segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Onde estava você? Fome Zero, Cultura Viva e a força que a esquerda precisa reencontrar, inclusive para vencer eleições.

 

A pergunta que ecoa de uma canção de Guilherme Arantes lançada em 2013,  de uma conversa na Comunidade Bom Pastor, Aracaju, em  2023  e da dificuldade dos candidatos de esquerda em obter sucesso em eleições  recentes, serve de fio condutor para uma reflexão sobre os limites e as contradições de duas políticas emblemáticas dos governos Lula — o Fome Zero e o Programa Cultura Viva. Criados para além do mero assistencialismo, com vocação emancipatória e forte participação social, ambos os programas viram sua dimensão transformadora ser gradualmente engolida pela cultura burocrática do Estado, segundo críticas de seus próprios formuladores, Frei Betto e Célio Turino,  mesmo com esforços recentes em atenuar no caso do Cultura Viva com as lei 13.018/2014 e  a Lei 14.903/2024 que estabelece o marco regulatório do fomento à cultura, no âmbito da administração pública da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.  O texto argumenta que a esquerda, ao apostar quase todas as fichas no fortalecimento das estruturas estatais, pode ter negligenciado o fortalecimento da sociedade civil, e que a pergunta "onde estava você?" — dirigida não ao eleitor, mas à própria esquerda — insiste em permanecer sem resposta, sobretudo quando se trata de reconstruir redes de autonomia, protagonismo e organização popular que sobrevivem independentemente dos governos.

A canção “Onde Estava Você” (1) , do Guilherme Arantes, lançada em 2013, insiste em voltar à minha cabeça. Não por acaso. Ela me lembra uma conversa que tive com o professor Romero Venâncio(2), lá na Comunidade Bom Pastor, em 2023. E, desde então, ela não para de me perguntar uma coisa que a esquerda parece ter esquecido de responder: onde estávamos nós, como lideranças de esquerda fora deste período eleitoral,  quando o Estado não estava,  ou mesmo onde estamos quando este chega mesmo de forma incipiente, paliativa, incompleta?

O governo Lula, com toda a sua importância histórica, talvez tenha cometido um erro delicado: apostou quase todas as fichas no reforço das estruturas estatais. Estruturas necessárias, meritórias, fundamentais — mas insuficientes. Porque há lideranças e iniciativas sociais, culturais e políticas de esquerda que precisam ser fortalecidas a partir do Estado, sim, mas sem ficarem presas às amarras pesadas da cultura burocrática estatal.

Essa reflexão nos leva a duas experiências que marcaram os primeiros governos Lula: o Fome Zero e o Programa Cultura Viva. Experiências diferentes, mas que compartilham uma mesma pergunta de fundo: o que acontece com uma política pública quando ela deixa de ser um instrumento de emancipação e vira apenas um mecanismo de compensação?

O Fome Zero não nasceu dentro do Estado. Nasceu da sociedade. Foi gestado no Instituto Cidadania, com a participação de ONGs, sindicatos, movimentos sociais, pesquisadores. A fome não foi descoberta pelo governo — ela já estava lá, viva, dolorida, e foi a sociedade quem a colocou na mesa. O Estado entrou depois, para dar escala. E essa origem importa. Porque ela revela algo que depois se perdeu: a política como reconhecimento de uma demanda social, e não como concessão.

Frei Betto, que esteve na formulação inicial, sempre fez uma distinção que considero precisa. Não se trata de negar o Bolsa Família — ele mesmo reconheceu sua importância. Mas, para ele, o Fome Zero tinha um caráter emancipatório, enquanto o Bolsa Família assumiu um caráter compensatório. O Fome Zero pretendia mexer nas estruturas sociais, associar a “fome de pão” à “fome de beleza”, promover educação cidadã, passar da consciência ingênua à consciência crítica. Essa dimensão, diz ele, não avançou como deveria.

E é aqui que a Cultura Viva entra como um contraponto e um espelho.

O Cultura Viva também não nasceu para ser um programa de financiamento qualquer. Nasceu para reconhecer o que já existia. A ideia era simples e revolucionária: o Estado não deveria dizer aos grupos culturais o que fazer; deveria reconhecer o que eles já faziam, apoiar, fortalecer, criar condições para que fizessem mais. “Moldar-se à realidade, em vez de moldar a realidade.” Essa inversão é tudo.

A Lei 13.018/2014, que transformou o programa em política nacional, é clara: autonomia, protagonismo, capacitação social das comunidades. O Estado, ali, não é o centro. É o apoio. Mas, na prática, o que acontece quando o recurso público chega? Chegam também os editais, os formulários, as prestações de contas, os prazos, os sistemas eletrônicos. E a pergunta que não quer calar: como financiar uma iniciativa social sem burocratizá-la? Como exigir responsabilidade sem destruir a autonomia de quem recebe?

