domingo, 2 de agosto de 2026

Rádio JB – Sintonizando memórias. Por Zezito de Oliveira

 A Rádio JB – e todo o ecossistema de rádios do Grupo Jornal do Brasil – é uma das melhores recordações que tenho do tempo em que morei no Rio de Janeiro, dos 8 aos 21 anos, década de 1970. Foi durante aqueles anos de contrastes que vivi a cidade: o Rio tinha belezas estonteantes e problemas estruturais, mas, naquele tempo, os problemas não ofuscavam as belezas como hoje.

No plano cultural, vivi um encantamento particular com o Grupo Jornal do Brasil. Troquei "O Globo" pelo centenário e respeitado jornal impresso "JB", mas foi no rádio que a paixão realmente se consolidou. Minha preferência pelo JB em relação a outros veículos não era gratuita. Diferentemente de parte da grande imprensa que apoiou o golpe e a ditadura, o Jornal do Brasil tinha uma linha editorial bem definida, liberal e antiditatorial. Embora seu posicionamento nos primeiros anos do regime fosse complexo – justificando o golpe em alguns momentos – o jornal se destacou por dar total cobertura a todas as manifestações, políticas ou artísticas, contra a ditadura militar. Durante a cobertura do AI-5, por exemplo, com a redação ocupada por censores, a saída encontrada foi publicar um boletim do tempo com a frase: "Ar estava irrespirável".

O JB se definia como um órgão "católico, liberal-conservador, constitucional e defensor da iniciativa privada". Mas, na prática, sua pluralidade era notável: assumia posições progressistas no nível político ao mesmo tempo em que mantinha concepções ortodoxas em termos de política econômica. Sua página de opinião reunia articulistas de diferentes vertentes ideológicas – conservadores, liberais e progressistas –, com nomes como Carlos Castello Branco na política, Barbosa Lima Sobrinho, o cronista Castelinho, e Alceu de Amoroso Lima. Do espectro conservador e católico, destacavam-se ainda as colunas semanais de Dom Marcos Barbosa, Dom Eugênio Sales e Dom Luciano Cabral Duarte. Para dar peso às teses econômicas liberais e ortodoxas, o espaço contava com as análises rigorosas de pensadores como Eugênio Gudin e Roberto Campos, ladeados pelo olhar institucional do jurista Sobral Pinto no campo constitucional.A cereja do bolo era o Caderno B, lançado em 1960 e totalmente dedicado às artes, cultura e entretenimento – o primeiro com esse formato na imprensa brasileira. Nele, Carlos Drummond de Andrade assinava coluna, ao lado de Clarice Lispector, Fernando Sabino, Ziraldo, Henfil, Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant'Anna. A vanguarda cultural do caderno se completava ainda com os textos afiados de Paulo Francis, as crônicas cotidianas de Rubem Braga e a crítica teatral cirúrgica de Bárbara Heliodora. No esporte, João Saldanha e Armando Nogueira. O time esportivo ganhava o requinte lírico de Nelson Rodrigues, que também emprestava seu talento dramático ao cotidiano do jornal. Era um jornal que fazia cobertura cultural com profundidade e qualidade, algo raro para a época. O noticiário internacional, por sua vez, era acompanhado de traduções dos melhores colunistas do The New York Times, além de contar com o correspondente internacional e analista político Wilson Figueiredo moldando a visão global dos leitores diretamente da redação.

Naquela época, o grupo contava com três emissoras:

Rádio Jornal do Brasil (AM / JB-AM) – A mais antiga, fundada em 1935 e no ar por quase sessenta anos, até 1992. Era a emissora "elegante e imparcial", referência absoluta em música e informação de qualidade. Seu jornalismo era prioridade, com um padrão exemplar que foi imitado por décadas. A programação musical primava pela qualidade, sem espaço para modismos, e contou com locutores lendários como Luis Carlos Saroldi, Orlando de Souza e o saudoso Jorge de Souza, o "Majestade". A emissora atingiu sua fase áurea em criatividade e sofisticação entre 1973 e 1975, sob a direção de programação de Simon Khoury. A programação musical da JB AM naquela época era um caldeirão musical refinado, que ia do jazz e da MPB ao rock progressivo, como pode ser visto em playlists da época, que incluíam desde João Donato e Eumir Deodato até Sivuca e Som Imaginário. Um de seus programas mais lendários foi o "60 minutos de música contemporânea", criado em 1971, que apresentava ao ouvinte um cardápio de T. Rex, Traffic, Can, Led Zeppelin, Pink Floyd e centenas de outros pesos pesados do rock e da música progressiva.

JB FM – A grande pioneira. Fundada em 23 de agosto de 1973, foi a segunda emissora em Frequência Modulada do país. Mas o que a tornava única era seu formato: a "beautiful music" (ou "música bonita"). Um conceito importado dos Estados Unidos que consistia em músicas orquestradas, instrumentais e clássicas, com poucos comerciais e uma locução suave e marcante. A programação era pensada para ser um fundo musical agradável e discreto, sem variações bruscas que incomodassem o ouvinte. Nos anos 1970, a JB FM era a trilha sonora preferida de elevadores e salas de espera de consultórios médicos, e seu público era a elite carioca que já possuía os raros e caros receptores de FM da época. A emissora era, antes de tudo, sinônimo de sofisticação e bom gosto.

Rádio Cidade (FM) – Fundada em 1º de maio de 1977, a Cidade surgiu como uma "despretensiosa rádio pop", com linguagem informal, descontraída e repertório voltado para o jovem comum de classe média. Seu grande diferencial foi ter sido uma das pioneiras a tocar a disco music no Brasil, popularizando o gênero e se consolidando como a "maior alfândega do pop dançante mundial". A programação era dominada pelos sucessos do pop, da dance music e da disco music – o som que embalava as pistas e as festas da época. O rock estava presente, mas de forma complementar e secundária, ganhando mais espaço apenas depois do sucesso do Rock In Rio, já em meados dos anos 1980. Seu auge se deu entre 1983 e 1984, quando liderou a Rede Cidade, uma das primeiras redes de rádio do país. Era a trilha sonora perfeita para quem queria música pop dançante, novidades e uma pegada jovem e descontraída.

Curiosamente, a minha predileta era a Rádio Jornal do Brasil (AM). Eu a considerava o perfeito "meio-termo": equilibrava a informação de qualidade e a música refinada que eu tanto admirava, sem cair no que eu, na minha rebeldia juvenil, julgava ser "xaropice" ou superficialidade de algumas FMs. A Cidade eu ouvia em alguns momentos, mas a JB FM, confesso, raramente parava para escutar. Com a prepotência típica da juventude, rotulava a JB FM como "rádio de velho", "chata" e coisas do gênero — uma ironia, já que ela era justamente a novidade tecnológica da época.

Hoje, com outros ouvidos e outro olhar, paro para ouvir essas emissoras (dentro do que resta delas no ar ou nas plataformas digitais) e consigo perceber, enfim, a beleza, a delicadeza e a sofisticação daquela programação. O que isso significa? Que é preciso tempo e amadurecimento para apreciar certos tipos de cultura mais tradicional, mais formal e mais cuidadosa em sua curadoria. E o melhor: chegar a essa percepção não exige abrir mão da boa e velha MPB, nem da música pop que também embalou nossa juventude. São camadas de uma mesma história afetiva.

"Boa noite, amigos, próximos e distantes" – O legado do programa Noturno, um dos meus programas preferidos da JB AM

O programa "Noturno", transmitido pela lendária Rádio Jornal do Brasil (AM), representou o ápice do rádio de sofisticação e jornalismo cultural no Brasil. Criado e produzido por Simon Khoury, diretor artístico da emissora entre 1968 e 1977, o programa ia ao ar diariamente às 23 horas e contou com a colaboração de profissionais como Luiz Carlos Saroldi. Sua apresentação inicial coube a Eliakim Araújo, mas foi Saroldi quem se tornou uma figura central, especialmente na década de 1970.

O "Noturno" ia muito além de um programa musical: era um espaço de entrevistas e curadoria refinada, que recebia grandes nomes da música e da cultura – como Tom Jobim, Cartola, Waldir Azevedo, Hermeto Pascoal e Paulo Diniz –, com destaque para as terças-feiras, quando as entrevistas eram conduzidas pelo próprio Simon Khoury. A identidade do programa era marcada pela abertura inconfundível na voz de Saroldi: "Boa noite, amigos, próximos e distantes", uma saudação que criava intimidade com os ouvintes e reforçava o pertencimento a uma comunidade de apreciadores da boa música.

Com sua mistura única de música erudita, MPB, jazz e entrevistas que se tornaram antológicas, o "Noturno" deixou um legado duradouro. Mesmo após seu fim em meados dos anos 1980, continua sendo lembrado com saudade e admiração como um dos programas mais marcantes da história do rádio brasileiro.

