Vanildo Luiz Zugno no facebook
Novos detalhes sobre a atuação da chamada "Abin Paralela" vieram à tona. Segundo relatório final da Polícia Federal, durante o governo de Jair Bolsonaro, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) pediu que fossem investigadas a vida inteira de **152 bispos** que haviam assinado uma carta com críticas à condução do governo em áreas como saúde, educação e cultura. Não se sabe qual o objetivo do governo anterior ao abrir investigação contra os religiosos.
A investigação mostra, segundo a PF, que a Abin atuava de forma clandestina, coletando informações de adversários políticos e até de líderes religiosos. A carta assinada pelos bispos em 2020 denunciava o que era descrito como uma "profunda crise política e de governança" causada pelo então presidente da República e seus aliados, em meio à pandemia e ao colapso econômico.
O pedido para monitorar os bispos foi feito quando o GSI era comandado pelo general Augusto Heleno, hoje réu na trama golpista. A PF aponta que o levantamento foi direcionado a Frank Marcio de Oliveira, então diretor adjunto da Abin, citado no relatório como peça-chave na gestão de informações sensíveis, em favor da organização investigada.
A lista de indiciados no caso já inclui mais de 30 nomes, entre eles Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin, e Carlos Bolsonaro. As revelações reforçam o uso da máquina pública para espionagem ilegal durante o governo Bolsonaro, com possível violação das liberdades religiosas e democráticas.”
Gravíssimo. Quando um governo coloca sua estrutura de inteligência para espionar bispos que apenas exerceram sua liberdade de expressão e de consciência, rompe-se não só o estado democrático de direito, mas também o respeito às liberdades religiosas. Isso revela uma face autoritária, intolerante e antidemocrática que jamais deveria ter espaço em qualquer nação civilizada.
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Episcopado criticou a “incapacidade e incompetência” do governo em várias frentes. Ala conservadora pressionou CNBB a não endossar o texto.
A reportagem é de Thais Reis Oliveira, publicada por CartaCapital, 27-07-2020.
Há décadas o episcopado brasileiro não se manifestava de maneira tão contundente. Na semana passada, mais de 152 bispos, arcebispos e bispos eméritos — quase metade dos 320 em atividade no Brasil — assinaram um manifesto crítico ao governo Bolsonaro.
No texto, intitulado Carta Ao Povo de Deus, o grupo critica a “incapacidade e incompetência” do governo no combate ao coronavírus. Acusam-o de tentar “naturalizar ou normalizar” o drama das vítimas da covid-19 “tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino”. Também há queixas no campo econômico: segundo os signatários, o governo defende uma “economia que mata”.
Consideram ainda que o Brasil atravessa um dos períodos “mais difíceis de sua história”. Também fazem um alerta para a “tensão que se abate sobre os fundamentos da República” e que, segundo eles, é provocada por Jair Bolsonaro e alguns setores da sociedade. O texto termina em tom desafiador: “Despertemo-nos, portanto, do sono que nos imobiliza e nos faz meros espectadores da realidade de milhares de mortes e da violência que nos assolam.”
Apesar da ampla adesão, o documento não tem, contudo, qualquer o aval da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
A articulação começou há cerca de um mês, com 25 bispos da ala mais progressista do episcopado, ligados a Dom Claudio Hummes e à região pan-amazônica. Uma dos motivos dessa articulação independente foi o adiamento da assembleia-geral da CNBB por conta do coronavírus. Sem debates oficiais, os bispos buscaram outros caminhos para expressar o sofrimentos dos mais pobres em suas dioceses, especialmente os que acompanham povos indígenas e comunidades tradicionais.
Conforme o interesse dos signatários ia crescendo, surgiu a ideia de pedir o aval da CNBB. A ala conservadora do catolicismo reagiu e a carta, que seria divulgada no dia 22, teve sua publicação suspensa até que um conselho da entidade aprovasse a publicação. O combinado, segundo interlocutores, seria aprovar uma versão mais light do texto. Mas a versão original veio a público antes. CartaCapital teve acesso ao documento na sexta-feira 24.
Haverá ou não nova versão da carta? Reservadamente, avalia-se que vazamento colocou os planos em suspenso. Ao mesmo tempo, desautorizar publicamente o texto divulgado seria um “tiro no pé”.
A CNBB nega vínculos com a carta. Procurada, a entidade declarou, via assessoria, que o documento “nada tem a ver” com a conferência, e que “quem a escreveu não levou à CNBB para a apreciação”. Interlocutores ouvidos por CartaCapital garantem, porém, que a carta foi encaminhada oficialmente no dia 23 de julho, por meio de Dom Adriano, bispo de São Félix do Araguaia. Por e-mail e também por Sedex. Interpelada novamente, a assessoria disse não haver registros do envio.
A íntegra da carta pode ser lida aqui.
- "Eu ouvi os clamores do meu povo": Publicado em maio de 1973 por bispos e arcebispos do Nordeste (como Dom Helder Camara e Dom José Brandão de Castro), o documento desmistificava o chamado "milagre econômico". O texto denunciava que o crescimento econômico gerava profunda desigualdade, desemprego, subnutrição e a opressão das classes mais pobres.
- "Marginalização de um Povo": Lançado no mesmo período por bispos do Centro-Oeste, trazia duras críticas sociais ao modelo de desenvolvimento da ditadura, que expulsava camponeses e indígenas de suas terras em nome do progresso técnico.
- "Exigências Cristãs de uma Ordem Política" (1977): Aprovado quase por unanimidade pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), foi o primeiro posicionamento oficial e coletivo da instituição contra o regime.
- O documento condenava formalmente a censura, as prisões arbitrárias e a tortura, afirmando textualmente que "toda violência exercida à margem e fora do Direito é violência". A Igreja exigia abertamente o retorno do país à democracia plena e o respeito aos direitos humanos. Consequências Práticas
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