domingo, 21 de junho de 2026

Pilão, rio e reza: quando o cinema fez bater mais forte o coração das mulheres do Sindicato das Domésticas de Sergipe e convidadas.

 







Local: Casa da Doméstica

Data: 20/06/26

Horário: 09:00 às 10:30

Participantes: 16 (contando com a equipe) 

Filmes:

•Eu sou raiz

•As Lavadeiras do Rio Acaraú

1° Filme

[Depoimentos]

Pergunta(s):

"Quem sabe de onde veio o termo Quilombola?" 

•Os escravos revoltados que fugiam dos grandes fazendeiros, e íam diretamente para o "Quilombo".

"Por que não conhecemos a história sobre os Quilombos?"

* A educação foi negada às domésticas. Não tivemos educação.

"Qual a importância de manter vivas essas tradições? O que você aprendeu com esse filme?"

•Eu acredito que o que a mestra faz, é o que minha mãe fazia. Nunca foram à escola, viviam em casa de farinha. Tudo o que minha mãe fez, eu aprendi com ela. Continuamos com essas histórias para não deixar que elas morram, como o Reisado. (Maria Jacira de Santana). 

•Foi novo pra mim. Ver tradições diferentes para as pessoas jovens dessa geração. (Paula, neta de Maria). 

•O filme retrata uma questão cultural, especificamente da família. 

•O "pilão" me lembrou dos meus tempos de criança. Usava e batia a castanha com farinha. 

•Meus pais eram da roça, plantavam lá, faziam farinha, plantavam café, faziam cuscuz também. Usaram muito o pilão. (Nildete). 

2° Filme

[Depoimentos]

Pergunta(s):

"O que mais chamou a atenção de vocês na forma como o filme retratou essa representação da vida das lavadeiras? Digam algum sentimento ou lembrança que esse filme trouxe pra vocês?"

•Quando eu era pequena, ia lavar roupa com minha mãe, tia, primas. E até hoje tenho costumes de fazer como elas faziam, como bater a roupa no chão pra lavar, e espremer bem os panos. Muito bom lembrar. 

•Lembrei que ia com a minha mãe muitas vezes lavar roupa no rio, batismos a roupa na pedra, e estendia na cerca. 

•É uma lembrança viva que nunca vamos esquecer. Está gravado na nossa mente pelo resto da vida. 

•Minha mãe até hoje lava roupas assim, em pequenos tanques. Põe o pano na cabeça, pega a bacia e faz. 

Fala da representante da Casa da Doméstica, com encerramento sobre o convite feito ao Cineclube neste dia 20 de junho:

O objetivo é vocês (membros da Casa da Doméstica) conhecerem nossas tradições. Queremos que vocês, jovens, dêem continuidade às nossas tradições, que conheçam elas melhor. Preservar nossas raízes. Por isso, a importância de receber esse projeto. 

Nosso sindicato sempre está de portas abertas para todas;

Acima, anotações por Iasmin Feitosa e abaixo por Zezito de Oliveira

Após a exibição do filme "Eu sou raiz" a  frase "Tudo que vem do pobre vira preconceito" proferida por Erivânia de Siriri,  sintetiza uma dolorosa verdade sobre a sociedade brasileira contemporânea: práticas e saberes ancestrais, que por séculos garantiram a sobrevivência e o bem-estar de comunidades inteiras, são frequentemente relegados ao plano do arcaico, do atrasado ou do "coisa de pobre". Essa desvalorização, no entanto, revela menos sobre a qualidade dessas tradições e mais sobre as feridas abertas de uma hierarquia social que menospreza suas próprias raízes, enquanto as elites as ressignificam em alguns casos, muitas vezes, como um produto exótico e instagramável.

