domingo, 27 de setembro de 2026

Nossa Senhora Aparecida: patrimônio cultural do povo brasileiro. Célio Turino (*)

 

Por: Renan Dantas - Diocese de Juína 

Um encontro pequeno em que cabe um país inteiro. Foi em outubro de 1717, números que somam o infinito. Três pescadores, João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia, gente humilde, lançaram suas redes nas águas do rio Paraíba do Sul em busca de peixes. A pesca, porém, nada trouxe. Até que a rede voltou com o corpo de uma pequena imagem de barro cozido, sem a cabeça. Lançada novamente, alguns metros adiante, encontraram a cabeça que se encaixava perfeitamente ao corpo de mulher. Depois disso, a pesca farta. 

- Um milagre! – disseram.

Assim começou uma das mais profundas histórias culturais do Brasil, não a história dos conquistadores, reis, cardeais ou generais, mas a história de pescadores e de uma imagem resgatada do fundo do rio. Não era uma imagem inteira, perfeita, pronta para ser venerada, não vinha coberta de joias, era uma Nossa Senhora quebrada, escura, como a cor dos mamelucos, preta como a cor dos escravizados. Surge o mistério de Aparecida. O barro antes do nome, vindo do rio dos pobres para alimentar a casa dos pobres. Só depois surgiu o santuário. Nasceu primeiro como devoção de poucas famílias, depois, de um povo inteiro. 

Uma imagem de terracota em meio a terras barrentas. O tempo, a água, o lodo e a fumaça das velas escureceram suas feições. Negra Santa Mãe de Jesus. Essa negritude, ainda que tenha uma explicação material, ganhou o imaginário brasileiro com uma força que ultrapassa a matéria. A Senhora das águas passou a carregar também a memória dos indígenas, dos negros, dos mestiços, dos pobres, dos caipiras, caiçaras e piraquaras, dos imigrantes, camponeses, professores, artistas e operários, que, durante séculos, fizeram este país sem que o país lhes reconhecesse a autoria. Aparecida não veio por dogmas religiosos, veio como expressão do povo, acolhida pela devoção de nossa gente.  Uma diferença essencial entre uma religião institucional e a religiosidade popular, enquanto a primeira organiza a doutrina a segunda inventa caminhos. Desse jeito meio torto, quebrado, o sagrado continua respirando pela imagem de uma mulher, preta, pobre e acolhedora.

A imagem foi levada para uma casa de pau a pique e ali, diante dela, começaram as orações. Depois vieram o pequeno oratório, os agradecimentos, as promessas, as velas, os cantos. A devoção nasceu do povo, cresceu porque nossa gente reconheceu naquela pequena figura alguma coisa de si mesma. Veio “de baixo para cima”, como as grandes expressões da cultura nacional. Chegou em chegança, como a Folia de Reis, que caminha pelas estradas levando a bandeira, a música e a memória do nascimento; como nas Festas do Divino, reunindo comunidade, comida, cortejo, promessa e partilha que faz dela a mais generosa e utópica de todas as festas. O Círio de Nazaré também chega pelas águas amazônicas, infinitas, e transforma Belém em caminho de fé e solidariedade. Está em tantas festas bonitas de nosso Brasil, ultrapassando a dimensão estritamente religiosa e se confundindo com a própria identidade nacional; articula fé e colaboração comunitária, aproxima matrizes católicas e afro-brasileiras numa mesma celebração, junta muitas religiosidades, e até o profano. Não são apenas festas religiosas, são maneiras de um povo lembrar que existe. Devoção é uma forma de coletividade e a devoção à Nossa Senhora Aparecida passa por todas elas; e além. Está nos nomes de Marias e Aparecidas; as donas “Cida” de todas as religiões e Igrejas.

Procuro escrever com poesia e respeito, mas também como pensador da cultura e historiador. O marco legal do patrimônio cultural imaterial brasileiro reconhece a dimensão das celebrações e saberes religiosos como formas de expressão e modos de fazer de nosso povo. De todos os povos, como confirmam resoluções da UNESCO. São expressões que não vivem porque foram congeladas, mas porque continuam sendo praticadas, recriadas e transmitidas. Amorosamente. Patrimônio Cultural não é somente aquilo que uma sociedade monumentaliza em pedra, é também aquilo que ela aprende a guardar no corpo, e que fala do fundo d’alma. Aparecida foi guardada no corpo brasileiro, independente de religião. É o sagrado feminino tatuado no corpo de quem caminha, no joelho de quem se ajoelha, na mão de quem acende a vela, na voz de quem canta, no ombro de quem carrega a bandeira. Está no coração daquela gente que provavelmente não saiba explicar teologicamente o que seja um dogma, mas sabe muito bem onde mora a sua esperança.

