JUSTIÇA CLIMÁTICA E CULTURA: UM ALERTA DE SERGIPE PARA O SUPER EL NIÑO DE 2026/2027
A seca não será apenas natural; será também política. E a cultura não pode ficar de fora dessa trincheira.
Se os noticiários e os boletins do INMET já acenderam o sinal vermelho, nós, agentes culturais de Sergipe, acendemos um alerta ainda mais profundo: a crise climática que se avança sobre Aracaju e todo o estado é, antes de tudo, uma crise de direitos, de território e de planejamento. E, sim, é uma crise cultural.
Enquanto o Governo do Estado e a Prefeitura de Aracaju correm para montar uma "Sala de Situação" para monitorar o temido fenômeno El Niño 2026/2027 — que ameaça se consolidar como um "Super El Niño" com secas severas e ondas de calor extremo a partir de agosto — nós que atuamos no chão das periferias, das escolas e dos territórios criativos sabemos que a preparação oficial ainda é uma armadura furada.
E por que este é um assunto para o blog da Cultura? Porque não há cultura sem corpo, sem território e sem água. Porque o artista que faz sua roda de capoeira no asfalto quente, o mestre que realiza suas festas tradicionais nas comunidades e o educador que conduz oficinas nas salas de aula sentirão na pele o peso deste fenômeno. A cultura não é um acessório da vida; ela é a expressão viva da vida. Sendo assim, defender a vida diante da emergência climática é também defender a cultura.
O QUE OS GOVERNOS ESTÃO FAZENDO (E ONDE ELES FALHAM)
Reconhecemos os esforços iniciais: a criação da Sala de Situação na Seplan, unindo Semac, Adema, Sedurbi, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros, é um passo técnico importante. A elaboração de um Plano Estadual de Mitigação e a articulação para a Operação Carro-Pipa são medidas reativas que podem salvar vidas no curto prazo.
Contudo, o que se anuncia nos corredores do poder ainda é insuficiente e profundamente injusto. Embora a Prefeitura de Aracaju tente ensaiar uma reação com a abertura da revisão de seu Plano Diretor e a Câmara Municipal tenha iniciado em julho de 2026 a votação da Política de Emergências Climáticas (PL 150/2026), a capital corre contra o tempo. Enquanto os novos textos legais arrastam-se pela burocracia, a cidade é regida por diretrizes de ocupação urbana que completam 26 anos de defasagem, baseadas em dados de 1995.O reflexo mais agudo desse atraso está na Zona de Expansão. Transformada em um canteiro de obras sem a infraestrutura correspondente, a região virou alvo de uma intervenção drástica do Ministério Público Federal, que em maio de 2026 recomendou o embargo de prédios acima de quatro andares até que estudos ecológicos e obras de macrodrenagem saiam do papel. Somado a isso, o imbróglio jurídico que redesenha os limites territoriais com São Cristóvão pulveriza as responsabilidades de fiscalização.Para especialistas locais, frear esse caos exige que o novo Plano Diretor adote soluções urbanísticas focadas no clima. Urbanistas defendem a transformação das margens dos canais em parques lineares, a exigência de afastamentos maiores entre prédios para liberar os ventos do litoral e a blindagem total das dunas. Sem a implementação de pavimentos permeáveis e o estímulo a telhados verdes, as áreas de preservação — escudos térmicos vitais contra os extremos climáticos — continuarão sendo substituídas por um asfalto que apenas aprisiona o calor e amplifica as enchentes.
A ausência de um orçamento claro no Plano Estadual de Mudanças Climáticas (PEAC) e a falta de políticas agressivas de arborização e infraestrutura verde nos bairros periféricos revelam uma triste verdade: a população mais pobre e vulnerável de Aracaju será a primeira a sucumbir ao estresse térmico e à falta d'água, enquanto o poder público trata a natureza e a periferia como meros obstáculos ao progresso imobiliário.
A VOZ DA TEIA NACIONAL ECOA NO TERRITÓRIO SERGIPANO
Nós, da Ação Cultural, estivemos presentes nas discussões da Teia Estadual e da 6ª Teia Nacional sobre Justiça Climática. Lá, ouvimos com clareza o que deve nortear nossas ações: a Justiça Climática não se resume a satélites, termômetros ou decretos emitidos em gabinetes refrigerados. Ela exige participação popular, escuta ativa das comunidades, preservação da memória biocultural e a garantia de que os ecossistemas — como nossas dunas e reservas hídricas — sejam tratados como patrimônios imateriais da nossa gente.
O que vemos hoje em Aracaju é a negação prática de tudo isso. O poder público planeja a "gestão do desastre", mas se recusa a planejar a prevenção estrutural. Falta vontade política para atualizar o Plano Diretor, falta verba para o saneamento básico que amplifica os efeitos da estiagem e falta coragem para frear o avanço do concreto sobre a natureza.
Ao publicarmos este editorial, estamos fazendo a ponte que a Teia Nacional nos ensinou: trazer o debate macro para a realidade micro do nosso quintal. Não podemos aceitar que a preparação para o El Niño se limite a mapas e reuniões técnicas que excluem os movimentos sociais, os urbanistas populares e os fazedores de cultura que conhecem as dores e as potências de cada bairro.
