Recebo com alegria redobrada o artigo abaixo do querido intelectual orgânico da Cultura Viva, Célio Turino. Como precisamos de mais intelectuais orgânicos a serviço dos que estão embaixo, dos trabalhadores, dos descartados!
Alegria redobrada pela excelência e emergência do texto e pelo diálogo que ele pode gerar com um filme produzido com participação da inteligência artificial — e dialeticamente crítico a ela —, realizado por um dos subgrupos que produziu o documentário "A Última Entrevista" como trabalho de conclusão da segunda turma de audiovisual com celular, o "Cinema na Palma da Mão".
Esse documentário foi apresentado pela primeira vez no último sábado (06.06.2026) para um grupo formado por 30 pessoas da comunidade, juntamente com outros dois filmes de grande qualidade e pertinência produzidos pela turma: "Além das Quatro Linhas", sobre futebol, e "O Alimento da Fé", sobre a ação social da igreja local. A exibição ocorreu no espaço de convivência da Paróquia São Pedro Pescador, no Bairro Industrial, em Aracaju.
Trata-se de uma atividade resultado do fomento federal à cultura, por meio do Ministério da Cultura, proporcionado pela combinação da Lei Aldir Blanc e da Lei Cultura Viva. No caso do Ponto de Cultura da Ação Cultural "Juventude e Cidadania", a iniciativa conta também com a participação da Prefeitura de Aracaju, por intermédio da Funcaju.
Também tivemos a exibição do filme "Amazônia sem Garimpo", parte da programação da 15ª Mostra Difusão Cinema e Direitos Humanos. O Cine Realidade é um dos mil, cento e cinquenta pontos de exibição selecionados pela equipe de coordenação da Mostra, que reúne o Ministério dos Direitos Humanos e o Ministério da Cultura.
O filme "Amazônia Sem Garimpo" dialoga com a produção da oficina da Ação Cultural "A Última Entrevista", do mesmo modo que dialoga com o artigo do Célio. Quem quiser assistir o filme depois de ler o artigo, pode clicar AQUI. "A Última Entrevista" por enquanto só está disponível para exibição em escolas, igrejas, centros comunitários, sindicatos e etc.., com debate pós filme. Quem quiser também exibir filmes da 15ª Mostra Difusão Cinema e Direitos Humanos com o suporte do Cine Realidade, somente até 03 de julho, pode entrar em contato com a equipe de produção do Cine Realidade, por meio do email oscacaocultural@gmail.com . O catálogo com os filmes disponibilizados pela coordenação da mostra consta AQUI
Por que ler "O Fio de Ariadne"?
Este ensaio de Célio Turino chega em momento crucial, quando a noção de realidade se fragmenta sob o peso da desinformação, da manipulação algorítmica e do espetáculo permanente. O texto oferece ao leitor:
Um diagnóstico lúcido do nosso tempo: a dissolução da experiência histórica em fluxos de imagens vazias, onde o presente se torna contínuo e sem espessura, e a verdade surge apenas como lampejo.
Um conceito original e provocador: a "Classe da Consciência" — não definida pela posição econômica, mas pela capacidade de reconhecer-se como sujeito da transformação histórica, rompendo com a coisificação imposta pelo que o autor chama de "Poder Absoluto".
Uma ponte entre teoria e prática: ao conectar filosofia (Spinoza, Merleau-Ponty, Marx, Debord), política cultural (Cultura Viva, Pontos de Cultura) e experiência concreta, Turino demonstra que a emancipação não é abstração, mas construção cotidiana.
Um fio de esperança ativa: o labirinto contemporâneo não é eterno. A saída exige generosidade, criatividade, coragem e indignação — qualidades que a cultura, quando emancipadora, pode despertar.
Ler este texto é assumir o desafio de distinguir realidade de ilusão, memória de manipulação, e reconhecer que o futuro ainda pode ser escrito — desde que saibamos segurar o fio.
Zezito de Oliveira - editor do blog da cultura
O Fio de Ariadne: Realidade, Consciência e Cultura em Tempo de Labirinto
Célio Turino(*)
Com a espetacularização da vida,
realidade aumentada, redes sociais alimentadas pelo hedonismo, individualismo e
superficialidade, manipulação algorítmica, a inteligência artificial, e tudo o
mais que se soma a esse cenário, o deslocamento da realidade acontece em
progressão geométrica, via bits e bytes. O desafio da Cultura está em auxiliar
a humanidade a se assenhorar da realidade, rompendo com a afirmação da
aparência para superar esse ambiente triste e opressor. Em tempos de espetáculo
permanente, a verdade raramente se apresenta como evidência estável, surgindo
apenas como um lampejo que rasga a superfície lisa das imagens.
“O
espetáculo domina os homens vivos quando a economia já os dominou totalmente.
Ele nada mais é que a economia desenvolvendo-se por si mesma. É o reflexo fiel
da produção das coisas, e a objetivação infiel dos produtores.”[1]
“Tudo o que era vivido diretamente tornou-se representação. [...] O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo”[2]. O livro A sociedade do espetáculo, de Guy Debord, antecipou análises que, na terceira década do terceiro milênio, tornam-se assustadoramente evidentes. A espetacularização da vida consolidou uma visão de mundo que se objetivou na relação social mediada por imagens e aparências, quando a “...realidade vivida é materialmente invadida pela contemplação do espetáculo”[3]. Essa invasão não ocorre de forma ruidosa, ao contrário, instala-se de maneira silenciosa, como se fosse natural, produzindo uma alienação recíproca fundada na afirmação da aparência, até que as pessoas já não tenham clareza de como foram coisificadas. É o império do nada que chega tão somente a ele mesmo, criando o “nada idiotizado”.
Um vazio que se multiplica em imagens e
ecos de imagens, como se a própria civilização passasse a contemplar as ruínas
de seu sentido enquanto continua a caminhar. Realiza-se, assim, um Poder
Absoluto a gerir uma sociedade aprisionada e incapaz de perceber as paredes de
sua própria prisão. O “nada idiotizado” produz uma sociedade inapta ao
diálogo e à reflexão, movida por impulsos e aparências. Essa perda de sentido e
de unidade do mundo, em que a linguagem comum da separação prevalece fabricando
a alienação em estado concreto. Consequentemente, a compreensão da própria
existência dissolve-se em uma acumulação que se torna imagem e a grande fonte
de reprodução do Capital, agora sob a forma de tecnofeudalismo, também conhecida
como o mundo das BigTechs e do Capitalismo de Plataforma. Nesse regime, o
domínio não se organiza apenas pela propriedade das fábricas, mas pela captura
dos fluxos de atenção, dados e desejos. Ainda em Debord, em texto de 1967:
“As
pessoas admiráveis em quem o sistema se personifica são conhecidas por aquilo
que não são; tornam-se grandes homens ao descer abaixo da realidade da vida
individual mínima. Todos sabem disso.”[4]
Atualíssimo. Cabe, ou melhor, caberia, à Cultura possibilitar a fusão do conhecimento e da ação, produzindo condições práticas para o florescimento de uma consciência coletiva emancipatória. Pessoas só se movimentam no mundo com autonomia e liberdade quando conseguem perceber a realidade em que vivem. A Classe da Consciência não constitui uma posição econômica determinada e sim uma condição histórica alcançada quando indivíduos e coletividades deixam de viver apenas como objetos dos processos sociais e passam a reconhecer-se como sujeitos da transformação. Não se trata apenas da relação clássica entre detentores dos meios de produção e força de trabalho, ela está além, pois ultrapassa essencializações e identidades cerradas. Trata-se de uma relação mais profunda entre aqueles que ainda conseguem perceber-se como sujeitos da história e aqueles que estão sendo tragados pelo tsunami da coisificação.
A ideia de Classe da Consciência não
nasceu agora, ela me acompanha há décadas, ainda que sob diferentes nomes e
formulações. Em minha dissertação de mestrado, posteriormente publicada no
livro Na Trilha de Macunaíma, já estava presente a percepção de que a
emancipação humana não depende apenas das condições materiais de existência,
mas também da capacidade de produzir sentido sobre a própria vida. Ao refletir
sobre a redução da jornada de trabalho compreendi que o Tempo Livre não
representa apenas descanso ou lazer, devendo ser entendido como a fresta, o
respiro em que as pessoas podem encontrar a possibilidade de elaborar
identidades transversais, desenvolvendo sensibilidades, compartilhando
experiências e transformando vivências dispersas em consciência coletiva. Mais
que no ambiente de trabalho, cada vez mais fragmentado e colonizado por metas,
isolamento, cansaço e competição. Nascida no território do tempo livre, a
Classe da Consciência poderá fazer germinar com mais força as lutas sociais na
contemporaneidade, impulsionando projetos de futuro e a percepção que o
indivíduo tem de si como sujeito da história.
Essa mesma questão reaparece na
interpretação que faço sobre a obra Macunaíma, de Mário de Andrade. O
embate entre Macunaíma e o Gigante Piaimã não pode ser reduzido à oposição
simplista entre herói e vilão. Trata-se também de um confronto simbólico entre
a potência criadora da cultura popular e as forças que buscam capturá-la,
domesticá-la ou convertê-la em objeto de dominação. Macunaíma vence não pela
força bruta, mas pela astúcia, pela imaginação, pela capacidade de transitar
entre mundos e reinventar significados. É um combate travado no campo da
cultura, da sensibilidade e da inteligência coletiva.
