“Sexo, Violencia y Llantas”, primeira faixa de LUX, coloca o ouvinte diante de uma pergunta antiga em uma linguagem absolutamente contemporânea: é possível amar o mundo sem deixar de desejar Deus? A canção abre uma conversa com a mística cristã, a teologia da encarnação e a Teologia da Libertação — mas também com os dilemas do corpo, do desejo e da cultura contemporânea.
Há músicas que contam uma história. Outras constroem uma atmosfera. E há aquelas que parecem formular uma pergunta para a qual não oferecem resposta.
“Sexo, Violencia y Llantas”, de Rosalía, pertence a esse terceiro grupo.
A faixa abre LUX, quarto álbum de estúdio da cantora catalã, lançado em novembro de 2025. A própria documentação oficial do trabalho confirma que a canção é a primeira do álbum e que sua gravação envolve a London Symphony Orchestra e um coro feminino de flamenco.
Mais importante ainda: a dimensão espiritual de LUX não é apenas uma interpretação posterior dos críticos. Rosalía afirmou que o projeto nasceu de anos de leitura de hagiografias e biografias de santas e que o álbum foi inspirado pela chamada mística feminina.
Isso não significa que “Sexo, Violencia y Llantas” seja uma canção teológica no sentido acadêmico.
Mas significa que podemos levar a sério sua dimensão espiritual.
E, a partir daí, uma pergunta se impõe:
o que acontece quando uma das maiores artistas da música pop contemporânea coloca sexo, violência, sangue, dinheiro, santas, graça, céu e Deus dentro da mesma canção?
A pergunta que abre LUX
A letra começa desejando uma existência “entre os dois”: entre o mundo e Deus.
Depois estabelece duas paisagens.
De um lado:
sexo, violência, pneus, esportes de sangue, moedas e gargantas.
Do outro:
clarões, pombas, santas, graça, fruto e balança.
A oposição é evidente. Mundo e céu. Corpo e transcendência. Violência e graça.
Mas a canção não termina escolhendo um dos lados.
Ao contrário.
Ela repete o desejo de viver entre os dois.
É nesse “entre” que está boa parte da força teológica da música.
Santo Agostinho: o problema dos amores
Uma primeira chave de leitura está em Santo Agostinho.
Para a tradição agostiniana, o problema não é simplesmente amar as coisas do mundo. O problema está na maneira como ordenamos nossos amores.
É possível amar as criaturas, a beleza, as pessoas e a própria vida. O problema surge quando aquilo que é criatura passa a ocupar o lugar do Criador.
Essa questão aparece de forma provocadora na canção de Rosalía.
“Primeiro amar o mundo e depois amar a Deus.”
A ordem das palavras produz a tensão.
O mundo vem primeiro.
Deus vem depois.
A tradição cristã poderia perguntar: é possível ordenar esses amores sem negar nenhum deles?
Rosalía parece preferir não resolver a questão.
Ela permanece no conflito.
E talvez seja justamente aí que a arte se distancia da teologia sistemática.
A teologia procura organizar a experiência.
A arte, muitas vezes, prefere deixar a experiência aberta.
Teresa de Ávila e João da Cruz: quando o desejo encontra Deus
A aproximação com a mística espanhola é ainda mais interessante.
Teresa de Ávila e João da Cruz escreveram sobre a experiência de Deus utilizando uma linguagem marcada pelo desejo, pela ausência, pela presença, pela união e pela transformação.
O desejo, portanto, não aparece simplesmente como inimigo da espiritualidade.
Ele pode ser o próprio caminho da busca.
Essa tradição ajuda a compreender uma questão central de “Sexo, Violencia y Llantas”:
o que fazer com o desejo humano?
Negá-lo?
Reprimi-lo?
Considerá-lo pecado?
Ou transformá-lo?
A mística cristã oferece uma resposta muito mais complexa do que a simples condenação do corpo.
E essa complexidade é particularmente importante quando a primeira palavra do título de uma canção é justamente “Sexo”.
A encarnação: Deus entrou na matéria
Há uma questão ainda mais profunda.
O cristianismo afirma que Deus se fez carne.
A doutrina da encarnação impede que a matéria seja simplesmente descartada como inimiga do espírito.
O corpo passa a ocupar uma posição central na própria compreensão cristã de Deus.
Por isso, a canção pode ser lida como uma provocação encarnacionista.
Não porque Rosalía esteja escrevendo um tratado sobre a encarnação.
Mas porque sua música pergunta, por meio de imagens corporais e materiais:
onde está o transcendente quando a vida é feita de corpos, desejo, violência, dinheiro e contradição?
Se Deus entra na história, a história não pode ser simplesmente abandonada.
Se Deus assume um corpo, o corpo não pode ser reduzido a um obstáculo à espiritualidade.
Leonardo Boff: Deus no interior da realidade
É aqui que a aproximação com Leonardo Boff se torna especialmente produtiva.
Em Jesus Cristo Libertador, Boff constrói uma cristologia profundamente relacionada à realidade histórica, social e humana. O próprio resumo acadêmico da obra destaca a relação entre fé, contexto sócio-histórico, dominação, opressão e transformação.
Isso permite uma pergunta interessante diante de Rosalía:
é possível procurar Deus sem fugir da realidade?
A questão é importante porque a música não apresenta um mundo ideal.
Ela apresenta violência.
Apresenta sangue.
Apresenta dinheiro.
Apresenta desejo.
O mundo é ferido.
A espiritualidade, portanto, não aparece em um lugar completamente separado da experiência humana.
É justamente nesse ponto que a leitura de Boff pode ajudar a ampliar o debate.
Não porque Rosalía esteja fazendo Teologia da Libertação.
Mas porque a teologia de Boff oferece instrumentos para pensar uma espiritualidade que não abandona a história.
Teologia da Libertação: o céu não pode apagar a terra
A Teologia da Libertação acrescenta outra camada.
A tradição latino-americana insistiu que a experiência cristã precisa levar a sério as condições concretas da existência: pobreza, violência, exploração, injustiça e exclusão.
A pergunta religiosa não pode ser separada da pergunta social.
Em “Sexo, Violencia y Llantas”, não encontramos uma sociedade idealizada.
Encontramos um mundo atravessado por violência e materialidade.
Isso permite uma aproximação interpretativa com a Teologia da Libertação:
onde está Deus no meio de um mundo ferido?
A pergunta não é pequena.
Ela desloca a espiritualidade do céu abstrato para a realidade histórica.
E talvez seja exatamente isso que torna tão interessante a insistência da música em voltar à terra depois de entrar no céu.
Não basta subir.
É preciso voltar.
Paul Tillich: quando a cultura se torna lugar do religioso
Para o Blog da Cultura, entretanto, talvez exista uma referência ainda mais importante: Paul Tillich.
Em Teologia da Cultura, Tillich procura justamente compreender a dimensão religiosa presente nas criações culturais, inclusive quando elas não são explicitamente religiosas. A obra discute a relação entre religião, arte, existência e cultura secular.
Essa perspectiva oferece uma chave preciosa para ler Rosalía.
Não precisamos perguntar:
“Essa música é religiosa?”
Podemos perguntar:
“Que questões religiosas aparecem dentro dessa música?”
A diferença é enorme.
Uma obra não precisa falar explicitamente de Igreja, doutrina ou liturgia para lidar com questões de transcendência, finitude, culpa, desejo, redenção ou sentido.
A cultura pode ser religiosa sem ser confessional.
E essa talvez seja uma das melhores maneiras de compreender LUX.
Rosalía não precisa ser transformada em teóloga
Existe, porém, um cuidado necessário.
O fato de LUX ter sido conscientemente construído em diálogo com a mística feminina não significa que possamos atribuir à artista uma adesão a Santo Agostinho, Teresa de Ávila, João da Cruz, Leonardo Boff ou à Teologia da Libertação.
São coisas diferentes.
Rosalía declarou ter estudado a vida de santas e afirmou que o álbum foi inspirado pela mística feminina. Isso permite afirmar que a dimensão espiritual é parte consciente do projeto artístico.
Mas isso não autoriza concluir que sua teologia pessoal corresponda a determinada corrente.
Aliás, talvez seja mais interessante não tentar enquadrá-la.
A obra é suficientemente complexa para permitir diferentes diálogos.
O “entre” como lugar da experiência humana
Talvez a palavra mais importante da canção seja justamente “entre”.
Entre a terra e o céu.
Entre o corpo e o espírito.
Entre o desejo e a transcendência.
Entre o mundo e Deus.
Entre aquilo que somos e aquilo que desejamos ser.
Essa posição intermediária pode ser entendida como uma imagem da própria condição humana.
Não vivemos exclusivamente no mundo material.
Mas também não vivemos permanentemente em uma experiência de transcendência.
Somos seres de fronteira.
Desejamos e nos arrependemos.
Amamos e ferimos.
Buscamos Deus e continuamos presos à terra.
A música não resolve essa contradição.
Ela a transforma em linguagem.
A cultura como lugar onde Deus reaparece
É aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre Rosalía.
Ela passa a ser sobre cultura.
Em uma sociedade na qual muitos acreditam que a religião perdeu espaço, os símbolos religiosos continuam reaparecendo na música, no cinema, na literatura, na moda e nas artes visuais.
Santas continuam sendo representadas.
O céu continua sendo imaginado.
O pecado continua sendo discutido.
A graça continua aparecendo.
A redenção continua sendo procurada.
Talvez a religião não tenha desaparecido da cultura.
Talvez tenha mudado de lugar.
Saiu, em muitos casos, dos espaços institucionais e passou a circular por linguagens artísticas.
É justamente isso que torna LUX culturalmente interessante.
Rosalía não precisa falar como uma teóloga.
Ela pode fazer aquilo que a arte faz melhor:
formular perguntas que a sociedade ainda não conseguiu resolver.
Não é preciso escolher entre o mundo e Deus
“Sexo, Violencia y Llantas” começa com uma oposição.
Mundo de um lado.
Deus do outro.
Mas termina desejando viver entre os dois.
Talvez essa seja a sua provocação mais poderosa.
O mundo não desaparece quando encontramos Deus.
O corpo não desaparece quando aparece a espiritualidade.
O desejo não desaparece quando surge a transcendência.
A pergunta talvez seja outra:
o que fazemos com tudo isso?
Como transformamos o desejo?
Como enfrentamos a violência?
Como convivemos com o corpo?
Como lidamos com o dinheiro?
Como procuramos graça em uma realidade que não é pura?
Essas perguntas pertencem tanto à teologia quanto à cultura.
E é justamente nesse território compartilhado que Rosalía pode ser lida.
FONTES SOBRE ROSALÍA E LUX
ROSALÍA. LUX. Columbia Records, 2025. A documentação oficial do álbum apresenta “Sexo, Violencia y Llantas” como sua primeira faixa e registra a participação da London Symphony Orchestra e do Flamenco Ladies Choir.
ROSALÍA. “Sexo, Violencia y Llantas”. LUX. 2025. A faixa foi lançada em novembro de 2025 e integra o primeiro movimento do álbum.
ROSALÍA. LUX — Official Lyric Video: Sexo, Violencia y Llantas. Canal oficial da artista. 2025.
EL PAÍS. “Rosalía desvela los secretos de ‘Lux’: ‘Está inspirado en la mística femenina’”. 3 nov. 2025. Reportagem baseada em declarações da própria artista sobre o processo de criação do álbum e suas leituras de hagiografias e biografias de santas.
