segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Entre a Bolha e o Palco: O Debate entre Chavoso da USP e Mamãe Falei e a Estética da Rinha Política

 


O recente encontro entre o sociólogo e influenciador Thiago Torres, conhecido como Chavoso da USP, e o ex-deputado Arthur do Val, o Mamãe Falei, reacendeu uma das discussões mais complexas da comunicação digital contemporânea: qual é o limite e a real eficácia do diálogo entre polos ideológicos radicalmente opostos na internet?

O evento, que reuniu duas das figuras mais emblemáticas da polarização política brasileira dos últimos anos, dividiu opiniões de forma simétrica e jogou luz sobre as táticas de engajamento que movem as redes sociais.
A Polarização das Reações: Críticas vs. Elogios
Sem dados estatísticos oficiais, a repercussão do encontro revelou uma divisão clara entre as bolhas ideológicas de cada participante. Longe de haver um consenso ou uma maioria absoluta, o público reagiu dentro de moldes previsíveis:
  • No campo progressista e de esquerda: Predominou um tom de forte desaprovação. Seguidores e ativistas que acompanham o trabalho de base de Chavoso da USP criticaram severamente a iniciativa. O principal argumento foi de que sentar-se à mesa com Arthur do Val — um político cassado após o vazamento de áudios com declarações sexistas sobre refugiadas ucranianas — representava uma "reabilitação de imagem" inadequada para uma figura pública em declínio.
  • No campo liberal e ligado ao MBL: O tom foi de comemoração e validação. O público de Arthur do Val celebrou o encontro como uma demonstração de "coragem para o debate" e disposição para o enfrentamento de ideias fora da própria zona de conforto.
  • Os entusiastas do formato: Um grupo menor, composto por espectadores de podcasts e debates independentes, elogiou o evento de forma neutra, defendendo que a conversa pacífica entre opostos é saudável para a democracia, independentemente do espectro político.
As Vozes da Discordância: Exemplos de Críticas
As cobranças direcionadas a Thiago Torres focaram, majoritariamente, na ética da concessão de palcos virtuais. Críticos argumentaram que "dar espaço para o Mamãe Falei depois de seu histórico é ajudar a limpar a imagem de alguém punido institucionalmente".
Outra vertente de críticas apontou para a assimetria do ganho de engajamento, sugerindo que "o Chavoso faz um trabalho gigante nas periferias, mas o MBL é uma máquina de recortes; a esquerda não ganha nada com isso, eles sim". Por fim, houve quem apontasse o espetáculo em si, definindo o encontro como "uma rinha política que prioriza o entretenimento e os cortes de 'mitadas' ou 'lacradas' para o TikTok, em vez de uma discussão estrutural profunda".
A Defesa de Chavoso da USP: Furar a Bolha como Tática
Diante das cobranças de sua própria base, Chavoso da USP veio a público defender sua estratégia de atuação. Segundo o influenciador, o objetivo central de aceitar debates com figuras da direita não é convencer o oponente, mas sim disputar a audiência que o segue.
Torres argumenta que, ao apresentar dados sólidos e formulações estruturadas que desmontam a retórica liberal em seu próprio terreno, ele é capaz de plantar dúvidas na mente de jovens que flertam com o conservadorismo. Além disso, o sociólogo destacou a necessidade tática de projetar as pautas da esquerda em espaços de grande alcance, subvertendo a lógica dos algoritmos que frequentemente limitam o alcance orgânico de criadores progressistas.
Conclusão: Diálogo ou Entretenimento?
O debate entre Chavoso da USP e Mamãe Falei sintetiza o dilema da comunicação política moderna. Para alguns, o enfrentamento direto é uma necessidade imperiosa da guerra cultural, a única forma de evitar que uma bolha domine a narrativa digital por completo. Para outros, a prática esvazia o debate programático, transformando divergências profundas sobre o destino do país em um espetáculo de entretenimento monetizável.
No fim, o episódio demonstra que, na arena das redes sociais, o conteúdo do debate muitas vezes importa menos do que a capacidade de converter o conflito em cliques — restando saber quem, de fato, consegue capitalizar politicamente após o encerramento da transmissão

Ministro israelense quer tirar cidadania dos diretores de 'Naza', documentário premiado em Veneza

 


Documentário reúne depoimentos de 24 oficiais e soldados da inteligência israelense sobre sistemas usados ​​nos massacres em Gaza

Redação

teleSUR

Caracas

14 de setembro de 2026, às 07:06

O ministro da Cultura israelense, Miki Zohar, declarou neste domingo (13/09) que buscará revogar a cidadania de Yuval Abraham e Rachel Szor, diretores do documentário Naza, que recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cinema de Veneza no sábado (12/09), onde foi ovacionado de pé por um período recorde de 25 minutos após sua exibição.

“Como Ministro da Cultura, agirei imediatamente para revogar a cidadania israelense desses criadores vis por traição contra o país”, disse Zohar sobre os cineastas, que também foram dois dos quatro diretores de No Other Land, filme sobre a resistência de uma comunidade na Cisjordânia ocupada, que ganhou o prêmio de melhor documentário na 97ª edição do Oscar em 2025.

Naza, filme de 80 minutos produzido pelo The Guardian e James Wilson, foi filmado à noite nos telhados de Tel Aviv e é baseado em reportagens publicadas entre 2023 e 2025 pela revista israelense-palestina +972 Magazine, pelo veículo de comunicação em hebraico Local Call e pelo próprio The Guardian.

O documentário reúne depoimentos de 24 oficiais e soldados da inteligência militar israelense que, com seus rostos e vozes protegidos por alterações digitais, explicam como funciona o sistema que decide quantas baixas civis são aceitáveis ​​em um bombardeio; os mecanismos e tecnologias de vigilância, a seleção de alvos e os bombardeios utilizados pelo Exército israelense em Gaza.

No documentário, alguns funcionários afirmam ser capazes de controlar qualquer pessoa que possua um telefone celular; outro entrevistado se apresenta como o criador de um sistema que, com algoritmos e inteligência artificial, consegue determinar a concentração de pessoas dentro de um prédio, e há até confissões sobre bombardeios “justificados” que matam mulheres e crianças caso haja um membro do Hamas na área

Em suas declarações neste domingo (13/09), o ministro Zohar acusou os cineastas israelenses de nutrir um “ódio ardente e autodestrutivo” e de estarem “dispostos a prejudicar sua pátria para receber aplausos dos antissemitas do mundo”, o que, segundo ele, “constitui uma traição ao país”.

O ataque contra o filme e seus cineastas contou com o apoio do ministro ultranacionalista da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, que nos últimos meses foi criticado, entre outras coisas, por celebrar a violência contra membros da Flotilha Global Sumud e uma forca especialmente projetada para palestinos, ou por incitar o assassinato de “30 a 40” pessoas todas as noites na Faixa de Gaza.

“Desapareçam. Tenho certeza de que seus amigos, nossos inimigos no Hamas em Gaza, os receberão de braços abertos”, disse Ben Gvir em uma mensagem aos cineastas Abraham e Szor.

O termo “naza” refere-se à palavra que os comandantes e serviços de inteligência israelenses usam para descrever as chamadas “vítimas colaterais” dos bombardeios que devastaram Gaza desde outubro de 2023. Em decorrência da escalada militar israelense, mais de 73.000 pessoas morreram e mais de 174.000 ficaram feridas no enclave palestino, a maioria crianças e mulheres.

Israel tenta apagar genocídio do debate público

Mais de 90% da infraestrutura de Gaza foi destruída. Especialistas internacionais apontaram para os volumes recordes de explosivos usados ​​pelas Forças de Defesa de Israel (IDF), o uso de fósforo branco em dezenas de ocasiões e ataques sistemáticos contra comunidades civis, incluindo aquelas deslocadas para campos de refugiados, que estão permanentemente sujeitas a deslocamento forçado.

