sábado, 24 de outubro de 2026

ELEIÇÃO 2026 - O CORAJOSO DOM LIMACÊDO, OS BISPOS DA CARTA E OS ACOVARDADOS BISPOS DO BRASIL: A IGREJA E O PERIGO DO "COMPLEXO DE CASSANDRA" -Padre Gegê (*)

 

"Em artigo dirigido aos bispos do Brasil, um padre preto e periférico afirma que “silenciar também é tomar partido” e cobra do episcopado coragem profética diante do avanço da extrema-direita e do segundo turno das eleições presidenciais, defendendo posicionamento claro em favor dos pobres, da democracia e da vida em todas as suas dimensões. O texto evoca Guimarães Rosa, Dom Helder Câmara, os papas Francisco e Leão XIV e a carta de bispos católicos sobre o pleito."


“O que a vida quer da gente é coragem", escreveu João Guimaraes Rosa. E disse jesus: “Não tenhais medo!”. Dependendo da gravidade da situação, um bispo que não "toma partido" não deixa de ser bispo, em perspectiva sacramental, mas desmerece o seu ser paternal que habita em sua alma. E podem sim deixar terríveis dúvidas quanto ao exercício da paternidade na fé e na responsabilidade para com a vida integral do rebanho.

Quantos pais ausentes conhecemos? 

Dizer-se pai é coisa séria demais! É coisa tão séria que diz a Escritura: "A ninguém chameis de pai". Psicologicamente, "Pai" e "Mãe", além de figuras carnais, são arquétipos poderosíssimos do Inconsciente Coletivo. 

 Em nossa reflexão, falo da coragem requerida para todos os bispos/pais do Brasil que exercem, como São José, uma função paternal de real grandeza. Trato, evangelicamente falando, da coragem do pastor que não foge, covardemente, quando o lobo aparece; atitude própria dos mercenários que não se interessam pelas suas ovelhas. Coragem é a força interior que faz agir em perigoso tempo; isso implica "tomar partido", posicionamento e, consequentemente, correr riscos. Adverte padre Júlio Lancelotte: "Quem se mistura com os que apanham, vai apanhar também". 

É necessário registrar que o Brasil conta com uma plêiade valorosa de bispos cujas trajetórias gozam de exemplaridade para toda Igreja. Não podemos deixar de fazer memória dessa nuvem de pais na fé que não deixaram seus filhos e filhas lançados à própria sorte. Entre outros: Dom Helder Câmara, José Maria Pires (Dom Zumbi), Luciano Mendes, Paulo Evaristo Ars, Ivo Locheider, Adriano, Waldir Calheiros, Mauro Moreli, Pedro Casaldaliga... Os bispos de hoje não são "pais sem pais", "pais sem avôs"... É preciso honrar a multidão de testemunhas que com seus báculos sustentaram a defesa da vida em todas as suas dimensões. A CNBB, com avanços e recuos, nunca deixou de levantar a bandeira da dignidade humana. É uma trajetória honrosa. De Medellin à V Conferência Episcopal Latino-Americana em Aparecida, bispos corajosos sustentaram (e sustentam) uma Igreja fiel à opção preferencial pelos pobres ancorada no Evangelho. É um caminho sem volta.

Por que muitos bispos desprezam essa trajetória magnífica animada e sustentada pelo Espírito de Deus?

Não tenho interesse de pautar questões eclesiológicas. Tenho sim o confessado desejo de tomar a simbólica do bispo como pai, "especialmente dos pobres", como afirma a V Conferência de Aparecida, como razão pela qual nenhum bispo pode, por força de seu ministério paternal, descuidar da sorte dos desvalidos. E escrevo na posição filial. No contexto da V Conferência de Aparecida, afirmam os bispos: 

"Para todo povo de Deus, em especial para os presbíteros, procuramos ser pais, amigos e irmãos, sempre abertos ao diálogo". Minha escrita está situada neste plano. É, pois, a voz filial e fraternal de um padre preto e periférico endereçada aos bispos do Brasil – pais na fé e filhos preciosos da Mãe Igreja.  A Igreja (Povo de Deus, como enfatiza o Concílio Vaticano II), não se reduz   ao episcopado; mas não se diz sem ele.

O sacramento da ordenação imprime caráter indelével ("ex opere operato"), mas este reclama uma personalidade suficientemente capaz de suportar o peso das opções fundamentais do Evangelho e da caminhada da Igreja. Por vezes, uma coisa são os documentos e suas deliberações, e bem outra são as ações concretas. 

Os bispos, na compreensão profunda da Igreja, não são figuras decorativas ou notas de rodapé na obra salvífica/libertadora de Deus no coração da história. São pais na fé e, sobretudo em tempos desafiadores, como o segundo turno das eleições para presidente do Brasil (25), não podem deixar de exibir uma “coragem criativa”, nos termos da Carta Apostólica "Patris corde” (“Coração de pai”) do Papa Francisco. A propósito, escreveu Francisco em tom comprometedor: "São José é invocado como protetor dos miseráveis, necessitados, exilados, aflitos, pobres e moribundos. E pela mesma razão a Igreja não pode deixar de amar em primeiro lugar os últimos, porque Jesus conferiu-lhes a preferência ao identificar-Se Pessoalmente com eles”. Então, nos corpos flagelados destes, segundo Francisco, encontramos sempre “o Menino e sua mãe”. José tomou partido! 

Estão os bispos dispostos a "tomar partido" contra o perigo da ascensão da extrema-direita? Estão dispostos, à luz do Evangelho, a apontar sistemas políticos de poder pautados na violação dos direitos e na sacralizacão do ódio e da violência?

Por que muitos preferem o silêncio e a falsa neutralidade?

O que realmente ganham com isso? Que privilégios não estão dispostos a perder?

Silenciar também é tomar partido!

Quando digo "tomar partido" me refiro a posicionamentos concretos na defesa dos pobres e vulnerais à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja. Papa Francisco deixou um extraordinário legado no horizonte da defesa da vida. Papa Leão, na mesma direção, segue “tomando partido” diante dos que promovem a guerra, o terror e o ódio.

Ancorado nos valores do Evangelho, não teve e não tem medo de Trump! O Papa "tomou partido"! Apareceu ao mundo como um pai responsável. 

Sobre o avanço da extrema direita, disse corajosamente, Leão XIV que os ideários que carregam não constituem expressões autênticas do cristianismo. Isso é "tomar partido", assumindo inúmeras críticas e ataques. É necessário lembrar o testemunho de Dom Helder Câmara.  Diz o bispo, pai e profeta: "Eu não tenho medo quando dizem: 'A Igreja está se metendo em política'". E continua o bispo: "depende do que se entende como política.  Se política é sinônimo de preocupação com o bem comum, é preocupação com os direitos fundamentais da criatura humana. Política, neste sentido, não é só um dever da Igreja, é uma obrigação da Igreja".

Há tipos de bispo/pais aprisionados no mundo institucional e burocrático da Igreja. Vivem sim confinados em seus palácios, alheios aos gritos e dores do mundo. Não são bispos/pais "em saída".  Afirma Dom Helder: "Partir é não ficar apenas em volta dos problemas das instituições a que pertence. Por mais importantes que sejam, maior é a humanidade a quem nos cabe servir".

Há bispos/pais que, contraditoriamente, nutrem uma defesa seletiva da vida: aparecem como tigres ferozes quando o assunto é aborto e sexualidade, mas se mostram gatos mansos, no espriquiçamento contínuo dos seus corpos, quando o assunto é genocídio, chacina e racismo estrutural. 

Importante dizer que a palavra "covardia" vem de "coda"=calda, que vai significar "ter calda abaixada"; ou mais popularmente, aquele que põe o rabo entre as pernas. 

No contexto do segundo turno do pleito eleitoral, que elegerá não só um presidente do Brasil, mas definirá rumos de nossa pátria, as palavras corajosas de Dom Limacêdo, bispo de Afogado de Ingazeira (PE), em 11 de outubro, devem, ser consideradas não como uma "politicagem" barata e com motivações ideológicas, como muitos incomodados querem fazer crer. São sim um alerta profético de um bispo que assume no concreto da vida o lugar de pai responsável e profetados pobres. Diz o negro/bispo/pai:

"O que está em jogo não são duas pessoas, é um modelo de sociedade. É muito mais amplo do que duas pessoas. Corremos o risco de enfrentar uma ditadura. Digo sem medo de dizer isso. Tenho a responsabilidade em dizer. Se eu não disser, eu estou pecando diante de Deus e diante de vocês. Eu, que sou o pastor dessa diocese, não posso me dispensar desse anúncio”. 

E o bispo/pai disse o que eu considerei mais forte e belo: “Não seria fiel aquilo que eu prometi quando fui ordenado padre, quando fui ordenado bispo”. 

Eis, pois, a voz de um bispo/pai "em saída". 

"Sair" exige, por vezes, enlamear-se, pondo em risco o próprio nome ou reputação; é pôr a cara à tapa, assumindo o peso da decisão. Ao contrário há bispos que vivem, como diz o teólogo Ronilso Pacheco na obra “profetismo: utopia & insurgência”, para "'sacralizar a reputação', mesmo quando, ao invés de usar este termo, a expressão mais utilizada seja mais palatável, como 'equilíbrio', 'ponderação', 'saberia', 'discernimento' ou 'precaução'".

Em posição contrário, estão os corajosos bispos do Brasil que, no dia 22 de outubro, escreveram e assinaram a histórica e profética CARTA DE BISPOS CATÓLICOS AO POVO DE DEUS DIANTE DO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAS DE 2026. Segundo a Carta, a Igreja não pode ficar do lado que "ameaça frontalmente diversos pontos centrais da Doutrina Social da Igreja DSI), a existência da democracia, da soberania nacional e a prática do bem comum". 

Mas, a bem-aventurada Carta começa lembrando as desconcertantes palavras do Papa Leão XIV em sua primeira encíclica. Afirma o Papa:

"Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros...". 

Minha escrita versa sobre isso. Por essa razão, é voz de um filho aos pais.

Em linguagem simbólica, na minha compreensão, os padres não somos "edipianos", isto é, não desejamos a morte do pai (bispo) para desposarmos a mãe (Igreja). Somos, na minha acepção psicomitológica, muito mais telemaquianos, isto é, somos o Telémaco que, na Odisséia de Homero, procura desesperadamente o rosto e a voz do pai-Ulisses. Em outros termos, sobretudo em momentos sombrios e desafiadores, sempre esperamos o rosto e a voz dos bispos, a voz do pai – ainda que este se encontre engolindo seus próprios filhos, por conta do carreirismo e do poder, como o Cronos devorador da mitologia grega; ou distante como  Ulisses na Odisséia; ou como Agamenon que, na Ilíada,  mata sua própria filha (Ifigênia) por causa do triunfo da guerra; ou vivo/morto como o pai do conto "A terceira margem do rio" de Guimarães Rosa; ou realmente morto, como o Rei Hamlet de Shakespeare. 

Onde estão os pais? O que fazem agora?

Todo grito pelo pai, sobretudo dos desesperados, ao fim e ao cabo, de uma forma ou de outra, reedita na história o grito de Jesus pendente no madeiro: "Eli, Eli, lama sabactáni"?

É importante ressaltar que, no que se refere a Cristo, todos estamos no mesmo barco. Mas, na vida concreta, há bispos e cardeais (e padres também) que vivem confortavelmente nos seus "iates" palacianos, teológicos e doutrinários, enquanto grande parte do povo (e dos padres) atravessam perigosos mares sem um pedaço de madeira para se agarrar. Lembra oportunamente o teólogo Leonardo Boff: "Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam".

Para vergonha do Evangelho, há autoridades da Igreja mais preocupadas em defender os privilégios dos que dominam do que os direitos dos vulneralizados. São eles, sempre, eclesiasticamente, bajulados e blindados, mas insensíveis e infelizes pastores que, vendo as ovelhas em risco de morte, ainda assim, nelas só conseguem enxergar a carne, o couro e a lã.

Afirma, magistralmente, o pretíssimo teólogo Ronilso Pacheco: "Os palácios escolheram seus profetas e os (pseudo) profetas escolheram os seus palácios". 

Para um exame de consciência eclesial, a partir de cima, são bem-vindas as palavras de Dom Helder Câmara, por mais que possam doer aos ouvidos dos filhos e filhas da Santa Madre Igreja. Diz com extraordinário realismo o bispo/pai/ - irmão dos pobres, como o chamou São João Paulo II: 

"A Igreja não é sempre tão bela, tão pura, tão corajosa e sincera como ela deveria, e mesmo como ela o queria ser".

Por fim, o que, filialmente, digo vale para toda Igreja (e ultrapassa o pleito eleitoral): do divórcio, por vezes escandaloso, entre o falado e o vivido, é que penso no perigo do Complexo de Cassandra".  

Na mitologia grega, Cassandra fez um pacto com o deus Apolo, a partir do qual recebeu o dom de profetizar.  Mas, como não honrou o combinado, recebeu a terrível maldição: embora profetizasse a verdade, ninguém acreditaria em suas palavras.  Por exemplo, Cassandra alertou aos troianos quanto ao perigo do "cavalo de Tróia" pensado pelo astuto Ulisses, mas ninguém deu crédito às suas palavras. Ela disse a verdade, mas ninguém acreditou!

Os heróis gregos, então, por conta do cavalo, atravessaram a muralha e venceram a guerra. 

Cassandra é, pois, em minha particular reflexão, imagem adequada da profecia desacreditada e, consequentemente, fracassada, em virtude da contradição interna daquele ou daquela que a profere. 

Pode a Igreja sofrer o "complexo de Cassandra"?

Que cada um responda por si. Da minha parte, deixo as palavras desconcertantes de Dom Helder Câmara. E quem tiver ouvidos para ouvir, ouça.  

Adverte o bispo/pai/profeta: a massa ou o povo vai despertar: com a Igreja, sem a Igreja ou contra a Igreja. 

E se o povo, olhando para trás, tiver a percepção de que a Igreja não teve coragem de defendê-lo, conclui o bispo vermelho: "então, acabou o cristianismo"!

"Veni creator Spiritus" - Vinde, Pai dos pobres!

(*)  Doutor em Ciência da Religião pela PUC-SP, Mestre em Teologia Sistemática e psicólogo clínico pela PUC-RJ e pós-graduado em Teoria Junguiana pelo IBMR.


quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Mensagem do Blog da Cultura aos cristãos católicos e de outras denominações com os bispos da CNBB e com o Papa Leão XIV para as eleições de 25 de Outubro de 2026



Nenhum comentário: