sexta-feira, 3 de julho de 2026

"Super El Niño" à vista: O que Sergipe e Aracaju planejam para a crise climática e os graves vazios ignorados? EDITORIAL

JUSTIÇA CLIMÁTICA E CULTURA: UM ALERTA DE SERGIPE PARA O SUPER EL NIÑO DE 2026/2027

A seca não será apenas natural; será também política. E a cultura não pode ficar de fora dessa trincheira.

Se os noticiários e os boletins do INMET já acenderam o sinal vermelho, nós, agentes culturais de Sergipe, acendemos um alerta ainda mais profundo: a crise climática que se avança sobre Aracaju e todo o estado é, antes de tudo, uma crise de direitos, de território e de planejamento. E, sim, é uma crise cultural.

Enquanto o Governo do Estado e a Prefeitura de Aracaju correm para montar uma "Sala de Situação" para monitorar o temido fenômeno El Niño 2026/2027 — que ameaça se consolidar como um "Super El Niño" com secas severas e ondas de calor extremo a partir de agosto — nós que atuamos no chão das periferias, das escolas e dos territórios criativos sabemos que a preparação oficial ainda é uma armadura furada.

E por que este é um assunto para o blog da Cultura? Porque não há cultura sem corpo, sem território e sem água. Porque o artista que faz sua roda de capoeira no asfalto quente, o mestre que realiza suas festas tradicionais nas comunidades e o educador que conduz oficinas nas salas de aula, pátios ou quadras de escola,  sentirão na pele o peso deste fenômeno. A cultura não é um acessório da vida; ela é a expressão viva da vida. Sendo assim, defender a vida diante da emergência climática é também defender a cultura.

Abertura de canalização na Zona de Expansão (Foto José Firmo)

O QUE OS GOVERNOS ESTÃO FAZENDO (E ONDE ELES FALHAM)

Reconhecemos os esforços iniciais: a criação da Sala de Situação na Seplan, unindo Semac, Adema, Sedurbi, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros, é um passo técnico importante. A elaboração de um Plano Estadual de Mitigação e a articulação para a Operação Carro-Pipa são medidas reativas que podem salvar vidas no curto prazo.

Contudo, o que se anuncia nos corredores do poder ainda é insuficiente e profundamente injusto. Embora a Prefeitura de Aracaju tente ensaiar uma reação com a abertura da revisão de seu Plano Diretor e a Câmara Municipal tenha iniciado em julho de 2026 a votação da Política de Emergências Climáticas (PL 150/2026), a capital corre contra o tempo. Enquanto os novos textos legais arrastam-se pela burocracia, a cidade é regida por diretrizes de ocupação urbana que completam 26 anos de defasagem, baseadas em dados de 1995. 

O reflexo mais agudo desse atraso está na Zona de Expansão. Transformada em um canteiro de obras sem a infraestrutura correspondente, a região virou alvo de uma intervenção drástica do Ministério Público Federal, que em maio de 2026 recomendou o embargo de prédios acima de quatro andares até que estudos ecológicos e obras de macrodrenagem saiam do papel. Somado a isso, o imbróglio jurídico que redesenha os limites territoriais com São Cristóvão pulveriza as responsabilidades de fiscalização. 

Para especialistas locais, frear esse caos exige que o novo Plano Diretor adote soluções urbanísticas focadas no clima. Urbanistas defendem a transformação das margens dos canais em parques lineares, a exigência de afastamentos maiores entre prédios para liberar os ventos do litoral e a blindagem total das dunas. Sem a implementação de pavimentos permeáveis e o estímulo a telhados verdes, as áreas de preservação — escudos térmicos vitais contra os extremos climáticos — continuarão sendo substituídas por um asfalto que apenas aprisiona o calor e amplifica as enchentes.

A ausência de um orçamento claro no Plano Estadual de Mudanças Climáticas (PEAC) e a falta de políticas agressivas de arborização e infraestrutura verde nos bairros periféricos revelam uma triste verdade: a população mais pobre e vulnerável de Aracaju será a primeira a sucumbir ao estresse térmico e à falta d'água, enquanto o poder público trata a natureza e a periferia como meros obstáculos ao progresso imobiliário.

A VOZ DA TEIA NACIONAL ECOA NO TERRITÓRIO SERGIPANO

Nós, da Ação Cultural, estivemos presentes nas discussões da Teia Estadual e da 6ª Teia Nacional sobre Justiça Climática. Lá, ouvimos com clareza o que deve nortear nossas ações: a Justiça Climática não se resume a satélites, termômetros ou decretos emitidos em gabinetes refrigerados. Ela exige participação popular, escuta ativa das comunidades, preservação da memória biocultural e a garantia de que os ecossistemas — como nossas dunas e reservas hídricas — sejam tratados como patrimônios imateriais da nossa gente.

O que vemos hoje em Aracaju é a negação prática de tudo isso. O poder público planeja a "gestão do desastre", mas se recusa a planejar a prevenção estrutural. Falta vontade política para atualizar o Plano Diretor, falta verba para o saneamento básico que amplifica os efeitos da estiagem e falta coragem para frear o avanço do concreto sobre a natureza.

Ao publicarmos este editorial, estamos fazendo a ponte que a Teia Nacional nos ensinou: trazer o debate macro para a realidade micro do nosso quintal. Não podemos aceitar que a preparação para o El Niño se limite a mapas e reuniões técnicas que excluem os movimentos sociais, os urbanistas populares e os fazedores de cultura que conhecem as dores e as potências de cada bairro.

