terça-feira, 14 de julho de 2026

Do ‘Game of Thrones’ bolsonarista ao ‘Conto da Aia’

 PROIBIÇÃO DO VOTO FEMININO

Quando uma mulher disputa poder, tenta-se desqualificar sua racionalidade; quando muitas votam contra a extrema-direita, tenta-se desqualificar o próprio voto feminino.

Beto Vasques

13 de julho de 2026
A fala de Paulo Figueiredo, segundo a qual mulheres “votam mal”, sobretudo as solteiras, não deve ser tratada como mais uma grosseria de um influenciador em busca de engajamento. Seria confortável reduzi-la a uma bizarrice, uma provocação machista ou uma excrescência isolada do submundo digital. O problema é mais grave. Trata-se da expressão local de uma corrente internacional da ultradireita que voltou a mirar direitos civis das mulheres, e não só o sufrágio.

A obscenidade contemporânea raramente chega de uma vez. Ela se naturaliza por aproximações sucessivas. Primeiro aparece como piada. Depois, como provocação. Em seguida, como “debate”. Logo surge alguém dizendo que é apenas uma hipótese, um “dado estatístico”, uma reflexão incômoda, uma tese contraintuitiva ou o legítimo direito à liberdade de expressão.  Quando se percebe, o indizível já foi dito, o absurdo já entrou na agenda e a barbárie já encontrou seus porta-vozes.

Foi assim com a curvatura da Terra e com a higidez das urnas eletrônicas, atacadas sem provas durante anos. Foi assim com as vacinas em plena pandemia e, recentemente, com a tentativa de normalizar a ingerência norte-americana no Brasil. De tema em tema, a extrema-direita testa os limites do tolerável. O objetivo não é convencer todos de imediato, mas deslocar a fronteira do aceitável, normalizar a obscenidade civilizatória e permitir que seja desejada a céu aberto por uma legião medievalesca.

Agora, o alvo é o voto feminino.
O Boletim Especial do Instituto Democracia em Xeque, de 3 de julho, destacou que a controvérsia ganhou tração entre 30 de junho e 1º de julho, exatamente quando se aprofundava a crise entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. Foram mais de 23 mil menções ao termo “voto feminino”, com pico no dia 30. Na base classificada pelo DX, o maior cluster do debate, com 38% dos posts, foi justamente o da frase “mulheres votam mal”. O segundo, com 30%, enquadrou o voto feminino como direito democrático histórico e inegociável.

O dado mais revelador, porém, não é apenas quantitativo. É político. O relatório aponta que Figueiredo uniu duas engrenagens que vinham operando em paralelo: de um lado, a manosfera red pill, com sua hostilidade organizada às mulheres; de outro, o gabinete do ódio bolsonarista, hoje em grande medida fora do país, alimentado pelos enquadramentos originados pelo ecossistema MAGA norte-americano. A misoginia deixou de ser apenas uma expressão difusa de ressentimento masculino e passou a funcionar, primeiro, como instrumento e, agora, como motor da disputa eleitoral.

A fala apareceu no meio do Game of Thrones bolsonarista: a disputa pelo espólio político de Jair Bolsonaro entre o primogênito e a ex-primeira-dama. O que começou como ataque a Michelle – acusada de não entender de política – rapidamente transbordou para as mulheres como sujeito político. A lógica é antiga: quando uma mulher disputa poder, tenta-se desqualificar sua racionalidade; quando muitas votam contra a extrema-direita, tenta-se desqualificar o próprio voto feminino.

Atrizes marcham contra ditadura militar em 1968 (Foto: Reprodução/O Globo)
Eis o ponto: quando diferentes correntes da direita radical começam a tratar o voto individual como problema, o alvo não é apenas a mulher. São os marcos democráticos e civilizatórios. A justificativa muda conforme a conveniência. Beneficiários de programas sociais votariam mal porque seriam “comprados”. Trabalhadores pobres votariam mal porque seriam dependentes. Mulheres solteiras votariam mal porque teriam sido capturadas pelo feminismo. Pessoas trans, imigrantes, jovens, pobres, negros, indígenas, moradores de periferia: sempre haverá um grupo considerado incapaz de votar corretamente quando não vota como a extrema-direita quer.

