NOTA EXPLICATIVA
Incubação e Mentoria de Iniciativas Culturais
A proposta de Incubação e Mentoria de Iniciativas Culturais fundamenta-se na concepção de ação cultural desenvolvida por Teixeira Coelho, nas experiências registradas pela Ação Cultural em seu Blog da Cultura e nos princípios da Política Nacional de Cultura Viva (PNCV).
Embora o termo “incubação cultural” não constitua uma categoria formal da Lei nº 13.018/2014, sua utilização pode ser compreendida como uma estratégia metodológica de fortalecimento das iniciativas culturais, coerente com os princípios de autonomia, protagonismo, formação, participação e articulação em rede presentes na Cultura Viva.
1. Ação cultural como criação de condições
No texto “Refundação da Ação Cultural”, publicado em 24 de agosto de 2023, o Blog da Cultura recupera a concepção de ação cultural de Teixeira Coelho, segundo a qual ela corresponde ao:
“processo de criação ou organização das condições necessárias para que as pessoas e grupos inventem seus próprios fins no universo da cultura.”
A referência é atribuída a Teixeira Coelho (1999, p. 33).
Essa concepção é fundamental para compreender a proposta de incubação. O papel da ação cultural não seria simplesmente oferecer atividades ou transmitir conhecimentos aos grupos, mas criar condições para que os próprios sujeitos culturais possam formular seus objetivos, desenvolver suas capacidades e construir seus caminhos.
Dessa perspectiva, a incubação deve evitar uma relação tutelar ou assistencialista. Seu propósito é fortalecer as capacidades já existentes nos grupos e coletivos, reconhecendo seus saberes, experiências, repertórios e vínculos territoriais.
O próprio Blog da Cultura retoma essa perspectiva ao discutir a importância de superar uma visão na qual poucos produzem cultura e a maioria apenas a consome. Em publicação relacionada à oficina “Cinema na Palma da Mão”, a Ação Cultural enfatiza a necessidade de ampliar não apenas o acesso à cultura, mas o “poder de fazer cultura”.
2. Incubação cultural
Nesse contexto, entende-se por incubação cultural um processo continuado de criação e organização de condições para que agentes, grupos, coletivos e organizações culturais possam estruturar, desenvolver, fortalecer e sustentar suas próprias iniciativas.
A incubação pode envolver:
- diagnóstico das potencialidades, necessidades e desafios da iniciativa;
- planejamento e organização das ações;
- formação em produção e gestão cultural;
- elaboração e aperfeiçoamento de projetos;
- organização de portfólio;
- comunicação e divulgação;
- orientação para editais e mecanismos de financiamento;
- acompanhamento e avaliação das ações;
- sistematização das experiências;
- formação e fortalecimento de redes;
- construção de parcerias;
- desenvolvimento de estratégias de sustentabilidade;
- fortalecimento da autonomia dos agentes e grupos.
A diferença em relação a uma capacitação pontual está no caráter continuado do acompanhamento. Enquanto uma formação pode oferecer conhecimentos e ferramentas, a incubação procura acompanhar sua aplicação concreta e contribuir para que a própria iniciativa desenvolva capacidade de utilizá-los de maneira autônoma.
3. Mentoria cultural
A mentoria cultural pode ser compreendida como uma estratégia de acompanhamento e orientação, individual ou coletiva, voltada para desafios concretos enfrentados pelos agentes e grupos culturais.
O Blog da Cultura registra uma experiência particularmente relevante na publicação de 2018 sobre empreendedorismo cultural, na qual aparece a expressão “Mentoria (consultoria coletiva)”. A atividade incluía orientação sobre enquadramento de projetos culturais, marketing e formatação de portfólio.
A mentoria, portanto, pode apoiar os participantes na análise de seus projetos, identificação de oportunidades, resolução de problemas, tomada de decisões e aprimoramento de suas estratégias de atuação.
Nesse sentido, a mentoria pode constituir uma ferramenta dentro de um processo mais amplo de incubação.
Enquanto a incubação acompanha o desenvolvimento da iniciativa como um todo, a mentoria oferece orientação mais focalizada diante das questões e desafios que surgem ao longo desse percurso.
4. Relação com a Política Nacional de Cultura Viva
A proposta encontra correspondência direta com os princípios da Política Nacional de Cultura Viva, instituída pela Lei nº 13.018, de 22 de julho de 2014.