UM CHAMADO AOS FAZEDORES DE CULTURA  E À SOCIEDADE

Este não é um texto sobre meteorologia. É um texto sobre sobrevivência cultural. O calendário de festejos, as oficinas comunitárias, as rodas de cultura e a agricultura familiar que abastece a cozinha dos nossos artistas serão diretamente impactados pelo calor extremo e pela seca. Se não nos anteciparmos, seremos engolidos pela lógica reativa que o governo parece adotar.

Por isso, conclamamos:

A classe artística e os Pontos de Cultura a incluírem a pauta climática em seus projetos e planejamentos para 2026 e 2027 e doravante. A arte salva vidas, e precisa estar preparada para o cenário adverso.

A sociedade civil a cobrar da Prefeitura de Aracaju a urgente atualização do Plano Diretor e a criação de um Plano Municipal de Enfrentamento às Mudanças Climáticas com participação popular efetiva.

O Governo do Estado a destinar orçamento claro e transparente para o PEAC, integrando dados e, principalmente, integrando as comunidades nas decisões sobre os recursos hídricos e a infraestrutura verde.

NOSSO COMPROMISSO

A Ação Cultural, enquanto Ponto de Cultura, reafirma seu papel de formadora de opinião, articuladora de redes e defensora da vida integral. Estivemos na Teia para ouvir, debater e aprender. Voltamos ao nosso território para agir, denunciar e propor.

Não se trata apenas de pedir água quando o açude secar. Trata-se de exigir que nossas cidades sejam planejadas com alma, com sombra, com saneamento e com justiça. A cultura tem a força de aquecer corações, mas hoje precisamos que ela também esfrie o asfalto e regue a esperança.

O clima está mudando, e a cultura não pode ser apenas espectadora. Ela deve ser a voz da resistência e a mão que constrói o amanhã. Que a 6ª Teia Nacional não seja apenas um evento, mas um marco que nos impulsione a ocupar as salas de situação e as câmaras municipais com a mesma paixão que ocupamos os palcos e as ruas.

POR QUE ESTE EDITORIAL FOCA EM ARACAJU E NO GOVERNO DO ESTADO? UMA JUSTIFICATIVA METODOLÓGICA

A concentração do nosso olhar crítico sobre o Governo do Estado e a Prefeitura de Aracaju não é um capricho editorial, mas uma decorrência direta da primazia legal, orçamentária e territorial que cada um desses entes exerce sobre os fatores que agravam ou mitigam a crise climática em Sergipe. A pesquisa que embasa este alerta nos impõe três recortes inegociáveis:

A primazia do Governo do Estado sobre a água e a emergência em larga escala: Cabe ao Executivo Estadual a gestão das bacias hídricas, a coordenação da Defesa Civil e a execução do Plano Estadual de Mudanças Climáticas (PEAC). É o Estado quem comanda a "Sala de Situação" e quem acionará a Operação Carro-Pipa. Portanto, é ele o guardião das respostas macros à estiagem. Sem um orçamento claro e transparente no PEAC, todo o discurso de preparação se esvazia — e é nosso dever cobrar isso de quem tem o poder de alocar verbas estruturantes.

A primazia da Prefeitura de Aracaju sobre o caos urbanístico e o direito ao território: Se o Estado lida com a seca no interior, é na capital que o modelo de ocupação do solo definirá quem vai sufocar com o calor extremo. Os dados que levantamos são inequívocos:

O Plano Diretor de Aracaju está defasado há 26 anos (baseado em dados de 1995), tornando a cidade refém de um planejamento obsoleto.

Em maio de 2026, o Ministério Público Federal precisou intervir diretamente na Zona de Expansão, recomendando o embargo de prédios acima de quatro andares — uma intervenção que escancara a falência da fiscalização municipal.

A Câmara Municipal iniciou a votação do PL 150/2026 apenas em julho de 2026, ou seja, às vésperas do pico do El Niño, o que revela uma reatividade burocrática que não condiz com a urgência da crise.

O imbróglio territorial com São Cristóvão pulveriza responsabilidades, mas é em Aracaju que os ventos do litoral estão sendo barrados por paredões de concreto e onde as dunas — escudos térmicos naturais — são tratadas como meros entraves ao mercado imobiliário.

O encontro dos dois poderes no coração da desigualdade: É na confluência entre a gestão hídrica do Estado e o zoneamento urbano da capital que a população periférica fica desprotegida. Enquanto o Estado não integra as comunidades nas decisões do PEAC e a Prefeitura não impõe infraestrutura verde (pavimentos permeáveis, telhados verdes, parques lineares) nos bairros mais densos, a Justiça Climática permanece uma abstração teórica.

Por que isso é relevante para a Cultura? Porque a Ação Cultural está enraizada nesse território. Nossas oficinas, cineclubes, rodas de conversa  e mostras culturais  acontecem sob o impacto direto do asfalto queimando e das torneiras secando. Focar nesses dois entes é uma estratégia de eficácia política: mirar onde o poder de decidir — e o poder de falhar — é mais concentrado. Não se trata de ignorar os outros municípios, mas de partir do centro nervoso do planejamento estadual e da maior mancha urbana de Sergipe para, a partir daí, irradiar a cobrança para todo o território.

Sergipe, julho de 2026.

Este é um editorial institucional do blog da Cultura, em conformidade com os princípios do Programa Cultura Viva (Lei 13.018/14) e em eco às deliberações da 6ª Teia Nacional sobre Justiça Climática.




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