segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Duas canções, um país: “Roda Viva” e “Nem 5 Minutos Guardados” como chaves de leitura do Brasil de 2026

 Parte I — “Roda Viva” e o luto político do primeiro turno

A canção “Roda Viva”, composta por Chico Buarque em 1967, surgiu em plena ditadura militar, quando a censura, a repressão e o cerceamento das liberdades públicas marcavam a vida política e cultural do país. A metáfora da roda-viva expressa a sensação de que o tempo e o sistema opressor arrastam os indivíduos, frustrando o desejo de autonomia e de participação nas decisões sobre o próprio destino. A obra integrou montagem teatral e tornou-se símbolo de resistência, ao criticar a alienação, a dependência externa e a supressão da voz popular. Seu verso central — a aspiração a ter voz ativa e mandar no próprio destino — sintetiza o anseio de soberania popular que a ditadura procurava silenciar.

No contexto das eleições de 4 de outubro de 2026, o primeiro turno colocou Flávio Bolsonaro à frente, com Lula em segundo lugar, levando a disputa ao segundo turno, previsto para 25 de outubro. Esse resultado, conforme o conjunto de opiniões analisado, produziu um forte impacto emocional e político, sobretudo entre eleitores que identificam no bolsonarismo uma ameaça autoritária e uma continuidade da herança da ditadura militar. A proximidade entre o passado de exceção e o presente eleitoral fez com que a canção de Chico Buarque fosse reativada como espaço de elaboração do luto político, de denúncia do perigo antidemocrático e de preservação da memória.

Os comentários reunidos no YouTube expressam, em sua maioria, um sentimento de desalento, temor e resistência. Há quem descreva a sensação de derrota e morte simbólica diante do resultado parcial, recorrendo à música para não perder a esperança. Outros falam de um cenário sombrio, de gosto amargo de retrocesso e de risco de pré-ditadura, mas reafirmam a disposição de continuar lutando contra as elites e contra a perda de soberania. A ideia de que nenhuma experiência é individual aparece como reconhecimento de que o sofrimento político é coletivo, e não apenas pessoal. A memória do passado é invocada como alerta: enquanto o bolsonarismo persistir, a democracia permaneceria ameaçada.

Assim, a relação entre “Roda Viva” e as eleições de 2026 se dá por uma espécie de repetição histórica: a canção, nascida sob a ditadura, volta a funcionar como repertório de resistência em um momento percebido como de ameaça autoritária. A roda-viva que carrega o destino para longe do controle popular é reinterpretada como a força eleitoral e política que, para esses ouvintes, impôs uma derrota parcial e abriu um cenário de incerteza. Ao mesmo tempo, a música mantém viva a pergunta sobre ter voz ativa e mandar no próprio destino, convertendo-se em instrumento de memória, luta e esperança diante do segundo turno.

Parte II — “Nem 5 Minutos Guardados” e as manifestações de rua no segundo turno


A canção “Nem 5 Minutos Guardados”, dos Titãs, oferece uma chave de leitura poderosa para compreender as manifestações populares que tomaram as ruas do Brasil no segundo turno das eleições de 2026. Se, no contexto original da obra, o carnaval funcionava como metáfora de uma temporalidade social marcada pela urgência permanente e pela dificuldade de “guardar” tempo, experiência e memória, as mobilizações pró-Lula que se espalharam pelo país após o primeiro turno revelam uma inversão significativa desse diagnóstico.

O carnaval como resistência: a rua como espaço de reinvenção democrática

A letra da canção afirma que “é sempre carnaval no Brasil”, sugerindo um estado de espírito permanente de leveza, liberdade e suspensão das hierarquias. Nas manifestações de outubro de 2026, esse verso ganha uma nova camada de significado. A rua deixa de ser apenas o espaço da festa ou da dissipação para se tornar palco de reinvenção democrática.

O ato realizado no Centro do Rio de Janeiro, batizado de “Juventude na Rua pela Democracia”, reuniu milhares de estudantes na Candelária e seguiu em caminhada até a Cinelândia, com o objetivo explícito de mostrar que “os jovens estão mobilizados para defender a democracia”. A escolha da Candelária não foi aleatória: o local resgata a vocação histórica de ponto de convergência dos grandes movimentos populares da cidade.

A multidão que tomou a Avenida Paulista no dia 11 de outubro, na “Marcha pela Democracia”, reuniu estudantes, trabalhadores, movimentos sociais, partidos e comunidades de fãs, ocupando as seis faixas da avenida e ao menos cinco quarteirões. Organizadores estimaram 1 milhão de pessoas presentes. No Recife, mais de 100 mil pessoas tomaram as ruas em defesa da reeleição de Lula e pelo fim da escala 6×1.

A ideia de que “tanto faz qual é a cor da sua blusa” — verso que na canção celebra a igualdade e a suspensão das distinções sociais típicas do carnaval — ressoa diretamente com a composição heterogênea dessas manifestações. Estudantes secundaristas e universitários, trabalhadores, movimentos sociais, artistas e lideranças políticas de diferentes partidos — como o vice-presidente Geraldo Alckmin, Fernando Haddad, Simone Tebet, Marina Silva e Guilherme Boulos — dividiram o mesmo espaço. A pauta comum — defesa da educação pública, fim da escala 6×1, manutenção dos direitos sociais e da democracia — operou como o fio condutor que uniu essa diversidade.

A juventude como sujeito da “virada”: a experiência coletiva que não é individual

O verso da canção que afirma que “eu estou no meio da rua / você está no meio de tudo” encontra nas manifestações de 2026 uma tradução literal. A reação estudantil ao resultado do primeiro turno começou em Niterói, quando estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) deixaram o campus na noite de segunda-feira, 5 de outubro, e percorreram as ruas em apoio a Lula e contra Flávio Bolsonaro. A convocação do Centro Acadêmico Evaristo da Veiga resumia o sentimento que começava a surgir: “O abalo e o espanto com o resultado de domingo precisam se transformar em movimento”.

Em menos de 48 horas, a mobilização se espalhou por universidades de pelo menos dez estados — Rio Grande do Sul, Bahia, Sergipe, Pará, Minas Gerais, Distrito Federal, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro e Maranhão. O diretor da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) declarou que “o levante estudantil apenas começou”.

Essa expansão orgânica e descentralizada — de campus em campus, de cidade em cidade — ecoa a ideia de que nenhuma experiência é individual, como observado nos comentários sobre “Roda Viva” no contexto eleitoral. A “roda-viva” que arrasta o destino coletivo é confrontada por uma roda de resistência que se move na direção oposta: a das ruas ocupadas, dos corpos presentes, da recusa em aceitar que o resultado do primeiro turno seja definitivo.

O segundo turno como “tempo guardado”: a construção de uma memória de luta

A canção fala da incapacidade de guardar “nem cinco minutos” — uma metáfora da dificuldade de converter experiência em continuidade, conflito em aprendizagem. No entanto, as manifestações de 2026 parecem operar uma inversão precisa desse diagnóstico. O que se “guarda” nesses atos não é tempo cronológico, mas memória política.

Os estudantes que foram às ruas em 5, 6, 7, 9, 11 e 12 de outubro construíram uma sequência deliberada de mobilizações que transformou o intervalo entre o primeiro e o segundo turno em um tempo de acumulação política. A cada novo ato, as pautas se adensavam: do apoio inicial a Lula e da rejeição a Flávio Bolsonaro, passou-se à defesa explícita do fim da escala 6×1, da educação pública, do SUS, da Farmácia Popular e da soberania nacional.

No Recife, o coordenador da campanha de Lula em Pernambuco avaliou que “a grande virada começou com a nossa juventude, com o movimento estudantil”, acrescentando que “não adianta cancelar o exército de Janones. O exército está na rua”. A referência ao “exército na rua” não é apenas retórica: ela nomeia a conversão de energia eleitoral em presença física, de indignação em movimento organizado.

A votação do fim da escala 6×1 no Senado, prevista para 14 de outubro, foi explicitamente conectada às manifestações. O senador Humberto Costa afirmou que “se houver uma grande pressão por parte do povo trabalhador, nós vamos aprovar a redução da escala, e isso vai ser importante para essa virada também”. Aqui, o “tempo guardado” deixa de ser ausência e se torna acúmulo estratégico: cada ato de rua é um tijolo na construção de uma maioria política e social.

“É sempre carnaval no Brasil”: a festa como forma de luta

A canção dos Titãs, em sua leitura mais celebratória, propõe que o carnaval não é apenas uma data, mas um estado de espírito permanente. Nas manifestações de 2026, esse estado de espírito se manifesta na alegria militante que atravessa os atos. As bandeiras coloridas, os batuques, os gritos de ordem, as intervenções artísticas — tudo isso compõe uma estética que recusa a sisudez e a resignação.

O estudante Paulo Victor de Almeida Coelho, da Uerj, resumiu o espírito dessas mobilizações: “Estamos na luta porque vimos o que foi o governo Bolsonaro. Foi um governo de cortes, de pessoas passando fome, tendo direitos perseguidos. Por isso, estamos na rua”. A estudante Raissa Bispo, da UFRJ, acrescentou: “Ele [Flávio Bolsonaro] próprio declarou que quer mudar a Constituição, o que é uma ameaça para a gente, para os nossos direitos”.

Essas falas revelam que a memória do passado — os anos de retrocesso, corte de direitos e ameaça autoritária — funciona como o combustível do presente. O que a canção chama de “carnaval” não é, portanto, alienação ou fuga, mas afirmação de vitalidade diante da ameaça. É a recusa em deixar que o medo paralise, em permitir que a “roda-viva” carregue o destino sem resistência.

Parte III — Síntese: da “roda-viva” à roda da esperança

Se “Roda Viva”, de Chico Buarque, expressava a impotência diante de uma força que “carrega o destino pra lá”, e “Nem 5 Minutos Guardados”, dos Titãs, diagnosticava a urgência permanente como marca da temporalidade brasileira, as manifestações de outubro de 2026 apontam para uma síntese possível entre essas duas leituras.

A “roda” que gira incessantemente — a roda da história, da política, da luta — não precisa ser apenas a roda-viva da opressão. Pode ser também a roda da resistência, que se move na direção contrária, que guarda na memória coletiva cada ato, cada grito, cada corpo presente na rua. O que se “guarda” nesses cinco minutos de cada manifestação não é tempo perdido, mas experiência acumulada — a matéria-prima de qualquer virada histórica.

A canção dos Titãs termina com a afirmação de que “é sempre carnaval no Brasil”. Em outubro de 2026, essa frase deixa de ser um diagnóstico ambíguo sobre a urgência nacional e se transforma em declaração de resistência: enquanto houver jovens nas ruas, enquanto houver vozes entoando palavras de ordem, enquanto houver corpos ocupando o espaço público em defesa da democracia, o carnaval — a festa da vida, da igualdade, da liberdade — continuará sendo possível.

As duas canções, separadas por três décadas, convergem no mesmo ponto: a música popular brasileira como espaço de elaboração política. Se “Roda Viva” serviu de abrigo para o luto e a memória em 2026, “Nem 5 Minutos Guardados” ofereceu o vocabulário da festa, da rua e da resistência. Juntas, elas compõem um retrato sonoro do Brasil que, entre a dor e a esperança, entre a roda que oprime e a roda que liberta, segue buscando — como diz o verso de Chico — ter voz ativa no seu destino mandar.



E a esquerda precisa rejuvenescer, assim como a direita já fez na forma, mas retrocedendo no conteúdo : Lula, a juventude e Belchior.

 Em Velha Roupa Colorida, Belchior nos lembra que o novo não nasce apenas da passagem do tempo.


É preciso abandonar velhas certezas, rever caminhos e não permitir que o passado retorne e determine para sempre aquilo que podemos ser.

Rejuvenescer também é ter coragem!

Alucinação - Velha Roupa Colorida



Daíra // VELHA ROUPA COLORIDA (Belchior) - ao vivo em casa

Ana Cañas - Velha Roupa Colorida


🔥Lula lota a Paulista, endurece discurso e alerta para os riscos de Flávio Bolsonaro tomar poder🔥



"Temos a obrigação de conversar com as pessoas que acham que não têm mais direito de votar. Os 60, 70 anos não transformam a pessoa em um inútil. Se a pessoa não votar por ela, ela tem filho, tem neto e tem a pátria dele para cuidar. Elas não podem permitir que os bandidos possam governar este País", disse Lula.

"Fico muito feliz que essa manifestação tem uma maioria de juventude. Ou vocês participam da vida política ou ela não tem conserto", afirmou o candidato. "Vocês têm que assumir a responsabilidade enquanto têm energia e disponibilidade para ir à luta", disse ele.

Ainda falando aos jovens, Lula disse que quer formar "pessoas em inteligência artificial e na nova indústria digital".





VOZES – Em um dos momentos do ato, Lula interrompeu a própria fala para atender a uma mulher que queria se aproximar. O presidente entregou a ela o microfone. Emocionada, a apoiadora se apresentou como pesquisadora e falou em defesa da educação. “Estou aqui para defender todas as universidades brasileiras públicas”, afirmou. Em seguida, dirigiu-se ao presidente: “Você deu apoio para a ciência, para os estudantes, para as universidades, para a vacina. Eu te amo muito, Lula”.



 Ana Elisa revelou: Lula não precisava dessa eleição aos 80 anos, entrou pela sobrevivência do povo💥


 Lula no Flow News — educação e futuro da juventude

Na entrevista de 2 de outubro, Lula afirmou que o país precisa investir em educação para ter futuro. Embora seja anterior à semana pesquisada, é uma fala mais extensa, útil para reunir trechos sobre juventude, educação e perspectivas de vida.

Localizar a entrevista no YouTube

Outras falas de Lula sobre a juventude

Lula já definiu plano para reajuste real do salário mínimo. Saiba como será a fórmula

1. A juventude precisa ser ouvida

“A juventude tem que ser ouvida. Não basta fazer as coisas de cima para baixo.”

Lula reconheceu a necessidade de ouvir os jovens e permitir que participem das decisões, em vez de apenas receber políticas definidas pelos governantes.

Folha

Fonte: Folha de S.Paulo

Hoje é dia de derrotar Bolsonaro e exigir punição a Carla Zambelli

2. Os jovens querem participar das decisões do governo

“A gente quer democracia, vocês estão me dizendo: ‘Lula, eu quero participar das decisões do governo’.”

Na fala, Lula relacionou a reivindicação por democracia à participação política e à possibilidade de influenciar as decisões governamentais.

Band

Fonte: Band

Lula encerra campanha na Paulista apostando em vitória no 1º turno

3. Cultura, cinema, estudo e emprego de qualidade

Lula relatou ter ouvido durante a campanha que as pessoas querem mais do que alimentação: querem cultura, cinema, oportunidades de estudo, emprego de qualidade e liberdade. O trecho é relevante para compreender a mensagem dirigida aos jovens, embora não seja uma reivindicação exclusiva dessa faixa etária.

Band

Ler a reportagem completa

Lula diz que IA está manipulando a humanidade e fake news são “violência contra a democracia”

4. Mais jovens na universidade e formação tecnológica

Lula afirmou que o número de pessoas com diploma universitário no mercado de trabalho havia passado de 4,8 milhões, em 2003, para 26 milhões, e apresentou a meta de chegar a 50 milhões ou 100 milhões. Também prometeu ampliar a formação em inteligência artificial e na indústria digital em um eventual novo mandato.

UOL Notícias
+1

Fonte: Agência Brasil



"A gente não quer só entregas, a gente quer participar, no nosso destino mandar". Um comercial de TV, canções e artigos antigos de Zezito de Oliveira e novos de Outras Palavras.

Em 1982, um pai entrou em campo para levantar o filho caído e ensinou que não basta ser pai: tem que participar. Em 1971, Clara Nunes fez da alegria um chamado à resistência em tempos de censura. Em 1967, Chico Buarque viu a roda-viva carregar o destino para longe das nossas mãos. Em 2026, depois do primeiro turno de 4 de outubro, o Brasil se prepara para o segundo turno de 25 de outubro com essas três vozes ecoando no mesmo campo: o da memória, o da luta e o da participação. Com o Congresso dominado pela extrema direita, governar será como jogar com o campo inclinado; mas, entre o luto e a esperança, a lição permanece: não basta votar, tem que entrar em campo, cantar mais alto que o medo e não deixar que a roda viva leve, outra vez, o nosso destino.

 O clássico comercial da Gelol lançado em 1982 marcou profundamente a infância e a pré-adolescência de quem hoje tem mais de  50 anos.

Criada pelo publicitário Duda Mendonça, a campanha trazia a emocionante cena de um pai entrando em campo para cuidar do filho machucado em um jogo de futebol. O comercial deu origem ao slogan memorável "Não basta ser pai, tem que participar", que transcendeu a TV, virou ditado popular e permanece vivo na memória afetiva dos brasileiros até os dias de hoje.

Trazendo para a realidade politica destes dias que rugem "Não basta votar, tem que participar", como pode ser deduzido  das manifestações de rua neste segundo turno e considerando o desafio do presidente Lula, caso eleito, em governar o país com o congresso dominado pela extrema direita.



PARTICIPAÇÃO - CLARA NUNES


Nota Explicativa: A sutileza política por trás de "Participação", na voz de Clara Nunes
No início da década de 1970, o Brasil atravessava o período mais severo da Ditadura Militar. Sob o governo do general Emílio Garrastazu Médici, os chamados "Anos de Chumbo" impunham uma censura implacável à cultura. Foi nesse cenário asfixiante que Clara Nunes lançou, em seu álbum homônimo de 1971, a canção "Participação", escrita por Didier Ferraz e Jorge Belizário. Embora a faixa seja frequentemente lembrada pelo arranjo grandioso característico da Era dos Festivais, sua letra carrega um profundo e sutil manifesto político de resistência.
Em uma leitura contextualizada da época, a composição opera por meio de metáforas que dialogavam diretamente com o desejo de liberdade da juventude brasileira:
• Resistência ao controle e vigilância: Nos versos "Ideia pra frente é saber / Aonde é que eu vou me levar (...)/ Não venham querer me julgar", a letra evoca o direito à autodeterminação. Em tempos de patrulhamento ideológico e perseguição ao comportamento jovem, afirmar a própria independência e rejeitar o julgamento externo era um ato de coragem contra o autoritarismo e o moralismo vigentes.
• O chamado à ação coletiva: O próprio título, "Participação", já carregava um forte teor político. Diante do fechamento dos canais democráticos, o convite "Vem, que o momento lhe convida / À participar da nossa alegria / Vem, não espere a despedida" funcionava como uma convocação à resistência cultural. Reunir-se e celebrar o coletivo era uma das poucas formas de contestação possíveis, e a urgência de "não esperar a despedida" ecoava o sentimento de que era preciso agir antes que o silenciamento fosse definitivo.
• A arte como espaço de fala: Ao cantar "Melhor que falar é viver / A hora é da gente cantar / (...) Não temos hora de ir embora", a música coloca o canto como o refúgio da expressão onde a palavra escrita ou falada estava interditada. Além disso, a recusa em "ir embora" desafiava poeticamente a atmosfera de medo, recolhimento e os toques de recolher implícitos impostos pelo aparato repressivo nas grandes cidades.
Longe de ser apenas uma canção festiva, "Participação" permanece na história da MPB como um documento histórico de seu tempo: uma fresta de liberdade e coletividade aberta pela voz inconfundível de Clara Nunes em um dos momentos mais sombrios do país.




Nota explicativa
A canção “Roda Viva”, composta por Chico Buarque em 1967, surgiu em plena ditadura militar, quando a censura, a repressão e o cerceamento das liberdades públicas marcavam a vida política e cultural do país. A metáfora da roda-viva expressa a sensação de que o tempo e o sistema opressor arrastam os indivíduos, frustrando o desejo de autonomia e de participação nas decisões sobre o próprio destino. A obra integrou montagem teatral e tornou-se símbolo de resistência, ao criticar a alienação, a dependência externa e a supressão da voz popular. Seu verso central — a aspiração a ter voz ativa e mandar no próprio destino — sintetiza o anseio de soberania popular que a ditadura procurava silenciar.

No contexto das eleições de 4 de outubro de 2026, o primeiro turno  colocou Flávio Bolsonaro à frente, com Lula em segundo lugar, levando a disputa ao segundo turno, previsto para 25 de outubro. Esse resultado, conforme o conjunto de opiniões analisado, produziu um forte impacto emocional e político, sobretudo entre eleitores que identificam no bolsonarismo uma ameaça autoritária e uma continuidade da herança da ditadura militar. A proximidade entre o passado de exceção e o presente eleitoral fez com que a canção de Chico Buarque fosse reativada como espaço de elaboração do luto político, de denúncia do perigo antidemocrático e de preservação da memória.

Os comentários reunidos no YouTube expressam, em sua maioria, um sentimento de desalento, temor e resistência. Há quem descreva a sensação de derrota e morte simbólica diante do resultado parcial, recorrendo à música para não perder a esperança. Outros falam de um cenário sombrio, de gosto amargo de retrocesso e de risco de pré-ditadura, mas reafirmam a disposição de continuar lutando contra as elites e contra a perda de soberania. A ideia de que nenhuma experiência é individual aparece como reconhecimento de que o sofrimento político é coletivo, e não apenas pessoal. A memória do passado é invocada como alerta: enquanto o bolsonarismo persistir, a democracia permanecerá ameaçada.

Assim, a relação entre “Roda Viva” e as eleições de 2026 se dá por uma espécie de repetição histórica: a canção, nascida sob a ditadura, volta a funcionar como repertório de resistência em um momento percebido como de ameaça autoritária. A roda-viva que carrega o destino para longe do controle popular é reinterpretada como a força eleitoral e política que, para esses ouvintes, impôs uma derrota parcial e abriu um cenário de incerteza. Ao mesmo tempo, a música mantém viva a pergunta sobre ter voz ativa e mandar no próprio destino, convertendo-se em instrumento de memória, luta e esperança diante do segundo turno.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

FATOR MARÇAL`Os alertas de Zezito de Oliveira ao PT e as esquerdas desde 2005

Isso pela imprensa, redes digitais e ação educativa e cultural. E a luz que vem do México de Lopez Obrador.

https://acaoculturalse.blogspot.com/2024/10/os-alertas-de-zezito-de-oliveira-ao-pt.html


A virada eleitoral é possível, ainda que árdua e difícil. Depende de ampla mobilização "vira-voto" e de novos acenos de Lula nas três semanas até 25 de outubro. Mas a ilusão de que a esquerda pode governar sem projeto de longo prazo, sem disputas com os poderosos e sem mobilização popular — esta precisa ficar para trás. A História não acabou. Os tempos estão mais acelerados que nunca.

Por Antonio Martins

⚖️ Governar sem disputar com os poderosos e sem projeto de longo prazo? Essa ilusão precisa ficar para trás.

Em 4 de outubro, mais de 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas — a maior abstenção em uma eleição presidencial desde 1998. Antes de perguntar em quem votariam, talvez seja necessário perguntar o que precisaria acontecer para que voltassem a acreditar que a política merece seu tempo. Há desinteresse, dificuldades materiais, desinformação, desencanto — e uma percepção cada vez mais disseminada de que "não importa quem ganhe". Uma democracia não se enfraquece apenas quando alguém tenta tomar o poder pela força; ela também se desgasta quando as pessoas deixam de acreditar que participar faz diferença.

É aqui que a autocrítica se torna indispensável. A extrema direita não cresce apenas pelo que diz; cresce nos espaços que outras forças deixam de ocupar. Se a esquerda promete transformação e entrega apenas administração da escassez, produz frustração; se defende direitos, mas não melhora a experiência concreta de quem depende deles, permite que alguém apareça dizendo "eu sei por que sua vida está ruim". O "pobre de direita" descreve uma posição, mas não explica por que ela existe. A pergunta certa é outra: o que aconteceu para que pessoas que dependem de políticas públicas deixassem de enxergá-las como expressão de seus próprios direitos?

Por Rafael Guerra de Oliveira

domingo, 11 de outubro de 2026

Como o nosso Aracaju está lindo gente. Fazendo parte do Levante Popular da Nação pela Democracia e pela Soberania

  


https://www.instagram.com/reels/DeX6WO2sRtc/


As manifestações em defesa da democracia em Aracaju ganharam muita força ao longo desta semana, impulsionadas pelo clima eleitoral do segundo turno das eleições presidenciais de 2026 e em reação a um atentado sofrido por estudantes da Universidade Federal de Sergipe (UFS). O ápice das mobilizações ocorre neste domingo, 11 de outubro, concentrado na Orla da Atalaia durante a tarde e a noite.

O Ato deste Domingo (11/10) na Orla

O principal evento deste domingo foi o Ato Cultural Bora Lula / Sergipe Pela Democracia, focado na defesa do regime democrático e na campanha de reeleição do presidente.

• Tarde: A concentração começou por volta das 15h13 na Praia da Cinelândia. O ato teve um forte caráter cultural, reunindo movimentos sociais, frentes estudantis e a classe artística local com apresentações musicais. Políticos locais, como o senador Rogério Carvalho (PT) e o ex-ministro Márcio Macedo, acompanharam a mobilização na Zona Sul da capital.

• Noite: O evento estende pelo fim da tarde e início da noite com panfletagens, bandeiraços, atos artísticos e discursos focados no combate ao retrocesso político e na união das instituições. Anteriormente, pela manhã, pequenos grupos também realizaram ações de diálogo e "vira-voto" na região do Terminal da Atalaia e semáforos próximos.

Contexto das Manifestações na Semana

A semana foi marcada por uma forte tensão e forte engajamento da comunidade acadêmica:

• O Atentado na UFS: Na noite de quinta-feira (9), durante um ato pacífico de estudantes e professores em defesa da democracia na UFS, um sargento da Polícia Militar passou de carro e efetuou disparos de arma de fogo para o alto para intimidar o grupo. O policial foi identificado e afastado pela Secretaria de Segurança Pública.

• Mobilização Estudantil e Sindical: O episódio gerou uma onda de repúdio. Em resposta, a Central Única dos Trabalhadores (CUT-SE) e diretórios acadêmicos intensificaram as agendas de rua. No sábado (10), houve panfletagens e conversas com a população na Feira do Santo Antônio, na Coroa do Meio e nos Mercados do Centro. Também no sábado à tarde, a Casa Linda Brasil sediou um grande ato cultural e político.

Próximos Atos Agendados em Aracaju

A agenda de mobilização democrática na capital sergipana continua nos próximos dias:

• Segunda-feira (12/10): Está prevista uma ação a partir das 15h13 no semáforo do Parque da Sementeira.

• Terça-feira (13/10): Ocorre a Grande Marcha, com concentração marcada para as 15h30, saindo da Igreja do Espírito Santo (esquina da Avenida Simeão Sobral com a Avenida Maracaju).



Quando os fandoms vão às ruas: cultura, juventude e reinvenção da participação democrática

 


O ato de 11 de outubro na Avenida Paulista aponta para novas formas de mobilização política, mas também coloca uma questão que interessa a todos os que acreditam na cultura como instrumento de transformação social: como transformar a energia das redes em organização comunitária e participação cidadã permanente?

A Avenida Paulista já foi cenário de inúmeras manifestações que entraram para a história política brasileira, mas o ato realizado neste 11 de outubro de 2026, em defesa da democracia e em apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, merece ser observado também por um aspecto que vai além da disputa eleitoral: a presença de jovens mobilizados por comunidades culturais, coletivos digitais e fandoms, que encontraram na linguagem da cultura pop uma maneira própria de participar do debate público.

Não se trata de uma substituição dos movimentos sociais tradicionais por fãs de artistas, bandas ou séries, muito menos de imaginar que o interesse por música, cinema, jogos e entretenimento produza automaticamente consciência política. O que chama a atenção é a possibilidade de que vínculos construídos inicialmente em torno de referências culturais compartilhadas se convertam em instrumentos de mobilização coletiva, aproximando da política pessoas que nem sempre se identificam com os partidos, os sindicatos ou as organizações historicamente responsáveis por convocar manifestações de rua.

As comunidades de fãs já demonstraram capacidade de organizar campanhas digitais, produzir conteúdos, articular redes de solidariedade e mobilizar grandes públicos em torno de objetivos comuns. Quando parte dessa experiência é deslocada para o campo da participação cidadã, a cultura passa a ocupar um lugar que não se limita ao entretenimento, porque também pode contribuir para a formação de identidades coletivas, a circulação de informações e a criação de novas formas de intervenção na vida pública.

A cobertura realizada por veículos como DiaTV, ICL Notícias, TVT News, Brasil 247 e Diário do Centro do Mundo permite acompanhar diferentes dimensões desse acontecimento, desde a tentativa de ampliar a mobilização eleitoral até o protagonismo juvenil e a utilização de transmissões digitais para alcançar públicos que não estavam fisicamente presentes na Paulista. A articulação de comunidades ligadas a artistas internacionais, como Taylor Swift, Beyoncé e BTS, também chamou a atenção para a possibilidade de utilizar linguagens culturais de grande alcance na comunicação política. A Revista Fórum é outra referência para acompanhar a repercussão política do período.

É preciso, entretanto, evitar uma conclusão apressada. Nem todo fã é militante, nem toda manifestação cultural contém necessariamente um projeto de transformação social e nem toda mobilização nas redes consegue se converter em organização duradoura. O desafio está justamente em compreender as condições que permitem a passagem do interesse compartilhado à ação coletiva, sem desconsiderar as contradições, as diferenças de opinião e a autonomia dos participantes.

A experiência também recoloca uma discussão importante para quem trabalha com educação popular, comunicação comunitária e ação cultural: a política não começa apenas quando alguém ingressa em um partido ou participa de uma eleição. Ela também se constrói quando as pessoas aprendem a organizar uma atividade coletiva, produzir informação, reconhecer problemas comuns, defender direitos e participar das decisões que afetam suas comunidades.

É nesse terreno que a experiência dos fandoms pode dialogar com a trajetória dos Pontos de Cultura e de tantas organizações comunitárias que, em diferentes territórios brasileiros, fazem da produção cultural uma oportunidade de convivência, formação e exercício da cidadania. A diferença está nas condições de continuidade. Enquanto uma campanha eleitoral costuma reunir esforços em torno de um objetivo imediato, uma organização cultural de base precisa enfrentar cotidianamente dificuldades de financiamento, infraestrutura, formação de seus integrantes e reconhecimento público, sem as quais muitas iniciativas dependem excessivamente da disposição individual de seus participantes ou da ajuda eventual dos governos.

A comunicação independente tem papel importante nessa discussão. Quando veículos como a TVT ampliam sua cobertura por meio de parcerias com canais digitais e criadores de conteúdo, demonstram que a disputa pela atenção pública também passa pela capacidade de utilizar linguagens, formatos e plataformas que dialoguem com diferentes gerações. Não basta transmitir um discurso político para quem já concorda com ele; é necessário compreender como as pessoas recebem informações, constroem suas referências e desenvolvem confiança para participar de uma discussão coletiva.

Mas a democratização da comunicação não pode se resumir à presença de uma transmissão ao vivo ou à repercussão de uma manifestação nas redes. Ela depende também da existência de meios comunitários e independentes capazes de acompanhar os acontecimentos depois que as câmeras são desligadas, fiscalizar políticas públicas, dar visibilidade às experiências dos territórios e oferecer condições para que grupos historicamente excluídos produzam suas próprias narrativas.

Essa discussão não está distante da realidade sergipana. No Blog da Cultura, a retomada da Rede Sergipe de Pontos de Cultura foi apresentada como uma oportunidade de reconstruir articulações, fortalecer as bases comunitárias e recuperar a confiança entre os agentes culturais. O texto “A Rede Sergipe de Pontos de Cultura voltou!” destaca justamente a necessidade de aproximar a gestão pública do fazer cultural, com diálogo, formação e responsabilidade compartilhada.

Outra experiência que merece ser lembrada é a 4ª Mostra Arte e Cidadania: cultura de base comunitária em destaque, realizada no Bairro Industrial, em Aracaju. A iniciativa recupera uma trajetória de mobilização cultural iniciada em 2004 e demonstra como a articulação entre artistas, educadores, crianças, adolescentes e moradores pode criar oportunidades de participação e produção cultural nos territórios. É uma experiência diferente de uma manifestação eleitoral, mas que ajuda a compreender a importância de criar condições para que as pessoas sejam produtoras de cultura, e não apenas consumidoras.

Também vale recuperar a reflexão apresentada em “Outro Brasil? Somente com participação e arte”, que retoma críticas formuladas por Zezito de Oliveira sobre os limites de modelos de gestão que privilegiam grandes obras, programas assistenciais e espetáculos de grande porte, sem assegurar o mesmo compromisso com a formação de sujeitos, a participação popular e o fortalecimento das iniciativas culturais comunitárias.

Essas experiências ajudam a estabelecer uma distinção fundamental: a defesa da democracia não deve ser reduzida à escolha de um candidato. Uma grande manifestação pode expressar indignação, esperança e disposição para a disputa eleitoral, mas a democracia se fortalece também pela liberdade de organização, pelo acesso à informação, pela valorização da diversidade e pela existência de espaços nos quais a população possa discutir e influenciar as decisões públicas.

Por isso, a questão que emerge da presença dos fandoms na Avenida Paulista interessa não somente aos estrategistas eleitorais, mas também aos educadores populares, artistas, produtores culturais, Pontos de Cultura e organizações de base comunitária: como transformar a energia de uma mobilização em vínculos de solidariedade e participação que sobrevivam ao calendário das eleições?

Não se trata de instrumentalizar a cultura para submetê-la às necessidades de um partido ou de uma campanha, mas de reconhecer que a experiência cultural pode ampliar a capacidade de participação das pessoas, inclusive daquelas que não encontram nos espaços políticos tradicionais uma forma de expressão de suas inquietações e expectativas. A autonomia dos coletivos precisa ser respeitada, assim como a pluralidade de linguagens e a liberdade de construir caminhos próprios.

Talvez seja essa uma das tarefas mais importantes colocadas para as políticas culturais e para as organizações comprometidas com a transformação social: criar condições para que a criatividade, a capacidade de comunicação e a disposição de agir coletivamente, demonstradas por tantos jovens, encontrem espaços permanentes de formação, produção cultural e participação cidadã.

A defesa da democracia ganha maior consistência quando deixa de ser apenas uma palavra de ordem eleitoral e se transforma em experiência concreta de organização, convivência e conquista de direitos. Se os fandoms conseguem levar suas referências culturais para as ruas, o desafio que fica para os movimentos sociais e as políticas públicas é ajudar a construir condições para que essa disposição de participar encontre continuidade, autonomia e raízes nos territórios.

Porque a democracia não se realiza somente quando milhões de pessoas escolhem seus representantes. Ela se fortalece quando essas mesmas pessoas descobrem que também podem produzir cultura, compartilhar conhecimentos, organizar suas comunidades e participar das decisões sobre o futuro que desejam construir.

Abaixo, matéria publicada no portal Metrópoles

Neste domingo (11/10), aconteceu um ato em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)  em frente do Museu de Arte de São Paulo (MASP), na Avenida Paulista, convocado pelos fandoms. Mas afinal de contas o que é “fandom“?

A resposta curta é grupo de fãs. Mas a realidade, os fandoms se aprofundam na relação parassocial que as fãs criam com o ídolo e permite amizades entre pessoas com os mesmos sentimentos de carinho, admiração e amor por um artista.

Traduzir para a realidade cultural brasileira é simples: fandom pode descrever um grupo de pessoas torcedores de um clube de futebol. Todos amam esse mesmo clube, se reúnem para assistir um jogos, anseiam uma vitória, brigar em nome da equipe, criticam se necessário e apoiam o time em qualquer situação — principalmente, na derrota.

Esses fãs-clubes fazem o mesmo movimento que os times de futebol e têm se destacado internacionalmente por também fomentar ações sociais e filantrópicas. Em 2019, o Brazil Loves BTS distribuiu brinquedos para crianças em situações de vulnerabilidade socioeconômica.

Os fandoms também teêm uma grande presença nas redes sociais, principalmente no X (antigo Twitter). Cada fã pode criar o próprio ecossistema de fandom, basta ter uma página de fã-clube e em torno da página reunir uma comunidade com interesses em comum de acompanhar atualizações sobre a vida dos artistas e opinar sobre esses acontecimentos.

Em novembro de 2023, a fã de Taylor Swift, Ana Benevides, morreu durante o show com exaustão térmica extrema, choque cardiovascular, hemorragia alveolar (pulmonar) e parada cardiorrespiratória. Na ocasião, a sensação térmica no Rio de Janeiro era de 59°C. Dois dias depois, Update Swift Brasil divulgou uma campanha para promover uma lei em nome de Benevides que garantisse água gratuita em eventos.

Em setembro de 2026, a lei em nome de Ana Benevides foi efetivamente sancionada após a tramitação no Congresso e vários decretos temporários. Na sanção, Lula convidou representantes de vários fandoms para a cerimônia no Palácio do Planalto. Esse é um dos principais — mas não só — fatores que explicam o movimento em apoio ao petista no segundo turno das eleições de 2026.

Mas nem de só de amor, os fãs se destacam. Na verdade, na maior parte do tempo, os grupos vivem de rivalidade, em uma disputa para mostrar qual artista verdadeiramente é o melhor e mais admirável e qual grupo de fãs apoia mais o ídolo. Essa união em prol de uma causa é rara e é o que mais chama atenção: a capacidade de tantos grupos rivais e unirem por um interesse político.

O ato em apoio a Lula organizado pelos fandoms

Os perfis oficiais de fandoms de artistas de diferentes nichos – às vezes, até, “inimigos” – se reuniram em uma campanha para apoiar a reeleição do atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no 2º turno das Eleições 2026.

Entre as contas de fãs que estão pedindo votos ao petista estão as de Taylor Swift, Billie Eilish, Ariana Grande, Dua Lipa, Justin Bieber, BLACKPINK, Anitta, Katy Perry, Miley Cyrus, Bad Bunny, Kendrick Lamar, The Weeknd, Harry Styles, Shawn Mendes, Cardi B e Luísa Sonza.

Fontes para consulta

Fandoms e mobilização eleitoral

TVT News — Fandoms de famosos colocam redes à disposição da campanha de Lula

Articulação cultural em Sergipe

A Rede Sergipe de Pontos de Cultura voltou!

Cultura produzida com a comunidade

4ª Mostra Arte e Cidadania — Blog da Cultura

Participação social e crítica às políticas culturais

A Revolução da TV por Streaming: Como a DiaTV Transformou o Entretenimento Digital no Brasil

O mercado de comunicação no Brasil vive um momento de transição histórica, impulsionado pela consolidação dos canais FAST (Televisão Gratuita com Anúncios via Streaming). No centro dessa vanguarda está a DiaTV, o primeiro canal de televisão digital brasileiro feito inteiramente por criadores de conteúdo e focado em entretenimento multiplataforma.

Fundado pela Dia Estúdio sob a liderança de Rafa Dias e lançado em 3 de maio de 2023, o projeto consolidou-se como um marco na convergência entre a internet e a televisão tradicional.

O Modelo de Negócio: O que é a DiaTV?

Diferente das plataformas de streaming sob demanda convencionais, como Netflix ou Prime Video, a DiaTV opera no modelo de grade linear de 24 horas. Isso significa que o canal funciona exatamente como uma emissora de TV tradicional, mesclando programas inéditos ao vivo com reprises estratégicas durante as madrugadas e fins de semana.

A grande inovação está na acessibilidade e gratuidade: o público não precisa pagar assinaturas para consumir o conteúdo. O canal é financiado por publicidade e está amplamente distribuído no ecossistema digital, podendo ser assistido no YouTube, Twitch, TikTok, no site oficial da Dia Estúdio e em grandes aplicativos de Smart TVs, como Samsung TV Plus, Pluto TV e TCL Channel.

Uma Grade Diversificada: Entretenimento e Cultura Pop

O sucesso da DiaTV reside na sua capacidade de profissionalizar a linguagem da internet dentro de uma estrutura técnica de televisão. A programação é pensada para abraçar a diversidade, o público jovem e a cultura pop, com forte apelo à comunidade LGBTQIA+.

Entre os pilares da grade de programação diária e semanal, destacam-se:

• Variedades e Humor: Programas diários como o matinal Todo Dia com Beta Boechat e o vespertino ao vivo Pra Variar (com Babu Carreira, Bárbara Bielo e elenco) garantem dinamismo e debate em tempo real.

• Late Shows e Entrevistas: Formatos consagrados pelo público, como o aclamado Loba By Night apresentado por Wanessa Wolf e o Foquinha Entrevista, focado no universo musical.

• Comportamento e Reflexão: Atrações de peso como o Mônica Total, comandado por Mônica Martelli, que expandiu o sucesso das redes sociais para a TV debatendo temas como saúde emocional, envelhecimento e relacionamentos ao lado de especialistas e convidados famosos.

• Programas de Auditório: Gravações feitas diretamente do Teatro YouTube em São Paulo, como o Lorelive (Lorelay Fox) e o Diva Depressão Ao Vivo, que trazem a energia da plateia de fãs para a tela.

Fenômenos de Audiência: O Impacto dos Reality Shows

Nenhum produto traduz melhor o impacto cultural da DiaTV do que seus realities. O principal expoente é o Corrida das Blogueiras, comandado por Edu Camargo e Fih Oliveira (Diva Depressão). O programa, que caminha para sua aguardada 8ª temporada com estética rococó inspirada na realeza, atua como um verdadeiro evento multiplataforma, arrastando multidões para transmissões conjuntas e eventos presenciais, como watch parties.

A DiaTV também aposta em outros formatos competitivos de sucesso, como o Fanta Factory (O Sabotador), unindo marcas a dinâmicas de engajamento que o modelo de TV aberta tradicional dificilmente consegue replicar com a mesma agilidade.

O Futuro da Televisão

Ao unir nomes consagrados da internet — como Camila Fremder (Nóia em Série), Ju Nogueira (Comentadíssimos) e Nátaly Neri (Spa da Nátaly) — a uma distribuição multiplataforma e gratuita, a DiaTV provou que o futuro do audiovisual não elimina a TV linear, mas a transforma.

A emissora digital estabeleceu um novo padrão para o mercado publicitário e de entretenimento no Brasil, mostrando que os criadores de conteúdo não são apenas convidados da televisão, mas os verdadeiros donos da nova programação nacional.


https://www.diaestudio.com/site



A maior manifestação que o Brasil já assistiu e as TVs simplesmente ignoraram… 



11 de outubro na Avenida Paulista: por que milhares foram às ruas em defesa da democracia?
A manifestação realizada neste domingo, 11 de outubro de 2026, na Avenida Paulista, em São Paulo, foi uma mobilização política de grande porte em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e em oposição ao avanço da extrema direita, a duas semanas do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro.
Batizada de Marcha pela Democracia, a manifestação reuniu movimentos estudantis, organizações sociais, artistas, militantes políticos e apoiadores do presidente. O ato combinou a defesa da democracia com reivindicações relacionadas à educação pública, à soberania nacional, aos direitos dos trabalhadores e ao enfrentamento do autoritarismo. 

1. O contexto eleitoral explica a dimensão do ato
A manifestação aconteceu depois de um primeiro turno em que Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, segundo a cobertura da Reuters, deixando a disputa aberta para a votação decisiva. Diante desse cenário, a campanha de Lula procurou recuperar terreno, especialmente em São Paulo, ampliar a mobilização de seus apoiadores e conquistar eleitores indecisos ou que não compareceram às urnas. 

Mas o significado político do ato não se limita à disputa entre dois candidatos. Para os organizadores e participantes, a eleição também representa uma escolha sobre os rumos da democracia brasileira, o papel das instituições, a proteção dos direitos sociais e o espaço que a extrema direita poderá ocupar no governo federal.
É importante, portanto, distinguir duas dimensões: a manifestação foi simultaneamente um ato de campanha eleitoral e uma mobilização que reivindicou a defesa da democracia. Uma dimensão não anula a outra.
2. Quais foram as principais bandeiras da manifestação?

Defesa da democracia e combate ao autoritarismo
A Constituição brasileira foi um dos símbolos presentes no ato. Discursos de lideranças, entre elas Guilherme Boulos e Janja, associaram a manifestação à rejeição do fascismo e à defesa das instituições democráticas. 

Educação pública, ciência e universidade
A UNE, a UBES, a Associação Nacional de Pós-Graduandos, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e a Academia Brasileira de Ciências estiveram entre as organizações mobilizadoras. As reivindicações incluíram financiamento público, valorização de professores e pesquisadores e autonomia universitária. 

Direitos dos trabalhadores
O fim da escala de trabalho 6×1 também apareceu entre as pautas. A reivindicação aproxima a mobilização eleitoral de uma discussão concreta sobre tempo livre, saúde, convivência familiar e condições de vida. 

Juventude, cultura e novas formas de participação
Um dos aspectos mais significativos foi a presença de jovens e comunidades de fãs de música e entretenimento, os chamados fandoms. Referências à cultura pop, bandeiras diversas e mobilização digital ajudaram a ampliar as linguagens da manifestação para além das formas tradicionais de militância partidária. 

Soberania nacional e identidade latino-americana
Cartazes criticaram a influência dos Estados Unidos e defenderam a soberania brasileira. A pauta aponta para uma visão de democracia que inclui a capacidade do país de decidir seus próprios rumos políticos, econômicos e culturais. 

3. O que a presença dos jovens revela?
A juventude foi um dos elementos centrais da mobilização. A convocação envolveu entidades estudantis, coletivos, artistas e comunidades organizadas em torno de interesses culturais comuns.
Esse dado merece atenção porque revela uma tentativa de renovar as formas de participação política. Em vez de depender exclusivamente de partidos, sindicatos e movimentos sociais tradicionais, a mobilização também procurou alcançar pessoas que se organizam pelas redes, pela música, pelos jogos, pelas séries e pelos vínculos criados nas comunidades de fãs. 

Há aqui uma questão que vai além da eleição: como transformar o interesse cultural e a mobilização digital em participação cidadã permanente? Comparecer a um ato é importante, mas a continuidade democrática depende também da organização comunitária, da formação política, da participação nos conselhos públicos e da capacidade de influenciar as decisões do Estado.
Essa é uma das conexões mais relevantes entre cultura e democracia: a cultura não funciona apenas como entretenimento ou instrumento de comunicação de uma campanha, mas também como espaço de criação de identidades, elaboração de ideias e construção de vínculos coletivos.
4. Qual foi o tamanho da manifestação?
A Avenida Paulista ficou tomada por manifestantes, e a concentração chegou a ocupar cerca de 12 quarteirões, segundo a Folha de S.Paulo. O movimento levou ao fechamento temporário da estação Trianon-Masp do metrô.
É necessário, entretanto, fazer uma ressalva: até a publicação da reportagem consultada, não havia estimativa independente e oficial consolidada do público. A avaliação de que se tratou de uma das maiores manifestações recentes da esquerda em São Paulo se baseou, em parte, na extensão da área ocupada. Portanto, não é prudente apresentar números divulgados por organizadores ou pela campanha como se fossem uma contagem confirmada. 

5. Qual é o significado político do ato?
A manifestação cumpriu pelo menos três funções.
- Mobilização eleitoral: estimular a militância, atrair eleitores indecisos e reduzir a abstenção no segundo turno.
- Demonstração de força social: mostrar que existe uma base mobilizada em defesa da continuidade do governo Lula e contra o avanço da extrema direita.
- Disputa de valores: associar a democracia à educação pública, aos direitos trabalhistas, à diversidade, à soberania nacional e à participação popular.
Essas funções se sobrepõem, mas não são idênticas. O tamanho de uma manifestação não determina o resultado de uma eleição, assim como o apoio eleitoral a um candidato não significa, por si só, adesão a todas as pautas levantadas no ato. A mobilização demonstra capacidade de organização e disposição para disputar os rumos do país, mas sua conversão em votos e em participação democrática duradoura ainda depende dos próximos passos. 

6. Uma leitura pela perspectiva da ação cultural
Para quem acompanha a relação entre cultura, educação popular e participação social, a Marcha pela Democracia oferece uma reflexão especialmente importante.
A democracia não se sustenta somente por meio das eleições e das instituições formais. Ela também depende de uma sociedade capaz de se organizar, produzir informação, expressar suas diferenças e participar das decisões coletivas. Nesse sentido, a presença de estudantes, artistas e comunidades culturais na Paulista aponta para uma compreensão ampliada da política, na qual a cidadania se constrói tanto nas urnas quanto nos espaços de convivência, criação e organização popular.
O desafio é fazer com que a energia de um grande ato não desapareça depois da votação. Para os Pontos de Cultura, as organizações comunitárias e os movimentos de educação popular, isso significa fortalecer espaços permanentes de formação, comunicação independente, produção cultural e participação nas políticas públicas.
Em síntese: a manifestação de 11 de outubro foi uma demonstração de força eleitoral, mas também uma disputa pelo significado da democracia no Brasil. Sua importância histórica dependerá não apenas de quantas pessoas ocuparam a Avenida Paulista, mas de quanto dessa mobilização poderá se transformar em organização social, defesa dos direitos e participação cidadã continuada.

💥Artistas tomam a Paulista e Baco Exu do Blues crava: o outro lado tá com medo e tem motivo💥


A cobertura do Grupo Globo ao ato na Avenida Paulista neste domingo gerou intensa repercussão e críticas nas redes sociais, com apoiadores do presidente acusando os canais da emissora de tentarem minimizar o tamanho da manifestação.
Os principais pontos da cobertura foram:
• Foco no Conteúdo Editorial e Discursos: No portal G1, n'O Globo' e no Valor Econômico, a cobertura textual detalhou os discursos de Lula. Destacou-se o apelo do presidente para reverter o alto índice de abstenção do primeiro turno, as menções do governo sobre as votações do fim da escala 6x1 e as críticas direcionadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pela suspensão de canais de campanha no WhatsApp.
• Polêmica com Imagens Fechadas na GloboNews: A maior queixa dos manifestantes nas redes sociais envolveu a cobertura da GloboNews. Embora a narração dos repórteres citasse explicitamente que o helicóptero da emissora (Globocop) registrava "vários quarteirões ocupados", a transmissão ao vivo na TV priorizou imagens fechadas do público (focadas nos rostos das pessoas e em cartazes específicos), em vez de exibir tomadas aéreas amplas que mostrassem toda a extensão da multidão.
• Acusações de Seletividade e "Robôs": Críticos e blogs de mídia destacaram que, enquanto milhares de pessoas ocupavam a avenida, a TV Globo manteve sua programação normal de domingo à tarde (exibindo, por exemplo, uma matéria sobre uma competição universitária de robótica). Isso alimentou narrativas de opositores afirmando que a emissora buscou deliberadamente esconder a dimensão do ato de esquerda.
• Destaque para a Dispersão e Tumultos: No final da tarde e nos boletins noturnos, o jornalismo da emissora passou a focar fortemente nas imagens de dispersão, cobrindo os episódios de depredação e vandalismo nas entradas das estações Trianon-Masp e Consolação do metrô, onde manifestantes subiram nas estruturas de vidro. 

QUE DOMINGO: MULTIDÃO PRÓ-LULA NA PAULISTA E VITÓRIA CONTRA CENSURA NO TRIBUNAL |



Jovens estudantes lideram as manifestações de rua pela virada e contra o retorno da ditadura via voto. Canções para celebrar: Coração de Estudante, Me Gustan Los Estudiantes, Folia de Príncipe

 

Neste domingo, Lula e Flávio Bolsonaro receberam reforços de naturezas opostas: o primeiro, de jovens nas ruas; o segundo, de decisões de ministros do TSE que escancararam suspeitas de dois pesos e duas medidas. Na avenida Paulista, a juventude roubou a cena — e o comando político. Coletivos, estudantes e militantes organizaram o que os registros visuais apontam provavelmente como o maior ato eleitoral de São Paulo em 2026 (não houve contagem de institutos). Cansados dos erros da campanha, jovens decidiram puxar as rédeas de mobilizações contra o retorno de um projeto autoritário ligado à tentativa de golpe.

