quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Obrigado Frei Sérgio

GUARDIÃO DA EMPATIA

Sergius na língua da Roma Antiga, representa “guardião”,

O protetor do todo violentado;

Servo atuante e abnegado

Capaz de repartir-se em muitos “Eus”;

Aquele que faz tudo pelos seus

Sem nunca exigir um bem trocado.

Com os Sem Terra, veio a ser um acampado

Dos camponeses tornou-se o Movimento;

Junto aos famintos, foi ânimo e fermento

E a voz de todos os pobres silenciados.

No assolamento foi fonte de otimismo...

Nos arrebates se fez comedimento;

Nos paradeiros tornou-se rebeldia

E nas refregas a força do argumento.

Nas grandes perdas e de puras fantasias

Se impôs como protótipo da esperança;

Um gesto, uma palavra, uma aliança...

Teceram a unidade no raiar do novo dia.

Na fronte altiva, o retrato da utopia...

Nas mãos amigas, a força da bondade

E a defesa da biodiversidade

Nunca se curvou aos pés da covardia.

Com as ideias fez muros e trincheiras

A intransigência serviu de companheira

E alterou o conteúdo da verdade.

Nunca aceitou o bem pela metade

Nem a injeção de veneno nas sementes.

Diante dos desvios manteve a coerência...

Das frustrações fez mastros de bandeiras

Pôs para cima a mística cancioneira...

Complementando as formas de consciência.

A ternura nos olhos fez o encanto....

Os anseios das mudanças se espalharam...

Os saberes e as culturas se cruzaram

Nas mensagens das antigas profecias.

Resta agora o caminho como espelho:

Ensinar as ideias e os bons conselhos

Nesta eterna escola do guardião da empatia.

Ademar Bogo

Certidão de Óbito poético ao Frei Sergio Görgen.

04 de fevereiro de 2026.

Lula na prisão em Curitiba: “me ajudou a atravessar momentos difíceis”

“A fé e as sábias palavras de Frei Sérgio durante suas visitas em Curitiba me ajudaram a atravessar com força e esperança os momentos difíceis da prisão injusta a que fui submetido”, afirmou Lula sobre o frade, que morreu aos 70 anos.

Por: Letícia Cotta

Publicado: 03/02/2026 - às 12h53

O  frade Sérgio Antônio Görgen, conhecido como Frei Sérgio, morreu nesta terça-feira (3), aos 70 anos, na comunidade dos Franciscanos em Candiota (RS). Frei Sérgio ficou conhecido por visitar o presidente Lula durante os mais de 580 dias em que ele esteve preso injustamente pela Lava Jato na Superintendência da Polícia Federal (PF) em Curitiba.

Nas redes, Lula lamentou o falecimento do amigo e afirmou que ele o ajudou a “atravessar momentos difíceis”.

“A fé e as sábias palavras de Frei Sérgio durante suas visitas em Curitiba me ajudaram a atravessar com força e esperança os momentos difíceis da prisão injusta a que fui submetido”, afirmou Lula.

“Ele carregava consigo uma história de vida exemplar. De luta e de sacrifícios pessoais – incluindo greves de fome – para garantir os direitos daqueles que vivem da agricultura familiar”, continuou.

Segundo Lula, “Frei Sérgio dedicou sua vida a cumprir o ensinamento de Cristo: ‘Dai de comer a quem tem fome’.

“Lutou pela alimentação do corpo e da alma. E deixa esta vida com sua missão cumprida, que seguirá servindo de exemplo e inspiração a todos nós. Descanse em paz, companheiro”, escreveu o presidente.

Frei Sérgio chegou a ser deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT) no Rio Grande do Sul, entre 1999 e 2002, e foi um dos fundadores do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), em 1996. Ele também atuou ativamente na resistência contra a Reforma da Previdência promovida no governo do golpista Michel Temer (MDB) e da jornada pela democracia, em 2018.

“O MPA se despede de uma de suas maiores referências, o semeador que espalhou a resistência e esperança em cada rincão do campesinato brasileiro. Que sua memória seja agora luz e força para as mãos que cultivam a terra. Frei Sérgio não morre; ele se encanta na luta”, destacou o MPA em nota.

“Nota de Falecimento de Frei Sérgio Görgen, o Profeta da Resistência Camponesa

É com imenso pesar, mas guiados pela esperança que ele sempre semeou, que o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) comunica o falecimento de seu dirigente histórico, Frei Sérgio Antônio Görgen.

Frade franciscano, escritor e intelectual orgânico das causas populares, Frei Sérgio foi mais do que um dirigente; foi um pastor que escolheu o “cheiro das ovelhas” e o barro das trincheiras. Sua partida deixa um vazio imenso na luta social brasileira, mas seu legado de soberania alimentar e dignidade camponesa permanece vivo em cada semente crioula plantada neste solo.

Uma Vida Entregue ao Povo do Campo

Natural do Rio Grande do Sul, Frei Sérgio (OFM) dedicou sua existência à articulação política e espiritual dos excluídos. Foi peça fundamental na fundação do MPA em 1996, nascido da urgência das secas e da necessidade de voz para o pequeno agricultor.

Sua trajetória foi marcada pelo sacrifício pessoal em prol do coletivo. Frei Sérgio utilizou seu próprio corpo como ferramenta de denúncia através de cinco greves de fome, destacando-se as lutas por crédito agrícola nos anos 90, a resistência contra a Reforma da Previdência em 2017 e a jornada pela democracia em 2018, em frente ao STF.

Memória e Profecia

Como sobrevivente e cronista do Massacre da Fazenda Santa Elmira (1989), ele assumiu a missão de não deixar a história ser escrita apenas pelos vencedores. Através de obras como “Trincheiras da Resistência Camponesa” e “A Gente Não Quer Só Comida”, ele teorizou e defendeu a agricultura camponesa como um verdadeiro projeto de vida.

Frei Sérgio não apenas pregava o Evangelho, ele o vivia nas trincheiras da luta pela terra. Sua vida foi um testemunho de que a espiritualidade e o compromisso político com os pobres são faces da mesma moeda. Deixa-nos um legado de resistência e de um amor profundo pelo povo simples do campo.

Neste momento de despedida, reafirmamos o compromisso inabalável com as bandeiras que Frei Sérgio carregou com coragem até o fim. O MPA se despede de uma de suas maiores referências, o semeador que espalhou a resistência e esperança em cada rincão do campesinato brasileiro.

Que sua memória seja agora luz e força para as mãos que cultivam a terra. Frei Sérgio não morre; ele se encanta na luta. Ele segue vivo na Mística do nosso Movimento e no pulsar de cada coração que resiste. Frei Sérgio vive na luta do povo!”

AOS SETENTA ANOS

Ao completar setenta anos, roda um filme na cabeça da gente.

Nunca imaginei chegar a esta idade.

Mas se os anos se cumpriram, não resta dúvida, foi por Graça, pura Graça.

Então, só resta agradecer ao Senhor da Vida, em seu Filho e em sua Mãe. Com certeza, me ampararam e me seguraram. Muitas e muitas vezes, através das amizades, do companheirismo, da fortaleza comum, no suporte das duas famílias (a de sangue e a de hábito), das tantas e tantas orações, dos pedidos de “se cuide” (quase nunca obedecidos). É nos gestos que a Graça se faz prática e o Amor se faz vivo.

Chegar aos setenta tendo sofrido seis acidentes de carro, passado por cinco greves de fome, inúmeros conflitos sociais e fundiários, saindo ferido em dois, como diz o ditado popular, “só por Deus”.

Vivi em situações de muita dor (até hoje ecoam nos meus ouvidos o choro de crianças com fome nos barracos de acampamento e até me dói no mais fundo de mim a dor de enterrar crianças que morriam de fome) e muita tensão em tantos e tantos conflitos vividos, mas os tempos de alegria e confraternização foram infinitamente maiores. Algumas decepções, mas os testemunhos edificantes foram e são infinitamente maiores.

Lembro, neste filme da vida, dos direitos que não tive.

Não tive o direito de ter medo, mesmo carregado de temor, porque em tantos conflitos, uma covardia minha seria a derrocada para muita gente.

Não tive o direito de vacilar, embora inseguro e cheio de dúvidas, porque este vacilo comprometeria a firmeza na luta de tanta gente.

Não tive o direito ao desânimo, embora tantas vezes sem enxergar caminhos seguros, porque estavam tantos olhando em minha direção e uma pequena demonstração de desânimo de minha parte contaminaria o coração de muita gente e desistiriam de lutar pela dignidade de suas vidas.

Não tive direito ao cansaço, embora tantas e tantas vezes o espírito arrastou meu corpo exausto.

Não tive o direito de ter crise, nem vocacional, nem espiritual, nem de confiança no futuro, embora em meu interior tenha passado por várias e tantas, porque sentia a responsabilidade e o peso do hábito de São Francisco sobre os ombros na vocação que abracei.

E desde aquele dia em que, num conflito de terra na ocupação da Fazenda Anonni, em que a Brigada Militar avançava em direção ao povo e uma mulher puxou minha camisa e me disse “Frei, o senhor não vai fazer nada?” e eu, cheio de vergonha, avancei do meio do povo e fui para frente dos policiais, incapaz de dizer uma única palavra, abri os braços e parei bem próximo a eles – e as crianças com flores na mão, me seguiram e os policiais pararam – desde aquele dia, perdi também o direito à omissão.

Por isso, cheguei aos setenta meio assim, bruto, sincero demais, teimoso, xucro, irreverente, fora dos prumos estabelecidos, mas disposto e esperançoso na força do amor e da vida, pedindo sempre a Jesus e àqueles com quem caminho nas empreitadas da vida, que me farquejem e corrijam, para que meus muitos defeitos não sejam mais salientes que a Graça de Deus. Continuo acreditando na força do povo organizado, uma das expressões mais vigorosas da Graça e das Bênçãos divinas.

Um direito, porém, sempre me assistiu: a proteção de Maria e a presença amorosa e incômoda de Jesus.

Talvez, só por isso, tenha chegado aos setenta.

Gratidão enorme, a Deus e a tanta gente com quem os caminhos da existência propiciaram encontrar.

Frei Sérgio Antônio Görgen ofm

29 de janeiro de 2026.



Me fala de você

Zé Vicente


Vem, me fala tu de liberdade

Desta igualdade que todos queremos

Desta vida nova que todos buscamos

Desta paz que um dia encontraremos


Vem, me fala tu de tua vida

Desta amizade mais querida

Desta ansiedade de amar de novo

Desta tua vida doada ao povo


Vem, me fala tu de esperança

Deste novo ser criança

Desta paz sem ser bonança

Desta luta pra vencer

Vem me fala de você


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