Médicos ocidentais testemunharam padrões inegáveis ​​nas mortes de dezenas de crianças pelas mãos de atiradores israelenses. Até outubro de 2025, quando o cessar-fogo nominal foi assinado, as estatísticas do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos chamavam a atenção para o elevado número de pessoas da mesma família mortas: mais de 40 famílias perderam até 30 parentes, e houve casos extremos, como o do clã Al Najjar, que perdeu 138 membros em 18 incidentes.

As Forças de Defesa de Israel (IDF) também emitiram um comunicado numa tentativa de desacreditar o documentário — que já está anunciado para o Festival de Cinema de San Sebastián, de 18 a 26 de setembro — com argumentos como o de que “as decisões relativas à seleção e aprovação de ataques nas IDF são tomadas exclusivamente por pessoal humano, de acordo com as diretrizes das IDF, e não por inteligência artificial”.

Nos últimos meses, houve um aumento nas notícias de que Tel Aviv gastou milhões para moldar narrativas sobre Gaza nas redes sociais e na internet, bem como alegações de remoção de escombros para apagar vestígios do genocídio.

Na cerimônia de premiação realizada no sábado em Veneza, o diretor Yuval Abraham enfatizou que a verdade retratada no filme “foi documentada e conhecida desde o primeiro dia graças a jornalistas palestinos. Mais de 200 deles foram mortos por Israel em Gaza. Suas vozes foram silenciadas e negadas.”

Ele afirmou ainda que “negar um crime é o que contribui para a sua persistência” e, portanto, considerou “realmente importante que os israelenses assistam a este filme”, ​​porque o seu país “é quem está cometendo esses crimes”. Ele também questionou o papel dos Estados Unidos no genocídio e instou os norte-americanos a assistirem ao filme, pois o seu país “está financiando grande parte dos assassinatos”.

“Com Naza, queríamos mostrar como esse massacre é sistêmico, não resultado de um acidente, mas de um plano deliberado, baseado na total desumanização dos palestinos “, disse Abraham.

Plano de Ben-Gvir para ‘esvaziar’ Gaza em sete anos

Investigações e fontes no terreno, bem como técnicos e executivos de empresas de tecnologia, confirmaram o uso de inteligência artificial nas operações de extermínio contra palestinos em Gaza. Organizações israelenses de direitos humanos apoiaram as alegações de genocídio, e especialistas israelenses em genocídio chegaram a indicar que o número de mortos (diretos e indiretos) é muito maior do que o relatado por fontes palestinas e internacionais.

Até a chegada de Naza, o recorde da ovação de pé mais longa no Festival de Cinema de Veneza pertencia a A Voz de Hind, com 23 minutos. Em 2025, esse documentário ganhou o Leão de Prata.

Dirigido pela cineasta franco-tunisiana Kaouther Ben Hania, o filme é uma reconstrução fiel e comovente do ataque ocorrido em 29 de janeiro de 2024, quando Hind Rajab, de seis anos, sobreviveu em um carro crivado de balas pelo Exército israelense enquanto sua família tentava fugir dos bombardeios em Gaza, pediu ajuda e acabou sendo morta por soldados antes que os socorristas pudessem chegar.

Palestina sem palestinos’

Nesse mesmo fim de semana, o arquiteto israelense Eyal Weizman, fundador da Forensic Architecture, um grupo pioneiro na investigação de violações de direitos humanos e crimes de guerra utilizando fontes abertas, declarou em Linz, na Áustria, que a destruição sistemática de Gaza por Israel faz parte de uma estratégia para torná-la inabitável e expulsar os palestinos.

“A Convenção sobre o Genocídio [para a Prevenção e a Repressão do Crime] proíbe a destruição das condições que tornam a vida possível. Não se trata apenas de mortes diretas, mas da eliminação daqueles elementos — edifícios, hospitais ou campos — necessários para a sobrevivência das pessoas”, disse Weizman, que viajou a Linz para participar do festival Ars Electronica, que premiou seu trabalho Cartografia do Genocídio: A Conduta de Israel em Gaza desde Outubro de 2023.

O projeto Cartografia do Genocídio reúne e cruza milhares de pontos de dados e registros visuais entre outubro de 2023 e o mesmo mês de 2025, para identificar padrões nas operações militares israelenses.

O estudo documenta uma devastação sistemática: mais de 80% da vegetação e 70% das terras agrícolas destruídas, quase metade dos poços de água e todas as estações de tratamento de água inutilizadas, 35 dos 36 hospitais destruídos ou gravemente danificados; mais de 80% das universidades, prédios governamentais, instituições religiosas e espaços culturais atacados.

“Observamos um padrão claro onde tudo funciona em conjunto”, observou Weizman, acrescentando: “os ataques a hospitais não correspondem às evidências específicas apresentadas por Israel sobre instalações ou túneis do Hamas. Os hospitais foram atacados para quebrar a resiliência da sociedade, ao mesmo tempo em que Israel tentava expulsar os palestinos de certas áreas.”

Além da destruição de infraestrutura e terras agrícolas, ele observou que comboios de ajuda humanitária também foram atacados. “Enquanto um ataque causa uma queda na produção de alimentos dentro de Gaza, o outro impede sua chegada do exterior, o que, em conjunto, cria a fome”, disse ele.

O pesquisador israelense enfatizou a relação entre a vida humana e o espaço físico que a sustenta: “para que as pessoas existam, para que sua vida biológica, cultural ou política exista, é preciso haver um ambiente, um espaço que a permita.”

Casas, estradas, hospitais, escolas, campos ou infraestrutura são uma espécie de “casca” construída ao redor das pessoas, explicou ele, acrescentando que destruir essa “casca” pode causar a morte lenta de uma sociedade, porque elimina o que torna possível a permanência em um território.

Ao destruir infraestrutura, terras, modos de vida, instituições educacionais e espaços culturais, a vida social também é destruída, e uma sociedade se transforma em uma coleção de indivíduos isolados, mais fáceis de controlar. “Israel e o movimento sionista queriam alcançar uma Palestina sem palestinos. Esse é o objetivo final de Israel”, afirmou Weizman.

Tradução de reportagem do El País sobre NAZA. Realmente abalou.

Soldados israelenses da 'NAZA' abalaram Veneza: "Os nazistas eram o diabo, mas o que sou eu?"

Programado de última hora, este documentário produzido pelo 'The Guardian' e dirigido por Yuval Abraham e Rachel Szor é um relato devastador que expõe os sistemas de assassinato em massa em Gaza.

A reportagem é de Elsa Fernández-Santos, publicada por El País, 19-09-2026.

NAZA foi filmado à noite. Nos telhados de prédios em Tel Aviv, seus diretores, Yuval Abraham e Rachel Szor, entrevistam 24 agentes de inteligência e soldados que permanecem na penumbra enquanto explicam anonimamente, em detalhes, seus papéis após 7 de outubro de 2023, quando os brutais ataques do Hamas, que mataram 1.200 pessoas, desencadearam uma operação militar sem precedentes contra os palestinos de Gaza, um massacre (até o momento, mais de 73.000 mortos) realizado remotamente, com tecnologia de videogame, que os entrevistados neste documentário devastador e impactante, baseado em uma investigação do jornal britânico The Guardian, não hesitam em chamar de “genocídio”.

Frio e austero, pontuado pelas imagens e sons de fundo de uma cidade que descobrimos através de suas janelas e edifícios, NAZA (nome usado pelos soldados israelenses para se referir às vítimas humanas de suas operações) encadeia um testemunho a outro em uma sequência crescente, quase insuportável. Em um dado momento, coincidindo com a comemoração do 80º aniversário do Holocausto em Israel, vemos a fachada do Arquivo de Cinema de Israel e o anúncio de Shoah, a obra-prima de Claude Lanzmann, em sua programação. Logo depois, uma das figuras sombrias deste filme relembra uma viagem com sua família à Polônia para homenagear a memória de seus ancestrais e então declara: “Os nazistas eram o diabo, mas o que sou eu?”