Enquanto Lula ganhava oxigênio no asfalto, Flávio encontrava socorro nos gabinetes. Kassio Nunes Marques mandou censurar o canal “Exército do Lula” no WhatsApp, atropelando um procedimento já conduzido pelo corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva. A ordem foi revertida horas depois, mas o constrangimento institucional permaneceu. O episódio soma-se à suspensão de julgamentos quando Flávio enfrentava maioria desfavorável.

André Mendonça, por sua vez, deu apenas três horas para a campanha petista retirar centenas de anúncios em redes sociais sobre riscos a políticas sociais representados por Flávio O argumento de combater propaganda negativa virou, na prática, um freio ao debate eleitoral.

O contraste é eloquente: nas ruas, jovens tentam salvar a política; nos tribunais, decisões favoráveis a Flávio alimentam a desconfiança sobre a imparcialidade do árbitro. Na Paulista, a juventude mostrou que não pretende terceirizar seu futuro. No TSE, ministros precisam demonstrar que a lei vale igualmente para todos. Porque Justiça Eleitoral não pode ter candidato preferido, nem cheiro de jogo marcado.

Leia a íntegra do texto na minha coluna no UOL, link na bio.  Leonardo Sakamoto


Alceu Castilho no facebook
A esta altura, domingo, 11/10/2026, todas as 27 Unidades da Federação tiveram registro de manifestações estudantis durante o segundo turno. Segundo levantamento do geógrafo Wanderson Cardoso Gomes. (Texto atualizado: antes faltavam Acre e Roraima.)

Esse é um dos principais acontecimentos dos últimos dias. Ainda não repercutido em todas as suas dimensões pela imprensa comercial. Quem não der a atenção devida a isso estará atentando contra os fatos -- e contra a democracia.

Em quantos municípios? Reunindo quantas pessoas? Influenciando de que maneira os votos? Ainda não sabemos. Mas só com muito despeito e torpor para ignorar um acontecimento político dessa magnitude. Ou má-fé. Manipulação.

Mesmo no campo da resistência ainda há quem procure uma espécie de protagonismo sabichão, como se fosse mais importante apontar tal ou qual defeito do governo atual (virando a cabeça de lado, torcendo a boca) do que repercutir as iniciativas pela virada.

E por isso precisamos repercutir menos esses ranhetas e mais o movimento dessas centenas de milhares de pessoas que, somadas, estão a injetar as doses de esperança que faltavam em meio a um contexto muito difícil.

Isso não significa negar os números do primeiro turno, o poder do dinheiro, as censuras e curiosos esquecimentos que existem aqui e ali, em determinada big tech, em emissoras de rádio e televisão controladas por um oligopólio golpista ou omisso.

Significa que o jogo não acabou. Os jovens estão a mostrar isso em movimento e nas ruas, desde Niterói para quase todo o Brasil. Nas capitais e outras metrópoles, em cidades médias e, aqui e ali, se espraiando pelo interior.

Enquanto o algoritmo dormia, chegou a mim uma imagem de moradores de Ponta de Pedras, no Pará, com os moradores a estender uma faixa: "O marajoara resiste para o filho do pescador virar doutor".

Algo acontece em Niterói e algo acontece na Ilha do Marajó. Os filhos dos trabalhadores estão estudando e exercendo (muitas vezes diante de repressão policial) um direito político, estudando e levando diversidade em meio aos discursos de ódio.

O outro lado entende bem disso e tentará ganhar pelos litros raivosos de perdigotos e pela tentativa de desqualfiicação de quem desponte como líder no campo da resistência. Como fizeram com a jovem mineira Ana Elisa, de 21 anos, eleita deputada federal.

Só que não dá para desqualificar milhões de Anas e Elisas.












A relação entre as manifestações estudantis realizadas ao longo desta semana e a marcha dos fandoms na Avenida Paulista, neste 11 de outubro, ganha mais força quando interpretada à luz das três canções apresentadas: Coração de Estudante, de Milton Nascimento e Wagner Tiso; Me gustan los estudiantes, de Violeta Parra; e Folia de Príncipe, de Chico César. Cada uma, a seu modo, ajuda a compreender como a juventude, a cultura e a participação política se encontram na construção da democracia, ainda que os grupos mobilizados tenham histórias, linguagens e motivações diferentes.

Coração de Estudante evoca a esperança, a solidariedade e a possibilidade de reconstruir o futuro coletivamente. Associada à redemocratização brasileira e às mobilizações pelas Diretas Já, a canção nos lembra que a democracia não se sustenta apenas nas instituições, mas também na capacidade de uma geração reconhecer os problemas de seu tempo e se dispor a enfrentá-los. Quando estudantes ocupam as ruas para defender a educação pública, reivindicar direitos sociais e afirmar suas expectativas para o país, essa esperança deixa de ser apenas sentimento e se transforma em ação coletiva. A canção encontra, assim, ressonância nas manifestações estudantis desta semana, que recolocam a educação, o trabalho e a democracia no centro do debate público.

Já Me gustan los estudiantes, de Violeta Parra, traz uma dimensão mais incisiva: a juventude que não aceita passivamente a ordem estabelecida, que questiona as autoridades e transforma o conhecimento em instrumento de crítica social. A música latino-americana celebra estudantes que se levantam contra injustiças e se recusam a tratar a realidade como algo imutável. É uma chave de leitura para os atos estudantis recentes, mas também para pensar a importância da formação política, da educação popular e dos espaços em que jovens possam desenvolver autonomia, consciência crítica e capacidade de organização. Não se trata de idealizar toda mobilização juvenil, e sim de reconhecer que uma democracia viva precisa de cidadãos dispostos a perguntar, discordar, reivindicar e participar.

Folia de Príncipe, de Chico César, acrescenta uma dimensão que não deve ser subestimada: a cultura como experiência de encontro, expressão, liberdade e invenção de outras formas de convivência. Essa perspectiva ajuda a compreender a marcha dos fandoms na Avenida Paulista, na qual comunidades de fãs, articuladas também pelas redes digitais, levaram para o espaço público linguagens, referências musicais e formas de organização nascidas de interesses culturais compartilhados. Embora a mobilização dos fandoms não seja equivalente à trajetória histórica do movimento estudantil, ambas demonstram que pessoas reunidas inicialmente em torno de interesses comuns podem construir vínculos, desenvolver formas de participação e, em determinadas circunstâncias, levar suas preocupações para o debate democrático. A cultura pop, nesse contexto, não precisa abandonar sua dimensão de entretenimento para adquirir relevância pública; pode justamente partir do afeto, da identificação e da experiência compartilhada para abrir caminhos de diálogo e intervenção cidadã.

As três canções, portanto, não funcionam apenas como trilha sonora para acontecimentos recentes. Elas oferecem perspectivas complementares para compreender o momento: Coração de Estudante nos fala da esperança que impulsiona a ação; Me gustan los estudiantes destaca a inquietação crítica que desafia as injustiças; e Folia de Príncipe nos convida a reconhecer a potência da cultura, da celebração e da criação coletiva como dimensões da liberdade. Juntas, ajudam a perceber que a participação democrática não nasce de uma única linguagem, nem se limita aos espaços tradicionais da política.  

Conversas com Hildegard Angel - Juventude nas ruas e a força da luta estudantil, com Marina Lopes



🔥Mais de 1 milhão de pessoas tomam a Paulista e Lula emociona ao ver a juventude na luta🔥