informações sobre ações culturais de base comunitária, cultura periférica, contracultura, educação pública, educação popular, comunicação alternativa, teologia da libertação, memória histórica e economia solidária, assim como noticias e estudos referentes a análise de politica e gestão cultural, conjuntura, indústria cultural, direitos humanos, ecologia integral e etc., visando ao aumento de atividades que produzam geração de riqueza simbólica, afetiva e material = felicidade"
"Na reta final do segundo turno das eleições presidenciais, a presença de artistas nas mobilizações, a circulação de vídeos que estimulam a reflexão crítica e os encontros culturais em defesa da democracia revelam possibilidades de aproximar comunicação, cultura e participação popular. Essas experiências também apontam desafios para um eventual quarto governo Lula: incorporar a Educação Popular, a Ação Cultural e a Participação Social como práticas permanentes de formação política, mobilização cidadã e fortalecimento da democracia, tanto nos territórios quanto nas redes digitais."
Se a canoa Brasil não virar por completo neste segundo turno, com uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, será preciso que um possível governo Lula 4 leve bastante a sério os conceitos e as práticas de Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social, tanto nos formatos presenciais quanto nos digitais. Será por necessidade, não por escolha.
A reta final desta campanha eleitoral oferece exemplos que merecem ser observados não apenas pelo seu impacto imediato na disputa, mas também pelo que revelam sobre as possibilidades de formação crítica, mobilização e participação popular na sociedade brasileira.
1 – A forte presença dos artistas e da arte nesta campanha. Não apenas dos artistas mais conhecidos, mas também de uma multidão de pessoas que se apropria das linguagens artísticas para se expressar, comunicar sentimentos e afirmar um jeito de ser e estar no mundo. Isso é Ação Cultural em movimento mil grau, misturando o conceito com uma gíria atual. A arte não entra apenas para animar a campanha: ela ajuda a construir vínculos, traduzir sentimentos e dar forma pública a valores e projetos de sociedade.
2 – O desafio lançado em torno da abertura do sigilo. Aqui, vale observar algo que também faz parte da Educação Popular: lançar perguntas em vez de apresentar afirmações fechadas ou respostas prontas. A pergunta pode provocar, desestabilizar certezas e abrir espaço para que cada pessoa examine as próprias convicções. É uma estratégia que exige disposição para o diálogo e capacidade de problematizar a realidade, especialmente quando a polarização eleitoral parece reduzir tudo a respostas automáticas.
3 – Os vídeos do projeto Revelando, realizados pela equipe do podcast Calma Urgente, sob a liderança de Alessandra Orofino, com apoio e colaboração do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), da Mídia Ninja e da produtora 342 Artes. A experiência merece atenção quando o conteúdo audiovisual ultrapassa a função de informar ou sensibilizar e contribui para a formação crítica, a construção coletiva do conhecimento e a participação das pessoas na vida pública. Em uma campanha marcada pela disputa de narrativas, importa não apenas o que se comunica, mas também a capacidade de ajudar o público a compreender os interesses, os contextos e as contradições em jogo. https://www.youtube.com/@revelando_br
4 – O canal Brasil Fora das Cavernas. Entre os formatos de vídeo utilizados pelo canal, um deles me chamou a atenção: as entrevistas nas ruas, com perguntas problematizadoras dirigidas a eleitores . É uma experiência interessante para pensar as possibilidades e os limites da Educação Popular no ambiente digital. Quando os entrevistados não conseguem se desvencilhar das armadilhas lógicas em que estão mergulhados, isso fica exposto para quem acompanha o diálogo com disposição crítica e compromisso democrático. Mas o desafio educativo vai além de mostrar contradições: consiste também em compreender como determinadas convicções se formam e como é possível abrir brechas para a reflexão. https://www.youtube.com/@BrasilForadaCaverna
5 – O Manifesto Cultural — A Cultura Também é Campo de Luta! promoveu um encontro gratuito na ONÇA — Casa de Cultura e Arte, em Aracaju, reunindo artistas, educadores, comunicadores e representantes de coletivos juvenis em uma roda de conversa sobre cultura, democracia e estratégias de mobilização, seguida de shows e exposição artística. A iniciativa valorizou a arte como expressão política, espaço de diálogo, fortalecimento de redes e instrumento de resistência e transformação social.
A experiência aproxima-se da Educação Popular freireana ao transformar o espaço cultural em lugar de diálogo, consciência crítica, reconhecimento de saberes e articulação política. A cultura não aparece apenas como produto artístico ou entretenimento, mas como prática educativa e instrumento de participação cidadã. É nesse encontro entre reflexão, expressão e ação coletiva que se manifesta seu potencial transformador.
Esses exemplos, observados nesta reta final do segundo turno, ajudam a perceber que a disputa eleitoral não se resume à escolha entre candidaturas. Ela também revela como as pessoas constroem suas opiniões, compartilham informações, expressam sentimentos, reconhecem pertencimentos e participam da vida pública.
Se a democracia está em disputa, não basta esperar que as pessoas reconheçam o melhor argumento. É preciso criar condições para que possam construir seus próprios argumentos, confrontar informações, reconhecer interesses e se tornar protagonistas da vida pública.
Por isso, se houver continuidade do projeto político representado por Lula, Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social não poderão permanecer restritas aos discursos, aos programas institucionais ou aos períodos eleitorais. Precisarão integrar uma política permanente, articulando territórios, movimentos sociais, escolas, universidades, Pontos de Cultura e redes digitais.
A lição que esta campanha deixa é que não basta disputar votos: é preciso fortalecer, todos os dias, a capacidade coletiva de compreender e transformar o Brasil.
O projeto Revelando, realizado pela equipe do podcast Calma Urgente, sob a liderança de Alessandra Orofino, com apoio e colaboração do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), da Mídia Ninja e da produtora 342 Artes, pode ser compreendido como um exemplo de educação popular por meio digital quando o conteúdo audiovisual ultrapassa a função de informar ou sensibilizar e passa a contribuir para a formação crítica, a construção coletiva do conhecimento e a participação das pessoas na vida pública.