Célio Turino, um dos formuladores do Cultura Viva, foi ainda mais fundo. Ele identificou uma mudança de concepção a partir de 2011, quando, segundo sua avaliação, a dimensão experimental, comunitária e emancipatória do programa foi perdendo espaço para uma lógica mais tecnicista e burocrática. Não faltou dinheiro apenas. Faltou compreensão. A política foi sendo substituída pela técnica. A comunidade deixou de ser sujeito e voltou a ser tratada como alguém que precisa ser capacitado pelo Estado. Inversão perigosa.

E, dentro da Cultura Viva, havia um braço que talvez tenha sido o mais subestimado e o mais perseguido: a Cultura Digital. Lá nos anos 2000, enquanto o mundo ainda discutia inclusão digital, os Pontos de Cultura já experimentavam software livre, conhecimento compartilhado, produção colaborativa, comunicação comunitária. Não se tratava de ensinar a comunidade a usar a tecnologia, mas de fazer com que ela produzisse, compartilhasse e tivesse autonomia sobre a tecnologia que utilizava.

O Brasil, entre 2004 e 2010, chegou a ser referência mundial nisso. Hoje, quando discutimos inteligência artificial, soberania digital e o poder das plataformas, parece que esses problemas surgiram ontem. Mas já estavam ali, nos Pontos de Cultura, nos estúdios multimídia, nas oficinas de metarreciclagem, nos jovens hackers, nas redes colaborativas. A pergunta não era apenas técnica. Era política: quem controla a narrativa? Quem produz a memória? Quem decide o que aparece e o que desaparece?

Essa experiência, infelizmente, perdeu centralidade. Turino fala em retração, retrocesso, desmonte. E, no Lula 3, embora a Cultura Viva tenha sido institucionalmente retomada, a pergunta que fica é: estamos recuperando apenas a estrutura ou também a filosofia? Porque uma coisa é ampliar editais. Outra é reconstruir redes. Uma coisa é transferir recursos. Outra é fortalecer autonomia.

E é aí que as duas experiências se encontram. Fome Zero e Cultura Viva, cada uma a seu modo, nos ensinam que não basta financiar. É preciso potencializar. O Estado pode colocar recursos onde antes não havia, pode reconhecer o invisível, pode garantir direitos. Mas ele não pode ocupar o lugar da sociedade. Porque, quando ocupa esse lugar, mesmo com boas intenções, a sociedade pode perder justamente aquilo que mais precisa para transformar a realidade: autonomia, organização, criatividade e capacidade de construir seu próprio futuro.

Talvez a esquerda precise reencontrar a sociedade. E talvez seja por isso que a pergunta continua fazendo sentido, quase dez anos depois da canção de Guilherme Arantes e três anos depois daquela conversa na Comunidade Bom Pastor: onde estava você?

A resposta, provavelmente, é que estávamos ali o tempo todo. Nos territórios. Nas comunidades. Nos Pontos de Cultura. Nos movimentos. Nos jovens. Nas redes. Só faltou — e talvez ainda falte — àqueles  que ficam mais presos aos gabinetes, aos grandes eventos, voltar a nos encontrar, mas não agora, não por causa da campanha eleitoral.

(1) Onde Estava Você? - Guilherme Arantes

Só o tempo em nós respondeu

Em que se transformou

A amizade que uma vez existiu

Quem foi leal, quem ficou e o que se abandonou


Onde estava voc

Quando mais eu precisei

Do amigo pra lutar

Em tempos de guerra e paz


Onde andava você

Quando o mundo me esqueceu

Na areia do deserto e não te achei jamais


Tanto trabalho que deu

Reconstruir o chão

O universo desabou num furacão

Pedra por pedra, valeu

O aprendizado é assim


Onde estava você

Quando mais eu precisei

Do amigo pra lutar

Em tempos de guerra e paz


Onde andava você

Quando o mundo me esqueceu

Na areia do deserto e não te achei jamais


Quando somos jovens

Tantos sonhos são pra durar

Muitos só nos álbuns

De memórias pra guardar


Só o tempo em nós respondeu

Em que se transformou

A amizade que uma vez existiu

Quem foi leal, quem ficou

E o que se abandonou


Onde estava você

Quando mais eu precisei

Do amigo pra lutar

Em tempos de guerra e paz


Onde andava você

Quando o mundo me esqueceu

Na areia do deserto e não te achei jamais


Quando somos jovens

Tantos sonhos são pra durar

Muitos só nos álbuns

De memórias pra guardar

(2) Lembro do professor  Romero Venâncio ter feitio referência a um escrito de Lênin para reforçar seu argumento. Pela proximidade com o argumento apresentado, uma hipótese é o texto É Melhor Menos, mas Melhor”, escrito em 2 de março de 1923 e publicado no Pravda em 4 de março daquele ano. Nele, Lênin critica os problemas do aparelho estatal soviético, a burocratização e a pressa administrativa, defendendo sua reconstrução cuidadosa e a utilização dos melhores elementos existentes na sociedade. Ver: LÊNIN, V. I. “É Melhor Menos, mas Melhor”. In: Obras Escolhidas em três tomos. Lisboa; Moscovo: Edições “Avante!”; Edições Progresso, 1977, t. 3, p. 670-681.

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