Como Patrimônio Cultural Imaterial, Nossa Senhora Aparecida é maior do que uma questão confessional, ela pertence ao imaginário brasileiro. Pertence à mulher que acende uma vela e pede proteção para o filho, ao homem que caminha quilômetros pagando uma promessa, à avó (à minha avó!!! – e à tua, e à tua...) que ensina ao neto uma oração. Ao caminhoneiro que leva sua pequena imagem no painel e à família que o aguarda com uma fotografia diante do altar. Nossa Senhora Aparecida é do romeiro que chega cansado, do trabalhador que deposita uma flor. É daquele que acredita, e também daquele que, em não acreditando, reconhece na devoção do outro uma parte da história do país. Será sempre eternizada como a Padroeira do Brasil porque a memória, e a devoção de nosso povo, merece respeito.

Maria não aparece como a mulher poderosa dos palácios, é a mãe que acolhe e jamais abandona o filho e a filha. A presença que permanece quando quase tudo falta. Mãe encontrada nas águas; pode haver maior beleza que isso? O rio entregando ao povo aquilo que parecia perdido, uma imagem quebrada que se torna inteira nas mãos de quem a acolhe. É como se o Brasil, país de tantas quebraduras, reconhecesse naquela pequena imagem o seu próprio retrato. Um país que também nasceu aos pedaços. E foi se juntando, mesmo em meio a tanta maldade, explorações e violências. Esse povo somos nós que nos juntamos por debaixo, na vida caipira ou cafone, no jeito sertanejo ou periférico, das florestas ou das cidades. Santo, encantado, festa, batuque, promessa, viola, terreiro, procissão, feira, cozinha e estrada... Tudo isso num país que nunca coube direito nas molduras que lhe deram. Aparecida também não cabe na moldura.

A grandeza da “Mãezinha do Brasil” não pede riqueza ou títulos de nobreza. Ela é grande porque recebe a promessa do pobre, sua casa é grande porque a porta permanece aberta, para todos e todas; os excluídos à frente. E é justamente essa grandeza e generosidade que a torna incômoda para projetos de sociedade baseados na separação, no desprezo, nos ódios e no medo. De tempos em tempos poderosos a desafiam. Como o cavaleiro que zombou da fé dos romeiros e procurou entrar na Igreja com seu cavalo. A pata se prendeu na pedra e o derrubou. Séculos depois foi quebrada em duzentos pedaços, e novamente reconstituída, caco a caco. Chutada justamente em seu dia, 12 de outubro de 1995, num programa de televisão sob o nome de “Despertar da Fé”. E o povo, de muitas religiões, se levantou em protesto. Em 2007, um parlamentar com Bíblia na mão tentou alterar a própria formulação legal associada ao título de Padroeira do Brasil; a proposta foi arquivada no ano seguinte. Mas a vontade de quebrar a espinha da devoção popular segue presente. Segue nos ataques e afrontas, nas algazarras em frente à celebração, como em 2022; nas panfletagens e queima de imagens, não só da fé católica, como também às religiões de matriz africana e sincréticas. Tentam impor o “Domínio” em nome da religião em fusão com a política. Avançam um passo, recuam em outro, se desdizem, se desmentem para mentir de novo. E avançam; sorrateiramente. 

Há fundamento nas preocupações dos devotos à “Santinha”, e daqueles que a respeitam pelo que significa. Os que a atacam, mesmo recuando, querem transformar aquilo que pertence à memória comum em instrumento de separação. De há uma década estão querendo cindir o Brasil pelo ódio. Como parte dessa Teologia do Domínio agridem a religiosidade brasileira em suas melhores expressões. A devoção popular é uma religião de comunidade, não de individualismo, por ela a bandeira precisa passar de mão em mão e a comida tem que ser repartida, a porta está sempre aberta e a promessa precisa ser cumprida porque o santo caminha. É uma fé que se realiza no encontro com o outro. Quando atacam a Padroeira do Brasil é nossa alma que se perde. 

