terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Justiça ou conveniência? Como a estratificação do sofrimento decreta a falência civilizatória do Direito. Silvana Andrade (*)

 



Uma ordem jurídica guiada pela gravidade da agressão, e não pela identidade dos envolvidos, reafirma seu papel civilizador. Quando o sistema adota critérios morais discriminatórios, deixa de cumprir sua função e permite que atrocidades fragilizem o pacto social.

Penalizar com rigor não é exagero, é dever do Estado. Sempre que o Judiciário se retrai diante de crimes brutais, abre espaço para a impunidade e compromete a confiança da sociedade nas garantias legais. O vácuo deixado pela omissão estatal não permanece vazio, é perigosamente preenchido pelo ímpeto da autotutela, em que a vingança privada suplanta a soberania da lei e retrocede o convívio ao estágio da barbárie. A sanção não nasce da vingança, mas da necessidade de estabelecer parâmetros éticos que impeçam a repetição dos delitos e evitem que o sofrimento seja tratado como algo aceitável. Essa linha de contenção protege diretamente quem foi atingido e preserva a própria esfera pública.

O horror possui uma semiologia própria, que se exprime pela força da virulência, pela ruptura causada, pelo sofrimento imposto e pela ameaça que projeta sobre todos. São esses elementos que deveriam orientar a resposta penal. Quando há tolerância seletiva, consolidam-se relações de dominação. Algumas existências passam a ser tratadas sem valor, enquanto outras recebem atenção ampliada. Uma sociedade que hierarquiza quem merece mais amparo oficializa a desigualdade e a injustiça.

Fatos recentes envolvendo uma sequência desumana de assassinatos de cães e gatos em diferentes regiões do país inserem-se nesse mesmo padrão de estratificação de vidas. Corpos mutilados, tortura, envenenamentos deliberados, espancamentos e assassinatos praticados com extrema perversidade não configuram desvios pontuais, mas manifestações de uma violência que se testa publicamente, medindo os limites da indiferença institucional.

O assassinato do cão Orelha, ocorrido em Santa Catarina, que teve forte repercussão nacional e internacional, comprovou o abismo entre a indignação social e o anacronismo jurídico brasileiro, exigindo um rigor penal que acompanhe a evolução ética e a dignidade animal reconhecidas pela consciência social moderna.

Nesse contexto, torna-se imprescindível a aplicação da Teoria do Elo. Estudos criminológicos sobre psicopatia comprovam que a crueldade contra animais raramente ocorre de forma isolada e, por isso, funciona como um indicador precoce de comportamentos violentos em relação a outros seres humanos, permitindo antecipar e prevenir danos interpessoais. A violação de seres cujas capacidades sensoriais são semelhantes às nossas revela um ciclo de brutalidade que ultrapassa as fronteiras da espécie.

A violência contra animais, tradicionalmente tratada como infração menor por uma cultura antropocêntrica, subestima sofrimentos não humanos, ignora evidências científicas sobre senciência e mantém vínculo direto com outras formas de conflito social. Tratar esses crimes com leniência, sob o argumento da diferença de espécie, é reproduzir uma lógica de exclusão moral que, ao longo da história, sustentou a legitimação da opressão contra grupos humanos arbitrariamente considerados inferiores.

Uma mudança de perspectiva não é utopia jurídica e encontra respaldo em acenos legais, ainda tímidos, como a Lei 14.064/20, que aumentou a pena para maus-tratos a cães e gatos, e na jurisprudência crescente que reconhece animais como seres sencientes e sujeitos de proteção legal.

A justiça que se pretende contemporânea precisa abandonar filtros morais seletivos. O critério central, repito, deve ser a intensidade da agressividade e suas consequências concretas. Apenas assim o sistema jurídico se afasta do personalismo punitivo e se aproxima de sua finalidade primordial.

Proteger a vida em todas as suas expressões exige firmeza e coragem para aplicar penas máximas quando a violência atinge níveis intoleráveis. Qualquer desvio desse caminho compromete as vítimas e corrói o próprio sentido de humanidade.

 (*)jornalista, fundadora e presidente da ANDA (Agência de Notícias de Direitos Animais). É membra especialista do Fórum Global de Segurança Alimentar e Nutrição (FAO) e conselheira ad hoc da UNESCO-SOST no Brasil. Integra o Diversitas da USP, a Abraji e a Rede Nacional de Combate à Desinformação.
 musica - Homenagem a Orelha cão vítima da maldade.


Te chamavam de Orelha E você vinha correndo Como quem diz “tô aqui” Mesmo sofrendo por dentro Quem te feriu não sabia O anjo que tava ali Um cãozinho não entende ódio Só sabe existir Como quem diz “tô aqui” Mesmo sofrendo por dentro Quem te feriu não sabia O anjo que tava ali Ele morava na rua, mas tinha endereço No coração de quem passava e dava um pedaço de pão Orelha era livre, era do vento e do sol Da areia da Praia Brava ao nascer do farol Dez anos olhando o mar, esperando o dia Um carinho, um chamado, um resto de alegria Não tinha dono no papel, mas tinha multidão Que dividia o almoço, a água e a proteção Virou mascote da praia, parte do lugar Quem chegava sentia ele antes de pisar Um latido manso, um olhar que entendia Que amor também mora onde ninguém via Como quem diz “tô aqui” Mesmo sofrendo por dentro Quem te feriu não sabia O anjo que tava ali Mas o mundo às vezes erra E a maldade cruza a mão Quem não entende um cãozinho Não entende o coração Ô Orelha… dói falar de você A rua ficou vazia desde que você se foi Te fizeram mal, mas não levaram O amor que você deixou em nós Hoje a Praia Brava chora A saudade não sai do chão Você virou memória viva Que não sai do nossos corações Se alguém ouvir sua Historia Que aprenda com a tua dor Maus-tratos não são destino Carinho também é amor Na rua também nasce anjo De pelo, pata e olhar Quem alimenta um cãozinho Também aprende a amar Ô Orelha, descansa em paz No colo da eternidade Seu nome virou memória Seu amor virou saudade Que aprenda com a sua dor Maus-tratos nunca vencem O amor Você partiu cedo demais Sem merecer o adeus Mas deixou em nós a certeza Que o bem sempre esta em Deus


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