Logo após haver escrito “Na trilha de
Macunaíma” fui trabalhar no Ministério da Cultura e, ao formular a Cultura Viva,
aprofundei essa intuição; mais que isso, encontrei e experimentei na prática. Não
concebi o conceito de Ponto de Cultura apenas como equipamento, projeto ou
política pública de transferência de recursos para organizações culturais de
base comunitária; reduzi-lo a isso[5]
não é apenas um equívoco, como também um grave erro, demonstração de desprezo
com a energia criadora dos povos que, na aparente benevolência, mantém
intocadas as hierarquias culturais. Ponto de Cultura é um conceito que
transforma beneficiários em sujeitos, espectadores em criadores, indivíduos
isolados em comunidades de sentido, um espaço de produção de consciência, lugar
onde pessoas historicamente tratadas como objetos das decisões alheias
descobrem-se autoras de suas próprias narrativas. O protagonismo cultural é,
antes de tudo, protagonismo existencial.
Dessa trajetória emergiu a noção de
Classe da Consciência, que encontrei primeiro como citação pouco desenvolvida
em Debord e fui aprofundando, ainda que de forma incompleta e inicialmente um
tanto quanto intuitiva[6].
Não uma classe definida pela posição econômica, ou relação com o trabalho, renda
ou ocupação profissional, mas pela capacidade de reconhecer-se como sujeito da
transformação histórica. Uma classe que atravessaria posições sociais,
territórios, gerações e identidades, formada quando seres humanos recusam a
condição de coisa, rompem as amarras da alienação e assumem a responsabilidade
de interpretar criticamente o mundo para nele agir. Não é um conceito que
substitui as classes sociais duras, nem desconsidera os conflitos materiais que
estruturam a sociedade, ao contrário, surge nesse ambiente. Mas procura dar um
salto prático como dimensão reflexiva e emancipadora, e pode ser a força motriz
presente em todas as lutas que buscam afirmar a dignidade humana, a liberdade e
o direito de imaginar futuros diferentes daqueles que o poder considera
inevitáveis. Num mundo em desmaterialização, quem sabe não seria essa classe,
igualmente imaterial, a classe da emancipação no século XXI.
Nem tudo deu certo, talvez nem pudesse
dar. O mundo mudou menos do que sonhávamos e mais do que imaginávamos, algumas
conquistas permaneceram, outras se perderam, outro tanto ainda aguardam seu
tempo. Não há motivo para triunfalismo. Tampouco para desistência. O que foi
semeado continua vivo, ainda que por vezes quase invisível. Há épocas em que a
esperança parece reduzir-se a um fio, mas um fio não é nada desprezível, com
ele se tecem redes, se costuram feridas e se encontra a saída dos labirintos. O
futuro depende justamente da capacidade de reconhecer esse fio e segurá-lo com
firmeza quando tudo ao redor convida ao abandono.
Hoje, um explorado também pode ser
proprietário de parte dos meios de produção. O trabalhador por aplicativo
possui seu automóvel, motocicleta ou bicicleta -ou arrenda-, assume os custos
de manutenção de seus meios de trabalho e submete-se a jornadas estafantes. Ao
mesmo tempo em que se sente dono de seu tempo e meios, é explorado pelo
aplicativo que intermedeia a conexão e apropria-se da maior parte do valor
gerado por seu esforço. É burguês ou proletário? O dono de uma cozinha com
equipamentos e instalações, trabalhadores assalariados a seu serviço,
igualmente dependente das plataformas digitais para vender seus produtos, com
ponto comercial, mesas, garçons e serviço de entrega, também se vê submetido ao
capitalismo de plataforma. O que era um pequeno burguês torna-se o que?
Nessas zonas de ambiguidade entre propriedade
dos meios de produção e relações de trabalho, também surge uma nova classe. A
classe do cansaço? (como desdobramento do que aponta Byung-Chul Han). Entre os
demais fazeres e saberes há também os descartáveis e descartados, a classe dos
excluídos, abandonados e desvalidos. Outros acreditam estar escalando ao topo
e, subitamente, percebem-se rolando encosta abaixo. Esse deveria ser também o
território das políticas culturais, mas que hoje sequer o tangencia. Tudo o que
vemos, ouvimos e sentimos tornou-se relativizado e negado, nesse terreno
instável, consolidou-se aquilo que aqui pretendo chamar de Poder Absoluto,
conforme busco descrever.