A legislação estabelece, entre os objetivos dos Pontos de Cultura, a necessidade de potencializar iniciativas culturais já desenvolvidas por comunidades, grupos e redes de colaboração, fortalecer a autonomia social das comunidades e estimular a articulação das redes sociais e culturais.
Esse princípio é fundamental para a concepção de incubação.
Incubar não significa criar uma iniciativa cultural de fora para dentro. Significa reconhecer uma experiência existente, identificar suas potencialidades e criar condições para que ela possa se desenvolver e ampliar sua capacidade de atuação.
A Cultura Viva, ao reconhecer e fortalecer iniciativas culturais existentes nos territórios, oferece um importante marco político-institucional para essa abordagem.
5. Pontos e Pontões de Cultura
A proposta também se relaciona com as funções atribuídas aos Pontos e Pontões de Cultura.
De acordo com o Ministério da Cultura, os Pontões de Cultura desenvolvem ações de mobilização, formação, mediação e articulação em rede, além de promover a articulação entre Pontos de Cultura e contribuir para processos de capacitação e mobilização.
Nesse contexto, uma metodologia de incubação e mentoria pode ser compreendida como uma ação estruturante de fortalecimento das redes culturais, articulando formação, acompanhamento, orientação, troca de experiências e desenvolvimento de capacidades.
As próprias experiências registradas pela Ação Cultural no Blog da Cultura, incluindo ações relacionadas à Rede Sergipe de Pontos de Cultura e ao Pontão Gestão Viva 3.0, demonstram a importância atribuída à qualificação da gestão, à formação e ao fortalecimento das iniciativas integrantes da Cultura Viva.
6. Autonomia como princípio orientador
Um dos princípios centrais da proposta é o desenvolvimento da autonomia.
A incubação não deve produzir dependência permanente dos grupos em relação aos especialistas ou à instituição responsável pelo acompanhamento. Ao contrário, deve contribuir para que os participantes desenvolvam progressivamente condições para:
- elaborar seus próprios projetos;
- planejar e executar suas ações;
- administrar recursos;
- comunicar suas atividades;
- acessar políticas públicas;
- estabelecer parcerias;
- participar de redes;
- avaliar seus resultados;
- identificar oportunidades;
- construir estratégias de sustentabilidade.
Nesse sentido, o resultado de uma incubação não deve ser medido apenas pela quantidade de atividades realizadas durante o processo, mas também pelo aumento da capacidade dos grupos de continuar atuando de forma autônoma após o encerramento do acompanhamento.
Essa perspectiva dialoga diretamente com Teixeira Coelho e com a definição de ação cultural como criação das condições para que pessoas e grupos possam “inventar seus próprios fins” no universo da cultura.
7. Síntese conceitual
A partir das referências apresentadas, propõe-se compreender:
Incubação cultural como um processo continuado de criação e organização de condições para que agentes, grupos, coletivos e organizações culturais desenvolvam seus próprios objetivos, fortaleçam suas capacidades de gestão e produção, ampliem suas redes e conquistem maior autonomia para sustentar e desenvolver suas iniciativas.
Mentoria cultural como uma estratégia de acompanhamento e orientação, individual ou coletiva, que mobiliza conhecimentos, experiências e ferramentas para apoiar agentes e grupos culturais na análise de desafios, no aprimoramento de projetos e na tomada autônoma de decisões.
Assim, a incubação constitui o processo mais amplo de desenvolvimento da iniciativa, enquanto a mentoria constitui uma das ferramentas de acompanhamento desse processo.
A proposta articula, portanto, três dimensões complementares:
Teixeira Coelho → ação cultural como criação de condições para que os sujeitos construam seus próprios objetivos;
Cultura Viva → reconhecimento, fortalecimento, autonomia e articulação em rede das iniciativas culturais;
Incubação e Mentoria → metodologia prática de formação, acompanhamento, orientação e desenvolvimento de capacidades.
8. Consideração final
A Incubação e Mentoria de Iniciativas Culturais pode, dessa forma, ser compreendida como uma metodologia de ação cultural comprometida com a autonomia, o protagonismo, a participação, a democracia cultural e o fortalecimento das redes.
Seu propósito não é substituir os sujeitos culturais, mas criar condições para que eles possam ampliar sua capacidade de fazer cultura, organizar suas iniciativas, acessar políticas públicas, construir redes e transformar seus próprios territórios.
Essa abordagem aproxima a prática da Ação Cultural da concepção de ação cultural de Teixeira Coelho e dos princípios estruturantes da Política Nacional de Cultura Viva.