segunda-feira, 5 de outubro de 2026

ROUBARAM A ESPERANÇA? Frei Betto (*)

Leila Diniz grávida, segurando uma flor, em um registro clássico de 1971 feito pelo fotógrafo norte-americano David Drew Zingg.

 Se você já não enxerga perspectiva de futuro, despreza políticos e a política, recolhe-se à sua esfera privada, é sinal de que lhe roubaram a esperança.

Se já não suporta o noticiário, acredita que a espécie humana deu errado e todas as libertações resultam em opressões, saiba que lhe roubaram a esperança.

Se destila ódio nas redes digitais, desconfia de todos que proferem discursos sobre ética e preservação do meio ambiente, e confia apenas em sua conta bancária, esteja certo, roubaram-lhe a esperança.

Se não curte mais sonhos de um futuro melhor, não injeta utopia na veia e não assume seu protagonismo como cidadão, preferindo se isolar em sua redoma de cristal, é sinal de que lhe roubaram a esperança.

Os amigos de Jó tudo argumentaram para que ele abdicasse da esperança. Como teimava em mantê-la acesa se havia perdido terras, riquezas e família? Jó não introjetou a culpa, não jogou sobre os ombros de outrem os males que o afligiam, não abominou os revezes que o acometeram.

Reza o poema de Franz Wright, inspirado na prece da poeta persa Rabi’a al-Adawiyya, “Deus, se pronuncio meu amor por você por medo do inferno, incinere-me nele; / se pronuncio meu amor por ansiar pelo paraíso, feche-o em minha face. / Mas se com você eu falo apenas porque você existe, pare / de esconder de mim sua / infinita beleza.”

Nessa gratuidade da fé, da esperança e do amor é que Jó se sentiu recompensado ao contemplar a infinita beleza: “Te conhecia só por ouvir dizer. Mas, agora, meus olhos te viram” (42, 5).

Como escreveu Spinoza em seu “Tratado teológico político”, “um povo livre se guia pela esperança mais do que pelo medo; o que está oprimido se guia mais pelo medo do que pela esperança. Um almeja cultivar a sua vida. O outro, suportar o opressor. Ao primeiro, eu chamo livre. Ao segundo, chamo servo.”

Você, como eu, é vítima de promessas que se transformaram em ilusões que desembocaram em frustrações. Nem por isso admito que me roubem a esperança.

O segredo? Simples. Não me prendo ao aqui e agora. Olho as contradições do passado, marcado por retrocessos e avanços. Quantas batalhas perdidas resultaram em guerras vitoriosas? E quantos imperadores, senhores da vida e da morte, dos Césares a Átila, o huno; de Napoleão a Hitler; acabaram enxovalhados pela história?

Encaro o futuro em longo prazo. Sei que não participarei da colheita, mas faço questão de morrer semente.

Não creio em discursos nem amarro a minha esperança no paraquedas de algum avatar que promete salvação em curto prazo. Exijo programas e projetos, e julgo seus portadores por critérios rígidos. Procuro conhecer-lhes a vida pregressa, o compromisso com os movimentos sociais, sua ética e valores.

Sei que o futuro será o que fizermos no presente. Não espero milagres. Arregaço as mangas, convicto de que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

A esperança é uma virtude teologal. A fé crê; o amor acolhe; a esperança constrói. Assim como o caminho se faz ao caminhar, a esperança se tece como o alvorecer no poema de João Cabral de Melo Neto: "Um galo sozinho não tece a manhã: / ele precisará sempre de outros galos. / De um que apanhe esse grito que ele / e o lance a outro: de outro galo / que apanhe o grito que um galo antes / e o lance a outro; e de outros galos / que com muitos outros galos se cruzam / os fios de sol de seus gritos de galo / para que a manhã, desde uma tela tênue, / se vá tecendo, entre todos os galos.”

Gosto do verbo esperançar – estender o fio de Ariadne que nos conduz a todos para fora do labirinto. É um esforço coletivo, uma ação comunitária, um mutirão que nos irmana na certeza de que de dentro da pedra corre o filete de água que forma o córrego, faz o riacho, vira rio e rasga a terra, rega campos, alimenta ribeirinhos, até se somar ao leito do oceano.

Como diz Mário Quintana em “Das utopias”, “Se as coisas são inatingíveis... ora! / Não é motivo para não querê-las... / Que tristes os caminhos, se não fora / A mágica presença das estrelas!”

 (*) é escritor, autor de “Ofício de escrever” (Anfiteatro), entre outros livros.


Roberto Malvezzi e Rás de Sá (educador popular e artista BA e agente cultural SE, respectivamente)
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A eleição presidencial não está perdida! A diferença de 2 pontos não é tão grande para um eleitorado de 160 milhões. Foram 30 milhões de abstenções . Há espaço para a luta. Vamos ver o rumo da campanha! O que mudou no Brasil verdadeiramente é a base social, pela entrada do neopentecostalismo e emendas parlamentares. O Brasil conservador tornou-se reacionário. E a grana arrasa nas bases. Minha impressão é que a campanha vai ter que focar aí, no cotidiano do povo. O Nordeste, mais uma vez , nos salvou de uma tragédia política total.



O que significou esse 04 de outubro de 2026? Por Romero Venâncio (UFS)


 


Terry Eagleton propõe a esperança sem otimismo

Obra mais recente do filósofo desafia a visão superficial que a vê como “ilusão” ou “perseverança”. Propõe uma análise crítica da esperança como motor de transformação.

https://outraspalavras.net/blog/terry-eagleton-propoe-a-esperanca-sem-otimismo/

O livro  acima é o sugerido na live acima pelo professor Romero



domingo, 4 de outubro de 2026

Cabaré eleitoral: dinheiro público comprando droga, cerveja e voto

"Gente, isso é grave. Tão usando dinheiro público pra comprar droga e cerveja em troca de voto. É um verdadeiro  cabaré eleitoral. Eu não sou puritano, mas dinheiro público não pode financiar isso. É crime. E o pior: funciona. O Coqueiral tá desse jeito . Ministério Público e Justiça Eleitoral precisam agir."

 


O cenário da fiscalização e do combate aos crimes eleitorais em Aracaju passou por uma profunda metamorfose na última década. No passado, o protagonismo do enfrentamento à compra de votos e ao uso da máquina pública pertencia a grandes coalizões da sociedade civil. Movimentos tradicionais uniam o peso técnico da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SE), o alcance comunitário e paroquial da Arquidiocese de Aracaju e a atuação de conselhos de classe profissionais para capitanear comitês de rua baseados na Lei nº 9.840/1999. Esses comitês mantinham plantões físicos e telefônicos de 24 horas, funcionando como a principal ouvidoria do cidadão comum durante o período de campanha.

Apesar do forte apelo ético desse antigo modelo, as práticas de aliciamento mantiveram-se agressivas nas periferias, adaptando-se às carências locais. Um exemplo contundente dessa realidade é sintetizado no desabafo popular que abre este artigo.

O Coqueiral, localizado na Zona Norte de Aracaju, é uma comunidade historicamente marcada por severas vulnerabilidades socioeconômicas, escassez de infraestrutura urbana básica e forte atuação de grupos ligados ao tráfico de drogas. Essa ausência prolongada do Estado, somada aos baixos índices de renda e à dependência de serviços públicos precários, transforma o bairro em um cenário onde a criminalidade comum frequentemente se sobrepõe à dinâmica urbana cotidiana. Em períodos eleitorais, essa fragilidade estrutural é reiteradamente explorada por redes de clientelismo e esquemas criminosos, que utilizam recursos ilícitos e distribuição de vantagens imediatas para aliciar eleitores e controlar o voto em territórios dominados pela exclusão social.

Diante de crimes complexos e graves como esse — que associam o desvio de verbas públicas ao crime organizado territorial e a esquemas de compra de votos —, a atuação civil voluntária das comissões do passado tornou-se juridicamente limitada. Um comitê formado por cidadãos e religiosos não possui poder de polícia para atuar em áreas de risco, nem ferramentas legais para auditar contas bancárias e quebrar sigilos financeiros. Por essa razão, os canais de repressão e controle institucionalizados assumiram definitivamente a liderança do processo operando por meio do aplicativo Pardal, de forças integradas da Polícia Federal, dos Tribunais de Contas e de agências de inteligência financeira.

