quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Viva a esquerda festiva de novo nas ruas! Com inspiração em postagem no facebook de Ana Luiza Libório (*)

 

É Alegria Geral ! Hoje é o nosso Carnaval …  🎶
25 de Março seria aniversário de Leila Diniz , a mulher que estava anos luz a frente do seu tempo ! Na foto de 1972 , ela está desfilando como destaque na Banda de Ipanema onde era a madrinha . Infelizmente em 14 de Junho daquele ano , sua história seria interrompida . O avião em que estava indo da Austrália para a Índia caiu sem deixar sobreviventes . Leila viveu apenas 27 anos . 
No Rio, na Barra da Tijuca, tem uma maternidade com seu nome . Linda homenagem ! Um ser de Luz , batizando um lugar onde se dá a Luz .

Os Mais Doces Bárbaros (Ao Vivo No Rio De Janeiro / 1976)



“Esquerda festiva”: origem, história, contradições e atualidade de uma expressão política

A frase “Viva a esquerda festiva de novo nas ruas!” recupera uma expressão que nasceu no ambiente cultural e político do Rio de Janeiro, no início dos anos 1960, e que atravessou a ditadura militar, os movimentos de resistência cultural e a redemocratização. Originalmente associada, muitas vezes de maneira irônica, a artistas, intelectuais, estudantes e militantes de esquerda que combinavam política, boemia, humor e sociabilidade, a expressão também pode ser reinterpretada como defesa de uma política capaz de unir participação pública, cultura, alegria e imaginação de outros futuros.

Para avaliar a pertinência da frase, é necessário distinguir duas coisas: a esquerda festiva como rótulo histórico, que frequentemente serviu para desqualificar determinados setores da esquerda, e a possibilidade de reivindicar hoje a festa como dimensão da vida democrática, da ação cultural e da ocupação das ruas.

1. O que significa “esquerda festiva”?

A expressão designa, em sua acepção histórica, uma parcela da esquerda brasileira formada sobretudo por artistas, jornalistas, escritores, intelectuais, estudantes e outros frequentadores dos circuitos culturais urbanos, particularmente no Rio de Janeiro, que discutiam política e transformação social em bares, festas, encontros artísticos e espaços de convivência.

Não se tratava propriamente de um partido, uma organização política ou uma corrente ideológica com programa e direção próprios. Era uma denominação informal para pessoas e ambientes nos quais a oposição ao conservadorismo e à ordem política se articulava com a boemia, a irreverência, a produção cultural e a valorização da liberdade de comportamento.

A expressão comportava uma ambiguidade desde o nascimento: podia identificar um modo criativo de viver e expressar a oposição política, mas também insinuar que seus integrantes preferiam conversar, beber, fazer humor e frequentar festas a assumir compromissos concretos com as lutas sociais.

A historiografia registra que essa ambiguidade acompanhou a expressão desde os anos 1960.

2. Onde e quem criou o termo?

Carlos Leonam, jornalista e colunista

Rio de Janeiro, 1963

A autoria da expressão é atribuída ao jornalista Carlos Leonam, segundo o relato do escritor e jornalista Zuenir Ventura em seu livro 1968: o ano que não terminou. A expressão surgiu no ambiente boêmio e intelectual carioca, em meio às discussões políticas que antecederam o golpe de 1964.

A história mais conhecida relaciona o surgimento do termo a uma discussão sobre duas esquerdas, uma chamada de “positiva” e outra de “negativa”, distinção atribuída ao então ministro San Tiago Dantas. Leonam teria acrescentado, de maneira irônica, uma terceira categoria: a esquerda festiva.

O ambiente dessa criação era o Rio de Janeiro do início dos anos 1960, com seus bares, cinemas, jornalistas, artistas e intelectuais. O Cinema Paissandu e seus arredores, por exemplo, ficaram associados à sociabilidade de uma geração de jovens politizados, conhecida como Geração Paissandu.

É importante fazer uma ressalva: a autoria é atribuída a Carlos Leonam, mas isso não significa que ele tenha inventado sozinho o comportamento social que o termo passou a designar. A expressão nomeou uma realidade cultural e política que já estava se formando.

3. Em que período a expressão foi mais utilizada?

1963–1967: nascimento e consolidação

A expressão surgiu antes do golpe de 1964, mas ganhou força no ambiente político e cultural posterior à instauração da ditadura. Parte da esquerda passou a recorrer aos encontros, ao humor e à produção artística como espaços de convivência, crítica e resistência.

1968–1970: repressão, humor e resistência cultural

O endurecimento da ditadura, sobretudo depois do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968, restringiu a participação política e a liberdade de expressão. O jornal O Pasquim tornou-se uma referência da crítica humorística e comportamental, associando irreverência e contestação política.

Anos 1970 e 1979–1980: expansão cultural e redemocratização

A expressão continuou a circular, associada a iniciativas como a Banda de Ipanema, espetáculos musicais, debates públicos, imprensa alternativa e encontros culturais. As festas de retorno de exilados também fizeram parte desse repertório.

