segunda-feira, 8 de junho de 2026

O Fio de Ariadne: Realidade, Consciência e Cultura em Tempo de Labirinto. Célio Turino

Recebo com alegria redobrada o artigo abaixo do querido intelectual orgânico da Cultura Viva, Célio Turino. Como precisamos de mais intelectuais orgânicos a serviço dos que estão embaixo, dos trabalhadores, dos descartados!

Alegria redobrada pela excelência e emergência do texto e pelo diálogo que ele pode gerar com um filme produzido com participação da inteligência artificial — e dialeticamente crítico a ela —, realizado por um dos subgrupos que produziu o documentário "A Última Entrevista" como trabalho de conclusão da segunda turma de audiovisual com celular, o "Cinema na Palma da Mão". 

Esse documentário foi apresentado pela primeira vez no último sábado (06.06.2026)  para um grupo formado por 30 pessoas da comunidade, juntamente com outros dois filmes de grande qualidade e pertinência produzidos pela turma: "Além das Quatro Linhas", sobre futebol, e "O Alimento da Fé", sobre a ação social da igreja local. A exibição ocorreu no espaço de convivência da Paróquia São Pedro Pescador, no Bairro Industrial, em Aracaju.

Trata-se de uma atividade resultado do fomento federal à cultura, por meio do Ministério da Cultura, proporcionado pela combinação da Lei Aldir Blanc e da Lei Cultura Viva. No caso do Ponto de Cultura da Ação Cultural "Juventude e Cidadania", a iniciativa conta também com a participação da Prefeitura de Aracaju, por intermédio da Funcaju.

Também tivemos a exibição do filme "Amazônia sem Garimpo", parte da programação da 15ª Mostra Difusão Cinema e Direitos Humanos. O Cine Realidade é um dos mil pontos de exibição selecionados pela equipe de coordenação da Mostra, que reúne o Ministério dos Direitos Humanos e o Ministério da Cultura.

Zezito de Oliveira - editor do blog da cultura


A realidade não se esgota no que já existe, ela transita entre a herança recebida e a antecipação do vir-a-ser. No entanto é necessário discernir o real e a capacidade de vislumbrar o possível, aquilo ainda não foi parido, mas que pode nascer. Esse é o grande desafio do momento histórico atual, caracterizado por um descolamento da noção de realidade. Não se trata apenas de relativização conceitual ou epistemológica, mas de algo mais profundo, como uma fissura na própria experiência histórica. Aquilo que antes se apresentava como mundo vivido, partilhado no tempo e no espaço, dissolve-se agora em fluxos de imagens, signos e representações. O presente torna-se contínuo e sem espessura, como se o tempo tivesse perdido a memória de si mesmo, daí a necessidade de distinguir memória de ilusão, reconhecendo na história as possibilidades que permanecem abertas em seu interior, de modo a conseguirmos compreender a realidade para transforma-la.

Com a espetacularização da vida, realidade aumentada, as redes sociais alimentadas pelo hedonismo, individualismo e superficialidade, manipulação algorítmica, a inteligência artificial, e tudo o mais que se soma a esse cenário, o deslocamento da realidade acontece em progressão geométrica, via bits e bytes. O desafio da Cultura está em auxiliar a humanidade a se assenhorar da realidade, rompendo com a afirmação da aparência de modo a superar esse ambiente triste e opressor. Em tempos de espetáculo permanente, a verdade raramente se apresenta como evidência estável, surgindo apenas como um lampejo que rasga a superfície lisa das imagens.

“O espetáculo domina os homens vivos quando a economia já os dominou totalmente. Ele nada mais é que a economia desenvolvendo-se por si mesma. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objetivação infiel dos produtores.”[1]

 “Tudo o que era vivido diretamente tornou-se representação. [...] O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo”[2]. O livro A sociedade do espetáculo, de Guy Debord, antecipou análises que, na terceira década do terceiro milênio, tornam-se assustadoramente evidentes. A espetacularização da vida consolidou uma visão de mundo que se objetivou na relação social mediada por imagens e aparências, quando a “...realidade vivida é materialmente invadida pela contemplação do espetáculo”[3]. Essa invasão não ocorre de forma ruidosa, ao contrário, instala-se de maneira silenciosa, como se fosse natural, produzindo uma alienação recíproca fundada na afirmação da aparência. Até que as pessoas já não tenham clareza de como foram coisificadas. É o império do nada que chega tão somente a ele mesmo, criando o “nada idiotizado”.