BIBLIOGRAFIA TEOLÓGICA
AGOSTINHO, Santo. Confissões. Petrópolis: Vozes.
Leitura fundamental para compreender desejo, interioridade, pecado, graça e busca de Deus.
AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. Petrópolis: Vozes.
Importante para discutir a tensão entre a cidade terrena, a cidade de Deus e as diferentes formas de amor.
ÁVILA, Teresa de. Livro da Vida. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras.
Referência essencial para compreender a mística cristã espanhola e sua linguagem sobre desejo e experiência de Deus.
CRUZ, João da. Cântico Espiritual. Petrópolis: Vozes.
Uma das obras fundamentais da mística cristã, especialmente importante para pensar a relação entre linguagem amorosa e experiência espiritual.
BOFF, Leonardo. Jesus Cristo Libertador: ensaio de cristologia crítica para o nosso tempo. Petrópolis: Vozes.
Obra fundamental para compreender a cristologia de Boff e sua relação com a realidade histórica e social. A obra é considerada um dos textos fundadores da Teologia da Libertação.
GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da Libertação: perspectivas. São Paulo: Loyola.
Uma das referências fundamentais para compreender a formação da Teologia da Libertação latino-americana.
TILLICH, Paul. Teologia da Cultura. São Paulo: Paulus.
Especialmente recomendada para este artigo porque permite pensar a dimensão religiosa presente nas manifestações culturais e artísticas, inclusive fora das instituições religiosas.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes.
Obra de referência para compreender as relações entre espaço, tempo, símbolos e experiência do sagrado.
LEITURA COMPLEMENTAR: UMA CHAVE PARA O BLOG DA CULTURA
A discussão proposta aqui pode ser ampliada para além de Rosalía.
Se a cultura contemporânea continua utilizando símbolos de santidade, pecado, graça, corpo, redenção, céu e inferno, talvez seja necessário perguntar:
a secularização eliminou a religião ou apenas mudou a maneira como a religião aparece na cultura?
É uma pergunta que pode ser investigada em músicas, filmes, séries, literatura, artes visuais e cultura digital.
E talvez seja justamente essa uma das tarefas de um Blog da Cultura: observar aquilo que está acontecendo diante de nós antes que os velhos conceitos consigam classificá-lo.
BOX | NOTA METODOLÓGICA
Rosalía não é “teóloga”. E não precisamos transformá-la em uma.
Esta análise utiliza Santo Agostinho, Teresa de Ávila, João da Cruz, Leonardo Boff, Gustavo Gutiérrez, Paul Tillich e outras referências como chaves de leitura, não como provas de que Rosalía pertença a essas correntes.
Há, entretanto, uma diferença importante em relação a uma simples especulação.
A própria artista afirmou que LUX foi construído a partir de uma intensa aproximação com a mística feminina, incluindo leituras de hagiografias e biografias de santas.
Portanto, é legítimo afirmar que a espiritualidade é uma dimensão consciente do projeto artístico de LUX.
O que não devemos fazer é dar o passo seguinte sem evidências e afirmar que Rosalía adota esta ou aquela teologia.
A melhor pergunta não é:
“Qual teologia Rosalía está defendendo?”
Mas:
“Com quais grandes questões teológicas a música de Rosalía nos coloca em diálogo?”
Essa mudança de pergunta é fundamental.
Porque a crítica cultural não precisa descobrir a intenção definitiva do artista.
Ela pode fazer algo mais interessante:
abrir a obra para novas perguntas.
No caso de “Sexo, Violencia y Llantas”, a pergunta permanece aberta:
É possível amar o mundo — com seu corpo, desejo, violência e contradições — e ainda assim procurar Deus?
Talvez seja justamente nesse espaço entre a terra e o céu que a cultura contemporânea continue procurando aquilo que a religião, a filosofia e a arte procuram há séculos:
um sentido para estar vivo.


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