Essa compreensão dialoga com o pensamento de Paulo Freire, para quem a educação popular não consiste em transmitir conhecimentos prontos a pessoas tratadas como receptoras passivas, mas em criar condições para que os sujeitos compreendam criticamente a realidade em que vivem e se reconheçam como capazes de transformá-la. Nessa perspectiva, o meio digital não é apenas um canal de distribuição de vídeos: pode se tornar um espaço de diálogo, mobilização, produção de sentidos e aprendizagem compartilhada.
A série apresenta reportagens audiovisuais sobre acontecimentos e problemas históricos que continuam influenciando o Brasil contemporâneo. O primeiro episódio, por exemplo, aborda a eugenia, as esterilizações forçadas e a permanência dessas ideias em discursos atuais na internet.
1 - O que faz da série de vídeos Revelando uma experiência de educação popular?
1. Parte de questões que afetam a vida concreta das pessoas
A educação popular ganha força quando trata de questões que atravessam a vida cotidiana, os direitos, as desigualdades e as relações de poder. Ao relacionar acontecimentos históricos com problemas atuais, o projeto oferece elementos para que o público compreenda que muitas situações do presente têm raízes sociais e políticas profundas.
2. Transforma informação em possibilidade de leitura crítica
O audiovisual pode tornar assuntos complexos mais acessíveis, articulando pesquisa, narrativa, imagens e apresentação. Quando contextualiza os acontecimentos e explicita suas conexões, ajuda o espectador a ultrapassar a informação fragmentada e a formular perguntas sobre quem exerce poder, quem é beneficiado e quem sofre as consequências de determinadas decisões.
3. Amplia o acesso ao conhecimento por meio das redes
A publicação gratuita dos episódios no YouTube e sua circulação nas redes sociais permitem que pessoas fora dos espaços tradicionais de ensino e debate tenham acesso aos conteúdos. A série também aborda temas ligados a direitos e decisões políticas, como a controvérsia sobre a chamada PEC das Praias.
2. A relação com Paulo Freire e a educação popular
O diálogo com Paulo Freire permite compreender melhor tanto as possibilidades quanto os limites dessa experiência. Na perspectiva freireana, educar não significa apenas oferecer informações corretas, mas favorecer a leitura crítica do mundo, reconhecendo a experiência dos sujeitos e sua capacidade de produzir conhecimento.
O projeto Revelando pode contribuir para esse processo em pelo menos quatro dimensões:
Conscientização: oferece informações que podem ajudar a reconhecer desigualdades, interesses e relações de poder que nem sempre aparecem nas narrativas mais difundidas.
Problematização: apresenta questões que convidam o público a rever explicações simplificadas e a relacionar passado e presente.
Democratização do conhecimento: utiliza uma linguagem audiovisual capaz de alcançar públicos diversos, para além de cursos, universidades e publicações especializadas.
Mobilização para o diálogo: os vídeos podem servir de ponto de partida para conversas em escolas, associações comunitárias, Pontos de Cultura, coletivos juvenis e movimentos sociais.
É importante, porém, fazer uma distinção: um vídeo acessível e bem pesquisado não se transforma automaticamente em educação popular. Na concepção de Paulo Freire, o processo educativo se completa quando o conhecimento entra em diálogo com a realidade dos sujeitos, suas experiências, suas dúvidas e suas possibilidades de ação.
3. Do vídeo à práxis: como transformar a experiência digital em educação popular?
É aqui que o exemplo do Revelando se torna especialmente interessante para a atuação de organizações culturais e comunitárias. Os vídeos podem ser utilizados como disparadores de processos formativos que articulam comunicação, cultura e participação social.
Etapa 1 — Assistir e compreender
Exibir um episódio, presencialmente ou por celular, e identificar o problema central, os acontecimentos apresentados, as fontes e os diferentes sujeitos envolvidos.
Etapa 2 — Dialogar e relacionar com a realidade
Promover uma roda de conversa: onde esse problema aparece em nossa comunidade? Que experiências conhecemos? Quais grupos são mais afetados? O que ainda precisamos investigar?
Etapa 3 — Investigar e produzir conhecimento
Consultar documentos, comparar fontes, ouvir moradores e especialistas e confrontar as informações do vídeo com a realidade local. Os participantes deixam de ser apenas espectadores e se tornam investigadores.
Etapa 4 — Criar e compartilhar
Produzir vídeos curtos, podcasts, depoimentos ou pequenos documentários que expressem as conclusões do grupo e apresentem questões relevantes para outras pessoas da comunidade.
Etapa 5 — Agir sobre a realidade
Organizar uma atividade pública, uma campanha de conscientização, uma reunião comunitária ou um diálogo com gestores públicos. A aprendizagem passa a orientar uma ação coletiva.
Esse percurso aproxima o audiovisual digital da práxis da educação popular: reflexão e ação articuladas na busca pela transformação da realidade.
4. O que o Revelando ensina aos Pontos de Cultura?
Para iniciativas como o Ponto de Cultura Juventude e Cidadania e outras experiências da Ação Cultural, a principal contribuição está em perceber que a tecnologia digital pode ampliar o alcance da ação cultural sem substituir o protagonismo das comunidades.
O Revelando oferece uma referência de linguagem, narrativa e circulação de conteúdos. Os Pontos de Cultura podem se apropriar dessas possibilidades para trabalhar com a memória dos territórios, a história das comunidades, os direitos culturais, a juventude, as desigualdades sociais e os problemas que afetam a população.
A diferença fundamental está na relação entre quem produz e quem recebe o conteúdo. Em uma comunicação vertical, a comunidade é tratada como audiência. Em uma experiência de educação popular, ela também participa da escolha dos temas, da pesquisa, da interpretação dos problemas e da produção de respostas.
Por isso, o celular, a edição de vídeos e as plataformas digitais não são apenas recursos técnicos. Quando apropriados coletivamente, tornam-se instrumentos de expressão, formação crítica e participação cidadã.
Síntese
O projeto Revelando pode ser considerado uma referência de educação popular via meio digital porque articula jornalismo audiovisual, contextualização histórica, acesso público à informação e circulação de questões relevantes para a sociedade. Seu potencial educativo se amplia quando os conteúdos estimulam o pensamento crítico e alimentam processos de diálogo, investigação e ação coletiva.
A lição para a Ação Cultural é que não basta ensinar jovens a filmar, editar e publicar vídeos. É preciso criar condições para que aprendam a ler criticamente o mundo, narrar a própria realidade, disputar os sentidos da informação e participar da transformação de seus territórios. É nesse encontro entre comunicação, cultura e organização comunitária que o audiovisual digital pode se tornar uma ferramenta efetiva de educação popular.
Referências para aprofundar: o canal do Revelando no YouTube, onde estão publicados os episódios da série, e a obra Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, para fundamentar a dimensão dialógica, crítica e transformadora dessa proposta.
E pensar que eu estava no Riocentro naquele show... poderia
nem estar aqui para votar agora #boraLula - ZdO
Em 30 de abril de 1981, um capitão e um sargento do Exército cruzaram o Rio em missão secreta. Transportavam duas bombas para causar terror e pânico num show que reunia milhares de jovens em comemoração ao Dia do Trabalhador. O plano era culpar a esquerda e sabotar o processo de redemocratização do país.
Em 30 de abril de 1981, um tenente que amava a ditadura, mas era tido pelos superiores como "excessivamente ambicioso", assistiu em Resende ao nascimento do primeiro filho. Tempos depois, ele entraria na política como porta-voz dos porões.
Ninguém escolhe o dia em que vem ao mundo, e Flávio Bolsonaro não tem culpa de ter nascido no dia do atentado do Riocentro. No entanto, todos são responsáveis pelas escolhas feitas na idade adulta. Entre a democracia e a ditadura, Flávio sempre marcou a segunda opção.
No livro "Mito ou verdade", o senador expõe seu ideário sem disfarces. No texto, ele exalta o golpe de 1964 e o regime autoritário que perseguiu, prendeu e matou opositores políticos. "Ao invés (sic) de marginalizados, deveriam ser ser tratados como heróis nacionais", escreve, sobre os agentes da repressão.
A exemplo do pai, Flávio glorifica o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que levava crianças para assistirem à tortura dos pais. Descreve o militar como "homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria" e teria sido "massacrado pela mídia".
O filho de Jair acusa a Comissão da Verdade, criada para apurar crimes da ditadura, de "tentar reescrever a História à luz da visão dos terroristas". Ele ataca a memória de vítimas do regime e chega a sugerir que o ex-deputado Rubens Paiva, assassinado no DOI-Codi, teria sido morto por grupos de esquerda.
O livro foi lançado em 2017, quando Flávio ensaiava concorrer ao Senado. Estava no fim do quarto mandato na Assembleia Legislativa do Rio, onde se notabilizou por subir à tribuna todos os anos para festejar o 31 de março, data cultuada pela extrema direita como aniversário da ditadura.
"Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que tivemos", discursou, em 2004. "Para mim, é motivo de muito orgulho e agradecimento aos militares", reforçou, em 2009.
"A esquerda, hoje no poder, insiste em falar que houve um golpe", prosseguiu, em 2010. No ano seguinte, ele celebrou a "data especial" e disse que era preciso combater "a mentira de que houve um golpe militar". "Todos já conhecem o posicionamento da família Bolsonaro", acrescentou. Quem haveria de discordar?
Desde que entrou na política, o patriarca do clã milita na defesa do autoritarismo. Especializou-se em exaltar a violência de Estado, atuar pela impunidade de torturadores, ofender viúvas e órfãos de desaparecidos. Quando o Ministério Público Federal reabriu o caso Riocentro, em 2014, ele fez questão de acompanhar o depoimento de um militar investigado. Diante dos procuradores, atacou a Comissão da Verdade e disse sonhar com uma reedição da Operação Condor, aliança clandestina entre ditaduras do Cone Sul.
A democracia deveria ser tema central na primeira eleição após o 8 de Janeiro e a inédita condenação de generais golpistas. Os marqueteiros treinaram o candidato do PL para evitar menções à ditadura, mas não podem apagar tudo o que ele já disse e escreveu sobre o tema. Por destino e por escolha, Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro.
A noite
em que fui ao Riocentro — e encontrei o PT no caminho
Por Zezito de Oliveira
Foto tirada em 13/10/2024, nas ruas de Aracaju, com uma caminhada liderada pelos setores organizadas da esquerda sindical, politica e estudantil. Em outras situações, tanto em Sergipe, como em outros estados, as iniciativas se dão por fora das estruturas tradicionais de organizaçáo e com estas dando suporte em termos estruturais. Assim, fazemos o ´país que a gente quer , ou de quando cada um de nós abre os braços. Este boneco "fofo" de Lula é o ,mascote do movimento dos trabalhadores da cultura "Cultura com Lula", e quem me passou o mesmo ´para caminhar com ele uma parte do tempo, foi Tácita Mickaelly, da operativa do Comitê Paulo Gustavo em Sergipe. Muitas pessoas tiraram fotos com o boneco.
Há poucas dias foi postado no youtube imagens do Show do
Riocentro de 1980. O acesso ao show de 1981 já é possível há mais tempo. O fato da tentativa de explosão
de bombas nesse segundo, é uma das razões de explicação para isso.
Logo no inicio é informado que as imagens é resultado da
gravação da transmissão realizada pela TV Tupi, a segunda transmissão foi realizada pela Tv
Bandeirantes.
Também não tem muito tempo fui ao cinema por duas vezes assistir o doc.
Gonzaguinha – Da maior liberdade, e este trouxe algumas cenas da participação
de Gonzaguinha no show 01 de Maio de 1981, inclusive foi ele que avisou sobre a
tentativa de explodir bombas dentro do riocentro, na hora não fazia ideia do
que poderia acontecer, na verdade nem lembrava muito dessa fala de Gonzaguinha sobre a bomba, mas lembrava da bomba, até pela repercussão na imprensa, e a minha memória foi avivada há poucos anos quando Paulo Correa,
atual secretário de cultura de Aracaju me apresentou o lançamento do CD duplo com o áudio do show.
Eu já havia feito aquela longa viagem uma vez.
Em 1980, saí de São João de Meriti, nas proximidades de onde hoje está a
estação Pavuna do metrô, em direção ao Riocentro para participar do primeiro
dos dois grandes shows de 1º de Maio que marcaram minha memória. Um ano depois,
em 30 de abril de 1981, fiz novamente o percurso. Desta vez, porém, a viagem
ficaria gravada por uma razão que só muitos anos depois eu compreenderia
melhor.
Naquela época, chegar da Baixada ao Riocentro
era quase uma pequena expedição. O metrô ainda não chegava à Pavuna, as
conexões de transporte eram outras e a Barra da Tijuca, local onde está localizado o RioCentro, parecia ainda mais
distante do que hoje. Para quem morava em São João de Meriti, atravessar o Rio
de Janeiro até o Riocentro significava enfrentar uma longa viagem de ônibus,
com seus desvios, esperas e mudanças de paisagem.
Em 1980, eu havia feito esse percurso movido
pela mesma mistura de curiosidade, música, política e vontade de estar presente
que levaria novamente ao Riocentro no ano seguinte. O primeiro show ficou como
uma referência importante para mim, mas foi o segundo que acabou associado a
uma lembrança muito particular: a conversa com dois jovens durante a viagem.
O chamado Show 1º
de Maio, foi realizado na noite de 30 de abril, para celebrar o Dia do
Trabalho. O evento, promovido pelo Centro Brasil Democrático, reunia cerca de
20 mil pessoas e tinha no palco nomes como Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Clara
Nunes, Beth Carvalho, Alceu Valença, Elba Ramalho e Chico Buarque.
Havia, inclusive, linhas especiais de ônibus
para transportar o público.
Foi durante esse deslocamento que encontrei dois jovens, como eu a época.
Pelo jeito de falar, pelas referências e pelo
universo social que pareciam revelar, eles me davam a impressão de serem
moradores da Zona Sul. Não posso afirmar hoje que fossem. A memória não guardou
esse dado com a precisão de um documento. Guardou, entretanto, algo que
considero mais importante: a conversa e o entusiasmo com que falavam das festas
promovidas pelo recém-criado Partido dos Trabalhadores.
Aquilo me chamou atenção.
O PT tinha pouco mais de um ano de existência.
Era um partido novo, ainda procurando seu lugar numa sociedade que começava a
sair lentamente da longa noite da ditadura. E aqueles jovens falavam do partido
não apenas como uma organização política ou sindical, mas também como espaço de
encontro, convivência, cultura e festa.
Essa lembrança permaneceu durante décadas como
uma cena aparentemente pequena, quase sem importância diante dos grandes
acontecimentos daquela noite. Mas a pesquisa histórica me fez perceber que ela
tinha um contexto.
Em 1981, o PT já construía núcleos em
diferentes territórios do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense. Uma edição do
Correio da Lavoura, de outubro/novembro daquele ano, anunciava em
Mesquita um grande lançamento de núcleos do partido, com programação esportiva,
cultural e política, além de barracas de comida e bebida. Em Nova Iguaçu, outra
atividade semelhante estava sendo organizada.
Ou seja, aquela conversa no ônibus não era uma
lembrança deslocada da realidade. O uso da cultura, da convivência e da festa
como parte da construção política do PT fazia parte daquele momento.
Também havia presença do partido na Zona Sul.
Núcleos e militantes ligados a comunidades como Chapéu Mangueira e áreas de
Copacabana e Leme participavam da construção daquela nova experiência política,
que aproximava trabalhadores, lideranças comunitárias, artistas, intelectuais e
jovens de diferentes origens sociais.
Talvez seja justamente isso que tenha ficado
tão marcado em mim: a possibilidade de que, naquele ônibus, estivéssemos diante
de uma pequena amostra da cidade que estava se transformando.
Eu vinha da Baixada. Eles talvez viessem da
Zona Sul. Íamos para o mesmo lugar. E conversávamos, ainda que brevemente,
sobre uma novidade política que parecia carregar uma promessa diferente.
O ônibus, naquele momento, era mais do que um
meio de transporte. Era também um lugar de encontro entre geografias sociais
que normalmente pareciam distantes.
E então veio a explosão.
Poucas horas depois, o espetáculo seria
atravessado por uma violência que revelaria o tamanho da disputa política
existente no Brasil.
Uma bomba explodiu dentro de um Puma no
estacionamento do Riocentro. O sargento Guilherme Pereira do Rosário morreu e o
capitão Wilson Luís Chaves Machado ficou gravemente ferido. Uma segunda bomba
foi encontrada próxima à casa de força. O episódio seria posteriormente
associado a setores da extrema direita militar que pretendiam interromper o
processo de abertura política.
Naquela noite, porém, ninguém dentro do
Riocentro sabia exatamente o que estava acontecendo. Eu também não.
Estávamos ali para ouvir música, encontrar
amigos, celebrar o Dia do Trabalhador e, talvez sem perceber, participar de um
momento importante da história brasileira.
Gonzaguinha, que estava no palco, acabou se
tornando uma das vozes daquele instante. A música e a política, que já
caminhavam juntas naquela noite, foram brutalmente atravessadas pela violência.
Quando olho para trás, quase meio século
depois, penso que talvez a lembrança daqueles dois jovens no ônibus seja tão
importante quanto a lembrança da explosão.
Porque o atentado é história documentada. Está
nos jornais, nos processos, nos livros, nos arquivos e nos relatórios. A
conversa no ônibus, não. Ela existe na memória de quem estava lá.
E é justamente nessa fronteira entre memória e
documento que uma época pode ser melhor compreendida.
O Brasil de 1981 era um país em transição. A
ditadura ainda tinha força, mas a sociedade civil avançava. O movimento
sindical se reorganizava, as comunidades eclesiais de base estavam ativas, as
associações de moradores se fortaleciam, artistas e intelectuais ocupavam
espaços de resistência e um partido novo tentava transformar parte dessa
energia dispersa em organização política.