Não existe uma data única em que o termo tenha deixado de ser utilizado. O que se pode afirmar é que sua maior força histórica está ligada às décadas de 1960 e 1970, com prolongamentos no processo de abertura política e redemocratização.

4. Quais foram os aspectos positivos?

A contribuição histórica que se pode reconhecer nessa experiência não está simplesmente em fazer festas, mas em compreender que a cultura, o humor e a sociabilidade também participam da vida política.

1. A alegria como forma de resistência. Sob uma ditadura que censurava, perseguia e prendia opositores, manter espaços de convivência, criação e crítica ajudava a preservar vínculos sociais e a recusar a normalização do autoritarismo. O poeta Ferreira Gullar, associado a esse ambiente, interpretou a festa como uma maneira de a esquerda continuar existindo e resistindo.

2. O humor como instrumento de crítica política. O Pasquim demonstrou que a sátira, a caricatura, a irreverência e a linguagem cotidiana podiam confrontar o poder e questionar os padrões conservadores. Seu humor não eliminava o conteúdo político; muitas vezes, era justamente o meio pelo qual a crítica se tornava pública.

3. A aproximação entre cultura e política. Música, teatro, literatura, carnaval e debates ampliavam as formas de expressão política para além das reuniões partidárias e dos discursos formais. Iniciativas como o espetáculo Opinião, o samba do Zicartola e os encontros no Teatro Casa Grande mostram como a produção cultural podia integrar o ambiente de resistência e debate público.

4. A valorização da liberdade de comportamento. A contestação também alcançava costumes, relações pessoais e formas de viver. A política deixava de ser apenas uma disputa pelo Estado e passava a incluir questões relacionadas à autonomia individual, à liberdade de expressão e à crítica das convenções sociais.

5. A construção de redes de convivência e solidariedade. Bares, redações, espaços culturais e encontros entre artistas e intelectuais podiam funcionar como lugares de circulação de ideias, apoio mútuo e articulação de iniciativas. Nem toda resistência se organizava como partido ou movimento clandestino.

5. Quais foram os aspectos negativos e as críticas?

A expressão também contém problemas que não devem ser ignorados, inclusive quando se pretende recuperá-la de maneira afirmativa.

- Distância entre discurso e prática. A crítica mais recorrente era a de que alguns participantes discutiam revolução, socialismo e transformação social sem se comprometerem de maneira continuada com a organização popular ou com as consequências concretas da militância.

- Predomínio de círculos urbanos e socialmente restritos. A imagem histórica da esquerda festiva ficou muito ligada aos ambientes boêmios da Zona Sul carioca, especialmente Ipanema. Isso podia produzir uma distância entre a sociabilidade de artistas e intelectuais e as condições de vida de trabalhadores, moradores das periferias e populações com menor acesso aos bens culturais.

- Risco de substituir organização por celebração. A festa pode reunir pessoas e criar vínculos, mas não garante, por si só, continuidade política, formulação de propostas, mobilização social ou conquistas institucionais.

- Desqualificação da militância. A expressão foi utilizada de forma pejorativa para sugerir frivolidade, irresponsabilidade ou falta de compromisso. Essa crítica não vinha apenas de setores conservadores: também havia setores da própria esquerda que valorizavam a disciplina, a organização e a dedicação militante e viam com desconfiança os ambientes boêmios.

- Risco de romantizar a própria história. A repressão sofrida por artistas e intelectuais não significa que toda festa fosse resistência, assim como o engajamento cultural não tornava todos os participantes igualmente comprometidos com as lutas sociais.

Há, portanto, uma distinção importante: a crítica à ideia de que a festa basta para transformar a sociedade não é o mesmo que negar a importância política da cultura, do humor e da alegria.

6. O que a esquerda festiva deixou como legado cultural?

O Pasquim

A irreverência jornalística e o humor como ferramentas de crítica aos costumes, às autoridades e ao autoritarismo.

Dossiê da Biblioteca Nacional Digital

Show Opinião

O encontro entre música popular, crítica social e resistência cultural, com artistas como Nara Leão, Zé Keti e João do Vale.

Banda de Ipanema

O carnaval como espaço de convivência, irreverência e contestação dos padrões sociais.

Debates culturais e encontros públicos

Os ciclos de debates no Teatro Casa Grande demonstraram que espaços artísticos também podiam se converter em lugares de discussão sobre os rumos do país e a redemocratização.

Esses exemplos não devem ser tratados como realizações exclusivas de uma corrente organizada chamada esquerda festiva. São iniciativas de um campo cultural mais amplo, cujos integrantes, motivações e formas de atuação eram diversos.

7. Análise da frase: “Viva a esquerda festiva de novo nas ruas!”

A frase pode ser compreendida em três dimensões.

A dimensão histórica: recuperar a expressão significa resgatar uma memória da esquerda brasileira que associou a crítica política à irreverência, à cultura e à liberdade de comportamento. É uma maneira de questionar a ideia de que a ação política precisa ser sisuda, austera ou limitada à linguagem dos partidos.

A dimensão cultural: a frase sugere que as ruas não são apenas espaços para passeatas, discursos, reivindicações e disputas eleitorais. São também lugares de música, dança, teatro, carnaval, encontros, convivência e criação coletiva. A cultura pode contribuir para que as pessoas se reconheçam como participantes da vida pública, e não somente como espectadoras das decisões tomadas por outros.

A dimensão crítica: o trecho “de novo nas ruas” pode ser interpretado como uma convocação à presença pública, à retomada da convivência e à expressão coletiva. Mas a palavra “festiva” não deve apagar a necessidade de organização, participação social, compromisso com direitos, continuidade das lutas e capacidade de formular propostas.

A pertinência da frase depende, assim, do sentido que se atribui a ela. Se “esquerda festiva” significar uma política reduzida à comemoração, à performance e à sociabilidade de grupos restritos, permanecem válidas as críticas históricas. Se significar uma política que incorpora a alegria, a arte, o humor e a celebração como dimensões da democracia, a expressão ganha outro alcance: reivindica que a transformação social também precisa criar condições para uma vida mais livre, digna e culturalmente rica.

É uma interpretação possível do legado histórico, e não uma afirmação de que os conflitos e limites daquela experiência tenham desaparecido.

8. Uma atualização possível para a cultura brasileira e sergipana

Pensada a partir da ação cultural, a frase pode abrir uma discussão que ultrapassa a memória carioca dos anos 1960. Em Sergipe, por exemplo, a questão seria como aproximar manifestações culturais, formação política, participação cidadã e organização comunitária, sem reduzir a cultura a entretenimento nem transformar toda atividade cultural em propaganda partidária.

A pergunta prática seria: como fazer com que a alegria dos encontros, dos festivais, das festas populares, do teatro, da música e do audiovisual se articule com a democratização do acesso à cultura, o fortalecimento dos Pontos de Cultura, a participação nas políticas públicas e a ampliação das oportunidades para grupos historicamente excluídos?

Essa abordagem também permite distinguir uma festa produzida para consumo de um processo de ação cultural no qual as próprias comunidades participam da criação, da organização e da definição dos seus objetivos. Nesse segundo caso, a celebração pode ser simultaneamente experiência estética, exercício de cidadania, fortalecimento de vínculos e produção de memória coletiva.

9. Conclusão: o que a frase afirma — e o que ela precisa preservar

“Viva a esquerda festiva de novo nas ruas!” é uma formulação de memória e de provocação política. Sua força está em recuperar a possibilidade de uma política que não renuncie à alegria e à cultura. Seu limite aparece quando a celebração se torna substituta da organização e do compromisso com a transformação social.

A expressão pode ser ressignificada sem idealizar o passado: a festa não precisa ser o oposto da luta, assim como a seriedade não precisa significar tristeza, sectarismo ou rigidez. O desafio é fazer com que a energia dos encontros se converta também em participação duradoura, criação coletiva e ampliação dos direitos.

Em síntese, a questão não é escolher entre uma esquerda festiva e uma esquerda comprometida, como se alegria e compromisso fossem incompatíveis. É pensar em formas de ação política e cultural nas quais a festa seja parte da participação democrática, a cultura seja parte da transformação social e a presença nas ruas não termine quando a música acaba.

Fontes para aprofundamento

  1. Zuenir Ventura, 1968: o ano que não terminou — referência para a história da expressão e da geração política e cultural daquele período. Edição da Companhia das Letras.

  2. Biblioteca Nacional Digital — história de O Pasquim, suas figuras e seu papel na imprensa alternativa. Consultar o dossiê.

  3. Desbundando em anos de chumbo: contracultura, produção artística e Os Novos Baianos — artigo acadêmico que contextualiza a contracultura e os circuitos culturais do período. Ler na revista História.

  4. Felipe Quintino, tese sobre Zuenir Ventura, jornalismo e testemunho — pesquisa que aborda a esquerda festiva e os circuitos culturais e intelectuais cariocas. Consultar a tese na USP.

A trilha da pesquisa foi construída por Zezito de Oliveira  utilizando o  Chat GPT

A polêmica entrevista de Leila Diniz ao Pasquim. AQUI 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Esquerda cirandeira: quando a crítica à cultura popular afasta a esquerda do coração da nossa gente


(*) - É uma renomada arquiteta, urbanista e gestora cultural sergipana, formada pela FAU/UFRJ com especializações em planejamento urbano e restauro de monumentos. Com mais de 40 anos de carreira, ela se destaca na preservação do patrimônio histórico nacional por meio de passagens por órgãos públicos como o IPHAN e na liderança de entidades como o IAB-SE. Seu projeto mais emblemático e de maior impacto social foi a revitalização e restauro do complexo dos Mercados Centrais de Aracaju, obra concluída no ano 2000 que transformou uma área degradada no principal polo cultural e turístico da capital sergipana. Além disso, assinou o projeto da Pinacoteca de Sergipe e atua fortemente na curadoria de artes visuais através de seu escritório, o Libório Gândara Ateliê de Arquitetura.

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