segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A JOGADA DE KASSAB - Por Renato Janine. "Sua meta atual é recriar uma direita não bolsonarista, ou seja, tentar extrair o “vírus” bolsonarista que contaminou a direita,"

Gilberto Kassab é um dos mais hábeis políticos do Brasil – apenas Lula é mais hábil. Enquanto o presidente converte votos, mesmo insuficientes no Congresso, em políticas públicas audaciosas o mais que é possível, Kassab converte votos, ainda que insuficientes, em governabilidade – obviamente de caráter conservador. Sua meta atual é recriar uma direita não bolsonarista, ou seja, tentar extrair o “vírus” bolsonarista que contaminou a direita, visto que somente com Bolsonaro ela conseguiu vencer eleições presidenciais (na verdade, uma – a única que ela ganhou nos últimos vinte anos) ou, pelo menos, eleger governadores em vários dos principais estados, formando uma frente do centro-sul, situada entre a direita e a extrema-direita.

Kassab quer tirar a direita do bolsonarismo e reconstruir uma direita não extremista, emancipando-a do combo ditadura-censura-tortura. Isso não significa, porém, uma direita democrática, no sentido substantivo. Essa “direita não bolsonarista” terá como diferença principal aceitar a democracia enquanto procedimento: aceitará vitórias, mas também derrotas eleitorais, sem recorrer a golpes. Pois em 2022-23 os derrotados tentaram um golpe, procurando nas ruas levar a uma intervenção das forças armadas, motivo pelo qual Bolsonaro acabou condenado.

Essa opção da direita pela via eleitoral foi a obra iluminista do antigo MDB, especialmente de Ulysses Guimarães, completada por Fernando Henrique Cardoso nos pleitos de 1994 e 1998, já remotos. Contudo, o conceito de democracia foi radicalmente expandido pelo PT e pela esquerda, já no século XXI, ao colocarem na pauta a questão da igualdade – chamada de inclusão social. Apesar de essa inclusão ter se dado em boa parte via poder aquisitivo e acesso ao consumo, o que limitou sua capacidade de transformar corações e mentes, e por isso mesmo sua aptidão a disputar a hegemonia ideológica, ela é difícil de extirpar. Uma das razões para a derrota de Bolsonaro em 2022 foi justamente sua aversão a essa pauta, pois muitos, sobretudo os mais pobres, sentiram que a vida piorou sob seu governo.

A democracia assim deixava de ser apenas igualdade jurídica – algo que a direita poderia aceitar, na ideia de que “um homem, um voto” sustenta tradicionalmente a disputa política –, e passou a incluir a ideia de uma redução intensa da desigualdade social e eliminação da injustiça na sociedade. 

Mas isso é demais para a direita brasileira, pois coloca em questão seus privilégios. Direitos são universais; privilégios são, por definição, privados, parciais e excludentes. Pois esse conceito mais amplo de democracia, a direita, mesmo não bolsonarista, não vai aceitá-lo plenamente. Não se dispõe, mais, a sacrificar os anéis para não perder os dedos. Quer tudo. 

A direita brasileira foi duplamente contagiada pelo bolsonarismo: convencida de que, apelando para a baixaria, demagogia, extremismo e fake news, poderia ganhar eleições; e, por outro lado, perturbada no conteúdo da política, que retrocedeu ao século passado, abrindo mão da priorização da ascensão social para os mais pobres – ponto inegociável das políticas petistas e de centro-esquerda.

A restauração de uma direita não bolsonarista não é – ainda? – um retorno aos tempos em que o PSDB era um partido de centro-direita, que disputava o poder com a centro-esquerda. O que emerge é algo mais conservador ou reacionário: políticos situados entre a direita e a extrema-direita. Kassab, habilidoso, sabe que mesmo que quisesse não se voltaria ao centro-direita do qual fez parte – como vice de José Serra na prefeitura de São Paulo ou ministro de Dilma Rousseff.

Temos, assim, o retorno de uma direita não bolsonarista, mas também não propriamente democrática, se por democracia entendermos não apenas respeito aos resultados eleitorais – que Kassab certamente nutre –, mas também empenho em políticas de redução da desigualdade. Essa agenda não estará presente entre candidatos de direita, sejam bolsonaristas ou não.

Do ponto de vista da candidatura Lula, a aposta num segundo turno contra Flávio Bolsonaro seria mais fácil, representando um confronto radical entre civilização e barbárie. Contudo, para o Brasil, talvez fosse bom desidratar o nome Bolsonaro e que a direita, mesmo não assumindo pautas igualitárias, deixasse de ser golpista.

Dependendo disso, pode ser em 2030 nenhum Bolsonaro se mostre competitivo na política nacional, fechando-se o parêntese bolsonarista. Outra coisa, porém, é fazer com que a direita retorne aos tempos de Fernando Henrique e assuma, pelo menos em parte, a pauta social que começou – ainda que limitadamente – a ser adotada em seus governos, antes de conhecer a grande expansão no petismo.

Para concluir: nossa direita, nos tempos do condomínio PSDB-PFL, com liderança do primeiro no Executivo e predomínio do segundo no Congresso, acreditou que podia ser uma direita europeia, com tintas fortes de social-democracia. Isso passou. Pode voltar, será bom chegarmos a um tempo em que a pauta da redução da desigualdade seja comum a todos os partidos que disputem a hegemonia, mas ainda estamos longe disso. Nossa direita continua, fortemente, brasileira. E dizer isso não é um elogio.


VOCÊS SABIAM DISSO??? A diferença entre igualdade, equidade e inclusão é que a igualdade trata todos de forma uniforme, a equidade reconhece as diferenças individuais e a inclusão é um método para promover a equidade e a diversidade. E juntas, tem o objetivo de promover a justiça social, a partir do reconhecimento da diversidade e da necessidade de ajustar desequilíbrio. #educacaoinfantil #autismo #psicomotricidade #educacaofisicaespecial #movimento #educacaofisica #educacaofisicaadaptada #sindromededown #tea #inclusao #respeito

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