O povo sabe, mesmo quando não sabe dizer, que santo não tem dono. Nem Nossa Senhora, nem a fé, nem o Brasil. Por isso o inconformismo, até daqueles que não seguem a religião católica, quando grupos extremistas aliados ao fundamentalismo religioso tentam impor o seu domínio. Buscam mexer nos símbolos que o povo construiu durante séculos, retirar um nome daqui, acrescentar uma palavra, decidir quem pode ou não pode chamar aquela Mãe de sua. Como se uma devoção nascida de pescadores pudesse ser redesenhada num gabinete e o sentimento popular pudesse caber numa caneta de presidente. Querem fechar a porteira do sagrado. Mas a resposta do povo brasileiro não será dada com discurso, como não foi com discurso ou dogmas que ergueram a devoção. Será dada nas ruas e praças, na festa e na procissão, na cozinha, no terreiro, na capela, na estrada e no silêncio da oração. Na rede social também houve resposta, embora aí tudo se embaralhe mais depressa, vindo acompanhado de deturpações, censura e manipulações (de quem se diz contra a censura e das BigTechs que manipulam os cordões). O jogo é pesado.

Mas, para vergar a fé em nossa “Mãezinha”, há uma diferença enorme entre uma fé que acolhe a pobreza e uma fé utilizada para justificar a riqueza e o poder. Entre uma mãe que recebe todos e uma religião que escolhe quem merece pertencer, existe a vela acesa na casa simples e Nossa Senhora Aparecida a rogar pelo Brasil!

Contra esse mundo de indivíduos isolados, permanentemente excitados pelo desejo de ter, competir e vencer, mantém-se viva a velha religiosidade popular. Por isso querem vergar a fé. Diante da Santa Mãe de Deus, paramos, ajoelhamos, esperamos e cantamos. Nossa Senhora Aparecida ensina a dar muito mais que receber, ensina a caminhar junto, fazer comida para quem chega e acender uma vela para alguém que nem conhecemos. Isso não é pouco. É tudo.

O capitalismo pode vender quase tudo, mas ainda encontra dificuldade diante daquilo que não nasceu para ser vendido, como a promessa e a bênção. Nossa Senhora Aparecida continua sendo uma espécie de espinha dorsal da espiritualidade de nosso povo, independente da religião que professem. Por isso é expressão da cultura, não porque todos os brasileiros tenham a mesma fé. Não têm, e a liberdade religiosa é parte essencial da nossa vida democrática. É parte de nossa cultura porque sua presença atravessa classes, regiões, gerações e fronteiras. A própria Igreja Católica reconhece que o título de Aparecida foi dado e acolhido pelo povo, associando sua devoção à solidariedade, à fraternidade e à acolhida dos pobres. Ela é de todos. Uma mãe negra encontrada por pescadores. Que coisa mais brasileira!

Nossa Senhora Aparecida não desceu do céu numa carruagem de ouro, veio do rio, presa numa rede de pesca. Não foi encontrada inteira, foi encontrada quebrada. Essa é a razão de tanta gente se reconhecer nela, somos um país encontrado aos pedaços, país que ainda precisa juntar sua cabeça ao seu corpo, nossa memória ao nosso futuro, riqueza à justiça, fé à humanidade, tecnologia à ternura. Nossa Senhora Aparecida é muito mais que uma imagem, é a forma popular de dizer que ninguém se salva sozinho.

A rede trouxe a imagem.

A imagem trouxe a comunidade.

A comunidade trouxe a festa.

A festa trouxe a memória.

E a memória, quando permanece viva, torna-se patrimônio. Não é patrimônio morto, guardado atrás de um vidro, é patrimônio que chora, perdoa e retorna. Todos os anos. Enquanto houver alguém em romaria, alguém que acenda uma vela por alguém que sofre, haverá uma pequena Nossa Senhora emergindo das águas para as mãos do povo. Mãe não divide seus filhos, chama para a mesa, e em mesa de Mãe sempre cabe mais um. Até o Brasil inteiro.


(*) Historiador, escritor, filósofo e poeta. Doutor em Ciências pela USP, mestre em História pela UNICAMP, caminha por aí, observando e se maravilhando com a cultura popular brasileira e latino-americana. Autor de diversos livros e ensaios, publicados no Brasil e no exterior; suas obras mais recentes são: “SEMENTEIRA - Grãos para transformar radicalmente a sociedade via políticas Culturais”, “ENTRE A FARDA E A EDUCAÇÃO - ensaio sociológico-poético sobre escolas cívico-militares” (ambos pela editora Autonomia Literária) e “FIOS DA HISTÓRIA - poemas” (Clóe).

E mais....

Play List Salve Maria! Com a MPB secular e com a MPB católica. Por Zezito de Oliveira

Uma seleção que atravessa o sagrado e o cotidiano, a fé e a vida social, o terreiro e o asfalto, o sertão e o morro. De Luiz Gonzaga a Renato Teixeira, de Herivelto Martins a Roberto e Erasmo, de Cacaso e Wisnik a Padre Zezinho,Zé Vicente e Padre Marcelo Rossi.

Maria de Nazaré. Nossa Senhora Aparecida. Maria Marlene, minha mãe. Todas as Marias. 🙏

Porque Deus é amor, no sentido jesuânico — o amor que gera vida.


Play List Salve Maria! Com a MPB secular e com a MPB católica. Por Zezito de Oliveira

Uma seleção que atravessa o sagrado e o cotidiano, a fé e a vida social, o terreiro e o asfalto, o sertão e o morro. De Luiz Gonzaga a Renato Teixeira, de Herivelto Martins a Roberto e Erasmo, de Cacaso e Wisnik a Padre Zezinho,Zé Vicente e Padre Marcelo Rossi.

Maria de Nazaré. Nossa Senhora Aparecida. Maria Marlene, minha mãe. Todas as Marias. 🙏

Porque Deus é amor, no sentido jesuânico — o amor que gera vida.

 Quando nos referimos a canções da MPB, estamos tratando de uma canção produzida com muito esmero em termos de letra e melodia e com muita atenção a questões filosóficas/existenciais, de um lado, e, do outro, a questões da vida social cotidiana, aqui incluindo comportamento, sentimentos, relacionamentos, crítica política e social etc.


Lucas 1:46-55  

46Então disse Maria:
"Minha alma engrandece
ao Senhor,

47e o meu espírito se alegra
em Deus,
meu Salvador,

48pois atentou
para a humildade
da sua serva.
De agora em diante,
todas as gerações
me chamarão
bem-aventurada,

49pois o Poderoso fez
grandes coisas em meu favor;
santo é o seu nome.

50A sua misericórdia estende-se aos que o temem,
de geração em geração.

51Ele realizou poderosos feitos com seu braço;
dispersou os que são soberbos
no mais íntimo do coração.

52Derrubou governantes
dos seus tronos,
mas exaltou os humildes.

53Encheu de coisas boas
os famintos,
mas despediu de mãos vazias os ricos.

54Ajudou a seu servo Israel,
lembrando-se
da sua misericórdia

55para com Abraão
e seus descendentes
para sempre,
como dissera
aos nossos antepassados".
Também é importante lembrar da filiação religiosa do autor desta seleção musical, filho de um bom José e de uma mulher, Maria Marlene, que recebeu esse nome como tantas mulheres do seu tempo: em homenagem à mãe de Jesus e Marlene, em homenagem a uma das cantoras conhecidas na época, a década de 1950, como uma das rainhas do rádio. Uma mulher de forte devoção mariana, que tem uma marca muito forte na formação integral do autor.

Maria Marlene faleceu em razão da COVID-19 no mesmo momento em que o autor deste texto se encontrava no leito de um hospital, no ano de 2021, entre a vida e a morte, também pela COVID-19, e que sentiu na pele, como milhões de brasileiros, o que é ter uma presidência da República, um homem corrupto em todos os sentidos, inclusive moralmente, insensível, negligente, irresponsável, cínico, hipócrita, mentiroso contumaz e despreparado intelectual e emocionalmente.



Um homem que agradeceu, ao entrar no processo de recuperação, ainda no leito do hospital, quando ficou “fora de perigo”, no período de vinte dias da UTI semi-intensiva, depois de ter sido colocado em estado de coma induzido por cerca de um mês, as orações e o carinho de tantas pessoas, próximas e distantes, considerando a rede de apoio capitaneada por outra mulher forte e terna, como as duas Marias aqui lembradas: a mãe de Jesus e a mãe deste que escreve, Irene Smith.