O voto só é legítimo quando confirma a hierarquia desejada. A ideia de “voto da família” reveste-se de pseudo-coerência e harmonia doméstica, mas não é mais que subordinação política. Parece defender valores, mas elimina autonomia. Finge celebrar a família, mas consagra o mando masculino. O voto deixa de ser expressão da cidadania individual e passa a ser extensão da autoridade patriarcal.

Não por acaso, a reação de Flávio foi tardia e ambígua. Como pré-candidato, ele sabe que não vence eleição hostilizando mulheres. Como herdeiro do bolsonarismo, sabe que parte relevante de seu ecossistema digital se alimenta justamente dessa hostilidade. Precisa repudiar Figueiredo, não sem elogiar “tudo que está fazendo por nós” nem romper com o mundo que o produziu. Precisa acenar ao eleitorado feminino sem desautorizar de fato a máquina que o sustenta. Precisa dizer que “a mulherada manda”, enquanto seus aliados difundem teses que gostariam de devolver as mulheres ao silêncio político da época das cavernas.

A crise expõe uma contradição estrutural. O bolsonarismo depende das mulheres para vencer, mas parte de sua vanguarda digital não tolera a autonomia feminina quando ela contraria seus interesses eleitorais. As mulheres são bem-vindas como eleitorado cativo, como escada moral, como símbolo de família. Não como sujeitos autônomos.

A comparação com o Conto da Aia é precisa. O mundo de Gilead não começa com mulheres de vermelho nas ruas e direitos extintos de um dia para o outro. Inicia antes, quando a sociedade aceita ouvir, em tom de brincadeira ou cálculo eleitoral, que talvez algumas pessoas não devam decidir por si mesmas.

O episódio Figueiredo é mais um desses testes. Não o primeiro. Certa e infelizmente, não será o último.

A defesa do voto feminino não pode ser tratada como pauta identitária lateral. Trata-se de defesa elementar da democracia. O sufrágio universal é conquista histórica contra todos os que sempre desejaram restringir a cidadania aos que consideram obedientes, racionais, proprietários ou “aptos”.

A cada nova barbaridade, alguém dirá que é exagero levar a sério. Que é só provocação. Que é só internet. Que é o preço da sacrossanta liberdade de expressão. A experiência histórica ensina o contrário: democracias começam a adoecer quando passam a tratar ataques a direitos fundamentais como mera excentricidade retórica.

Entre o Game of Thrones bolsonarista e o Conto da Aia, há um fio comum: a disputa por quem manda. Na família, no partido, no corpo das mulheres e, agora, no voto. A resposta democrática precisa ser simples, frontal e inegociável: nenhuma estatística “mandrake”, nenhum “influenciador” recalcado e nenhum projeto de “voto familiar” tem o direito de transformar metade da população em cidadania tutelada.

Beto Vasques é Diretor de Relações Institucionais do Instituto Democracia em Xeque. Professor de Estratégia e Comunicação Política e coordenador do projeto de implantação do Laboratório de Opinião Pública da FESP    

Michele Bolsonaro e o Paradoxo de Serena Joy: Quando a Ascensão Feminina Serve ao Patriarcado Estrutural

A minha resposta abaixo, a partir de conversa com uma jovem feminista, anterior  a leitura do texto em acima, coincidentemente  minutos antes de termos acesso ao mesmo,  analisa o paradoxo da possível ascensão política de Michele Bolsonaro. Em vez de representar um avanço feminino, seu movimento se alinha ao papel de Serena Joy em O Conto da Aia: ela é a exceção que legitima a regra. Ao disputar o poder internamente (lógica do Game of Thrones), ela não subverte o patriarcado, mas o fortalece, servindo como escudo para um projeto conservador que, na prática, restringe a autonomia feminina. Sua vitória individual cimentaria, paradoxalmente, os alicerces da opressão estrutural que o movimento defende.