O Poder Absoluto não é um sujeito
oculto, ou um governo secreto ou uma vontade única conduzindo a história, não
se trata de conspiracionismo, mas da convergência histórica entre capital
financeiro global, plataformas digitais, militarismo e supremacismo, combinados
com sistemas algorítmicos de controle da atenção e estruturas de produção
simbólica. Essa fusão é capaz de moldar percepções, desejos e comportamentos em
escala planetária como um poder difuso. Justamente por isso, mais difícil de
ser percebido. Um poder que não precisa impor-se pela força direta -mas também
a utiliza e mata com crueldade, quando sente necessário para sua preservação-
porque coloniza e aprende a habitar a própria formação das consciências. Ele é
o resultado histórico da concentração sem precedentes dos meios de produzir
riqueza, informação e sentido. O Poder Absoluto estabelece-se para “dar as
cartas” em um jogo que só é plenamente real para a microminoria situada no topo
das estruturas de poder. A Classe dos multimilionários, alguns, trilionários. Essa
classe não deveria existir, é parasita e cancerígena, sendo resultado, através
da a chamada Inteligência Artificial, do grande roubo do mundo; ou melhor,
pilhagem, saqueio de todos os conhecimentos da humanidade. As Bigtechs deveriam
ser expropriadas e transformadas em Bem Comum, porque, se continuarem existindo,
levarão o planeta ao colapso.
A forma histórica do Poder Absoluto constitui
uma arquitetura de poder que arromba fronteiras, governos e instituições sem rosto
único ou trono identificável. Seu caráter absoluto não deriva da onipotência,
mas da pretensão de converter tudo em mercadoria, subjetividades em dado e
imagens, e fluxo em acumulação. É nesse terreno que a realidade passa a ser
administrada como representação e a experiência humana, em todas as suas
dimensões, é convertida em ativo econômico via coisificação. Mas há uma fresta,
tambor de dentro, um fio de esperança que vai nos dar força para derrotar o
Gigante Piaimã, como na alegoria de Macunaíma. Ao menos quero crer, pois a
esperança também se segura por um fio. Ainda assim, resiste.
A complexidade dessas relações afeta a
consciência para além de momentos mais estruturados da história. As pessoas (nós,
eu, você) estão em desarmonia consigo mesmas; vive-se de um jeito, trabalha-se de
outro, pensa-se de forma diferente daquela com que se age. É um sentir, pensar
e agir em permanente contradição; inclusive na relação com a própria
existência.
A humanidade do século XXI está sendo expropriada
do sentido do real e devorada no labirinto do Minotauro de forma
espetacularmente banal. Esse labirinto já não é apenas arquitetura, tornou-se Sistema
em que cada corredor conduz a outro, e nesses corredores há espelhos, e a cada novo
espelho, outra imagem, até que a saída desaparece na multiplicação das
passagens. A autonomização da esfera cultural sob a sociedade do espetáculo é
chave para compreender a lógica de acumulação tecnofeudal. O fato é que esses
Senhores da Guerra (em sentido literal), da vida e da morte (igualmente em
sentido literal) recorreram a Dédalo para a construção de labirintos infinitos,
com entradas e saídas múltiplas. Mas cuja saída jamais é encontrada.
Sob esse admirável mundo novo,
simultaneamente avançado e regressivo, a atividade central da acumulação já não
depende da aquisição real dos produtos, mas da sensação de prazer produzida
pela imagem do produto. Em muitos casos o produto sequer precisa existir
plenamente, basta sua representação. Como num grande mercado de espectros, o
desejo passa a circular antes do objeto. Muitas vezes sem ele, porque seguir um
influencer pode bastar. É nesse contexto que a Cultura e a Arte precisam
recolocar-se como guias para a condução à realidade. O fenômeno contemporâneo
da ascensão da extrema direita está profundamente ligado a esse deslocamento da
noção de realidade. Sua estratégia central consiste em atacar os próprios
sentidos que nos permitem reconhecer o real e para isso utilizam três
instrumentos fundamentais: guerra cultural, retórica do ódio e negacionismo.
Não por acaso começam atacando as artes.
