domingo, 1 de março de 2026

A astúcia lulista: sobrevivência molecular que mantém o campo popular vivo onde a ruptura seria aniquilação. Por Sérgio Alarcon

"A astúcia do lulismo não é uma ideologia, mas uma inteligência prática de sobrevivência e transformação molecular que, ao navegar pelas restrições estruturais do Brasil, reconfigura o sensível e mantém vivo o campo popular onde a ruptura frontal seria aniquilação".

Eu não conheço ninguém que tenha conseguido reverter uma Lei Magnitsky” - Eduardo Bolsonaro

Agora é só Maduro dedurar o Lula” - Nikolas Ferreira

Se o Lula não tivesse ganhado a eleição em 2022 o Brasil teria virado uma Venezuela.” - Pedro Ronchi, pós sequestro de Maduro.

Superar o lulismo é um debate inadiável” - Jonas Manoel. 

Há um modo recorrente de interpretar a política brasileira, especialmente a partir de setores da esquerda, que oscila entre duas leituras igualmente paralisantes. De um lado, a narrativa da derrota histórica da esquerda dita “revolucionária”: a guerrilha fracassada, a institucionalização sem ruptura, a degeneração pragmática do projeto dos anos 1970-1980. De outro, a crença resignada de que, diante do fascismo social e do cinismo organizado do Centrão, resta apenas apoiar Lula como último dique possível - ainda que esse dique pareça fazer parte do próprio sistema que produz o desastre.

Nessa leitura, a esquerda teria se entrincheirado num dogma defensivo (“é isso ou o pior”); o PT teria se tornado o oposto do que nasceu para ser; e Lula apareceria ora como vítima da correlação de forças, ora como seu engenheiro perverso - ao entregar rádios aos evangélicos, ministérios aos fisiológicos, espaço ao orçamento secreto, teria capitulado integralmente. O resultado seria um circuito fechado: Lula enfraquece a esquerda ao governar; ao enfraquecer a esquerda, torna-se a única alternativa; e assim se perpetua como gestor inevitável de uma ordem que não transforma.

Essa crítica é intelectualmente sofisticada, mas opera num único regime de inteligibilidade: o da macropolítica, da estratégia transparente, do programa coerente, do sujeito histórico reconhecível e da transformação como evento legível. É uma política pensada como se o Brasil fosse um espaço iluminista, no qual a razão pública se expressa por meio do debate racional, da disputa ideológica clara e de instituições minimamente estáveis.

É precisamente contra esse pressuposto que, mobilizando autores como Jacques Rancière, William James (e algo de John Dewey, seguindo certa tradição do pragmatismo) - e a noção de métis, tal como elaborada por Detienne e Vernant e reconectada por Deleuze e Guattari ao campo da micropolítica, tentarei demonstrar como, sob outra perspectiva, funcionam Lula e o lulismo. 

Acho que todos esse autores, a seu modo, deslocam a política do plano da norma para o da prática, da experiência e da invenção situada. Mas alguns dirão que se trata de uma verdadeira colcha de retalhos conceitual - e podem estar certos -, mas a gente tem que exercitar às vezes aquele procedimento que Deleuze ensinou: permitir nos guiar pelos “intersessores”; deixar-se conduzir por encontros heterogêneos, mesmo quando entre eles não se ofereça, à primeira vista, qualquer promessa de conciliação sistemática.

Rancière nos lembra que o ódio à democracia raramente se dirige, em primeiro lugar, às instituições formais. Ele se volta, sobretudo, contra aquilo que essas instituições são incapazes de controlar: a irrupção da igualdade em lugares onde ela não foi previamente autorizada. Para Rancière, democracia não designa um regime político estável, nem um arranjo institucional consolidado, mas o nome do escândalo que emerge quando aqueles que, segundo a ordem dominante, “não deveriam governar” passam a contar, a falar e a interferir no comum, no coletivo.

A política democrática, nesse sentido, não se apresenta como uma epopeia racional guiada por consensos ou procedimentos técnicos. Ela se manifesta como um deslocamento do sensível: uma perturbação daquilo que pode ser visto, dito e pensado. Ao romper a chamada “ordem policial” - isto é, a distribuição hierárquica dos lugares, das vozes e das competências - a democracia introduz um ruído, um excesso, um desacordo que desestabiliza as fronteiras do possível.