Essa transição para o modelo tecnológico e estatal, contudo, não anula a relevância da mobilização social; pelo contrário, a participação da sociedade civil organizada permanece indispensável como uma força complementar essencial. Embora o Estado detenha o monopólio da força e os instrumentos de auditoria, são as entidades civis, as igrejas e os conselhos de classe que possuem a capilaridade e a confiança necessárias para romper a barreira do medo em comunidades vulneráveis. A sociedade civil organizada funciona como uma ponte vital: ela acolhe o cidadão que hesita em procurar uma delegacia, traduz a linguagem jurídica complexa em conscientização popular e atua como uma ouvidoria moral que pressiona as próprias instituições oficiais a agirem com celeridade. Sem o olhar atento das lideranças comunitárias e o respaldo pedagógico de instituições independentes, as ferramentas digitais correm o risco de se tornarem canais vazios, distantes de realidades complexas como a do Coqueiral. No ecossistema atual, a inteligência do Estado e a coragem da sociedade civil não se anulam, mas se somam, sendo a fiscalização oficial o braço executor e a mobilização social os olhos vigilantes da democracia.

Ainda assim, é inevitável lamentar que a comissão liderada pela OAB/SE, Arquidiocese de Aracaju e conselhos de classe tenha deixado de atuar com o mesmo vigor orgânico de outrora. Durante os anos de sua maior atividade (notadamente entre 2004 e 2016), o Comitê de Combate à Corrupção Eleitoral em Sergipe foi o coração de conquistas democráticas históricas. Foi sob a liderança desse bloco que Sergipe se destacou nacionalmente na coleta de assinaturas para projetos de iniciativa popular cruciais, como a própria consolidação da Lei da Ficha Limpa em 2010 e a campanha "Eleições Limpas" em 2013. Em termos práticos, as denúncias recebidas nos plantões de 24 horas da comissão subsidiaram ações penais do Ministério Público Eleitoral que culminaram no afastamento de prefeitos e vereadores flagrados em esquemas de abuso do poder econômico e na cassação de mandatos obtidos de forma ilícita em municípios da Grande Aracaju e do interior do estado. A ausência desse canal físico humanizado deixa uma lacuna afetiva e pedagógica nas ruas, lembrando-nos de que a eficiência dos algoritmos institucionais jamais substituirá por completo o valor do acolhimento e da coragem do olho no olho.

Para transformar o desabafo ou as evidências coletadas em ações reais e combater os crimes eleitorais citados (como compra de votos, uso da máquina pública e desvio de verbas), o cidadão deve encaminhar os relatos diretamente aos órgãos oficiais que detêm poder de polícia e de investigação. [1]
Os canais eletrônicos oficiais ativos para o envio seguro de denúncias são:
1. Justiça Eleitoral (Propaganda Irregular e Abuso)
  • Aplicativo Pardal: Desenvolvido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o aplicativo gratuito permite enviar fotos, vídeos e áudios com geolocalização e garante o sigilo da identidade do denunciante. O aplicativo pode ser baixado nas lojas digitais ou acessado pelo Pardal Web do TSE. [1, 2, 3]
  • Ouvidoria Eleitoral de Sergipe: Para reclamações gerais e outras manifestações diretamente no estado, o cidadão pode contatar os canais listados na Ouvidoria Eleitoral do TRE-SE, incluindo o e-mail ouvidoria@tre-se.jus.br e o atendimento telefônico. [1]
2. Ministério Público (Crimes Eleitorais e Compra de Votos)
  • Ministério Público Federal / Procuradoria Regional Eleitoral em Sergipe: Canal competente para crimes como compra de votos e desvio de verbas públicas nas eleições gerais. A denúncia pode ser formalizada anexando mídias e provas através da Sala de Atendimento ao Cidadão do MPF ou pelo aplicativo MPF Serviços. [1, 2, 3]
  • Ministério Público de Sergipe (MPSE): Focado no suporte e repressão local a crimes de abrangência regional e proteção social, as notificações e petições podem ser enviadas digitalmente pelo formulário de Denúncia Online do MPSE. [1]
3. Combate à Desinformação
  • Sistema de Alertas (SIADE): Caso a irregularidade envolva mentiras ou desinformação coordenada que prejudique a lisura do pleito, o envio deve ser feito pelo SIADE do Tribunal Superior Eleitoral. [1]


“Há de nascer um novo amanhã.”


O amanhã da esperança. Do amor. Da dignidade.
Há de se firmar um mundo diverso, colorido, plural, feito de encontros, respeito e união.