UM CHAMADO AOS FAZEDORES DE CULTURA E À SOCIEDADE
Este não é um texto sobre meteorologia. É um texto sobre sobrevivência cultural. O calendário de festejos, as oficinas comunitárias, as rodas de cultura e a agricultura familiar que abastece a cozinha dos nossos artistas serão diretamente impactados pelo calor extremo e pela seca. Se não nos anteciparmos, seremos engolidos pela lógica reativa que o governo parece adotar.
Por isso, conclamamos:
A classe artística e os Pontos de Cultura a incluírem a pauta climática em seus projetos e planejamentos para 2026 e 2027 e doravante. A arte salva vidas, e precisa estar preparada para o cenário adverso.
A sociedade civil a cobrar da Prefeitura de Aracaju a urgente atualização do Plano Diretor e a criação de um Plano Municipal de Enfrentamento às Mudanças Climáticas com participação popular efetiva.
O Governo do Estado a destinar orçamento claro e transparente para o PEAC, integrando dados e, principalmente, integrando as comunidades nas decisões sobre os recursos hídricos e a infraestrutura verde.
NOSSO COMPROMISSO
A Ação Cultural, enquanto Ponto de Cultura, reafirma seu papel de formadora de opinião, articuladora de redes e defensora da vida integral. Estivemos na Teia para ouvir, debater e aprender. Voltamos ao nosso território para agir, denunciar e propor.
Não se trata apenas de pedir água quando o açude secar. Trata-se de exigir que nossas cidades sejam planejadas com alma, com sombra, com saneamento e com justiça. A cultura tem a força de aquecer corações, mas hoje precisamos que ela também esfrie o asfalto e regue a esperança.
O clima está mudando, e a cultura não pode ser apenas espectadora. Ela deve ser a voz da resistência e a mão que constrói o amanhã. Que a 6ª Teia Nacional não seja apenas um evento, mas um marco que nos impulsione a ocupar as salas de situação e as câmaras municipais com a mesma paixão que ocupamos os palcos e as ruas.
POR QUE ESTE EDITORIAL FOCA EM ARACAJU E NO GOVERNO DO ESTADO? UMA JUSTIFICATIVA METODOLÓGICA
A concentração do nosso olhar crítico sobre o Governo do Estado e a Prefeitura de Aracaju não é um capricho editorial, mas uma decorrência direta da primazia legal, orçamentária e territorial que cada um desses entes exerce sobre os fatores que agravam ou mitigam a crise climática em Sergipe. A pesquisa que embasa este alerta nos impõe três recortes inegociáveis:
A primazia do Governo do Estado sobre a água e a emergência em larga escala: Cabe ao Executivo Estadual a gestão das bacias hídricas, a coordenação da Defesa Civil e a execução do Plano Estadual de Mudanças Climáticas (PEAC). É o Estado quem comanda a "Sala de Situação" e quem acionará a Operação Carro-Pipa. Portanto, é ele o guardião das respostas macros à estiagem. Sem um orçamento claro e transparente no PEAC, todo o discurso de preparação se esvazia — e é nosso dever cobrar isso de quem tem o poder de alocar verbas estruturantes.
A primazia da Prefeitura de Aracaju sobre o caos urbanístico e o direito ao território: Se o Estado lida com a seca no interior, é na capital que o modelo de ocupação do solo definirá quem vai sufocar com o calor extremo. Os dados que levantamos são inequívocos:
O Plano Diretor de Aracaju está defasado há 26 anos (baseado em dados de 1995), tornando a cidade refém de um planejamento obsoleto.
Em maio de 2026, o Ministério Público Federal precisou intervir diretamente na Zona de Expansão, recomendando o embargo de prédios acima de quatro andares — uma intervenção que escancara a falência da fiscalização municipal.
A Câmara Municipal iniciou a votação do PL 150/2026 apenas em julho de 2026, ou seja, às vésperas do pico do El Niño, o que revela uma reatividade burocrática que não condiz com a urgência da crise.
O imbróglio territorial com São Cristóvão pulveriza responsabilidades, mas é em Aracaju que os ventos do litoral estão sendo barrados por paredões de concreto e onde as dunas — escudos térmicos naturais — são tratadas como meros entraves ao mercado imobiliário.
O encontro dos dois poderes no coração da desigualdade: É na confluência entre a gestão hídrica do Estado e o zoneamento urbano da capital que a população periférica fica desprotegida. Enquanto o Estado não integra as comunidades nas decisões do PEAC e a Prefeitura não impõe infraestrutura verde (pavimentos permeáveis, telhados verdes, parques lineares) nos bairros mais densos, a Justiça Climática permanece uma abstração teórica.
Por que isso é relevante para a Cultura? Porque a Ação Cultural está enraizada nesse território. Nossas oficinas, cineclubes, rodas de conversa e mostras culturais acontecem sob o impacto direto do asfalto queimando e das torneiras secando. Focar nesses dois entes é uma estratégia de eficácia política: mirar onde o poder de decidir — e o poder de falhar — é mais concentrado. Não se trata de ignorar os outros municípios, mas de partir do centro nervoso do planejamento estadual e da maior mancha urbana de Sergipe para, a partir daí, irradiar a cobrança para todo o território.
Sergipe, julho de 2026.
Este é um editorial institucional do blog da Cultura, em conformidade com os princípios do Programa Cultura Viva (Lei 13.018/14) e em eco às deliberações da 6ª Teia Nacional sobre Justiça Climática.