Ouça uma edição do programa Noturno - Entrevista com Tim Maia  "Aqui" 

Entrevista com Tom Jobim. Aqui 

Ecos do passado no rádio atual

E, pensando bem, ainda hoje é possível encontrar ecos daquelas emissões. Para quem busca o jornalismo de credibilidade e a sofisticação musical que marcavam a antiga JB AM, a NovaBrasil FM — presente em várias capitais e também no streaming — mantém viva essa tradição, com uma programação que alia informação e boa música popular brasileira, ecoando o espírito da emissora que, nos anos 1970, atingiu sua fase áurea em criatividade e sofisticação. Hoje, essa herança de vanguarda e bom gosto também pode ser encontrada em emissoras como a Rádio Cultura Brasil (AM 1200 kHz e FM 77,9 MHz), gerida pela Fundação Padre Anchieta, com sua programação dedicada à MPB e à cultura.

Já para quem sente falta da sofisticação orquestral e do clima de "beautiful music" da JB FM dos anos 1970, o cenário atual está mais pulverizado, mas ainda sobrevive em emissoras como a Rádio Scalla (online), que se dedica às grandes orquestras e ao melhor da música instrumental; a Rádio MEC, com sua programação clássica e refinada; a Rádio Gold Instrumental; e a Rádio Paz FM, todas com propostas que resgatam, cada uma a seu modo, a delicadeza e o bom gosto daquela época. A Cultura FM (103,3 MHz), também da Fundação Padre Anchieta, é especializada em música clássica, erudita e jazz, sendo a única emissora brasileira a dedicar 14 horas semanais ao jazz nacional e internacional. Talvez o formato original esteja hoje mais presente nas rádios online do que nas grandes FMs, mas a essência permanece: música que não grita, que não apressa, que simplesmente acompanha.

E, para quem quer reviver com mais fidelidade a experiência da JB FM original, existe a JB Classic, uma web rádio criada por entusiastas que reproduz na internet o padrão musical da JB FM dos anos 1970, 1980 e 1990, focando exclusivamente na música – um resgate afetivo e sonoro daquela época. Da mesma forma, a Rádio Web JB AM é uma web rádio sediada em Manaus, Amazonas, com programação "espelho" da rádio original na década de 1970/1980, voltada para música adulta, MPB, pop rock, dancing music e instrumental, mas, diferentemente da original, sem o campo da informação. Um resgate sonoro que mantém viva a sofisticação musical que marcou a emissora.

Infelizmente, o rádio de qualidade também perdeu recentemente uma de suas grandes referências. A Rádio Eldorado de São Paulo, fundada em 1958 e por quase 70 anos um patrimônio afetivo e intelectual de gerações de ouvintes, encerrou suas atividades em 14 de maio de 2026. Propriedade do Grupo Estado, a Eldorado era conhecida por sua curadoria musical refinada, com uma programação que misturava MPB, música contemporânea, jazz, soul e R&B. Teve atuação importante no universo da música clássica e realizou LPs com grandes intérpretes nas décadas de 1970 e 1980. Seu fim, justificado pelas "mudanças profundas nos hábitos de consumo de áudio" e pelo crescimento do streaming, representa uma perda imensa para o rádio de qualidade no país. A frequência 107,3 FM foi ocupada pelo Grupo Bandeirantes.

Web rádios e emissoras independentes

Além das emissoras já citadas, o universo das web rádios também reserva surpresas para quem busca curadoria de qualidade. A Rádio Web Batuta, sediada em São Paulo, é a rádio de internet do Instituto Moreira Salles. Dedicada principalmente à música, sua programação é 24 horas por dia e tem seu foco no acervo do IMS, formado por canções populares brasileiras da época pré-bossa nova. A emissora realiza documentários, programas especiais e entrevistas, com séries como "Estúdio Batuta", "A volta ao jazz em 80 mundos" e "Prelúdios", além de programas como o "Tabuleiro", de Maria Bethânia, e a série "Dez anos que mudaram a música brasileira (1929-1939)". É um verdadeiro resgate da memória musical brasileira, com a sofisticação de quem tem um dos maiores acervos culturais do país.

Em Recife, a Rádio Frei Caneca FM (101,5 FM) é uma rádio pública ligada à Secretaria de Cultura do Recife e à Fundação de Cultura Cidade do Recife. No ar desde 2016, a emissora se define como uma rádio pública construída com a sociedade civil. Sua programação é musical e cultural, com espaço para a cena local e a diversidade, incluindo programas que vão da MPB ao coco, passando por debates e manifestações artísticas. É a expressão viva da cultura pernambucana, com a mesma vocação de valorização da música brasileira de qualidade que marcava as antigas JBs.

O rádio público nacional: as emissoras da EBC

E como não lembrar do sistema público de rádio? As emissoras da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) são herdeiras diretas da tradição do rádio de qualidade no país. Formado em 2007 a partir da incorporação da Rádio MEC e da Rádio Nacional, o grupo reúne hoje 15 emissoras em 7 estados e no Distrito Federal.

A Rádio Nacional, com mais de 80 anos de história, mantém uma programação que equilibra informação, música e cultura, com ênfase na MPB, na música regional e na produção nacional. A Rádio MEC, por sua vez, é a referência absoluta em música clássica, erudita e jazz, com uma programação refinada que dialoga diretamente com o espírito da "beautiful music" da JB FM.

O sistema se divide em duas linhas principais: a educativa (herdada da Rádio MEC) e a popular (herdada da Rádio Nacional). Ambas, porém, compartilham o mesmo compromisso com a qualidade musical e a pluralidade cultural – um legado que resiste ao tempo e que, felizmente, ainda pode ser ouvido em todo o país, seja no dial, no streaming ou no aplicativo Rádios EBC.

O rádio de qualidade no Nordeste

No Nordeste, ainda há emissoras que resistem e mantêm viva essa chama da boa música. Em Recife, a NovaBrasil FM é dedicada integralmente à MPB, e a Rádio Universitária FM 99,9 oferece uma programação que transita entre a música clássica e a MPB. Em Fortaleza, a Nova Brasil FM (106,5 FM) também segue a mesma linha, assim como a Rádio Universitária FM, que reserva a noite para rock, jazz, blues, música erudita e MPB. Em Natal, a Rádio Cidade FM (94.3 FM) se apresenta como uma emissora de "Adult Contemporary" e MPB. E em João Pessoa, a Rádio João Pessoa FM 97.7 tem uma programação voltada para o público "Adulta" e MPB.

Na Bahia, o cenário também preserva essa tradição. Em Salvador, a NovaBrasil FM (104,7 FM), fundada em 22 de abril de 2002, é uma emissora própria da rede e tem programação exclusivamente dedicada à MPB, com o slogan "Se liga na brasilidade", no formato Adulto Contemporâneo. A Educadora FM (107,5 FM), inaugurada em 31 de março de 1978, é uma emissora pública vinculada ao Governo do Estado da Bahia, com programação educativa e musical, que abre espaço para artistas baianos de estilos diversos e, desde 2003, dedica programas a gêneros como jazz, rock, blues, reggae, salsa e black music – um caldeirão de sofisticação que ecoa o espírito da JB AM. A emissora promove também o Festival de Música Educadora FM, único festival de música entre as rádios baianas. A Universitária FM (107,9 FM) tem uma programação variada que inclui MPB, música erudita, serenata e programas culturais, com um perfil eclético e sofisticado. Em Feira de Santana, a Rádio Pop Retrô FM traz uma programação nostálgica e voltada para a música de qualidade.

Em Sergipe, a presença da MPB e da música de qualidade também se faz forte. Em Aracaju, a NovaBrasil FM (93,5 FM) é uma emissora própria da rede, dedicada integralmente à MPB. A capital sergipana conta ainda com a Rádio FAN FM (99,7 FM), que também integra o cenário musical local.

O rádio de qualidade em Minas Gerais, Sul, Norte e Centro-Oeste

Em Minas Gerais, o rádio de qualidade tem tradição e força. A Rádio Inconfidência (FM 100,9 e AM 880) é uma emissora pública do estado com uma programação variada e sofisticada, que inclui MPB, música contemporânea, bossa nova e programas culturais. A NovaBrasil FM também marca presença no estado, operando na cidade de Andradas (100,5 FM) com alcance em toda a região de Poços de Caldas e sul de Minas. Além disso, emissoras como a Rádio Universitária FM abrem espaço para artistas independentes e a música brasileira contemporânea.

No Sul do país, o cenário também reserva boas opções para quem aprecia uma programação musical refinada. Em Porto Alegre, a Rádio Universidade FM e a Rádio Cultura FM se destacam pela programação dedicada à música de qualidade, com espaço para MPB, jazz e música instrumental. Em Florianópolis, a Rádio Antena 1 e a Rádio CBN também oferecem programação musical de alto nível. A NovaBrasil FM também está presente em algumas cidades da região, reforçando a rede de rádios dedicadas à MPB.

