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Josineide Dantas fez da palavra, da poesia e da militância caminhos de afirmação da identidade negra, de defesa das mulheres e de luta por uma sociedade mais justa e democrática. Sua partida deixa uma lacuna nos movimentos sociais e culturais de Sergipe.
A cultura sergipana perdeu, nesta terça-feira, 3 de novembro de 2026, uma de suas vozes identificadas com a poesia, a cultura popular e as lutas sociais. Faleceu Josineide Dantas, conhecida como Gigi Poetisa, mulher negra, poeta, cordelista, educadora popular, agente comunitária de saúde e militante dos movimentos negro, feminista e popular.
Nascida em 29 de março de 1966, em Propriá, Sergipe, Gigi construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com as populações historicamente marginalizadas e pela compreensão de que a cultura não se limita à produção artística ou ao entretenimento. A poesia, em sua caminhada, era também uma maneira de contar histórias, afirmar identidades, denunciar injustiças e contribuir para a transformação da realidade.
Sua história se confunde com a de uma geração de mulheres que, especialmente a partir dos anos 1980, ampliou a presença feminina e negra nos movimentos sociais, nas organizações populares e nos espaços de participação política em Sergipe.
A poesia como afirmação da identidade negra
Gigi Poetisa não adotou a poesia como simples exercício literário. Sua produção dialogava com a memória, a ancestralidade, a história da população negra e a luta por liberdade e igualdade. Um exemplo significativo é o cordel Zumbi, um sonho da igualdade, publicado em 2009, obra composta por 595 versos, organizados em 85 estrofes de sete versos.
O poema recupera a história da escravidão no Brasil, a formação dos quilombos e a trajetória de Zumbi dos Palmares, apresentado como personagem histórico e símbolo permanente da resistência negra. A narrativa também incorpora referências à religiosidade afro-brasileira, evocando entidades como Olorum, Oxalá e Oxum.
A obra revela uma dimensão importante de sua produção: a utilização de uma linguagem tradicional da cultura popular nordestina para abordar questões históricas e políticas contemporâneas. Ao recorrer ao cordel, Gigi aproximava a literatura da oralidade, da memória coletiva e das experiências populares, reafirmando a potência de uma expressão cultural profundamente enraizada no Nordeste.
Em 2006, sua participação na programação do Novembro Negro, realizada pela Fundação Municipal de Cultura de Aracaju, já registrava publicamente sua atuação como poetisa e representante do movimento de mulheres negras.
Uma militante das causas populares
A atuação de Gigi ultrapassava o campo artístico. Sua trajetória esteve ligada ao Movimento Negro Unificado em Sergipe, à Rede de Mulheres Negras de Sergipe, à Rede de Mulheres Negras no Espaço de Poder do Nordeste e ao Fórum de Organizações Negras de Sergipe.
Também participou de mobilizações relacionadas aos direitos das mulheres, à juventude, às populações periféricas, aos povos indígenas e à população LGBTQIA+.
Em entrevista publicada pelo Marco Zero Conteúdo, em 2020, Gigi se apresentou como mulher afro-indígena, bissexual e mãe solo, destacando sua identificação com diferentes segmentos historicamente excluídos. Naquela ocasião, afirmou que sua inserção na política estava relacionada à defesa da democracia e à necessidade de o Estado contribuir para retirar as populações das situações de exclusão.
Sua experiência profissional como agente comunitária de saúde também fazia parte desse compromisso. O trabalho cotidiano junto às comunidades populares permitia conhecer de perto as dificuldades enfrentadas pela população, especialmente pelas mulheres negras, trabalhadoras e moradoras das periferias.
Em 2020, ao falar sobre sua candidatura a vereadora de Aracaju, ressaltou que sua proposta política era construída coletivamente, por meio do diálogo e do trabalho de base. A defesa de uma cidade mais inclusiva, com atenção às desigualdades de raça, gênero e condição social, atravessava sua compreensão de participação política.
A presença nos espaços de participação e transformação social
Gigi também levou sua experiência para os debates públicos sobre racismo, feminismo e direitos humanos.
Em dezembro de 2022, participou de uma mobilização promovida pelo Ministério Público de Sergipe, intitulada "Eu, tu, eles e nós pelo fim da violência contra a mulher negra e trans", representando o Movimento Negro Unificado.
Em 2022, também esteve entre as participantes de uma atividade realizada em São Cristóvão sobre Lélia Gonzalez e o feminismo negro, contribuindo para aproximar a memória e o pensamento de uma das principais referências do feminismo negro brasileiro das novas gerações.
Na Câmara Municipal de Aracaju, sua voz foi registrada em uma sessão especial dedicada ao fortalecimento das mulheres negras. Na ocasião, recuperou as trajetórias de Beatriz e Rejane Maria Pureza do Rosário, duas mulheres cuja memória permanece vinculada às lutas negras em Sergipe. Sua fala demonstrava que a militância também se faz preservando a memória de quem abriu caminhos antes de nós.
Essa dimensão merece atenção: Gigi não apenas participou de movimentos sociais, mas também ajudou a manter vivas as histórias de mulheres que construíram essas organizações e enfrentaram as desigualdades em diferentes momentos da vida sergipana.
Cultura, política e compromisso com a vida
A trajetória de Gigi Poetisa permite refletir sobre uma compreensão de cultura que ultrapassa os limites das instituições culturais e dos circuitos tradicionais de produção artística. Sua atuação aproxima poesia, educação popular, organização comunitária e participação política.
É nesse encontro que sua história ganha significado para quem compreende a ação cultural como processo de criação de condições para que pessoas e comunidades possam reconhecer suas próprias experiências, expressar suas identidades e participar da construção de seus destinos.
A poesia de Gigi, sua presença nos movimentos sociais e sua atuação junto às comunidades revelam uma mulher que não separava a palavra da vida, nem a criação artística do compromisso com a transformação social.
Sua partida deixa saudades entre familiares, amigos, companheiros de militância, artistas e integrantes dos movimentos populares. Mas deixa também um legado que precisa continuar circulando, especialmente entre as novas gerações: a memória de uma mulher que fez da palavra uma forma de resistência e da participação coletiva uma maneira de transformar o mundo.
Gigi Poetisa, presente!
Sua poesia permanece na memória e nas lutas daqueles que acreditam que a cultura é também um direito, uma forma de liberdade e um instrumento de construção de uma sociedade mais justa.
Mais um que se vai... Gigi Poetisa
Por Pascoal Maynard*
Mais um que se vai... Depois das partidas dos queridos Tonho Baixinho e Ana Badyalli, agora recebemos a triste notícia do falecimento de Gigi Poetisa. São perdas que se sucedem e nos deixam com aquele sentimento difícil de traduzir: a saudade de quem fez parte da nossa caminhada e contribuiu, cada um à sua maneira, para a vida cultural de Sergipe.
Guardo com carinho o nosso encontro no programa Expressão, da Aperipê TV, quando tive a oportunidade de entrevistá-la sobre a literatura de cordel. Foi uma conversa muito especial, na qual compartilhamos reflexões sobre a riqueza da poesia popular nordestina, sua tradição e sua importância para a nossa identidade cultural.
É doloroso perceber quantas pessoas queridas estão partindo em tão pouco tempo. Ficam os encontros, as histórias, os registros e a gratidão por termos dividido momentos com elas.
Hoje, minha homenagem é a Gigi Poetisa, com respeito e carinho. Que sua contribuição à poesia popular continue eco
E colaboração dos professores Simão Neto (Recife - BR) e Álvaro Pantoja (Porto - PT)
PROF. JOSÉ GERALDO destaca EFEITO MUNDIAL da ELEIÇÃO DE LULA
Campanha-multidão
31/10/2026
Por IVANA BENTES*
Diante do intolerável, a campanha virou multidão: ruas e algoritmos como um só sistema nervoso, do Exército do Lula à indignação esclarecida, mas sem soberania sobre as plataformas, resta reabrir Junho de 2013 para disputar o futuro em vez de apenas surfar a onda
O termo “psicose coletiva” foi repetido em posts e memes para descrever a ansiedade aguda, a hipervigilância e o esgotamento emocional após o primeiro turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Quando Lula ficou atrás e constatamos que um projeto de Brasil poderia, como em 2018, guinar catastroficamente para a extrema direita, algo aconteceu.
Em um país polarizado, no qual a direita passa a controlar, a partir de 2027, 64% do Senado e 59% da Câmara, as eleições entraram em estado de urgência e contágio afetivo. O campo progressista e as esquerdas produziram aquilo que Deleuze chama de um “acontecimento”: quando o intolerável deixa de ser suportável e precisamos romper a “normalidade” para redistribuir os desejos e agir.
Podemos nomear essa experiência de Outubro das multidões, Jornadas de outubro de 2026, Virada, Levante da juventude ou manifestações de outubro.
Tomar as ruas, os algoritmos e os memes de produção
A sociedade tomou a campanha para si, passou a fabricar imagens, inventar palavras de ordem, trazer o humor, os memes e a zoeira, improvisar linguagens e fazer das ruas uma imensa superfície de comunicação e experimento político.
Quando Lula apareceu em 7 de outubro segurando o próprio celular e dizendo “bora, gente, pra rua”, a campanha institucional incorporou uma gramática que já circulava fora dela: o vídeo selfie, a autoexpressão. O vídeo, o meme e a declaração para os eleitores precisam ser apropriáveis, repetíveis, remixáveis, colocados novamente em circulação por milhares de pessoas.
A primeira barreira ao avanço da extrema direita seria produzir uma onda ao mesmo tempo coordenada e ingovernável, um movimento multitudinário, heterogêneo e vivo. Não apenas as mesmas palavras de ordem ou os feitos já realizados, mas um horizonte de devir e de futuro.
Golpismos, discursos de desestabilização das instituições, racismo, machismo, pânico moral, uso da religião como domínio político e capitalismo algorítmico estão enraizados no tecido social. A todo momento precisamos de uma cola para produzir coesão em tantas fissuras.
Como resolver o paradoxo de coordenar uma multidão de 10 milhões de pessoas em um grupo de WhatsApp e, simultaneamente, descentralizar e perder o controle? Como transformar um surto e um susto coletivo em algo programático?
É essa passagem, da campanha dirigida à campanha atravessada por uma multidão, que elegeu Lula para seu inédito quarto mandato. A virada mobilizou estudantes, fandoms, torcidas, idosos, ativismos de nicho e eleitores que rejeitam o bolsonarismo, além de mídias independentes, do jornalismo investigativo ao humor, do ninjismo ao janonismo: o Exército do Lula digital, comandado por André Janones.
A onda encontrou obstáculos, da trava da Meta para postagens ao boicote de ônibus no dia da votação, mas produziu uma virada extraordinária: 64.256.232 votos para Lula no segundo turno, sabendo que será, aos 81 anos, sua última eleição.
Da crise da representação à campanha-multidão
Junho de 2013 e Outubro de 2026 repetem formas inquietantes de mobilização, mas seria um equívoco tomar a semelhança das linguagens por identidade dos projetos políticos. Junho fez explodir pautas e recusas, em tensão com partidos e representação; Outubro combina energia heterogênea e objetivo eleitoral em torno de Lula.
O problema da representação não desaparece: muda de posição no interior do acontecimento. Os “desorganizados”, que em 2013 se organizavam no Facebook, agora usam Instagram, WhatsApp, TikTok, X e YouTube. Em Junho, coletivos produziam aquilo que chamávamos de enxameamento: atos multiplicados sem comando único. Em Outubro, manifestações estudantis, artistas, criadores de jingles, indígenas, ribeirinhos e iniciativas de mobilização ancestral e digital tampouco esperaram sempre a orientação central da campanha.
Esse “arco da aliança” trouxe a força das mídias independentes: Mídia NINJA, Revelando.Brasil, ICL Notícias, The Intercept Brasil, Revista Fórum, Lupa, Aos Fatos, perfis de humor e tantas redes de investigação, checagem, memes, música e zoeira.
O novo está na coexistência desses multiversos e na sincronicidade das “bolhas”: pequenos grupos capazes de convocar, propor linguagens, agir por iniciativa própria e, em outras ocasiões, sob comandos coordenados. A campanha oficial se manteve organizada, mas tornou-se porosa. A campanha oficial perdeu a exclusividade, não necessariamente o controle.
Lula, o “presidente analógico” que dizia não usar celular, atravessou a quarta parede da tela. Sempre foi, de certa forma, o meio e a mensagem, mas passou a comunicar o que chamo de “vida-linguagem”: o corpo que fala, a afetividade que transborda, menos um populismo digital do que um popular pop, um digital atravessado pela oralidade.
O Exército do Lula – como adestrar o algoritmo
A guerrilha digital de André Janones produziu uma mudança tática profunda. Em vez da resposta institucional e da temporalidade lenta da checagem, passou a operar por antecipação, conflito, expectativa, suspense e linguagem coloquial. Anúncios de revelações, provocações e contradições do adversário: tudo para ocupar o fluxo antes favorável à extrema direita.
O apoiador passa a ser simultaneamente eleitor, produtor, editor e distribuidor: do eleitor como “público-alvo” ao eleitor como infraestrutura comunicacional. A campanha somos nós! A sacada de André Janones foi produzir uma ação coordenada fora da linguagem partidária tradicional, sem perder o objetivo eleitoral.
O Exército do Lula, canal de WhatsApp administrado pelo deputado, chegou a mais de 10 milhões de seguidores em 23 de outubro. Era uma tensão entre autonomia e convergência, uma pedagogia digital fulminante que ensinou como “adestrar” o algoritmo e produzir sincronicidade.
Ações simples: curtir, comentar, assistir aos vídeos até o fim, salvar, subir hashtags no mesmo horário, seguir perfis progressistas #esquerdasegueesquerda e cumprir missões diárias de postagem. Tudo impulsionado por um “algoritmo humano”, Janones, que comandava aos berros de “Pessoal, urgente!” e “Explodam!”, produzindo um estado alterado de disponibilidade.
Já não se tratava apenas de consumir o fluxo, mas de intervir deliberadamente nele. A metáfora deleuziana de surfar a onda ajuda a entender a operação, mas exige uma ressalva: nas sociedades de controle, o surfe também é imagem da modulação permanente, da obrigação de adaptar-se a fluxos que não controlamos. Surfar não é construir um muro contra o algoritmo: é insinuar-se nele, usar sua energia, deslocar a pauta. Precisamos também furar a onda e, mais difícil ainda, inventar outras.
O sequestro da bandeira brasileira pelo bolsonarismo havia sido traumático; a resposta foi inundar o feed com camisas da seleção, roupas verde-amarelas e o gesto em L.
Uma ação especialmente mudou minha visão de guerrilha midiática: os apelos de André Janones para não comentar, não repercutir, não engajar perfis de extrema direita. Mas talvez estivéssemos diante de uma diferença decisiva entre confronto político e alimentação algorítmica do conflito.
Não é necessário oferecer nossa indignação como combustível gratuito às narrativas adversárias. Mas não engajar não pode significar não conhecer, não investigar nem contestar uma falsidade. O silêncio tático diante de um post não deve virar bolha impermeável à crítica.
A imagem e a visibilidade são capitais preciosos a serem geridos numa eleição e para além dela.
Economia narrativa – da indignação moral à indignação esclarecida
Há algo profundamente incômodo quando a imprensa brasileira e a mídia global transformam as bravatas de Donald Trump e as atrocidades ditas por Jair, Flávio Bolsonaro ou Nikolas Ferreira em caça-cliques e numa campanha involuntária de propagação dos extremismos.