Espetáculos de teatro e dança, exposições em museus, obras literárias, escolas
e universidades tornam-se alvos, professores são ameaçados, Instituições são
desacreditadas e o conhecimento baseado em fatos é sistematicamente
confrontado. Tudo começa com o baralhamento narrativo. Narrativa é a forma pelo
qual uma história se organiza e se torna inteligível, mais do que o evento em
si, é o modo como ele é contado que orienta a percepção coletiva do real. Sempre
haverá um narrador e toda narrativa pode incluir recortes, ênfases, imagens e
omissões, daí a necessidade de distinguir narrativa e verdade. Nem toda
narrativa é falsa, ou verdadeira. Algumas são construídas a partir de meias
verdades ou distorções deliberadas. Quando isso ocorre, instala-se uma situação
em que as pessoas passam a desconfiar da verdade e a acreditar na mentira. Uma
Política Cultural Emancipadora tem por missão auxiliar as pessoas e os grupos
sociais a comparar histórias narradas, exercitando observação crítica, em que
há confronto com fatos, consulta a fontes confiáveis. Somente ativando todas as
inteligências sensoriais e reflexivas do ser humano será possível interromper
esse processo de alienação, que agora se movimenta em progressão geométrica. Harmonizar
essas inteligências significa limpar camadas, confrontar versões, examinar
coerências entre discurso e prática. Assim se produzirá análise crítica capaz
de distinguir verdade de pós-verdade.
Certo dia, voltando à minha vida
interiorana e próximo ao mato, encontrei um vizinho de fala segura e ambição
declarada. Desses que parecem sempre a um passo de enriquecer, ainda que a
realidade insista em adiar o desejo. Em conversa, ele disse estudar metafísica
para orientar decisões em investimentos no chamado “mercado”. Curioso, propus,
com a devida dose de ironia, a criação de um clube de filosofia prática, uma
vez que éramos quase vizinhos. Sugeri, então, uma aula inaugural sobre a
diferença entre metafísica e materialismo, a ser realizada numa curva
movimentada da rodovia Anhanguera, não tão distante de onde moramos. O
experimento seria simples: os participantes deveriam permanecer no meio da
pista, confiando que, pela força do pensamento ou da intenção, não seriam
atingidos por veículos em alta velocidade. Se saíssemos ilesos comprovaríamos o
triunfo da vontade sobre a matéria; se não, a realidade material imporia seus
próprios limites, independentemente de nossas crenças. Não chegamos a realizar
a aula, o que, convenhamos, preservou tanto a vida, quanto o argumento. Ainda
assim, essa pequena conversa ilustra, por contraste, uma distinção clássica da
filosofia ocidental, enquanto a metafísica tende a atribuir primazia às ideias,
à consciência ou a princípios não materiais na constituição do real, o
materialismo insiste que o mundo existe e opera segundo determinações
objetivas, que não se alteram por adesão subjetiva. Desde então o vizinho não
me procurou mais; e pude caminhar em paz no bosque e ouvir o canto dos pássaros
que não vejo em meio à mata que arrodeia minha casa. Esse sim, é real.
Ao afirmar a importância da realidade
material não estou negando a dimensão simbólica, espiritual ou metafísica da
existência humana. Tampouco proponho uma redução da vida à matéria entendida
como mecanismo cego. A questão é outra. Toda experiência humana acontece
simultaneamente em múltiplos planos, na existência material, biológica, afetiva,
simbólica, cultural e espiritual, negar qualquer uma dessas dimensões da
episteme empobrece a compreensão da realidade. A crítica que apresento
dirige-se a uma tendência crescente de substituir a realidade concreta por
construções abstratas que passam a “existir” independentemente dos fatos e
evidências. Em tempos de desinformação, negacionismo científico, manipulação
algorítmica e fabricação industrial de crenças, tornou-se necessário reafirmar
algo aparentemente simples: o mundo existe.
Os corpos existem, assim como os rios e
suas curvas, as florestas e desertos. A fome e desigualdades existem, as
explorações e opressões, mudanças climáticas, também. Podemos interpretá-las de
formas distintas, mas não podemos eliminá-las por decreto, crença ou narrativa.
O filósofo Baruch Spinoza, que eu utilizei muito na formulação de conceitos
para a Cultura Viva e os Pontos de Cultura, oferece uma contribuição importante
para essa reflexão; para ele, pensamento e extensão não constituem mundos
separados, mas expressões diferentes de uma mesma realidade. O ser humano não
está fora da natureza, é parte dela. Não existe oposição absoluta entre matéria
e espírito, ambos participam da mesma substância infinita da qual fazemos
parte. Essa compreensão ajuda a superar uma falsa escolha, frequentemente
apresentada entre materialismo e espiritualidade, a realidade pode possuir
profundidades que escapam à percepção imediata, mesmo assim não deixa de ser
real.
Outro autor que muito me influenciou
para que alcançasse proposições expressas desde o início na Cultura Viva, foi
Merleau-Ponty, especificamente com a “Fenomenologia da Percepção”[7].