Um homem que agradeceu à ciência, que não é contrária à fé, muito pelo contrário, pois, para aquele que tem fé, o que vem pelo homem, criado por Deus, é divino. Mas, Zezito, a curiosidade e o método científico afastam muitos homens da fé em Deus; mas e daí? Eles mantêm o amor e a esperança na vida; se assim for, eles estão com Deus, porque Deus é amor, no sentido jesuânico (o que significa dizer que Deus se redefine a partir da prática de Jesus — e não a partir de crenças, instituições ou fundamentalismos —, permitindo que crentes e não crentes sejam avaliados pelo mesmo critério: o amor que gera vida), e preza pela vida em abundância para todos.

E, por último, voltando a Nossa Senhora, um homem que sabe o quanto, nas orações da mãe terrena, a mãe de Jesus foi invocada para interceder em favor da vida do homem que estava no hospital, Maria foi solicitada a colocar seu manto protetor e acolhedor a favor de quem agora rende graças e homenagens a todas as Marias.

Ah! E também houve uma rede de apoio solidário que envolveu personagens políticos, incluindo a saudosa vereadora Ângela Melo e companheiros do sindicato dos professores, mas o detalhamento disso fica para outro momento.

Zezito de Oliveira



Ave Maria Sertaneja

Luiz Gonzaga


Quando batem as seis horas

de joelhos sobre o chão

O sertanejo reza a sua oração


Ave Maria

Mãe de Deus Jesus

Nos dê força e coragem

Pra carregar a nossa cruz


Nesta hora bendita e santa

Devemos suplicar

A Virgem Imaculada

Os enfermos vir curar


Ave Maria

Mãe de Deus Jesus

Nos dê força e coragem

Pra carregar a nossa cruz (2X)