Já Deleuze e Guattari, ao retomarem a métis grega (uma retomada implícita, não literal), descrevem uma racionalidade “menor”, astuciosa, que opera nos interstícios e nas turbulências dionisíacas - não o logos soberano apolíneo, mas a inteligência dos que não controlam o jogo e sobrevivem criando desvios, atalhos, acomodações táticas. É a sabedoria da mãe que estica o orçamento familiar, do sindicato que arranca ganhos sem romper o pacto, do favelado que dribla o Estado policial e o mercado predatório ao mesmo tempo. Certamente não visa algo grandioso como uma teoria da emancipação última e grandiosa; mas é ciência da sobrevivência criativa, in acto, na realidade, pois in potentia, em potência, no porvir que se sonha, não há o pão que mata a fome aqui e agora…

Aplicada ao lulismo, essa dupla chave - rancieriana e deleuzo-guattariana - permite uma leitura materialista menos, digamos, “moralizante”. O lulismo não é, em primeiro lugar, uma ideologia nem um programa coerente: é um modo de operar que emerge de experiências concretas da classe trabalhadora brasileira ou, em outras palavras, um modo de produção desejante imediato, maquínico, molecular que  emerge a partir das fábricas do ABC, das comunidades eclesiais de base, dos sindicatos, e das periferias racializadas. Trata-se de uma política que aprendeu, na prática, que no Brasil a ruptura frontal quase sempre termina em aniquilação - política ou literal.

Nesse sentido, o lulismo não representa a derrota da geração fundadora, mas sua metamorfose num terreno em que a revolução clássica se tornou estruturalmente inviável. A vontade de transformação não desapareceu; ela se molecularizou, como diria Guattari. Ela se deu sob a forma de crédito popular, valorização real do salário mínimo, formalização do trabalho doméstico, expansão universitária massiva, isenção do imposto de renda para milhões, políticas de transferência de renda e a entrada concreta de dezenas de milhões de pessoas na vida econômica, simbólica e cidadã do país. Não são apenas reformas administrativas: são, no sentido deleuzo-guattariano, produção de subjetividade (ou, em termos rancierianos, é uma reconfiguração do sensível). Diria, para horror de alguns, um “Marx menor”, cartográfico, situacional, sensível às forças reais do campo onde efetivamente a luta é ao mesmo tempo real e possível - in actu e potentia.

Aqui o diálogo com o pragmatismo deweyano parece-me oportuno e direto: a democracia não é aplicação de princípios universais, mas aprendizagem coletiva experimental sob condições imperfeitas. O lulismo, nesse registro, é política experimental em contexto de restrição estrutural.

A crítica à suposta despolitização lulista falha em perceber que, nas periferias, a política não se realiza prioritariamente na linguagem do debate público ilustrado, mas na linguagem da vida que tenta se organizar. Quando a filha da faxineira entra na universidade, quando a doméstica tem carteira assinada, quando o jovem negro acessa um instituto federal, não se trata apenas de distribuição de benefícios: trata-se de reconfiguração do campo do possível, do sensível - exatamente o tipo de deslocamento que Rancière identifica como político, ainda que não se anuncie como tal.

Acusar Lula de “fabricar” a correlação de forças que o limita é atribuir-lhe um poder quase soberano que ele nunca teve. A estrutura brasileira - neopentecostalismo de massa, patrimonialismo, rentismo, violência policial, oligopólio midiático - precede e excede qualquer liderança individual. Lula não cria esse diagrama; ele navega nele. E navegar não é endossar: é praticar a métis necessária para que o campo popular não seja simplesmente esmagado.

Para a leitura que chamei de “moralista”, isso é acomodação. Para a leitura genealógica, pragmática e micropolítica, é lucidez trágica sobre o terreno real da luta. No Brasil, o herói que tenta romper frontalmente a correlação de forças é rapidamente triturado - os exemplos últimos de Jango, Marighella, ou mesmo Brizola e Dilma, são lembranças incômodas disso. A astúcia que desloca gradualmente a estrutura permanece viva, e com ela a própria possibilidade de conflito futuro.

A política brasileira nunca coube na narrativa da vanguarda heróica nem na da derrota total. Ela opera num regime híbrido, mestiço, micropolítico, experimental, ensaístico. Como sugerem Rancière, Dewey e Deleuze-Guattari, a democracia real não se apresenta como ordem estável nem como redenção final, mas como processo instável de abertura do campo do comum. No Brasil, essa abertura raramente vem como épico; surge como infiltração, rearranjo, invenção cotidiana.

Obviamente a métis não substitui a crítica - ela a torna, talvez, mais precisa. Sim, o lulismo está longe de ser revolucionário no sentido clássico. Sim, a esquerda institucional perdeu capacidade organizativa. Mas também é verdade que, sem a astúcia lulista, o campo popular teria sido devastado pela ofensiva fascista-oligárquica recente. Risco que, aliás, ainda existe.

"Este artigo acima reforça uma opinião que costumo expressar: se o nosso olhar do campo popular focar apenas na macropolítica, o pessimismo e o derrotismo prevalecem. Por outro lado, ao priorizarmos a micropolítica — o trabalho cotidiano e prático, sem perder a conexão com o todo — percebemos o quanto se pode avançar 'por baixo' das grandes estruturas. Isso nos livra da paralisia dos debates puramente intelectuais e elitistas, que criam uma perfeição virtual sem aderência à realidade complexa e contraditória em que o povo vive. É dessa base que retiro o combustível para continuar acreditando em transformações possíveis, mesmo que não tenham o alcance totalizante que desejaríamos."

Zezito de Oliveira