O material compilado em NAZA pelos diretores israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, vencedores do Oscar em 2024 por "No Other Land" ao lado dos palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal, é um relato detalhado que revela as estratégias de destruição desencadeadas após 7 de outubro, "os sistemas secretos organizados para o assassinato em massa da população palestina", afirmam seus criadores. "As referências ao Holocausto vieram dos próprios militares", observou Yuval Abraham ontem no Lido. "Mas, como estamos na Itália, o país de Primo Levi, para mim, a memória do Holocausto e o antissemitismo não podem ser usados como ferramenta para evitar confrontar o que está acontecendo em Gaza. Israel tem usado o antissemitismo como arma para se justificar. No entanto, eu, como neto de sobreviventes do Holocausto, não quero ser seu cúmplice." "Não se trata de comparar o Holocausto com Gaza, não são a mesma coisa", respondeu Abraham a uma pergunta de um jornalista alemão, "embora os padrões de desumanização sejam os mesmos e defender os direitos humanos seja honrar a memória do Holocausto."

O produtor principal da NAZA, James Wilson, também está por trás de The Zone of Interest, sobre a vida do comandante de Auschwitz, Rudolf Höss. Seu diretor, Jonathan Glazer, compareceu ao Lido nesta quinta-feira como produtor executivo do documentário. Wilson afirmou não estar preocupado com as ameaças de antissemitismo que afetam outros críticos de Israel: “Ao contrário de atores como Mark Ruffalo, eu sou judeu, meu colaborador Jonathan Glazer é judeu, e Yuval e Rachel são judeus israelenses. Não sou ingênuo; reconheço a natureza desses ataques e sua estratégia: ocultar a verdade. No entanto, o judaísmo não é incompatível com a denúncia da violência sistêmica do governo israelense contra a população palestina nativa.”

Na NAZA, alguns soldados falam da sede de vingança após o dia 7 de outubro, enquanto outros explicam o beco sem saída em que se encontram três anos depois de se tornarem parte de uma sofisticada máquina tecnológica. Nesse sistema, os celulares de habitantes de Gaza suspeitos de pertencerem ao Hamas permitiam o mapeamento que visava não apenas os próprios indivíduos, mas também os prédios onde moravam, ignorando todos os naza (mulheres, crianças e idosos) ao seu redor.

A partir daí, passavam para uma segunda fase: a queima sistemática das ruínas desses prédios, um a um, para obliterar o que restava das casas e de sua memória. A terceira fase consistia nos infames "jogos da fome" dos atiradores de elite, quando a fome em Gaza transformou seus habitantes em "formigas" desesperadas. Os agentes explicam, com esboços rabiscados na calada da noite, como os sistemas de controle remoto e sua IA funcionam como um videogame em que "para cada terrorista, existem até 500 naza". O sinal sempre vinha dos celulares hackeados e, cada vez que a frase "Papai chegou" era ouvida, eles apontavam para o chão inteiro, fazendo com que tudo desabasse.

Esses “técnicos” de assassinatos sistemáticos — alguns pertencentes à “elite militar” — falam de como os gritos que ouviam do outro lado de suas modernas instalações começaram a assombrá-los, falam de valas comuns, dos hormônios desencadeados por cada missão, da “adrenalina descontrolada” da guerra: “Era divertido, nenhum de nós tinha dúvidas. Eles nos perguntaram se precisávamos de ajuda psicológica e não precisávamos”, diz um deles.

“Tudo o que foi relatado aqui já era conhecido, já foi publicado. Mas não é a mesma coisa ouvir, ver as nuances que eles trazem com seus esboços e explicações”, observou Rachel Szor na quinta-feira. Sobre o processo de ocultação das identidades dos oficiais e soldados, o chefe de investigações do The Guardian, Paul Lewis, defendeu o direito legal de proteger as fontes. “Assim como em No Other Land, o que estamos tentando fazer é expor como crimes de Estado são cometidos sistematicamente, crimes que, como israelenses, é nossa responsabilidade denunciar”, acrescentou Yuval Abraham. “As motivações dos homens que falam em NAZA são variadas; alguns o fazem porque querem derrubar o muro de negação que existe em Israel, outros não sentem muito remorso, mas querem falar, há um pouco de tudo… mas eles não são os protagonistas. Assim como em Zone of Interest, as vítimas estão fora de cena, mas nunca saem de nossas mentes.” “Nosso filme”, acrescentou ele, “foi filmado à noite porque estamos nessa escuridão e, embora, pelo menos para mim, não haja muito espaço para esperança, temos que procurar alguma luz e seguir em frente, e para isso temos que encarar o que aconteceu e fazer com que os responsáveis paguem por isso.”

A memória de 'A Voz de Hind'

Se há um ano o filme "A Voz de Hind", da diretora tunisiana Kaouther ben Hania (que nesta edição integra o júri presidido por Maggie Gyllenhaal), e produzido por James Wilson, comoveu profundamente o público do Lido — conquistando o Leão de Prata, Grande Prêmio do Júri, por sua história sobre uma menina palestina de cinco anos morta por disparos das Forças de Defesa de Israel (IDF) —, é difícil acreditar que "NAZA", que, com rigor e sem sentimentalismos, sem adjetivos desnecessários, realiza uma investigação jornalística de primeira linha e só adentra Gaza num devastador minuto final, não concorra aos prêmios no próximo sábado.

https://www.ihu.unisinos.br/670809-soldados-israelenses-da-naza-abalaram-veneza-os-nazistas-eram-o-diabo-mas-o-que-sou-eu


A feira do Bairro América e a disputa pela narrativa

 Ontem, 13/09/2026,  foi o dia de ir à feira no Bairro América, o que faço a cada quinze dias, depois de ter me mudado um pouco mais para longe. Quando saí do bairro e morava mais perto, ia todos os domingos.

Ao chegar à feira, percebi, logo na primeira banca em que costumo comprar frutas, que o movimento estava bom, porque não havia mais tanta variedade e quantidade de frutas como de costume naquela banca. Disse ao feirante: “O pessoal está com dinheiro, não é mesmo?”. Ele confirmou, e olhei a movimentação ao redor, com um bom número de pessoas circulando.

Enquanto fazia compras em outras bancas, passei por uma em que um cidadão, falando com o feirante, dizia em voz alta que essa situação precisa mudar, pois com um país sem lei e com os preços altos… Nem esperei ele complementar para dizer: “Preços altos nada, olha só a quantidade de pessoas na feira comprando”. Ele se calou, e eu segui adiante, na verdade fui dizendo e passando.

E como em tempos de guerra cultural, não é a verdade que importa, mas a forma como a realidade é reinterpretada e disseminada é o que acaba imperando.

Aí me lembrei do quanto é necessário o investimento em cultura digital e mídia livre. Dessa maneira, imagine se mais pessoas como este que escreve pudessem contar com mais computadores, antenas e outros apetrechos necessários para a comunicação digital.


 — Com pesquisa  da IA deepseek

O que os dados revelam sobre consumo, preços e mídia livre

Dados de pesquisas recentes ajudam a interpretar a cena da feira do Bairro América. O consumo das famílias brasileiras cresceu 4,8% em 2024, o maior avanço desde 2011, impulsionado pelo aquecimento do mercado de trabalho e por programas de transferência de renda. As feiras livres são um termômetro real desse consumo: 63% dos consumidores de frutas, legumes e verduras frequentam esses espaços regularmente, perdendo apenas para os supermercados. No Nordeste, as feiras são canais de abastecimento essenciais, com público majoritariamente feminino (81%) e de baixa renda, mas com gasto médio elevado (62% entre R
51eR

Sobre a inflação de alimentos, o dado é ainda mais contundente: em 2025, a alta foi de apenas 2,95%, a menor da série histórica, com a alimentação no domicílio subindo somente 1,43% — e chegando a registrar seis meses consecutivos de variação negativa. Ou seja, a percepção de “preços altos” não se sustenta nos números oficiais.

Agora, sobre a “guerra cultural” e a necessidade de mídia livre: o Brasil já foi referência mundial em cultura digital, com políticas pioneiras como os Pontos de Cultura e o Marco Civil da Internet, mas essa efervescência perdeu vigor diante do domínio das big techs. Há uma necessidade urgente de reinvenção da cultura digital brasileira, com fomento às mídias independentes e à soberania digital.

E o dado que mais dialoga com a fala final: 57% dos brasileiros estão em situação de baixa conectividade significativa — sem computador, sem velocidade adequada, com apenas o celular como janela para o mundo digital. Entre pessoas de baixa renda, 35% ficaram sete dias ou mais sem acesso à internet móvel nos 30 dias anteriores ao estudo, e 11,6% ficaram mais de 15 dias desconectados. Sem franquia de dados e sem Wi-Fi, 55,2% deixaram de estudar e 56,5% deixaram de acessar serviços de governo.

É por isso que iniciativas como a Incubadora de Soluções, lançada pelo governo federal com R$ 15 milhões para fortalecer o jornalismo negro, periférico e independente, são tão importantes — porque cinco em cada dez municípios brasileiros são considerados desertos de notícias, representando 14% da população nacional.

Se mais pessoas tivessem acesso a computadores, antenas e infraestrutura de comunicação digital, a disputa pela narrativa — essa tal “guerra cultural” — deixaria de ser privilégio de poucos e passaria a refletir, de fato, a realidade testemunhada na feira: um povo que trabalha, que consome e que precisa contar sua própria história.


Fontes da Pesquisa
1. Consumo das famílias brasileiras (crescimento de 4,8% em 2024)

Folha de S.Paulo — Consumo das famílias fecha 2024 com maior crescimento desde 2011, mas cai no fim do ano (07/03/2025)

2. Frequência em feiras livres (63% dos consumidores de FLV)

SuperHiper — Dia Mundial da Agricultura: conheça oportunidades e barreiras para FFLV (20/03/2025)

3. Perfil do consumidor em feiras livres do semiárido nordestino

Scientific Management Journal — Feira livre: análise do perfil do consumidor no semiárido paraibano

4. Inflação de alimentos em 2025 (2,95% e 1,43%)

Monitor Mercantil — Brasil teve em 2025 menor inflação de alimentos da série histórica (05/03/2026)
https://monitormercantil.com.br/brasil-teve-em-2025-menor-inflacao-de-alimentos-da-serie-historica/
5. Cultura digital no Brasil (Pontos de Cultura e Marco Civil)

Outras Palavras — Sonhos e lutas por uma internet livre e soberana (27/06/2025)

6. Baixa conectividade significativa (57% dos brasileiros)

NIC.br — Mais da metade da população tem baixa conectividade significativa

7. Incubadora de Soluções para Jornalismo (R$ 15 milhões)

Gov.br / MCTI — Com recursos do FNDCT, governo federal lança Incubadora de Soluções para Jornalismo (29/05/2025)

8. Desertos de notícias (5 em cada 10 municípios; 14% da população)

Agência Brasil — 14% da população brasileira vive em desertos de notícias (23/02/2022)

9. Tempo sem acesso à internet móvel por pessoas de baixa renda (35%)

Folha de Pernambuco — Pesquisa aponta desigualdade da conexão digital no país (03/09/2025)

10. Impactos da falta de internet (55,2% deixaram de estudar; 56,5% deixaram de acessar serviços de governo)

Canaltech — Por estar sem internet, mais da metade no Brasil deixa de usar banco ou estudar (04/09/2025)





domingo, 13 de setembro de 2026

O mito Bukele e a lição de Medellín: como a América Latina colhe violência ou paz. Por Célio Turino

 Segurança Pública - grãos colhidos pela América Latina 

Esse artigo compõe meu livro SEMENTEIRA – grãos para transformar radicalmente a sociedade via políticas culturais (ed. Autonomia Literária, 2025). Na primeira edição comecei esse capítulo por Medellín, mas fazendo a revisão para nova edição considero mais adequado inverter a ordem, apresentando primeiro a situação de El Salvador, dado o impacto e louvor à política de encarceramento em massa - e o Estado de exceção – estabelecido naquele país sob o governo Bukele, ícone da “nova direita” na América Latina. Conheço praticamente todos os países desse nosso vasto continente chamado Solidão (ou, simplesmente, América Latina), com razoável imersão e profundidade, em aproximadamente meia centena de viagens, não somente para ministrar conferências, cursos e reuniões, como, sobretudo, para escutar e visitar os cantos mais esquecidos e distantes[1]. Vamos mirar nossos vizinhos como quem olha no espelho para ver quem é, e no que pode se transformar.

O que pode acontecer quando governos não dão conta da Segurança Pública e, de repente, alguém aparece com solução mágica?

 

Parte 1

El Salvador

 

Muro da prisão de Ilopango, em San Salvador, por onde pessoas tentam identificar seus familiares/BBC News Mundo

Como por outros rincões da América Latina eu estive muitas vezes no Triângulo Norte da América Central (Guatemala, Honduras e El Salvador) e pude acompanhar a degradação social resultante da violência social não contida. Particularmente me é muito dolorido constatar as regressões em El Salvador, país que já foi um raio de esperança após o martírio de um povo sob a guerra civil nos anos 1980. Quando estudante universitário contribuí para a criação do Comitê de Solidariedade ao Povo de El Salvador à época da Guerra Civil, incluindo a realização de Feiras de Arte, trazendo a banda Cutumay Camones ao Brasil e auxiliando em publicações; desde então estabeleci uma relação de respeito e amorosidade com o povo salvadorenho. Décadas depois passei a visitar a região, sendo muito bem recebido. A despeito das belíssimas e eficazes ações culturais comunitárias que presenciei, como em Guatemala, com o Caja Lúdica, Caracoles de Jade em Belize e em El Salvador, com o TNT (Tiempos Nuevos Teatro)[2], é preciso reconhecer que elas não tiveram força e a escala necessária, sobretudo em El Salvador, para irem além dos efeitos positivos em suas comunidades.

Na segunda década do século XXI esses países chegaram a alcançar índices próximos ou superiores a 100 homicídios por 100 mil habitantes, tornando a região com a de mais elevado índice de violência urbana no mundo. Em uma viagem entre Honduras e Guatemala vi cadáveres na estrada; nosso ônibus, assim como todos os demais ônibus e caminhões, só podia viajar em comboio, escoltado por dois automóveis com segurança privada exibindo suas escopetas na tentativa de dissuadir eventuais ataques. Pelas ruas da Cidade da Guatemala ou San Salvador, o comércio de rua era realizado através de grades, e estabelecimento médios ou restaurantes eram obrigados a contratar segurança privada com homens portando armamento de alto calibre. Antes desse fenômeno, que começa nos anos 1990, esses países passaram por violentas guerras civis. Na terra dos vulcões, o vulcão da violência estava em erupção permanente.

 Para compreender a origem dessa onda de violência a partir do final do século XX é necessário ter em conta as “Maras”, que são gangues que tiveram origem nos Estados Unidos, sobretudo na California, formadas por imigrantes da América Central. Mara é uma redução da palavra Marabundo, um tipo de formiga que ataca em grande quantidade, cuja picada causa extrema dor. Por conta das Guerras Civis houve uma migração em massa para os EUA, foi uma violência atroz e até bombas de napalm (proibidas desde a guerra do Vietnã, por crime de guerra, mas fornecidas pelos EUA) foram jogadas em florestas de El Salvador, tornando terra seca regiões inteiras até os dias atuais. Na Guatemala a CIA realizou um dos mais tétricos experimentos para a formação de soldados como máquinas de matar, os Kaibiles, genocidas com uniforme militar[3]. Aldeias inteiras foram massacradas, mães assassinadas na frente dos filhos, crianças atiradas ao alto para serem mortas a baioneta ou tiro de fuzil, casas incendiadas com famílias dentro. A bestificação da violência em estágio inimaginável, tudo documentado posteriormente pelas Comissões de Verdade e Justiça, como com o massacre de El Mozote, em que mil (sim, mil) camponeses foram assassinados pelo Exército:

“Chegou uma grande quantidade de soldados. Entraram mais ou menos às seis da tarde e nos encerraram. Na madrugada seguinte, às cinco da manhã, colocaram na praça uma fila de mulheres e outra de homens. As crianças choravam de fome e frio. Eu estava na fila com meus quatro filhos. Às sete da manhã aterrizou um helicóptero do qual desceram vários soldados. Nos separaram dos homens e ao meio dia haviam matado todos. E foram buscar as mulheres, que choravam e gritavam. As crianças que choravam mais forte eram tiradas das mães. Às cinco da tarde, me colocaram em um grupo com 22 mulheres, eu era a última da fila. Os soldados terminaram de mater esse grupo de mulheres sem se dar conta que eu havia me escondido. As sete da noite ouvi soldados dizendo: “Já terminamos com os velhos e as velhas, agora só há uma grande quantidade de crianças. A ordem que temos é que não devemos deixar ninguém, porque são colaboradores da guerrilha, mas eu não quero mater crianças”. No que veio a ordem: “Sim, já terminaram de mater a gente velha, agora passem fogo nos demais.” (depoimento de Rufina Amaya à Comissão de Verdade e Justiça de El Salvador – 1992)   

 

Mal saídos da Guerra Civil, e sob profunda crise econômica (um terço do PIB de El Salvador, por exemplo, depende da remessa de dólares da parte de imigrantes), em que nem terra arável havia, além dos rios que secaram ou estavam contaminados, impedindo a irrigação, o povo salvadorenho (também da Guatemala e Honduras) se deparou com a violência extrema das “Maras”. O governo estadunidense havia decidido deportar integrantes das Maras aos países de origem, de forma completamente ilegal porque os crimes de seus integrantes foram cometidos nos EUA, além de a maioria deles haver nascido naquele país, sendo cidadãos estadunidenses. Simplesmente colocam as pessoas, principalmente jovens, em aviões e os despejavam em algum dos três países do Triângulo Norte da América Central. Jovens que mal falavam espanhol ou se expressavam com sotaque hispânico das ruas de Los Angeles e outras. Esse despejo de dezenas de milhares de pessoas, presas por crimes variados ou pelo simples fato de serem imigrantes não documentados[4], foi fatal para o esgarçamento da vida social nesses países. Por não conseguirem se integrar nos países para onde eram deportados os jovens fortaleceram ainda mais os vínculos nas gangues, vivendo de extorsão, narcotráfico e violência de rua. Essa é a origem da explosão de violência urbana nesses países. No entanto, os governos, por enfraquecidos, foram incapazes e até lenientes, em enfrentar o fenômeno das Maras, o que trouxe mais instabilidade, retrocessos, agravados por novas deportações em massa da parte dos EUA.

Eu conheci muitas histórias e jovens oriundos dessa situação, contarei sobre uma delas, Mariela Aguirres, jovem que na adolescência integrou a Mara Salvatrucha (vagabundo, em gíria da rua). Hoje ela é uma grande liderança cultural junto à Caja Lúdica, na Guatemala, realizando trabalho de excepcional beleza e comprometimento com a comunidade[5]. Porém, só a cultura stricto sensu não bastou para conter essas gangues. Também conheci outro jovem, de origem diferente, filho de rico comerciante de origem palestina que havia colaborado com a guerrilha da FMLN[6] em EL Salvador, Nayib Bukele, atualmente presidente de El Salvador. Ele me entrevistou para um programa de TV e internet e à época foi apresentado como promessa jovem da FMLN, o partido oriundo da guerrilha de esquerda.

Escolho esses dois jovens com idade semelhante, a despeito de origem e processos formativos distintos, para exemplificar meu ponto de vista. Mariela vinda da cidade-dormitório El Quetzal, a 35 quilômetros da Cidade da Guatemala, se aproximou da Caja Ludica a partir do chamado de um casal colombiano de Medelín, Júlia Holguin e Doryan Bedoya[7] que foram viver no país e realizaram experiências de trabalhos culturais em comunidade conforme aprenderam na Colômbia, enriquecidas com a cultura Maia. Em ação profunda e amorosa, de anos, Mariela foi transformada pelas artes, a lúdica e a cultura. Na última vez que nos encontramos ela era a presidente do Caja Lúdica, sendo responsável pela capacitação de seis mil professores e agentes comunitários de animação cultural na Guatemala, entre outras ações.

Bukele, jovem esperto e descolado, cheio de trejeitos de influenciadores em redes digitais; quando o conheci era o mais representativo da geração youtuber/tuiteiros no país. Bastante engomadinho[8], com muitas frases de efeito, muitas fotos e poses instagramáveis. Comportamento muito semelhante da geração de influencers, seja em qualquer país. Muitos seguidores, curtidas, interações. Diziam que ele furaria a “bolha” dialogando com o público jovem. Furou. E transformou a FMLN em cinza vulcânica (Tenho esperança de que a semente desse povo martirizado sob a guerra civil dos anos 1980, mesmo em dormência, ainda germinará de novo, assim espero). Quando conheci o jovem Bukele, em 2013, me pareceu temerário transferir tanto poder e destaque a uma pessoa por conta de representatividade/popularidade tão fugaz. Infelizmente minha previsão estava certa e o resultado foi muito pior do que eu imaginei. Não houve ação formativa, não houve passo a passo, experimentação. De imediato foi tornado prefeito em uma cidade pequena, na qual nem tinha vínculos, para em seguida ser lançado a prefeito da capital do país e vencer a eleição. Tudo muito acelerado, artificial e superficial, bem ao gosto das redes sociais. Conversando com amigos de El Salvador, comentei meu desconforto com o vazio e superficialidade, disse que o projeto não daria certo. Perguntei a razão de não lançarem uma ex-guerrilheira e deputada (Lorena Peña), quadro da melhor qualidade, compromisso e capacidade, para prefeita da Capital. Vários concordaram comigo, mas, resignados, disseram que era a orientação da direção do Partido. Atualmente Bukele é ícone da direita populista mundial, “o ditador mais cool do planeta”, nas palavras dele. Enfim.

Em El Salvador houve muita impotência com a violência urbana e o povo estava cansado demais. Ensinamento que extraio de minhas viagens pelo país: governos jamais podem ser condescendentes com a violência cotidiana, sob nenhuma hipótese. O povo pobre é o que mais sofre. Uma situação cotidiana muito comum pelas periferias da América Latina, seja na América Central, no Brasil ou em outro país. Imaginem uma mãe que tem que negociar com narcotraficantes, muitos com a idade dos filhos adolescentes dela, para que uma biqueira (ponto de venda de drogas) não seja instalada na frente de sua casa. Ou uma avó aflita porque os netos atravessam a madrugada em pancadões em meio a músicas misóginas, incitação à violência, bebidas alcóolicas e drogas correndo soltas; e soldados do tráfico exibindo suas armas. Tudo por um triz. Imaginem. Pais atormentados por não conseguirem dormir, sabendo que em poucas horas, ainda na madrugada, terão que enfrentar transporte público ruim, maus-tratos e desrespeitos em empregos de baixa remuneração. Quase toda madrugada; certamente em todos os finais de semana. Netos e filhos expostos a incertezas e insegurança, mesmo quando em festa. O medo da noite, o medo das ruas, de um olhar atravessado, da polícia, de balas perdidas, brigas banais. Imaginem. Anos a fio.

É possível compreender as razões de ambientes como os relatados acima. Mas não se pode ser permissivo. Uma coisa é o debate acadêmico-político, outra é a realidade tal qual acontece e é experimentada no cotidiano da população. Um projeto civilizatório para que seja de fato transformador e emancipador, precisa dar conta e resolver os problemas da realidade tal qual vivida pela população. Só assim viveremos em sociedades pacíficas e seguras. Do contrário sucumbiremos na barbárie da extrema direita, que prega o combate ao crime matraqueando crime, a ordem exercitando a desordem, a paz realizando a guerra. Porém, na ausência de um enfrentamento efetivo da parte das forças civilizatórias comprometidas com igualdade, justiça e equidade, prevalece a tagarelice atabulada da extrema direita.

Na El Salvador do presidente influencer e de extrema direita, tudo está encoberto por névoa, sendo imposto o terror com base em mentiras e manipulações. A começar pela alegada e vertiginosa redução da taxa de homicídio. Até 2015 a taxa era de 100 mortes violentas para cada 100 mil habitantes, durante alguns anos foi a maior do mundo, competindo apenas com os países vizinhos; no entanto não é fato que foi com Bukele que o índice começou a cair. Quando ele assumiu a presidência da república em 2019, o índice já estava em redução acelerada, havendo caído em dois terços (de 100 homicídios por 100 mil para 35), índice ainda elevado, mas com redução significativa. Para 2022, anunciou-se uma taxa de homicídios de 2,6 por 100 mil habitantes, aparentemente algo extraordinário.

Mas, esse índice é real ou uma manipulação de dados?

Bem ao ritmo das redes sociais, uma Fake News. Afirmo que é uma farsa, pois obliterado por manipulação de índice por parte do Estado, via desaparecimentos e retirada do índice os mortos por ação policial, com ausência de habeas corpus e incomunicabilidade dos presos por mais de um ano, sem que as famílias saibam do paradeiro, sequer se estão vivos. Essa redução manipulada também é resultado de encarceramento em massa de 1,2% da população (aproximadamente 70.000 pessoas, em sua maioria jovens), a maior taxa de encarceramento relativo à população no mundo. No Brasil seria como se houvesse 2,5 milhões de presidiários (atualmente são 965 mil, terceira maior população carcerária do mundo, atrás apenas dos EUA e China); significaria quintuplicar (exatamente, construir cinco vezes o total de presídios instalados no Brasil) a capacidade carcerária brasileira, que é um pouco inferior a 500 mil vagas, estando superlotada em quase 100%.  

Em El Salvador jovens são presos pelo simples fato de haverem tatuado parte do corpo e ficam incomunicáveis, sem contato com a família e advogados por, no mínimo um ano, conforme previsto no decreto de Estado de Exceção para o combate à violência urbana. Milhares seguem desaparecidos, provavelmente mortos, o que alteraria por completo a taxa, elevando-a aos níveis anteriores. Repito porque não é possível que mentiras sejam estabelecidas como postulado. A anunciada megaprisão (CECOT – Centro de Confinamento do Terrorismo) para 40 mil presidiários é também algo farsesco. As imagens da prisão são todas do governo e até hoje nenhuma instituição independente ou órgão de imprensa pôde visita-la. Sabe-se que a anunciada capacidade para 40 mil presos, em realidade, abriga apenas 4 mil detentos, sobretudo aqueles de hierarquias superiores das Maras; o que faz supor que mais parece com a famosa La Catedral, a prisão-hotel em que Pablo Escobar esteve detido no início dos anos 1990 e de onde ele comandava o crime. Concomitante ao anúncio da diminuição da violência urbana, também houve o decreto presidencial tornando bitcoin e criptomoedas como moeda oficial (ao lado do dólar, que já é moeda oficial há décadas). Na prática o povo não utiliza criptomoedas em seu dia a dia, daí a pergunta: se não há uso prático pela sociedade, qual seria a razão que não lavagem de dinheiro? Transformando El Salvador em um paraíso para o crime, e não o contrário. Como efeito dessa barganha, os próprios chefões do crime encarregaram-se em estabelecer a “ordem”. Do que conheço sobre El Salvador é o que parece estar acontecendo. 

O Equador segue no mesmo caminho. Antes que imponham crime em nome do combate ao crime é preciso mudar o enfoque e a atenção quanto à justa demanda por segurança e não violência nas comunidades, sendo necessário identificar algumas coincidências entre El Salvador e Equador, antes um dos países com menores índices de violência na América do Sul. A começar por dois presidentes jovens, filhos de milionários locais[9]. A chamada guerra às gangues e o Estado de Exceção, idem. Da mesma forma as farsas, simulacros e manipulações, como o assassinato por encomenda do candidato presidencial Fernando Villavicencio, que alterou o rumo das eleições equatorianas, favorecendo a vitória do candidato Daniel Noboa e a invasão de um estúdio do canal de televisão TC, na cidade de Guayaquil. Tudo muito farsesco. Com isso, em nome do combate à violência, vai sendo imposto um Estado de Terror que, igualmente, consolida o Equador como entreposto do narcotráfico na América do Sul, assim como El Salvador está sendo transformado em ponto de lavagem de dinheiro do crime via criptomoedas.

Haveria caminho mais sustentável para redução de índices de violência?

Cuba e Chile são os países com menor incidência de violência na América Latina, mantendo um patamar regular há muitos anos, de 4,2 e 3,1 homicídios por 100 mil, respectivamente. Vale a pena conhecer e compreender as razões de tais resultados regulares nesses dois países. Viver sob sociedade violentas ou pacíficas depende de uma conjunção de fatores. Não há solução fácil. Assim como não há solução sustentável se a Cultura, sobretudo o comportamento social, não for modificado. Assenhorando-se da Cultura as pessoas podem discernir melhor sobre os caminhos que pretendem para suas sociedades.

Antes de finalizar essa parte, recorro a um pensador espanhol, que viveu em El Salvador e lá foi assassinado como mártir, em 1989, durante a guerra civil, o psicólogo social e padre jesuíta, Ignácio Martin-Baró:

“Enquanto os povos não contarem com poder social, suas necessidades serão ignoradas e sua voz, silenciada. Por isso, como psicólogos sociais, devemos contribuir para fortalecer todas as mediações grupais [...] que tenham por finalidade representar e promover interesses das classes majoritárias [...] pois de nada serviria uma conscientização sobre a própria identidade e sobre os próprios recursos, se não encontrarmos formas organizativas que levem ao âmbito da confrontação social dos interesses das maiorias populares.”

 

Há muita complementariedade entre a filosofia da Cultura Viva e a Psicologia da Libertação, formulada por Martin-Baró. Ambas trabalham a partir da recuperação da memória histórica a partir das experiências e das raízes da identidade, desideologizando a experiência cotidiana manipulada para, em contraponto, potenciar as virtudes do povo. Populações em desespero são presa fácil para soluções simplistas, violências, demagogias e falsificações. Quando governos, que deveriam ser de esperança, se rendem ao fazer de sempre, governam sem eficácia e eficiência. Negligenciando os reclamos e necessidades mais sentidas do povo, abre-se caminho para regressões civilizatórias. O povo não pode viver em uma eterna espera, sob a promessa de um bom futuro que nunca chega. Quando é assim algum aventureiro espertalhão chega e transforma tudo em horror.

Por que isso acontece? Porque aqueles que recebem a vontade delegada do povo não se colocam à altura dos desafios para os quais receberam a confiança. É o ensinamento que pude extrair dessa terra de preciosidades, El Salvador[10], que tem “el cielo como sombrero”[11].

 

Parte 2

Medellín

 

Cumpleaños PB Lusitania - 

Pausa para o almoço. Silvana pergunta como está indo a revisão do livro. Respondo que decidi alterar a ordem desse capítulo, começando por El Salvador, por conta do súbito interesse em relação às políticas de segurança pública adotadas no país, e da necessidade de desfazer mitos e manipulações. Ela complementa: “há dez anos o interesse era por Medellín, as Bibliotecas-Parque e o investimento em educação e cultura para o enfrentamento à violência, triste que agora tantos procurem soluções violentas e autoritárias, com encarceramento, tortura, desmandos e mortes”. Sinal dos tempos. Continuamos o almoço e volto para a revisão da segunda parte.

Entre os muitos povos da América Latina, aquele que me parece mais parecido com o brasileiro é o colombiano, nas virtudes, vicissitudes e vícios; no que temos de melhor e de pior. Por isso recorro a Medellín[12]. Em 2013 Medellín recebeu o título de cidade mais inovadora do mundo, ganhando prêmio do Urban Land Institute e The Wall Street Journal que teve por finalistas as cidades de Nova York e Tel Aviv; o diferencial foi a capacidade no estabelecimento de parcerias entre Poder Público, Organizações da Sociedade Civil e Empresas, gerando um ambiente de empreendedorismo social e criatividade. Novo prêmio em 2016, Lee Kuan Yew World City, o equivalente ao Nobel do Urbanismo, desbancando as cidades de Auckland, Sidney, Viena e Toronto. Qual a razão?

Medellín tem sido um grande laboratório no combate à violência através do fortalecimento da Cultura Cidadã. O principal e mais bem sucedido caso entre as grandes cidades do mundo, demonstrando que sem consciência e mobilização comunitária não há inovação perene. Isso com personagens e protagonistas muito semelhantes aos que encontramos pelas esquinas desse nosso continente. Nada diferente do Rio de Janeiro, Caracas, São Paulo ou Guadalajara. A primeira vez que estive na cidade, em 2011, fui recebido ainda como autoridade, pois havia deixado o governo federal há pouco e eles queriam conhecer a filosofia e experiência da Cultura Viva e dos Pontos de Cultura no Brasil, cuja referência já havia chegado por lá. É de Medellín a primeira lei municipal da Cultura Viva, entes de qualquer cidade brasileira. Jorge Melguizo, hoje querido amigo, à época secretário de desenvolvimento social, e anteriormente de cultura, levou-me a conhecer a cidade. Primeiro equipamento a conhecer: banheiros públicos de Medellín.

Alguém levaria uma autoridade estrangeira para visitar os banheiros públicos em sua cidade? Perguntem-se. Da resposta saberemos se a cidade trata com respeito aos seus cidadãos, ou não.

O que havia de especial nos banheiros públicos de Medellín a ponto de virarem atração para uma autoridade estrangeira?

Eram limpos, higienizados, bem arrumados, com água e papel higiênico, mosaicos dentro e fora, flores, uma água caindo em pequena cascata para refrescar o ambiente. Nada luxuoso, nada demais. Ou melhor, tudo a mais. Tratar a população com respeito e dignidade é o mínimo que se espera de um bom governo. Não em um dia de festividade, não como vitrine, mas como ação cotidiana. Posso assegurar, por iniciativa própria, em diversas outras viagens, inspecionei banheiros públicos de Medellín, sempre com manutenção impecável[13]. Ação tão cotidiana a ponto de tornar-se imperceptível. Tratar bem a população, com respeito e dignidade, é a base para a eficácia de toda política de segurança pública (de outras políticas públicas também, porque está tudo interrelacionado).

O governo municipal não resolveu a questão da violência urbana somente com banheiros públicos limpos e bonitos. Também houve as Bibliotecas-Parque nas favelas e comunas; Centros Culturais Comunitários, um deles onde antes havia um lixão, em Morávia; transporte público integrado, metrô, ônibus, teleférico e escada rolante para acesso às comunas nos morros[14]; urbanização criativa das favelas, incluindo embelezamento e obras de arte no acesso, passeio público, boas calçadas nas favelas e ruas; limpeza urbana; escolas públicas de qualidade, cada uma oferecida a um arquiteto da cidade para que desenhasse com funcionalidade e beleza como presente aos moradores; Bons Centros Sociais e de Saúde nas favelas e bairros (nada demais, apenas algo que funciona, com paredes limpas e atendimento ágil, como deveriam ser todos os atendimentos públicos); Feira Internacional do Livro, de Poesia; Plano Urbanístico Integrado[15]...

Também não se enfrentou a violência na antes mais violenta cidade do mundo somente com Cultura e bom urbanismo. Desde o início eles tinham muito claro que não se faz política de segurança sem polícia, mas também aprenderam que não se faz política de segurança tão somente com polícia e repressão. Há que ter prevenção.  Nas duas últimas décadas do século XX Medellín ficou mundialmente conhecida por sediar o mais poderoso e violento cartel narcotráfico, liderado por Pablo Escobar. Em 1991 houve 6.700 homicídios no ano, isso em uma cidade com 2 milhões de habitantes. Eram dezenas de assassinatos por dia, com chacinas e corpos espalhados pelas esquinas, 382[16] homicídios para cada 100 mil habitantes. Afora cidades em situação de guerra, em nenhuma outra cidade houve tamanho morticínio no período de um ano. Haviam chegado ao fundo do poço. E tudo estava imbricado pela cultura do narcotráfico, havia até fundo de investimentos, aberto a pessoas de classe média e trabalhadores, que não se envolviam diretamente na atividade, mas que, ao aplicar o dinheiro de suas economias recebiam rentáveis dividendos. Seria como se no Brasil atual, pessoas comuns utilizassem Fundos de Investimento da “Faria Lima” para alavancagem de seus investimentos, pouco se importando com a origem do “Carbono Oculto”. Era um vulcão em erupção contínua. E as pessoas naturalizavam aquela situação.

O problema estava lançado. O povo estaria disposto a seguir sentado sobre aquele vulcão? Decidiram que não mais. O começo de tudo para a superação do estado de violência foi a decisão. Uma questão de Cultura, não de polícia. Já imaginaram se no Brasil as pessoas começassem a questionar a origem dos altos retornos em Fundos de Investimento de origem duvidosa? Seria um bom começo para a redução da violência. Mas por enquanto é mais fácil essas mesmas pessoas aplaudirem chacinas em favelas que a redução de décimos de lucro em suas aplicações financeiras, mesmo sabendo que são elas que alimentam o ciclo da violência; sendo honesto, nem se interessam em saber sobre essas origens criminosas de seus lucros, desde que cheguem aos bolsos, mas seguirão “bradando” contra a insegurança pública que ajudam a sustentar. Pela situação insustentável o governo da Colômbia criou uma Secretaria Especial só para tratar da violência urbana em Medellín.

Novo ensinamento: em situações extremas é necessária uma ação integrada dos poderes da república. União, estados e municípios precisam atuar em conjunto, ninguém pode “lavar as mãos”; nem os que aplicam dinheiro nos fundos de investimento com origem no crime. Assim como o Judiciário, Forças Armadas, polícias, sociedade, empresas, organizações comunitárias, precisam assumir decisão. Não cabe transferir responsabilidade. Segurança e paz precisam ser encaradas enquanto valor universal. Ou a sociedade como um todo se sente em paz e segura, dos mais pobres aos mais ricos, por igual, ou a vida social é corroída em suas entranhas. Segurança é convívio, igualdade, beleza e respeito para todo mundo.

Os Ensinamentos do Laboratório Medellín. A vida é valor máximo, nada justifica o desprezo à vida de quem quer que seja, não há uma só ideia, nem propósito que valha mais que a vida de outrem. O melhor para os mais pobres, com equipamentos públicos de qualidade (vide os banheiros públicos) e tratamento com respeito e dignidade em todas as ações, inclusive as ações e inserções de polícia. Conhecer a geografia física, humana e social antes de toda intervenção urbana. Ética e Estética para acabar com o ciclo de exclusão social, em que arquitetura e urbanismo são também pedagogias de convivência e toda engenharia é social. Orçamento público é sagrado; ensinamento muito importante. Planejamento sem improviso e realizar o que tem que ser feito, sem se preocupar com a popularidade momentânea, a transformação é para a cidadania, não para o consumismo. Governos tem que construir pontes, não “viadutos”, e o poder local, as prefeituras, tem que ser os protagonistas da mudança (acrescento: acima das prefeituras, o Poder Popular é o protagonista das mudanças). Educação e cultura como ferramentas para a transformação. Segurança como direito universal; segurança pública de verdade não é de direita, centro ou esquerda, e nos territórios vulneráveis toda população é prioritária, as crianças em primeiro lugar. Desigualdade gera violência, pobreza não.  O cidadão trata o Estado como ele é tratado pelo Estado. Por fim, duas palavras chave para uma boa gestão pública: CONFIANÇA e ESPERANÇA.[17] 

A Unidade de Medellín tem como marco a eleição de um partido-movimento municipal, o Compromisso Cidadão[18], em 2004, resultado de uma grande mobilização das energias sociais da cidade, de movimentos comunitários a empresariais, de artistas a gestores públicos, de muita gente. Descrevo esse processo com detalhes em capítulo de outro livro (“Por todos os caminhos”) e não vou me alongar. O fato é que em 20 anos, do auge da violência até 2014/15, a taxa de homicídios foi reduzida em 95%, estabilizando-se em 19 assassinatos por 100 mil, havendo sido reduzida para 15 por 100 mil em 2021. É a mais sustentável redução de índice de violência no mundo e a Cultura e o Urbanismo social tiveram papel preponderante nesse processo, como em uma acupuntura social.

 

Dois modelos, duas experiências e resultados. Qual escolheremos? Ou então, no lugar de mirarmos Nova York, Barcelona ou Ásia, que tal olharmos para nossos vizinhos e aprendermos com eles? Garanto que vai valer a pena.

 



[1] Por incentivo do Papa Francisco, fui instado a escrever o livro CULTURA A UNIR OS POVOS, lançado em Castelgandolfo (vila Pontifícia na Itália) em 2018, em formato de livro de arte e em quatro idiomas, sob apoio do Instituto Olga Kos, revisto, ampliado e editado no Brasil e Argentina sob o título POR TODOS OS CAMINHOS – Pontos de Cultura na América Latina (editora do SESC-SP, 2020), em que relato e analiso experiências em 11 países.

[2] Retratados em capítulos do livro POR TODOS OS CAMINHOS.

[3] O filme Rambo se inspira na formação dos kaibiles, que significa “levar um leopardo dentro” e que tem por lema: “se eu avançar, siga-me, se eu parar, empurre-me, se eu recuar, mate-me!”. O método de formação militar na selva dura oito semanas e inclui a convivência com um cão, que será o único amigo do soldado durante o treinamento. Com o cão ele aprende a caçar e sobreviver na selva. Ao final do treinamento o soldado recebe a missão de matar o cão, esfola-lo e come-lo. Após essa etapa o Kaibile estará formado para mutilar, esfolar e matar seres humanos, crianças, mulheres e velhos, inclusive.

[4] No livro “Por todos os Caminhos” eu relato a história de três irmãs deportadas do Texas, presas em uma Casa do Imigrante em Guatemala, a despeito de filhas de imigrantes de El Salvador. A idade delas: 9, 8 e 6 anos. O crime: faziam travessuras em uma cidade no sul do Texas. Aprisionadas, tinham como única relação de humanidade e afeto o trabalho de um Ponto de Cultura, Frida Khalo, quando um casal de artistas as ensinava a desenhar flores e nuvens. A despeito das crianças não poderem visualizar as nuvens por conta das grades, imaginavam. Esse ato vil do governo do Reino Unido, de deportar imigrantes, independente do país de origem, para Ruanda, na África já vem sendo praticado pelo governo dos Estados Unidos há muitos anos, e não começou com Trump, mas com Obama e nem passou por aprovação de projeto de lei, eles simplesmente deportam e jogam as pessoas. A Guatemala, assim como Ruanda, se prestou a receber esses deportados em troca de ajuda financeira. Escrevi um ensaio em forma de conto sobre essa história e vou incorporá-lo na terceira parte desse capítulo.

[5] A história dela e outros está no livro Por todos os caminhos.

[6] FMLN – Farabundo Marti de Libertação Nacional, organizada enquanto frente guerrilheira e luta popular sob a Guerra Civil que assolou El Salvador de 1980 ao início da década de 1990, depois transformada em Partido Político.

[7] Uma história a parte que merece ser conhecida e não cabe em uma nota, a quem quiser, está em 2 capítulos do livro Por todos os caminhos

[8] Confesso que achei estranho um jovem com gomalina no cabelo em um partido fundado por guerrilheiros abnegados, contestadores e valentes.

[9] Com uma diferença significativa, o pai de Nayib Bukele, Armando Bukele Kattán, filho de imigrantes palestinos, além de doutor em química industrial e proeminente empresário nos setores têxtil, farmacêutico, mídia (onde atuou o filho) e comércio, foi um homem de esquerda, apoiador da OLP (organização para Libertação da Palestina, de Yasser Arafat), para onde enviava recursos regularmente, foi simpatizante da guerrilha em El Salvador, contribuindo com a Farabundo Marti de Libertação Nacional, e amigo de Schafik Handal, também descendente de imigrantes palestinos e líder do Partido Comunista. Convertido ao Islamismo, foi Imã e principal líder muçulmano no país. Falecido em 2015, deveria estar triste por o filho ser hoje um ícone da extrema-direita, incluindo apoio do sionismo.

[10] Em idioma nãhatl, a região, hoje conhecida por El Salvador, levava o nome de Cuzcatlén, “terra de preciosidades.

[11] “O céu como chapéus” - verso da canção El sombrero azul, de Ali Primera, em homenagem ao povo salvadorenho quando da guerra civil, por sua valentia e dignidade.

[12] No Livro “Por todos os caminhos – Pontos de Cultura na América Latina” eu escrevi a biografia comunitária da cidade de Medellín e de como enfrentaram a violência urbana, que nos anos 1990 transformou a cidade na mais violenta do mundo, o título do capítulo é “Medellin, - fragmentos biográficos e uma cidade” - Ed SESC-SP, 2020

[13] No Brasil, a única autoridade governamental que conheci e que se preocupava com a qualidade dos banheiros públicos foi o prefeito de Campinas, Jacó Bittar -1989/92- com quem tive a honra de trabalhar.

[14] Leonel Brizola propôs algo semelhante para as favelas do Rio de Janeiro, nos anos 1980, mas os detratores, as elites dominantes e aqueles que as seguem, a mídia, defenestraram a proposta, ridicularizando-a até.

[15] Se possível pesquisem, procurem ver a qualidade dos equipamentos públicos da cidade, eu poderia colocar algumas fotos aqui, mas considero mais estimulante que cada um procure por si.

[16] A média de homicídios no Brasil em 2023 foi de 19,4 por cem mil.

[17] Síntese extraída de conferências de Jorge Melguizo.

[18] Na Colômbia há possibilidade de partidos municipais e candidaturas avulsas, uma boa ideia que poderia ser aplicada em outros países, certamente ajudaria muito as cidades brasileiras.