Esse fenômeno é particularmente evidente quando observamos o universo dos saberes femininos e populares. As rezadeiras e parteiras, figuras centrais na saúde comunitária, são um exemplo lapidar. Durante gerações, foram elas que acolheram partos, rezaram meninos e meninas para afastar o mau-olhado e curaram males que a medicina convencional não alcançava. No entanto, esse conhecimento empírico e profundamente humano foi, por muito tempo, alvo de um preconceito estrutural. Como bem apontado, "até os pobres têm esse preconceito" por Erivânia, internalizando a ideia de que o saber popular é inferior ao saber institucionalizado. O desprezo pela benzedeira ou pela parteira é, portanto, uma ferida autoinfligida,  um ato de negação da própria história e da sabedoria dos mais velhos — um desrespeito que se manifesta até na ausência do simples pedido de "bença", que outrora selava o vínculo entre gerações.

Curiosamente, enquanto as camadas mais pobres e as periferias urbanas se afastam dessas práticas por vergonha ou desejo de ascensão, observa-se um movimento inverso entre as classes mais abastadas. Conforme afirmou Shirley "Os mais ricos estão aderindo mais", mas de forma "instagramável". A presença de doulas e parteiras em partos humanizados, a busca por rituais de cura e o resgate de técnicas artesanais são frequentemente filtrados pela estética das redes sociais. O Instagram, nesse contexto, serve como uma ferramenta ambivalente: ao mesmo tempo que permite "romper com a bolha" e dar visibilidade a essas práticas, também as descaracteriza, transformando-as em tendências passageiras, descoladas de sua função social original e da dura realidade de quem sempre as praticou por necessidade, não por escolha. 

O filme "As lavadeiras do Rio Acaraú" suscitou o debate sobre a questão da escolha versus a imposição é o cerne da dignidade. Enquanto para muitas mulheres de mais idade, como Erivania de Siriri, a lida no rio São Francisco — lavar roupa com a água viva do rio — não é motivo de saudade, mas sim de lembrança de um esforço descomunal ("tinha que andar muito"), para a nova geração, esse contato se torna uma reconexão voluntária com a história. "Escolher é uma coisa; ser forçada é outra", e é nessa escolha que reside a possibilidade de uma verdadeira conservação cultural. Não se trata de romantizar a pobreza ou o trabalho exaustivo, mas de reconhecer o valor intrínseco de um saber que a máquina de lavar, símbolo da modernidade que "desempregou muita gente", não pode replicar: a maciez da roupa lavada no rio, a textura do amendoim "amansado" no pilão — um objeto que muitos, como a Rivian  só o viu na casa da sogra, desconhecem.

Essa transferência de conhecimento, portanto, não pode ser um ato de nostalgia forçada, mas um processo orgânico de resistência cultural. A memória das "prensas antigas" da casa de farinha, das "casas de taipa" e dos rituais de cura precisa ser conservada, como nos mostram as histórias de Ana, em Aracaju, e Rivian, em Areia Branca, que se reconectaram com suas histórias ao revisitar ou quando passara a residir em povoados. Esse reencontro é terapêutico, pois a "conservação das crenças para transmitir aos mais jovens" não é apenas um ato de preservação histórica, mas um exercício de saúde coletiva.

Ao resgatar o parto com parteiras e doulas, a reza para curar o mau-olhado ou a simples técnica de socar amendoim, não estamos negando o progresso, mas sim afirmando que a vida é uma continuidade. Como disse Quitéria, presidente do sindicato,  "a vida é a continuidade nos filhos". A tradição não é um monumento estático do passado, mas uma força viva que, para sobreviver, precisa da natureza como palco e do respeito como alicerce. A verdadeira riqueza está em tecer um futuro que não despreze o ontem, curando a ferida do preconceito com o bálsamo do reconhecimento e da dignidade, para que o saber popular deixe de ser um tabu e se torne, finalmente, um patrimônio de todos.

Abaixo, texto escrito por Zezito de Oliveira ao chegar em casa à noite,  com base nas conversas após a exibição do filme "No inicio do mundo" e que finalizou a 4ª Sessão do Cine Realidade na sede do Sindicato das domésticas de Sergipe.  