 1. O "Game of Thrones" com uma nova jogadora (Michele vs. os Herdeiros)
No enredo da disputa interna do bolsonarismo, Michele deixou de ser a "rainha consorte" decorativa para se tornar uma jogadora ativa. O conflito gerado por ela no seio do clã (especialmente contra os filhos Carlos e Eduardo) não é um mero "rachismo" familiar; é uma luta direta pelo controle do capital político do patriarca.

Na lógica de Game of Thrones, ela está disputando o "Trono de Ferro" do movimento, recusando-se a ser apenas uma regente enquanto os herdeiros crescem. Ela quer um pedaço do espólio e, ao lançar sua pré-candidatura ao Senado em 2026, ela institucionaliza essa disputa. É a guerra civil dentro da casa.

2. O Paradoxo de Serena Joy: A mulher que fortalece o próprio cárcere
Agora, entramos no paradoxo do Conto da Aia. Na série/obra de Margaret Atwood, Serena Joy é a arquiteta intelectual de Gilead. Antes do regime, ela era uma ativista que pregava a volta da mulher ao lar e a submissão ao marido. Quando o regime se instaura, ela se vê presa na própria gaiola que ajudou a construir.

O paradoxo de Serena é:

Ela tem poder de influência (sobre o Comandante, sobre os guardas, sobre a própria June).

Mas ela não tem poder institucional próprio (não pode ler, não pode ter propriedade, é reduzida ao papel de esposa estéril e vigiada).

Ela usa seu status para oprimir outras mulheres, acreditando que isso a coloca "ao lado dos vencedores", mas isso só aprofunda a estrutura que a subjuga.

3. Como isso se aplica a Michele Bolsonaro e à política brasileira atual?
Se Michele ocupar cargos de maior poder (como uma vaga no Senado) dentro deste projeto político, a vitória não será do feminismo, mas do patriarcado travestido de empoderamento individual. Eis o paradoxo:

Ela é a exceção que confirma a regra: A ascensão dela só é tolerada porque ela é a "esposa do líder". Ela não rompe com o teto de vidro do bolsonarismo; ela apenas prova que, dentro daquele ecossistema, a única mulher que pode ter poder é aquela que serve como extensão da vontade do homem (o marido).

Ela legitima a opressão estrutural: Ao disputar o poder usando a bandeira conservadora, defendendo pautas que restringem direitos reprodutivos e a laicidade do Estado, Michele está atuando como Serena Joy. Ela está "normalizando" a misoginia de Gilead. Se ela vencer, o discurso do movimento será: "Vejam, nós não somos machistas, temos uma mulher forte na liderança!".

O contributo à vitória do patriarcado: Esse discurso serve como um escudo perfeito para desarmar as críticas externas. Enquanto a sociedade vê uma mulher ocupando espaço, as bases do movimento (homens e mulheres tradicionais) continuam implementando políticas que, na prática, mantêm a maioria das mulheres subjugadas. Ela se torna a "prova viva" de que o sistema não é opressor, exatamente como Serena usava sua imagem nos eventos de Gilead.

4. A articulação final entre as duas séries
Aqui está a costura perfeita entre os dois enredos aplicados à realidade:

O "Game of Thrones" bolsonarista (disputa de Michele com os filhos) é a tática de curto prazo. É a luta para ver quem fica com os espólios e as candidaturas.

O "Conto da Aia" é a estratégia de longo prazo. Se Michele vencer essa disputa interna e chegar ao poder, ela não estará subvertendo a lógica de Gilead; estará institucionalizando-a. Ela será a Serena Joy brasileira: uma mulher que alcançou projeção nacional exatamente por defender um projeto que, se plenamente realizado, a reduziria (e reduziria todas as outras) a um papel subalterno.

Conclusão: Na política brasileira atual, o movimento de Michele não é um sinal de abertura democrática ou avanço feminino. É, como você bem colocou, um contributo paradoxal: ao chutar a escada do "Game of Thrones" para subir, ela está, ao mesmo tempo, cimentando os alicerces do "Conto da Aia" para as demais. A vitória dela é a vitória da exceção que protege a regra, garantindo que o patriarcado continue vitorioso exatamente porque usa uma mulher como sua principal fiadora.





O bode expiatório bilionário: por que o dossiê “Farras” desmonta a narrativa contra a Lei Rouanet

Enquanto uma parte da imprensa  e parte do legislativo formada por políticos da direita, aqui incluindo “centrão” e os extremistas, miram na renúncia fiscal da Lei Rouanet como o grande vilão do orçamento cultural, um levantamento inédito aponta que o dinheiro público está sendo queimado em um palco muito maior, mais concentrado e com muito menos transparência: o dos shows financiados diretamente por prefeituras e governos estaduais.

Por anos, a Lei Rouanet (Lei Federal de Incentivo à Cultura) foi colocada na berlinda como o símbolo máximo do “desperdício” do dinheiro público. Piadas em redes sociais, projetos de lei para sua extinção e ataques recorrentes de formadores de opinião fizeram da renúncia fiscal um espantalho conveniente. No entanto, o dossiê “Farras”, publicado em julho de 2026 pelo Observatório De Olho nos Ruralistas, vem para recolocar a lupa no lugar certo — e expor um incômodo silêncio sobre contratos diretos que drenam os cofres públicos em proporções gigantescas.

________________________________________

Os números que não podem ser ignorados

O coração do dossiê é um levantamento de impacto: desde janeiro de 2024, apenas 40 artistas (ou, mais precisamente, suas produtoras e escritórios de representação) embolsaram, juntos, a cifra estratosférica de R$ 3,08 bilhões oriundos de contratos públicos firmados com Estados e municípios.

Para que o leitor tenha uma dimensão real do que isso representa, o relatório faz um recorte comparativo direto com a Lei Rouanet. Em 2025, a lei de incentivo atingiu seu recorde histórico de captação, com cerca de R$ 3,41 bilhões viabilizados para projetos culturais em todo o país.

Ou seja, o montante gasto com esse grupo seleto de artistas em shows e megas eventos é praticamente idêntico ao valor total captado por toda a diversidade cultural brasileira via renúncia fiscal no mesmo período. A diferença, no entanto, não está apenas nos números, mas na natureza do gasto.

________________________________________

O ralo direto: quando o dinheiro sai sem escalas

A primeira grande distinção apontada pelo dossiê “Farras” está na origem e no fluxo do recurso.

1. Saída imediata do caixa: Enquanto os recursos da Lei Rouanet envolvem renúncia fiscal — ou seja, o dinheiro que a União deixaria de arrecadar com impostos se a empresa não patrocinasse o projeto —, os R$ 3,08 bilhões mapeados no relatório saem diretamente e de forma líquida do Tesouro de Estados e municípios. É dinheiro que sai do orçamento da saúde, da educação e da infraestrutura para pagar cachês, estruturas de palco, equipes técnicas e divulgação de shows.

2. Sem contrapartida obrigatória de incentivo: Na Rouanet, o projeto precisa passar por análise, aprovação no Ministério da Cultura e, muitas vezes, exige contrapartidas sociais ou culturais. Nos contratos diretos de shows, a lógica é muitas vezes a da prestação de serviço pura e simples, sem a exigência de legado cultural ou descentralização.

________________________________________

Concentração versus diversidade: o verdadeiro cerne da questão

A segunda revelação do dossiê escancara o que os críticos da Rouanet raramente mencionam: a pulverização dos recursos.

Pela Lei Rouanet, o dinheiro é distribuído entre milhares de projetos em todas as regiões do país, abrangendo teatro, dança, circo, artes visuais, cinema de autor, música erudita, patrimônio histórico e literatura. É um ecossistema complexo e fragmentado.

Nos contratos diretos, a lógica é inversa. O dossiê “Farras” revela que quase a totalidade dos R$ 3,08 bilhões foi destinada a megashows musicais, concentrados em poucos gêneros dominantes do mercado fonográfico, frequentemente realizados em grandes centros urbanos ou em festas de aniversário de cidades.

Em outras palavras: enquanto o debate público ataca a Rouanet supostamente por financiar “produções de elite” (o que já é uma meia-verdade), os olhos se fecham para um fluxo bilionário que financia exclusivamente o mainstream musical, sem qualquer contrapartida de fomento à cadeia cultural diversificada.

________________________________________

Por que a narrativa desvia o foco?

Se o montante é tão expressivo e o critério de gasto é tão questionável, por que a Lei Rouanet continua sendo o alvo preferencial? O dossiê sugere que a resposta está na conveniência política e midiática.

Atacar a Lei Rouanet é um ato de baixo risco político. Ela é facilmente associada a uma suposta “casta cultural” de São Paulo e Rio de Janeiro, virando um símbolo fácil de ser combatido em discursos populistas. Já os contratos milionários de shows envolvem agentes poderosos: prefeitos em ano eleitoral, governadores em busca de popularidade imediata e grandes empresários do entretenimento que têm forte capilaridade nos parlamentos estaduais e na Câmara dos Deputados.

O relatório do De Olho nos Ruralistas acende um alerta: a ausência de um debate rigoroso sobre esses gastos diretos permite que o dinheiro público seja usado como moeda de troca eleitoral e como vitrine pessoal de gestores, sem passar pelo crivo dos mecanismos de transparência e diversidade que a Lei Rouanet (ainda que imperfeitamente) exige.

________________________________________

Conclusão: é hora de virar a chave

O dossiê “Farras” não defende a extinção ou a manutenção cega da Lei Rouanet; ele propõe, na verdade, um reposicionamento do debate. Se a preocupação da sociedade é com o mau uso de verbas públicas, o foco de investigação, controle e indignação popular precisa migrar urgentemente.

Enquanto uma parte da imprensa da imprensa tradicional  e os politicos hipócritas  continuarem caçando o "vilão" errado — criminalizando o patrocínio a um filme ou a uma peça de teatro —, o verdadeiro rombo continuará escorrendo pelos bastidores das grandes arenas musicais, impulsionado por contratos diretos que privilegiam um punhado de artistas bilionários em detrimento de toda a cadeia produtiva da cultura brasileira.

Os dados estão na mesa. Resta saber se a sociedade e o Tribunal de Contas da União (TCU) e os Tribunais de Contas dos Estados (TCEs) terão coragem de apontar o holofote para o palco certo. Afinal, como bem resume o dossiê, não é a lei que está doente; é o sistema de financiamento paralelo, opaco e concentrador, que insiste em fazer shows enquanto a música ou de forma mais ampla a cultura diversa, fica sem palco e sem público.

P.S.: 1 -  A contradição do expectro ideológico ou "fisiológico" de onde surgem as criticas a Lei Rouanet por um viés reacionário e inconsequente.

Prefeituras governadas por partidos de direita são responsáveis pela maior parte dos gastos públicos com shows. É o que indica o relatório Farras, publicado em 1º de julho, que analisou cerca de 20 mil contratos firmados em todo o país.

https://www.facebook.com/reel/3179952752202422?locale=pt_BR

Os dados apresentados pelo pesquisador do De Olho nos Ruralistas, Bruno Bassi, no programa Manhã Brasil, indicam que, em 2025, 72% dos recursos destinados a apresentações musicais estavam concentrados em municípios administrados por partidos de direita — considerando, nesse espectro, o Centrão e a extrema direita. Entre os partidos de centro-esquerda, que respondem por 28% desses gastos, Bassi destaca o PSB como o partido que mais concentrou despesas naquele ano.

Para saber mais, acompanhe o De Olho nos Ruralistas . Assista também aos nossos vídeos especiais no YouTube: youtube.com/@DeOlhonosRuralistas.

O De Olho nos Ruralistas é um observatório jornalístico independente e depende do seu apoio para continuar produzindo pesquisas de fôlego com uma equipe premiada.

Aracaju está no topo nacional de gastos com grandes shows. Dossiê aponta conexões de cachês milionários com poder político

domingo, 12 de julho de 2026

A Anatomia do Nosso Caos: O Que Vivaldi e as Irmãs Sandes Nos Ensinam Sobre a Urgência de Cultivar Públicos e Memorias

Por Zezito de Oliveira

Ontem, sábado, 11 de julho, manifestei minha indignação pela pouquíssima presença de público na primeira sessão de sábado do filme Anatomia do Caos, em cartaz no Cinema do Centro, em Aracaju. Publiquei o desabafo em alguns grupos e o enviei para conhecidos individualmente; alguns responderam, outros não. Ao encerrar a sessão, deparei-me com um grupo significativo de pessoas do lado de fora esperando a exibição seguinte. Perguntei a Rás de Sá — um grande companheiro interessado na vida cultural e na saúde cívica de nossa cidade, da qual o acesso diversificado à produção e fruição artística é um claro indicador — e ele me respondeu: "É sobre um filme da vida de Vivaldi, autor de As Quatro Estações. Foi um dos selecionados para o Festival do Cinema Italiano e teve uma boa repercussão, por isso retornou à programação." Rás estava acompanhado de sua mãe, Walmir Sandes. Antes, eu já o havia encontrado no sensacional concerto da Orquestra Sinfônica de Sergipe, alusivo às comemorações da emancipação política do estado, na mesma boa companhia. Guardemos essa informação pois retomaremos mais adiante, porque essa companhia  não é apenas um detalhe.
🎬 O Enigma das Salas Vazias no Cinema de Arte
Por ora, voltemos à pouca presença de pessoas na primeira sessão deste sábado. Vamos pensar juntos, como costuma provocar o professor João Cézar de Castro Rocha. A flutuação de público em cinemas de arte é comum, ocorrendo por razões inerentes ao perfil das obras e dos espectadores. Muitas dessas produções caracterizam-se pelo caráter crítico, altamente reflexivo, polêmico e experimental, sem perder o encantamento próprio da chamada Sétima Arte. Portanto, é esperado que algumas sessões esvaziem e outras lotem. Porém, há filmes que transcendem o mero entretenimento; são urgentes, necessários e relevantes. É muito comum dizermos — em aulas, escritos acadêmicos, transmissões de internet, podcasts, artigos impressos e rodas de conversa — que somos um país sem memória. Até o brilhante Gonzaguinha imortalizou essa temática em uma canção magistral "PEQUENA MEMÓRIA PARA UM TEMPO SEM MEMÓRIA" . A canção de Gonzaguinha homenageia os resistentes à ditadura militar, clamando pelo resgate da memória dos perseguidos e oprimidos. A letra exalta a coragem de anônimos que lutaram pela liberdade e critica o esquecimento, instando as futuras gerações a manterem viva a história e a resistência. 
🦠 Anatomia do Caos: O Testemunho de um Sobrevivente
É por isso que, quando surge um filme que trata de forma necessária e competente de um aspecto recente e traumático de nossa história — a pandemia do coronavírus, potencializada pelo pandemônio que foi o governo do inominável —, e essa obra não recebe a atenção merecida por parte de intelectuais, formadores de opinião, professores, lideranças ou ativistas sociais e culturais, não podemos "deixar barato". Dirigido pela cineasta baiana Dandara Ferreira, o documentário Anatomia do Caos organiza de forma condensada e potente os bastidores da CPI da Covid, realizada ao longo de 2021. A investigação revelou o nível de degradação ética e moral a que chegamos a partir da eleição do senhor  Jair Messias Bolsonaro. 
Essa degradação causou a morte de milhares de brasileiros, incluindo a de minha santa mãe, que faleceu de Covid enquanto eu me encontrava no leito de um hospital, em estado de quase morte. Por conta de um coma induzido que durou cerca de um mês, seguido por vinte dias para o desligamento dos aparelhos e mais um longo período de recuperação de uma infecção hospitalar, só fui informado da partida dela dias após acordar. Como apenas 20% dos intubados naquela situação sobreviveram, considero minha sobrevivência um milagre. 
Através do filme de Dandara Ferreira, podemos recordar a incapacidade da gestão federal em lidar minimamente com aquela crise sanitária e, pior, o despudor de integrantes do alto escalão do governo. Enquanto a população agonizava, esquemas obscuros moviam os bastidores do poder, como o chocante escândalo da compra superfaturada da vacina indiana Covaxin. A CPI revelou que o Ministério da Saúde pressionou servidores para fechar um contrato bilionário a um preço quatro vezes maior que o de outros imunizantes e com indícios de reajuste de até 1.000% sobre o valor original — tudo isso enquanto ignoravam propostas anteriores de laboratórios consolidados. Ver o cinismo de autoridades tentando lucrar em cima de vidas humanas, sob o pretexto de defenderem "a família", escancara a gravidade histórica retratada no documentário. E o nível das brigas internas reveladas recentemente no seio da "família" apenas confirmam essa baixeza moral.
