sábado, 14 de março de 2026

O documentário Hora do Recreio mostra a realidade brutal nas escolas das periferias do Rio e a arte como sublimação, mas também ato de rebeldia. Blog do IMS e Outras Palavras..

 

Enquanto o mundo olha para o Oscar, "Hora do recreio", de Lúcia Murat, chega aos cinemas para lembrar que o cinema também pode ser escuta. O filme acompanha adolescentes de escolas públicas da periferia do Rio — em sua maioria negros — e os coloca no centro da narrativa. Eles falam de violência, racismo, homofobia, abandono. Mas também criam: colagens, teatro, dança. A realidade brutal não é apenas denunciada, mas transformada em arte. A diretora não invade; ela pactua. O resultado é uma obra coletiva, horizontal, que pulsa com a vitalidade de quem, apesar de tudo, insiste em existir.

A sequência da excursão ao centro do Rio é das mais belas: os alunos descobrem a Candelária — palco de diretas e de chacina —, o Cais do Valongo, porta de entrada de africanos escravizados, e o CCBB, com sua arquitetura e arte modernista. A história não é lição, é descoberta. E o humor, o frescor, a rebeldia adolescente permeiam tudo. Não é filme militante; é filme vivo. Vencedor do Urso de Cristal em Berlim, "Hora do recreio" prova que, quando a câmera se curva para ouvir, o que emerge é muito mais que denúncia: é potência.

Por José Geraldo Couto

🎥👂🤝

𝐋𝐮́𝐜𝐢𝐚 𝐌𝐮𝐫𝐚𝐭 𝐧𝐚̃𝐨 𝐟𝐢𝐥𝐦𝐨𝐮 𝐞𝐬𝐜𝐨𝐧𝐝𝐢𝐝𝐚; 𝐟𝐞𝐳 𝐮𝐦 𝐩𝐚𝐜𝐭𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬. 𝐎 𝐪𝐮𝐞 𝐦𝐮𝐝𝐚 𝐪𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐨 𝐜𝐢𝐧𝐞𝐦𝐚 𝐞𝐬𝐜𝐮𝐭𝐚 𝐞𝐦 𝐯𝐞𝐳 𝐝𝐞 𝐚𝐩𝐞𝐧𝐚𝐬 𝐫𝐞𝐭𝐫𝐚𝐭𝐚𝐫?

Só se fala em Oscar, mas vamos mudar de assunto por um momento. Hora do recreio, de Lúcia Murat, que entra hoje em cartaz, merece toda a atenção possível. É, em linhas gerais, um semidocumentário sobre (e com) adolescentes de escolas públicas de bairros periféricos do Rio de Janeiro. Sob essa descrição sumária, no entanto, encontra-se um filme de riqueza ímpar dos pontos de vista social, cultural, moral, político e artístico.

Dividido em quatro escolas – três de nível médio e uma de ensino fundamental –, Hora do recreio põe em cena meninos – e sobretudo meninas – falando sobre o seu dia a dia e elaborando artisticamente essa experiência, não raro brutal e traumática. Uns (os pequenos) fazem colagens, outros fazem teatro e dança.

Arte como salvação

A equação realidade bruta x sublimação artística está presente na estratégia expositiva desde a primeira sequência, ainda pré-créditos: planos curtos de crianças e adolescentes indo para a escola (a pé, de ônibus, de bicicleta) contrapostos a imagens de uma exposição de quadros que mostram… crianças e adolescentes indo para a escola, sob o rap incisivo A música da mãe, de Djonga. Vida e arte entrelaçadas intimamente.

Na primeira escola, meninas adolescentes, em sua maioria negras, falam sobre violências de gênero que presenciaram ou vivenciaram. São histórias terríveis, de agressões a mães, de pais alcoólatras ou drogados, abandono, medo, solidão. A certa altura aparece a diretora, Lúcia Murat, para agradecer a coragem e a franqueza das meninas. Ficamos sabendo então que aquela é uma sala de aula fake, recriada num outro ambiente, já que a secretaria de educação do Rio não autorizou a filmagem em escolas da rede pública.

Na conversa acalorada, emergem naturalmente outros temas, como racismo, homofobia, transfobia. O tom fica cada vez mais íntimo, confessional, como numa terapia de grupo. Um garoto trans, por exemplo, diz que chegou à beira do suicídio na sétima série porque era impedido de usar os banheiros da escola, tanto o masculino como o feminino. Segundo ele, só um professor o ouvia e acolhia.

