Pelo fim do SNC?!
No fundo, a vida vai continuar auspiciosa. Os que têm
possibilidades ignoram a maioria, que enfrenta os desafios do dia a dia:
recolher reciclagem, trabalhar como doméstica, cometer pequenos furtos ou atuar
como avião, vapor, tudo para pagar contas, comer e ter onde morar. A miséria da
solidariedade é a nova cultura estabelecida, e nos leva a um apartheid social,
cultural e político.
O povo não pratica turismo, e a cultura passa a ser a do
trabalho de segunda a sábado, uma lógica perversa. A igreja surge como
salvação, enquanto tudo que é coletivo se esgota. Nesse tempo, as misérias se
transformam em ações sem sentido, viram fetiche e romantização e contrapartida
de projetos culturais e socias.
As pessoas com cidadania estão cada vez mais
individualizadas, e o futuro continua incerto.
Mas, afinal, o que é cultura?
Cultura é o conjunto complexo de hábitos, costumes, valores,
crenças, arte, linguagem e tradições partilhado por um grupo social,
transmitido entre gerações. Ela molda a identidade coletiva, determina
comportamentos e organiza a visão de mundo das pessoas, variando no tempo e no
espaço.
Cultura é o tempo da vida e da convivência; é tudo que nos
faz coletivo e indivíduo.
E agora pensamos: e a Cultura Viva?
É uma política pública brasileira de base comunitária que
visa reconhecer, apoiar e fortalecer expressões culturais tradicionais e
populares. Focada na cidadania e na diversidade, articula Pontos e Pontões de
Cultura em rede para descentralizar recursos, valorizar a produção local e
simplificar a burocracia para agentes culturais. É a dimensão do povo, da rede
que transforma o meio em prática, ações de encantamento, magia, reza, tesão e
bença.
E os sistemas da Cultura Viva e do Sistema Nacional de
Cultura?
Ambos têm como centralidade o controle social e a
participação. Porém, muitas vezes, tornam-se meros protocolos: não há, de fato,
um empenho consistente entre governo e sociedade civil para colocá-los em
prática.
O mais grave é a lógica de mudança de leis. Veja a cidade de
São Paulo: pessoas enlouquecidas pelo acesso ao cofre público, pelas emendas
parlamentares que muitas vezes desestruturam as políticas culturais e todo o
processo democrático, inclusive com
casos sob suspeita.
O processo é difícil porque os interesses individuais
superam o coletivo, e as pessoas precisam se expor a ambientes racistas,
elitistas, marcados por quem nunca sofreu qualquer tipo de discriminação.
Escrevo hoje para desmistificar o que pode ser feito na
governança, na participação social e na mudança de mentalidades. Aqui, o bicho
pega: são várias biqueiras, muitos homens alcoólatras, e os meninos mais novos
trabalhando como vapor, uma multidão decadente, vencida pelas drogas. O estado
de São Paulo abriga uma realidade que lembra uma grande Cracolândia.
Veja: é simples. A “Lei de Gérson” rege uma classe média que
sempre leva vantagem, enquanto para nós vale a “Lei de Murici”: cada um cuida
de si.
No final, o que vemos é um show de horrores: uma classe
média que controla tudo e todos, atuando como pelega de uma burguesia autômata.
Fecham-se as cortinas, e termina o espetáculo.
Sejam mais humanos.
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Abaixo, análise comparativa do texto de Neri Silvestre com o pensamento de Teixeira Coelho com IA deepseek
Excelente texto. Ele é um diagnóstico contundente da realidade social e cultural brasileira contemporânea, e a sua relação com o pensamento de Teixeira Coelho é profunda e direta, podendo ser lido como uma manifestação prática e indignada dos conceitos que Coelho teorizou.
Para entender essa relação, precisamos lembrar quem é Teixeira Coelho e qual é a sua principal contribuição. José Teixeira Coelho Neto é um dos mais importantes pensadores brasileiros na área de políticas culturais. Sua obra mais influente, o "Dicionário Crítico de Política Cultural", é uma referência fundamental. Coelho é um crítico feroz do que ele chama de "indústria cultural" (herdado da Escola de Frankfurt) e, principalmente, defende a passagem de uma "política cultural" (imposta de cima para baixo) para uma "democracia cultural" (que emerge das bases) texto que você compartilhou é, essencialmente, um lamento pela derrota da "democracia cultural" e a consagração do modelo neoliberal, que para Coelho é o ambiente onde a cultura se transforma em mercadoria e o acesso a ela se torna um privilégio.
Abaixo, detalho como os pontos do texto se conectam com as ideias de Teixeira Coelho:
1. O Fim do Sonho da Democracia Cultural vs. A vitória do Neoliberalismo
No Texto: O título "Pelo fim do SNC?!" e a pergunta sobre a "Cultura Viva" já estabelecem o tema: a erosão das políticas públicas de cultura construídas para serem participativas (como o Sistema Nacional de Cultura - SNC e o programa Cultura Viva). O texto descreve um cenário onde "os interesses individuais superam o coletivo", onde há "tratamento desigual" e "imposições de cima para baixo". A frase final é a sentença: "O neoliberalismo venceu!"