Uma sessão de exibição de filmes de/e para mulheres pode significar um momento mágico extraordinário, pode ser um instante inesquecível, marcado por uma atmosfera encantadora e em alta sintonia.

Foi o que ocorreu  hoje em uma sessão do Cineclube Realidade em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Domésticos do Estado de Sergipe (SIndoméstico_SE) , integrada à programação da 15ª Mostra Difusão Cinema e Direitos Humanos, que terminou com uma discussão formidável sobre a relação saudável com a partida de pessoas queridas para uma “outra espécie de vínculo”, como canta Caetano Veloso na canção "Sampa".

Uma sessão em que um dos filmes fez as mulheres presentes falarem de sonhos – uma delas contou ter tido um sonho semelhante ao da menina do desenho animado exibido, “No Início do Mundo”, sonhos em que vivos e mortos dialogam, o que me fez lembrar da memória agradecida da minha mãe, que esteve presente em mim desde o início da manhã. Foi a maior sessão que realizamos desde a criação do Cineclube Realidade, em 2015: pela manhã e à tarde, com a repetição de dois filmes, “Eu Sou Raiz” e “Lavadeiras do Rio Acaraú”, para grupos de mulheres diferentes, e a exibição de “No Início do Mundo”, uma única vez.

Ao falar dos sonhos em que pessoas vivas e mortas interagem, fiz menção à cosmovisão dos povos originários ou indígenas, o que significa dizer um outro jeito de enxergar e entender a vida após a morte, diferente da cosmovisão cristã.

E, ao lembrar da palavra sonho, que aparece em dois filmes, concluo este texto recordando o que dois grandes intelectuais brasileiros têm afirmado nos últimos anos sobre a importância dos sonhos.

Para Ailton Krenak, líder indígena, escritor e filósofo brasileiro, que usa a sabedoria ancestral para nos ensinar a proteger a Terra e adiar o fim do mundo, o sonho não é uma fantasia boba, mas um guia para a vida. Enquanto o homem ocidental acha que o sonho é algo individual e pessoal, os povos indígenas o veem como um espaço coletivo para conversar com a natureza e com os antepassados. Dessa forma, sonhar funciona como uma ferramenta prática que traz curas e respostas que a lógica não consegue encontrar, ajudando as pessoas a guiarem suas escolhas cotidianas e a imaginarem um futuro melhor.

O neurocientista Sidarta Ribeiro explica que o sonho funciona como uma ferramenta biológica essencial para a sobrevivência e o aprendizado humano. Longe de ser um evento sem sentido, o ato de sonhar é uma espécie de simulador do futuro criado pelo próprio cérebro, que utiliza as memórias do passado para testar cenários, calcular riscos e preparar o indivíduo para os desafios do dia seguinte. Durante o sono, a mente realiza uma limpeza interna, organizando o que foi aprendido e fixando os conhecimentos importantes na memória. O cientista alerta que a sociedade moderna perdeu o hábito de valorizar e compartilhar os sonhos devido à rotina exaustiva, e defende que resgatar essa prática é fundamental para recuperar a criatividade e proteger a saúde mental.

Uma canção que fala da magia de viver, me vem a lembrança ´para finalizar... Ela fala  do amor que encanta, amor que dói, e esperança de que o tempo traga de volta a luz.


Magia, mente de marfim, pele de cetim

Pelos dourados ao Sol, sinto que sou um paiol

Pronto para explodir

Vida, porque tu és assim, se afasta sempre de mim

Como um peixe no mar a nadar

Como um peixe no mar a nadar

Com os seus olhos de lince, serpente de emoção, ilusão

Enfeitiça o meu coração

A uma estrela-do-mar não se pode dizer não

Tempo, seque logo o meu pranto

Acorde de novo o meu canto

Faça de mim uma estrela a brilhar


https://www.youtube.com/watch?v=K5pwIyU_c6Q



Nenhum comentário: