sábado, 17 de outubro de 2026

45 dos 59 eleitos com até 29 anos para a Câmara e as Assembleias Legislativas (76,3%) são de direita. Nem toda juventude é linda! Então, como fazer crescer a rapaziada em que Gonzaguinha acreditou e defendeu?

"45 dos 59 eleitos com até 29 anos para a Câmara e as Assembleias Legislativas (76,3%) são de direita, mostrando que “nem toda juventude é linda” como sugere a canção do 14 Bis e recolocando a pergunta de Gonzaguinha em “E Vamos à Luta”: como fazer crescer a rapaziada em que ele acreditava? O desafio, apontam educadores e movimentos culturais, é converter energia juvenil em organização comunitária e participação cidadã duradoura, ncluindo pelo meio digital".

 O que a eleição de uma estreante deputada federal de 24 anos do Rio revela sobre a onda de direita no Brasil 

Julia de Castro, sorridente, em cima de um carro de som, faz o gesto de V com a mão; atrás, manifestação bolsonarista, com pessoas vestidas de verde e amareloCrédito,Reprodução/Facebook/@juliadecastrobr

Julia de Castro (PL-RJ), de 24 anos, nunca havia disputado uma eleição até 2026.

Nascida em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, a historiadora formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) resolveu contrariar o roteiro mais comum de quem começa na política: em vez de testar seu nome em uma disputa local, estreou nas urnas com a ambição de conquistar uma vaga na Câmara dos Deputados, em Brasília.

A aposta foi alta. Para alguns colegas de chapa, uma decisão precipitada. O resultado, porém, superou as expectativas.

Com 103.880 votos, Julia teve desempenho melhor do que veteranos como Glauber Braga (PSOL), Jandira Feghali (PCdoB) e Wladimir Garotinho (PL). Tornou-se, da noite para o dia, a deputada federal mais jovem do Rio de Janeiro.

Embora pouco conhecida do público acima de 35 anos, Julia já contava com uma base fiel de apoiadores nas redes sociais. Seu nome começou a circular em perfis da direita em 2022, quando passou a expor, em vídeos, as hostilidades que sofria por ser eleitora de Jair Bolsonaro (PL). Desde então, tem ampliado sua audiência com conteúdos críticos à esquerda.

A pouco mais de um mês da eleição, em 31 de agosto, Julia tinha 447 mil seguidores no Instagram. Segundo levantamento da consultoria Bites feito a pedido da BBC News Brasil, 60% deles tinham entre 18 e 34 anos. O maior grupo era formado por mulheres pouco mais velhas do que ela — de 25 a 34 anos — que somavam um quarto de toda a audiência.

"Toda eleição, desde 2022, perguntavam se eu iria me candidatar, e eu falava que não. Em 2024, esse bombardeio foi mais intenso, mas eu achava que precisava me preparar mais, ter um pouco mais de casca, de traquejo político, de vivência partidária", diz a deputada eleita.

"Talvez por isso minha primeira eleição tenha sido tão exitosa, porque ela foi no momento certo em relação à carreira que construí na política."

Como as eleições de 2026 mostraram, o sucesso eleitoral de Julia não foi um fenômeno isolado. O pleito ampliou a presença da direita no Congresso, puxada sobretudo pelo PL, que passou de 97 para 121 deputados e elegeu 19 das 54 cadeiras do Senado em disputa.

Nesse movimento, a congressista integrou uma leva de políticos de direita com menos de 30 anos que se elegeram depois de construir capital político nas plataformas digitais, sobretudo entre jovens de até 34 anos.

Os números indicam que 45 dos 59 eleitos de até 29 anos para a Câmara e as assembleias legislativas (76,3%) são de direita. Segundo o Monitor Jovem DX, projeto do Instituto Democracia em Xeque em parceria com o Núcleo de Pesquisas em Psicologia Política e Movimentos Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), sete dos dez candidatos que mais geraram interações nas redes sociais foram eleitos. Cinco deles, de direita.

Entre os casos de maior projeção estão Lucas Pavanato (PL-SP), de 28 anos, que tinha 5,6 milhões de seguidores no Instagram e bateu o recorde de votação para deputado federal em São Paulo, com mais de 3 milhões de votos; e André Fernandes (PL-CE), 28, que reunia 3 milhões de seguidores e foi o mais votado do Ceará, com 684 mil votos.

A pesquisadora Beatriz Besen, coordenadora do Monitor Jovem DX e especialista nos estudos de novas direitas, afirma, porém, que o bom desempenho nas redes sociais não bastou, sozinho, para determinar a eleição dos candidatos.

Segundo ela, o êxito se dá quando a audiência se combina com financiamento, apoio de lideranças, capital político familiar e experiência em disputas anteriores. Para Besen, a direita foi a que melhor entendeu a estratégia multifatorial.

"Houve um investimento grande [da direita] em lançar candidaturas jovens com uma trajetória de influência digital prévia", diz Besen.

"Isso me parece algo que vem sendo construído desde as últimas eleições federais, já sendo colocado em prática nas eleições municipais, mas funcionando de forma mais sistemática nessas eleições."

A fórmula do sucesso de Júlia — e do PL

A trajetória de Julia de Castro é um bom exemplo de como o sucesso eleitoral depende do entrelaçamento entre a popularidade nas redes e a política institucional.

Pouco depois que seus vídeos ganharam tração na direita, Julia participou como influenciadora, em outubro de 2023, de uma conferência conservadora no Rio ao lado, entre outros políticos, dos deputados Luiz Lima e Márcio Gualberto, ambos do PL.

Menos de um mês depois, foi nomeada secretária parlamentar no gabinete de Lima, onde permaneceu por um ano e meio. Depois, em 2025, tornou-se assessora no gabinete de Gualberto na Assembleia Legislativa do Rio e assumiu a vice-presidência nacional do PL Jovem.

No PL Jovem, Julia diz ter começado a montar diretórios, fazer palestras, participar de curso de formação e viajar pelo Brasil para conhecer colegas de direita. Em 2026, recebeu o convite para se filiar ao partido e sair candidata.

"Como eu já tinha esse relacionamento próximo com o partido, foi algo muito natural", diz Julia.

"Pude entender antes como funciona a formação de bases, de diretórios, de filiados, como é que funciona o estatuto, o que é que o partido propõe, quais são as suas agendas, suas propostas, como é estar dentro de um organismo quase que empresarial. Eu era de uma política de internet, muito mais, digamos assim, do campo das ideias e da intelectualidade, do que do campo partidário, que é a política vivida dia a dia na prática."

Na campanha de 2026, o vínculo de Julia com a estrutura partidária resultou em ganhos de verba. A Direção Nacional do PL repassou R$ 500 mil à sua candidatura, valor que respondeu por cerca de 84% do arrecadado por ela.

Parte do dinheiro foi usada para ampliar sua presença tanto nas redes quanto nas ruas: até a prestação parcial, a campanha havia gasto R$ 104,5 mil com impulsionamento de conteúdo e R$ 76,1 mil com militância e mobilização.

