domingo, 10 de maio de 2026

Quem foi Clara Angélica, jornalista sergipana que faleceu neste domingo , 10 de maio de 2026, aos 76 anos?


Clara Angélica foi uma das figuras pioneiras do jornalismo e da comunicação cultural em Sergipe. Começou muito jovem, aos 16 anos, como colunista social do jornal Gazeta de Sergipe, ainda na década de 1960. Ao longo da carreira, trabalhou em rádio, jornal e televisão, além de atuar como tradutora, intérprete, advogada e gestora cultural.

Entre suas atuações mais conhecidas, foi:

  • subsecretária de Cultura de Sergipe;
  • editora do jornal “O Que”;
  • apresentadora da versão local do programa “TV Mulher”, na TV Sergipe;
  • ligada a projetos culturais, audiovisuais e à valorização da cultura sergipana.

Ela também viveu nos Estados Unidos nos anos 1970, onde constituiu família, retornando depois a Sergipe para retomar a carreira na comunicação e na cultura.

A morte de Clara Angélica gerou homenagens de jornalistas, artistas e instituições culturais sergipanas, que destacaram seu pioneirismo e contribuição histórica para a comunicação no estado. O velório ocorreu em sua residência, no bairro Atalaia, e o sepultamento foi realizado no Cemitério Santa Isabel, em Aracaju.

 Embora grande parte da produção de Clara Angélica tenha circulado em jornais, colunas e textos publicados em redes sociais e blogs, alguns escritos dela se tornaram bastante representativos por revelarem sua visão política, cultural e afetiva sobre Sergipe, a ditadura e a vida cotidiana.

Um dos textos mais marcantes é o relato autobiográfico sobre sua perseguição durante a ditadura militar, publicado em 2019. Nele, Clara mistura memória pessoal, jornalismo e testemunho histórico:

1. “Ditadura Nunca Mais” (2019)

Publicada no blog Sergipe, Sua Terra e Sua Gente.

Comentário

Esse talvez seja o texto mais politicamente explícito de Clara Angélica. Ela escreve como testemunha histórica, narrando experiências da juventude universitária sergipana sob a repressão militar. O texto combina memória pessoal e denúncia política sem perder o tom humano e afetivo.

A escrita é direta, mas profundamente emocional. Clara evita retórica grandiosa; prefere o testemunho íntimo. Isso dá força ao texto e o transforma em documento de memória coletiva sergipana.

“Ficou o retrato da amargura da ditadura militar no Brasil. O que se passou comigo nada é, comparado aos horrores sofridos por nossos amigos próximos e por milhares de brasileiros.
Não há nada para comemorar.
Ditadura nunca mais!”

Esse texto é considerado representativo porque mostra:

  • a participação da juventude universitária sergipana nos anos 1960;
  • o ambiente de repressão política em Sergipe;
  • o estilo memorialista e direto de Clara;
  • sua defesa permanente da democracia.

Esse talvez seja o texto mais politicamente explícito de Clara Angélica. Ela escreve como testemunha histórica, narrando experiências da juventude universitária sergipana sob a repressão militar. O texto combina memória pessoal e denúncia política sem perder o tom humano e afetivo.

Outro exemplo importante é o artigo “O Silêncio da Paixão”, de 2023, onde ela escreve de forma intimista e literária sobre família, religiosidade e memória afetiva de Aracaju:

Cresci numa família com mãe muito católica, e pai agnóstico.”

 Aqui aparece a Clara cronista. O texto mistura religião, infância, formação intelectual e afetividade. Há uma elegância clássica na construção das frases, típica do jornalismo literário de sua geração.

Ela transforma lembranças familiares em reflexão sobre identidade cultural e espiritualidade. O tom é íntimo, quase confessional, mas sem sentimentalismo excessivo.

Nesse texto aparecem características fortes da escrita dela:

  • linguagem elegante e oral ao mesmo tempo;
  • reconstrução afetiva da memória sergipana;
  • valorização da cultura local;
  • mistura de jornalismo, crônica e autobiografia.

Também há registros de sua atuação ainda adolescente na Gazeta de Sergipe, onde escrevia a coluna “Vida Social”. Pesquisas acadêmicas mostram que ela já imprimia comentários sobre comportamento, juventude e questões sociais em plena década de 1960.

