Os textos abaixo explicam a razão pela qual me dedico e me empenho tanto na realização da Teia Sergipe 2026, agora na etapa da pós produção, ainda que esta tarefa acarrete um significativo desgaste. É importante esclarecer que minha crítica expressa na manchete acima, não se dirige à religião em si — até porque sou católico —, mas sim à instrumentalização da fé das pessoas para fins de ganho político e econômico.
Nesse contexto, compreendo o programa Cultura Viva como um potente mecanismo para fomentar uma cultura de paz. E, para isso, apenas palavras não bastam: é necessário ação concreta, um compromisso que se materialize em práticas e políticas públicas efetivas.
Zezito de Oliveira
O que a mídia não fala sobre o The Send
Travestido de festival gospel, evento é âncora do fundamentalismo cristão. No Brasil é dominado por bolsonaristas
Caracterizado por rica infraestrutura, o The Send Brasil teve mescla de apresentações musicais dos Estados Unidos e das mais destacadas do gospel do Brasil, com pregações religiosas de personagens estadunidenses e de evangélicos conservadores brasileiros. Entre outros estiveram presentes Malafaia e Dallagnol. Em anos anteriores, Bolsonaro e Damares participaram.
O festival The Send aconteceu ao mesmo tempo em cinco capitais neste final de semana – Belém, Belo Horizonte, Recife, Curitiba e em Goiânia.
O crescimento do gospel como força cultural e de mobilização social no Brasil ganhou mais um capítulo neste fim de semana com o The Send Brasil, encontro que aconteceu de forma simultânea em estádios de diferentes regiões e reuniu milhares de pessoas em torno de uma proposta que vai além do formato de show ou congresso religioso. No Brasil, o movimento é representado pelo líder cristão Teo Hayashi, que atua como porta-voz e articulador da iniciativa, apresentada como um projeto contínuo de engajamento, ação social e responsabilidade coletiva, com forte adesão do público jovem.
O The Send tem como principal missão a evangelização em massa na América. Através de um discurso “pop” e descolado, o evento usa a juventude como massa de manobra para a propagação do movimento. “Estamos crendo e nos preparando para fazer o maior envio missionário da história: milhares de cristãos incendiados pelo amor de Deus, comprometidos a transformar universidades, escolas, nações e a realidade de crianças órfãs e em vulnerabilidade no nosso país”, diz o portal do The Send Brasil.
Por trás do discurso voltado ao jovem, porém, há um viés ultraconservador e colonizador. O movimento foi criado em 2016, depois que missionários dos grupos evangélicos The Call e Youth With a Mission (Jocum, em português), ambos dos Estados Unidos, se juntaram pra organizar um evento missionário no estádio Gathering, de Los Angeles. Na época, o evento reuniu 70 mil pessoas.
Além do The Call e Jocum, outros seis grupos fazem parte da organização do The Send: Dinamus, Lou Engle, Lifestyle Christianity, CFAN, Jesus Image e Circuit Riders. Segundo informações compartilhadas pela ativista cristã Camila Mantov no Twitter, parte dos membros desses “ministérios” também fazem parte do Capitol Ministries, grupo evangélico de extrema direita fundado em 1996 pelo pastor americano Ralph Drollinger e que tem o objetivo de “converter” políticos a uma visão evangélica de governança.
“Sem essa orientação, é bem mais difícil chegar a políticas públicas que satisfaçam a Deus e que sejam benéficas ao progresso da nação”, afirma Drollinger em um dos estudos em seu site. Segundo informações do El País, o pastor realizava encontros semanais com membros do alto escalão do governo de Donald Trump, incluindo o vice-presidente Mike Pence, e o secretário de Estado, Mike Pompeo.
Fonte: OPINIÃO, NOTÍCIAS E ANÁLISES SOCIOPOLÍTICAS com "O Globo", "The Intercept Brasil", "Coletivo Bereia" e "DCM".