Uma economia narrativa da provocação e do escândalo colocou a extrema direita como protagonista permanente do noticiário. Há coberturas jornalísticas que amplificam e naturalizam a desinformação em nome de uma equivalência inexistente entre enunciados, que no limite se torna antiética.
André Janones, Mídia NINJA, Revelando Brasil e 342Artes buscaram o viral associado a pautas reais e propostas de Lula, diferente das campanhas de indignação moral. O vídeo de Nikolas Ferreira sobre “O Nordeste que foi esquecido” tornou-se exemplar: uma superprodução com teleprompter e enquadramentos escolhidos para mostrar pobreza e sofrimento e produzir ressentimento contra Lula.
Quando os bastidores das filmagens circularam e moradores contestaram a imagem de um Nordeste miserável e passivo, a indignação mudou de objeto e voltou-se contra o olhar que transformava o Nordeste em cenário de miséria. Voltou-se contra o olhar que transformava a região em cenário de miséria para fins eleitorais.
A comunicação foi mais inventiva quando não respondeu apenas “Nikolas está errado”, mas produziu paródias, memes e zoeiras que expunham a moralidade escondida no enquadramento. Da indignação moral se produziu uma indignação esclarecida: não apenas disputar o escândalo, mas revelar quem o construiu, de que lugar fala e para que serve. Essa é a diferença entre surfar o algoritmo e envenenar o mar de informações com fake news, cinismo e vale-tudo.
A visibilidade das multidões
Outubro foi também um levante da juventude, vetor de aceleração e urgência. A disponibilidade dos estudantes para ir imediatamente às ruas depois do resultado-catástrofe para Lula no primeiro turno foi decisiva.
Mas a campanha-multidão não foi movida apenas pela juventude. Uma das imagens mais comoventes foi a dos idosos: avós levados por filhos e netos, alguns com dificuldades de locomoção, fazendo questão de votar sem obrigação legal. Há algo extraordinário nesse encontro entre gerações: jovens que inventam linguagens e idosos que carregam a memória de vidas e lutas. Uma multidão intergeracional.
A sequência das manifestações desembocou, em 18 de outubro, no Ato Musical pela Democracia, em Copacabana. Convocado por Caetano Veloso e Paula Lavigne, organizado pelo 342Artes e pela Mídia NINJA, reuniu Caetano, Djavan, Xamã, Frejat, Marina Sena, Duda Beat, Ivan Lins e Fernanda Abreu. Não foi apenas um espetáculo: MPB, Tropicália, samba, pagode, rock, rap, funk, bandeiras LGBTQIA+, cartazes e corpos de diferentes idades transformaram a Avenida Atlântica em experiência comum.
Os Atos pela Democracia, do Rio a Salvador, do rap periférico paulistano ao samba na Lapa, foi articular cultura, ruas e comunicação como dimensões simultâneas da ação coletiva. As manifestações ocorreram em mais de 600 cidades brasileiras, capitais e interior, numa capilarização territorial inédita.
O 342Artes converteu laços culturais em convocatória pública; a Mídia NINJA atuou na mobilização, cobertura ao vivo e circulação de imagens. Não há mais separação entre convocação e narração.
A rua produz imagens; as imagens tornam a rua reconhecível; essa visibilidade retorna às redes e pode produzir uma “cola” coletiva. Redes e ruas têm um só sistema nervoso, um só transe.
O estado maníaco deste segundo turno tem produzido uma síndrome de abstinência pós-eleições: de posts, memes, músicas e principalmente jingles. Em 2026, deixaram de ser apenas trilha oficial de campanha e viraram armas meméticas: pedaços curtos, repetíveis, remixáveis, fáceis de circular no Instagram, TikTok, WhatsApp, Reels e ruas.
“Bora Lula”, “Rap do Silva” e jingles como “Tariflávio” mostraram que a música funcionou como dispositivo de mobilização, deboche e fabricação de pertencimento. Mais do que convencer por argumento, condensavam posições políticas em refrões, afetos e ritmos reconhecíveis: uma batalha também sonora, capaz de transformar campanha em cultura popular.
No campo pró-Lula, jingles e paródias circularam de forma distribuída e memética, numa rede afetiva. No campo de Flávio Bolsonaro, o sertanejo concentrou a mobilização artística mais visível, reforçando uma identidade cultural organizada.
Tomei um susto quando vi o próprio Lula agradecendo aos fandoms numa manifestação na Avenida Paulista! Junho de 2013 havia produzido cartazes escritos à mão, enunciados singulares, fantasias e vídeos que escapavam à uniformidade. Outubro atualiza isso com selfies, inteligência artificial, memes, hashtags sincronizadas, collabs e performances de fãs.
Comunidades de BTS (ARMYs), Taylor Swift (Swifties), Beyoncé (BeyHive), Lady Gaga, Anitta e BLACKPINK articularam o Fandoms com Lula, reunindo principalmente jovens, mulheres e pessoas LGBTQIA+. Vieram mutirões digitais, missões gamificadas, fanarts e paródias com IA: “Taylula”, “Super Lula” em anime e remixes do “Pessoal, urgente!” de André Janones.
Os fandoms trouxeram saberes aperfeiçoados durante anos: edição de vídeos, tradução colaborativa, hashtags, distribuição de tarefas e redes de confiança. Não se deve confundir o apoio de fãs com endosso do artista nem imaginar uma fanbase homogênea. A militância não nasce apenas onde há diretório ou assembleia, mas também onde existem vínculos duradouros e capacidade de agir em comum.
A Revolução não será impulsionada
Hoje as plataformas decidem o alcance por modelos opacos, impõem formatos e reservam para si o poder de alterar ou interromper distribuições. A mídia-multidão conquistou capacidade de produzir narrativas, mas não soberania sobre as infraestruturas que as fazem circular.
Essa contradição se tornou explícita na disputa entre a campanha de Lula e o não impulsionamento de posts pela Meta. A coligação denunciou restrições de distribuição e problemas na publicidade eleitoral; o TSE exigiu esclarecimentos. A Meta reconheceu falhas técnicas, bloqueios indevidos e desativação temporária de uma conta de anúncios, mas negou favorecimento deliberado a qualquer candidato.
O reconhecimento dos erros não dissolve a questão política: as condições de visibilidade de uma eleição dependem de sistemas privados conhecidos apenas parcialmente. Não disputamos somente o direito de falar. Disputamos quem aparece, para quem, em que ritmo e com que intensidade. Um meme foi ao ponto: “A Meta é enlouquecer a Meta”.
A inteligência artificial radicaliza a questão. Se em Junho de 2013 o streaming interpelava o monopólio da imagem e do testemunho, em 2026 a disputa envolve o estatuto do próprio visível. A imagem pode ser registrada, recombinada, produzida sinteticamente ou acusada de ser sintética mesmo quando é verdadeira. O projeto VigIA, da Agência Lupa, encontrou 554 publicações com deepfakes no período monitorado antes do primeiro turno.
A inteligência artificial permitiu paródias, criação estética e novas formas de expressão, mas também pode falsificar vozes, inventar cenas e fabricar evidências. Ameaça a confiança pública não só pela mentira bem produzida, mas pelo álibi de que toda imagem inconveniente seria artificial.
Uma controvérsia com a Meta AI no WhatsApp condensou o problema: imagens sobre Lula e o 13 foram bloqueadas em testes que tiveram resultados diferentes para Flávio Bolsonaro e o 22. A Meta reconheceu falha técnica e afirmou tê-la corrigido. As máquinas processam desejos, mas também restringem, geram viés e aceleram cenários.
O Brasil não viveu esse outubro isoladamente. Na França, manifestações estudantis por condições dignas de educação dialogaram com mobilizações contra o custo de vida. Não há uma onda ideológica unificada, mas uma constelação de impasses históricos e invenções de linguagem.
Paris oferece uma imagem instigante. Bandeiras de One Piece, referências a Naruto e Dragon Ball, super-heróis e games encontraram a memória de Maio de 1968 e das revoluções francesas. A historiadora Ludivine Bantigny chamou atenção para uma formulação radical: esses jovens desejariam não apenas mudar a vida, mas “quitter l’époque contemporaine”, sair da época contemporânea.
A força da frase está na hipótese de que reivindicações por escolas, salários e moradia convivem com a recusa de um mundo que reduziu o futuro à repetição da crise.
Reabrir Junho?
A pergunta francesa pode ser deslocada para o Brasil: e se, em vez de abandonar a época contemporânea, fosse necessário reabrir as promessas de suas revoluções interrompidas? Samuel Hayat, ao refletir sobre Outubro em Paris, propõe reabrir, e não simplesmente encerrar, a época contemporânea.
Eis o problema que Junho de 2013 nos devolve: é possível reabrir suas potências sem reproduzir as condições que permitiram a apropriação de parte daquela insubordinação pela extrema direita?
Junho nasceu de conflitos urbanos, da luta contra o aumento das tarifas e da violência policial, especialmente a repressão de 13 de junho em São Paulo. A mídia-multidão não apenas registrava essa abertura: produzia novas experiências de presença e autoria coletiva.
A recusa das direções partidárias podia significar experimentação democrática; podia também converter-se em antipartidarismo, hostilidade a sindicatos e agressões a militantes de esquerda. O que parecia uma só multidão era um campo de disputa entre ideias incompatíveis de povo, política e futuro.
O bolsonarismo não estava contido em Junho como uma semente destinada a germinar cinco anos depois. Junho não produziu sozinho a extrema direita; tornou-se uma das arenas em que forças distintas aprenderam a disputar a legitimidade das ruas.
Nem toda revolta contra o presente deseja um futuro de liberdade. O Tradicionalismo estudado por Benjamin Teitelbaum, em suas conexões com Steve Bannon, Olavo de Carvalho e Aleksandr Dugin, articula crítica ao igualitarismo a imagens de hierarquia espiritual. Há setores cuja promessa não é ampliar a soberania popular, mas reencantar hierarquias consideradas naturais ou sagradas, anteriores ao Iluminismo e à Revolução Francesa.
Esse é o paradoxo que mais me interessa: a extrema direita pode ser tecnicamente futurista e politicamente regressiva. Usa inteligência artificial, segmentação algorítmica e imagens sintéticas para promover autoridade paternal, guerra cultural, obediência e homogeneidade nacional. Um futuro retroativo, o novo empregado para reinstalar antigas assimetrias.
Essa dupla direção do desejo de ruptura ilumina Michel Foucault em sua “Introdução à vida não fascista”, prefácio a O anti-Édipo. Não basta identificar o fascismo no inimigo, no partido ou no Estado; é preciso interrogá-lo nas pequenas paixões pelo poder, nos hábitos de obediência e no prazer de esmagar uma diferença.
Reabrir Junho exige mais do que celebrar sua estética ou lamentar sua captura. É disputar o que ficou barrado pela própria esquerda, sem tradução institucional e continuidade: rejeição da velha política, direito à cidade, comuns urbanos, participação direta, serviços públicos, crítica à violência de Estado e capacidade de produzir nossas próprias imagens.
Reabrir não é inocentar Junho de suas contradições; é impedir que apenas sua interpretação regressiva permaneça como herança. A multiplicação das vozes pode produzir ação comum sem identidade única, mas também pequenos autoritarismos, tribunais digitais e unanimidades punitivas. É combater as novas infraestruturas do autoritarismo, do tecnofascismo, os algoritmos de destruição de massas.
Reabrir Junho, as promessas democráticas, o próprio contemporâneo: não voltar a um passado idealizado ou demonizado, mas disputar quais presentes e futuros, temporalidades e espaços ainda podemos inventar. A sociedade que sai às ruas e às redes reivindica o direito de fazer uma fissura no presente, de jogar mais uma vez todas as fichas para o alto e acolher a precipitação do novo, não ser apenas espectadora do futuro que lhe reservaram.
*Ivana Bentes é professora titular da Escola de Comunicação da UFRJ. Autora, entre outros livros, de Mídia-Multidão: estéticas da comunicação e biopolíticas (Mauad X) [https://amzn.to/4aLr0vH]
Versão reduzida do artigo publicado na Revista Cult.
Entre os anos 1945 e 1965 (penso na Europa), havia certa maneira correta de pensar, certo estilo de discurso político, certa ética do intelectual. Era preciso ser íntimo de Marx, não deixar os sonhos vagarem longe demais de Freud, e tratar os sistemas de signos — o significante — com o maior respeito. Tais eram as três condições que tornavam aceitável esta singular ocupação que consiste em escrever e enunciar uma parte de verdade sobre si mesmo e sua época.
Depois vieram cinco anos breves, apaixonados; cinco anos de júbilo e de enigma. Às portas de nosso mundo estava o Vietnã, evidentemente, e o primeiro grande golpe desferido contra os poderes constituídos. Mas aqui, em nossas fronteiras, o que acontecia exatamente? Um amálgama de política revolucionária e anti-repressiva? Uma guerra travada em dois frontes — a exploração social e a repressão psíquica? Uma escalada da libido modulada pelo conflito de classes? É possível. Seja como que for, foi por essa interpretação familiar e dualista que se pretendeu explicar os acontecimentos desses anos. O sonho que entre a Primeira Guerra Mundial e o advento do fascismo havia mantido sob seu encanto as frações mais utopistas da Europa — a Alemanha de Wilhelm Reich e a França dos surrealistas — retornara para abrasar a própria realidade: Marx e Freud iluminados pela mesma incandescência.[(197)]
Mas terá sido isto realmente o que se passou? Tratou-se de fato de uma retomada do projeto utópico dos anos 30, dessa vez na escala da prática histórica? Ou terá havido, ao contrário, um movimento em direção a lutas políticas que não se conformavam mais com o modelo prescrito pela tradição marxista? Em direção a uma experiência e uma tecnologia do desejo que já não eram freudianas? Certamente, foram brandidos os velhos estandartes, mas o combate se deslocou e ganhou novas zonas.
O anti-Édipo mostra, inicialmente, a extensão do terreno percorrido. Porém faz muito mais. Ele não se distrai difamando os velhos ídolos, ainda que se divirta muito com Freud. E, sobretudo, ele nos incita a ir mais longe. Seria um erro ler O anti-Édipo como a nova referência teórica (sabem, essa famosa teoria que nos foi anunciada com tanta freqüência: aquela que vai englobar tudo, que é absolutamente totalizante e tranqüilizante e da qual, conforme nos garantem, “temos tanta necessidade” nessa época de dispersão e de especialização, em que a “esperança” desapareceu). Não se deve buscar uma “filosofia” nessa extraordinária profusão de noções novas e de conceitos-surpresa. O anti-Édipo não é uma contrafação de Hegel. A melhor maneira de ler O anti-Édipo é, creio eu, abordá-lo como uma “arte”, no sentido em que se fala de “arte erótica”, por exemplo. Apoiando-se nas noções aparentemente abstratas de multiplicidade, de fluxos, de dispositivos e de ramificações, a análise da relação do desejo com a realidade e com a “máquina” capitalista traz respostas a questões concretas. Questões que se ocupam menos com o porquê das coisas do que com seu como. Como se introduz o desejo no pensamento, no discurso, na ação? Como o desejo pode e deve desdobrar suas forças na esfera do político e se intensificar no processo de reversão da ordem estabelecidas? Ars erotica, ars theoretica, ars politica.
Donde os três adversários aos quais O anti-Édipo se vê confrontado. Três adversários que
não têm a mesma força, que representam graus diversos de ameaças e que o livro combate por meios diferentes.
1)Os ascetas políticos, os militantes morosos, os terroristas da teoria, aqueles que gostariam de preservar a ordem pura da política e do discurso político. Os burocratas da revolução e os funcionários da Verdade.
Prefácio à edição americana de O anti-Édipo. Capitalismo e esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Foi retomado em Dits et êcrits, de Foucault (Gallimard). O título é da redação do Magazine Litteraire, onde foi publicado pela primeira vez em francês. Trad. Fernando José Fagundes Ribeiro.
2)Os deploráveis técnicos do desejo — os psicanalistas e os semiólogos que registram cada signo e cada sintoma e que gostariam de reduzir a organização múltipla do desejo à lei binária da estrutura e da falta. [(198)]
3)Enfim, o inimigo maior, o adversário estratégico (visto que a oposição de O anti-Édipo a seus outros inimigos constitui antes um engajamento tático): o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e Mussolini — que soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas —, mas também o fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar do poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora.
Eu diria que O anti-Édipo (possam seus autores me perdoar) é um livro de ética, o primeiro livro de ética que se escreveu na França desde muito tempo (é talvez a razão pela qual seu sucesso não se limitou a um “leitorado” particular: ser antiÉdipo tornou-se um estilo de vida, um modo de pensamento e de vida). Como fazer para não se tornar fascista mesmo (e sobretudo) quando se acredita ser um militante revolucionário? Como livrar do fascismo nosso discurso e nossos atos, nossos corações e nossos prazeres? Como desentranhar o fascismo que se incrustou em nosso comportamento? Os moralistas cristãos buscavam os traços da carne que se tinham alojado nas dobras da alma. Deleuze e Guattari, por sua vez, espreitam os traços mais íntimos do fascismo no corpo.
Prestando uma modesta homenagem a São Francisco de Sales1, poderíamos dizer que O anti-Édipo é uma introdução à vida não fascista.
Essa arte de viver contrária a todas as formas de fascismo, estejam elas já instaladas ou próximas de sê-lo, é acompanhada de certo número de princípios essenciais, que resumirei como segue, se eu devesse fazer desse grande livro um manual ou um guia da vida cotidiana:
•Liberem a ação política de toda forma de paranóia unitária e totalizante.
•Façam crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, e não por subdivisão e hierarquização piramidal.
•Livrem-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considerem que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade. [(199)]
•Não imaginem que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo se o que se combate é abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga nas formas da representação) que possui uma força revolucionária.
•Não utilizem o pensamento para dar a uma prática política um valor de Verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não passasse de pura especulação. Utilizem a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.
•Não exijam da política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação e o deslocamento, o agenciamento de combinações diferentes. O grupo não deve ser o liame orgânico que une indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”.
•Não se apaixonem pelo poder.
Diríamos inclusive que Deleuze e Guattari gostam tão pouco do poder que buscam neutralizar os efeitos de poder ligados a seu próprio discurso. Donde os jogos e as armadilhas que de algum modo se encontram por toda parte no livro, e que fazem de sua tradução uma verdadeira
1 . Homem da Igreja do século XVII, que foi bispo de Genebra. É conhecido por sua Introdução à vida devota.
proeza. Mas não se trata das brincadeiras familiares à retórica, aquelas que buscam seduzir o leitor sem que este esteja consciente da manipulação e que terminam por ganhá-lo para a causa dos autores contra a sua vontade. As armadilhas de O anti-Édipo são as do humor: convites a se deixar expulsar, a abandonar o texto batendo a porta. O livro faz pensar com freqüência que só há humor e jogo ali onde entretanto algo de essencial se passa, algo que é da maior seriedade: o banimento de todas as formas de fascismo, desde aquelas, colossais, que nos envolvem e nos esmagam, até as formas miúdas que fazem a amarga tirania de nossas vidas cotidianas. [(200)]
Cadernos de Subjetividade / Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP. – v. 1, n. 1 (1993) – São Paulo, 1993 [páginas 197 a 200].
Gestores de bancos alertam para riscos de inflação e desvalorização cambial
Redação Brasil 247
01/11/2026 17h56
247 – Uma proposta do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, para reduzir gradualmente a taxa básica de juros, a Selic, dos atuais 13,75% para 7,5% ao ano, entrou no radar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A iniciativa prevê uma mudança na coordenação das políticas fiscal e monetária, com o objetivo de conter o crescimento da dívida pública e aliviar o custo financeiro para o governo e a economia. As informações são da Folha de S.Paulo.
A possibilidade de Lula ouvir Lara Resende sobre o tema provocou apreensão entre gestores do mercado financeiro, que temem uma intervenção política nas decisões sobre os juros. Dois integrantes da equipe econômica, entretanto, afirmaram à Folha que não existe reunião formalmente marcada entre o presidente e o economista.
Segundo esses interlocutores, Lula pretende ouvir diferentes especialistas antes de definir a orientação econômica de seu próximo mandato. A discussão ocorre em meio às pressões pela antecipação da escolha da equipe econômica e à valorização do dólar após o segundo turno das eleições presidenciais.
Lara Resende aponta juros como principal problema fiscal
Em artigo publicado no fim de setembro, André Lara Resende apresentou uma interpretação diferente daquela predominante no mercado financeiro sobre as causas do desequilíbrio das contas públicas brasileiras.
Para o economista, o principal problema fiscal do país não está nas despesas primárias do governo, mas no custo elevado dos juros incidentes sobre a dívida pública.
A dívida bruta brasileira alcançou 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB), maior patamar desde 2021. Segundo a reportagem, estimativas apontam a necessidade de um ajuste fiscal de pelo menos R$ 250 bilhões ao longo dos próximos quatro anos.
Lara Resende argumenta, entretanto, que a persistência de juros muito elevados contribui decisivamente para o crescimento do endividamento, tornando mais difícil estabilizar a relação entre dívida e PIB.
Em seus cálculos, com uma dívida bruta de R$ 10,9 trilhões e custo médio de 12,68% ao ano, os encargos financeiros acrescentariam aproximadamente R$ 1,4 trilhão ao endividamento público anualmente.
Esse montante equivale a cerca de 10,5% do PIB.
O economista observa que o resultado primário do governo, que exclui os juros da dívida, é apenas ligeiramente negativo. Segundo projeção do Fundo Monetário Internacional citada por ele, o déficit primário brasileiro corresponde a 0,4% do PIB, situando-se entre os menores do mundo.
Na avaliação de Lara Resende, a diferença entre o custo financeiro da dívida e o ritmo de expansão da economia explica boa parte da deterioração dos indicadores fiscais.
“A relação dívida/PIB cresce, portanto, a uma taxa aproximadamente igual à diferença entre as duas, algo em torno de 5,7% ao ano. Não é preciso muita elaboração para concluir que a situação é insustentável”, afirmou.
Proposta prevê criação de Conselho Fiscal e Monetário Nacional
A principal inovação defendida por Lara Resende é a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, responsável por estabelecer metas coordenadas para as políticas fiscal e monetária em um horizonte de quatro a cinco anos.
Nesse arranjo, o Banco Central assumiria o compromisso de manter a Selic em uma faixa situada entre a meta de inflação, atualmente de 3%, e o crescimento nominal potencial do PIB, estimado pelo economista em aproximadamente 5,5%.
Como etapa inicial, Lara Resende propõe uma redução gradual dos juros ao longo de 12 meses, até atingir 7,5% ao ano.
A taxa incluiria uma margem de segurança de dois pontos percentuais em relação ao crescimento nominal potencial da economia.
O objetivo seria interromper a dinâmica em que os juros elevados aumentam continuamente o custo da dívida, exigindo esforços fiscais cada vez maiores para estabilizar o endividamento público.
O economista também propõe utilizar as reservas internacionais brasileiras, estimadas em US$ 350 bilhões, como instrumento para enfrentar eventuais pressões cambiais durante a transição.
Lara Resende reconhece que uma redução dos juros poderia provocar inicialmente alguma aceleração inflacionária, especialmente caso a saída de capitais contribuísse para a desvalorização do real.
Sua avaliação, porém, é que uma coordenação mais eficaz entre as políticas fiscal e monetária permitiria administrar esses riscos e reduzir o custo estrutural do endividamento.
Gleisi Hoffmann elogia proposta
A deputada federal e ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR) manifestou apoio à discussão apresentada por Lara Resende.
Em publicação na rede social X, ela classificou o artigo como “fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira”.
A manifestação foi interpretada como um sinal de receptividade às ideias do economista em setores da direção do Partido dos Trabalhadores.
Lara Resende já havia apresentado uma versão de sua proposta de coordenação entre política fiscal e monetária em 2017, quando suas ideias receberam críticas de economistas ligados à visão econômica convencional.
Procurado pela Folha para comentar a possibilidade de apresentar suas sugestões ao presidente Lula, o economista não respondeu até a publicação da reportagem.
Mercado financeiro teme pressão sobre dólar e inflação
Gestores de grandes instituições financeiras ouvidos pela Folha sob condição de anonimato demonstraram preocupação com a possibilidade de adoção da proposta.
Na avaliação desses profissionais, estabelecer limites para a Selic e subordinar as decisões monetárias a um novo conselho poderia comprometer a credibilidade da política econômica, provocar desvalorização cambial e elevar os juros futuros.
Os críticos reconhecem que os juros representam uma parcela expressiva do déficit nominal brasileiro, mas discordam da interpretação de Lara Resende sobre a relação de causa e efeito.
Para esses gestores, a Selic elevada seria consequência das incertezas fiscais e da percepção de risco, e não a origem principal do desequilíbrio.
Assim, uma redução dos juros sem medidas capazes de fortalecer a confiança na trajetória da dívida poderia produzir o efeito contrário ao pretendido.
Outra preocupação envolve a autonomia do Banco Central. Os críticos afirmam que a criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional poderia deslocar o foco da política monetária do controle da inflação para a redução do custo da dívida pública.
Eles também questionam a eficácia do uso das reservas internacionais para conter pressões sobre o câmbio em um cenário de perda de confiança.
Economista alerta para riscos de redução forçada da Selic
O economista Sérgio Vale, da MB Associados, afirmou que experiências anteriores de redução dos juros por decisão política tiveram resultados negativos.
“Isso já foi feito, de certa forma, em 2012 e foi um desastre, com a inflação subindo para o teto de 6,5%. Fazer isso agora, com a percepção de risco em que estamos, vai levar a mais depreciação cambial e mais inflação”, declarou.
Vale também argumenta que as condições atuais são diferentes daquelas que permitiram ao Brasil trabalhar com juros mais baixos em outros momentos.
“Baixar os juros nos próximos anos vai demandar esforço, não será por mágica”, afirmou.
Segundo ele, três fatores dificultam uma redução mais expressiva da Selic: os juros elevados nos Estados Unidos, a deterioração gradual dos resultados fiscais brasileiros e o impulso fiscal que mantém a atividade econômica aquecida.
Debate sobre juros ganha importância no novo mandato de Lula
A discussão sobre a proposta de André Lara Resende ocorre em um momento decisivo para a definição da política econômica do quarto mandato de Lula.
De um lado, o economista sustenta que a taxa de juros elevada contribui diretamente para o crescimento da dívida pública e que sua redução, acompanhada de uma nova coordenação institucional, poderia melhorar a sustentabilidade fiscal.
De outro, representantes do mercado financeiro defendem que a queda sustentável da Selic depende primeiro de medidas que fortaleçam a credibilidade das contas públicas e reduzam as expectativas de inflação.
O debate envolve também os efeitos dos juros sobre o investimento produtivo, o crédito, a geração de empregos e a capacidade de crescimento da economia brasileira.
A definição da equipe econômica e a orientação que Lula adotará para conciliar estabilidade fiscal, controle da inflação e redução do custo do dinheiro serão determinantes para os próximos quatro anos.
LEIA O ARTIGO COMPLETO
Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos
ANDRE LARA RESENDE discute a falsa racionalidade dos juros do BC
Horta defende Lara Resende, denuncia “tirania dos juros” e vê “desespero” na Faria Lima
Historiador critica reação da Faria Lima à proposta de reduzir a Selic para 7,5% e afirma que juros elevados alimentam a dívida pública brasileira
247 – O historiador Fernando Horta defendeu, pela rede social X, a proposta do economista André Lara Resende para reduzir a Selic e denunciou que setores do mercado financeiro compararam a iniciativa à política econômica adotada pelo presidente turco Recep Tayyip Erdogan em 2021. Na plataforma, o analista atribuiu a resistência à redução dos juros no Brasil a interesses ligados à remuneração da dívida pública, que consome aproximadamente R$ 1,2 trilhão por ano, e sugeriu que o país asiático apresentava um cenário desfavorável para cortar os juros. “Quem compara a proposta do Lara Resende com a Turquia de Erdogan não está discutindo economia. Está defendendo a tirania dos juros”, afirmou o especialista na rede social X. “A ‘lição turca’ prova o contrário do que dizem: cortar sem reservas e com dívida em dólar dá nisso”, acrescentou. “Ocorre que a Faria Lima sabe disso. A comparação não é erro técnico, é desespero”.
A Turquia tinha inflação de 19,6% e reservas internacionais líquidas negativas em US$ 45 bilhões em setembro de 2021, destacou Horta. Já a inflação brasileira está em 4,58% (dados do IBGE/setembro de 2026) e as reservas internacionais de US$ 372 bilhões, acrescentou o analista, que sugeriu haver ausência de dolarização relevante dos depósitos bancários brasileiros.
A comparação entre os países, na avaliação de Horta, desconsiderou fatores como a composição da dívida, a disponibilidade de reservas e a exposição das instituições financeiras a moedas estrangeiras. Esses elementos influenciam a reação das economias às mudanças nas taxas de juros.
Conforme o historiador, a diferença no endividamento reforça a necessidade de discutir o custo dos juros no Brasil. Ele atribuiu parte importante do crescimento da dívida brasileira às taxas praticadas pelo Banco Central e rejeitou a utilização da experiência turca como argumento contra a proposta de Lara Resende. “Das 14 variáveis da tabela, o Brasil está melhor em 13. A única em que está pior é a dívida bruta (82,9% contra 40%). E a dívida está pior justamente por causa dos juros”.
Os percentuais mencionados pelo historiador correspondem a quanto os valores das dívidas de Brasil e Turquia representam em relação aos PIBs desses países. A dívida brasileira chegou a R$ 11,1 trilhões em setembro, conforme dados divulgados pelo Banco Central.
Caso brasileiro
O historiador apresentou um cenário diferente para o Brasil em 2026. Segundo os indicadores utilizados em sua análise, a inflação brasileira está em 4,58%, os juros reais alcançam aproximadamente nove pontos percentuais e as reservas internacionais somam US$ 372 bilhões. Ele também destaca a ausência de dolarização relevante dos depósitos bancários brasileiros.
O centro da argumentação de Horta foi a diferença entre o déficit primário e o déficit nominal. Enquanto o primeiro considera receitas e despesas públicas sem incluir os juros, o segundo incorpora os encargos financeiros da dívida.
“O déficit brasileiro não é primário, é financeiro. O primário é 0,6% do PIB. Ninguém escreve editorial sobre os 8,9. Todo editorial é sobre os 0,6. ‘Confundir’ déficit primário com déficit financeiro não é erro de interpretação. É desonestidade intelectual”, complementou Horta.
Segundo os números apresentados pelo historiador, o déficit nominal brasileiro alcança aproximadamente 9,5% do PIB, dos quais 8,9 pontos percentuais correspondem ao pagamento de juros. O resultado primário representa uma parcela próxima de 0,6% do produto. Os dados divulgados pelo Banco Central em 29 de outubro confirmam a predominância das despesas financeiras. Nos 12 meses encerrados em setembro de 2026, os juros nominais somaram R$ 1,205 trilhão, equivalentes a 8,99% do PIB. O déficit primário chegou a 0,52%, enquanto o déficit nominal atingiu 9,51%.
“Os juros são o problema brasileiro. Como a inflação foi em 1994 e o desemprego foi em 2003. Em 1994 ninguém disse ‘a inflação é decorrência, não dá pra atacar’. Atacaram a inflação. Em 2003, com 12% de desemprego, atacaram o desemprego. Em 2026 o problema é juro, tem número (8,9% do PIB) e tem beneficiário. O resto é luta de classes disfarçada de ‘tecnicismo econômico’”, observou Horta.
Redução da Selic e valorização do real em 2026
Outro argumento apresentado por Horta envolveu o comportamento do câmbio brasileiro durante o ciclo de flexibilização monetária de 2026. Segundo ele, o Banco Central reduziu a taxa de juros cinco vezes ao longo do ano, enquanto o real registrou valorização diante de outras moedas.
O historiador utilizou esse desempenho para contestar a hipótese de que qualquer redução da Selic provocaria uma saída de capitais e uma desvalorização cambial semelhante à observada na Turquia
“BC cortou juro cinco vezes em 2026 e o real foi uma das moedas que mais valorizaram no ano. Nenhum carry trade fugiu, nenhuma lira. O mercado já sabia que o juro estava alto demais. Só não podia dizer. Ou precificava a eleição de miliciano com vontade.” O carry trade consiste em captar recursos em países que oferecem juros baixos e direcioná-los a aplicações em mercados com taxas mais elevadas, buscando lucrar com a diferença de remuneração.
Para Horta, o comportamento do real indicou que o mercado financeiro já considerava excessivo o patamar dos juros brasileiros. Ele rejeita a ideia de que a economia nacional esteja condenada a manter taxas reais muito superiores às de outros países emergentes.
Isso não elimina os riscos cambiais de reduções mais acentuadas. A proposta de Lara Resende reconhece a possibilidade de pressão sobre o real no início da transição e prevê a utilização das reservas internacionais para conter movimentos de desvalorização mais intensos.
Estados Unidos, Europa, Japão e China
Para sustentar sua argumentação, Fernando Horta mencionou experiências internacionais nas quais bancos centrais recorreram a juros próximos de zero, taxas negativas ou intervenções nos mercados de títulos públicos.
O historiador lembra que o Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, manteve taxas de juros próximas de zero durante cerca de sete anos após a crise financeira de 2008 e adquiriu aproximadamente US$ 4 trilhões em ativos.
Na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) também utilizou taxas negativas durante aproximadamente oito anos. O Japão, por sua vez, recorre há décadas a políticas de juros muito baixos e adotou mecanismos de controle da curva de rendimentos dos títulos públicos.
“Agora os países que ‘mexeram nos juros’ e deram certo. O Fed ficou sete anos com juro zero depois de 2008 e comprou US$ 4 trilhões em títulos. O BCE teve juro NEGATIVO por oito anos. O Japão está em juro zero desde 1999 e controla a curva inteira da dívida. Ninguém virou Turquia”, seguiu Horta.
Em sua análise, Horta também destacou a experiência chinesa, marcada por forte atuação estatal na administração das taxas de juros e na organização do sistema financeiro. Ele reconhece que a China mantém controles sobre a movimentação internacional de capitais, característica que diferencia seu modelo do brasileiro.
“China, que ninguém lembra: juro administrado há 30 anos, inflação baixa, crescimento que o resto do mundo invejou. Com conta de capital fechada, verdade. Mas ninguém acusou Pequim de ‘heterodoxia’. Acusaram de dar certo. (ahh mais aí não vale pq é ‘comunista’ …)”, acrescentou.
Dívida atrelada à Selic amplia impacto dos juros
Um dos principais mecanismos econômicos destacados por Horta envolve as Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), títulos públicos que acompanham a taxa Selic. Como mais da metade da dívida pública brasileira possui remuneração vinculada à taxa básica, mudanças na política monetária afetam diretamente o custo de financiamento do governo.
O historiador argumentou que uma elevação da Selic aumenta as despesas financeiras do Tesouro em prazo reduzido. Na direção contrária, cortes dos juros diminuem a remuneração desses papéis e podem aliviar o crescimento do endividamento. A proposta de Lara Resende utiliza justamente essa característica da dívida brasileira para sustentar a possibilidade de ganhos fiscais com a redução gradual dos juros.
Nos cálculos apresentados pelo economista, uma diminuição do custo médio da dívida de aproximadamente 13% para 7,5% ao ano poderia representar economia fiscal próxima de quatro pontos percentuais do PIB. O efeito ocorreria gradualmente, conforme a remuneração dos títulos acompanhasse as novas taxas.
O historiador Fernando Horta interpretou esse mecanismo como uma transferência de recursos públicos para os detentores de títulos quando o Banco Central mantém juros elevados. Sua crítica concentra-se na distribuição dos custos e benefícios associados à política monetária.
Pontuações feitas por Lara Resende
Em artigo no fim de setembro, o economista André Lara Resende atribuiu à política de juros elevados do Banco Central parte central do agravamento do desequilíbrio fiscal brasileiro e criticou os fundamentos teóricos que orientam as decisões da autoridade monetária. Segundo ele, a dívida bruta do governo geral atingiu R$ 10,9 trilhões, equivalentes a 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB), com custo médio de 12,68% ao ano em junho de 2026. Aplicada ao estoque da dívida, essa taxa representa uma despesa anual estimada em R$ 1,4 trilhão, ou 10,5% do PIB.
O valor de R$ 10,9 trilhões mencionado é referente ao período de junho para julho de 2026. Em setembro, a dívida brasileira chegou a R$ 11,1 trilhões, informou o Banco Central.
Lara Resende alertou que, apenas pela incidência dos juros, a dívida pública cresce 12,7% ao ano, enquanto o PIB nominal avança aproximadamente 7%, com expansão real inferior a 3%. Para enfrentar esse desequilíbrio, propôs a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, responsável por coordenar metas de arrecadação, despesas, inflação e juros em um horizonte de quatro a cinco anos. O plano prevê reduzir gradualmente a Selic para cerca de 7,5% ao ano.
A combinação de juros menores, coordenação institucional e sustentabilidade da dívida permitiria recuperar a confiança na economia, uma vez que, segundo o economista, o crescimento persistente dos encargos financeiros compromete a credibilidade fiscal que a própria política monetária busca preservar.
Por Iasmin Feitosa – Assistente de Produção do Ponto de Cultura Juventude e Cidadania
Entre fotografias que resgatam uma trajetória e mãos que se entrelaçam em dança circular, o Seminário Introdutório de Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social fez do dia 31 de outubro de 2026 uma roda de sementes na Casa da Doméstica Dom Távora (Sindoméstico/SE), em Aracaju. Reunindo 29 pessoas — 25 participantes inscritos e 4 integrantes da organização — sob a facilitação de Romero Venâncio, Tácita Mykaelly e José de Oliveira (Zezito), o encontro da Ação Cultural (Ponto de Cultura Juventude e Cidadania) transformou teoria e vivência em um só gesto: educar é amar o vivido, partilhar memórias e dançar a esperança. Como um “luxo só”, o seminário costurou Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social ao som de Gilberto Gil, Gonzaguinha e de Momento Novo (canção construída em mutirão), provando que a cultura comunitária se faz em rede, acolhimento e fé no amanhã.
No dia 31 de outubro de 2026, a Casa da Doméstica Dom Távora (Sindoméstico/SE), em Aracaju, recebeu o Seminário Introdutório de Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social, realizado pela Ação Cultural (Ponto de Cultura Juventude e Cidadania). O encontro reuniu 29 pessoas — 25 participantes inscritos e 4 integrantes da equipe organizadora — e teve como facilitadores Romero Venâncio, Tácita Mykaelly e José de Oliveira (Zezito).
Foto: Vanessa Nascimento
Acolhimento e ambientação
O espaço foi previamente organizado com uma exposição fotográfica que resgatou a trajetória da Ação Cultural ao longo dos anos, além dos banners da Caravana Luiz Gonzaga e do Cineclube Realidade. Na chegada, cada participante recebeu a camisa do Ponto de Cultura, com o apoio de Vanessa Nascimento, egressa das turmas de Audiovisual e Teatro, na distribuição. Enquanto aguardavam, os presentes assistiram à exibição do mini documentário da 4ª Mostra Artística Cultural realizada em 22 de agosto no Espaço de Convivência da Paróquia São Pedro Pescador no Bairro Industrial.
Programação da manhã
A manhã começou com a exibição do curta “Semente: O Amor Vivido”, produzido pelos alunos da 3ª Turma da Oficina de Audiovisual. Em seguida, Zezito de Oliveira contextualizou o processo de produção, destacou o trabalho dos oficineiros Marcel Magalhães e Raoni Smith e explicou as etapas de roteiro, trilha sonora e gravação. Foi anunciada a continuidade da oficina, incluindo a disponibilização de aulas gravadas, considerando o projeto a ser inscrito nos editais do ciclo 2 da Lei Aldir Blanc de Aracaju na categoria Cultura Viva.
Após a assinatura da lista de presença, Zezito fez sua apresentação pessoal e profissional. Maxivel Ferreira, um dos fundadores da Ação Cultural e integrante da equipe do projeto, e Margarete Rocha, participante, também compartilharam suas trajetórias — Margarete emocionou o público ao falar sobre suas origens rurais e memórias familiares.
Na roda de apresentação, os participantes revelaram a diversidade de vivências do grupo: membros do Instituto Piabinhas (Povoado São Braz), pessoas ligadas ao balé, ao teatro e à música. Os facilitadores Romero Venâncio e Tácita Mykaelly também se apresentaram.
Tácita Mykaelly trouxe uma reflexão inspiradora sobre a possibilidade de conciliar a atuação na cultura com outras áreas de formação, como Medicina ou Direito, destacando que é possível ter múltiplas possibilidades sem abrir mão das oportunidades profissionais.
Em seguida, Maxivel e Margarete conduziram uma vivência de Danças Circulares. Todos se reuniram em um círculo de mãos dadas e aprenderam os passos, promovendo integração e acolhimento.
O Professor Romero Venâncio iniciou o conteúdo teórico com o tema “Educação Popular”, trazendo reflexões sobre tecnologia, política e sua trajetória profissional, conectando os conceitos à realidade dos participantes. Depois, Zezito de Oliveira apresentou o tema “Ação Cultural”, utilizando slides para resgatar conceitos teóricos com base na memória das experiências históricas e em reflexões filosóficas, sociológicas, antropológicas, econômicas e políticas — conceitos como ação cultural e fabricação cultural, desenvolvidos por Teixeira Coelho;democratização e democracia cultural, desenvolvidos por Albino Rubim; e Cultura Viva e Pontos de Cultura, desenvolvidos por Célio Turino —, além da história, dos projetos e dos desenvolvimentos da entidade, reforçando a vocação prática da Ação Cultural: o “fazer” como essência, mas alimentado pelos mestres do pensamento critico.
Após o lanche, o participante Jaci Farias apresentou um cordel de sua autoria em homenagem ao Presidente Lula, intitulado “Lula Tetra Presidente”. Em seguida, Tácita Mykaelly conduziu o tema “Participação Social”, abordando as Teorias da Participação, a Participação Social na Cultura e experiências da sociedade civil. O período terminou com uma roda de conversa sobre Conferências de Cultura e Economia Solidária e uma dança circular ao som de Gilberto Gil (“Andar com Fé”), seguida de almoço.
Programação da tarde
A tarde foi dedicada às experiências práticas e aos relatos de vida. Isabela e Givanildo, do Instituto Piabinhas (Povoado São Braz, Socorro), apresentaram a instituição, suas origens e o projeto “Pescando Memórias”, que tem como objetivo preservar a identidade cultural local. Eles compartilharam a experiência de participação no programa Domingão com Huck, no quadro “The Wall”, onde conquistaram um prêmio de R$ 364.499,00.
Claudemir compartilhou sua trajetória de superação para conquistar um espaço cultural em um assentamento do MST na cidade de São Cristóvão, além de falar sobre sua atuação e de seus companheiros (as) no teatro, no movimento Hip-hop e no cineclubismo . Quitéria da Silva, representante da Casa da Doméstica, trouxe falas emocionantes sobre sua trajetória pessoal e a história de resistência da instituição, destacando os esforços para manter o espaço vivo e acolhedor.
José Canoas apresentou slides sobre o Programa Nacional dos Circulos de Cultura (PNCC) e a Missão do Agente Territorial de Cultura que desenvolve, gerando um debate produtivo entre os participantes. Sarvia egressa da 3ª Turma de Audiovisual e Thiala, apresentaram a iniciativa “Black Connection”. Zezito apresentou e distribuiu a cartilha de gestão produzida pelo Centro Dom José Brandão de Castro (CJDBC), destinada a jovens e agentes culturais em início de atuação na gestão de iniciativas socioculturais de base comunitária. Adinete, também da Casa da Doméstica, falou sobre o trabalho de orientação e acolhimento realizado com as trabalhadoras domésticas, abordando direitos, adversidades e o suporte oferecido pela Casa — cursos, acompanhamento psicológico e acolhimento.
O encerramento contou com uma última roda de dança circular, coreografia inspirada na canção Sementes do Amanhã de Gonzaguinha, conduzida por Maxivel. Na partilha de sentimentos sobre o dia, todos expressaram o que sentiam naquele momento. Palavras como Amor, União, Paz, Esperança, Alegria, Prazer e Fé sintetizaram o espírito do encontro. Após o lanche, o evento foi encerrado às 17h30.
Considerações finais
O Seminário cumpriu plenamente seus objetivos ao promover um espaço de reflexão teórica e troca de experiências práticas, conectando os conceitos de Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social à realidade dos agentes culturais comunitários presentes. A diversidade de vivências — de jovens a idosos, de artistas a trabalhadoras domésticas — enriqueceu o debate e fortaleceu a formação em rede dos participantes.
A metodologia adotada — rodas de conversa sobre conceitos de politica cultural , relatos de vivências, exibição de filmes, poesia de cordel e danças circulares — mostrou-se eficaz para integrar teoria e prática, criando um ambiente acolhedor e participativo. A presença de representantes de instituições como o Instituto Piabinhas e a Casa da Doméstica reforçou o caráter comunitário e a capilaridade do projeto.
Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.
É luxo só- Por Zezito de Oliveira.
Ontem à noite, antes de chegar em casa, procurando uma frase para definir o meu sentimento sobre o Seminário de Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social, acabou-me vindo à lembrança “É luxo só”, uma bela canção de Ary Barroso em parceria com Luiz Peixoto, gravada em 1959 e bastante conhecida nas regravações de João Gilberto e Gal Costa.
Daí o mote do texto que pretendo escrever para dizer como foi o dia de ontem: “É luxo só”. E não são todos os eventos de formação educativa, cultural, social e política em que podemos afirmar algo assim.
E, para ser “um luxo só”, precisamos estar acompanhados de pessoas como as que se fizeram presentes neste dia, inclusive os autores que utilizamos para impulsionar nossas falas no período da manhã.
Amanhã concluo o restante. Quem quiser ou puder, envie o depoimento pessoal para publicarmos no blog. É importante que todos preencham o questionário de avaliação, inclusive para receber o certificado de participação.
E, concluído por ora, não construiremos a nação como canta Gonzaguinha em “É” se não fizermos como realizado hoje. Fica a dica para quem quer, como Torquato Neto em um poema musicado por integrantes da banda Titãs, saber o que pode dar certo, porque não temos tempo a perder.
Gratidão a quem contribuiu de diversas maneiras, por menor que tenha sido.