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sábado, 11 de abril de 2020

QUEM ESTÁ VIVO CORRE PERIGO MESMO PROCURANDO GIRASSÓIS



ABILIO NETO

Caros amigos, 

Leiam a letra dessa canção abaixo e vejam que coisa linda. Quando se escuta a melodia posta na letra, constata-se que o baiano Augusto Jatobá, nascido em 1946, é um grande nome da MPB. Ele não só e poeta e compositor, mas arquiteto, produtor de disco, designer, enfim um gênio. Esse homem foi responsável pelas capas de discos mais lindas que vi.  



Em 1980, há exatamente 40 anos, fiquei fã dele, ao tomar conhecimento da canção PÉS DE MILHO, gravada no LP Capim do Vale, de Elba Ramalho, naquele tempo em que a voz dela feria um pouco meus ouvidos. Em 1981, conheci a mesma canção na voz de outro baiano, Xangai, compadre de Augusto Jatobá. Uma beleza de gravação! 

Recentemente encontrei um vídeo com a cantora Danielle Bonfim, nascida no planalto central, descendente de nordestinos, cantando essa canção e fiquei encantado. A menina, de pouco mais de 20 anos, é considerada o uirapuru do cerrado. Além disso, toca mais de um instrumento. Voz linda de uma cantora de carreira promissora neste Brasil partido ao meio que nos mostra (felizmente!) ainda uma banda cultural e outra brega e sem valor, mas que rende milhões de reais à indústria do entretenimento. 

Augusto Jatobá é autor de MATANÇA, uma das mais lindas canções de amor à natureza, gravada brilhantemente pelo violeiro e cantor Xangai. 

Neste complicado tempo em que vivemos, é hora de ouvirmos PÉS DE MILHO, canção de amor à família e amigos, e também MATANÇA para não esquecermos a mãe natureza. É hora também de agradecermos a Augusto Jatobá por essas duas lindezas! 

PÉS DE MILHO, canção de Augusto Jatobá - 1980 

Pés de milho andarilhos 
como os nossos filhos 
procurando vinte milhas 
pelas nossas filhas 
protegendo milharais 
como as nossas mães 
perseguindo os animais 
como os nossos pais 
comparando a rouxinóis 
tal nossos avós 
flutuando pelos rios 
como os nossos tios 
fungos, cogumelos, limos 
como nossos primos 
tanta gente tão aflita 
que eu nem sei ainda 
se transformo trigo em pão, 
pra nossos irmãos 
ou transformo pão em trigo 
pra nossos amigos 
que estão salvos do perigo 
do primeiro abrigo 
procurando girassóis 
como todos nós. 



quinta-feira, 19 de março de 2020

Em tempos de Corona. Cuba aponta a direção, agora e depois...


POR ABILIO NETO

Em tempos de Coronavírus, fui a um endocrinologista pela 1ª vez na vida. Consulta pelo convênio e o homem não quis nem saber: passou uma hora e vinte minutos comigo analisando a bateria de exames que lhe mostrei e depois mostrando-me um novo caminho. No final, duas receitas para mandar manipular e dois cortes que me doeram bastante porque serão definitivos: 1) tudo que é alimento que contenha trigo; 2) toda e qualquer fritura. 

É mole viver sem coxinha? De galinha, é claro. E o pão francês quentinho da Cidade Jardim? Não me pertence mais. Ele disse que se o pão fosse feito com o trigo de Portugal, tudo bem, porém o de Pindorama é péssimo! 

Vou obedecer porque minhas defesas estão muito baixas, caso seja agarrado pelo Corona ou qualquer outro vírus. Neste momento, quando as possibilidades de contágio são muito altas (e isso ainda vai piorar!), minha esperança vem de Cuba com o medicamento Interferón Alfa 2B que, silenciosamente, vem curando muita gente na ilha famosa.  

Tanto deu certo que esse medicamento foi escolhido, entre outros,  pela Comissão Nacional de Saúde chinesa para ser usado no país para tratamento do coronavírus. No domingo (8/3), o presidente de Cuba, Miguel Díaz Canel, comemorou em seu perfil no Twitter a parceria com a China. O medicamento tem sido feito na fábrica chinesa-cubana ChangHeber, lá na China. 

Lembro que em 2019, após fazer uma crítica ao governo Bolsonaro, uma ex-amiga indagou se eu torcia contra, disse que sim e ela me mandou ir pra Venezuela. Respondi que só iria depois que ela fosse pra Cuba e ela se ofendeu. Resultado: se tivesse ido, estaria mais segura lá do que aqui neste Brasil varonil, isso em termos de segurança e saúde. O dinheiro não valerá nada se todos os leitos de UTI estiverem ocupados e essa previsão triste não está fora dos planos das autoridades de saúde brasileiras. O Brasil não é a China que construiu hospitais em tempo recorde. 