Um vazio que se multiplica em imagens e ecos de imagens, como se a própria civilização passasse a contemplar as ruínas de seu sentido enquanto continua a caminhar. Realiza-se, assim, um Poder Absoluto a gerir uma sociedade aprisionada e incapaz de perceber as paredes de sua própria prisão. O “nada idiotizado” produz uma sociedade inapta ao diálogo e à reflexão, movida por impulsos e aparências. Essa perda de sentido e de unidade do mundo, em que a linguagem comum da separação prevalece fabricando a alienação em estado concreto. Com isso, a compreensão da própria existência dissolve-se em uma acumulação que se torna imagem e a grande fonte de reprodução do Capital, agora sob a forma de tecnofeudalismo, também conhecida como o mundo das BigTechs e do Capitalismo de Plataforma. Nesse regime, o domínio não se organiza apenas pela propriedade das fábricas, mas pela captura dos fluxos de atenção, dados e desejos. Ainda em Debord, em texto de 1967:

“As pessoas admiráveis em quem o sistema se personifica são conhecidas por aquilo que não são; tornam-se grandes homens ao descer abaixo da realidade da vida individual mínima. Todos sabem disso.”[4]

 Atualíssimo. Cabe, ou melhor, caberia, à Cultura possibilitar a fusão do conhecimento e da ação, produzindo condições práticas para o florescimento de uma consciência coletiva emancipatória. Pessoas só se movimentam no mundo com autonomia e liberdade quando conseguem perceber a realidade em que vivem. A Classe da Consciência não constitui uma posição econômica determinada e sim uma condição histórica alcançada quando indivíduos e coletividades deixam de viver apenas como objetos dos processos sociais e passam a reconhecer-se como sujeitos da transformação. Não se trata apenas da relação clássica entre detentores dos meios de produção e força de trabalho, ela está além, pois ultrapassa essencializações e identidades cerradas. Trata-se de uma relação mais profunda entre aqueles que ainda conseguem perceber-se como sujeitos da história e aqueles que estão sendo tragados pelo tsunami da coisificação.

A ideia de Classe da Consciência não nasceu agora, ela me acompanha há décadas, ainda que sob diferentes nomes e formulações. Em minha dissertação de mestrado, posteriormente publicada no livro Na Trilha de Macunaíma, já estava presente a percepção de que a emancipação humana não depende apenas das condições materiais de existência, mas também da capacidade de produzir sentido sobre a própria vida. Ao refletir sobre a redução da jornada de trabalho compreendi que o Tempo Livre não representa apenas descanso ou lazer, devendo ser entendido como a fresta, o respiro em que as pessoas podem encontrar a possibilidade de elaborar identidades transversais, desenvolvendo sensibilidades, compartilhando experiências e transformando vivências dispersas em consciência coletiva. Mais que no ambiente de trabalho, cada vez mais fragmentado e colonizado por metas, isolamento, cansaço e competição. Nascida no território do tempo livre, a Classe da Consciência poderá fazer germinar com mais força as lutas sociais, os projetos de futuro e a percepção que o indivíduo tem de si como sujeito da história.

Essa mesma questão reaparece na interpretação que faço sobre a obra Macunaíma, de Mário de Andrade. O embate entre Macunaíma e o Gigante Piaimã não pode ser reduzido à oposição simplista entre herói e vilão. Trata-se também de um confronto simbólico entre a potência criadora da cultura popular e as forças que buscam capturá-la, domesticá-la ou convertê-la em objeto de dominação. Macunaíma vence não pela força bruta, mas pela astúcia, pela imaginação, pela capacidade de transitar entre mundos e reinventar significados. É um combate travado no campo da cultura, da sensibilidade e da inteligência coletiva.

Logo após haver escrito “Na trilha de Macunaíma” fui trabalhar no Ministério da Cultura e, ao formular a Cultura Viva, aprofundei essa intuição; mais que isso, encontrei e experimentei na prática. Não concebi o conceito de Ponto de Cultura apenas como equipamento, projeto ou política pública de transferência de recursos para organizações culturais de base comunitária; reduzi-lo a isso[5] não é apenas um equívoco, como também um grave erro, demonstração de desprezo com a energia criadora dos povos que, na aparente benevolência, mantém intocadas as hierarquias culturais. Ponto de Cultura é um conceito que transforma beneficiários em sujeitos, espectadores em criadores, indivíduos isolados em comunidades de sentido, um espaço de produção de consciência, lugar onde pessoas historicamente tratadas como objetos das decisões alheias descobrem-se autoras de suas próprias narrativas. O protagonismo cultural é, antes de tudo, protagonismo existencial.

