depois do primeiro turno. Mas o destino da proposta pode ser decidido nas urnas neste domingo.
Pesquisas apontam apoio de 70% a 80% da população ao fim da 6x1, com jornada de 40 horas e sem redução salarial. Ainda assim, a presidência do Senado adiou a votação sob o argumento de que ela poderia interferir na eleição. Conveniente: Lula defende a mudança, enquanto Flávio Bolsonaro se colocou contra.
Se Lula vencer no primeiro turno, a pressão pela aprovação cresce. Se Flávio vencer, aumentam as chances de rejeição, mudanças ou de um súbito apelo a “mais debate”. Se a eleição for para o segundo turno, tudo dependerá de quem sair mais forte no domingo.
O adiamento já favorece quem quer enterrar a proposta. Dois terços do Senado estão em disputa agora, momento em que parlamentares são mais sensíveis ao humor do eleitor. Foi assim na Câmara, onde 472 dos 513 deputados aprovaram a mudança, inclusive muitos que antes a criticavam. Depois da eleição, o cálculo muda. Senadores eleitos terão oito anos de mandato; derrotados terão pouco a perder. Cai a pressão das urnas e volta a falar mais alto o poder dos lobbies, dos jantares, das festas com astronautas nuas.
Adiar a votação não foi proteger a eleição de uma pauta oportunista. Foi proteger uma escolha política do julgamento dos eleitores. No domingo, o país não decidirá apenas quem governará a partir de 2027. Também decidirá o quanto o Senado se sentirá autorizado a continuar ignorando o que querem oito em cada dez brasileiros.
Leia o restante do texto na minha coluna no UOL.



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