Com essa obra ele recoloca o corpo e a experiência vivida no centro da relação
com o real. Nossa relação com o mundo não ocorre por meio de abstrações
desencarnadas, mas através do corpo vivido, conhecemos o mundo porque estamos
inseridos nele, daí a proposição de conceitos como “encantamento social” e
“teia”, presentes na Cultura Viva. Não observamos a realidade de fora,
participamos dela. A floresta não é apenas conceito, é sombra, cheiro, textura,
umidade, biodiversidade e experiência sensível, é o jardim amazônico e suas
terras pretas, são os seres que a habitam e as interações que acontecem no
convívio com a floresta. A cultura nasce exatamente dessa relação corpórea
entre seres humanos e mundo.
Por outro lado, a crítica ao idealismo
absoluto possui longa tradição filosófica, e me incluo nela. Karl Marx demonstrou
que as ideias não flutuam acima da história, elas emergem de condições
concretas de existência. Não significa que a consciência seja irrelevante, mas
sim que a consciência vive em corpos, comunidades, territórios e relações
sociais. Não há cultura sem pessoas, nem pessoas sem vida material, que por sua
vez, sem a natureza, inexistiria. Mas a crítica ao idealismo não precisa
conduzir a um materialismo estreito, pois a realidade contém possibilidades
ainda não percebidas, sequer realizadas. O mundo não é apenas o que é, ele
contém também aquilo que pode vir a ser. Sonhos, utopias e imaginação
participam da construção histórica da realidade. Se com o materialismo
histórico aprendi a compreender as estruturas históricas que condicionam a
existência, com Merleau-Ponty descobri como essa existência é efetivamente
vivida pelos corpos concretos.
A questão fundamental não é escolher
entre matéria e sentido, mas sim o entendimento de que o sentido emerge da
própria experiência da vida. A tradição metafísica também produziu
contribuições fundamentais à compreensão humana, o problema surge quando
construções conceituais passam a reivindicar autonomia completa em relação à
experiência, aos fatos e às consequências concretas da vida. Ernst Bloch chamou
atenção para essa dimensão ainda não realizada da realidade. Para ele, a
história não é composta apenas pelo que existe, mas também pelo que está em
processo de vir-a-ser. Há um “ainda-não” inscrito no mundo, uma reserva de
possibilidades que se manifesta nos sonhos, nas utopias, na arte, nos desejos
de justiça e nas antecipações do futuro presentes nas culturas populares. Não
se trata de fantasia desligada da vida concreta, mas de uma potência real que
habita a própria matéria histórica.
“A nossa época é a primeira a
possuir os pressupostos socioeconômicos para uma teoria do ainda-não-consciente
e do que está relacionado a ele no que-ainda-não-veio-a-ser do mundo. O
marxismo, sobretudo, foi o pioneiro em proporcionar ao mundo um conceito de
saber que não tem mais como referência essencial aquilo que foi ou existiu, mas
a tendência do que é ascendente. Ele introduz o futuro na nossa abordagem
teórica e prática da realidade” [8]
As grandes transformações humanas começam quando as pessoas conseguem perceber, no interior do presente, sinais do futuro desejado. A esperança, nessa perspectiva, não é espera passiva, é uma forma de conhecimento capaz de identificar tendências, potencialidades e caminhos de realização ainda ocultos sob as aparências do mundo. Aí reside a força da Cultura Viva, uma política pública que não nasceu de postulados tecnocráticos, nem materialismo mecanicista ou reducionismo científico, nem idealismo abstrato, mas sim de um entendimento que parte da filosofia da vida real, relacional e criadora, preservando o rigor diante do negacionismo contemporâneo sem empobrecer a riqueza simbólica, espiritual e poética, aspectos mormente desprezados na formulação e prática em assuntos de Estado.
A esperança que apresento não é consolo
nem resignação, é movimento de uma humanidade que carrega consigo uma
consciência antecipadora capaz de perceber aquilo que ainda não existe
plenamente, mas que já pulsa[9]
como possibilidade. O novo nasce primeiro como
intuição, desejo, sonho acordado, imaginação compartilhada, para só depois
transformar a realidade. Toda mudança habita o território do possível e a
esperança é a centelha que permite reconhecer essas possibilidades até
desencadear a ação para realizá-las. Sem esperança a história se fecha, com a
esperança, o futuro volta a respirar.
A cultura acontece exatamente nesse
encontro entre o concreto e o imaginado, entre aquilo que somos e aquilo que
aspiramos ser. A defesa da realidade material não representa uma rejeição da
metafísica e sim a recusa em abandonar o chão da existência concreta. Podemos
discutir o significado do rio, mas primeiro precisamos reconhecer que o rio
existe, pois, se ele secar, nenhuma teoria será capaz de fazê-lo voltar a
correr com suas águas, e toda uma comunidade de seres vai deixar de existir. É
onde entra a dimensão da Arte.
