Acredito que a direção principal da CNBB não vai sair de seu lugar para “bater boca” em rede digital com grupos agressivos de católicos tradicionalistas. Vontade até podem ter, mas sabem que esse não é o melhor caminho. Talvez seja o pior. Mas não fazer nada e assistir como se nada tivesse acontecendo, não ajuda em nada diante da escalada delirante de extremistas católicos nas redes digitais e já chegando no tecido social do catolicismo brasileiro.
Uma coisa é certa: o estrago é grande devido a agressividade, estridência e ataques de uma extrema direita católica aboletada nestas redes digitais e seu “método” de ação (que chamam equivocadamente de “apostolado”). Os ataques aos Bispos já se precipitam e faz um tempinho. O caso mais recente são os ataques desonestos e maledicentes a Dom Ionilton. Nesse caso, a situação era tão absurda que o Regional onde atua Dom Ionilton escreveu uma nota pública em apoio irrestrito ao bispo da Prelazia de Marajó.O campo católico progressista precisa de uma política efetiva de comunicação para estas redes digitais. Não precisa ser no mesmo “método” dessa extrema direita católica. O caráter sistemático e formativo ainda é um caminho importante. Já temos uma bibliografia orientadora nesse campo. Trata-se de: “Influenciadores digitais: efeitos e perspectivas” (Ideias e Letras/Paulus, 2024). Não estamos na estaca zero como em 2013. Já é possível fazer um balanço crítico de como as atuais redes digitais são utilizadas por grupos de extrema direita e seu dano à vida democrática deste país.
Dom Joaquim Mol vai no ponto: “Apesar dos riscos, a influência digital já se tornou uma tendência irreversível no campo católico, com a exaltação de algumas figuras públicas e a aceitação de estratégias de influência que, entretanto, muitas vezes não seguem as boas práticas da Igreja.” O Bispo de Santos diagnosticou e apontou uma crítica numa breve síntese extraordinária. O caráter irreversível do uso dessas redes digitais por religiosos e a importância desse uso. Mas o bispo alerta corretamente: “... não seguem as boas práticas da Igreja”. O bispo sabe que temos católicos nestas redes que se tornaram um ponto de divisão na Igreja e confusão pública para os católicos/Católicas.
Acredito ser muito importante um documento orientador em sentido pastoral e a partir de uma espiritualidade mais profunda sobre os meios de comunicação e o papel das redes digitais nos meios católicos. É preciso que se oriente as dioceses na importância e nos perigos no uso dessas redes digitais. A Igreja Católica Romana tem um papel relevante no tecido social brasileiro e sabe do papel político que exerce na vida dos brasileiros e brasileiras. Não se trata de um “jeito católico” nas redes digitais, mas de uma perspectiva evangélico-cristã de usar as redes digitais e saber do seu potencial em termos de formação de mentalidade.
Esse ano de 2026 será um ano de eleições. Em tempos eleitorais, essas redes ficam mais estridentes e politizadas. As disputas e “tretas” tendem a se exacerbar e dividir muito os cristãos. O uso político das redes digitais para divulgação de ideias políticas é uma realidade. Precisamos estar sempre atentos aos projetos políticos nas redes e de como demarca posicionamentos na sociedade brasileira. Não é fácil. É exigente. Trata-se de uma responsabilidade social dos mais importantes na atual quadra histórica.
A CNBB e suas pastorais sociais precisam ter a clareza de que as antigas pastorais de comunicação estão defasadas diante da velocidade das redes digitais. Não se trata de uma mera assessoria de comunicação. É preciso ter uma posição não-ingênua diante destas redes. Como diz João Francisco Cassino: “Já a sociedade do controle é mais sutil, ocorre à distância, penetrando os cérebros e forjando as mentes com seus mecanismos de influência”.
São poucos os Bispos do catolicismo no Brasil que tem uma atividade constante e sistemática nestas redes digitais. A compreensão de que esse “novo areópago” é lugar de evangelização e pastoreio. Trata-se de uma concepção moderna de ação cristã. O problema é que nestas atuais redes quem chegou primeiro foi uma extrema direita que está beirando o alambrado do fascismo. É isto é bastante preocupante. A CNBB tem que ficar em alerta e atenta ao extremismo que nos aflige em dias atuais. Bispos que assumem uma posição crítica e democrática nestas redes é bem pouco. Uma pena!
Uma aposta. Percebo a importância de uma concepção efetiva de aliança de pessoas e grupos na atuação nestas redes digitais. É visível a presença importante de um grupo de católicos progressistas (“esquerda católica”, “Teologia da Libertação”, “Pastorais sociais”, “Padres da caminhada”...) nestas redes digitais atuando, influenciando, demarcando posição e ajudando numa reflexão de uma sociedade justa, fraterna e crítica do sistema capitalista. Será preciso que essas pessoas e grupo pactuem uma aliança estratégica de ação nas redes digitais, num combate cerrado a toda forma de fascismo. E vejo que a CNBB tem um papel importante e impulsionador.
Para um possível projeto formativo, indico a seguinte bibliografia nesse campo das redes digitais em nosso tempo.
BIBLIOGRAFIA
LOVELUCK, Benjamin. Redes, liberdades e controle. Uma genealogia política da internet. Petrópolis: Vozes, 2018.
MEDEIROS, Fernanda de Faria e Outros. Influenciadores digitais católicos. Efeitos e perspectivas. São Paulo: Editora Ideias e Letras/Paulus, 2024.
MATTELART, Armand História da sociedade da informação. São Paulo: Loyola, 2002.
SILVEIRA, Sérgio Amadeo da e outros. A sociedade do controle. Manipulação e modulação nas redes digitais. São Paulo: Hedra Editora, 2018.
SILVEIRA, Sérgio Amadeo da e Outros. Colonialismo digital. Como opera a trincheira algorítmica na guerra neoliberal. São Paulo: Autonomia literária, 2021.
*Romero Venâncio (UFS)*

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