“Os salões da juventude aracajuana fervilham de novidades...”
(trecho reconstituído a partir de referências acadêmicas e relatos históricos)

Comentário

Ainda adolescente, Clara escrevia sobre comportamento, sociabilidade e juventude. Mesmo em textos aparentemente leves, já demonstrava atenção às mudanças culturais e ao papel das mulheres na modernização urbana de Aracaju.

Sua presença precoce na imprensa era algo raro para mulheres tão jovens no Nordeste dos anos 1960.

Representatividade

  • pioneirismo feminino na imprensa sergipana;
  • modernização cultural de Aracaju;
  • olhar social além do colunismo tradicional.

Além disso, entrevistas e perfis revelam uma frase que sintetiza muito de sua visão de mundo e atuação cultural:

“Arte é a melhor coisa da humanidade. A arte salva.”

Essa ideia atravessou sua atuação no jornalismo, na gestão cultural e no audiovisual em Sergipe.

Representatividade

  • Memória da ditadura em Sergipe;
  • protagonismo feminino no jornalismo político;
  • defesa da democracia;
  • escrita autobiográfica com valor histórico.

 Coluna “Vida Social” – Gazeta de Sergipe (década de 1960)

4. Entrevistas e depoimentos sobre arte e cultura

“Arte é a melhor coisa da humanidade. A arte salva.”

Comentário

Essa frase resume a visão humanista de Clara Angélica. Ao longo da vida, ela transitou entre jornalismo, televisão, cinema, tradução e gestão cultural, sempre tratando cultura como instrumento de transformação social.

Seu pensamento cultural não era apenas institucional: havia forte dimensão ética e afetiva.

Representatividade

  • defesa da cultura como formação humana;
  • valorização da identidade sergipana;
  • atuação intelectual multidisciplinar.

Características da Escrita de Clara Angélica

1. Memorialismo afetivo

Grande parte de sua escrita reconstrói lembranças pessoais para discutir temas coletivos.

2. Jornalismo literário

Ela frequentemente ultrapassava a linguagem informativa tradicional, aproximando-se da crônica e do ensaio.

3. Elegância clássica

Sua geração valorizava ritmo, clareza e sofisticação vocabular sem perder fluidez.

4. Perspectiva feminina pioneira

Clara ocupou espaços ainda muito masculinos na imprensa e na gestão cultural sergipana.

5. Defesa da democracia e da cultura

Mesmo quando escrevia sobre temas íntimos, havia fundo político e humanista em sua visão de mundo.

Leia o Autorretrato de Clara Angélica AQUI

Ditadura, Politica e Censura: Gazeta de Sergipe e Rádio Liberdade (1964-1969) Carla Darlem Silva dos Reis  AQUI

Caros da Cultura de Aracaju,

Em um intervalo de pouco mais de uma década, Aracaju perdeu uma geração inteira de jornalistas, escritores, músicos, artistas plásticos, radialistas e agitadores culturais — figuras que não apenas registraram, mas verdadeiramente forjaram a identidade da cidade. Essa sucessão de perdas configura uma catástrofe silenciosa para o tecido cultural sergipano, um esvaziamento de memória e saber que dificilmente será reparado. A linha do tempo a seguir reúne, de maneira objetiva e cronológica, todos os nomes registrados neste documento entre 2014 e 2026, preservando suas trajetórias e contribuições essenciais — sem qualquer menção às circunstâncias de suas mortes, para que prevaleça apenas o legado.

O que podemos e devemos fazer para além de manter vivas suas memórias e histórias?

Mário Resende (UFS)

Linha do tempo completa (2014–2026)

2014

1. Araripe Coutinho (09/12/2014). Poeta, escritor e colunista social, conhecido por sua poesia irreverente e seu trabalho na imprensa local.

2. Clemilda (26/11/2014). A "Rainha do Forró", ícone da música nordestina com 50 anos de carreira, conhecida nacionalmente pelo sucesso Prenda o Tadeu.

3. Rogério (13/08/2014). Cantor e compositor, considerado o maior divulgador da música popular sergipana nos festejos juninos.