Julia diz que pôde usar a verba como quis, sem imposições do PL. "Existiu ali sim uma intenção de fortalecer nossos nomes de forma unitária por parte de certos publicitários do partido, marqueteiros, mas nada orquestrado, nada de forma imposta, e sim sugestões", diz.

"Isso achei muito legal no partido: mesmo você sendo um candidato jovem, ele não te coloca na posição de inexperiente."

Segundo Besen, o PL foi o partido que soube melhor identificar jovens que já tinham audiência e, assim, oferecer condições para que essa influência se transformasse em candidatura competitiva. A sigla conseguiu, segundo ela, articular "visibilidade, apoio de lideranças e estrutura partidária".

O resultado veio nas urnas. O partido da família Bolsonaro foi o que mais elegeu candidatos jovens: 17 de 57 candidaturas — cerca de 30%.

Em comparação, o Missão, partido que mais lançou candidatos jovens, não elegeu nenhum dos 168 nomes. O PT, por sua vez, o segundo com mais candidatos sub-30 eleitos, teve êxito em 8 de 43 candidaturas, um aproveitamento de 18%. Já PSOL e Novo conseguiram ter aproveitamento baixo, de 2,1% e 1,7%, respectivamente.

Ao combinar uma identidade com apelo nas redes a audiência própria e apoio direto de lideranças nacionais, esses candidatos chegam aos partidos com parte do capital político já construído.

Besen destaca também uma comunicação mais agressiva da direita como estratégia eficiente de mobilizar audiência e catapultar quadros novos. Ela cita a mobilização de cortes, conteúdos de ataque e confronto e uma forte delimitação de identidades políticas.

"Isso tem um efeito nas redes: a mobilização de emoções e as estratégias de direcionamento, que também envolvem financiamento, dão resultados", diz Sainz.

É uma estratégia de persuasão e recrutamento diferente da esquerda. O PT, diz Sainz, embora também tenha elegido jovens com forte presença digital, como Ana Elisa (PT-MG), de 21 anos, costuma buscar nomes em espaços historicamente ligados aos partidos.

"A esquerda tende a recrutar via juventudes partidárias, movimento estudantil e movimentos sociais, com mais dependência da estrutura do partido", afirma. "Mas esse quadro pode estar mudando."

Julia de Castro diz acreditar que o sucesso dos jovens eleitos está relacionado a uma relação mais próxima — e cotidiana — com o público. Segundo ela, a nova geração que brotou do campo digital rompe com a imagem do político distante que só expõe detalhes pessoais em época de campanha.

"Além de o povo esperar uma renovação, nós construímos a nossa carreira política através do contato direto com o nosso público. Ele sabe quem nós somos para além de figura pública", diz. "Muitas vezes sabem os nossos gostos, nossa família, nossa história e formação."

Dinheiro importa, mas não explica tudo

Outro fator importante para a vitória nas eleições dos jovens de direita foi, segundo Sainz, o acesso a recursos.

Ele ressalta que o partido mais exitoso, o PL, ficou com a maior fatia do fundo eleitoral: R$ 881,7 milhões, bem acima dos R$ 615,4 milhões destinados ao PT. Na avaliação do pesquisador, dinheiro não produz votos automaticamente, mas ganha muito peso quando se combina com outras vantagens competitivas.

"Nossa hipótese é que o sucesso da juventude depende de recursos desigualmente distribuídos: financiamento, estrutura partidária, padrinhos políticos e, cada vez mais, capital digital", diz Sainz.

"Candidaturas que mobilizam pautas de alto engajamento nas redes convertem atenção em capital político, o que pode reduzir a dependência da máquina partidária tradicional."

Os dados do Monitor Jovem apontam para a mesma direção. Entre os 59 jovens eleitos, a associação entre recursos públicos recebidos e percentual de votos válidos foi positiva, mas fraca.

Isso significa que candidatos mais financiados tenderam, em média, a ter desempenho um pouco melhor, mas o volume de dinheiro esteve longe de determinar quantos votos cada um receberia.

Lucas Pavanato recebeu R$ 2,86 milhões e chegou a 3 milhões de votos; André Fernandes contou com R$ 3,1 milhões e teve 684 mil. Já a deputada estadual Eduarda Campopiano (PL-SP), de 23 anos, alcançou quase 2 milhões de votos com R$ 725 mil, enquanto a federal Ana Júlia (PT-PR), de 26 anos, com R$ 2,97 milhões, recebeu 184,7 mil votos.

As campanhas milionárias, de toda forma, foram exceção no conjunto das candidaturas jovens. Entre os que disputaram uma vaga na Câmara, a mediana de recursos públicos foi de cerca de R$ 5 mil entre os homens e R$ 14 mil entre as mulheres.

E houve quem se elegesse sem receber dinheiro dos fundos. Emerson Freitas (MDB-PE), de 26 anos, dono de um perfil no Instagram com mais de um milhão de seguidores, conquistou uma vaga na Assembleia de Pernambuco com 49,2 mil votos e nenhum recurso do fundo eleitoral. Quase todo o valor arrecadado — R$ 37,3 mil — veio diretamente de pessoas físicas; outros R$ 1,3 mil foram arrecadados por financiamento coletivo.

O poder dos padrinhos digitais e do capital familiar

Eleito como o deputado federal mais votado do país pela segunda vez consecutiva, Nikolas Ferreira (PL-MG) ocupa um papel central no ecossistema da jovem direita do PL.

Segundo Besen, o congressista atua como uma espécie de padrinho digital: ajuda a formar quadros nas redes sociais e a catapultar capitais políticos já em construção ao ampliar alcance, legitimar nomes e conectá-los a uma audiência maior. Ela cita Lucas Pavanato, Eduarda Campopiano e Julia de Castro entre os beneficiados por essa rede.

Esse apoio pesa porque, segundo a pesquisadora, o capital digital raramente nasce durante a campanha. Em geral, os candidatos já chegam à eleição com audiência própria. O papel de lideranças como Nikolas é acelerar essa projeção e transformar visibilidade dispersa em força política concentrada.

"É difícil construir do zero, durante a campanha, uma audiência que se converta em votos", diz Besen. "Os candidatos podem ganhar seguidores, mas o principal movimento é mobilizar e engajar uma audiência já existente. Altos níveis de engajamento podem ampliar a circulação dos conteúdos para além dos próprios seguidores, permitindo alcançar novas pessoas e, potencialmente, furar bolhas."

Os padrinhos digitais convivem também com uma forma bem mais antiga de chegar à política: mais da metade dos jovens eleitos em 2026 — 31 de 59 — tinha capital político familiar. Entre eles estão Alvinho Lira (PP-AL), filho de Arthur Lira; Lula da Fonte (PP-PE), filho do deputado Eduardo da Fonte; e Carlos Muniz Filho (PSDB-BA), filho do presidente da Câmara Municipal de Salvador.