Dessa trajetória emergiu a noção de Classe da Consciência, que encontrei primeiro como citação pouco desenvolvida em Debord e fui aprofundando, ainda que de forma incompleta e inicialmente um tanto quanto intuitiva[6]. Não uma classe definida pela posição econômica, ou relação com o trabalho, renda ou ocupação profissional, mas pela capacidade de reconhecer-se como sujeito da transformação histórica. Uma classe que atravessaria posições sociais, territórios, gerações e identidades, formada quando seres humanos recusam a condição de coisa, rompem as amarras da alienação e assumem a responsabilidade de interpretar criticamente o mundo para nele agir. Não é um conceito que substitui as classes sociais duras, nem desconsidera os conflitos materiais que estruturam a sociedade, ao contrário, surge nesse ambiente. Mas procura dar um salto prático como dimensão reflexiva e emancipadora, e pode ser a força motriz presente em todas as lutas que buscam afirmar a dignidade humana, a liberdade e o direito de imaginar futuros diferentes daqueles que o poder considera inevitáveis. Num mundo em desmaterialização, quem sabe não seria essa classe, igualmente imaterial, a classe da emancipação no século XXI.

Nem tudo deu certo, talvez nem pudesse dar. O mundo mudou menos do que sonhávamos e mais do que imaginávamos, algumas conquistas permaneceram, outras se perderam, outro tanto ainda aguardam seu tempo. Não há motivo para triunfalismo. Tampouco para desistência. O que foi semeado continua vivo, ainda que por vezes quase invisível. Há épocas em que a esperança parece reduzir-se a um fio, mas um fio não é nada desprezível, com ele se tecem redes, se costuram feridas, se encontra a saída dos labirintos. O futuro talvez dependa justamente da capacidade de reconhecer esse fio e segurá-lo com firmeza quando tudo ao redor convida ao abandono.

Hoje, um explorado também pode ser proprietário de parte dos meios de produção. O trabalhador por aplicativo possui seu automóvel, motocicleta ou bicicleta -ou arrenda-, assume os custos de manutenção de seus meios de trabalho e submete-se a jornadas estafantes. Ao mesmo tempo em que se sente dono de seu tempo e meios é explorado pelo aplicativo que intermedeia a conexão e apropria-se da maior parte do valor gerado por seu esforço. É burguês ou proletário? O dono de uma cozinha com equipamentos e instalações, trabalhadores assalariados a seu serviço, igualmente dependente das plataformas digitais para vender seus produtos, com ponto comercial, mesas, garçons e serviço de entrega, também se vê submetido ao capitalismo de plataforma. O que era um pequeno burguês torna-se o que?

Nessas zonas de ambiguidade propriedade dos meios de produção e relações de trabalho, também surge uma nova classe. A classe do cansaço? (como desdobramento do que aponta Byung-Chul Han). Entre os demais fazeres e saberes há também os descartáveis e descartados, a classe dos excluídos, abandonados e desvalidos. Outros acreditam estar escalando ao topo e, subitamente, percebem-se rolando encosta abaixo. Esse deveria ser também o território das políticas culturais, mas que hoje sequer o tangencia. Tudo o que vemos, ouvimos e sentimos tornou-se relativizado e negado. Nesse terreno instável, consolidou-se aquilo que aqui pretendo chamar de Poder Absoluto, conforme busco descrever.

O Poder Absoluto não é um sujeito oculto, ou um governo secreto ou uma vontade única conduzindo a história, não se trata de conspiracionismo, mas da convergência histórica entre capital financeiro global, plataformas digitais, militarismo e supremacismo, combinados com sistemas algorítmicos de controle da atenção e estruturas de produção simbólica. Essa fusão é capaz de moldar percepções, desejos e comportamentos em escala planetária como um poder difuso. Justamente por isso, mais difícil de ser percebido. Um poder que não precisa impor-se pela força direta -mas também a utiliza e mata com crueldade, quando preciso- porque coloniza e aprende a habitar a própria formação das consciências. Ele é o resultado histórico da concentração sem precedentes dos meios de produzir riqueza, informação e sentido. O Poder Absoluto estabelece-se para “dar as cartas” em um jogo que só é plenamente real para a microminoria situada no topo das estruturas de poder. A Classe dos multimilionários, alguns, trilionários, essa classe não deveria existir, é parasita e cancerígena, sendo resultado, através da a chamada Inteligência Artificial, do grande roubo do mundo; ou melhor, pilhagem, saqueio de todos os conhecimentos da humanidade. As Bigtechs deveriam ser expropriadas e transformadas em Bem Comum. Porque se continuarem existindo levarão o planeta ao colapso.

A forma histórica do Poder Absoluto não se apresenta com rosto único nem ocupa um trono identificável, mas constitui uma arquitetura de poder que arromba fronteiras, governos e instituições. Seu caráter absoluto não deriva da onipotência, mas da pretensão de converter tudo em mercadoria, subjetividades em dado e imagens, e fluxo em acumulação. É nesse terreno que a realidade passa a ser administrada como representação e a experiência humana, em todas as suas dimensões é convertida em ativo econômico via coisificação. Ou quase todas as dimensões, porque há uma fresta, um tambor de dentro, um fio de esperança, que vai nos dar força para derrotar o Gigante Piaimã, como na alegoria de Macunaíma - ao menos quero crer, pois a esperança está por um fio, mas ainda resiste.

A complexidade dessas relações afeta a consciência para além de momentos mais estruturados da história. As pessoas, nós, eu, você, estão em desarmonia consigo mesmas; vive-se de um jeito, trabalha-se de outro, pensa-se de forma diferente daquela com que se age. É um sentir, pensar e agir em permanente contradição. Inclusive na relação com a própria existência. A humanidade do século XXI está sendo expropriada do sentido do real e devorada no labirinto do Minotauro de forma espetacularmente banal. E esse labirinto já não é apenas arquitetura, tornou-se Sistema em que cada corredor conduz a outro espelho, e cada espelho a outra imagem, até que a saída desaparece na multiplicação das passagens. A autonomização da esfera cultural sob a sociedade do espetáculo é chave para compreender a lógica de acumulação tecnofeudal, pois esses Senhores da Guerra (em sentido literal), da vida e da morte (igualmente em sentido literal) recorreram a Dédalo para a construção de labirintos infinitos, com entradas e saídas múltiplas. Mas cuja saída jamais é encontrada.

Sob esse admirável mundo novo, simultaneamente avançado e regressivo, a atividade central da acumulação já não depende da aquisição real dos produtos, mas da sensação de prazer produzida pela imagem do produto. Em muitos casos o produto sequer precisa existir plenamente, basta sua representação. Como num grande mercado de espectros, o desejo passa a circular antes do objeto. Muitas vezes sem ele, porque seguir um influencer pode bastar.

É nesse contexto que a Cultura e a Arte precisam recolocar-se como guias para a condução à realidade. O fenômeno contemporâneo da ascensão da extrema direita está profundamente ligado a esse deslocamento da noção de realidade. Sua estratégia central consiste em atacar os próprios sentidos que nos permitem reconhecer o real. Para isso utilizam três instrumentos fundamentais: guerra cultural, retórica do ódio e negacionismo.

Não por acaso começam atacando as artes. Espetáculos de teatro e dança, exposições em museus, obras literárias, escolas e universidades tornam-se alvos. Professores são ameaçados, Instituições são desacreditadas e o conhecimento baseado em fatos é sistematicamente confrontado. Tudo começa com o baralhamento narrativo. Narrativa é a forma pelo qual uma história se organiza e se torna inteligível, mais do que o evento em si, é o modo como ele é contado que orienta a percepção coletiva do real. Sempre haverá um narrador e toda narrativa pode incluir recortes, ênfases, imagens e omissões. Daí a necessidade de distinguir narrativa e verdade. Nem toda narrativa é falsa, ou verdadeira. Algumas são construídas a partir de meias verdades ou distorções deliberadas. Quando isso ocorre, instala-se uma situação em que as pessoas passam a desconfiar da verdade e a acreditar na mentira. Uma Política Cultural Emancipadora tem por missão auxiliar as pessoas e os grupos sociais a comparar histórias narradas, exercitando observação crítica, confronto com fatos, consulta a fontes confiáveis e ativação de todas as inteligências sensoriais e reflexivas do ser humano. Harmonizar essas inteligências significa limpar camadas, confrontar versões, examinar coerências entre discurso e prática. É assim que se produz análise crítica, e é por meio dessa análise que se distingue uma narrativa falsa de uma narrativa verdadeira.

