quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O Futuro Já Chegou: O Que as Pesquisas Reais Dizem Sobre a Satisfação de Quem Tem Carro Elétrico?

Se você navega pelas redes sociais ou consome conteúdos automotivos, certamente já se deparou com títulos alarmistas. Vídeos prometendo revelar listas de "carros elétricos quebrando" ou proprietários supostamente clamando por reembolsos em massa geram cliques fáceis, mas até que ponto essas histórias refletem a realidade do mercado?

Quando afastamos o ruído dos boatos e olhamos para os dados de consultorias automotivas abalizadas, o cenário real é completamente diferente. A verdade é que o índice de satisfação de quem comprou um carro elétrico é consideravelmente alto, superando, inclusive, o nível de aprovação dos donos de veículos tradicionais a combustão.
Abaixo, desmistificamos o mercado de eletrificados com base em dados globais e mostramos como o Brasil está se preparando para essa nova era.

📊 O que dizem os grandes estudos de mercado?
A aprovação dos carros elétricos não é uma tendência passageira, mas um reflexo da experiência prática dos motoristas nos primeiros meses de uso.
  • A Referência Global (J.D. Power): Em seu estudo de experiência de propriedade de veículos elétricos (EVX) de 2026, a renomada consultoria J.D. Power avaliou a satisfação dos motoristas em uma escala de até 1.000 pontos. Os carros elétricos alcançaram uma média impressionante de 910 pontos, superando com folga os modelos tradicionais a combustão e híbridos, que marcaram 850 pontos. O estudo revelou ainda que cerca de 96% dos donos atuais planejam permanecer no segmento na próxima compra.
  • O Cenário Brasileiro (PwC e Canaltech): No Brasil, a forte adesão se repete. Dados compilados pela consultoria PwC mostram que a satisfação atinge níveis máximos entre os adotantes iniciais — que geralmente possuem infraestrutura própria de recarga. Além disso, uma pesquisa divulgada pelo Canaltech indicou que 80% dos proprietários de elétricos no Brasil não sentem falta dos carros convencionais.

⚖️ Os dois lados da balança: O que agrada e o que preocupa?
Para compreender o contraste entre o entusiasmo das pesquisas e as reclamações isoladas que viralizam na internet, precisamos olhar para os pilares da experiência do usuário:
👍 O que gera Alta Satisfação:
  • Experiência de Condução: O torque instantâneo (aceleração imediata), a suavidade do conjunto e o silêncio quase absoluto ao rodar são os fatores mais elogiados.
  • Economia Operacional: A drástica redução no custo por quilômetro rodado (energia elétrica vs. combustível fóssil) e a ausência de manutenções complexas (sem troca de óleo, velas ou correias) trazem grande alívio financeiro.
  • Tecnologia de Bordo: O forte apelo de telas modernas, atualizações de sistema em nuvem e assistentes avançados de direção (ADAS).
👎 Os Principais Pontos de Atrito:
  • Ansiedade de Autonomia: A dependência de carregadores públicos defeituosos ou ocupados em rodovias durante viagens longas.
  • Logística de Pós-Venda: Gargalos pontuais na entrega de peças de funilaria após colisões, causados pelo crescimento veloz do mercado.

🌐 Como a China e a Europa resolveram essas barreiras?
O Brasil não está vivendo problemas inéditos. A China e a Europa enfrentaram exatamente as mesmas dores de crescimento, mas as resolveram tratando o tema como prioridade de Estado:
  1. Infraestrutura Unificada: A China construiu uma rede massiva com mais de 24 milhões de pontos de recarga operacionais, padronizando as tomadas. A Europa implementou a lei AFIR, obrigando os países a instalarem estações rápidas a cada 60 km nas principais rodovias, exigindo que os tótens aceitem pagamento direto por cartão de crédito (eliminando a confusão de ter dezenas de aplicativos no celular).
  2. Direito ao Reparo e Mão de Obra: A Europa aprovou leis rígidas que forçam as montadoras a fornecer manuais e peças para oficinas independentes, quebrando o monopólio das concessionárias. A China investiu na capacitação técnica de alta tensão em larga escala no ensino público.
  3. Combate à Desvalorização: A Europa criou o Passaporte Digital da Bateria, um sistema de QR Code que permite ao comprador de um carro usado checar instantaneamente o histórico de saúde da bateria. Já a China apostou no modelo de Battery Swapping (troca rápida de bateria em 3 minutos), onde o cliente compra o carro e aluga a bateria, eliminando o medo da degradação.

🇧🇷 O Reflexo no Brasil: O que está mudando agora?
O mercado brasileiro está saindo da fase do "improviso amador" para entrar em uma etapa de maturidade corporativa. Tanto o governo quanto as principais montadoras (com destaque para as marcas chinesas como BYD e GWM) estão investindo pesado no país:
  • Corredores Elétricos de Alta Velocidade: Grandes distribuidoras de energia (como Raízen Power, Vibra e EDP) estão instalando hubs de carregamento ultra-rápido (acima de 150 kW) nas principais rodovias federais. O objetivo é reduzir o tempo de espera nas estradas para apenas 20 ou 30 minutos.
  • Mega Centros de Distribuição: Para solucionar o atraso nas peças, as montadoras reestruturaram sua logística. A BYD estabeleceu um centro de distribuição gigante no Espírito Santo, enquanto a GWM expandiu seus estoques locais para garantir componentes de alto giro a pronta entrega.
  • Nacionalização da Produção: Com o início das operações das fábricas da BYD em Camaçari (BA) e da GWM em Iracemápolis (SP), a produção local de componentes vai reduzir drasticamente a dependência de importações marítimas.
  • Profissionalização do Setor: Parcerias robustas com o Senai estão capacitando mecânicos brasileiros de norte a sul do país para lidar com sistemas elétricos de alta tensão.

🔌 BOLSO CHEIO: Como carregar seu carro elétrico gastando menos no Brasil
Se você quer maximizar o retorno financeiro do seu elétrico, a forma e o horário de recarga mudam tudo. Siga este guia rápido:
  • Fuja do "Horário de Pico" Residencial: No Brasil, a energia costuma ser mais cara entre 18h e 21h devido ao alto consumo geral. Se a sua distribuidora local oferecer a Tarifa Branca, configure o seu carro pelo aplicativo para começar a carregar apenas após as 22h ou de madrugada, quando o valor do kWh despenca.
  • A Regra dos 80% em Eletropostos Rápidos: Carregadores ultra-rápidos de rodovia cobram taxas de conveniência mais altas. Além disso, a velocidade de carregamento cai drasticamente após a bateria atingir 80%. Para economizar dinheiro e tempo, carregue apenas o suficiente para chegar ao seu destino (parando nos 80%) e deixe para completar os 100% em uma tomada residencial mais barata.
  • Aproveite os Aplicativos de Fidelidade: Redes de postos e distribuidoras possuem programas de pontos. Concentrar suas recargas públicas na mesma rede pode render descontos agressivos por kWh ou minutos de uso.

💡 Conclusão
Os vídeos alarmistas da internet focam em exceções e problemas que fazem parte do amadurecimento natural de qualquer tecnologia disruptiva. Para quem possui garagem com ponto de recarga e faz uso majoritariamente urbano, o carro elétrico já entrega uma das maiores taxas de satisfação da história da indústria automotiva. Com a chegada das fábricas nacionais e a expansão rápida dos eletropostos rodoviários, o cenário tende a ficar cada vez mais seguro e vantajoso para o consumidor brasileiro.

🎨 Sugestão Visual para o Blog: Infográfico Conceitual
Para ilustrar este artigo, veja o modelo visual do ecossistema de soluções sugerido abaixo:
O Ecossistema de Soluções dos Veículos Elétricos
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│ INFRAESTRUTURA E SATISFAÇÃO GLOBAL │
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│ INFRAESTRUTURA │ │ SATISFAÇÃO DO DONO │
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│ • Rodovias: Recarga a cada 60km │ │ • Média global: 910 pontos │
│ • Praticidade: Pago por cartão │ │ • Fidelidade: 96% repetem │
│ • Velocidade: Hubs > 150 kW │ │ • Brasil: 80% sem saudades │
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│ PÓS-VENDA E MERCADO DE SEGUNDA MÃO │
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│ • Direito ao Reparo: Peças liberadas para mecânicos independentes │
│ • Passaporte da Bateria: Histórico de saúde via QR Code no usado │
│ • Troca de Bateria: Redes com substituição automatizada em 3 minutos │
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Vitória de Lula derrota o autoritarismo
. Frei Betto

      A vitória de Lula nas eleições de 2026, eleito presidente pela quarta vez, representa um ponto de inflexão na história recente do Brasil. O resultado das urnas simboliza a derrota de um projeto autoritário e a reafirmação do compromisso com a democracia e a justiça social.

       A derrota de Jair Bolsonaro em 2022, primeiro presidente a perder uma reeleição desde a instituição desse mecanismo eleitoral, foi um golpe significativo para a extrema direita brasileira. Contudo, é crucial distinguir a derrota eleitoral de Bolsonaro do fim do bolsonarismo como força política. O movimento permanece influente e exige vigilância constante das forças democráticas. A vitória de Lula, obtida por uma margem estreita (51,9% a 49,1%), impõe a necessidade de restaurar a plena vida democrática e a harmonia entre os poderes.

       O terceiro mandato de Lula foi marcado por uma agenda robusta de políticas sociais que resgataram conquistas históricas. O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da ONU, e a pobreza extrema caiu para níveis históricos, com a retirada de milhões de pessoas dessa condição. A taxa de pobreza geral recuou de 31,6% em 2022 para 23,1% em 2024, enquanto a renda per capita dos mais pobres cresceu 13,2%. A valorização real do salário mínimo, com ganhos acima da inflação, e a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil injetaram poder de compra na economia. Além disso, políticas como a Lei de Igualdade Salarial entre gêneros e o programa Pé-de-Meia, que incentiva a permanência de jovens na escola, demonstram um compromisso com a redução das desigualdades estruturais. Acresce-se a isso o programa Desenrola, de alívio dos endividados, e o fim da escala de trabalho 6x1. Na Amazônia houve significativa redução do desmatamento.

       Faltou, porém, à gestão que finda duas propostas que fiz a Lula na noite de sua posse, a 1 de janeiro de 2023: incentivo aos movimentos populares através de intenso trabalho de educação popular, e investimento nas redes digitais. A Secretaria Geral, que deveria fazer articulação com os movimentos sociais, não conseguiu levar o povo às ruas e contou com escassos recursos para a educação popular. E a Secom teve que aprender agora, no segundo turno da  campanha eleitoral, o que é atuar pelas redes digitais, graças ao comando do deputado André Janones. Espero que ele ocupe posição de destaque na comunicação da gestão que se inicia em 2027.

       Como há tempos não se via no Brasil, a juventude voltou às ruas! Fenômeno que se repete em Portugal, Espanha, França e Bélgica. Os partidos progressistas estão, agora, desafiados a dar consistência política a essa maré juvenil. Não podem repetir o erro de 2013, quando os jovens saíram às ruas para protestar contra o aumento das tarifas de ônibus. Nenhum setor progressista soube canalizar politicamente aquelas manifestações que, manipuladas pela direita, desembocaram no impeachment da Dilma.

       A vitória de Lula tem impacto imediato na geopolítica regional. Em um continente que testemunha uma nova onda de governos de direita, o Brasil se consolida como um contraponto e um freio a projetos alinhados a Washington. A liderança brasileira é fundamental para reativar a integração regional do Mercosul e o fortalecimento da Celac, e fragilizar o bloqueio da Casa Branca a Cuba.

       No cenário global, o Brasil retoma um protagonismo perdido. A política externa de Lula prioriza a reforma da governança global e a cooperação Sul-Sul. A presidência do G20 em 2024 lançou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza ao reunir mais de 200 membros. A presidência do BRICS, em 2025, reforçou a articulação por um mundo multipolar e menos assimétrico, e a defesa de reformas em instituições como a ONU e o FMI. O país também atua como mediador em conflitos e defende a criação de um grupo de países neutros para promover negociações de paz, consolidando assim sua credibilidade internacional.

      Em suma, a vitória de Lula representa a derrota do autoritarismo, a retomada de conquistas sociais que colocam o Brasil novamente no caminho da redução das desigualdades e a reinserção do país como um ator central e soberano no cenário internacional, com um projeto de desenvolvimento que prioriza a justiça social e a cooperação multilateral.




Viva a esquerda festiva de novo nas ruas! Com inspiração em postagem no facebook de Ana Luiza Libório (*)

 

É Alegria Geral ! Hoje é o nosso Carnaval …  🎶
25 de Março seria aniversário de Leila Diniz , a mulher que estava anos luz a frente do seu tempo ! Na foto de 1972 , ela está desfilando como destaque na Banda de Ipanema onde era a madrinha . Infelizmente em 14 de Junho daquele ano , sua história seria interrompida . O avião em que estava indo da Austrália para a Índia caiu sem deixar sobreviventes . Leila viveu apenas 27 anos . 
No Rio, na Barra da Tijuca, tem uma maternidade com seu nome . Linda homenagem ! Um ser de Luz , batizando um lugar onde se dá a Luz .

Os Mais Doces Bárbaros (Ao Vivo No Rio De Janeiro / 1976)



“Esquerda festiva”: origem, história, contradições e atualidade de uma expressão política

A frase “Viva a esquerda festiva de novo nas ruas!” recupera uma expressão que nasceu no ambiente cultural e político do Rio de Janeiro, no início dos anos 1960, e que atravessou a ditadura militar, os movimentos de resistência cultural e a redemocratização. Originalmente associada, muitas vezes de maneira irônica, a artistas, intelectuais, estudantes e militantes de esquerda que combinavam política, boemia, humor e sociabilidade, a expressão também pode ser reinterpretada como defesa de uma política capaz de unir participação pública, cultura, alegria e imaginação de outros futuros.

Para avaliar a pertinência da frase, é necessário distinguir duas coisas: a esquerda festiva como rótulo histórico, que frequentemente serviu para desqualificar determinados setores da esquerda, e a possibilidade de reivindicar hoje a festa como dimensão da vida democrática, da ação cultural e da ocupação das ruas.

1. O que significa “esquerda festiva”?

A expressão designa, em sua acepção histórica, uma parcela da esquerda brasileira formada sobretudo por artistas, jornalistas, escritores, intelectuais, estudantes e outros frequentadores dos circuitos culturais urbanos, particularmente no Rio de Janeiro, que discutiam política e transformação social em bares, festas, encontros artísticos e espaços de convivência.

Não se tratava propriamente de um partido, uma organização política ou uma corrente ideológica com programa e direção próprios. Era uma denominação informal para pessoas e ambientes nos quais a oposição ao conservadorismo e à ordem política se articulava com a boemia, a irreverência, a produção cultural e a valorização da liberdade de comportamento.

A expressão comportava uma ambiguidade desde o nascimento: podia identificar um modo criativo de viver e expressar a oposição política, mas também insinuar que seus integrantes preferiam conversar, beber, fazer humor e frequentar festas a assumir compromissos concretos com as lutas sociais.

A historiografia registra que essa ambiguidade acompanhou a expressão desde os anos 1960.

2. Onde e quem criou o termo?

Carlos Leonam, jornalista e colunista

Rio de Janeiro, 1963

A autoria da expressão é atribuída ao jornalista Carlos Leonam, segundo o relato do escritor e jornalista Zuenir Ventura em seu livro 1968: o ano que não terminou. A expressão surgiu no ambiente boêmio e intelectual carioca, em meio às discussões políticas que antecederam o golpe de 1964.

A história mais conhecida relaciona o surgimento do termo a uma discussão sobre duas esquerdas, uma chamada de “positiva” e outra de “negativa”, distinção atribuída ao então ministro San Tiago Dantas. Leonam teria acrescentado, de maneira irônica, uma terceira categoria: a esquerda festiva.

O ambiente dessa criação era o Rio de Janeiro do início dos anos 1960, com seus bares, cinemas, jornalistas, artistas e intelectuais. O Cinema Paissandu e seus arredores, por exemplo, ficaram associados à sociabilidade de uma geração de jovens politizados, conhecida como Geração Paissandu.

É importante fazer uma ressalva: a autoria é atribuída a Carlos Leonam, mas isso não significa que ele tenha inventado sozinho o comportamento social que o termo passou a designar. A expressão nomeou uma realidade cultural e política que já estava se formando.

3. Em que período a expressão foi mais utilizada?

1963–1967: nascimento e consolidação

A expressão surgiu antes do golpe de 1964, mas ganhou força no ambiente político e cultural posterior à instauração da ditadura. Parte da esquerda passou a recorrer aos encontros, ao humor e à produção artística como espaços de convivência, crítica e resistência.

1968–1970: repressão, humor e resistência cultural

O endurecimento da ditadura, sobretudo depois do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968, restringiu a participação política e a liberdade de expressão. O jornal O Pasquim tornou-se uma referência da crítica humorística e comportamental, associando irreverência e contestação política.

Anos 1970 e 1979–1980: expansão cultural e redemocratização

A expressão continuou a circular, associada a iniciativas como a Banda de Ipanema, espetáculos musicais, debates públicos, imprensa alternativa e encontros culturais. As festas de retorno de exilados também fizeram parte desse repertório.

Não existe uma data única em que o termo tenha deixado de ser utilizado. O que se pode afirmar é que sua maior força histórica está ligada às décadas de 1960 e 1970, com prolongamentos no processo de abertura política e redemocratização.

4. Quais foram os aspectos positivos?

A contribuição histórica que se pode reconhecer nessa experiência não está simplesmente em fazer festas, mas em compreender que a cultura, o humor e a sociabilidade também participam da vida política.

1. A alegria como forma de resistência. Sob uma ditadura que censurava, perseguia e prendia opositores, manter espaços de convivência, criação e crítica ajudava a preservar vínculos sociais e a recusar a normalização do autoritarismo. O poeta Ferreira Gullar, associado a esse ambiente, interpretou a festa como uma maneira de a esquerda continuar existindo e resistindo.

2. O humor como instrumento de crítica política. O Pasquim demonstrou que a sátira, a caricatura, a irreverência e a linguagem cotidiana podiam confrontar o poder e questionar os padrões conservadores. Seu humor não eliminava o conteúdo político; muitas vezes, era justamente o meio pelo qual a crítica se tornava pública.

3. A aproximação entre cultura e política. Música, teatro, literatura, carnaval e debates ampliavam as formas de expressão política para além das reuniões partidárias e dos discursos formais. Iniciativas como o espetáculo Opinião, o samba do Zicartola e os encontros no Teatro Casa Grande mostram como a produção cultural podia integrar o ambiente de resistência e debate público.

4. A valorização da liberdade de comportamento. A contestação também alcançava costumes, relações pessoais e formas de viver. A política deixava de ser apenas uma disputa pelo Estado e passava a incluir questões relacionadas à autonomia individual, à liberdade de expressão e à crítica das convenções sociais.

5. A construção de redes de convivência e solidariedade. Bares, redações, espaços culturais e encontros entre artistas e intelectuais podiam funcionar como lugares de circulação de ideias, apoio mútuo e articulação de iniciativas. Nem toda resistência se organizava como partido ou movimento clandestino.

5. Quais foram os aspectos negativos e as críticas?

A expressão também contém problemas que não devem ser ignorados, inclusive quando se pretende recuperá-la de maneira afirmativa.

- Distância entre discurso e prática. A crítica mais recorrente era a de que alguns participantes discutiam revolução, socialismo e transformação social sem se comprometerem de maneira continuada com a organização popular ou com as consequências concretas da militância.

- Predomínio de círculos urbanos e socialmente restritos. A imagem histórica da esquerda festiva ficou muito ligada aos ambientes boêmios da Zona Sul carioca, especialmente Ipanema. Isso podia produzir uma distância entre a sociabilidade de artistas e intelectuais e as condições de vida de trabalhadores, moradores das periferias e populações com menor acesso aos bens culturais.

- Risco de substituir organização por celebração. A festa pode reunir pessoas e criar vínculos, mas não garante, por si só, continuidade política, formulação de propostas, mobilização social ou conquistas institucionais.

- Desqualificação da militância. A expressão foi utilizada de forma pejorativa para sugerir frivolidade, irresponsabilidade ou falta de compromisso. Essa crítica não vinha apenas de setores conservadores: também havia setores da própria esquerda que valorizavam a disciplina, a organização e a dedicação militante e viam com desconfiança os ambientes boêmios.

- Risco de romantizar a própria história. A repressão sofrida por artistas e intelectuais não significa que toda festa fosse resistência, assim como o engajamento cultural não tornava todos os participantes igualmente comprometidos com as lutas sociais.

Há, portanto, uma distinção importante: a crítica à ideia de que a festa basta para transformar a sociedade não é o mesmo que negar a importância política da cultura, do humor e da alegria.

6. O que a esquerda festiva deixou como legado cultural?

O Pasquim

A irreverência jornalística e o humor como ferramentas de crítica aos costumes, às autoridades e ao autoritarismo.

Dossiê da Biblioteca Nacional Digital

Show Opinião

O encontro entre música popular, crítica social e resistência cultural, com artistas como Nara Leão, Zé Keti e João do Vale.

Banda de Ipanema

O carnaval como espaço de convivência, irreverência e contestação dos padrões sociais.

Debates culturais e encontros públicos

Os ciclos de debates no Teatro Casa Grande demonstraram que espaços artísticos também podiam se converter em lugares de discussão sobre os rumos do país e a redemocratização.

Esses exemplos não devem ser tratados como realizações exclusivas de uma corrente organizada chamada esquerda festiva. São iniciativas de um campo cultural mais amplo, cujos integrantes, motivações e formas de atuação eram diversos.

7. Análise da frase: “Viva a esquerda festiva de novo nas ruas!”

A frase pode ser compreendida em três dimensões.

A dimensão histórica: recuperar a expressão significa resgatar uma memória da esquerda brasileira que associou a crítica política à irreverência, à cultura e à liberdade de comportamento. É uma maneira de questionar a ideia de que a ação política precisa ser sisuda, austera ou limitada à linguagem dos partidos.

A dimensão cultural: a frase sugere que as ruas não são apenas espaços para passeatas, discursos, reivindicações e disputas eleitorais. São também lugares de música, dança, teatro, carnaval, encontros, convivência e criação coletiva. A cultura pode contribuir para que as pessoas se reconheçam como participantes da vida pública, e não somente como espectadoras das decisões tomadas por outros.

A dimensão crítica: o trecho “de novo nas ruas” pode ser interpretado como uma convocação à presença pública, à retomada da convivência e à expressão coletiva. Mas a palavra “festiva” não deve apagar a necessidade de organização, participação social, compromisso com direitos, continuidade das lutas e capacidade de formular propostas.

A pertinência da frase depende, assim, do sentido que se atribui a ela. Se “esquerda festiva” significar uma política reduzida à comemoração, à performance e à sociabilidade de grupos restritos, permanecem válidas as críticas históricas. Se significar uma política que incorpora a alegria, a arte, o humor e a celebração como dimensões da democracia, a expressão ganha outro alcance: reivindica que a transformação social também precisa criar condições para uma vida mais livre, digna e culturalmente rica.