Pela Arte se sonha acordado e os sonhos,
ao serem confrontados com a fantasia, transformam-se em possibilidades
concretas através da vida real examinada pelas nervuras dos sentidos -todos os
sentidos e percepções. É um devaneio criativo, mas não uma desconexão da
realidade. O contrário do que se convencionou definir como dissonância
cognitiva, como um aprisionamento da pessoa a mentiras, tornando-a incapaz de
distinguir fantasia e realidade. Nesta situação instala-se um desconforto
mental e emocional por conta do desalinho entre crenças e atitudes, é quando a
pessoa sente de uma forma, pensa de outra e age de maneira ainda diferente;
algo mais que comum no mundo contemporâneo. Nesse contexto podem ocorrer
atitudes que em outras circunstâncias pareceriam impensáveis e a alienação
deixa de ser apenas econômica para tornar-se também cognitiva e afetiva. A
dissonância cognitiva, no entanto, não surge apenas como conflito interno entre
crenças e atitudes, em determinadas condições históricas ela se converte em falsa
consciência.
Marx demonstrou que as relações sociais
podem aparecer de forma invertida aos próprios sujeitos que as produzem. O
trabalhador imagina ser plenamente livre mesmo quando sua liberdade é
condicionada por estruturas que não controla; da mesma forma, o consumidor
acredita escolher autonomamente quando, em realidade, seus desejos são
permanentemente modelados. É o que ocorre quando o eleitor se sente soberano em
sua decisão, mas, em realidade, está reproduzindo ideias que reforçam sua
própria submissão. A falsa consciência não é simples ignorância, é uma forma
socialmente produzida de perceber o mundo de maneira invertida. Enquanto a
dissonância cognitiva opera no plano subjetivo, a falsa consciência revela as
condições objetivas que tornam essa dissonância funcional à reprodução do
poder. Por isso a necessidade de examinar a vida real sempre a partir de uma
atitude ética rigorosa. Para evitar esse colapso interno, uma ação cultural
transformadora se faz necessária, permitindo que a arte assuma papel
emancipador, de modo a possibilitar que as pessoas acreditem em seus sonhos sem
jamais se afastarem da ética que os orienta e do mundo que os realiza.
“- Sonhos, acredite neles!” Alguém
disse. E fez.
Mas enquanto não acreditamos nos sonhos
a retórica do ódio aproveita-se da dissonância cognitiva convertendo-se em
falsa consciência. Essa retórica utiliza linguagem inflamada, desumanizante e
discriminatória para mobilizar emoções e consolidar agendas ideológicas,
religiosas ou políticas. Manifesta-se de muitas formas, através de discursos de
ódio, agressões cotidianas, ataques a instituições e religiões, programas de
rádio ou TV que disseminam medo e violência, falsificações em redes sociais,
edição manipulada de imagens e falas. Por conta da retórica do ódio, amizades
se desfazem, famílias se dividem, nações entram em guerra e povos são
dizimados. A história já mostrou muitas vezes o caminho que começa na palavra
desumanizante e termina na violência organizada.
Ao longo da história sempre houve
retórica do ódio e teorias conspiratórias, o que diferencia o presente é a
velocidade de propagação. Elas se espalham em progressão geométrica pela
infraestrutura das redes digitais. Tudo que é diferente passa a ser percebido
como ameaça, não há mais adversários, apenas inimigos a serem eliminados. A
desumanização do “Outro” abre caminho para violências cotidianas e para
atrocidades históricas, com assassinatos, massacres e genocídios. Essa também é
uma expressão cultural do nosso tempo e é preciso coragem para desarmá-la. Quem
se habilita?
Em meio a esse cenário, a guerra
cultural combina baralhamento narrativo, dissonância cognitiva, retórica do
ódio e teorias conspiratórias para produzir as mais estapafúrdias
interpretações do mundo. Terra plana e seres reptilianos são apenas o prólogo
para algo mais grave, que é o negacionismo científico e histórico. Um circuito
fechado de crenças que aprisiona as pessoas em um labirinto interpretativo sem
saída, o objetivo não é conhecer o mundo, mas produzir uma falsa consciência em
looping. Até que tudo passa a ser relativizado, inclusive o horror. Quando tudo
se torna relativo, tudo se torna possível. Nesse terreno fértil florescem
discursos e práticas de extermínio que fazem brotar o horror.
- O horror!