Zé do Rock diria, contrariado, que Cuba não tem nada atraente para fazer em finais de semana porque a ilha não dá muita bola pra roqueiro. E deveria dar quando tem a salsa-merengue? 

E quando esse ritmo é tocado por uma banda composta somente por mulheres? O rebolado bom é pra acabar até com o falso puritanismo de Edir Macedo e companhia limitada. Comprovem! 





Pernambucano, 70 anos, é memorialista e pesquisador musical, além de  pequeno colecionador de discos. Seu arquivo contém algumas obras que se tornaram preciosas na música brasileira diante do mau gosto popular nessas duas primeiras décadas do século XXI. São frevos, sambas, maracatus, forrós, xotes, polcas, toadas, marchinhas, merengues e choros. Tem mais de 400 artigos escritos sobre música que foram publicados em sites da internet, ‘terreno’ que se notabiliza pela impermanência. Seus artigos provam que a História também se conta através da música.


Música e sociedade, música e política, música e afeto, amizade, alegria e prazer. Uma delícia quando lemos o texto de uma pessoa que sabe fazer essa combinação. É o que faz Abilio Neto, o qual conhecemos nos anos do Overmundo, entre 2006 e 2011, primeiro portal nacional de internet dedicado a difusão  da  cultura independente, das periferias, dos sertões,   dos que mesmo produzindo com qualidade e compromisso, não conseguiam espaços para fazer divulgação nos cadernos culturais dos grandes jornais.
Ler o texto do Abilio Neto é como conversar ao cair da tarde em um alpendre de varanda das casas coloniais, cercados pela brisa suave que sopra das árvores, grandes e pequenas que cercam o redor da casa. Ou então,  é como conversar em uma barraca de praia, sentindo o vento que vem do mar soprando em nossas caras, bebendo uma boa caipirinha, intercalando com água de coco.


Abilio Neto é colaborador eventual do blog da Ação Cultural. Começou no mês de dezembro de 2019. 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Sete punhaladas de frevo


Foto: https://oglobo.globo.com/brasil/o-dia-do-frevo-em-olinda-15291375

SENHORA DAS DORES São sete. Sete luas no minguante, sete dobres compassados, sete irmandades contritas, sete lanternas acesas. Sete vísceras sangrando, sete andores florescidos, sete tochas reluzindo, sete hastes. Sete farpas. Sete cravos pontiagudos. Sete espinhos venenosos, Sete chagas, sete horrores: são sete punhais de prata ferindo o peito das Dores. O primeiro, é o meu desprezo pela dor do desvalido; o segundo, o meu orgulho, que me cega aos meus defeitos; o terceiro, o preconceito com que trato os mais humildes; o quarto, minha soberba em ver tudo ao meu feitio; o quinto, esta vaidade que dissimulo com jeito; o sexto, minha cegueira, minha impossibilidade de ver o mundo ao avesso do retrato que eu desenho; o sétimo, mais doloroso, é exigir das pessoas que sejam meu próprio espelho… Perdoa, Senhora, as chagas que, existindo, lhe causo. Mas como existir perdão se nem sequer me arrependo? Se nem estanquei o sangue que das chagas cai ao chão? Que pode aspirar aquele que lhe cravou sete facas, se ainda oculta mais sete no cavo de sua mão? 

Um dia, passeando pela Gazeta de São João del Rei/MG encontrei este poema-oração maravilhoso. Frustrado fiquei porque não consegui descobrir o nome do autor. Sete é um número reconhecidamente misterioso: em Portugal há milhares de devotos da Virgem dos Sete Punhais; existe o Mistério dos Sete Punhais que é fonte de estudo de uma ordem secreta que se assemelha à maçonaria; no candomblé existe o Exu Sete Punhais assim como a Pomba Gira Sete Punhais; quando menino, eu me assustava com as histórias da Mulher das Sete Saias contadas por meu avô, aquela que tinha sete maridos e sete navalhas afiadas para cortá-los; e para ficar por aqui, as Sete Agonias de Jesus Cristo têm especial relevância para toda cristandade assim como as Sete Frases que proferiu pregado na cruz. 

Estamos na semana pré-carnavalesca. Então é preciso orar e refletir para depois cair na folia. Eu desejo abordar esse místico número de forma mais leve: sete punhaladas de frevo. Por que punhaladas? Porque compositores de frevo são poetas que gostam e entendem muito de gente, de modo que frases musicais podem ferir apenas pelo dom de iludir que certos frevos-canções trazem, os quais se transformam em verdadeiras punhaladas (sem sangramento) nos corações daqueles que não se arrependeram de amar ao longo da estrada da vida.  