Na Região Norte, a oferta de rádios com esse perfil é mais restrita, mas ainda assim é possível encontrar emissoras que valorizam a boa música. Em Belém (PA), a Rádio Liberal FM e a Rádio Clube do Pará têm programação diversificada que inclui MPB. Em Manaus (AM), além da já citada Rádio Web JB AM, emissoras como a Rádio Amazonas FM e a Rádio Cultura FM também reservam espaços para a música brasileira de qualidade. A Rádio MPB Brasil, disponível em aplicativos, oferece 24 horas de programação com curadoria especial.

No Centro-Oeste, a Rádio Cultura FM (77,9 FM) de Brasília (DF) é uma das principais referências, com programação voltada para a música clássica, MPB e cultura. Em Campo Grande (MS), a Rádio Educativa FM e a Rádio Cultura FM se destacam pela programação musical de qualidade. Em Cuiabá (MT), a Rádio Metrópole FM (105,9 FM) tem uma programação musical dedicada à MPB, com músicas que resgatam a cultura popular. Em Goiânia (GO), a Rádio 730 AM e a Rádio Universitária FM também oferecem espaços para a MPB e a música instrumental. A região conta ainda com a Rádio Centro Oeste (100,9 FM), que desde 1978 acompanha seus ouvintes com uma programação variada.

A memória, como uma velha sintonia, vai se ajustando com os anos – e, quando a gente menos espera, descobre que o bom gosto não cabe em uma única frequência. E, felizmente, ainda há por aí, de Norte a Sul, quem saiba sintonizar.

P.S.: O texto acima f0i construído com apoio da IA, mas com participação substancial da memória orgânica


Este clip musical é uma homenagem à emissora que durante quase duas décadas brindou seus ouvintes com a melhor programação musical que incluía as grandes orquestras e intérpretes internacionais e a boa nata da música popular brasileira. O que você vai ouvir é um típico bloco musical transmitido pela antiga Rádio Jornal do Brasil FM 99,7 Mhz, no ar de 1973 a 1992.


Playlist da Rádio do Jornal do Brasil no início da década de 1970. / AQUI




Fernando Mansur fala sobre Rádio Cidade, JB FM e o futuro do rádio brasil






sábado, 1 de agosto de 2026

CONCLUSÃO OFICIAL DA OFICINA AUDIOVISUAL COM CELULAR : O BAILE (NÃO) TERMINA AQUI

 




É com esse verso do longevo e premiado espetáculo "O Baile do Menino Deus" (Recife/PE) que abrimos esta nota sobre o encerramento da etapa principal   da nossa oficina de audiovisual com celular - cinema na palma da mão. E a escolha dessa fala não foi por acaso: ela traduz exatamente o espírito do que vivemos. 

O significado disso tudo, retomando as minhas palavras da abertura da tarde, é que encerramos uma etapa, neste primeiro dia de agosto,  mas a oficina continua viva. Ela persiste na finalização dos filmes, na composição dos cartazes, na  trilha sonora e, principalmente, na exibição dos trabalhos que acontecerá nas próximas semanas. O mais substancial foi feito, mas a obra-prima ainda está sendo lapidada.    

O que vem por aí (continuidade e oportunidades)

  • Festivais e Visibilidade: Assim como fizemos com o curta "Brasinha – O som que não envelhece" (inscrito em um festival, aguardando o resultado da seleção), seguiremos buscando janelas para inscrever os filmes da turma em mostras e festivais.
  • Território Digital: A Ação Cultural pretende explorar ainda mais o território da cultura digital. A novidade eu falei presencialmente , e quando a discussão estiver mais avançada faço a apresentação pública A proposta visa ampliar as fronteiras da nossa formação.
  • O Combo Cultural: Esta oficina é apenas uma peça de um grande quebra-cabeça formativo. Faz parte de um combo que inclui:
    • Cineclube (atividade permanente);
    • Mostra Cultural (agendada para 22 de agosto);
    • Podcast de Formação Cultural (1ª temporada com 4 episódios, o primeiro indo ao ar na próxima semana);
    • Seminário Presencial (sobre participação social, ação cultural e educação popular).

Quem somos e qual a nossa rede

É fundamental deixar claro que esta oficina é realizada pelo coletivo Ação Cultural, um Ponto de Cultura integrante da Rede Cultura Viva. Contamos com recursos da Política Nacional Cultura Viva associada a  Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura.
Não é muito dinheiro, mas é um incentivo valioso para qualificar agentes culturais – tanto em grupo quanto individualmente – e para provar que é possível fazer arte com excelência mesmo com recursos enxutos.

Fazemos parte, portanto, de uma rede nacional que se articula no âmbito estadual e que busca, aqui no Bairro Industrial e arredores, construir redes comunitárias sólidas. Nossa atuação se dá em dois vetores essenciais: Formação e Acesso a recursos públicos.

O chamado à união e à continuidade

Não podemos nos dispersar. O grupo já está organizado digitalmente via WhatsApp; mantenham e fortaleçam esse canal. É por ele que vocês tomarão conhecimento de novas oportunidades de formação e de editais públicos.

Busquem se conhecer mais, troquem ideias, criem laços. As oportunidades de captação de recursos podem ser abraçadas tanto por proponentes individuais, quanto por outros coletivos aptos, ou ainda por meio da própria Ação Cultural. O mercado e a cultura se fazem com união.

Deixamos registrado nosso sincero agradecimento aos parceiros locais, cujo apoio cultural foi fundamental para a realização das oficinas, principalmente no que tange à disponibilização dos espaços físicos. Nesse sentido, agradecemos à Paróquia São Pedro Pescador, que sediou as duas primeiras edições, e ao Aracaju Shopping Parque, que abriu suas portas para esta terceira.


Para finalizar, volto ao começo:

"Senhores donos da casa, Jesus, José e Maria, o baile aqui não termina, o baile aqui principia..."

Que o sol se renove a cada dia em nossos projetos, que a lua nos permita recriar nossas estratégias quatro vezes, e que a estrela da cultura popular e de base comunitária continue a repassar a rota e nos guiar.

A oficina continua. O movimento continua. Até a próxima oficina !

Ação Cultural – Ponto de Cultura Juventude e Cidadania
Rede Cultura Viva

 Zezito de Oliveira - Assessor Técnico Pedagógico e de Gestão 

Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.





quinta-feira, 30 de julho de 2026

Sobre a abordagem do "Santo Encontro" com pulseirinhas para solteiros que gerou debates por reduzir o encontro juvenil a um viés de paquera em paróquia de Aracaju.

Por Zezito de Oliveira 

Para saber mais e entender o contexto, leia AQUI,  reportagem do G1 antes de prosseguir a leitura do artigo abaixo. 

Felizmente, existem diversas alternativas mais espontâneas e formativas para promover a união da juventude católica, baseadas em atividades culturais, esportivas e de promoção humana.

⚽ Esporte como Ferramenta de União e Fé

O esporte é um excelente meio para promover a comunhão entre os jovens, ensinando valores de trabalho em equipe e superação.

Copas e Campeonatos: Um exemplo notável é a "Copa da Juventude Católica de Futsal" na Arquidiocese de Campo Grande (MS). Com o lema “Esporte que Une, Fé que Transforma”, a competição reúne equipes de diversas paróquias. A iniciativa busca aproximar os jovens da Igreja, incentivando a organização, a criatividade e a formação de novas lideranças. Como destacou o padre organizador, "o esporte mostra a necessidade da comunhão: ninguém ganha sozinho em um jogo e ninguém ganha sozinho na vida".

Jornadas e Gincanas: Outra possibilidade são as corridas e atividades físicas integradas a eventos maiores, como as jornadas diocesanas da juventude, que combinam esporte, espiritualidade e convivência.

🎨 Ações Culturais e Formação Integral

A arte e a cultura são elementos fundamentais para a formação dos jovens, como indicado na exortação apostólica Christus Vivit.

Clubes de Leitura e Debates: Muitos jovens católicos buscam aprofundar sua fé e conhecimento. A criação de clubes de leitura para discutir temas religiosos, sociais e filosóficos atende a essa demanda de forma intelectual e espontânea.

Shows de Talentos e Música: Promover noites de talentos, shows de evangelização (como o citado com o Grupo Sentinelas da Manhã) e apresentações culturais permite que os jovens expressem sua fé e criatividade em um ambiente acolhedor.

Mesas Redondas e Palestras: Organizar mesas redondas e palestras sobre temas atuais, como ecologia integral (inspirada na encíclica Laudato Si') e cidadania, promove a reflexão e a formação crítica.

🤝 Promoção Humana, Voluntariado e Ação Social

Atividades de serviço ao próximo são uma das formas mais concretas de viver a fé e criar laços significativos.

Campanhas e Ações Solidárias: A Semana do Estudante, promovida pelas Pastorais da Juventude, é um ótimo exemplo. Com temas como "Fraternidade e Ecologia Integral", a semana inclui ações sobre sustentabilidade, consumo consciente e práticas coletivas.

Visitas Missionárias e Trabalho Voluntário: Incentivar visitas a instituições de solidariedade (como asilos, hospitais e creches) e ações missionárias em comunidades carentes ajuda os jovens a colocar a fé em prática, desenvolvendo empatia e senso de comunidade.

Cursos e Formação: Oferecer cursos de capacitação para líderes juvenis sobre temas como prevenção ao suicídio e cuidado com a vida, forma multiplicadores que podem atuar em suas próprias comunidades.

💡 Outras Ideias para Encontros Espontâneos

Para encontros mais leves e descontraídos, que fogem do formato de "paquera", algumas ideias simples funcionam muito bem:

Noites de Cinema e Churrascos: Eventos sociais como noites de cinema com filmes que gerem discussão, ou churrascos comunitários, criam um ambiente natural para a convivência e a amizade.

Acampamentos e Retiros: Promover acampamentos com atividades ao ar livre, trilhas, momentos de oração e dinâmicas de grupo, que reforçam os laços de amizade e a espiritualidade de forma integrada.

Grupos de Convivência e Partilha: A formação de pequenos grupos que se reúnem regularmente para rezar, partilhar experiências e debater temas de interesse é a base de uma vivência comunitária sólida e duradoura.

💎 Conclusão

Em vez de focar em um evento que pode soar invasivo ou superficial, a Igreja pode e deve investir em ações que promovam o encontro genuíno entre os jovens por meio de interesses comuns, serviço ao próximo e aprofundamento da fé. Atividades esportivas, culturais e de promoção humana, como as exemplificadas, criam espaços muito mais ricos e espontâneos para a juventude católica se encontrar, crescer e construir uma comunidade de fé vibrante e acolhedora.

Leia também:

Exortação "Christus vivit": síntese ampla e texto integral

Publicamos uma ampla síntese com o link ao texto integral da Exortação Apostólica do Papa Francisco, fruto do Sínodo dos jovens realizado em outubro de 2018

https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2019-04/exortacao-sintese-ampla-testo-integral.html

Lançamento | Cadernos IHU Ideias Nº 398


A nova edição discute as juventudes contemporâneas, a chamada "Geração Floco de Neve", e os impactos do capitalismo sobre a educação, a saúde mental e as formas de convivência.

Leia AQUI


COMO O AGRO DOMINOU A MÚSICA BRASILEIRA

 Recebi o link pra um dossiê intitulado Farra, um levantamento sobre os eventos promovidos por órgãos públicos e animados por artistas da Música Popularesca Brasileiram o texto estarrecedor, e disponível no site deolhonosruralistas.com.br


Um trechinho:

"Durante seis meses, a equipe de pesquisa do De Olho nos Ruralistas mergulhou em um universo de mais de 20 mil contratos, quase 40% deles ausentes na principal referência para jornalistas e pesquisadores, o Plano Nacional de Contratações Públicas (PNCP). E constatou uma escala de gastos muito maior do que aquela até agora noticiada.

No que se refere aos shows realizados em 2024, 2025 e início de 2026, cem bandas

receberam, cada uma, pelo menos R$ 25 milhões de prefeituras e governos estaduais. Ao todo, o valor do top 100 ultrapassa os R$ 5 bilhões. Isso levando em conta contratos firmados até 31 de março de 2026, data de fechamento da pesquisa de dados — para podermos viabilizar as comparações e a divulgação.

Dentro desse top 100 há um grupo ainda mais exclusivo: o de artistas que ultrapassaram o rubicão dos R$ 50 milhões em contratos públicos. Esses 40 nomes receberam, juntos, R$ 3,08 bilhões desde janeiro de 2024. Um valor que se aproxima do recorde de captação pela Lei Rouanet, de R$ 3,41 bilhões em 2025. Com duas diferenças: 1) apenas a quantia do top 40 sai diretamente dos cofres públicos; 2) a Lei Rouanet se refere a diversas expressões artísticas, não somente a música.

2 - Mas seriam os artistas os únicos beneficiados? Nossa investigação foi além e mostrou que há uma concentração ainda maior em um grupo de cinco produtoras nordestinas que, sozinhas, receberam R$ 2,42 bilhões — quase metade do valor obtido pelo top 100. Esse oligopólio é liderado por dois cantores: Wesley Safadão, sócio da Camarote Shows e 3º colocado entre os artistas que mais receberam dinheiro público no Brasil; e Xand Avião, da produtora Vybbe, 10º lugar na lista.

Muito além de serem concorrentes, os antigos amigos Xand e Safadão ilustram a partir de suas empresas o quanto o universo dos shows públicos no Brasil tem a participação ativa das bets e do agronegócio (...) 


José Teles é um influente jornalista, escritor e crítico musical brasileiro radicado no Recife. Com mais de 30 anos de carreira no Jornal do Commercio e colaborações em revistas nacionais, ele é referência na cobertura cultural do Nordeste. É autor de diversos livros sobre a música e a cultura regional, incluindo a obra Do Frevo ao Manguebeat.

Nota do editor : Como Natanzinho Lima estraga a canção abaixo
A mensagem central de "Entre a Serpente e a Estrela" é a dualidade do amor e a dor inevitável de suas marcas. A música mostra o dilema humano de se equilibrar entre o perigo da paixão (a serpente) e a luz do romance (a estrela). Ela reforça que amar exige vulnerabilidade, o mistério do sentimento feminino é indecifrável e ninguém sai de uma relação sem cicatrizes. [1]

Grandes Canções 🎶 A música ‘Entre a Serpente e a Estrela’, interpretada pelo cantor e compositor Zé Ramalho, é uma obra que mergulha nas profundezas das emoções humanas, explorando a dualidade do amor e da dor que muitas vezes o acompanha. A letra da canção utiliza metáforas para descrever a complexidade dos relacionamentos amorosos e a inevitável marca que eles deixam em nossas vidas. O início da música já nos apresenta uma imagem forte com ‘um brilho de faca onde o amor vier’, sugerindo que o amor pode ser tanto luminoso quanto cortante. A referência ao ‘mapa da alma da mulher’ pode ser interpretada como a dificuldade de compreender completamente os sentimentos e pensamentos de outra pessoa, especialmente em um contexto amoroso. A serpente e a estrela, elementos centrais da canção, simbolizam respectivamente a tentação e a aspiração, o perigo e a beleza, o que torna o amor tão complexo e contraditório. A música fala sobre seguir em frente apesar do sofrimento, mantendo a esperança de que o futuro possa trazer de volta o que foi perdido, simbolizado pelo ‘semblante de mulher’. Essa esperança, no entanto, é tingida pela consciência de
Ao contextualizar a frase proferida pelo cantor de arrocha Natanzinho Lima antes de interpretar "Entre a Serpente e a Estrela", fica evidente o choque cultural e temático. A expressão "mulher bonita e gado nelore só tem quem pode" destrói, esvazia e inverte completamente a essência poética e filosófica da composição original por três motivos principais: [1, 2, 3]
1. Coisificação e Status vs. Vulnerabilidade e Dor
  • Na música original: A letra de Aldir Blanc aborda o amor como uma força avassaladora e mística. Ela traz vulnerabilidade absoluta, onde "ninguém sai com o coração sem sangrar". O foco é a entrega emocional e o sofrimento inevitável de quem ama. [1, 2]
  • Na fala de Natanzinho: Ao equiparar uma mulher ao gado Nelore (uma das raças de bovinos mais caras e valorizadas do mercado agropecuário), o cantor coisifica as relações. O amor deixa de ser uma experiência de sentimentos profundos e passa a ser tratado como um símbolo de status social, luxo, poder aquisitivo e posse. [1, 2, 3]
2. Orgulho de Ostentação vs. O Mistério Indecifrável
  • Na música original: A canção exalta a humildade diante do sentimento e a incapacidade do homem de controlar o afeto, eternizada no verso "ninguém tem o mapa da alma da mulher". É o reconhecimento de que o outro é um mistério sagrado e inalcançável. [1]
  • Na fala de Natanzinho: A expressão "só tem quem pode" sugere que mulheres bonitas seriam "conquistas" reservadas apenas a homens com poder ou dinheiro. Isso anula a ideia de mistério e conexão de almas, transformando o relacionamento em uma transação de ostentação. [1]
3. Redução Estética vs. Conflito Existencial (A Serpente e a Estrela)
  • Na música original: A canção vive no equilíbrio sutil entre o perigo carnal da paixão (serpente) e a iluminação espiritual (estrela). É um dilema profundo da existência humana.
  • Na fala de Natanzinho: Toda essa riqueza mitológica e metafórica é reduzida a um jargão raso do universo das vaquejadas e do agronegócio. A dualidade poética é substituída pela mera valorização da beleza estética física como um bem de consumo. [1]
Ao introduzir um clássico existencial de Zé Ramalho com uma frase de ostentação material, o cantor remove o misticismo e a sensibilidade da obra, transformando um hino sobre a dor de amar em uma celebração machista de poder e posse. [1, 2]