🎻 Primavera: A Arte Como Espaço de Resistência
Encerrado o assunto Anatomia do Caos, passo para o outro filme, Primavera, que retrata a opressão e a objetificação das jovens órfãs no Ospedale della Pietà, em Veneza, durante o século XVII. Dirigido pelo renomado encenador italiano Damiano Michieletto em sua estreia no cinema de longa-metragem, o drama foca em como as meninas recebiam uma educação musical de excelência, mas viviam reclusas e tratadas como mercadorias para a elite. Nesse cenário, a música surge como a única via de emancipação e resistência, tendo a chegada de Antonio Vivaldi como o catalisador que ajuda a protagonista Cecília a romper as barreiras institucionais e encontrar a própria voz. Baseado no romance Stabat Mater (2008), de Tiziano Scarpa, o filme de Michieletto exibe uma esplendorosa carpintaria cinematográfica, acumulando prêmios de público e do júri em festivais internacionais, além de receber quatro prestigiadas estatuetas no David di Donatello.
🎭 O Legado das Irmãs Sandes e a Memória Afetiva
É exatamente aqui que a presença de Rás de Sá no concerto e no cinema se conecta ao esvaziamento de Anatomia do Caos. Rás é filho e sobrinho de duas mulheres que brilharam na cena cultural de Aracaju: as irmãs Walkyria Sandes de Sá e Walmir Sandes, figuras pioneiras do teatro sergipano entre as décadas de 1970 e 1980. Walkyria marcou época como professora da CULTART/UFS e fundadora da FETAS, enquanto Walmir, a "Dama do Teatro Sergipano", cofundou o influente Grupo Opinião de Espetáculos. Ao crescer acompanhado por elas nos palcos de Aracaju e no Festival de Arte de São Cristóvão (FASC), Rás desenvolveu desde cedo um hábito cultural profundo e afetivo. Essa trajetória prova que o interesse por obras densas e a preservação da nossa saúde cívica e cultural dependem de uma transmissão de memória geracional, afinal no passado,  Ras é quem era levado pela mãe e/ou pela tia  para assistir peças de teatro, de dança, show musicais, filmes, concertos,  exposições de arte e etc., e quando cresceu até foi incluído como colaborador em algumas produções das duas irmãs Sandes, ele me contou certa vez como fez as vezes de  bilheteiro no Teatro Lourival Baptista, uma espécie de teatro de bolso antigo que existe em Aracaju, atualmente fechado, mas com perspectivas de ser reformado e reaberto até o final deste ano através de parceria do governo estadual com o governo federal através do PAC.
🏛️ Educação e Cultura Como Estratégias de Saúde Cívica
Para que salas de arte não fiquem vazias diante de filmes tão necessários, faz-se urgente que os professores da educação básica também frequentem assiduamente esses espaços. Ao expandirem seus próprios repertórios críticos, os educadores tornam-se capazes de motivar os alunos de forma autêntica, agindo como os catalisadores culturais que Vivaldi foi na ficção de Damiano Michieletto e que as irmãs Sandes foram na realidade sergipana. Contudo, essa circulação não pode depender apenas do esforço individual; ela precisa ser consolidada como uma estratégia de política educacional de Estado. Espelhando-se em programas de sucesso de outros estados — como o Cinesaberes no Rio de Janeiro —, o poder público deve estruturar parcerias que garantam transporte escolar gratuito para itinerários culturais, ingressos subsidiados e formação continuada para os docentes. Somente integrando o cinema de arte e o teatro ao currículo pedagógico formal será possível combater a nossa crônica falta de memória, lotar as salas de exibição com as novas gerações e assegurar, de fato, a cidadania cultural. Esta é um dos pilares principais de nossa democracia ainda insuficiente — o que significa dizer, de forma bem poética, uma flor com pouca defesa. O investimento maciço e combinado em educação e cultura é o que pode garantir a saúde desse ecossistema, gerando frutos mais robustos e sustentáveis.
Para quem puder ir, ainda tem sessão de "Anatomia do Caos" nesta segunda-feira 18h15. "Primavera" pela grande receptividade do público ainda pode voltar. Todos os dois dois merecem ser vistos ou revistos também no streaming,  quando estiver disponível.