Relação com Teixeira Coelho: Coelho sempre alertou para o perigo da lógica de mercado invadir o campo da cultura. O neoliberalismo, para ele, não é apenas uma política econômica, mas um projeto que transforma o cidadão em consumidor e a cultura em entretenimento. O texto mostra a consequência disso: a "cultura" deixa de ser um direito de todos (democracia cultural) e vira um negócio para poucos, gerando o "apartheid social, cultural e político" mencionado. O "fim do SNC" é o símbolo da derrota do projeto de gestão pública e participativa da cultura, que Coelho ajudou a conceituar, para um modelo gerido por interesses privados e de balcão.
2. A "Miséria da Solidariedade" e o Fim do Coletivo
No Texto: "A miséria da solidariedade é a nova cultura estabelecida... enquanto tudo que é coletivo se esgota. As pessoas com cidadania estão cada vez mais individualizadas."
Relação com Teixeira Coelho: Coelho discute a "cidadania cultural", que é a capacidade do indivíduo não só consumir, mas participar e produzir cultura, sentindo-se parte de uma coletividade. O texto descreve o oposto disso: a solidariedade se torna "miséria" porque é uma ação residual, individualizada (como "cada um cuida de si" da "Lei de Murici") e não uma força política estruturante. A atomização dos indivíduos é a base para a vitória do neoliberalismo, pois um povo fragmentado não reivindica direitos coletivos, como o direito à cultura.
3. O "Apartheid Cultural" e a Separação entre Público e Fazedores
No Texto: "E na cultura, esse campo que deveria ser de encontro, o que se destaca é o tratamento desigual: os diferentes são vistos apenas como público."
Relação com Teixeira Coelho: Essa é uma das críticas mais ácidas do texto e uma das mais caras a Coelho. Na visão tradicional de "política cultural" (que Coelho critica), o Estado e as elites definem o que é "cultura de verdade" e a oferecem para as "massas" (o público). O texto denuncia exatamente isso: os "diferentes" (a periferia, os pobres, os trabalhadores informais) não são vistos como produtores de cultura, como sujeitos com seus próprios valores e estéticas, mas apenas como receptores passivos de uma cultura alheia. É a negação da "democracia cultural", que para Coelho só existe quando todos são também produtores.
4. A Burocracia, o Compadrio e a "Política de Balcão"
No Texto: "o que se destaca é o tratamento desigual... o desdém, a cara de pau, a soberba, a política de balcão, o tráfico de influência e o compadrio... pessoas enlouquecidas pelo acesso ao cofre público, pelas emendas parlamentares que muitas vezes desestruturam as políticas culturais."
Relação com Teixeira Coelho: Coelho é um crítico da gestão cultural baseada em privilégios e relações pessoais. A "política de balcão" é o oposto de um sistema transparente e participativo como o SNC. O texto mostra como, na prática, a "carteirada" e o "compadrio" substituem a política pública, corroendo os canais de participação social e transformando a cultura num campo de disputa por recursos entre uma elite, e não num direito universal.
5. A Definição de Cultura: Conflito entre o "Popular" e o "Erudito" (ou de Mercado)
No Texto: Ele contrapõe duas definições: a primeira, mais acadêmica e ampla ("conjunto complexo de hábitos..."), e a segunda, mais viva e ligada à "Cultura Viva" ("encantamento, magia, reza, tesão e bença"). O pano de fundo é a realidade dura daqueles que vivem à margem, onde a cultura é a "do trabalho de segunda a sábado".
Relação com Teixeira Coelho: Coelho defende justamente essa visão ampla e antropológica de cultura, que não se restringe às belas-artes ou ao mercado de entretenimento. O texto mostra o conflito entre essa cultura viva, enraizada na comunidade, e a cultura hegemônica (que pode ser tanto a erudita quanto a da indústria cultural). Quando o texto descreve a vida do trabalhador, do "vapor", da "doméstica", está falando da produção e reprodução de seus modos de vida, ou seja, da sua cultura. A denúncia é que essa cultura é ignorada, desprezada ou, na melhor das hipóteses, "romantizada" como "contrapartida de projetos culturais".
Conclusão
O texto é um grito de revolta contra a realidade que Teixeira Coelho teorizou como um risco. Ele pega os conceitos de democracia cultural, cidadania cultural, política cultural vs. indústria cultural e os coloca na arena do debate público, mostrando seu fracasso prático.
Se Coelho nos deu o diagnóstico teórico e o dicionário crítico para entender as políticas culturais, o texto que você compartilhou é um laudo de óbito desse ideal, escrito a partir da trincheira de quem vê o "show de horrores" de perto, testemunhando a substituição do sonho do coletivo pela "Lei de Gérson" e a "Lei de Murici". O texto é, portanto, a comprovação empírica e emocional dos alertas feitos por Teixeira Coelho.
sábado, 4 de junho de 2022
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