Álvaro Borba e a melhor análise de Frei Gilson e seu projeto político. Atentemos!!!
Prof.º Romero Venâncio (UFS)
Estimado irmão na fé,
O senhor, Frei Gilson, se dispôs a servir o Reino de Deus por meio do ministério sacerdotal. Essa escolha nasce, em geral, de um ardente desejo de imitar a Cristo e servir, sobretudo, aos pobres.
Não o conheço, nem sei de sua história, mas conheço esse chamado: ele acende uma brasa no peito e, como diz a canção, move-se como uma flecha na alma. É como o primeiro amor. Inesquecível, não é mesmo?
Se me permite um conselho fraterno, diria: vá ao encontro daquele menino e daquele desejo inicial. Talvez o homem que o senhor é hoje precise escutar o adolescente que um dia foi — e, com honestidade, responder a si mesmo: ainda há sintonia entre os sonhos daquele rapaz e a forma como o senhor vive o seu ministério?
Como nos recorda Santo Ambrósio, “a honra do sacerdócio não é para proveito de quem a possui, mas para o serviço daqueles que a contemplam”. Tenho certeza de que o senhor estudou isso. Mas será que compreendeu essa mensagem? E mais: há coerência entre o que o senhor é, e o que um dia pensou em ser?
O sacramento da ordem, meu irmão, não o coloca em um patamar de superioridade ontológica (lembra o que é isso, né?), mas o mergulha na responsabilidade do serviço. Não basta usar o verbo “servir” para compor belas frases.
O Evangelho é categórico: quem deseja ser o maior deve ser aquele que mais serve. Compreender isso — e, mais ainda, viver isso — muda tudo.
Por isso, o verbo servir precisa estar inseparavelmente ligado ao substantivo serviço. Servir a Deus não é massagear o próprio ego nem buscar status; é deixar o “eu” de lado para dar lugar ao próximo. Se é feito para aparecer, não é serviço — é vaidade.
Não há contradição maior do que um cristão que, durante o dia, diz desejar a salvação do próximo, mas à noite constrói regras para condená-lo ao inferno.
Do poder que corrompe à vaidade que seduz.
Não por acaso, servir é o oposto dialético de mandar. O filósofo Aristóteles advertia, em sua obra "Polítiká", que o poder se corrompe quando deixa de buscar o bem comum e passa a servir aos interesses de quem o exerce.
E aqui não falamos apenas de política institucional ou eleitoral, mas, do poder exercido por homens que utilizam a fé para manipular consciências — e, muitas vezes, a fé do povo — em favor de ideologias travestidas de orientação religiosa.
A que Senhor o senhor serve quando fala mais sobre pecado do que sobre misericórdia? No contexto eclesial, servir sem serviço transforma-se em poder disfarçado.
Santo Agostinho nos lembra, em suas "Confissões", do perigo do “apetite de louvor”. Para ele, o ser humano se perde quando se coloca no centro, acreditando que a glória de Deus é apenas o reflexo do próprio brilho. Isso tem nome: vaidade.
A vaidade, frei Gilson, não grita; ela sussurra em nome de uma suposta “verdade” e se veste de “zelo”. O religioso vaidoso deixa de olhar para Cristo e passa a olhar para o espelho, exigindo admiração sob o pretexto de um discurso de pecado e piedade, piedade e pecado — repetido, insistente, vazio, resultado de muito ego e pouco Cristo.
O clericalismo e o controle do corpo.
Frei Gilson, o Papa Francisco — a quem o senhor parece citar com uma parcimônia que beira o desconforto — diagnosticou o clericalismo como o “câncer da Igreja”.
O clericalismo é, em última análise, a vaidade institucionalizada. Pior: é a tentativa de controlar o mistério de Deus. Cuidado, meu irmão. A nenhum homem foi dado penetrar plenamente nos desígnios de Deus.
A fé que nasce de Cristo é libertadora. Mas, quando passa a vigiar corpos, julgar aparências e regular o comportamento — especialmente o das mulheres — corre o risco de se tornar instrumento de controle.
Onde deveria haver o bálsamo da misericórdia, instala-se o chicote da norma — e as vítimas, quase sempre, são os mais frágeis.
Falo disso porque algo me inquieta profundamente: quando a fé é reduzida à forma como alguém se veste, sem caridade, escuta e orientação, o que resta é uma distorção do Evangelho. E essa distorção não recai sobre quem é julgado — mas sobre quem julga.
Falo com a humildade de quem reconhece a própria fragilidade. Sou pecador.
Mas há uma lógica perigosa sendo reforçada: a obsessão pelo controle do corpo feminino. A história nos mostra que o moralismo religioso sobre roupas, tatuagens e comportamentos costuma ser o primeiro degrau de uma escada que leva à desumanização.
O senhor já refletiu sobre as consequências disso? Sobre quantas jovens e mulheres se afastam da vida da Igreja e da participação comunitária por causa desse tipo de abordagem?
Muitas chegam à Igreja carregando histórias de dor, desinformação, abandono. A busca delas é por um pouquinho de paz, acolhida e escuta. E o que encontram é apenas julgamento.
Tenho para mim que, nesses casos, o pecado está muito mais no olhar de quem julga do que no coração de quem veste. Quando a religião se torna vigilante do vestuário, ela flerta com uma cultura de posse que, em seus extremos, alimenta a violência — inclusive o feminicídio.
Se o nome de Deus é usado para subjugar a liberdade feminina, não estamos diante de missão, mas da idolatria do patriarcado.
Jesus e o escândalo da misericórdia
Jesus nunca começou pela aparência. Ele acolheu a samaritana, que sequer era vinculada à sua religião. Defendeu uma puta ameaçada de morte por apedrejamento — “prostituta” é um nome mais palatável, não é? — e, curiosamente, não trouxeram o homem que com ela pecava.
Em outro episódio, também com uma mulher "suspeita", Jesus foi convidado para jantar na casa de um homem rico, e ali, surgiu uma mulher que Jesus a acolheu e permitiu que a mesma lhe lavasse os pés com perfumes e bálsamos e os enxugasse com os próprios cabelos.
Enquanto os “puros” de seu tempo viam pecado e impureza, Jesus via dignidade e fé. E mais do que isso: acusavam o próprio Jesus por não reconhecer “quem era aquela mulher” e por se misturar com pecadores.
E olha só que triste, Frei Gilson: é muito fácil imaginar o senhor, nessa cena, ao lado dos doutores da lei e fariseus — não apenas julgando a mulher, mas também questionando o próprio Cristo por acolhê-la.
Mas Jesus respondeu. E respondeu olhando para o fariseu — o religioso julgador das vestimentas e até do provável decote dela — e não para a mulher: “Vês tu esta mulher? […] Os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou.” (Lc 7,30-50).
Ou seja: enquanto o senhor via pecado, Cristo viu amor. Enquanto o senhor julgava, Cristo perdoava. Enquanto o senhor afastava, Cristo acolhia.
Essas respostas de Jesus não lhe inquietam, Frei Gilson?
Santa Teresa d’Ávila dizia: “O Senhor não olha tanto para a grandeza das nossas obras, mas para o amor com que são feitas”. Onde está o amor no julgamento da aparência?
A perseguição e o falso martírio
Tenho acompanhado suas falas, nas quais o senhor interpreta críticas como “sinais de perseguição”, chegando a comparar-se ao próprio Cristo.
Peço-lhe, com caridade: tenha cautela.
Questionamento não é martírio
Muitas vezes, é apenas a realidade batendo à porta. Definitivamente, Jesus não foi perseguido por moralismos de sacristia, mas por romper estruturas injustas, colocar o ser humano acima da lei e denunciar a hipocrisia dos que impunham fardos aos outros sem ajudá-los a carregá-los.
Interpretar toda discordância como perseguição é cair no narcisismo espiritual. Comparar-se a Cristo para se blindar de críticas é uma forma de autolatria.
E causa estranheza seu silêncio diante dos poderosos — como Donald Trump — quando este ataca, covardamente, a figura do Papa Leão XIV e chega ao ponto de se associar à imagem de Cristo, enquanto sua voz se levanta com tanta firmeza para criticar jovens, mulheres e suas escolhas.
Por que o silêncio diante dos poderosos e o grito diante dos pequenos? Isso diz muito sobre sua pregação — e sobre suas escolhas.
O lava-pés como único caminho
Na Última Ceia, Jesus não fez um discurso moralizante. Ele tomou uma bacia e uma toalha. O lava-pés é o antídoto contra a vaidade clerical.
São João da Cruz nos lembra que, ao entardecer da vida, seremos julgados pelo amor. Não pelos seguidores, não pelas visualizações, não pelo rigor das proibições.
A fé verdadeira liberta do medo e da culpa.
Se a sua pregação gera mais medo do que esperança, mais exclusão do que acolhimento, talvez seja hora de voltar ao Cenáculo.
E, se há acolhimento em sua pregação, por que permitir que o medo também fale?
O acolhimento é a parte de Deus em você. A falta dele — talvez seja apenas você mesmo.
Permita-me um último conselho: conserve o que vem de Deus e desapegue-se do que não vem. Abstenha-se daquilo para o qual não foi chamado — especialmente quando isso fere mais do que edifica.
Que o Espírito Santo lhe conceda o dom da humildade, para que o senhor diminua e Cristo cresça.
Fraternalmente,
Toninho Kalunga
Um irmão na fé
Toninho Kalunga participa da Paróquia Santo Antônio, na Comunidade do Santuário São Luís Orione — o Pequeno Cotolengo Paulista, em Cotia. Também é da Fraternidade Leiga Charles de Foucauld e do Núcleo Nacional da Teologia da Libertação Política e Religião.
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