Em 1980, eu havia ido ao Riocentro para o
primeiro daqueles shows de 1º de Maio. Em 1981, voltei. Na segunda viagem, saí
novamente da Baixada em direção à Zona Oeste e, dentro de um ônibus que
atravessava a cidade, encontrei dois jovens que falavam com entusiasmo sobre o
PT e suas festas.
Poucas horas depois, uma bomba explodiria no
estacionamento e o país descobriria, ainda que muitos anos depois, que a
abertura democrática continuava sendo disputada à força.
Entre uma coisa e outra estava o Brasil.
Um Brasil que queria cantar, dançar,
organizar-se, fazer política e voltar a respirar.
Talvez seja essa a imagem que mais gosto de
guardar daquelas duas viagens ao Riocentro: primeiro, a descoberta de um grande
espaço de encontro cultural e político; depois, o reencontro com aquele mesmo
lugar, agora carregando uma tensão que a maioria de nós ainda não conseguia
enxergar.
Eu estava lá nas duas vezes.
E,
na segunda, no caminho para o Riocentro, encontrei dentro de um ônibus um
pequeno pedaço do Brasil que também estava nascendo ou renascendo.
P.S.: - Após a publicação na noite de ontem me recordei da expressão “esquerda festiva”, hoje denominada como “esquerda cirandeira”, e fui pesquisar para saber as origens do termo, bastante utilizado de forma pejorativa e em alguns casos até de maneira compreensiva, quando a crítica é ao excesso de festa em detrimento de outras questões como formação, organização e luta. Mas por outro lado, é importante perceber a crítica como uma falta ou debilidade de uma esquerda muito racional e bastante influenciada pela cultura europeia chamada de moderna, o que é distante, como sabemos, desses aspectos de beleza e alegria mais espontânea e mais caliente. Só que vale lembrar que, como mostrou Bakhtin, antes, na Europa pré-iluminista, a cultura europeia era marcada por uma presença forte da cultura popular, com o riso, a festa e a praça pública tendo papel central e criando um “segundo mundo” de liberdade e inversão temporária das hierarquias. Foi depois, com o racionalismo iluminista e a visão burguesa de mundo, que essa cultura popular foi sendo desvalorizada e separada da “alta cultura”. Então a crítica que faço não é simplesmente opor Europa e Brasil , mas uma certa racionalidade moderna que rompeu com a dimensão festiva e popular da própria cultura europeia, o que também influenciou em termos estéticos uma grande parte das nossas esquerdas, de lá e de cá.
RARO! Show 1° de Maio 1980 : Riocentro/RJ
SHOW RIOCENTRO 30 DE ABRIL DE 1981
1. Postagens encontradas no Blog da Cultura sobre o atentado do Riocentro
A postagem reúne referências documentais sobre o atentado, incluindo o relatório da Comissão Nacional da Verdade, informações sobre o depoimento do capitão Wilson Machado e a investigação histórica do episódio. É uma boa porta de entrada para aprofundar a pesquisa documental.
Relaciona o atentado de 1981 à tentativa de ataque a bomba em Brasília, em dezembro de 2022. A publicação traz registros audiovisuais do show do Riocentro e referências à Comissão Nacional da Verdade, articulando memória histórica e defesa da democracia.
Texto de Zezito de Oliveira que recupera sua experiência como jovem presente ao show de 1981. O autor relata que poderia ter sido uma das vítimas do atentado e estabelece uma relação entre a tentativa de violência política da ditadura e as disputas políticas posteriores. É especialmente importante para a dimensão autobiográfica da memória do Riocentro.
Artigo de Zezito de Oliveira que retoma o episódio a partir da memória de quem esteve no show. Discute a atuação de setores militares contrários à abertura política, a impunidade e as relações entre a memória da ditadura e as ameaças recentes à democracia.
Embora não seja exclusivamente sobre o atentado, o artigo recupera a lembrança pessoal dos shows de 1º de Maio de 1980 e 1981 e destaca o perigo vivido pelo público no Riocentro. Ajuda a contextualizar o episódio dentro de uma trajetória de juventude, música e luta pelas liberdades democráticas.
2. Qual postagem consultar primeiro?
Minha recomendação é começar pelo texto de 2025, “Depoimento de quem poderia ter morrido no atentado do Riocentro em 1981”, e depois ler o artigo de 2024, que reúne referências documentais. Em seguida, vale voltar à postagem de 2022, que contém vídeos e registros do show.
Os cinco textos permitem acompanhar três dimensões complementares: a experiência pessoal de Zezito de Oliveira, a importância política e cultural do show e a documentação histórica do atentado.
Uma observação: os títulos e links acima correspondem às páginas encontradas na pesquisa; a lista não garante que sejam todas as menções ao Riocentro existentes no blog.
Hoje, 19/10, no programa Fim de Tarde da Rádio Eldorado (SP), comentário de um dos apresentadores do programa e a repetição da falsa equivalência entre os dois candidatos, E a pergunta que não quer calar? Como debater com candidatos tipo Marçal, Flávio e Nikolas? Os editoriais do Estadão sobre o segundo deu a pista. Nos EUA é aplicado um sistema de checagem em tempo real, será que pode ajudar?
Blog da Cultura — 1º de outubro de 2026
Subtítulo: Quando o espetáculo devora a democracia.
O artigo retoma uma reflexão sobre o primeiro debate presidencial do primeiro turno e volta a discutir o tema após o cancelamento do último debate mencionado no texto.
O texto aproxima dois fenômenos separados por décadas: os festivais televisivos de música dos anos 1960 e os debates eleitorais contemporâneos. A questão comum é como a disputa, a rivalidade entre participantes, as provocações e as torcidas podem se tornar parte central do espetáculo, deslocando a atenção do conteúdo que deveria estar em discussão.
O artigo desenvolve esse paralelo em torno de três questões:
A transformação da disputa em espetáculo: nos festivais, a rivalidade entre artistas e as torcidas ajudavam a mobilizar a audiência; nos debates eleitorais, conflitos e provocações também podem ganhar mais visibilidade que as propostas.
O papel da televisão e das redes sociais: a busca por audiência e engajamento interfere na maneira como a competição é apresentada e repercute.
Os riscos para a democracia: o problema não é a existência de divergências, mas a possibilidade de a agressividade e a desqualificação dos adversários ocuparem o lugar da discussão pública.