Certo dia, voltando à minha vida interiorana e próximo ao mato, encontrei um vizinho de fala segura e ambição declarada, desses que parecem sempre a um passo de enriquecer, ainda que a realidade insista em adiar o desejo. Em conversa, ele disse estudar metafísica para orientar decisões em investimentos no chamado “mercado”. Curioso, propus, com a devida dose de ironia, a criação de um clube de filosofia prática. Sugeri, então, uma aula inaugural sobre a diferença entre metafísica e materialismo, a ser realizada numa curva movimentada da rodovia Anhanguera, não tão distante de onde moro. O experimento seria simples: os participantes deveriam permanecer no meio da pista, confiando que, pela força do pensamento ou da intenção, não seriam atingidos por veículos em alta velocidade. Se saíssem ilesos, teríamos um triunfo da vontade sobre a matéria; se não, a realidade material imporia seus próprios limites, independentemente das crenças. Não chegamos a realizar a aula, o que, convenhamos, preservou tanto a vida, quanto o argumento. Ainda assim, essa pequena fábula ilustra, por contraste, uma distinção clássica da filosofia ocidental. Enquanto a metafísica tende a atribuir primazia às ideias, à consciência ou a princípios não materiais na constituição do real, o materialismo insiste que o mundo existe e opera segundo determinações objetivas, que não se alteram por adesão subjetiva. Desde então o vizinho não me procurou mais, e pude caminhar em paz no bosque e o canto dos pássaros que não vejo em meio à mata que arrodeia minha casa, esse sim, é real.

Ao afirmar a importância da realidade material não estou negando a dimensão simbólica, espiritual ou metafísica da existência humana. Tampouco proponho uma redução da vida à matéria entendida como mecanismo cego. A questão é outra. Toda experiência humana acontece simultaneamente em múltiplos planos, na existência material, biológica, afetiva, simbólica, cultural e espiritual, negar qualquer uma dessas dimensões da episteme empobrece a compreensão da realidade. A crítica que apresento dirige-se a uma tendência crescente de substituir a realidade concreta por construções abstratas que passam a “existir” independentemente dos fatos e evidências. Em tempos de desinformação, negacionismo climático, manipulação algorítmica e fabricação industrial de crenças, tornou-se necessário reafirmar algo aparentemente simples: o mundo existe.

Os corpos existem, assim como os rios e suas curvas, as florestas e desertos. A fome e desigualdades existem, as explorações e opressões, mudanças climáticas também. Podemos interpretá-las de formas distintas, mas não podemos eliminá-las por decreto, crença ou narrativa. O filósofo Baruch Spinoza, que eu utilizei muito na formulação de conceitos para a Cultura Viva e os Pontos de Cultura, oferece uma contribuição importante para essa reflexão; para ele, pensamento e extensão não constituem mundos separados, mas expressões diferentes de uma mesma realidade. O ser humano não está fora da natureza, é parte dela. Não existe oposição absoluta entre matéria e espírito, ambos participam da mesma substância infinita da qual fazemos parte. Essa compreensão ajuda a superar uma falsa escolha frequentemente apresentada entre materialismo e espiritualidade. A realidade pode possuir profundidades que escapam à percepção imediata, mesmo assim não deixa de ser real.

Outro autor que muito me influenciou para que alcançasse proposições expressas desde o início na Cultura Viva, foi Merleau-Ponty, especificamente com a “Fenomenologia da Percepção”[7]. Com essa obra, ele recoloca o corpo e a experiência vivida no centro da relação com o real. Nossa relação com o mundo não ocorre por meio de abstrações desencarnadas, mas através do corpo vivido, conhecemos o mundo porque estamos inseridos nele, daí a proposição de conceitos como “encantamento social” e “teia”, presentes na Cultura Viva. Não observamos a realidade de fora, participamos dela. A floresta não é apenas um conceito, é sombra, cheiro, textura, umidade, biodiversidade e experiência sensível, é o jardim amazônico e suas terras pretas, são os seres que a habitam e as interações que acontecem no convívio com a floresta. A cultura nasce exatamente dessa relação corpórea entre seres humanos e mundo.

Por outro lado, a crítica ao idealismo absoluto possui longa tradição filosófica, e me incluo nela. Karl Marx demonstrou que as ideias não flutuam acima da história, elas emergem de condições concretas de existência. Não significa que a consciência seja irrelevante, mas sim que a consciência vive em corpos, comunidades, territórios e relações sociais. Não há cultura sem pessoas, nem pessoas sem vida material, que por sua vez, sem a natureza, inexiste. Mas a crítica ao idealismo não precisa conduzir a um materialismo estreito, pois a realidade contém possibilidades ainda não percebidas, sequer realizadas. O mundo não é apenas o que é, ele contém também aquilo que pode vir a ser. Sonhos, utopias e imaginação participam da construção histórica da realidade. Se com o materialismo histórico aprendi a compreender as estruturas históricas que condicionam a existência, com Merleau-Ponty descobri como essa existência é efetivamente vivida pelos corpos concretos.

A questão fundamental não é escolher entre matéria e sentido, mas sim o entendimento de que o sentido emerge da própria experiência da vida. A tradição metafísica também produziu contribuições fundamentais à compreensão humana, o problema surge quando construções conceituais passam a reivindicar autonomia completa em relação à experiência, aos fatos e às consequências concretas da vida. Ernst Bloch chamou atenção para essa dimensão ainda não realizada da realidade. Para ele, a história não é composta apenas pelo que existe, mas também pelo que está em processo de vir a ser. Há um “ainda-não” inscrito no mundo, uma reserva de possibilidades que se manifesta nos sonhos, nas utopias, na arte, nos desejos de justiça e nas antecipações do futuro presentes nas culturas populares. Não se trata de fantasia desligada da vida concreta, mas de uma potência real que habita a própria matéria histórica.

“A nossa época é a primeira a possuir os pressupostos socioeconômicos para uma teoria do ainda-não-consciente e do que está relacionado a ele no que-ainda-não-veio-a-ser do mundo. O marxismo, sobretudo, foi o pioneiro em proporcionar ao mundo um conceito de saber que não tem mais como referência essencial aquilo que foi ou existiu, mas a tendência do que é ascendente. Ele introduz o futuro na nossa abordagem teórica e prática da realidade” [8]

 As grandes transformações humanas começam quando as pessoas conseguem perceber, no interior do presente, sinais de um futuro possível. A esperança, nessa perspectiva, não é espera passiva, é uma forma de conhecimento capaz de identificar tendências, potencialidades e caminhos de realização ainda ocultos sob as aparências do mundo. Aí reside a força da Cultura Viva, uma política pública que não nasceu de postulados tecnocráticos, nem materialismo mecanicista ou reducionismo científico, nem idealismo abstrato, mas sim de um entendimento que parte da filosofia da vida real, relacional e criadora, preservando o rigor diante do negacionismo contemporâneo sem empobrecer a riqueza simbólica, espiritual e poética, aspectos mormente desprezados na formulação e prática em assuntos de Estado.

A esperança que apresento não é consolo nem resignação, é movimento de uma humanidade que carrega consigo uma consciência antecipadora capaz de perceber aquilo que ainda não existe plenamente, mas que já pulsa[9] como possibilidade. O novo nasce primeiro como intuição, desejo, sonho acordado, imaginação compartilhada. Antes de transformar a realidade, toda mudança habita o território do possível, a esperança é a centelha que permite reconhecer essas possibilidades até desencadear a ação para realizá-las. Sem a esperança a história se fecha sobre si mesma, com a esperança, o futuro volta a respirar.

A cultura acontece exatamente nesse encontro entre o concreto e o imaginado, entre aquilo que somos e aquilo que aspiramos ser. A defesa da realidade material não representa uma rejeição da metafísica e sim a recusa em abandonar o chão da existência concreta. Podemos discutir o significado do rio, mas primeiro precisamos reconhecer que o rio existe, pois, se ele secar, nenhuma teoria será capaz de fazê-lo voltar a correr com suas águas. É onde entra a dimensão da Arte.

Pela Arte se sonha acordado e os sonhos, ao serem confrontados com a fantasia, transformam-se em possibilidades concretas através da vida real examinada pelas nervuras dos sentidos -todos os sentidos e percepções. É um devaneio criativo, mas não uma desconexão da realidade. O contrário do que se convencionou definir como dissonância cognitiva, como um aprisionamento da pessoa a mentiras, tornando-a incapaz de distinguir fantasia e realidade. Nesta situação instala-se um desconforto mental e emocional por conta do desalinho entre crenças e atitudes. É quando a pessoa sente de uma forma, pensa de outra e age de maneira ainda diferente; algo mais que comum no mundo contemporâneo. Com isso podem ocorrer atitudes que em outras circunstâncias pareceriam impensáveis e a alienação deixa de ser apenas econômica para tornar-se também cognitiva e afetiva.

A dissonância cognitiva, no entanto, não surge apenas como conflito interno entre crenças e atitudes, em determinadas condições históricas ela se converte em falsa consciência. Karl Marx demonstrou que as relações sociais podem aparecer de forma invertida aos próprios sujeitos que as produzem. O trabalhador imagina ser plenamente livre mesmo quando sua liberdade é condicionada por estruturas que não controla; da mesma forma, o consumidor acredita escolher autonomamente quando, em realidade, seus desejos são permanentemente modelados. É o que ocorre quando o eleitor se sente soberano em sua decisão, quando, em realidade, reproduz ideias que reforçam sua própria submissão. A falsa consciência não é simples ignorância, é uma forma socialmente produzida de perceber o mundo de maneira invertida. Enquanto a dissonância cognitiva opera no plano subjetivo, a falsa consciência revela as condições objetivas que tornam essa dissonância funcional à reprodução do poder. Por isso a necessidade de examinar a vida real sempre a partir de uma atitude ética rigorosa. Para evitar esse colapso interno, uma ação cultural transformadora se faz necessária, permitindo que a arte assuma papel emancipador, de modo a possibilitar que as pessoas acreditem em seus sonhos sem jamais se afastarem da ética que os orienta e do mundo que os realiza.

“- Sonhos, acredite neles!” Alguém disse. E fez.

Mas enquanto não acreditamos nos sonhos a retórica do ódio aproveita-se da dissonância cognitiva convertendo-se em falsa consciência. Essa retórica utiliza linguagem inflamada, desumanizante e discriminatória para mobilizar emoções e consolidar agendas ideológicas, religiosas ou políticas. Manifesta-se de muitas formas, através de discursos de ódio, agressões cotidianas, ataques a instituições e religiões, programas de rádio ou TV que disseminam medo e violência, falsificações em redes sociais, edição manipulada de imagens e falas. Por conta da retórica do ódio, amizades se desfazem, famílias se dividem, nações entram em guerra e povos são dizimados. A história já mostrou muitas vezes o caminho que começa na palavra desumanizante e termina na violência organizada.

Ao longo da história sempre houve retórica do ódio e teorias conspiratórias, o que diferencia o presente é a velocidade de propagação. Elas se espalham em progressão geométrica pela infraestrutura das redes digitais. Tudo que é diferente passa a ser percebido como ameaça, não há mais adversários, apenas inimigos a serem eliminados. A desumanização do “Outro” abre caminho para violências cotidianas e para atrocidades históricas, com assassinatos, massacres, genocídios. Essa também é uma expressão cultural do nosso tempo e é preciso coragem para desarmá-la. Quem se habilita?

Em meio a esse cenário, a guerra cultural combina baralhamento narrativo, dissonância cognitiva, retórica do ódio e teorias conspiratórias para produzir as mais estapafúrdias interpretações do mundo. Terra plana e seres reptilianos são apenas o prólogo para algo mais grave, que é o negacionismo científico e histórico. Um circuito fechado de crenças que aprisiona as pessoas em um labirinto interpretativo sem saída, o objetivo não é conhecer o mundo, mas produzir uma falsa consciência em looping. Até que tudo passa a ser relativizado, inclusive o horror. Quando tudo se torna relativo, tudo se torna possível. Nesse terreno fértil florescem discursos e práticas de extermínio que fazem brotar o horror.

- O horror!

É o que pode advir ao mundo. Processos patológicos não se instalam apenas nos indivíduos, mas também nos sistemas de comunicação dos quais participam. Uma sociedade submetida a mensagens contraditórias, estímulos permanentes e relações fundadas na fragmentação tende a perder referências comuns para interpretar a realidade. O problema deixa de ser apenas o erro de uma pessoa e passa a residir nos padrões coletivos de percepção que produzem erro em escala social. Quando isso acontece, a própria cultura pode tornar-se um labirinto de espelhos onde cada imagem confirma a anterior, afastando progressivamente a experiência vivida do mundo real. Mas se é assim, como enfrentar o desfazimento do real que se propaga em progressão geométrica? Como dar conta da inteligência artificial e da manipulação algorítmica?

Talvez o problema não esteja apenas nas máquinas que criamos, mas na maneira como passamos a enxergar o mundo através delas. Quando descolada da realidade, a cultura torna-se morta, nociva e violenta. Gramsci compreendeu que o poder não se alicerça apenas pela força econômica ou coercitiva. Sustenta-se pela capacidade de produzir consenso, fazendo com que uma visão particular de mundo seja percebida como natural por toda a sociedade. A guerra cultural contemporânea atua exatamente no terreno que disputa o senso comum, reorganiza afetos e redefine aquilo que pode ou não ser percebido como realidade. Por isso deveria ser encarada como a batalha de todas as batalhas. Mas não é, principalmente pelo chamado campo à esquerda, infelizmente. Daí as derrotas políticas e simbólicas.

Para transformar o mundo é preciso primeiro interpretá-lo e para interpretá-lo é preciso reconhecer a realidade. Haverá tempo para barrar o pavor sem fim?

Não sei. Mas tenho esperança. E mesmo quando a esperança falha, ainda assim, não há outra alternativa. É preciso esperançar para conter o medo e agir. Agir com senso de urgência histórica. A quem pegar este grão, por favor, não vacile. Não perca a capacidade de indignação. Tenha coragem, criatividade e generosidade. Generosidade, porque sem ela todas as demais qualidades da vida perdem sentido. Criatividade pela capacidade de realizar conexões sensíveis com aquilo que aparentemente não conseguimos resolver, mas que começa a se revelar quando enfrentamos os problemas. Coragem, porque mudar o mundo não é fantasia, é necessidade. E indignação, porque aceitar o mundo tal como está é aceitar também suas injustiças, render-se. Quando generosidade, criatividade, coragem e indignação se encontram, a esperança retorna. E quando a esperança retornar não haverá Poder Absoluto capaz de detê-la. Esse é o poder da Cultura e da Arte.

Cada época acredita dominar seus instrumentos, até perceber que também foi moldada por eles. No entanto, mesmo no interior do espetáculo, fragmentos de experiência resistem com restos de realidade, pequenas centelhas de verdade. A cultura vive nesses fragmentos. Quando alguém os recolhe, num gesto de memória, criação ou indignação, o tempo interrompe por um instante sua marcha automática. Nesse instante compreendemos que o labirinto nunca foi nem será eterno. Ele apenas aguarda quem tenha a coragem de procurar a saída. Às vezes basta um fio para reencontrarmos a porta e o real voltará a aparecer. O fio de Ariadne do século XXI não está na tecnologia nem nos algoritmos, está na capacidade humana de reconstruir vínculos de sentido, memória e solidariedade. A Cultura não elimina o labirinto, mas permite que a humanidade saia dele.



[1] DEBORD, Guy – A sociedade do espetáculo, pgs. 17/18 – Ed. Contraponto, 2004

[2] Idem, pg. 13

[3] Idem, pg 15

[4] Idem, pg. 41

[5] Como considero que está acontecendo atualmente

[6] Pretendo aprofundar o conceito em reflexão futura, que nasce da convergência entre Marx, Mário de Andrade, Debord, a experiência da Cultura Viva e a reflexão sobre o Tempo Livre como espaço de formação da consciência. Nesse trabalho, que já iniciei a escrita, também irei aprofundar os conceitos de Poder Absoluto, classe do cansaço e classe dos descartáveis (e matáveis). Também trato do conceito no poema “A era das indignações” (in. FIOS DA HISTÓRIA – ed Clóe)

 [7] Destaco a “Fenomenologia da Percepção” porque nessa obra Merleau-Ponty questiona a tradição filosófica que separa rigidamente sujeito e objeto, consciência e mundo. A percepção não aparece como simples recepção passiva de informações nem como construção puramente mental, mas como uma relação originária de participação no real. O mundo não é algo exterior que observamos à distância, é o horizonte dentro do qual existimos e adquirimos sentido. A percepção antecede muitas das abstrações que utilizamos para explicar a vida., pois antes de interpretar, já estamos mergulhados no real. Essa perspectiva ajuda a compreender por que o deslocamento contemporâneo da noção de realidade representa mais do que uma crise de informação ou de conhecimento, trata-se também de uma crise da experiência vivida e dos modos pelos quais os seres humanos reconhecem a si mesmos, aos outros e ao mundo que compartilham. MERLEAU-PONTY, Maurice – FENOMENOLOGIA DA PERCEPÇÃO, Martins Fontes, 1999.

 [8] BLOCH, Ernest – O PRINCÍPIO DA ESPERANÇA, pg 141 – Ed. Contraponto, 2005

[9] Presente na própria logomarca da Cultura Viva e do Ponto de Cultura.

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