Não há mentira que permaneça de pé para sempre, nem ódio capaz de destruir aquilo que a humanidade insiste em reconstruir. O mal, por si só, há de se revelar em sua própria pequenez: a pequenez de quem nada edifica e tudo destrói.

E o falso manto da santidade há de cair, desnudando as faces daqueles que invocaram o nome de Deus em vão, usando a fé como instrumento de poder, intolerância e divisão.

A humanidade há de ressurgir — mesmo carregando cicatrizes.
O povo haverá de se reerguer do caos, da violência, da mentira e da desumanização. Haverá de recuperar a esperança, a voz e a capacidade de sonhar.

O Brasil haverá de sorrir.

As lutas continuarão. Porque nenhum amanhã nasce pronto.
É preciso coragem para atravessar a noite. É preciso permanecer atento e forte.

O mal é sorrateiro. Às vezes se esconde atrás de palavras bonitas, de falsos moralismos e de discursos que prometem salvação enquanto semeiam divisão.

Mas seguiremos firmes.

Porque a história não termina nas mãos daqueles que destroem.
A história também pertence àqueles que resistem, cuidam, constroem e acreditam.

E, depois de toda noite, o sol há de brilhar mais uma vez.

Que o Brasil reencontre a esperança.
Que a diversidade seja celebrada.
Que a inclusão seja realidade.
Que a dignidade humana esteja acima do ódio.
Que a soberania e os direitos do povo sejam preservados.

E que nunca nos falte coragem para continuar sonhando com um Brasil verdadeiramente de todos.

Dito isso, meu voto é 13. Meu voto é Lula presidente. Meu voto é de todos aqueles ALIADOS - governadores, deputados estaduais, federais, senadores - que verdadeiramente acreditam num Brasil mais justo, humano, digno, inclusivo, sustentável e soberano. 



sábado, 3 de outubro de 2026

E se os hermanos pudessem votar no Brasil?


“A Mão”, monumento de 7 metros idealizado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, homenageia a luta e a resistência de povos latino-americanos por meio do simbolismo de dedos abertos e sangue jorrando


"Pensando em como votar pelo Lula com documento colombiano."

"Como não vou poder votar no Lula se eu vi Avenida Brasil?"

"Situação sentimental: preciso buscar uma forma de votar em Lula."

As frases estampam vídeos nas redes sociais de influenciadores progressistas da América Latina que, após verem seu campo político ser derrotado em casa, voltaram-se para o Brasil na esperança de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vencer Flávio Bolsonaro (PL) no próximo domingo (4).

Considerando o giro político na região, há bastante material para conteúdo. A direita ganhou todas as eleições presidenciais da América Latina desde o início de 2025, deixando apenas Brasil, Uruguai, México e Guatemala governados pela esquerda.

"Toda a região está guinando para a direita agora", afirma o ator Lucas Tresca, que entrou na onda de vídeos em apoio a Lula na internet. "O Brasil representa uma esperança de frear um pouco esse movimento", continua o argentino, atualmente governado pelo ultraliberal Javier Milei.

Texto da Folha de São Paulo

Quando um argentino, colombiano ou outro latino-americano diz que gostaria de votar numa eleição brasileira, o que ele está dizendo sobre o Brasil — e sobre a própria América Latina?

Por que argentinos, colombianos, chilenos e outros latino-americanos, que não possuem sequer o direito de votar nas eleições brasileiras, estão acompanhando e, em alguns casos, manifestando publicamente apoio à candidatura de Lula? O que existe no Brasil que faz com que uma eleição nacional desperte interesse, identificação e até desejo de participação entre pessoas que vivem além das nossas fronteiras? E o que esse movimento pode nos dizer sobre nossas formas de pertencimento e sobre a maneira como construímos, muitas vezes sem perceber, uma história comum neste continente?

Foi a partir dessas perguntas que comecei a prestar mais atenção a algumas manifestações que vêm circulando nas redes sociais latino-americanas nestes dias de eleição brasileira, especialmente depois que uma reportagem da Folha de S.Paulo reuniu casos de argentinos e colombianos que expressaram publicamente sua simpatia por Lula. Uma delas me chamou particularmente a atenção: o argentino Lucas Tresca publicou um vídeo, em tom bem-humorado, dizendo que estava pensando em como votar em Lula tendo documento argentino.

A brincadeira poderia ser apenas mais uma entre tantas que circulam diariamente pelas redes, mas ganha outra dimensão quando percebemos que aquilo que está sendo compartilhado não é somente uma preferência eleitoral. Existe ali uma identificação construída por referências políticas, culturais e históricas que atravessam a fronteira e encontram eco em alguém que vive outra realidade nacional.

Costumamos pensar cultura como aquilo que produzimos nos teatros, cinemas, museus, bibliotecas, centros culturais, escolas, universidades, festas populares, terreiros, comunidades e espaços de criação. Tudo isso é cultura, evidentemente, mas ela também está na maneira como uma sociedade constrói seus símbolos, preserva suas memórias, interpreta seu passado, imagina seu futuro e reconhece no outro alguma coisa de si mesma.

É por isso que uma eleição pode adquirir uma dimensão que ultrapassa a disputa entre candidatos. As escolhas políticas carregam visões de mundo, valores, memórias e projetos de sociedade que circulam por diferentes linguagens e atravessam fronteiras.

O hermano que aparece na tela do celular

Lucas Tresca é argentino e ator, e seu vídeo ganhou repercussão justamente porque transforma uma impossibilidade jurídica em uma espécie de brincadeira política: como votar em Lula se não tenho documento brasileiro? Por trás do humor, entretanto, aparece uma preocupação relacionada ao cenário político latino-americano e às disputas ideológicas que atravessam diferentes países da região.

O mais interessante talvez esteja na forma como essa manifestação acontece. Não estamos diante de um documento partidário, de uma resolução diplomática ou de um pronunciamento oficial. Estamos diante de um artista que utiliza uma linguagem cotidiana, própria das redes sociais, para falar de política e estabelecer uma comunicação com pessoas que vivem em outro país.

Durante muito tempo, nossa experiência latino-americana foi construída através da música, da literatura, do cinema, do futebol, das telenovelas, das festas populares, dos movimentos sociais e das universidades. Hoje, a esse repertório se juntam os vídeos, os memes, os podcasts e as novas formas de comunicação digital. Mudaram a velocidade e os meios de circulação, mas permanece a capacidade de uma ideia, uma imagem ou uma canção encontrar eco muito além do lugar onde nasceu.

Talvez seja por isso que a expressão “hermanos”, tantas vezes utilizada pelos brasileiros de maneira quase folclórica para designar nossos vizinhos, possa adquirir agora outro significado. O hermano não é apenas aquele que mora do outro lado da fronteira, fala espanhol e torce por uma seleção diferente da nossa. Pode ser também aquele que acompanha nossas escolhas porque sabe que, de alguma maneira, elas poderão repercutir sobre seu próprio país.

De Galeano às redes sociais

Quando penso nessa circulação latino-americana, lembro de Eduardo Galeano e de sua capacidade de construir, através da literatura, uma narrativa do continente que não respeitava exatamente as fronteiras desenhadas nos mapas políticos. Em sua obra aparecem povos, trabalhadores, indígenas, camponeses, migrantes, artistas e personagens anônimos que compartilham histórias de exploração, resistência, esperança e luta.

Essa tradição ajuda a perceber que a ideia de América Latina não nasceu apenas dos tratados diplomáticos ou dos projetos de integração econômica. Ela também foi construída por escritores, músicos, cineastas, artistas populares, educadores, movimentos sociais e comunidades que, ao longo de décadas, criaram uma memória compartilhada do continente.

Talvez seja por isso que, quando um argentino manifesta simpatia por uma eleição brasileira ou um colombiano se reconhece numa frase pronunciada por Lula, não estejamos necessariamente diante de uma novidade absoluta. A novidade está na velocidade e na escala com que essas identificações podem circular hoje.

O que antes poderia levar meses para atravessar fronteiras através de um livro, de um disco ou de uma fita de vídeo agora pode alcançar milhares de pessoas em poucas horas.

Uma memória que atravessa fronteiras

Há outro elemento importante nessa discussão: a memória.

Os países latino-americanos possuem histórias diferentes, mas também carregam experiências que apresentam impressionantes pontos de contato. Ditaduras militares, desigualdade social, colonialismo, racismo, concentração de terra, dependência econômica, exploração de recursos naturais, resistência popular, movimentos de trabalhadores e lutas por democracia fazem parte, em diferentes graus e momentos, da experiência de muitos países do continente.

Quando um argentino, um chileno ou um colombiano olha para o Brasil e identifica determinada disputa política como algo que também lhe diz respeito, não está necessariamente reproduzindo uma opinião importada. Pode estar acionando memórias próprias e relacionando experiências de seu país com aquilo que observa aqui.

É aí que a cultura funciona como um arquivo vivo. Ela guarda aquilo que os documentos oficiais muitas vezes não conseguem registrar inteiramente: sentimentos, símbolos, histórias familiares, canções, imagens, palavras e experiências que ajudam uma geração a compreender a outra.

Dos Pontos de Cultura à integração latino-americana

É impossível pensar nessa dimensão sem lembrar a experiência dos Pontos de Cultura e da Cultura Viva, que Célio Turino ajudou a formular e difundir no Brasil e em outros países.

A ideia de Cultura Viva parte de uma mudança importante na maneira de pensar as políticas culturais. Em vez de imaginar que o Estado deve simplesmente levar cultura para uma população considerada passiva, reconhece-se que as comunidades já produzem conhecimento, memória, arte e formas próprias de organização, cabendo às políticas públicas fortalecer, conectar e dar visibilidade a essas experiências.

Essa concepção permite pensar a integração latino-americana também a partir das comunidades, e não apenas dos governos.

Quando um grupo cultural brasileiro estabelece relação com um grupo argentino, colombiano, uruguaio ou chileno, pode estar construindo uma pequena experiência de integração regional. Ela começa pela música, pela dança, pelo teatro, pela memória, pela educação, pela comunicação comunitária e pelas práticas cotidianas, mas pode produzir consequências políticas importantes porque cria reconhecimento entre pessoas que antes se percebiam apenas como habitantes de países diferentes.

Talvez esse seja um dos sentidos mais profundos dessas trocas: permitir que o outro deixe de ser completamente estrangeiro.

O  colombiano e uma frase sobre soberania

O caso de Andre Arcos, colombiano, estudante de Direito e ativista LGBT+, ajuda a perceber essa relação. Ele publicou um vídeo depois de ouvir Lula afirmar, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

Arcos identificou naquela frase questões relacionadas à soberania, aos direitos sociais e às disputas políticas que também atravessam a Colômbia. Seu vídeo acabou alcançando brasileiros e pessoas de outros países latino-americanos.

O episódio mostra como uma frase política pode ganhar uma segunda vida quando entra no território digital. Ela deixa de pertencer exclusivamente ao discurso de quem a pronunciou e passa a ser reinterpretada por pessoas que vivem experiências diferentes.

É assim com uma canção, com um poema, com uma fotografia e também com uma frase política: aquilo que circula é apropriado, reinterpretado, contestado e transformado por quem recebe.

A Amazônia como território compartilhado

Talvez nenhum tema permita visualizar melhor essa dimensão do que a Amazônia.

Uma declaração da Rede Sindical Amazônica reuniu entidades de seis países — Brasil, Peru, Colômbia, Equador, Bolívia e Suriname — em torno de preocupações relacionadas à política amazônica, ao meio ambiente, aos trabalhadores e às comunidades da região.

A Amazônia também é território de povos indígenas que atravessam fronteiras nacionais, de línguas que não obedecem às divisões políticas, de rios que conectam comunidades, de tradições alimentares, conhecimentos sobre a floresta, formas de organização comunitária e histórias que precedem a criação dos Estados nacionais.

Quando discutimos a Amazônia apenas como recurso econômico ou patrimônio ambiental, deixamos de enxergar essa dimensão humana. Não estamos falando apenas de árvores. Estamos falando de povos, modos de vida e conhecimentos que constituem uma das maiores riquezas do continente.

A Argentina de Milei e a disputa de imaginários

Há também a dimensão política da Argentina de Javier Milei, que não pode ser ignorada, especialmente porque Milei atravessou a fronteira para participar de uma atividade política relacionada à candidatura de Flávio Bolsonaro.

O contraste com o vídeo de Lucas Tresca é curioso: enquanto um cidadão argentino brinca com a impossibilidade de votar no Brasil, o presidente de seu país participa presencialmente de uma atividade política brasileira. São situações completamente diferentes, mas ambas ajudam a mostrar como a política de um país pode repercutir intensamente no debate público de outro.

Nesse terreno aparecem também diferentes ideias sobre o papel do Estado, os direitos sociais, a soberania nacional, a economia e a integração regional. São disputas que não se limitam aos programas partidários. Envolvem diferentes maneiras de imaginar a sociedade e o futuro.

Quando a América Latina olha para o Brasil

Há muito tempo nós, brasileiros, olhamos para os Estados Unidos e para a Europa em busca de referências culturais, políticas e econômicas. Consumimos suas músicas, seus filmes, seus livros, suas séries e seus debates políticos, muitas vezes conhecendo muito mais aquilo que acontece em Washington, Paris ou Londres do que aquilo que ocorre em Buenos Aires, Bogotá, Montevidéu, La Paz ou Assunção.

Essa assimetria também é resultado de uma história marcada pela dificuldade de reconhecer plenamente nossos próprios vizinhos.

Por isso, talvez seja interessante prestar atenção quando acontece o movimento inverso e latino-americanos começam a olhar para o Brasil não apenas como mercado, potência econômica ou país de futebol, mas como referência política e cultural.

O que eles estão vendo?

Talvez vejam um país que ocupa uma posição estratégica na América do Sul, possui uma produção cultural gigantesca, uma enorme diversidade social, uma das maiores populações negras do mundo fora da África, grande diversidade indígena e uma presença decisiva na discussão sobre a Amazônia e o clima.

Mas é importante lembrar que essas são leituras de grupos e indivíduos específicos, não uma visão uniforme da América Latina.

E se os hermanos pudessem votar?

A pergunta que dá título a este texto continua sendo uma provocação, porque estrangeiros não votam nas eleições brasileiras simplesmente por desejarem fazê-lo. A democracia possui regras, território, cidadania e instituições, e são os eleitores brasileiros que têm a responsabilidade de decidir os rumos políticos do país.

Mas alguém pode não votar no Brasil e, ainda assim, acompanhar nossa música, estudar nossa literatura, assistir ao nosso cinema, participar de uma rede cultural brasileira, defender a preservação da Amazônia, admirar um artista brasileiro, criticar nossas políticas públicas ou manifestar preocupação com os rumos da nossa democracia.

É por isso que talvez devêssemos olhar com mais atenção para esses argentinos, colombianos, chilenos e outros latino-americanos que estão falando sobre a eleição brasileira. para compreender o que existe no Brasil que consegue produzir identificação fora das nossas fronteiras.

Talvez a resposta esteja em parte na história que compartilhamos.

Antes de sermos países com bandeiras, governos, moedas e documentos diferentes, fomos sociedades atravessadas por processos de colonização, resistência, migração, mestiçagem, desigualdade e criação cultural. Nossas diferenças são reais e precisam ser respeitadas, mas elas não anulam os vínculos construídos ao longo dos séculos.

Quando um argentino brinca que gostaria de votar no Brasil, quando um colombiano transforma uma frase de Lula em conteúdo para suas redes, quando um partido chileno publica uma declaração sobre a eleição brasileira ou quando organizações sindicais de diferentes países amazônicos discutem os rumos da política brasileira, estamos diante de manifestações muito diferentes entre si, mas que revelam algo comum: a América Latina continua procurando maneiras de conversar consigo mesma.

Cancion Por La Unidad Latinoamericana   -  Milton Nascimento · Chico Buarque,  do álbum Clube Da Esquina 2 - ℗ 1978 - Composer Lyricist: Pablo Milanés - Adapter: Chico Buarque




Las imágenes de este video se filmaron entre el 6 y el 11 de abril de 2026, durante la visita de Chico Buarque a La Habana con motivo de la grabación, junto a Silvio Rodríguez, del tema Sueño con serpientes.

Los beneficios de este trabajo serán donados por ambos músicos a la Sala de Pediatría del Instituto Nacional de  Oncología en Cuba.



Uma obra-prima em forma de canção, em homenagem à América Latina, com participações de Totó la Momposina, Susana Baca e Maria Rita.















Los Hermanos · Elis Regina - Atahualpa Yupanqui



Beth Carvalho - Eu Só Peço a Deus (Solo Le Pido a Dios) - León Gieco