É uma interpretação possível do legado histórico, e não uma afirmação de que os conflitos e limites daquela experiência tenham desaparecido.

8. Uma atualização possível para a cultura brasileira e sergipana

Pensada a partir da ação cultural, a frase pode abrir uma discussão que ultrapassa a memória carioca dos anos 1960. Em Sergipe, por exemplo, a questão seria como aproximar manifestações culturais, formação política, participação cidadã e organização comunitária, sem reduzir a cultura a entretenimento nem transformar toda atividade cultural em propaganda partidária.

A pergunta prática seria: como fazer com que a alegria dos encontros, dos festivais, das festas populares, do teatro, da música e do audiovisual se articule com a democratização do acesso à cultura, o fortalecimento dos Pontos de Cultura, a participação nas políticas públicas e a ampliação das oportunidades para grupos historicamente excluídos?

Essa abordagem também permite distinguir uma festa produzida para consumo de um processo de ação cultural no qual as próprias comunidades participam da criação, da organização e da definição dos seus objetivos. Nesse segundo caso, a celebração pode ser simultaneamente experiência estética, exercício de cidadania, fortalecimento de vínculos e produção de memória coletiva.

9. Conclusão: o que a frase afirma — e o que ela precisa preservar

“Viva a esquerda festiva de novo nas ruas!” é uma formulação de memória e de provocação política. Sua força está em recuperar a possibilidade de uma política que não renuncie à alegria e à cultura. Seu limite aparece quando a celebração se torna substituta da organização e do compromisso com a transformação social.

A expressão pode ser ressignificada sem idealizar o passado: a festa não precisa ser o oposto da luta, assim como a seriedade não precisa significar tristeza, sectarismo ou rigidez. O desafio é fazer com que a energia dos encontros se converta também em participação duradoura, criação coletiva e ampliação dos direitos.

Em síntese, a questão não é escolher entre uma esquerda festiva e uma esquerda comprometida, como se alegria e compromisso fossem incompatíveis. É pensar em formas de ação política e cultural nas quais a festa seja parte da participação democrática, a cultura seja parte da transformação social e a presença nas ruas não termine quando a música acaba.

Fontes para aprofundamento

  1. Zuenir Ventura, 1968: o ano que não terminou — referência para a história da expressão e da geração política e cultural daquele período. Edição da Companhia das Letras.

  2. Biblioteca Nacional Digital — história de O Pasquim, suas figuras e seu papel na imprensa alternativa. Consultar o dossiê.

  3. Desbundando em anos de chumbo: contracultura, produção artística e Os Novos Baianos — artigo acadêmico que contextualiza a contracultura e os circuitos culturais do período. Ler na revista História.

  4. Felipe Quintino, tese sobre Zuenir Ventura, jornalismo e testemunho — pesquisa que aborda a esquerda festiva e os circuitos culturais e intelectuais cariocas. Consultar a tese na USP.

A trilha da pesquisa foi construída por Zezito de Oliveira  utilizando o  Chat GPT

A polêmica entrevista de Leila Diniz ao Pasquim. AQUI 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Esquerda cirandeira: quando a crítica à cultura popular afasta a esquerda do coração da nossa gente


(*) - É uma renomada arquiteta, urbanista e gestora cultural sergipana, formada pela FAU/UFRJ com especializações em planejamento urbano e restauro de monumentos. Com mais de 40 anos de carreira, ela se destaca na preservação do patrimônio histórico nacional por meio de passagens por órgãos públicos como o IPHAN e na liderança de entidades como o IAB-SE. Seu projeto mais emblemático e de maior impacto social foi a revitalização e restauro do complexo dos Mercados Centrais de Aracaju, obra concluída no ano 2000 que transformou uma área degradada no principal polo cultural e turístico da capital sergipana. Além disso, assinou o projeto da Pinacoteca de Sergipe e atua fortemente na curadoria de artes visuais através de seu escritório, o Libório Gândara Ateliê de Arquitetura.