Os dois caminhos podem se misturar. Alvinho, de 20 anos, por exemplo, herdou um sobrenome de peso na política alagoana, mas também construiu presença própria nas redes durante a campanha.

Nos dois últimos levantamentos regionais do Monitor Jovem antes da eleição, foi o jovem candidato a deputado federal com mais interações em Alagoas: somou 11,2 mil interações em 37 publicações entre 31 de agosto e 13 de setembro e 36,1 mil em 49 posts nas duas semanas seguintes. Acabou eleito com 172.628 votos, a maior votação para o cargo no estado.

De onde vem esse movimento — e para onde ele vai?

Estudos dão conta que parte da vantagem da direita na eleição de jovens candidatos começou a ser construída mais de uma década atrás.

O artigo As juventudes de direita redescobrem as ruas, publicado em 2025 pelos pesquisadores Gustavo Paccelli e Christiane Jalles de Paula, argumenta que, a partir de 2013 e sobretudo nos protestos de 2015 e 2016, jovens de direita passaram a acumular experiência de mobilização, redes de apoio e repertórios próprios de atuação política.

Os autores descrevem uma mudança gradual: se em 1992 a presença das juventudes de direita era marginal, em 2013 esses grupos passaram a disputar com mais força o sentido das manifestações, ao explorar pautas como anticorrupção e antipartidarismo e ampliar a presença nas redes.

Em 2015 e 2016, movimentos como MBL e Vem Pra Rua já combinavam mobilização de rua, comunicação digital, marketing político e apoio empresarial, uma infraestrutura que ajudou a transformar militância em capital político.

Algumas lideranças daquele ciclo, como Kim Kataguiri e Fernando Holiday, converteram a projeção em mandatos. Protagonizaram, assim, uma passagem da mobilização — tanto digital quanto nas ruas — para a política institucional.

Besen concorda que o movimento das novas direitas no Brasil ganhou força e visibilidade com as mobilizações de 2013 e 2015 e com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), mas vê esse processo como mais difuso.

Muitos dos candidatos mais jovens que acompanha, sobretudo os que ainda não chegaram aos 24 anos, situam o início da própria trajetória política nas eleições de 2018 ou durante a pandemia. Para ela, esses momentos coincidem com uma expansão do uso das redes sociais como espaço de informação, formação de identidade e sociabilidade política.

É também no pós-pandemia, segundo a pesquisadora, que se torna mais visível a expansão de identidades conservadoras e religiosas entre jovens. Ao mesmo tempo, influenciadores e militantes conseguem transformar audiência em projeção pública e, em alguns casos, essa projeção se converte em capital eleitoral.

Para Besen, foi essa combinação — construída ao longo de diferentes ciclos, e não apenas a partir de 2013 — que ganhou peso nas eleições de 2026.

"Acho que estamos diante de um processo mais duradouro, que está para além do Brasil", diz Besen. "Mas isso não significa que as tendências das próximas eleições estejam definidas."

A pesquisadora sugere que a direita acaba fornecendo uma resposta mais direta ao jovem que se sente frustrado ou desesperançoso quanto ao futuro. "A ideia que tem se propagado nas redes é justamente que esses jovens têm chances de enriquecer rapidamente, mudando sua forma de agir, seus hábitos e sua mentalidade", afirma. "Esses conteúdos têm mobilizado muito os jovens, principalmente homens."

Besen ressalta, porém, que nas suas pesquisas aparecem contradições dentro das posições políticas dos jovens. Muitos navegam entre posições progressistas e conservadoras.

"Essas identidades não estão fechadas, e isso também precisa ser considerado quando falamos de juventude", afirma Besen. "Tivemos sim uma expansão dessas identidades, mas resultados amplos de pesquisas sobre juventude e política não permitem afirmar que a juventude, como um todo, tem se orientado à direita."

14 Bis - Linda Juventude


ANA ELISA fala sobre como ENFRENTAR seus ADVERSÁRIOS POLÍTICOS!





sexta-feira, 16 de outubro de 2026

⭐️🐆 MANIFESTO CULTURAL — A CULTURA TAMBÉM É CAMPO DE LUTA!

Domingo, 18 de outubro, depois dos atos que estarão rolando pela cidade, nossa casa se transforma em espaço de diálogo, encontro e manifestação política através da arte. ✊⭐️


Vamos discutir estratégias, fortalecer nossas redes e refletir sobre o papel da cultura no cenário político atual. Porque defender a democracia é também defender o direito de criar, existir, ocupar espaços e imaginar outros futuros possíveis.
]

🗣️ 18h às 20h — RODA DE CONVERSA

Um encontro entre artistas, educadores, produtores culturais, comunicadores e representantes da nossa comunidade para trocar ideias e pensar estratégias de mobilização e resistência.

🎙️ Com a participação de:

• Paulo Antônio — músico, produtor musical e mestrando em Música pela UFBA
• Disfalq — educadora, mestra em Cinema e clubber
• Dona Onça — artista, produtora cultural e mestra em Comunicação
• Ana Lucia — ex-secretária municipal de Educação de Aracaju e estadual da Inclusão, Assistência e Desenvolvimento Social de Sergipe; Doutora Honoris Causa pela UFS
• Alisson Basílio — jornalista e representante da comunidade ballroom

🎤 20h às 23h — SHOWS & MANIFESTOS

A arte como voz, corpo, memória e instrumento de transformação. Uma noite de apresentações para celebrar nossa potência coletiva e reafirmar que a cultura não se cala!

✨ Anne Carol
✨ Oduma
✨ Diane Veloso
✨ Chevie
✨ João Falcão
✨ Mali
✨ Dona Onça

🎨 EXPOSIÇÃO ARTÍSTICA

📸 Somb — fotografia
🖼️ Aganju — artista visual

📍 ONÇA — Casa de Cultura e Arte
Rua Dom José Thomáz, nº 555, São José
📅 18.10, sábado, a partir das 18h
🎟️ ENTRADA GRATUITA!

A luta também acontece nos palcos, nas ruas, nas pistas, nas nossas palavras e nos encontros que nos fortalecem. Que a nossa arte seja ponte, abrigo, estratégia e enfrentamento.

Vamos à luta, feras latinas! Não estamos nessa sozinhas. ⭐️🐆✊🏾


A iniciativa acima e um bom exemplo de politização da cultura e culturalização da politica como apresentado no artigo abaixo.

Quando o município muda o mundo, por Célio Turino

 


Para Telma de Souza e uma geração que fez da política

um gesto de cuidado com a vida

Telma de Souza faleceu no dia 10 de outubro de 2026, entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial brasileira, ela tinha 82 anos. Quem foi essa mulher?

Antes de falar dela, falo do tempo em que ela governou a cidade de Santos. Uma ilha que carrega o mundo dentro de si, portuária de chegadas e partidas. Pelo porto entram e saem riquezas, línguas, culturas, também entram dores, pragas e epidemias, como cargas invisíveis, dessas que se instalam nos corpos e ultrapassam fronteiras sem pedir licença. Nem tudo que vai pelos mares vem acondicionado em contêineres. Nos anos 1980, enquanto o mundo, assustado, conhecia uma epidemia sem nome, que sequer sabia enfrentar, Santos tornava-se um dos epicentros da doença. A intensa circulação portuária, as desigualdades, o compartilhamento de seringas, a exploração sexual, a desinformação e os preconceitos compunham uma geografia cruel. Os índices de infecção pelo sangue e pelo sémen alcançavam patamares alarmantes. O medo caminhava pelas ruas, e, como tantas vezes na história, procurava culpados antes de encontrar soluções. A doença ganhou um nome, AIDS. Os doentes, sabia-se que morriam rapidamente, empalideciam, adoeciam, emagreciam, sentiam dores, perdiam o ar, e eram transformados em estatística, estigma. Considerada uma das cidades com maior índice de infecção por AIDS no planeta, parecia que a cidade iria acabar, como pensou-se que acabaria sob Febre Amarela do início do século XX. Lugar a ser evitado e temido, em que a ignorância vestia roupa da virtude, e a morte, antes de chegar, vinha acompanhada de sentença moral.

Então veio 1988 e uma mulher foi eleita prefeita da cidade, Telma de Souza. Parece pouco, dito assim. Uma eleição municipal, mais uma alternância de poder na jovem democracia brasileira, ainda aprendendo a respirar depois de duas décadas de ditadura. Mas há acontecimentos cuja grandeza não cabe no instante em que ocorrem. São sementes. Precisam do tempo para revelar a extensão de suas raízes, e quando a árvore abre a copa, sequer sabemos de onde a semente veio. Telma compreendeu algo que a política, tantas vezes, esquece, não se enfrenta uma epidemia combatendo as pessoas que adoecem, vence-se uma epidemia cuidando delas. A prefeitura agiu. Serviços de saúde foram estruturados, a prevenção ganhou as ruas, o diálogo alcançou populações que até então só conheciam a presença do Estado pela repressão ou pelo abandono. A política pública não trouxe a cura, inventou a prevenção, distribuíram preservativos na zona do meretrício, atenderam com humanidade as pessoas vivendo com HIV, realizaram trabalho com profissionais do sexo, adotaram medidas de redução de danos entre usuários de drogas injetáveis. Medidas que hoje podem parecer evidentes, mas que naquele tempo desafiavam tabus e poderes. Não foi apenas uma política sanitária, foi uma mudança na própria compreensão do humano.

Creio que pela primeira vez, ao menos no Brasil, uma política pública compreendeu o corpo para além de um território de julgamento. O outro, aquele infectado, quase um espectro de zumbi, deixava de ser ameaça para ser reconhecido como parte de nós; humanidade não é atributo individual, é relação, e uma sociedade que abandona os seus mais vulneráveis mutila a si mesma. Santos ajudou a abrir caminhos que seriam percorridos pelo Brasil e por experiências internacionais, sendo referência em redução de danos e prevenção. Articulou saúde e direitos humanos como resultado da ação clarividente de uma prefeita e sua equipe, contribuindo para uma nova inteligência pública diante da epidemia. O porto, antes imagem de uma epidemia global, tornava-se metáfora de sua resposta. A cidade que recebera do mundo uma ameaça devolvia ao mundo uma esperança. O mesmo mar, outros caminhos. Não foi acaso.

Havia um tempo germinando sob o asfalto das cidades brasileiras. Décadas de resistência à ditadura, organização de trabalhadores, movimentos populares, comunidades eclesiais de base, sindicatos, associações de moradores, intelectuais, artistas, mulheres que já não aceitavam permanecer nas margens da história. Tudo isso vivíamos em 1988. A Constituição Cidadã era promulgada como resultado não só da ação no parlamento, era um tempo que vinha sendo tecido nas fábricas, periferias, universidades, nas greves e na coragem cotidiana de quem insistia em acreditar que o Brasil poderia ser muito melhor. Telma é expressão desse tempo e foi eleita prefeita nesses instantes em que a história parece acelerar sua própria respiração.

O Partido dos Trabalhadores, ainda jovem, conquistara prefeituras importantes; mais que vitórias eleitorais, foram aberturas para laboratórios de políticas públicas, construídas a partir da experiência com e para as pessoas. Em São Paulo, Luiza Erundina abriu caminhos para os mutirões autogestionários de moradia; e trabalhadores que construíam a cidade, mas dela eram expulsos, passaram a erguer suas próprias casas, tijolo sobre tijolo. Construía-se futuro comum. Na mesma gestão, a descoberta da vala clandestina de Perus ajudou a arrancar da terra a verdade que a ditadura tentara sepultar, e ossadas de desaparecidos políticos, misturadas às de tantos mortos anônimos, denunciavam o pacto de silêncio sobre a violência de Estado. Com ternura e coragem o governo de Erundina afirmou que não há futuro digno erguido sobre mortos sem nome. Das valas da ditadura às valas de outra pandemia, décadas depois, com o Covid, não nos esqueçamos dessa mensagem.

Em Campinas, onde participei como secretário de governo e depois de cultura, Jacó Bittar, líder petroleiro e primeiro presidente nacional do PT, fundador da CUT, também experimentava novos caminhos. O Passe Passeio foi a primeira política de tarifa zero no país, aos domingos, à época Campinas foi reconhecida como grande referência nacional em cultura, também a campanha pelo plantio de um milhão de árvores. Mobilidade, cultura, natureza, a cidade como organismo vivo, não como engrenagem mecânica. Plantar árvores era também plantar uma ideia de futuro, compromisso com gente que ainda nem havia nascido. Em Porto Alegre, Olívio Dutra abriu o orçamento público à participação popular. Com Orçamento Participativo e nas Assembleias Populares, a democracia deixava de ser abstração para tornar-se verbo conjugado coletivamente.

Santos, São Paulo, Campinas, Porto Alegre, entre outros municípios que tiveram a coragem de eleger candidaturas vermelhas, como São Bernardo do Campo, Santo André, Vitória, Piracicaba, Diadema; essa, já vinda de eleição anterior e que serviu de exemplo. Experiências diferentes a expressarem o município como lugar de realização da utopia. Pelo território, Telma mudou o mundo, realizou não a utopia suspensa num horizonte inalcançável, mas aquela que se deixa tocar. A utopia que se apresenta na chave de uma casa, na árvore plantada, no orçamento discutido, na memória recuperada, na seringa que deixa de transmitir o vírus, na mão que acolhe alguém que todos rejeitaram. Cuidou de sua gente. Sem a coragem daquele momento, sem a escolha daquelas políticas, hoje, o convívio com o vírus HIV e o enfrentamento à doença não teria o sucesso que teve.