Admiração por João Gomes segue firme; salve o povo e a cultura nordestina — e também das regiões Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul —, além do presidente que ama e investe na cultura brasileira.
ZdO
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Após ser cobrado nas redes sociais para revelar seu posicionamento político, João Gomes decidiu falar abertamente sobre suas convicções durante uma apresentação em Londrina.
Ao lado dos amigos Mestrinho e Jota Pê, o cantor leu um texto em que defendeu a educação, a democracia, a liberdade de expressão e os direitos sociais. Durante o discurso, ele também demonstrou apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
João ainda relembrou dificuldades que enfrentou na infância e destacou a importância de oferecer oportunidades às pessoas mais vulneráveis. O artista também falou sobre saúde mental, respeito às diferenças e a importância de votar pensando no futuro do Brasil.
João Gomes se posiciona sobre política após cobranças e defende democracia
"45 dos 59 eleitos com até 29 anos para a Câmara e as Assembleias Legislativas (76,3%) são de direita, mostrando que “nem toda juventude é linda” como sugere a canção do 14 Bis e recolocando a pergunta de Gonzaguinha em “E Vamos à Luta”: como fazer crescer a rapaziada em que ele acreditava? O desafio, apontam educadores e movimentos culturais, é converter energia juvenil em organização comunitária e participação cidadã duradoura, ncluindo pelo meio digital".
O que a eleição de uma estreante deputada federal de 24 anos do Rio revela sobre a onda de direita no Brasil
Julia de Castro, sorridente, em cima de um carro de som, faz o gesto de V com a mão; atrás, manifestação bolsonarista, com pessoas vestidas de verde e amareloCrédito,Reprodução/Facebook/@juliadecastrobr
Julia de Castro (PL-RJ), de 24 anos, nunca havia disputado uma eleição até 2026.
Nascida em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, a historiadora formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) resolveu contrariar o roteiro mais comum de quem começa na política: em vez de testar seu nome em uma disputa local, estreou nas urnas com a ambição de conquistar uma vaga na Câmara dos Deputados, em Brasília.
A aposta foi alta. Para alguns colegas de chapa, uma decisão precipitada. O resultado, porém, superou as expectativas.
Com 103.880 votos, Julia teve desempenho melhor do que veteranos como Glauber Braga (PSOL), Jandira Feghali (PCdoB) e Wladimir Garotinho (PL). Tornou-se, da noite para o dia, a deputada federal mais jovem do Rio de Janeiro.
Embora pouco conhecida do público acima de 35 anos, Julia já contava com uma base fiel de apoiadores nas redes sociais. Seu nome começou a circular em perfis da direita em 2022, quando passou a expor, em vídeos, as hostilidades que sofria por ser eleitora de Jair Bolsonaro (PL). Desde então, tem ampliado sua audiência com conteúdos críticos à esquerda.
A pouco mais de um mês da eleição, em 31 de agosto, Julia tinha 447 mil seguidores no Instagram. Segundo levantamento da consultoria Bites feito a pedido da BBC News Brasil, 60% deles tinham entre 18 e 34 anos. O maior grupo era formado por mulheres pouco mais velhas do que ela — de 25 a 34 anos — que somavam um quarto de toda a audiência.
"Toda eleição, desde 2022, perguntavam se eu iria me candidatar, e eu falava que não. Em 2024, esse bombardeio foi mais intenso, mas eu achava que precisava me preparar mais, ter um pouco mais de casca, de traquejo político, de vivência partidária", diz a deputada eleita.
"Talvez por isso minha primeira eleição tenha sido tão exitosa, porque ela foi no momento certo em relação à carreira que construí na política."
Como as eleições de 2026 mostraram, o sucesso eleitoral de Julia não foi um fenômeno isolado. O pleito ampliou a presença da direita no Congresso, puxada sobretudo pelo PL, que passou de 97 para 121 deputados e elegeu 19 das 54 cadeiras do Senado em disputa.
Nesse movimento, a congressista integrou uma leva de políticos de direita com menos de 30 anos que se elegeram depois de construir capital político nas plataformas digitais, sobretudo entre jovens de até 34 anos.
Os números indicam que 45 dos 59 eleitos de até 29 anos para a Câmara e as assembleias legislativas (76,3%) são de direita. Segundo o Monitor Jovem DX, projeto do Instituto Democracia em Xeque em parceria com o Núcleo de Pesquisas em Psicologia Política e Movimentos Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), sete dos dez candidatos que mais geraram interações nas redes sociais foram eleitos. Cinco deles, de direita.
Entre os casos de maior projeção estão Lucas Pavanato (PL-SP), de 28 anos, que tinha 5,6 milhões de seguidores no Instagram e bateu o recorde de votação para deputado federal em São Paulo, com mais de 3 milhões de votos; e André Fernandes (PL-CE), 28, que reunia 3 milhões de seguidores e foi o mais votado do Ceará, com 684 mil votos.
A pesquisadora Beatriz Besen, coordenadora do Monitor Jovem DX e especialista nos estudos de novas direitas, afirma, porém, que o bom desempenho nas redes sociais não bastou, sozinho, para determinar a eleição dos candidatos.
Segundo ela, o êxito se dá quando a audiência se combina com financiamento, apoio de lideranças, capital político familiar e experiência em disputas anteriores. Para Besen, a direita foi a que melhor entendeu a estratégia multifatorial.
"Houve um investimento grande [da direita] em lançar candidaturas jovens com uma trajetória de influência digital prévia", diz Besen.
"Isso me parece algo que vem sendo construído desde as últimas eleições federais, já sendo colocado em prática nas eleições municipais, mas funcionando de forma mais sistemática nessas eleições."
A fórmula do sucesso de Júlia — e do PL
A trajetória de Julia de Castro é um bom exemplo de como o sucesso eleitoral depende do entrelaçamento entre a popularidade nas redes e a política institucional.
Pouco depois que seus vídeos ganharam tração na direita, Julia participou como influenciadora, em outubro de 2023, de uma conferência conservadora no Rio ao lado, entre outros políticos, dos deputados Luiz Lima e Márcio Gualberto, ambos do PL.