Romaria - Renato Teixeira



Canção de Renato Teixeira ‧ 1978

É de sonho e de pó

O destino de um só

Feito eu perdido em pensamentos

Sobre o meu cavalo

É de laço e de nó

De gibeira ou jiló

Desta vida cumprida a sol

Sou caipira Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida

Sou caipira Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida

O meu pai foi peão

Minha mãe, solidão

Meus irmãos perderam-se na vida

Em busca de aventuras

Descasei, joguei

Investi, desisti

Se há sorte, eu não sei

Nunca vi

Sou caipira Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida

Sou caipira Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida

Me disseram, porém

Que eu viesse aqui

Pra pedir de romaria e prece

Paz nos desaventos

Como eu não sei rezar

Só queria mostrar

Meu olhar, meu olhar

Meu olhar

Sou caipira Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida

Sou caipira Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida

Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida

Sou caipira Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida

Herivelto Martins


Barracão de zinco

Sem telhado, sem pintura

Lá no morro

Barracão é bangalô


Lá não existe

Felicidade de arranha-céu

Pois quem mora lá no morro

Já vive pertinho do céu


Tem alvorada, tem passarada

Alvorecer

Sinfonia de pardais

Anunciando o anoitecer


E o morro inteiro no fim do dia

Reza uma prece ave Maria

E o morro inteiro no fim do dia

Reza uma prece ave Maria


Ave Maria

Ave

E quando o morro escurece

Elevo a Deus uma prece

Ave Maria

Joanna - A Padroeira 


Ó, Virgem Santa

Rogai por nós, pecadores

Junto a Deus Pai

E livrai-nos do mal e das dores


Que todo homem caminhe

Tocado pela fé

Crendo na graça divina

Esteja como estiver


Abençoai

Nossas casas, as águas

As matas e o pão nosso

A luz de toda manhã

O amor sobre o ódio


Iluminai

A cabeça dos homens

Te pedimos agora

E que o bem aconteça

Nossa Senhora


Ó, Virgem Santa

Rogai por nós, pecadores

Junto a Deus Pai

E livrai-nos do mal e das dores


Que todo homem caminhe

Tocado pela fé

Crendo na graça divina

Esteja como estiver


Abençoai

Nossas casas, as águas

As matas e o pão nosso

A luz de toda manhã

O amor sobre o ódio


Iluminai

A cabeça dos homens

Te pedimos agora

E que o bem aconteça

Nossa Senhora


Abençoai

Nossas casas, as águas

As matas e o pão nosso

A luz de toda manhã

O amor sobre o ódio


Iluminai

A cabeça dos homens

Te pedimos agora

E que o bem aconteça

Nossa Senhora


Cubra-me com seu manto de amor

Guarda-me na paz desse olhar

Cura-me as feridas e a dor me faz suportar

Que as pedras do meu caminho

Meus pés suportem pisar

Mesmo ferido de espinhos me ajude a passar

Se ficaram mágoas em mim

Mãe tira do meu coração

E aqueles que eu fiz sofrer peço perdão

Se eu curvar meu corpo na dor

Me alivia o peso da cruz

Interceda por mim minha mãe junto a Jesus

Nossa Senhora me dê a mão

Cuida do meu coração

Da minha vida, do meu destino

Nossa Senhora me dê a mão

Cuida do meu coração

Da minha vida, do meu destino

Do meu caminho

Cuida de mim

Sempre que o meu pranto rolar

Ponha sobre mim suas mãos

Aumenta minha fé e acalma o meu coração

Grande é a procissão a pedir

A misericórdia o perdão

A cura do corpo e pra alma a salvação

Pobres pecadores oh mãe

Tão necessitados de vós

Santa Mãe de Deus tem piedade de nós

De joelhos aos vossos pés

Estendei a nós vossas mãos

Rogai por todos nós vossos filhos meus irmãos

Nossa Senhora me dê a mão

Cuida do meu coração

Da minha vida, do meu destino

Nossa Senhora me dê a mão

Cuida do meu coração

Da minha vida, do meu destino

Do meu caminho

Cuida de mim

Nossa Senhora me dê a mão

Cuida do meu coração

Da minha vida, do meu destino

Nossa Senhora me dê a mão

Cuida do meu coração

Da minha vida, do meu destino

Do meu caminho

Cuida de mim

compositores: Cacaso e Zé Miguel Wisnik


compositores_ Cacaso e Cláudio Nucci


Louvar
Cacaso e  Zé Miguel Wisnik


Me dá licença de cantar
Também de agradecer
Coragem pra querer
Um verso pra louvar
Louvar a gente do lugar
Louvar quem vai nascer
Quem vai permanecer
Também quem vai passar

E louva a Deus
Que vou louvar
O dia matinal
A fruta no pomar
A roupa no varal

Louvar a chuva de criar
A água de beber
O tempo de viver
A casa de morar
Bem-vinda minha senhora
Bendita nossa senhora
Bem-vinda minha senhora

Bendita

Louvar: quando a poesia faz morada na vida cotidiana. Por Zezito de Oliveira

 

Há poemas que não terminam quando chegamos ao ponto final. Eles continuam cantando. Saem do caderno, ganham melodia, atravessam casamentos e despedidas, moram em casas que nunca imaginamos. Um poema pode ter mais de uma voz, mais de uma música, mais de um destino — e ainda assim continuar sendo ele mesmo. É como se a poesia pedisse licença para morar na vida cotidiana, e a vida, sem cerimônia, lhe abrisse a porta. "Louvar" é desses poemas que não couberam no papel: virou duas canções, atravessou gerações, aprendeu a celebrar e a consolar. E segue encontrando gente disposta a cantá-lo, ouvi-lo e fazê-lo parte de suas próprias vidas. Porque há poemas que terminam no ponto final. Outros, como "Louvar", continuam cantando.

 https://acaoculturalse.blogspot.com/2026/09/quando-poesia-faz-morada-na-vida.html

 





Maria de Nazaré, maria me cativou
Fez mais forte a minha fé
E por filho me adotou
Ás vezes eu paro e fico a pensar
E sem perceber, me vejo a rezar
E meu coração se põe a cantar
Pra vigem de Nazaré
Menina que Deus amou e escolheu
Pra mãe de Jesus, o filho de Deus
Maria que o povo inteiro elegeu
Senhora e mãe do céu
Maria que eu quero bem, Maria do puro amor
Igual a você, ninguém
Mãe pura do meu senhor
Em cada mulher que a terra criou
Um traço de Deus maria deixou
Um sonho de mãe Maria plantou
Pro mundo encontrar a paz
Maria que fez o Cristo falar
Maria que fez Jesus caminhar
Maria que só viveu pra seu Deus
Maria do povo meu


Eu era pequeno, nem me lembro
Só lembro que à noite, ao pé da cama
Juntava as mãozinhas e rezava, apressado
Mas rezava como alguém que ama

Nas Ave Marias que eu rezava
Eu sempre engolia umas palavras
E muito cansado, acabava dormindo
Mas dormia como quem amava

Ave Maria, Mãe de Jesus
O tempo passa, não volta mais
Tenho saudade daquele tempo
Que eu te chamava de minha mãe
Ave Maria, Mãe de Jesus
Ave Maria, Mãe de Jesus

Depois fui crescendo, eu me lembro
E fui esquecendo nossa amizade
Chegava lá em casa chateado e cansado
De rezar não tinha nem vontade

Andei duvidando, eu me lembro
Das coisas mais puras que me ensinaram
Perdi o costume da criança inocente
Minhas mãos quase não se ajuntavam

Ave Maria, Mãe de Jesus
O tempo passa, não volta mais
Tenho saudade daquele tempo
Que eu te chamava de minha mãe
Ave Maria, Mãe de Jesus
Ave Maria, Mãe de Jesus

O teu amor cresce com a gente
A mãe nunca esquece um filho ausente
Eu chego lá em casa chateado e cansado
Mas eu rezo como antigamente

Nas Ave Marias que hoje eu rezo
Esqueço as palavras e adormeço
E embora cansado, sem rezar como eu devo
Eu, de Ti, Maria, não me esqueço

Ave Maria, Mãe de Jesus
O tempo passa, não volta mais
Tenho saudade daquele tempo
Que eu te chamava de minha mãe
Ave Maria, Mãe de Jesus
Ave Maria, Mãe de Jesus

Ave Maria, Mãe de Jesus
Ave Maria, Mãe de Jesus



Vou lhe contar uma história
de uma jovem chamada Maria,
em Nazaré da Galileia
outra igual eu não sei se existia.
Não sei se eram verdes seus olhos,
se tinha cabelos morenos,
só sei que Maria de Nazaré,
resolveu se casar com José.

Vou começar minha história
relembrando as garotas de então,
em Nazaré da Galileia
o assunto era libertação.
Não sei se eram verdes seus olhos
se tinha cabelos morenos,
só sei que Maria de Nazaré,
resolveu assumir sua fé.

Vou prosseguir minha história,
relembrando as idéias que havia,
em Nazaré da Galileia
a mulher muito pouco valia.
Não sei se eram verdes seus olhos,
se tinha cabelos morenos,
só sei que Maria de Nazaré,
foi a santa mulher de José.


Vou recordar nesta história
as batalhas que o mundo hoje trava,
em Nazaré da Galileia
lá também já se massificava.
Não sei se eram verdes seus olhos,
se tinha cabelos morenos,
só sei que Maria de Nazaré,
inda não conhecera José.

A jovem senhora um dia
recebeu um recado divino,
por ela o amor nasceria
a verdade seria um menino.
Não sei se eram verdes seus olhos,
se tinha cabelos morenos,
só sei que Maria de Nazaré,
aceitou, mas não disse a José.

Vou lhe falar da agonia,
que nos dois corações se criou,
pois ela explicar não podia
e o marido, julgar não ousou.
Não sei se eram verdes seus olhos,
se tinha cabelos morenos,
só sei que Maria de Nazaré,
mereceu o amor de José.

Para Belém noite e dia,
caminharam pro recenseamento,
ninguém deu abrigo a Maria,
não havia mais alojamento.
Não sei se eram verdes seus olhos,
se tinha cabelos morenos,
só sei que no ventre daquela flor,
rejeitaram o libertador.

Vou terminar minha história,
recordando os casais de hoje em dia,
em Nazaré da Galileia
o divórcio também existia.
Não sei se eram verdes seus olhos,
não sei se foi loira ou morena,
só sei que Maria de Nazaré,
foi fiel a seu Deus e a José.




Deus te salve, Maria de Maio!
Das flores nos campos, de estrelas no céu.
Deus te salve, Maria de Maio!
Das mães, das novenas, dos cantos de amor.

Ó filha de Deus! Ó Mãe de Jesus. Nas fontes, cachoeiras nos olhos sois luz!

Deus te salve, Maria de Maio!
Dos frutos nas roças, do céu todo azul.
Deus te salve, Maria de Maio!
Das brisas, neblinas, da gente a sorrir.

Deus te salve, Maria de Maio!
Dos pássaros livres, do sol a brilhar.
Deus te salve, Maria de Maio!
Orvalho de graças, sobre o nosso chão.