https://www.instagram.com/cinemadocentro/

Zezito de Oliveira é historiador,  professor e ativista cultural em Sergipe. Sobrevivente severo da Covid-19 — após enfrentar um longo período de intubação e tratamento —, traz em sua escrita a urgência de quem compreende a arte e o resgate histórico não apenas como ferramentas pedagógicas, mas como pilares inegociáveis para a memória coletiva, a justiça social e a saúde cívica do país.

sábado, 27 de junho de 2026


Primavera encontra a história que faltava a Antonio Vivaldi

O documentário CEM APLAUSOS (2015) acompanha um dia na vida da atriz Walmir Sandes, considerada a dama do teatro sergipano. Com mais de 40 anos de palco, a atriz continua em cena e é memória viva de grandes momentos da cultura local. Através da coleta de depoimentos, ações e materiais de arquivo, este filme busca retratar a vida dessa mulher ao mesmo tempo em que resgata a história e as personalidades que marcaram os últimos 40 anos do teatro em Sergipe.(Este vídeo foi apresentado ao Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Sergipe, como requisito final para obtenção da graduação em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo).
Biografia, Documentário - 0:0 - Sergipe, Brasil, 2015
Tipo de Obra: Cinema
Direção: Anne Samara Torres
Direção de Fotografia: EDUARDO FREIRE
Edição - Montagem: ANNE SAMARA TORRES LU SILVA
DIREÇÃO, PRODUÇÃO E ARGUMENTO ANNE SAMARA TORRES   ASSISTENTE DE DIREÇÃO   EVERLANE MORAES ASSISTENTE DE PRODUÇÃO JOEL COSTA JUNIOR  DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA E CÂMERA  EDUARDO FREIRE   CAPTAÇÃO DE ÁUDIO   SÉRGIO ROBSON CAMPOS MONTAGEM  ANNE SAMARA TORRESLU SILVAA RTE E ANIMAÇÃO MARCOS SANTOS PESQUISA ANNE SAMARA TORRES EDIÇÃO E FINALIZAÇÃO LU SILVA  EDIÇÃO DE ÁUDIO LEO AIRPLANE   TRILHA SONORA  FLOR (COUTTO ORQUESTRA)


sexta-feira, 10 de julho de 2026

🎬 Vamos ao cinema assistir Anatomia do Caos!

 

Mais do que um documentário, o filme é um convite à reflexão sobre um dos períodos mais marcantes da história recente do Brasil. Ao revisitar os acontecimentos da pandemia e os debates da CPI da Covid, a obra contribui para preservar a memória coletiva e fortalecer o exercício da cidadania.

Acreditamos que a cultura e o cinema têm um papel fundamental na formação do pensamento crítico, na defesa da democracia e na ampliação do diálogo sobre temas que impactam a vida de todos nós. Por isso, prestigiar Anatomia do Caos é também valorizar o cinema brasileiro e apoiar produções comprometidas com a verdade, a memória e o interesse público.

📍 Convide amigos e familiares.
🎥 Vamos assistir, refletir e debater juntos.

SINOPSE:
A obra oferece um registro detalhado da CPI da Covid-19, utilizando imagens inéditas dos bastidores do Senado e depoimentos. O documentário aborda os momentos críticos da crise sanitária, incluindo conflitos políticos, revelações e a gestão federal da pandemia, focando na busca por responsabilidade e no registro histórico dos eventos.


#AnatomiaDoCaos #CinemaBrasileiro #Cultura #Memória #Democracia #DireitosHumanos #AçãoCultural #CinemaDocumentário #blogdacultura #CulturaViva

sábado, 27 de junho de 2026