Menos de um mês depois, foi nomeada secretária parlamentar no gabinete de Lima, onde permaneceu por um ano e meio. Depois, em 2025, tornou-se assessora no gabinete de Gualberto na Assembleia Legislativa do Rio e assumiu a vice-presidência nacional do PL Jovem.
No PL Jovem, Julia diz ter começado a montar diretórios, fazer palestras, participar de curso de formação e viajar pelo Brasil para conhecer colegas de direita. Em 2026, recebeu o convite para se filiar ao partido e sair candidata.
"Como eu já tinha esse relacionamento próximo com o partido, foi algo muito natural", diz Julia.
"Pude entender antes como funciona a formação de bases, de diretórios, de filiados, como é que funciona o estatuto, o que é que o partido propõe, quais são as suas agendas, suas propostas, como é estar dentro de um organismo quase que empresarial. Eu era de uma política de internet, muito mais, digamos assim, do campo das ideias e da intelectualidade, do que do campo partidário, que é a política vivida dia a dia na prática."
Na campanha de 2026, o vínculo de Julia com a estrutura partidária resultou em ganhos de verba. A Direção Nacional do PL repassou R$ 500 mil à sua candidatura, valor que respondeu por cerca de 84% do arrecadado por ela.
Parte do dinheiro foi usada para ampliar sua presença tanto nas redes quanto nas ruas: até a prestação parcial, a campanha havia gasto R$ 104,5 mil com impulsionamento de conteúdo e R$ 76,1 mil com militância e mobilização.
Julia diz que pôde usar a verba como quis, sem imposições do PL. "Existiu ali sim uma intenção de fortalecer nossos nomes de forma unitária por parte de certos publicitários do partido, marqueteiros, mas nada orquestrado, nada de forma imposta, e sim sugestões", diz.
"Isso achei muito legal no partido: mesmo você sendo um candidato jovem, ele não te coloca na posição de inexperiente."
Segundo Besen, o PL foi o partido que soube melhor identificar jovens que já tinham audiência e, assim, oferecer condições para que essa influência se transformasse em candidatura competitiva. A sigla conseguiu, segundo ela, articular "visibilidade, apoio de lideranças e estrutura partidária".
O resultado veio nas urnas. O partido da família Bolsonaro foi o que mais elegeu candidatos jovens: 17 de 57 candidaturas — cerca de 30%.
Em comparação, o Missão, partido que mais lançou candidatos jovens, não elegeu nenhum dos 168 nomes. O PT, por sua vez, o segundo com mais candidatos sub-30 eleitos, teve êxito em 8 de 43 candidaturas, um aproveitamento de 18%. Já PSOL e Novo conseguiram ter aproveitamento baixo, de 2,1% e 1,7%, respectivamente.
Ao combinar uma identidade com apelo nas redes a audiência própria e apoio direto de lideranças nacionais, esses candidatos chegam aos partidos com parte do capital político já construído.
Besen destaca também uma comunicação mais agressiva da direita como estratégia eficiente de mobilizar audiência e catapultar quadros novos. Ela cita a mobilização de cortes, conteúdos de ataque e confronto e uma forte delimitação de identidades políticas.
"Isso tem um efeito nas redes: a mobilização de emoções e as estratégias de direcionamento, que também envolvem financiamento, dão resultados", diz Sainz.
É uma estratégia de persuasão e recrutamento diferente da esquerda. O PT, diz Sainz, embora também tenha elegido jovens com forte presença digital, como Ana Elisa (PT-MG), de 21 anos, costuma buscar nomes em espaços historicamente ligados aos partidos.
"A esquerda tende a recrutar via juventudes partidárias, movimento estudantil e movimentos sociais, com mais dependência da estrutura do partido", afirma. "Mas esse quadro pode estar mudando."
Julia de Castro diz acreditar que o sucesso dos jovens eleitos está relacionado a uma relação mais próxima — e cotidiana — com o público. Segundo ela, a nova geração que brotou do campo digital rompe com a imagem do político distante que só expõe detalhes pessoais em época de campanha.
"Além de o povo esperar uma renovação, nós construímos a nossa carreira política através do contato direto com o nosso público. Ele sabe quem nós somos para além de figura pública", diz. "Muitas vezes sabem os nossos gostos, nossa família, nossa história e formação."
Dinheiro importa, mas não explica tudo
Outro fator importante para a vitória nas eleições dos jovens de direita foi, segundo Sainz, o acesso a recursos.
Ele ressalta que o partido mais exitoso, o PL, ficou com a maior fatia do fundo eleitoral: R$ 881,7 milhões, bem acima dos R$ 615,4 milhões destinados ao PT. Na avaliação do pesquisador, dinheiro não produz votos automaticamente, mas ganha muito peso quando se combina com outras vantagens competitivas.
"Nossa hipótese é que o sucesso da juventude depende de recursos desigualmente distribuídos: financiamento, estrutura partidária, padrinhos políticos e, cada vez mais, capital digital", diz Sainz.
"Candidaturas que mobilizam pautas de alto engajamento nas redes convertem atenção em capital político, o que pode reduzir a dependência da máquina partidária tradicional."
Os dados do Monitor Jovem apontam para a mesma direção. Entre os 59 jovens eleitos, a associação entre recursos públicos recebidos e percentual de votos válidos foi positiva, mas fraca.
Isso significa que candidatos mais financiados tenderam, em média, a ter desempenho um pouco melhor, mas o volume de dinheiro esteve longe de determinar quantos votos cada um receberia.
Lucas Pavanato recebeu R$ 2,86 milhões e chegou a 3 milhões de votos; André Fernandes contou com R$ 3,1 milhões e teve 684 mil. Já a deputada estadual Eduarda Campopiano (PL-SP), de 23 anos, alcançou quase 2 milhões de votos com R$ 725 mil, enquanto a federal Ana Júlia (PT-PR), de 26 anos, com R$ 2,97 milhões, recebeu 184,7 mil votos.
As campanhas milionárias, de toda forma, foram exceção no conjunto das candidaturas jovens. Entre os que disputaram uma vaga na Câmara, a mediana de recursos públicos foi de cerca de R$ 5 mil entre os homens e R$ 14 mil entre as mulheres.
E houve quem se elegesse sem receber dinheiro dos fundos. Emerson Freitas (MDB-PE), de 26 anos, dono de um perfil no Instagram com mais de um milhão de seguidores, conquistou uma vaga na Assembleia de Pernambuco com 49,2 mil votos e nenhum recurso do fundo eleitoral. Quase todo o valor arrecadado — R$ 37,3 mil — veio diretamente de pessoas físicas; outros R$ 1,3 mil foram arrecadados por financiamento coletivo.
O poder dos padrinhos digitais e do capital familiar
Eleito como o deputado federal mais votado do país pela segunda vez consecutiva, Nikolas Ferreira (PL-MG) ocupa um papel central no ecossistema da jovem direita do PL.
Segundo Besen, o congressista atua como uma espécie de padrinho digital: ajuda a formar quadros nas redes sociais e a catapultar capitais políticos já em construção ao ampliar alcance, legitimar nomes e conectá-los a uma audiência maior. Ela cita Lucas Pavanato, Eduarda Campopiano e Julia de Castro entre os beneficiados por essa rede.
Esse apoio pesa porque, segundo a pesquisadora, o capital digital raramente nasce durante a campanha. Em geral, os candidatos já chegam à eleição com audiência própria. O papel de lideranças como Nikolas é acelerar essa projeção e transformar visibilidade dispersa em força política concentrada.
"É difícil construir do zero, durante a campanha, uma audiência que se converta em votos", diz Besen. "Os candidatos podem ganhar seguidores, mas o principal movimento é mobilizar e engajar uma audiência já existente. Altos níveis de engajamento podem ampliar a circulação dos conteúdos para além dos próprios seguidores, permitindo alcançar novas pessoas e, potencialmente, furar bolhas."
Os padrinhos digitais convivem também com uma forma bem mais antiga de chegar à política: mais da metade dos jovens eleitos em 2026 — 31 de 59 — tinha capital político familiar. Entre eles estão Alvinho Lira (PP-AL), filho de Arthur Lira; Lula da Fonte (PP-PE), filho do deputado Eduardo da Fonte; e Carlos Muniz Filho (PSDB-BA), filho do presidente da Câmara Municipal de Salvador.
Os dois caminhos podem se misturar. Alvinho, de 20 anos, por exemplo, herdou um sobrenome de peso na política alagoana, mas também construiu presença própria nas redes durante a campanha.
Nos dois últimos levantamentos regionais do Monitor Jovem antes da eleição, foi o jovem candidato a deputado federal com mais interações em Alagoas: somou 11,2 mil interações em 37 publicações entre 31 de agosto e 13 de setembro e 36,1 mil em 49 posts nas duas semanas seguintes. Acabou eleito com 172.628 votos, a maior votação para o cargo no estado.
De onde vem esse movimento — e para onde ele vai?
Estudos dão conta que parte da vantagem da direita na eleição de jovens candidatos começou a ser construída mais de uma década atrás.
O artigo As juventudes de direita redescobrem as ruas, publicado em 2025 pelos pesquisadores Gustavo Paccelli e Christiane Jalles de Paula, argumenta que, a partir de 2013 e sobretudo nos protestos de 2015 e 2016, jovens de direita passaram a acumular experiência de mobilização, redes de apoio e repertórios próprios de atuação política.
Os autores descrevem uma mudança gradual: se em 1992 a presença das juventudes de direita era marginal, em 2013 esses grupos passaram a disputar com mais força o sentido das manifestações, ao explorar pautas como anticorrupção e antipartidarismo e ampliar a presença nas redes.
Em 2015 e 2016, movimentos como MBL e Vem Pra Rua já combinavam mobilização de rua, comunicação digital, marketing político e apoio empresarial, uma infraestrutura que ajudou a transformar militância em capital político.
Algumas lideranças daquele ciclo, como Kim Kataguiri e Fernando Holiday, converteram a projeção em mandatos. Protagonizaram, assim, uma passagem da mobilização — tanto digital quanto nas ruas — para a política institucional.
Besen concorda que o movimento das novas direitas no Brasil ganhou força e visibilidade com as mobilizações de 2013 e 2015 e com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), mas vê esse processo como mais difuso.
Muitos dos candidatos mais jovens que acompanha, sobretudo os que ainda não chegaram aos 24 anos, situam o início da própria trajetória política nas eleições de 2018 ou durante a pandemia. Para ela, esses momentos coincidem com uma expansão do uso das redes sociais como espaço de informação, formação de identidade e sociabilidade política.
É também no pós-pandemia, segundo a pesquisadora, que se torna mais visível a expansão de identidades conservadoras e religiosas entre jovens. Ao mesmo tempo, influenciadores e militantes conseguem transformar audiência em projeção pública e, em alguns casos, essa projeção se converte em capital eleitoral.
Para Besen, foi essa combinação — construída ao longo de diferentes ciclos, e não apenas a partir de 2013 — que ganhou peso nas eleições de 2026.
"Acho que estamos diante de um processo mais duradouro, que está para além do Brasil", diz Besen. "Mas isso não significa que as tendências das próximas eleições estejam definidas."
A pesquisadora sugere que a direita acaba fornecendo uma resposta mais direta ao jovem que se sente frustrado ou desesperançoso quanto ao futuro. "A ideia que tem se propagado nas redes é justamente que esses jovens têm chances de enriquecer rapidamente, mudando sua forma de agir, seus hábitos e sua mentalidade", afirma. "Esses conteúdos têm mobilizado muito os jovens, principalmente homens."
Besen ressalta, porém, que nas suas pesquisas aparecem contradições dentro das posições políticas dos jovens. Muitos navegam entre posições progressistas e conservadoras.
"Essas identidades não estão fechadas, e isso também precisa ser considerado quando falamos de juventude", afirma Besen. "Tivemos sim uma expansão dessas identidades, mas resultados amplos de pesquisas sobre juventude e política não permitem afirmar que a juventude, como um todo, tem se orientado à direita."
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