O frevo liberta, faz a gente pular de tão feliz e ainda nos acena com aquela pequeníssima esperança de encontrar no meio do povo folião aquele amor do passado que o coração carrega em silêncio, mas ainda não se perdeu na poeira do tempo. Carnaval não é festa para casais ou grupos de amigos. É para quem quer se perder ou se achar. Não importa a idade do folião, o frevo embala a alma cativa de quem espera encontrar alguém especial na multidão. A quarta-feira de cinzas foi feita para os pecadores arrependidos, se bem que Chico Buarque tem um frevo cuja letra diz: "não existe pecado do lado debaixo do Equador". Então tá.

Pensando nisso, selecionei sete punhaladas de frevo que nem são cantados por essas ruas ingratas do Recife e Olinda que é por onde transito durante o carnaval. Mas esses frevos selecionados são muito, muito queridos por mim, uns mais lentos, outros mais apressados, uns com arranjos tradicionais e outros mais distantes disso. O que importa mesmo é que todos são frevos feitos para dançar e amar (deitado ou em pé). Então lá vai frevo, meu bem, e ele é todinho para você!

A 1ª punhalada-frevo, SEDUÇÃO, foi gravada pela saudosa Beth Carvalho em 1983, de autoria de Luiz Bandeira, que teve a 1ª gravação em 1959. O registro sonoro de Beth tem arranjos maravilhosos e bem pernambucanos e ela cantando frevo é o máximo! 

A 2ª punhalada-frevo, PRO QUE DER E VIER, foi dada por Joanna, também em 1983, quando pediu a Sivuca para gravar o frevo de sua autoria e Paulinho Tapajós, gravado pelo paraibano naquele mesmo ano, que não só autorizou a nova gravação como repetiu nela os belos arranjos do LP original. 

A 3ª punhalada-frevo foi desferida por Elba Ramalho, em A MULHER DO DIA, de 1979, que narra a emoção do compositor Carlos Fernando, em Olinda, o qual tendo dormido embriagado, despertou ao som dos clarins da troça de mesmo nome, ainda vestido de Nero, num sábado de carnaval, tendo ficando apaixonado pela boneca gigante que se casou em 1990 com o Homem da Meia-Noite e ambos ainda hoje puxam animados foliões ao som de orquestras de frevo.    

A 4ª punhalada-frevo foi aplicada de forma quase imperceptível pelo cearense Ednardo, autor de MAIS UM FREVINHO DANADO, de 1974, que é um dos mais esquecidos pelos cantantes do ritmo, no que se constitui uma tremenda injustiça com o antigo membro do grupo “pessoal do Ceará” que desembarcou no Rio de Janeiro no início dos anos 70 para brilhar como se fosse uma estrela. 

A 5ª punhalada-frevo tem a autoria assassina de Caetano Veloso até no título, DEIXA SANGRAR, gravado originalmente por Gal Costa e regravado de maneira insuperável por Roberta Sá em 2012. É um frevo espetacular que maltrata e recompensa ao mesmo tempo quem o ouve! 

A 6ª punhalada-frevo foi lançada em 1981 por Nara Leão, BLOCO DO PRAZER, de Moraes Moreira e Fausto Nilo, que em ritmo de marcha lenta avisa para quem quiser ouvir: “não quero oito nem oitenta, eu quero o bloco do prazer”. A gravação de Nara é impecável e ainda teve o auxílio luxuoso da sanfona de Oswaldinho do Acordeon. 

A 7ª e última punhalada-frevo tinha que ser do meu cantor de frevo preferido: Caetano Veloso. Aqui ele traz NOITES OLINDENSES, do saudoso Carlos Fernando, compositor e produtor desse gênero que, de 1979 a 1993, revolucionou o frevo-canção de Pernambuco. Faleceu em 2013, não sem antes sentir o amargo sabor do esquecimento em vida. 


POR ABILIO NETO
Pernambucano, 70 anos, é memorialista e pesquisador musical, além de  pequeno colecionador de discos. Seu arquivo contém algumas obras que se tornaram preciosas na música brasileira diante do mau gosto popular nessas duas primeiras décadas do século XXI. São frevos, sambas, maracatus, forrós, xotes, polcas, toadas, marchinhas, merengues e choros. Tem mais de 400 artigos escritos sobre música que foram publicados em sites da internet, ‘terreno’ que se notabiliza pela impermanência. Seus artigos provam que a História também se conta através da música.