2015

1. Lu Spinelli (11/11/2015). Bailarina, coreógrafa e professora. Baiana de coração sergipano, formou dezenas de mestres na dança moderna.

2016

1. Eduardo Abril (29/07/2016). Radialista e jornalista.

2. Hunald Alencar (21/05/2016). Professor, dramaturgo, poeta e compositor, membro da Academia Sergipana de Letras, autor do livro Morte no Estuário.

2017

1. Euler Ferreira (2017). Jornalista (data exata não especificada).

2. Wagner Ribeiro (02/01/2017). Jurista, poeta e professor da UFS, membro da Academia Sergipana de Letras.

2018

1. Clarêncio Fontes (13/11/2018). Jornalista, diretor de Pesquisa e membro do Conselho Deliberativo da Associação Sergipana de Imprensa.

2. Victor Amaral (20/08/2018). Jornalista. Atuou em Aracaju e faleceu em Manaus (AM).

3. Paulo Lacerda (09/12/2018). Jornalista e radialista.

2019

1. João Oliva (03/04/2019). Escritor e jornalista, membro da Academia Sergipana de Letras, considerado o mais antigo profissional da imprensa do estado em tempo de vida.

2. Fernando Silva (28/11/2019). Repórter fotográfico.

2020

1. Amaral Cavalcante (07/07/2020). Jornalista, cronista e poeta, fundador do jornal Folha da Praia e membro da Academia Sergipana de Letras.

2. José Fernandes (12/07/2020). Artista plástico.

3. Cláudia Toscano (17/08/2020). Artista plástica.

2021

1. Ilma Fontes (03/04/2021). Médica psiquiatra, jornalista, escritora, cineasta e ativista cultural. Fundadora da Associação Sergipana de Psiquiatria e dos jornais Folha da Praia, Vídeo Artes News e Jornal da Cultura.

2. Rivaldo Dantas (14/05/2021). Maestro.

3. Luis Soares (20/07/2021). Jornalista, colunista social, cerimonialista e diretor da Galeria Álvaro Santos.

2022

1. Paulinha Abelha (23/02/2022). Cantora, vocalista da banda Calcinha Preta.

2. Pedro Amaro do Nascimento (12/07/2022). Poeta cordelista.

3. Jácome Góes (01/12/2022). Escritor e jornalista.

2024

1. Thaís Bezerra (01/04/2024). Jornalista e colunista social, conhecida como "TB", com mais de 40 anos de carreira no colunismo.

2. Osmário Santos (16/05/2024). Jornalista, escritor e colunista social.

3. Erivaldinho (18/08/2024). Cantor, sanfoneiro e produtor musical.

4. Eugênio Nascimento (31/10/2024). Diretor do Jornal da Cidade, com mais de quatro décadas dedicadas ao jornalismo.

2025

1. Ivan Valença (21/04/2025). Jornalista e crítico de cinema, atuou por muitos anos na Diretoria de Comunicação da Assembleia Legislativa.

2. Raymundo Luiz da Silva (05/05/2025). Jornalista, radialista e escritor.

3. Monsenhor José Carvalho de Souza (26/05/2025). Figura religiosa e histórica de Aracaju.

4. André Barros (17/06/2025). Jornalista, publicitário e radialista com atuação marcante desde os anos 80.

2026

1. Clara Angélica Porto (10/05/2026). Jornalista, tradutora, cronista, advogada e gestora cultural.

Com profundo pesar, a FUNSECOM e a Sistema de Comunicação Aperipê, lamentam o falecimento de Clara Angélica, profissional que marcou a comunicação e a cultura sergipana com sensibilidade, talento e dedicação. Jornalista, cantora, atriz e gestora cultural, Clara Angélica construiu uma trajetória de grande contribuição para Sergipe, atuando no rádio, televisão e em importantes projetos culturais e audiovisuais. Neste momento de dor, nos solidarizamos com familiares, amigos e admiradores, desejando força e conforto a todos. Seu legado permanecerá vivo na memória da comunicação e da cultura sergipana. *video: acervo/aperipe tv


  • MEMÓRIAS DE JORNALISTA - CLARA ANGÉLICA PORTO - A INFÂNCIA



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