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O Amor Próprio, o Lucro e a Política: Uma Leitura de "Quadrilha" de Drummond
A música popular brasileira e a poesia sempre foram terrenos férteis para a discussão política, ainda que de forma metafórica. Recentemente, em uma análise do poema "Quadrilha", de Carlos Drummond de Andrade, uma leitura provocativa emergiu, conectando a obra-prima do modernismo à figura da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e ao atual cenário político.
O poema de Drummond é, em sua essência, uma radiografia do desencontro amoroso e da solidão. A famosa estrutura cíclica — João amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili, que não amava ninguém — desenha um retrato cruel da condição humana, onde o afeto é quase sempre unilateral e fadado ao fracasso. Os destinos dos personagens são trágicos ou melancólicos: João vai para os Estados Unidos, Tereza recolhe-se ao convento, Raimundo morre em um desastre, Maria fica para titia e Joaquim suicida-se.
No centro desta dança maldita, encontra-se Lili. Ela é a exceção que confirma a regra do sofrimento amoroso. Enquanto os outros se entregam a paixões impossíveis, Lili "não amava ninguém". Seu único amor era ela mesma. E é justamente por essa postura egoísta e calculista que Lili é a única personagem que obtém sucesso no "script" social da época: ela casa.
A Virada Política na Interpretação
É neste ponto que a análise contemporânea faz um movimento ousado. O autor da leitura em questão traça um paralelo direto entre Lili e Michelle Bolsonaro, afirmando que, "com boa vontade, já se pensa em Michelle" ao descrever a personagem. A justificativa para essa associação reside na figura do marido de Lili: J. Pinto Fernandes.
O nome do personagem, que sequer havia aparecido antes no poema, é o pivô da interpretação política. J. Pinto Fernandes não soa como um nome próprio, mas como uma razão social, uma firma de contabilidade ou uma entidade corporativa. Ele é a personificação do "partido do lucro" e do interesse material.
Ao casar-se com alguém que representa essa lógica mercantil, Lili — que só amava a si mesma — celebra uma união transacional, desprovida de qualquer romantismo. Ela sucede onde os outros falham porque escolhe o pragmatismo e o amor-próprio em detrimento do amor idealizado.
O Paralelo com Valdemar Costa Neto
Para reforçar a tese de que o poema de Drummond antecipa um fenômeno político atual, o analista compara J. Pinto Fernandes a Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal. A analogia sugere que, assim como o marido de Lili, o nome "Valdemar Costa Neto" também carrega um peso institucional que remete a "uma empresa" ou a um "partido do lucro".
Nesta leitura, a figura de Lili (associada a Michelle) que, casando-se com o "interesse" (representado por J. Pinto Fernandes/Valdemar), obtém êxito e visibilidade, enquanto os outros personagens, que se entregaram a amores impossíveis e idealizados, sucumbem ao fracasso e à tragédia.
A Atualidade do Poema
Esta interpretação demonstra a extraordinária atualidade de Drummond. "Quadrilha", um poema de 1930, continua a servir como um espelho para as relações humanas e, por extensão, para as dinâmicas de poder. Ao substituirmos o amor romântico pelo interesse político e a paixão pela ambição, vemos o mesmo ciclo de desencantos e sucessos.
A análise nos convida a refletir: em um mundo onde o afeto dá lugar à transação e o idealismo ao pragmatismo, quem realmente "casa" e prospera? A poesia de Drummond, ao que parece, já nos deu a resposta.
Abaixo uma sugestão do editor do blog, para ajudar a pensar o Brasil que Queremos...

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