Uma utopia do cuidado que mudou uma cidade, o Brasil e o mundo. E a maioria das pessoas sequer sabe disso. Há filosofia e política contida nesses gestos, da prefeita Telma, de Erundina e tantos mais daquele período. A liberdade não se realiza na solidão, mas na construção do comum, e direitos não existem plenamente enquanto permanecem apenas escritos. A democracia não é um estado alcançado, mas um processo de criação humana contínua, obra inacabada, sempre ameaçada pela acomodação e pelo esquecimento. Lembro de Telma, homenageio sua vida no momento de morte ao mesmo tempo em que penso no que pode se abater sobre o Brasil daqui alguns dias. Paro. Reflito. Retrocederemos àquele período de antes ou honraremos aqueles que o mudaram?

Há revoluções que não tomam palácios, abrem postos de saúde. Em Santos, gente que poderia ter morrido encontrou cuidado, pessoas que viviam escondidas puderam procurar atendimento. A morte continuou existindo, mas deixou de ser aceita como destino inevitável dos abandonados. Tanta gente que vive com HIV nos dias atuais é tributária dessa coragem; e nem sabe disso. Trinta e oito anos depois daquela eleição, Telma de Souza parte às vésperas de mais um momento de decisão, agora, presidencial. O país novamente se interroga sobre seu destino. E a história, essa senhora de memória longa e paciência curta, parece perguntar sobre o que faremos com os sonhos que recebemos.

Muita coisa se perdeu pelo caminho. Não necessariamente as conquistas, algumas permanecem, incorporadas ao cotidiano, naturalizadas como se sempre tivessem existido. Perdeu-se a memória de sua construção, as novas gerações usufruem de direitos sem conhecer as lutas que os tornaram possíveis. Como historiador, afirmo que essa é uma das formas mais sutis de expropriação, roubar de um povo a consciência de suas próprias lutas, e quando um direito deixa de ser reconhecido como conquista, passa a parecer concessão. E aquilo que parece concedido pode ser retirado sem que se perceba a violência da retirada. Mas a história não desaparece quando deixa de ser contada. Permanece impregnada na pele. Na pele de quem sobreviveu à AIDS, de quem conquistou uma moradia, de quem encontrou um nome de um parente nos arquivos da repressão. Na memória de quem aprendeu a decidir sobre o orçamento de sua cidade (e que hoje não decide mais, vide Porto Alegre). Ela persiste no sorriso das crianças que brincam à sombra das árvores plantadas por uma geração anterior.

Nós somos feitos também dessas memórias que não sabemos possuir. Há fios invisíveis ligando uma decisão tomada em 1988 à vida de alguém que nasce em 2026. Fios da história (dei esse título ao meu livro de poesia). Alguns se rompem, outros permanecem subterrâneos, como raízes atravessando a terra à procura de água. Não os vemos, mas deles depende a floresta. Telma de Souza é uma dessas raízes. E há quem queira cortá-las. Escrevo sobre ela para falar de hoje, mais precisamente de daqui a alguns dias, quando o povo realizará sua segunda volta (gosto de como “segundo turno eleitoral” é dito em idioma espanhol, a segunda volta, como uma segunda oportunidade para não errar). O avanço da extrema direita, a disseminação do ódio, o desprezo pelo conhecimento científico, a transformação do diferente em inimigo e a naturalização da crueldade ameaçam mais que políticas públicas. Ameaçam uma concepção de humanidade arduamente construída, a ideia de que ninguém deve ser abandonado por sua condição social, identidade, escolhas ou doença. A ideia de que o Estado existe para proteger a vida, não para selecionar quais vidas merecem proteção. Essa é a Telma de Souza, expressão de um tempo em que a política se permitia experimentar, aprender, errar, corrigir, inventar. Quando a democracia não era defendida apenas como procedimento institucional, mas vivida como potência criadora.

Homenageio essa grande mulher, e chamo atenção, não para repetir o passado. A história não é círculo fechado, é espiral, retorna a lugares conhecidos, mas em outra altura, incorporando experiências, contradições, possibilidades. A semente não reproduz simplesmente a árvore de onde caiu, ela encontra outro solo, outras chuvas, outros ventos. E cresce. A lembrança de Telma, porém, não pode se resumir à homenagem. Homenagens podem se converter em monumentos fixos, e a política que ela (e tantos da geração dela) representou, era movimento. Era coragem de contrariar consensos injustos, de olhar para uma cidade ferida e descobrir nela não havia apenas problemas a administrar, mas vidas a libertar. A melhor homenagem a ela é continuar. Continuar quando o preconceito volta a se apresentar como moralidade e o autoritarismo se disfarça de ordem. Continuar quando a desesperança parece mais razoável que o sonho.

Por um instante, volto a Santos. Ia lá quando criança, eu, minha mãe e minha avó, que viveu em Santos no tempo que a cidade ficou conhecida como “Cidade Vermelha”, está nos Subterrâneos da Liberdade, de Jorge Amado. Imagino o porto ao amanhecer, os navios chegando e partindo; e o mar conservando sua indiferença antiga diante das disputas humanas. As ondas se quebram na areia longa, recuam, retornam. Foi um tempo bom e parecia infinito. O infinito também habita o pequeno, e uma vida salva contém um mundo.

Vá em paz, companheira Telma de Souza, a prefeita que, pelo cuidado, salvou o mundo inteiro.

Célio Turino – historiador, escritor, filósofo e poeta. Após 40 anos no serviço público, quando idealizou e implantou diversos programas, como Recreio nas Férias, Xadrez e Damas em Tampinhas, Cultura Viva e Pontos de Cultura, entre outros, agora se dedica a escrever e partilhar o que aprendeu com o povo. Seus livros mais recentes são: SEMENTEIRA (editora Autonomia Literária) e FIOS DA HISTÓRIA – poemas (editora Cloé)

Ouça abaixo: 

"Uma cidade parece pequena se comparada com o país,

mas é na minha, é na sua cidade que se começa a ser feliz."

https://open.spotify.com/episode/2sOyXA8QzBmvzZETErxx2e

"No olhar de quem chega do morro e da favela

De quem desce da janela do andar superior

Para brilhar juntos na justiça e na igualdade

Construindo esta cidade como o nosso Deus sonhou."



quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Conversas de chefão da Globo com Vorcaro incluem comentários sexuais sobre Deborah Secco e festas com ucranianas e + Festa no Apê com Latino, Brasil com Cazuza, Que país é este? e Perfeição com Legião Urbana

A proximidade entre os dois também aparece em reclamações do banqueiro sobre a cobertura jornalística de sua instituição financeira

Laís Gouveia

Publicado em 15 de outubro de 2026 às 07:26 - Do portal 247



247 – Mensagens extraídas do celular do empresário e ex-banqueiro Daniel Vorcaro revelam que Frederic Kachar, diretor-geral da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio, fazia comentários de cunho sexual sobre a atriz Deborah Secco e conversava sobre festas privadas organizadas pelo ex-controlador do Banco Master. Em um dos diálogos, o executivo afirmou que a artista “tava pra jogo” e declarou: “Eu só olhava pra bunda dela”. A proximidade entre os dois também aparece em reclamações do banqueiro sobre a cobertura jornalística de sua instituição financeira.

Os comentários sobre Deborah Secco ocorreram em uma conversa relacionada ao Baile da Vogue, evento para o qual Kachar havia negociado convites com Vorcaro. Ao recordar a festa, o executivo reclamou que a presença de sua ex-companheira havia impedido uma aproximação com outras mulheres.

“Me f0di. Minha ex foi e marcou em cima. E tava bom ontem”, escreveu Kachar.

Na sequência, o diretor mencionou Sabrina Sato e fez insinuações sobre a apresentadora. “A Sabrina tava pra jogo. Aniversário dela, soltinha”, afirmou.

Kachar também incluiu Deborah Secco em seus comentários. Vorcaro, por sua vez, criticou a aparência da atriz, afirmando que ela “tava muito feia kkk”. O executivo respondeu: “Mas concordo q a fantasia era broxante”.

“Ta doido, mulher não pode fazer isso”, acrescentou o banqueiro.

Em outra mensagem, Kachar comentou que Deborah seria madrinha de um camarote de Carnaval e atribuiu à atriz a intenção de aproveitar a condição de solteira. Os registros mostram avaliações sobre o corpo, a aparência e a suposta disponibilidade sexual das artistas, sem qualquer indicação de que elas tenham participado da conversa ou correspondido às insinuações.

Festas chamadas de “guerra na Ucrânia” e investigação sobre recrutamento de mulheres

As conversas sobre festas privadas também incluem referências à guerra na Ucrânia, expressão que, segundo as informações relatadas sobre os encontros, era utilizada por Kachar para se referir às comemorações. A expressão aparece em um contexto de eventos com a presença de mulheres estrangeiras, embora os registros divulgados não permitam estabelecer que todas as referências tivessem o mesmo significado.

Em uma das mensagens, Vorcaro mencionou uma noitada com modelos ucranianas e escreveu: “Hoje o plano é o ataque soviético”.

O conteúdo está relacionado a revelações mais amplas sobre as festas promovidas pelo ex-banqueiro. Reportagem publicada pelo UOL em 13 de outubro, assinada pelos jornalistas Natália Portinari, Cézar Feitoza e Fabio Serapião, apontou que Vorcaro teria financiado uma estrutura internacional de recrutamento de mulheres para encontros privados com empresários, autoridades e pessoas de seu círculo social.

Segundo a apuração, baseada em mensagens obtidas no âmbito das investigações da Polícia Federal, a estrutura envolvia mulheres estrangeiras, incluindo refugiadas da Ucrânia e mulheres da Rússia, Venezuela e Argentina, além de referências a participantes de outras nacionalidades, como a polonesa.

O esquema descrito nas mensagens incluía agenciadores responsáveis por selecionar participantes, organizar deslocamentos internacionais, reservar hotéis e providenciar pagamentos. As atividades teriam ocorrido a partir de 2023, com eventos em cidades brasileiras e destinos internacionais como Londres, Paris, Roma e Dubai.

Vorcaro teria destinado pelo menos R$ 4,3 milhões à operação e mantido participação oculta em uma agência utilizada na organização dos encontros. A reportagem identificou Diogo Batista e Leonardo Serrano entre os intermediários envolvidos na estrutura.

As investigações também examinam possíveis indícios de exploração sexual e tráfico internacional de pessoas. A existência de mulheres estrangeiras ou refugiadas nesses encontros, isoladamente, não comprova a ocorrência desses crimes, que dependem da apuração das circunstâncias de recrutamento, transporte e eventual exploração.

Vorcaro negou envolvimento em exploração sexual e contestou a divulgação das mensagens, alegando que os registros foram apresentados fora de contexto. O caso permanece sob apuração.

Vorcaro convidou executivo da Globo para festa “sem risco e sem celular”

Os diálogos entre Vorcaro e Kachar mostram que a relação entre os dois incluía convites frequentes para encontros privados.

Em uma conversa do início de 2024, após mencionar uma festa com modelos estrangeiras, o banqueiro solicitou ao diretor o contato de Roberto Marinho Neto, CEO da Globo Ventures, divisão de investimentos do Grupo Globo.

“Depois me passa o contato do Roberto”, escreveu Vorcaro.

Três dias depois, o ex-banqueiro voltou a procurar Kachar para convidá-lo a uma nova comemoração, desta vez com a promessa de privacidade.

“Se você animar, hoje tem. Fechei um lugar sem risco e sem celular para a verdadeira festa”, afirmou.

O executivo aceitou o convite: “É nessa que eu vou”.

“Você é meu convidado de honra”, respondeu Vorcaro.

A referência a um ambiente sem celulares chama a atenção diante das revelações sobre a organização dos encontros do banqueiro. Mensagens de outros integrantes da rede também mencionavam medidas para impedir que participantes utilizassem aparelhos telefônicos durante as festas.

Os registros, entretanto, não comprovam que Kachar tenha participado de atividades ilegais nem esclarecem o significado exato da expressão “sem risco” utilizada por Vorcaro.

No dia seguinte ao encontro, o diretor agradeceu ao banqueiro e fez uma brincadeira sobre o desgaste provocado pela festa.

“Será que alguém anotou a placa do caminhão que me atropelou? Obrigado pelo convite ontem”, escreveu.

Vorcaro respondeu que havia dormido apenas três horas e lamentou que o executivo tivesse permanecido pouco tempo no evento.

“Ídolo. Se eu faço isso, saio de ambulância do quarto”, reagiu Kachar.

O banqueiro também contou que participou da comemoração enquanto sua então esposa o aguardava em um quarto próximo. A revelação provocou outra manifestação de admiração do diretor: “Ídolo máximo, então. Isso eu jamais consegui”.

Executivo prometeu falar com Malu Gaspar após críticas ao Banco Master

Além dos encontros sociais, as mensagens revelam que Vorcaro recorria ao diretor da Globo para manifestar descontentamento com reportagens sobre o Banco Master.

Em uma das conversas, o banqueiro encaminhou uma reportagem da jornalista Malu Gaspar sobre processos envolvendo gestores da instituição financeira e reclamou do conteúdo.

“Isso é sacanagem demais fred, numa boa”, escreveu.

Vorcaro também classificou a sequência de publicações como uma “chuva de ataques” e criticou a atuação jornalística do Grupo Globo.

Kachar respondeu que tentava conversar com a jornalista e afirmou que a maneira de trabalhar de Malu Gaspar não era direcionada exclusivamente ao ex-banqueiro.

Ainda assim, o executivo demonstrou insatisfação com o conteúdo das publicações.

“Eu acho cansativo e desnecessário”, escreveu.

Em seguida, diante das reclamações de Vorcaro, prometeu: “Vou falar com ela”.

O diálogo mostra que o banqueiro tinha acesso direto a um integrante do alto escalão do conglomerado de comunicação para questionar reportagens sobre seus negócios. As mensagens, entretanto, não demonstram que a conversa prometida tenha ocorrido ou que tenha provocado alguma alteração na cobetura jornalística.

Banco Master patrocinou evento da Globo em Nova York

A proximidade entre Vorcaro e Kachar também se manifestava em relações comerciais. Em maio de 2024, o Banco Master patrocinou o Summit Valor Econômico Brazil-USA, encontro realizado em Nova York, nos Estados Unidos, com a participação de representantes do mercado financeiro e do setor empresarial.

Durante o evento, Kachar apresentou Vorcaro como “amigo”. O banqueiro participou da programação como um dos principais convidados.

O encontro também contou com a participação do colunista de O Globo Lauro Jardim, que apresentou um dos painéis. Outras mensagens divulgadas pelo DCM apontaram a existência de uma relação pessoal próxima entre o jornalista e o ex-controlador do Banco Master.

O conjunto de conversas documenta uma relação que combinava encontros sociais, convites para festas e interlocução profissional entre Vorcaro e integrantes do Grupo Globo.

As revelações surgem em meio ao avanço das investigações sobre os negócios do Banco Master e sobre a organização de eventos privados financiados pelo ex-banqueiro. Embora as mensagens exponham a proximidade entre os envolvidos, a eventual ocorrência de crimes relacionados ao recrutamento de mulheres e a existência de interferência na atividade jornalística são questões distintas que dependem de comprovação específica.



Que país é este? - Legião Urbana


Perfeição - Legião Urbana 



Escândalo Master
Mensagens apontam que Vorcaro aprovava e alterava reportagens do site Metrópoles antes de publicação.
Fontes - UOL e Brasil de Fato

Mensagens interceptadas pela Polícia Federal (PF) no aparelho celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro revelam que a direção do portal de notícias Metrópoles submetia reportagens à leitura prévia do empresário antes da publicação, atendia a pedidos diretos de alteração e exclusão de trechos e consultava o ex-controlador do Banco Master sobre pautas de seu interesse corporativo. As informações foram reveladas nesta quinta-feira (15) pelo UOL.

De acordo com o levantamento feito pelo portal a partir dos dados periciais da PF, ao menos 14 reportagens do Metrópoles foram enviadas a Vorcaro com antecedência entre 2024 e 2025. Desse total, 11 textos foram modificados para atender às exigências apresentadas pelo então banqueiro, além do registro de duas matérias produzidas e publicadas a pedido direto do empresário.

O canal direto entre o ex-controlador do Master e a diretora-executiva do Metrópoles, Lilian Tahan, foi consolidado em 2024, ano em que o conglomerado financeiro fechou um contrato de publicidade no valor de R$ 20 milhões com a empresa de comunicação.

O portal pertence ao ex-senador Luiz Estevão, que foi condenado a 31 anos de prisão por desvio de verbas públicas nas obras do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT-SP) e cumpre pena em regime aberto desde 2021.

Contrato milionário
Conforme os registros obtidos pelos investigadores, a aproximação começou em maio de 2024, articulada pelo consultor Guilherme Barros, que levou Tahan para um encontro com Vorcaro.

No mês seguinte, o banco efetuou o pagamento inicial de R$ 1 milhão ao site, seguido de outro repasse de R$ 900 mil em julho, formalizado sob a justificativa de projetos de educação financeira para empresas do grupo, como a seguradora Kovr e o banco digital Will.

Em novembro de 2024, a direção do site apresentou uma nova proposta comercial. Mensagens trocadas entre Vorcaro e a diretora de marketing do Master, Ana Matos, mostram que a executiva comentou: “Tá caro esse Metrópoles”. O banqueiro respondeu: “Coisa mais importante da nossa vida é esse Metrópoles”.

A contratação de R$ 20 milhões foi autorizada e quitada em 2025 por meio de quatro parcelas de R$ 5 milhões.

Ingerência sobre pautas
A troca de mensagens documenta intervenções pontuais na cobertura jornalística. Em 2 de abril de 2025, após o anúncio da tentativa de compra de 58% do capital do Master pelo Banco de Brasília (BRB), Vorcaro contestou uma menção publicada sobre uma suposta oferta de R$ 1 por ativos da instituição: “Proposta de 1 real nunca existiu”. Tahan respondeu de imediato: “Tiramos”.

Dias depois, a diretora do portal procurou o banqueiro para sugerir uma matéria: “Me diga o que acha: um comparativo entre o balanço dos bancos. Ajuda ou atrapalha?”. O empresário afirmou que seria positivo e pediu para analisar o material com antecedência para checar os dados, solicitação autorizada por Tahan. O texto foi veiculado no mesmo dia após a anuência do banqueiro.

A ingerência estendeu-se também a autoridades regulatórias e adversários políticos. Em agosto de 2025, Tahan submeteu a Vorcaro o rascunho de uma entrevista com o ex-presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, que mencionava o diretor Renato Gomes, responsável técnico por analisar a aquisição do Master pelo BRB e que se posicionava contrariamente à operação. A pedido de Vorcaro, as referências a Gomes foram retiradas da entrevista para serem guardadas para uma matéria própria.

Em seguida, a executiva encaminhou o perfil elaborado sobre o diretor do BC, intitulado “Técnico ou político? Quem é Renato Gomes”. Vorcaro solicitou a exclusão de menções à falência do banco, a inserção de especulações sobre um suposto “racha” no Bacen e a inclusão de rumores de que o diretor estaria negociando ida para grandes instituições financeiras privadas. Todas as alterações foram acatadas pela direção do portal.

As mensagens registram ainda pedido para desacelerar a cobertura sobre Ricardo Cappelli, então pré-candidato de oposição ao governo do Distrito Federal, que denunciava a operação envolvendo o BRB.

Ao ser questionada por Vorcaro se conseguiria “dar uma freada essa semana” na cobertura de Cappelli, Tahan respondeu: “Deixa comigo”. Em 17 de novembro de 2025, data em que Vorcaro foi preso pela PF na Operação Carbono Oculto, a diretora do site enviou textos sobre a negociação do Master com a empresa Fictor e publicou após aplicar revisões solicitadas.

Troca de mensagens mostra que Vorcaro aprovava textos e pautas do Metrópoles
O que diz a direção do Metrópoles
Ao UOL, Lilian Tahan afirmou que checar previamente com a fonte se o texto reflete o contexto concedido é uma prática que adota com personalidades dos setores empresarial, político e do Poder Judiciário.

A jornalista declarou que o contrato publicitário de R$ 20 milhões não possuía vinculação editorial e sustentou que o veículo publicou ampla cobertura sobre as dificuldades financeiras das empresas de Vorcaro, incluindo o Banco Master, a Ambipar, a Fictor e a Oncoclínicas.