QUANDO A FÉ VIRA ARMA: O ATAQUE DE SILAS MALAFAIA AOS PROFESSORES
No último sábado (30/01), durante o evento evangélico “The Send”, realizado na Arena Pernambuco, em Recife, o pastor Silas Malafaia utilizou o púlpito — e a visibilidade de um grande ajuntamento religioso — para promover ataques diretos aos professores e às instituições de ensino. Em um discurso inflamado, marcado por simplificações grosseiras e alarmismo ideológico, acusou docentes de “enganarem” estudantes e conclamou jovens cristãos a se prepararem para um suposto “enfrentamento” nas universidades.
Sob o já gasto e impreciso rótulo de “marxismo cultural”, Malafaia construiu uma narrativa conspiratória segundo a qual escolas e faculdades seriam espaços de controle do pensamento, onde quem discorda de pautas da chamada “ideologia de gênero”, do aborto ou das pautas relacionadas à diversidade sexual seria automaticamente silenciado e ridicularizado. Trata-se de uma retórica conhecida, mas não menos perigosa: a fabricação de um inimigo difuso para mobilizar medo, ressentimento e obediência.
Não se trata apenas de opinião religiosa. O discurso de Malafaia é político, deliberadamente político, e profundamente irresponsável. Ao estimular jovens a enxergarem a educação como campo de batalha, ele reforça a desconfiança contra professores, fragiliza o diálogo e contribui para a corrosão de um dos pilares da democracia: a escola como espaço de formação crítica, plural e emancipadora.
Eventos como o “The Send”, ao oferecerem palco a figuras amplamente conhecidas por disseminar ódio, atacar minorias e alinhar-se sem pudor à extrema-direita, revelam muito mais do que fervor espiritual. Revelam um projeto de poder. Malafaia não fala isoladamente; ele representa um tipo de liderança religiosa que se alimenta do conflito permanente, da ideia de que a fé precisa estar sempre “sob ataque” para justificar sua autoridade, seu protagonismo midiático e seu trânsito privilegiado nos corredores da má política.
Não é coincidência que, ao seu redor, gravitem lideranças envolvidas com o que há de mais degradante na política brasileira: autoritarismo, corrupção e oportunismo. Ainda assim, apresentam-se como árbitros morais da sociedade, atacando professores, numa inversão cínica de valores — profissionais historicamente desvalorizados, mal remunerados e essenciais para o futuro do país — como se fossem agentes de uma conspiração.
A lógica é simples e eficaz. Para manter relevância, poder e um estilo de vida marcado por luxo e influência, é preciso oferecer ao público uma narrativa permanente de guerra cultural. Nela, conceitos vagos e distorcidos como “ideologia de gênero” funcionam como espantalhos ideológicos, capazes de mobilizar medos profundos, especialmente o medo de que “algo esteja sendo ensinado” às crianças sem o controle das famílias ou das igrejas.
Nesse jogo, a escola se torna alvo central. As famílias confiam à educação formal a formação de seus filhos, e isso desperta ansiedade, insegurança e desejo de controle. Líderes fundamentalistas exploram esses sentimentos ao insinuar que professores estariam “colocando ideias” na cabeça dos estudantes. O resultado é um pânico moral que rapidamente se transforma em hostilidade contra a educação pública e seus profissionais.
Não é por acaso que professores surgem, com tanta frequência, como inimigos imaginários nesse tipo de discurso. Eles representam a dúvida, o pensamento crítico, a diversidade de ideias e a convivência com o diferente — tudo aquilo que ameaça uma fé reduzida à obediência cega e à hierarquia rígida de líderes que não admitem questionamento.
Criar adversários externos é mais fácil — e mais lucrativo — do que enfrentar as próprias contradições, os escândalos e a pobreza ética de um projeto religioso que se confunde cada vez mais com um projeto autoritário de poder. Quando a fé vira arma, quem perde não são apenas os professores. Perde a educação, perde a democracia e perde a própria espiritualidade, esvaziada de amor, justiça e compromisso com a verdade.
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Saiba mais sobre a preparação e realização da Teia 2026 dos Pontos e Pontões de Cultura em Sergipe.
A IMPORTÃNCIA DOS FÓRUNS DOS PONTOS DE CULTURA.
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