quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Tempo para Pulsar: Como o Fim da Escala 6x1 Pode Revolucionar a Cultura e a Economia Criativa

 Quando discutimos o fim da escala 6x1 e a transição para um modelo com dois dias de folga semanais (como a jornada 5x2), os argumentos costumam se concentrar legitimamente na saúde mental e nos direitos trabalhistas. No entanto, existe um setor econômico e social invisibilizado nessa engrenagem que aguarda essa mudança como um verdadeiro divisor de águas: a cultura e a economia criativa.

Hoje, a produção e o consumo de arte no Brasil competem diariamente com o maior inimigo da sociedade moderna: a exaustão da classe trabalhadora. Libertar o trabalhador de um modelo analógico de produção é, acima de tudo, oxigenar a identidade cultural do país.
A Explosão na Formação de Público e Consumo Cultural
Com apenas uma folga na semana, o trabalhador é obrigado a usar seu único dia livre para o descanso físico básico, tarefas domésticas atrasadas e obrigações familiares. O "tempo de respiro" é engolido pela sobrevivência. Ter um segundo dia de folga garantido altera profundamente essa dinâmica social.
Ganha-se tempo útil. Mais tempo livre se traduz diretamente em mais pessoas com disposição para frequentar cinemas, teatros, shows, museus, feiras de livros e centros culturais. Além disso, esse movimento provoca uma descentralização crucial: o consumo cultural deixa de ficar restrito aos eixos centrais das grandes cidades. Os espaços culturais de bairros e periferias ganham fôlego, impulsionados por moradores locais que finalmente têm tempo para vivenciar seus próprios territórios.
Estímulo Econômico Direto e o Efeito Multiplicador
A economia criativa não funciona de forma isolada; ela é um motor potente que puxa diversos outros setores da economia. Ao garantir o descanso de dois dias, estimula-se o chamado turismo de fim de semana. Viagens curtas de "bate-volta" ganham força, movimentando o artesanato local, a gastronomia regional, festivais de música e a hotelaria de pequenas cidades.
Com mais público consumindo cultura ativamente de sexta-feira a domingo, o próprio setor criativo é forçado a se expandir. Para dar conta da nova demanda, teatros, produtoras, casas de shows e museus precisarão contratar mais profissionais. Isso gera novos postos de trabalho para técnicos de som e luz, atores, músicos, designers, cenógrafos e prestadores de serviços de eventos, criando um ciclo virtuoso de geração de renda.
Democratização da Produção: Do Consumidor ao Criador
No Brasil, uma parcela massiva de artistas, escritores, realizadores audiovisuais e criadores de conteúdo não vive exclusivamente da sua arte. Para pagar as contas, a esmagadora maioria mantém empregos formais na base do comércio ou do setor de serviços — os setores mais atingidos pela jornada 6x1.
A escala de seis dias de trabalho sufoca o ócio criativo, o tempo de ensaio, a pesquisa e a escrita. O segundo dia de folga atua como um resgate da dignidade artística. Ele permite que o trabalhador-artista atue em seus projetos autorais, gerando um aumento substancial na diversidade cultural brasileira e gerando novas propriedades intelectuais, como livros, músicas, roteiros e jogos eletrônicos. É também a oportunidade de qualificação profissional, dando tempo para que esses trabalhadores participem de cursos, oficinas e laboratórios de inovação.
O Despertar das Cidades e da Convivência Urbana
Uma cidade viva é uma cidade que ocupa suas ruas. A economia criativa engloba feiras de economia solidária, festivais de rua e bares com música ao vivo. Sem o peso exaustivo de ter que acordar cedo no sábado ou no domingo para jornadas extenuantes, o cidadão se sente encorajado a frequentar e investir na vida noturna e diurna de sua região.
O fim da escala 6x1 não é apenas uma reforma nas horas registradas no relógio de ponto. É uma política pública indireta de fomento à cultura. Ao devolver o tempo ao trabalhador, devolve-se a ele o direito de sonhar, criar e consumir a própria identidade do seu país. A cultura precisa de público vivo, desperto e com tempo para pulsar.


O Fim da Escala 6x1: A Origem de um Modelo Exaustivo e o Despertar do Trabalhador Moderno

 A rotina de trabalhar seis dias na semana para folgar apenas um está no centro do debate político, econômico e social do Brasil. Para milhões de trabalhadores, especialmente nos setores de comércio e serviços, o modelo se tornou sinônimo de exaustão e apagamento da vida pessoal. Mas de onde vem essa estrutura de trabalho e como ela se transformou no principal estopim de desgaste da atualidade?

A Verdadeira Origem: Uma Herança de 1943
Ao contrário do que o senso comum aponta, a escala 6x1 não surgiu recentemente e nem foi fruto das flexibilizações recentes do mercado. Ela se consolidou historicamente na legislação brasileira a partir da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), assinada em 1943 pelo presidente Getúlio Vargas.
O marco legal original da CLT estabelecia uma jornada máxima de 48 horas semanais — que mais tarde, com a Constituição Federal de 1988, foi reduzida para 44 horas semanais. Embora as leis garantissem o direito a um repouso semanal remunerado, elas nunca determinaram uma divisão rígida dos dias de trabalho. Foi essa brecha jurídica que permitiu que as empresas distribuíssem as horas ao longo de seis dias consecutivos, dando origem ao modelo que impera até hoje.
Da Hegemonia Industrial ao Afunilamento no Comércio: A Evolução dos Números
A presença da escala 6x1 no cotidiano do brasileiro passou por profundas transformações geográficas e estatísticas ao longo das décadas:
  • Anos 1940 a 1970 (A era industrial): Logo após a criação da CLT, o percentual de trabalhadores formais nesse regime era massivo e majoritário. Cumpria-se o padrão das fábricas têxteis, metalúrgicas e de base, operando rigidamente de segunda a sábado. O modelo de dois dias de folga (5x2) era uma raridade restrita a cargos administrativos de multinacionais ou ao setor público.
  • Anos 1980 e 1990 (A transição de 1988): Com a redução da jornada máxima para 44 horas semanais na Nova Constituição, a indústria e os escritórios começaram a migrar para a escala 5x2 (compensando as horas de segunda a sexta). No entanto, o modelo 6x1 encontrou uma nova força de expansão no setor de serviços, que começava a explodir com a chegada de grandes shoppings, redes de supermercados e o varejo de massa.
  • O cenário atual (Dados Oficiais): De acordo com dados do eSocial levantados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, a escala 6x1 deixou de ser a realidade de "todo mundo" para se concentrar na base da pirâmide salarial. Hoje, ela atinge 33,2% da força de trabalho formal do país. Isso significa que um terço do país (cerca de 14,8 milhões de pessoas) ainda atua sob esse regime exaustivo. A desigualdade setorial é gritante: o modelo atinge 52% do setor de hotelaria, 47,1% dos serviços de alimentação e 42,2% do comércio varejista.
O Mito da Reforma Trabalhista
Quando o debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força, muitos apontaram erroneamente a Reforma Trabalhista de 2017, sancionada por Michel Temer, como a criadora desse regime. A verdade é que a escala 6x1 já existia e era a regra padrão há décadas.
A reforma de 2017 alterou profundamente as relações laborais, mas focou em trazer novas flexibilizações de jornada, como o banco de horas individual e a regulamentação da jornada 12x36. A estrutura 6x1 permaneceu intocada, herdada da lógica industrial de meados do século passado.
Quando o Modelo se Tornou Insuportável?
Se a escala opera desde a década de 1940, por que a insatisfação explodiu agora? A resposta está nas profundas transformações da vida urbana e da saúde pública no século XXI.
Nas últimas décadas, o Brasil se tornou o segundo país com mais casos de Síndrome de Burnout no mundo. O ritmo de vida contemporâneo — marcado por cidades congestionadas, deslocamentos de horas no transporte público e a pressão constante de metas profissionais — tornou o descanso de um único dia por semana absolutamente insuficiente. A folga única deixou de ser um momento de lazer e virou o "dia de cumprir obrigações domésticas", anulando o tempo para a família, os estudos, o descanso real e o cuidado com a saúde mental.
O Estopim nas Redes e a Mobilização Nacional
O sentimento generalizado de esgotamento ganhou voz e organização política a partir de setembro de 2023. O grande catalisador foi um vídeo de desabafo publicado no TikTok por Rick Azevedo, então balconista de uma farmácia no Rio de Janeiro. Sua indignação contra a falta de perspectiva de vida sob a jornada 6x1 viralizou, ecoando a realidade de milhões de brasileiros.
A partir desse desabafo, nasceu o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT). Uma petição pública online coletou rapidamente mais de 2 milhões de assinaturas, canalizando a insatisfação popular e pressionando as estruturas institucionais. Rick Azevedo ganhou projeção nacional e o debate furou a bolha da internet, chegando ao Congresso Nacional pela autoria da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP).
Hoje, as discussões avançam de forma histórica no Legislativo. O debate não é mais sobre se a escala 6x1 é exaustiva, mas sim sobre quando o país fará a transição definitiva para um modelo que respeite a dignidade e o tempo de vida do trabalhador.

Estudantes mudam a cena, por Manuel Domingos Neto no GGN

 Estudantes lotando ruas disseminam emoções. Levantam o ânimo coletivo. Foram decisivos em episódios fundamentais da vida brasileira.

Por Manuel Domingos Neto

14/10/26 • 11:17 • 

Crédito: reprodução do @estudantesninja / foto de @bichocidadao

Participei de uma carreata em apoio à Lula. Não lembro de manifestação maior, mais espontânea, vibrante e alegre em minha cidade, Parnaíba, no litoral piauiense.

Convocado por jovens, um interminável cortejo de motos e carros percorreu bairros populares com pequenos aparelhos de som, poucas bandeiras, rarefeito material de propaganda. Não consegui adesivo para meu carro.

Nas calçadas, vi pessoas alegres, receptivas, gritando, acenando, pulando, dançando. Gente idosa, em cadeira de rodas, batia palmas. Difícil descrever o sentimento coletivo. Estive em todas as campanhas de Lula, mas nunca vi algo assim, que me remetesse à “Banda” de Chico Buarque.

No primeiro turno, prevaleceu a baixaria: cabos eleitorais de oligarquias sem escrúpulos compravam votos em larga escala e garantiam transporte até as urnas; pastores evangélicos amedrontavam fieis; funcionários públicos se continham com medo de perder posições; candidatos reclamavam votos em pagamento de pequenos benefícios garantidos por emendas parlamentares e apontavam malfeitos de seus concorrentes; estudantes e professores retraídos…

A modorra de cem anos de solidão abriu cancha à extrema direita.

Abertas as urnas, veio o choque e a depressão. Mas logo Parnaíba sintonizou o Brasil revirado pelo grito estudantil.

A cidade, cujo centro histórico é tombado como patrimônio nacional, acolhe milhares de jovens do interior do Piauí, do Ceará e do Maranhão, a maioria de famílias modestas.

Os jovens chegam sem saber escrever e sem entender o significado de nazismo, fascismo, colonialismo, imperialismo, nacionalismo…

Desconhecem Pixinguinha, Lima Barreto, Getúlio Vargas; não fazem ideia da importância da Amazônia e da Petrobrás. Ignoram o que foi a Ditadura Militar. Chegam em busca do diploma que promete garantir destino diferente do de seus pais, avós, bisavós…

O Brasil tem mais de 10.200.000 estudantes universitários. O ensino privado concentra quase 80% deste contingente. Mas, tanto a rede pública quanto a privada dependem de amparo governamental.

Os jovens, portanto, se arrepiam diante da possibilidade de inimigos da educação superior voltarem a governar o país.

O medo quebrou a pasmaceira de uma campanha eleitoral insípida. Como um raio, acendeu o confronto com a extrema-direita inspirada em Donald Trump.

Em poucos dias, os estudantes mudaram o quadro político-eleitoral brasileiro. Lotando ruas por todo o país, deixaram em apuros os delinquentes que querem voltar ao governo e ampliaram as chances de Lula.

Alguns consideram que os jovens não puxam novos votos para Lula. Essa é uma percepção de quem vê o Brasil a partir da avenida Paulista ou de Copacabana.

Estudantes lotando ruas disseminam emoções. Levantam o ânimo coletivo. Foram decisivos em episódios fundamentais da vida brasileira.

Dá para imaginar o abolicionismo sem o agitador Castro Alves, aos 17 anos, dizendo, no Recife, que a praça era do povo como o céu é do condor? Dá para imaginar o envio de expedicionários à Itália sem jovens se alistando espontaneamente e maldizendo o nazifascismo? De onde saíram os protagonistas do combate à Ditadura Militar?

A capilaridade do movimento estudantil é incalculável. Hoje, há cursos superiores em muitas cidades do interior. A maioria dos jovens mora em bairros populares e conhece a penúria. Constitui orgulho e esperança de suas famílias. Por mais que as redes de televisão escondam a amplitude de suas manifestações, suas proezas chegam aos celulares de todo o país.

Finalmente, ninguém passa impune pelo movimento estudantil, celeiro de novas percepções do processo histórico, novos valores, novas sensibilidades e, sobretudo, novas lideranças políticas.

Não há motivos para pensar que a rebeldia em curso seja contida após a abertura das urnas, dia 25. Em velocidade supersônica, formam-se novos protagonistas na cena política brasileira.

Meu renitente pessimismo pede trégua. Acho que Lula vai ganhar e governará contingenciado não apenas por oligarquias reacionárias: terá que ouvir estridente massa estudantil sedenta de perspectivas promissoras.

Se der ruim, se os bajuladores de Trump levarem a melhor, governarão assediados por estudantes enfurecidos. A repressão se encarregará de ampliar os protestos.

Os estudantes mudaram o ambiente político-eleitoral. Exprimem, agora, demandas longamente reprimidas pela calcificação do sistema partidário.

Manuel Domingos Neto nasceu em Fortaleza em 1949. Graduou-se em História pela Universidade de Paris VI, em 1976. Obteve o título de Mestre em Sociedade e Economia na América Latina, pela Universidade de Paris III, em 1976, e o título de Doutor em História pela mesma universidade, em 1979. Foi pesquisador da Casa de Rui Barbosa, superintendente da Fundação Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais do Piauí, estado pelo qual também foi deputado federal. Professor da Universidade Federal do Ceará e professor associado da Universidade Federal Fluminense, foi também vice-presidente do CNPq e presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED).

Leia também!

Jovens estudantes lideram as manifestações de rua pela virada e contra o retorno da ditadura via voto. Canções para celebrar: Coração de Estudante, Me Gustan Los Estudiantes, Folia de Príncipe

 https://acaoculturalse.blogspot.com/2026/10/jovens-estudantes-lideram-as.html

Em conversa com Edu Moreira, Lula manda recado a jovens de 16 a 20 anos

'Você tem que ser persistente porque o futuro está dentro de você', disse Lula em recado à juventude.    https://iclnoticias.com.br/conversa-edu-moreira-lula-juventude/

Mais vozes confirmadas pra fazer história no Ato Musical Pela Democracia!

 Djavan, Simone Bittencourt de Oliveira, Roberto Frejat, Fernanda Abreu, Moreno Veloso, Francis Hime, Olivia Hime, Jota.pê, DUDA BEAT, XAMÃ ❌, Jão e Jorge Vercillo chegam junto no Ato Musical pela Democracia.

Domingo, 18/10, às 16h, em Copacabana, posto 5.  Depois do Ato da Candelária temos um encontro de gerações, ritmos e vozes pela democracia.

Arrasta pro lado pra conferir os novos nomes e marca quem vai com você. Compartilha nos grupos e chama geral: o Rio vai cantar junto!


GENTE É PRA BRILHAR, NÃO PRA MORRER DE FOME













Por que defender a democracia e um país mais justo, mais solidário , mais criativo e mais alegre é votar em Lula. Coração Civil (Milton Nascimento) É (Gonzaguinha).

 


É - Gonzaguinha  




É
A gente quer valer o nosso amor
A gente quer valer nosso suor
A gente quer valer o nosso humor
A gente quer do bom e do melhor
A gente quer carinho e atenção
A gente quer calor no coração
A gente quer suar, mas de prazer
A gente quer é ter muita saúde
A gente quer viver a liberdade
A gente quer viver felicidade
É
A gente não tem cara de panaca
A gente não tem jeito de babaca
A gente não está
Com a bunda exposta na janela
Pra passar a mão nela
É
A gente quer viver pleno direito
A gente quer viver todo respeito
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
A gente quer viver uma nação
É é é é é é é é
É
A gente quer valer o nosso amor
A gente quer valer nosso suor
A gente quer valer o nosso humor
A gente quer do bom e do melhor
A gente quer carinho e atenção
A gente quer calor no coração
A gente quer suar, mas de prazer
A gente quer é ter muita saúde
A gente quer viver a liberdade
A gente quer viver felicidade
É
A gente não tem cara de panaca
A gente não tem jeito de babaca
A gente não está
Com a bunda exposta na janela
Pra passar a mão nela
É
A gente quer viver pleno direito
A gente quer viver todo respeito
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
A gente quer viver uma nação

Coração Civil, Gonzaguinha e a teimosia de sonhar um Brasil democrático

Tem canção que a gente escuta, gosta, guarda na memória e, de vez em quando, a vida se encarrega de devolver com outro significado. Não porque a letra tenha mudado, mas porque o mundo, com suas contradições, esperanças e decepções, volta a nos colocar diante das perguntas que ela nunca deixou de fazer. É assim que me chegam, neste outubro de 2026, “Coração Civil”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, na interpretação de CantaVento e Convidados, e “É”, de Gonzaguinha, quando olho para as manifestações que vêm ocupando as ruas brasileiras em defesa da democracia.

O que essas duas canções têm a nos dizer neste momento? Talvez seja justamente aquilo que a política, quando se afasta da vida real das pessoas, corre o risco de esquecer: o desejo de viver bem, de ter direitos respeitados, de criar os filhos com dignidade, de estudar, trabalhar, amar, cantar, descansar e participar das decisões que definem os rumos do país. Parece simples, mas não é. Basta olhar em volta para perceber quanto ainda precisamos caminhar até que essas coisas, tão presentes nos nossos sonhos, deixem de ser privilégios e se tornem direitos efetivamente vividos.

Em “Coração Civil”, a utopia não tem nada de distante da vida cotidiana. Ela aparece na felicidade dos olhos de um pai, na alegria de muita gente, no pão, no vinho, na amizade, no amor e na justiça. Milton Nascimento e Fernando Brant nos convidam a pensar um Brasil em que a liberdade não seja apenas uma palavra bonita nos discursos, mas uma experiência compartilhada, capaz de chegar às famílias, aos bairros, às periferias e aos lugares onde o povo inventa maneiras de sobreviver, conviver e continuar acreditando.

E tem aquele desejo que atravessa a canção e parece nunca perder a atualidade: ver os meninos e o povo no poder. Não é pouca coisa. Afinal, quem decide os destinos do país? Quem tem a oportunidade de participar das decisões? Quem consegue fazer sua voz chegar aos espaços onde são definidas as políticas que afetam a educação, a saúde, o trabalho, a cultura e a vida das comunidades? Quando essas perguntas saem da letra e chegam às ruas, a música deixa de ser apenas música e se transforma numa maneira de interpretar o que estamos vivendo.

Foi o que me chamou a atenção nas manifestações destes últimos dias. Entre as reportagens da Agência Brasil sobre os atos realizados em diferentes cidades, encontrei falas de estudantes e de pessoas de outras gerações que ajudam a compreender por que tanta gente considera importante sair de casa, encontrar outras pessoas e expressar publicamente suas preocupações. No Rio de Janeiro, em 7 de outubro, a estudante de Design Raissa Bispo falou da importância de estar presente para lutar pela soberania e pelos direitos. Em Palmas, no dia seguinte, o jornalista Kaio Costa, ex-aluno da Universidade Federal do Tocantins, resumiu sua disposição de participar numa frase que poderia servir de provocação para muita gente: “Eu não posso me dar o luxo de só assistir a coisa acontecer”.

É isso. A vida pública não pode ser apenas um espetáculo que assistimos pela televisão ou acompanhamos pelas redes sociais, enquanto esperamos que alguém resolva os problemas por nós. Cada pessoa tem seus limites, suas responsabilidades e suas formas de participação, mas a democracia precisa dessa disposição de não entregar inteiramente aos outros a tarefa de decidir o nosso futuro.

É aqui que Gonzaguinha entra nessa conversa com a força de quem conhece a dignidade e as contradições da vida comum. Em “É”, ele não pede privilégios. Quer que o trabalho tenha valor, que o afeto seja respeitado, que as pessoas possam viver com saúde, liberdade e felicidade. E há uma reivindicação que atravessa toda a canção: queremos ser cidadãos, não apenas figurantes de uma história escrita por outros.

Quando o estudante de Direito Paulo Victor de Almeida Coelho, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, reivindica melhores condições para que todos possam estudar e concluir uma universidade pública, o que está em jogo é muito mais do que uma questão educacional. É a possibilidade de construir o próprio caminho, ampliar horizontes e participar da sociedade com mais autonomia. O sonho de uma nação democrática fica pela metade quando a origem social continua determinando quem terá acesso às oportunidades e quem precisará lutar muito mais para chegar aos mesmos lugares.

A estudante de pós-graduação Suelen Geovana, entrevistada pela Agência Brasil durante a manifestação de Copacabana, em 12 de outubro, também relacionou sua presença à defesa da democracia, da educação, da saúde e da igualdade. Sua trajetória, marcada pelo ingresso na universidade pública por meio de cotas, ajuda a lembrar que as políticas de inclusão não são números perdidos em relatórios administrativos. Elas podem representar mudanças concretas na vida de pessoas e famílias que, durante muito tempo, tiveram as portas da universidade praticamente fechadas.

É por isso que a democracia precisa ser discutida também a partir das condições de vida da população. Não basta garantir o direito de escolher representantes se tantas pessoas continuam sem acesso adequado à educação, à saúde, à cultura e às oportunidades de trabalho digno. Tampouco basta reivindicar melhores condições materiais sem reconhecer a importância das liberdades que permitem à sociedade se organizar, questionar governos e defender seus direitos. Uma coisa não elimina a outra. A democracia política e a justiça social precisam caminhar juntas.

Há ainda outra dimensão que me parece importante nessa aproximação entre as canções e as ruas: o encontro das gerações. Na manifestação de Copacabana, a professora aposentada Clara Davidorch, de 87 anos, relacionou sua participação à luta das mulheres pelo direito ao voto e à preocupação com o futuro dos filhos e netos. Sua presença nos lembra que os direitos que hoje parecem naturais foram conquistados por pessoas que, em outros tempos, também precisaram enfrentar resistências e sair às ruas.

A advogada Carolina Estrela, que levou os filhos à manifestação, chamou a atenção para o direito de discordar. E talvez seja uma das lições mais importantes que podemos deixar às novas gerações: democracia não é todo mundo pensar igual, muito menos concordar sempre com quem está no governo ou com quem ocupa a tribuna. É garantir que as diferenças possam ser expressas, que as divergências sejam debatidas e que ninguém precise abrir mão de seus direitos para ser reconhecido como cidadão.

O que essas vozes têm em comum não é necessariamente a mesma visão política, nem uma interpretação idêntica dos acontecimentos. São experiências diferentes, atravessadas por idades, histórias e expectativas próprias. Mas elas nos ajudam a perceber que a democracia ganha sentido quando deixa de ser apenas um assunto de especialistas e passa a fazer parte das preocupações concretas das pessoas.

E a cultura tem muito a ver com isso. Uma manifestação também se faz de canções, cartazes, imagens, encontros e gestos que ajudam a transformar inquietações individuais em expressão coletiva. Quem acompanha a trajetória dos movimentos culturais de base comunitária sabe que a participação não começa nem termina nas grandes mobilizações. Ela se constrói no cotidiano das associações, dos coletivos, dos Pontos de Cultura, dos grupos juvenis e das iniciativas de educação popular, onde as pessoas descobrem, muitas vezes na prática, que podem fazer coisas juntas e interferir na realidade em que vivem.

Em Sergipe, fortalecer essas experiências significa reconhecer que cultura não é enfeite de política pública, nem atividade que deve aparecer apenas nas festas ou nos calendários oficiais. É também formação cidadã, construção de vínculos, preservação da memória e criação de oportunidades para quem historicamente teve menos acesso aos bens e serviços culturais. Quando uma comunidade organiza seu grupo, recupera sua história, realiza uma atividade artística ou reivindica a continuidade de um espaço cultural, está exercitando uma forma de participação que ajuda a dar consistência à democracia.

É claro que ocupar as ruas não resolve tudo. As manifestações podem dar visibilidade a reivindicações, mobilizar pessoas e pressionar instituições, mas a transformação exige continuidade, organização e capacidade de converter demandas em políticas concretas. É preciso acompanhar os governos, participar dos espaços de decisão, fortalecer as organizações sociais e cobrar resultados. O voto tem sua importância, mas não pode ser tratado como uma procuração para que os eleitos façam o que quiserem até a próxima eleição.

Talvez seja justamente aí que “Coração Civil” e “É” se encontrem de maneira mais profunda. Uma nos convida a sonhar com um país em que a justiça e a liberdade sejam parte da vida comum; a outra nos lembra que esse sonho precisa aparecer no respeito aos direitos, nas oportunidades oferecidas à juventude e nas condições para que as pessoas vivam com dignidade. Uma fala da utopia coletiva; a outra nos chama a olhar para as necessidades concretas de cada cidadão.

Gosto de pensar que a utopia não é o contrário da realidade, mas aquilo que nos impede de aceitar a realidade como se ela fosse imutável. Sonhar com um país melhor não significa fechar os olhos para os problemas, nem acreditar que tudo se resolve com boas intenções. Significa reconhecer que as coisas podem ser diferentes e que essa mudança depende também da disposição de agir, de se organizar e de não abandonar a esperança diante das dificuldades.

Afinal, quantas vezes, ao longo da nossa história, direitos que pareciam impossíveis começaram a se tornar realidade porque alguém decidiu não se conformar? Quantas conquistas nasceram de encontros, conversas, mobilizações e da teimosia de gente que não tinha garantias de vitória, mas sabia que ficar de braços cruzados não era a única opção?

Volto, então, àquela imagem de “Coração Civil”: sonhar coisas boas e esperar pelos frutos no quintal. Mas fruto não aparece por milagre. Precisa de terra, cuidado, tempo e trabalho. A democracia também. Precisa de instituições que respeitem os direitos, de políticas públicas que enfrentem as desigualdades e de uma sociedade disposta a participar da construção do seu próprio futuro.

Enquanto isso não se realiza plenamente, cantar continua sendo uma maneira de lembrar o que nos falta e aquilo que não podemos perder de vista. Gonzaguinha nos recorda que queremos viver com liberdade, respeito e cidadania. Milton Nascimento e Fernando Brant nos convidam a não desistir da utopia de um país mais justo, onde o povo tenha voz e a alegria possa ser compartilhada.

No fim das contas, talvez seja essa a conversa que as duas canções mantêm com as manifestações destes dias: a democracia precisa de gente que sonhe, mas também de gente que participe; precisa de direitos escritos, mas igualmente de condições para vivê-los; precisa de memória para reconhecer as conquistas e de esperança para continuar avançando.

E, se o poeta é aquele que sonha o que pode se tornar real, como nos lembra “Coração Civil”, cabe a nós não deixar que o sonho termine quando a música acaba. Porque o Brasil que desejamos não será construído apenas por quem ocupa os palácios ou sobe aos palanques, mas também por quem, nas ruas e nos territórios onde a vida acontece, continua insistindo que a democracia deve servir à liberdade, à justiça e à dignidade de todos.

Fontes para consulta

Agência Brasil — Estudantes fazem atos pelo país em apoio a Lula.

Agência Brasil — Estudantes fazem ato no Rio de Janeiro em defesa de voto em Lula.

Agência Brasil — Milhares de pessoas lotam orla de Copacabana em apoio a Lula.

Agência Brasil — Ato pela reeleição de Lula leva milhares à Avenida Paulista.

O ETERNO AGITO. O jornalista José Teles escreve sobre Jomard Muniz de Brito falecido neste 12 de Outubro de 2026 no Recife.

 Foto de Jomard Muniz de Brito em uma de suas últimas vezes em que esteve com a gente, na Mamede Simões (atrás dele, o poeta Domingos Alexandre). Antes da pandemia. Nos conhecíamos desde que começamos, eu, Bione e Ral a fazer o. Papa-Figo, em 1984. Fosse pra agitar a província ele dava força. 

No começo de 2000, eu escrevia o Do Frevo ao Manguebeat, que teria um capítulo sobre o tropicalismo à pernambucana, que aconteceu praticamente simultâneo ao dos baianos. Aliás, dos dois, o que teve manifesto foi o daqui, e assinado por Gilberto Gil e Caetano Veloso. No entanto era desdenhado por quem escrevia sobre cultura local. 

Jomard me entregou seus arquivos, de fotos ao documento que o proibia de ensinar na Universidade Federal da Paraíba. Com este livro, também  com capítulo sobre o udigrudi pernambucano dos anos 70, os dois movimentos passaram a ser conhecidos nacionalmente. Jomard me foi sempre grato por isto. 

Tenho um livro de contos inéditos, pesados, influências de Rubem Fonseca, que tirou menção honrosa num concurso da Fundarpe, acho que em 89 (fui um dos vencedores do concurso anterior), Mário Helio era diretor de literatura ou algo assim. Um escritor de que não me lembro mais o nome, num artigo no DP, comentou os vencedores do concurso, e chamou meus contos de chulow e obscenos.

Resolvi publicá-lo. Jomard leu, e escreveu o prefácio, entusiasmado. Depois descobri que o conto que dava título ao livro, O Dia de Matar a Velha, era cópia, inconsciente, de um trecho do romance O Casamento, de Nelson Rodrigues. Perdi o tesão de lançá-lo. Ele ficou irado com a minha desistência, de vez em quando me cobrava o livro.

Enfim, Jomard esteve em todos os agitos acontecidos no Recife, Olinda, e adjacências, desde início dos anos 60. O espaço é curto pra tantas peripécias. Volto a ele. 

CONVITE. Segunda às 20h no Instagram romerojunior4503 tivemos uma live sobre a obra e a vida de Jomard Muniz de Britto... Tropicalismo, as relações com Paulo Freire, a universidade e o curso de filosofia, o cinema marginal super8, a poesia e as agitações culturais entre Recife e João Pessoa.







Flávio quer destruir o que faz do Brasil um dos lugares mais maravilhosos do mundo

 Opinião - Folha de São Paulo

Se eleito, senador do PL tentará apagar uma liberdade que existe em poucos países; político quer uma sociedade do medo e tornaria a vida dos pobres mais difícil

Edouard Louis

Escritor francês, é autor de "Para Acabar com Eddy", "História da Violência" e "Quem Matou Meu Pai", publicados no Brasil pela Tusquets.

Estou com medo. Estou com medo porque Flávio Bolsonaro pode vencer a eleição para presidente no Brasil, e o que ele quer é destruir tudo o que faz do país um dos lugares mais maravilhosos do mundo.

Eu só estive algumas vezes no Brasil. Passei apenas algumas semanas neste país. Não pretendo compreender toda sua complexidade. Eu não conheço em detalhes a história do Brasil nem sua geografia ou o conjunto das culturas que o compõem. Há tanta gente no mundo, a começar pelos próprios brasileiros, que têm muito mais a dizer do que eu sobre este lugar do planeta.

No entanto, apesar das limitações do meu conhecimento, eu sei de uma coisa: tudo que eu vi em minhas viagens ao Brasil, tudo de que testemunhei, tudo que constitui a beleza, a força e a singularidade desse país, Bolsonaro quer destruir.

A sublime e misteriosa floresta amazônica, sem a qual a humanidade não pode sobreviver, e graças à qual a oxigenação do planeta é respirável, o que Flávio Bolsonaro, assim como seu pai fez antes dele, quer destruir entregando-a aos grandes proprietários agrícolas e latifundiários. Ele quer apagar a diversidade cultural e étnica da floresta amazônica.

Toda essa liberdade, que existe em tão poucos países no mundo, Flávio Bolsonaro tentará apagar, dando cada vez mais espaço ao fundamentalismo religioso, opondo-se aos direitos das pessoas transgênero, gays e lésbicas, como fez tantas vezes no Senado e na Câmara, atacando os direitos reprodutivos e a dignidade de mulheres. Ele quer apagar uma liberdade que existe em pouquíssimos lugares do mundo.

O Brasil é também todas as vezes em que vi dois homens se beijando, ou duas mulheres, com total liberdade, na praia, em frente ao mar nas noites de verão, nas bares no Rio ou nas ruas quentes de São Paulo à noite, no samba do trabalhador ou nas areias de Paraty durante o festival de Flip.

Na verdade, todas as vezes que estive no Brasil, vi homens e mulheres se misturando de uma forma única: homens brancos, pretos, indígenas, todos dançando, cantando e rindo nas rodas de samba, celebrando a vida. Essa cultura da alegria, da amizade e da celebração popular, contra a qual a família Bolsonaro sempre declarou guerra aberta, ao atacar o Carnaval ou os desfiles de rua, supostamente ameaçadores e 'ofensivos à família tradicional'.

Eu tenho plena consciência de que, ao evocar minhas lembranças do Brasil e meu conhecimento muito limitado do país, não estou mencionando os problemas enfrentados pela sociedade brasileira, as desigualdades, a violência, a pobreza, a corrupção.

Mas, justamente, Flávio Bolsonaro não vai mitigar e sim agravar todos esses problemas. Bolsonaro quer uma sociedade do medo, da violência, da prisão, do ódio, da polícia, que da mesma forma que seu pai tornou a vida dos mais pobres e vulneráveis ainda mais difícil.
O que Flávio Bolsonaro quer é um Brasil vazio, ou seja, um Brasil esvaziado de tudo que constitui a força e a grandeza do Brasil, sua identidade.

O sonho de Flávio Bolsonaro é um Brasil submisso aos Estados Unidos e a serviço deles, um Brasil em que os bilionários possam continuar a devastar o país em detrimento do povo, um Brasil de prisões, armas de fogo, um Brasil em que o medo reinará, um Brasil em que os brancos terão medo dos negros, os negros da polícia, um Brasil em que os pobres terão medo dos pobres, em que os jornalistas terão medo de se expressar.  

Jovens, sambistas e lideranças políticas tomam os Arcos da Lapa para virar votos no 2º turno🔥





Mídia NINJA

O que foi esse ato dos sambistas nos arcos da Lapa?
O samba não se cala e o povo canta junto!

foto: WAGNER RODRIGUES






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