É o que pode advir ao mundo. Processos
patológicos não se instalam apenas nos indivíduos, mas também nos sistemas de
comunicação dos quais participam. Uma sociedade submetida a mensagens
contraditórias, estímulos permanentes e relações fundadas na fragmentação tende
a perder referências comuns para interpretar a realidade. O problema deixa de
ser apenas o erro de uma pessoa e passa a residir nos padrões coletivos de
percepção que produzem erro em escala social. Quando isso acontece, a própria
cultura pode tornar-se um labirinto de espelhos onde cada imagem confirma a
anterior, afastando progressivamente a experiência vivida do mundo real. Mas se
é assim, como enfrentar o desfazimento do real que se propaga na velocidade de
fibras óticas e satélites? Como dar conta da inteligência artificial e da
manipulação algorítmica?
O problema não está apenas nas máquinas
que criamos, mas na maneira como passamos a enxergar o mundo através delas. Quando
descolada da realidade, a cultura torna-se morta, nociva e violenta. Gramsci
compreendeu que o poder não se alicerça apenas pela força econômica ou
coercitiva, sustentando-se pela capacidade de produzir consenso, fazendo com
que uma visão particular de mundo seja percebida como natural por toda a
sociedade. A guerra cultural contemporânea atua exatamente no terreno que disputa
o senso comum, reorganizando afetos e redefinindo aquilo que pode ou não ser
percebido como realidade. Por isso deveria ser encarada como a batalha de todas
as batalhas. Mas não é. Principalmente no chamado campo à esquerda,
infelizmente, há uma negligência em compreender e enfrentar o fenômeno, daí as
rendições e derrotas políticas e simbólicas. Para transformar o mundo é preciso
primeiro interpretá-lo e para interpretá-lo é preciso reconhecer a realidade.
Haverá tempo para nos reconectarmos à
realidade e barrar o pavor sem fim?
Não sei. Mas tenho esperança. E mesmo
quando a esperança falha, ainda assim, não há outra alternativa. É preciso
esperançar para compreender o mundo, conter o medo e agir. Agir com senso de
urgência histórica.
A quem pegar este grão, por favor, não
vacile. Não perca a capacidade de indignação. Tenha coragem, criatividade e
generosidade. Generosidade, porque sem ela todas as demais qualidades da vida
perdem sentido. Criatividade pela capacidade de realizar conexões sensíveis com
aquilo que aparentemente não conseguimos resolver, mas que começa a se revelar
quando enfrentamos os problemas. Coragem, porque mudar o mundo não é fantasia,
é necessidade. E indignação, porque aceitar o mundo tal como está é aceitar
também suas injustiças, render-se. Quando generosidade, criatividade, coragem e
indignação se encontram, a esperança retorna.
Quando a esperança retornar não haverá
Poder Absoluto capaz de detê-la. Esse é o poder da Cultura e da Arte.
Cada época acredita dominar seus
instrumentos, até perceber que também foi moldada por eles. No entanto, mesmo
no interior do espetáculo, fragmentos de experiência resistem com restos de
realidade, como pequenas centelhas de verdade. A cultura vive nesses
fragmentos. Quando alguém os recolhe, num gesto de memória, criação ou
indignação, o tempo interrompe por um instante sua marcha automática. Nesse
instante compreendemos que o labirinto nunca foi nem será eterno, ele apenas
aguarda quem tenha a coragem de procurar a saída. Às vezes basta um fio para reencontrarmos
a porta e o real volte a aparecer. O fio de Ariadne do século XXI não está na
tecnologia nem nos algoritmos, está na capacidade humana de reconstruir
vínculos de sentido, memória e solidariedade. A Cultura não elimina o
labirinto, mas quando tomada de sentido emancipador, faz algo ainda maior,
permitindo que a humanidade saia dele.
[1] DEBORD,
Guy – A sociedade do espetáculo, pgs. 17/18 – Ed. Contraponto, 2004
[2]
Idem, pg. 13
[3]
Idem, pg 15
[4]
Idem, pg. 41
[5]
Como considero que está acontecendo atualmente
[6]
Pretendo aprofundar o conceito em reflexão futura, que nasce da convergência
entre Marx, Mário de Andrade, Debord, a experiência da Cultura Viva e a
reflexão sobre o Tempo Livre como espaço de formação da consciência. Nesse
trabalho, que já iniciei a escrita, também irei aprofundar os conceitos de
Poder Absoluto, classe do cansaço e classe dos descartáveis (e matáveis).
Também trato do conceito no poema “A era das indignações” (in. FIOS DA HISTÓRIA
– ed Clóe)




Nenhum comentário:
Postar um comentário