Sobre a pauta referente a Renato Gomes, Tahan afirmou que o diretor do BC era figura relevante por seu posicionamento na compra do Master pelo banco estatal do DF. A respeito da menção a Ricardo Cappelli, a diretora pontuou que Luiz Estevão era crítico ferrenho da operação entre Master e BRB e que repassou ao próprio político análises que apontavam a inviabilidade financeira do negócio.



O alto executivo da Globo era amigo do mafioso sem a Globo saber? Por Moisés Mendes
Publicado por Moisés Mendes - Atualizado em 15 de outubro de 2026 às 21:03


A Globo demitiu Frederic Kachar do cargo de diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio do grupo. Kachar foi flagrado em conversas sobre sexo e mulheres com Daniel Vorcaro, que cobrava também controles sobre a linha editorial da Globo.

O sujeito era alto funcionário da Globo, com poder de decisão sobre conteúdos, mas a Globo vai dizer que ele se relacionava com o mafioso por amizade pessoal?

Kachar era da turma de Vorcaro por ser da Globo e ser poderoso. Como Flávio Bolsonaro e tantos outros que detêm poder em outras esferas das facções da direita.

Um poderoso do setor privado vai para o sacrifício pelas bandalheiras com o mafioso. Mas como ficam os ocupantes de altos cargos públicos que também recebiam favores do banqueiro nas áreas financeira e sexual?

A resposta é a oferecida pela realidade: ficam onde estão. Sob proteção do bolsonarismo, da velha direita, dos colegas e também das corporações de mídia.

Frederic Kachar poderia cair atirando, para que esse faroeste fique mais divertido. Seria bom vê-lo puxando mais gente da própria Globo para a cova.  

DANIELA LIMA revela mensagens CONSTRANGEDORAS de EX-DIRETOR da GLOBO a VORCARO


Kassio Nunes foi cúmplice de crimes sexuais contra mulheres praticados por Epstein brasileiro?
Precisamos saber quais poderosos da esfera pública se envolveram com tráfico humano, trabalho sexual escravo e pedofilia
16/10/2026 | 05h00 - Fonte ICL noticias


“Escravas”, “kengas”, “creche”. Era assim que as mulheres que faziam parte de uma rede de prostituição que seria administrada por Daniel Vorcaro e seus cúmplices eram chamadas. Eles tinham também preferência por refugiadas de guerra, mulheres em extrema vulnerabilidade, que eram exploradas sexualmente pelo ex-banqueiro e sua gangue.

Os detalhes do horror foram publicados essa semana em reportagem do UOL que mostrou mensagens que indicam que Vorcaro e seus “brothers” poderiam estar praticando tráfico humano, exploração sexual e outros crimes gravíssimos como pedofilia. O que mais pode significar meninas sendo chamadas de “creche”? Em uma das conversas, o próprio Vorcaro parece receoso com a idade das garotas. “A `Mucilon´ é muito nova, estou preocupado”, ele diz.

As mensagens mostram também que eles exploravam refugiadas de guerra da Ucrânia e da Rússia. Nas conversas com o promotor de eventos Diogo Batista, sócio de Vorcaro na “empreitada”, há diálogos como:  “Sobrou uma ucraniana aqui, gatinha. Vamos fazer a guerra no Brasil?”. Resposta de Vorcaro: “Eba! Nessa guerra tem que sobrar uma ucraniana para mim.”

Esse parece ser um fetiche comum entre a extrema direita. Em 2022, o então deputado Arthur do Val, o Mamãe Falei, viajou para a fronteira da Ucrânia e, em áudios enviados a amigos, disse que as mulheres de lá eram “fáceis por serem pobres”.

Essas mulheres, é preciso repetir, estão em condição de vulnerabilidade máxima como refugiadas. Diogo e Vorcaro citam, por exemplo, uma menina de 19 anos que não tinha como voltar para casa e que tinha conversado com a mãe, que falou sobre bombardeios”. O que eles fizeram é cruel e criminoso.

Seria horrível se falássemos de qualquer pessoa. Mas tudo piora quando lembramos que Vorcaro fornecia mulheres para figurões  brasileiros, que participavam de suas festinhas. Quantas autoridades importantes para decisões do país sabiam sobre as escravas, as creches e as refugiadas?

Epstein brasileiro? 
Vorcaro tentou ser uma espécie de Epstein brasileiro. O magnata americano, que morreu na prisão em 2019, após manter uma rede de exploração e tráfico de mulheres por décadas impunemente (a primeira denúncia contra ele foi feita em 1996, vejam só). Entre os acusados de participar de festinhas com menores de idade estão super poderosos como o príncipe Andrew, que perdeu todos seus títulos por causa disso, e o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton.

O Epstein brasileiro também serviu autoridades poderosas com mulheres, sabemos. Também essa semana, o mesmo UOL teve acesso a mensagens onde o cúmplice de Vorcaro afirma que, em uma das festas, um “ministro” estaria “no quarto com cinco meninas”. Outras mensagens, enviadas dias depois,  mostram o sócio de Vorcaro cobrando o pagamento de uma garota que “ficou com o Kassio”. A polícia federal trata o caso como se o tal ministro do fosse Kassio Nunes Marques, do STF. Ele é também o atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral na hora das eleições mais complicadas da história. Sim, parece coisas de filme.

Se a gente vivesse em uma sociedade que levasse crimes contra mulheres a sério, Kassio Nunes teria sido afastado imediatamente do STF e do TSE até o fim das investigações. Está provado que ele praticou crimes? Não. Mas é preciso investigar com rigor se ele não usou serviço das mulheres escravizadas, se as tais “cinco meninas” não eram menores de idade etc. Na verdade, se a gente vivesse em um país sério de verdade, ele mesmo teria se afastado se todos os seus cargos até que o caso fosse totalmente apurado.

Não é o que vai acontecer. Pelo contrário. Kassio Nunes parece tentar se livrar de qualquer jeito das investigações e a eleição de Flávio Bolsonaro parece ser seu bote de salvação. Ele passou os últimos dias (cruciais para a campanha) censurando, por exemplo, o  grupo de Whatsapp Exército de Lula, de apoiadores de Lula, com milhões de participantes. O tratamento desigual que ele dá para as duas campanhas é óbvio. Tentar se safar da cumplicidade (no mínimo) com os crimes sexuais e contra mulheres  praticados por Vorcaro e sua gangue não é o único motivo de sua clara preferência política, mas provavelmente é um deles.

Além de todos os detalhes sórdidos, o que torna o caso Epstein tão revoltante é o fato da sua rede de exploração de meninas vulneráveis, muitas delas crianças pobres recrutadas em portas de escola, ter operado impunemente por décadas com a cumplicidade de poderosos.

Não podemos deixar que o mesmo aconteça no Brasil e que a história se repita como farsa. A investigação da Polícia Federal precisa continuar e expor a ligação de todos os poderosos com esses crimes tão graves. Sejam eles quem forem. E, claro, quem cometeu crime precisa pagar, independentemente  de quem ganhar as eleições.