Realidade e ficção

Expor desde o início o caráter parcial de encenação não enfraquece a contundência do que é dito e mostrado, muito pelo contrário. Parece até acentuar a veracidade e o frescor do que vemos e ouvimos, pela percepção de que é fruto de um pacto transparente entre filmadora e filmados.

Em outra escola, no complexo da Penha, adolescentes, outra vez quase todos negros, interpretam (eu quase dizia “exorcizam”) em um misto de dança, teatro e mímica seu cotidiano de violência e opressão. Máscaras com recortes de jornais e revistas sublinham o contexto histórico-social, deixando à mostra olhares duros, intensos, como poucas vezes vemos nos palcos ou nas telas.

Estudantes de outra escola transformam em peça de teatro o romance Clara dos Anjos, de Lima Barreto. Em meio ao ensaio de trechos da peça, eles e elas discutem e atualizam os temas presentes na peça: racismo, machismo, opressão de classe. O personagem Cassi Jones, o branco sedutor da garota negra Clara, revela-se muito parecido com os jovens abusadores e estupradores de classe média que têm povoado o noticiário e as redes sociais.

A cidade e a história

Uma das sequências mais bonitas e reveladoras do filme é a que mostra a excursão de um grupo grande de alunos de uma escola de periferia ao centro do Rio. Na Candelária, o professor/guia negro explica os fatos contraditórios acontecidos ali: o comício das diretas e a “chacina da Candelária”. No cais do Valongo, ele lembra que o local era a principal porta de entrada no país dos africanos escravizados. No Centro Cultural Banco do Brasil a garotada se encanta e se diverte com a arquitetura majestosa e as obras de arte modernistas.

Resumido assim, pode-se ter a impressão de um filme sisudo, militante, professoral. Nada disso. Tudo – o horror, a denúncia, a carência – é permeado pelo humor, pela vitalidade e pelo frescor da adolescência. É de vida que se trata ali, afinal. Maltratada, marginalizada, tornada quase invisível, mas também pulsante e transbordante vida.

Realizadora tarimbada tanto no documentário como na ficção, Lúcia Murat atesta em Hora do recreio sua enorme generosidade, curiosidade e capacidade de escuta. Seu filme é, de fato, uma obra coletiva, de criação horizontal, que deve tanto a ela quanto a cada garota e garoto que entregou sua mente e seu corpo ao projeto. O Urso de Cristal conquistado na mostra Generation 14plus do Festival de Berlim consagrou essa qualidade.

Trailler


https://ims.com.br/blog-do-cinema/a-hora-do-recreio-por-jose-geraldo-couto/

Documentário ‘Hora do recreio’ contorna proibição de filmar em escola

Filme de Lúcia Murat, que estreia nesta quinta-feira (12/3), mostra rotina de alunos da rede pública e incorpora os percalços das filmagens




 

Oscarizáveis

Para não dizer que o blog não falou de Oscar, remeto aos textos publicados aqui sobre alguns dos principais concorrentes: O agente secreto, Pecadores, Uma batalha após a outra, Hamnet, Foi apenas um acidente, A voz de Hind Rajab e Frankenstein.

Desvendando Kubrick

Se existe um cineasta-esfinge, cuja obra segue desafiando cinéfilos e estudiosos, é o estadunidense Stanley Kubrick (1928-99). Sua filmografia relativamente pouco numerosa inclui marcos incontornáveis em vários gêneros, do policial (O grande golpe) à ficção científica (2001: Uma odisseia no espaço), do terror (O iluminado) à sátira militar (Dr. Fantástico), do épico antigo (Spartacus) ao drama de guerra (Glória feita de sangue, Nascido para matar), sem falar de suas incursões pela perversão erótica em Lolita e De olhos bem fechados.

Para desbravar o terreno complexo e acidentado dessa obra, o crítico Inácio Araujo, da Folha de S. Paulo, vai ministrar on line um curso compacto, em seis aulas semanais, a partir de 23 de março. Interessados devem escrever para o endereço cinegrafia@uol.com.br. Um bom complemento para o curso pode ser o livro Conversas com Kubrick, de Michel Ciment, editado no Brasil pela Cosac Naify, com tradução de Eloisa Araújo Ribeiro.




Nenhum comentário: