quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Relatório 2 da Audiência Pública sobre a Política Nacional Aldir Blanc e o Fortalecimento da Cultura em Aracaju

A Câmara Municipal de Aracaju realizou uma audiência pública para debater o balanço da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) para 2024-2026 e o fortalecimento do Sistema Municipal de Cultura de Aracaju. O vereador Iran Barbosa, proponente do evento, destacou a importância da cultura como um instrumento de libertação e identidade de um povo, fundamental para a formação de cidadãos conscientes e críticos.

1. Balanço da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e Ações em Aracaju (Secretaria Municipal de Cultura)

O Secretário Municipal de Cultura, Paulo Correia, apresentou um balanço detalhado da implementação da PNAB e outras iniciativas:

·         Ciclo I (2023-2025):

o    Aracaju recebeu R$ 4.523.000 em 2023, com um rendimento bancário de R$ 678.080.

o    Cerca de 80% dos recursos foram contratados até 8 de julho de 2025, superando a meta mínima nacional de 60%.

o    A alocação incluiu:

§  R$ 2.580.000 para "Conexões Culturais" (projetos de diversos valores, festivais, feiras, ações formativas, produção de bens artísticos).

§  R$ 750.000 para "Bolsas de Pesquisa" (15 bolsas de R$ 50.000 cada).

§  R$ 800.000 para "Fomento a Pontos de Cultura" (10 vagas de R$ 80.000 cada).

§  R$ 330.000 para "Premiação a Pontos e Pontões de Cultura".

§  R$ 230.000 para consultoria e assessoria.

·         Ciclo II (2025-2026):

o    Recursos (R$ 4.580.000) foram repassados a Aracaju em 29 de dezembro de 2025, com atraso devido à reconstrução do Ministério da Cultura (MINC).

o    O prazo para contratação foi prorrogado pelo MINC até 14 de dezembro de 2026.

o    A FUNCAJU lançará os editais do segundo ciclo ainda esta semana.

o    A distribuição de recursos, baseada em escutas públicas, inclui: R$ 1.500.000 para fomento geral, e valores específicos para artes cênicas (R$ 130.000), artes visuais (R$ 150.000), audiovisual (R$ 150.000), cultura cigana (R$ 100.000), cultura popular e afro (R$ 180.000), festivais (R$ 250.000), literatura (R$ 140.000) e música (R$ 400.000).

o    Reservados R$ 499.000 para reforma do Teatro João Costa.

o    Outras ações: apoio a ações continuadas (R$ 1.200.000), fomento a projetos de pontos de cultura (R$ 810.000), premiação a pontos e pontões (R$ 200.000), Bolsas Cultura Viva (R$ 147.000) e operacionalização (R$ 229.000).

·         Fortalecimento do Sistema Municipal de Cultura:

o    Criação do Plano Municipal de Cultura (Lei 5.987/2024, validade de 4 anos).

o    Criação da Secretaria Municipal de Cultura (Lei 6.157/2024, julho de 2025).

o    Ativação do Conselho Municipal de Cultura e criação do Fundo Municipal de Cultura (aprovados em junho de 2026). Pedido de CNPJ para o Fundo já em andamento. Escutas públicas para a representação da sociedade civil no Conselho serão realizadas.

·         Outras ações da Secretaria (julho 2025 em diante): Agenda Cultural, Censo Cultural, renomeação do Centro Cultural para Palácio-Museu Luiz Antônio Barreto, descentralização do Forró Caju, Cantata de Natal, seleção do Hino Oficial de Aracaju, e um plano de formação artístico-cultural (agosto-novembro 2026).

2. Críticas e Sugestões dos Debatedores e Público

·         Fragilidade Institucional e Gestão (Lu Silva, Ivo Adnil, Zezito de Oliveira):

o    Críticas a editais mal estruturados, categorias inadequadas e valores insuficientes (R$ 150.000 para o setor audiovisual é considerado "irrisório").

o    Problemas de continuidade na gestão da FUNCAJU, cobrança de documentos já entregues.

o    Necessidade de capacitação dos gestores públicos para compreender as especificidades de cada linguagem artística.

o    Sugestão de concurso público para cargos de liderança nas equipes técnicas ou contratação de técnicos exclusivos para gerir os editais.

o    Alertas sobre a falta de interesse de gestores em municípios do interior e o uso político dos recursos.

·         Financiamento e Economia Criativa (Ivo Adnil, Sérgio Sampaio, André Lucas):

o    A cultura é um setor econômico lucrativo que gera trabalho e renda, mas é frequentemente tratada como supérflua.

o    Necessidade de destinar um percentual fixo do orçamento (e.g., 1% do PIB) para a cultura, para garantir sustentabilidade e independência de fundos federais.

o    Questionamento sobre o impacto real dos investimentos, pedindo relatórios de avaliação transparentes e acessíveis ao público.

o    Críticas à concentração de recursos em grandes eventos e atrações externas, em detrimento da cultura de base e artistas locais.

o    Sugestão de criação de programas robustos como "Sergipe Filmes" (R$ 15 milhões/ano) e "Sergipe Música Viva" (R$ 6 milhões/ano) para valorizar a produção local.

·         Participação Social e Transparência (Celiene Lima, Zezito de Oliveira, Tácita Mickaelle):

o    O PNAB tem o "DNA da participação social", mas é preciso ir além da formalidade.

o    Demanda por Conselhos de Cultura genuinamente eleitos pelos agentes culturais, e não indicados.

o    Crítica à presidência do Secretário de Cultura nos Conselhos, o que dificulta a fiscalização.

o    Necessidade de cronogramas claros para editais (lançamento, resultados, pagamentos).

o    Proposta de uma plataforma pública, simples e acessível, para divulgar dados de execução, relatórios de projetos e estudos de impacto, em vez de planilhas complexas.

o    Exigência de devolutiva clara e pública das escutas e consultas (quais propostas foram acolhidas/rejeitadas e por quê).

o    Apelo à "busca ativa" de fazedores culturais, especialmente em periferias e no interior, para garantir acesso aos recursos.

·         Inclusão e Reconhecimento (Luísa Margarida, Davi Pontes, Tatiana Feitosa, Josivaldo Silva de Jesus):

o    O Grupo de Dança Loucurarte, composto por pessoas com e sem deficiência, destacou sua visibilidade nacional e internacional, mas a falta de reconhecimento e apoio financeiro local.

o    Relatos de projetos desclassificados por serem considerados "triviais" ou "cópias", evidenciando a necessidade de avaliadores preparados para projetos de inclusão.

o    Pedidos de apoio (não apenas financeiro, mas de divulgação e convites) para que representem Aracaju e Sergipe em eventos internacionais.

o    Dificuldades enfrentadas por artistas cegos e de baixa visão, e a necessidade de editais mais flexíveis para presidentes de entidades culturais.

·         Questões Estruturais e Legado (Lindolfo Amaral, André Lucas, Erdem, Maria Lúcia Cacho Maia):

o    Crítica à "cabide de empregos" na gestão cultural, que impede a continuidade e o acúmulo de experiência técnica.

o    Necessidade de uma Conferência Municipal de Cultura para debater e construir políticas públicas mais efetivas.

o    Alertas sobre a perda de dados culturais a cada mudança de gestão e a ausência de um cadastro cultural permanente.

o    A importância do "CPF" (Conselho, Plano, Fundo) para que os municípios continuem a receber recursos federais após 2027.

o    Maria Lúcia Cacho Maia, representante do Médio Sertão, ilustrou a realidade do interior, onde R$ 52.000 são divididos por seis municípios, inviabilizando projetos e excluindo artistas sem instrução formal. Enfatizou a necessidade de preservar manifestações culturais regionais.

3. Considerações Finais e Encaminhamentos

Os membros da mesa e o vereador Irã Barbosa concordaram com a necessidade de:

·         Fortalecer a Secretaria de Cultura com orçamento próprio e uma equipe técnica qualificada e permanente, idealmente por meio de concurso público.

·         Garantir a eleição dos membros do Conselho Municipal de Cultura, seguindo o marco regulatório, e a ativação plena do Fundo Municipal de Cultura.

·         Aprimorar os editais para que sejam mais claros, segmentados por linguagem artística (incluindo ações continuadas e festivais), e com valores adequados.

·         Aumentar a transparência na gestão dos recursos, com plataformas acessíveis e devolutivas públicas das consultas.

·         Promover uma "busca ativa" de fazedores culturais, especialmente em regiões periféricas e no interior, e oferecer programas de formação contínua.

·         Realizar audiências públicas anuais para acompanhamento da PNAB pelo Legislativo.

·         O Secretário Paulo Correia reiterou seu compromisso com o diálogo, a busca por emendas parlamentares para fomento (não apenas eventos) e a valorização de todas as linguagens artísticas, reconhecendo os desafios históricos da cultura no Brasil.

A audiência destacou a vitalidade e as demandas do setor cultural de Aracaju e Sergipe, apontando para a necessidade de políticas culturais mais robustas, transparentes e inclusivas, que transformem o investimento em cultura em legado social duradouro.

A transcrição acima foi realizada com a IA Transkriptor

RELATÓRIO 01 - AUDIÊNCIA PÚBLICA - Tema: Balanço da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) 2024-2026 e o Fortalecimento do Sistema Municipal de Cultura de Aracaju.

Data: 17 de agosto de 2026.  

Local: Plenário da Câmara Municipal de Aracaju. 

Requerente: Vereador Iran Barbosa (PSOL).  


1. APRESENTAÇÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO

  • Abertura: O Vereador Iran Barbosa, presidente da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Lazer, abriu a audiência, destacando o papel fiscalizador e propositivo da Câmara. A audiência foi motivada pela necessidade de debater a execução dos recursos da PNAB e fortalecer o Sistema Municipal de Cultura.

  • Objetivo: Ouvir análises, críticas e sugestões da sociedade civil e do poder público para aprimorar as políticas culturais do município, garantindo que a cultura seja reconhecida como um instrumento de identidade e libertação.


2. BALANÇO DA EXECUÇÃO DA POLÍTICA NACIONAL ALDIR BLANC (PNAB)

2.1. Dados e Ciclos da PNAB

  • Ciclo I (2023-2025):

    • Repasse:  

    • Execução: A gestão anterior não utilizou os recursos em 2024. A nova gestão (a partir de 2025) contratou 80% dos recursos, superando a média nacional de 60%.
    • Distribuição: Os recursos foram alocados em editais para Conexões Culturais, Bolsas de Pesquisa, Fomento a Pontos de Cultura, Premiação a Pontos e Pontões de Cultura, e Consultoria/Assessoria.

    • Críticas: Houve denúncias sobre falta de transparência na execução e a ausência de um relatório público consolidado sobre os resultados entregues pelos projetos financiados.

  • Ciclo II (2025-2026):

    • Repasse: Os recursos (R$ 4.580.000,00) chegaram a Aracaju em 29 de dezembro de 2025, atrasados devido à reestruturação do Ministério da Cultura (MinC). O prazo para contratação foi estendido pelo MinC até 14 de dezembro de 2026.

    • Plano de Aplicação: Os valores foram definidos a partir de escutas públicas, com uma distribuição por segmento:

      • Artes Cênicas: R$ 130.000

      • Artes Visuais: R$ 150.000

      • Audiovisual: R$ 150.000 (considerado insuficiente pelos participantes)

      • Música: R$ 400.000

      • Festivais: R$ 250.000

      • Ações Continuadas: R
        1.200.000(12vagasdeR

      • Fomento a Pontos de Cultura: R$ 810.000

      • Reforma do Teatro João Costa: R$ 499.000

    • Status: Os editais do segundo ciclo estavam programados para serem lançados na semana da audiência.

2.2. Avanços e Desafios na Gestão

  • Avanços:

    • Criação da Secretaria Municipal de Cultura (aprovada em maio/2025 e em funcionamento a partir de julho/2025).

    • Realização de escutas públicas para definir a aplicação dos recursos do Ciclo II.

    • Aprovação e sanção da lei que ativa o Conselho Municipal de Cultura e cria o Fundo Municipal de Cultura.

    • Início de um Plano de Formação Artístico-Cultural.

    • Descentralização de eventos como o Forró Caju para os bairros.

  • Desafios:

    • Fragilidade Institucional: A rotatividade de pessoal na Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju) prejudica a continuidade dos processos e a prestação de contas.

    • Falta de Concurso Público: A área cultural é tratada como "cabide de empregos", com indicações políticas em detrimento de servidores técnicos e qualificados.

    • Capacitação da Gestão: A equipe técnica, especialmente da Funcaju, precisa de capacitação específica para lidar com as particularidades de cada linguagem artística.

    • Diálogo entre Secretaria e Fundação: Não houve representante da Funcaju na mesa, o que foi criticado, já que a fundação é a executora dos editais.


3. PRINCIPAIS DEMANDAS E PROPOSTAS DOS SEGMENTOS CULTURAIS

3.1. Qualificação dos Editais e Recursos

  • Setor Audiovisual:


    • Críticas aos editais com categorias "blocadas" (ex: "Novas Obras"), que agrupam projetos de linguagens distintas (livro, filme, peça) com as mesmas regras, o que é inadequado.

  • Música:

    • Cobrança por uma Conferência Municipal de Cultura para discutir políticas permanentes, e não apenas editais sazonais.

    • Defesa de um plano de carreira para músicos, com investimento contínuo, similar ao plano britânico "Turn Up Our Plan for Music", que prevê a manutenção de pequenos espaços, música nas escolas e apoio a profissionais.

    • Críticas à disparidade: artistas locais recebem cachês baixos (R$ 1.500,00) em eventos, enquanto atrações nacionais (ex: Wesley Safadão) recebem milhões, o que não fomenta a cena local.

  • Cultura Popular e de Base:

    • Denúncias de que recursos da PNAB são distribuídos sem critérios claros em alguns municípios do interior, beneficiando "amigos do amigo" sem contrapartida cultural (ex: "Dona Maria da Cocada").

    • Defesa da preservação de manifestações tradicionais (ex: Rezado, Fogueados, Quadrilhas Juninas), com vestimentas típicas (ex: vestido de chita) sendo ameaçadas pela falta de incentivo.

3.2. Participação Social e Controle

  • Conselho Municipal de Cultura:

    • Crítica central: O secretário de Cultura é o presidente do conselho, o que fere a autonomia do órgão fiscalizador.

    • Proposta: Realizar eleições diretas para os conselheiros (e não indicações), garantindo representatividade real dos segmentos.

  • Transparência e Devolutiva:

    • Criação de uma plataforma pública única e acessível para centralizar resultados de editais, relatórios de projetos e prestações de contas, em linguagem cidadã, não apenas técnica.

    • Devolutiva obrigatória das contribuições das escutas públicas, informando o que foi acolhido ou rejeitado, para evitar a sensação de "loop interminável" onde as mesmas demandas se repetem sem resultados.

3.3. Fortalecimento do Sistema Municipal de Cultura

  • CPF da Cultura (Conselho, Plano e Fundo):

    • Urgência na criação do Fundo Municipal de Cultura (já solicitado) para garantir o repasse "fundo a fundo" e a previsibilidade orçamentária.

    • Defesa de um percentual mínimo do orçamento municipal (ex: 1%) para a cultura, transformando-a em política de Estado.

  • Cadastro e Busca Ativa:

    • Implementação de um cadastro permanente de agentes culturais para evitar a perda de dados a cada troca de gestão.

    • Realização de busca ativa para alcançar artistas em situação de vulnerabilidade (ex: analfabetos, idosos), com a criação de "agentes territoriais de cultura".

3.4. Demanda da Companhia de Dança Loucura Arte

  • Reconhecimento e Visibilidade: O grupo, formado majoritariamente por pessoas com deficiência e com reconhecimento nacional/internacional (ex: 3º lugar no Festival de Dança de Joinville; convite para evento em Viena), relatou falta de apoio e divulgação da gestão municipal.

  • Crítica a Pareceristas: Relato de que um projeto foi considerado "trivial", demonstrando falta de preparo dos avaliadores para lidar com a arte inclusiva.

  • Pedido: Equidade de oportunidades e reconhecimento como referência em dança em cadeira de rodas.


4. DESAFIOS ESTRUTURAIS E PROPOSTAS DE LONGO PRAZO

  • Concurso Público: Considerado o principal pilar para a continuidade das políticas públicas. A falta de servidores efetivos gera perda de memória institucional e ineficiência.

  • Setorização dos Editais: Proposta de que todas as categorias (Ações Continuadas, Festivais, etc.) tenham subdivisões por linguagem (ex: ações continuadas para música, teatro, audiovisual) para garantir a representatividade de todos os segmentos.

  • Planejamento e Seguridade:

    • Crítica à sazonalidade da arte: é preciso criar mecanismos de seguridade para os artistas, que não sobrevivem apenas com os editais.

    • Sugestão de criar programas permanentes (ex: Sergipe Filmes e Sergipe Música Viva) com aportes anuais robustos (R
      15milho~eseR


5. ENCAMINHAMENTOS E PROPOSTAS FINAIS

  • Do Vereador Irã Barbosa:

    • Compromisso em levar as propostas para a Comissão de Educação e Cultura.

    • Defesa da realização de audiências públicas anuais sobre a PNAB, para garantir o controle social contínuo.

  • Do Secretário Paulo Corrêa:

    • Compromisso em buscar emendas parlamentares para ações de fomento, não apenas para eventos.

    • Abertura ao diálogo e concordância com a necessidade de qualificação da gestão e de recursos próprios para a cultura.

    • Esclarecimento sobre os atrasos, atribuídos à reestruturação nacional do MinC, e não à inércia local.

  • Da Sociedade Civil:

    • Fortalecimento da luta para que o Conselho seja eleito e que o Fundo de Cultura seja implementado para garantir a previsibilidade orçamentária.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

A audiência evidenciou um cenário de transição e esperança, com a criação da Secretaria de Cultura e a execução dos recursos da PNAB, mas também de frustração histórica, com a repetição de problemas como falta de transparência, instabilidade da gestão, e a percepção de que a cultura ainda é tratada como um gasto supérfluo e não como um investimento estratégico.

Houve consenso sobre a necessidade de:

  1. Estruturar o Sistema Municipal de Cultura (CPF) como política de Estado.

  2. Realizar concurso público para profissionalizar a gestão.

  3. Ampliar e setorizar os investimentos, garantindo equidade entre as linguagens.

  4. Criar mecanismos de transparência e devolutiva para fortalecer a participação social.

A fala final do Secretário Paulo Corrêa, citando Raul Seixas ("somos eternos metamorfoses ambulantes"), refletiu a disposição para o diálogo e a construção coletiva, mas a efetividade das propostas dependerá da continuidade do debate e da pressão da sociedade civil.

O relatório acima foi elaborado com a IA deepseek


"Sociedade Civil, candidaturas e mandatos digitais - Pela reorganização de um sistema representativo apodrecido"

A falácia da democracia liberal

A frase atribuída a Winston Churchill: “...a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras formas que se tem tentado de tempos em tempos...", de 1947, creio, é o retrato mais cabal desse sofisma: a não adjetivação de uma ideia imprecisa de democracia induzindo a uma conclusão falaciosa. Sem qualificar o conceito, embora assumindo as "qualidades” ocultas nessa concepção (essencialmente a democracia de tipo liberal): eleições periódicas para sistemas diferentes de delegação de poder; separação formal dos poderes institucionais (executivo, legislativo e judiciário) - sempre controlados pelas elites econômicas - e, claro, a garantia da propriedade privada, eludindo que se refere basicamente aos meios de produção. No interior dessa espuma ideológica ocultam-se sistemas bastante diversos: dos mais extremos casuísmos, como o dos Estados Unidos (por exemplo, com diferentes formas de qualificação e manipulação das bases eleitorais territoriais, dos eleitores e das formas de votação em diferentes regiões; a contradição reiterada entre a maioria dos votos individuais e a maioria efetivamente decisiva do Colégio Eleitoral, etc.) ou do Brasil, comparativamente mais aperfeiçoado, mas contaminado pelos poderes econômicos locais, pela politização manipuladora do cristianismo evangélico (cerca de 30% dos eleitores) e pelo controle assumido pelo Congresso, sobretudo a partir do governo de extrema-direita de Bolsonaro, sobre o direcionamento e gestão opaca, secreta, de quase metade do orçamento de investimento federal pelos deputados federais e senadores que, em sua grande maioria, transformaram esse sistema - o chamado "orçamento secreto" - em instrumento de transmissão de recursos públicos para seus aliados e bases políticas locais, recriando um  sistema coronelista que parecia em parte superado, eternizando suas reeleições e de seus familiares e amigos. Evidentemente, uma questão recorrente desses sistemas todos, em todo o mundo nos dias que correm, é a capacidade de influência dos sistemas algorítmicos de direcionamento e manipulação dos eleitores. A frase de Churchill, finalmente, oculta a concorrência política, formas mais diretas e sistemáticas de representação, muito especialmente as experiências socialistas que estão maniqueisticamente subentendidas nessas "other forms that have been tried from time to time." Essas outras formas ressoam como “pequenas” experiências, como a URSS ou a China, por exemplo...

Um sistema que ludibria os cidadãos/eleitores

É evidente que os sistemas digitais e as redes que poderiam conectar pessoas (não as bolhas de reforço induzido em que se transformaram) constituem grandes avanços potenciais para a participação e controle das instituições e dos poderes políticos. No entanto, são exatamente essas grandes vantagens as que são ocultadas e mesmo bloqueados nos sistemas (redes) ditos “sociais”, mas que são totalmente controlados, de forma privada, pelas maiores corporações do capitalismo contemporâneo – sediadas, quase todas, nos EUA -, às quais se submetem as elites proprietárias do Brasil e de grande parte do mundo. Redes que não apenas conectam, mas que literalmente, enredam os seus participantes. A candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro e as ações de toda a sua “familícia” são o exemplo e prova mais cabais disso: extremamente favorecidas pelo direcionamento e pelas limitações artificiais das informações. Os demais candidatos de direita se apresentam para legitimar as mesmas propostas, quase sem alteração relevante. O mesmo acontece, proporcionalmente, com todos os partidos que se apresentam como de centro ou direita (as exceções são o PT, PSB, PCdoB, Rede , PSOL e Partido Verde – e alguns partidos nanicos de esquerda, sem representação parlamentar). O "sistema eleitoral", no entanto, serve integral e eficazmente aos objetivos das classes “dominantes” – mas paradoxalmente subservientes aos patrões do Norte. Mais que isso, ele bloqueia, em sua maior parte, as relações entre os eleitores e seus supostos representantes com que, "democraticamente", só tendem a se relacionar uma única vez a cada 4 anos, de maneira estatística, isto é, individualmente, e não através da expressão organizada de interesses de grupos, comunidades, movimentos ou classes sociais. É claro, no entanto, que o contato existe, e acontece em alguma medida, por iniciativas desses mesmos grupos citados ou pela atuação de uns poucos parlamentares e dirigentes eleitos, com maior compromisso social. Mas não é a regra geral. Muitos desses representantes, com as melhores intenções, limitam-se a um papel denuncista, ou "educativo", propondo leituras críticas da injusta condição social da maioria dos brasileiros sem, contudo, intervir ou facilitar a organização das comunidades, dos trabalhadores e seus inúmeros e diversos segmentos sociais. Esse sistema de representação “estranhada” não apenas serve aos interesses dos que controlam nossa vida social, mas vulneram e até impedem a expressão das necessidades das maiorias. E, contraditoriamente, as tecnologias digitais e as redes de aparelhos digitais, que permitiriam um avanço decisivo no funcionamento realmente igualitário e produtivo dos mecanismos de eleição, interação e acompanhamento das decisões que informam não apenas as principais decisões políticas no país, mas as ações políticas dos nossos representantes que podem apoiar, fomentar e participar da ORGANIZAÇÂO de todos os setores populares, não servem realmente para esse fim.

Vínculos entre as comunidades e seus representantes - A base política e o representante orgânico

Pelo que foi exposto acima, o relacionamento entre os eleitores e seus representantes – especialmente vereadores (que não serão eleitos este ano), deputados estaduais e federais, além dos senadores – é geralmente tênue (é bem conhecido o fenômeno do esquecimento por parte dos eleitores sobre seus votos nesses cargos pouco depois de passadas as eleições). Isso se dá em um contexto em que os canais de comunicação – ou de representação - são subvalorizados ou mesmo ocultos. Embora não seja a completa totalidade, a imensa maioria desses “representantes” se preocupa, produz e utiliza de meios mais escusos que legais para promover uma fidelização tão permanente quanto possível, reiterada a cada eleição, de seus eleitores.

Recentemente, Valdemar Costa  Neto, político notoriamente corrupto (inclusive condenado), presidente do Partido Liberal, principal partido da extrema-direita, ao ser acusado de utilizar emendas (recursos do orçamento público a que apenas parlamentares têm “direito”), apesar de não ter mandato, produziu um lapso revelador: disse, ou confessou, que os parlamentares que não têm votos de prefeitos, mas são eleitos por votos de opinião, entregam suas cotas de emendas para dirigentes partidários não eleitos (como ele mesmo), ou repassam para outros parlamentares, em compromissos que são claramente suspeitos. As duas coisas são expressamente proibidas pela legislação. A frase desse político falastrão, Costa Neto – também conhecido por uma “sinceridade” meio estranha ou inoportuna -, revela que, para ele (ou para eles) a base dos representantes não é constituída por comunidades ou sequer por eleitores, mas por políticos locais, principalmente prefeitos que controlam e manipulam fluxos financeiros ligados a essas reeleições repetidas e a projetos políticos privados, e mesmo pessoais. O “voto de opinião”, igualmente exposto, é o produzido pelo sensacionalismo ideológico moralista e pela argumentação falaciosa, mentirosa, e resultado dos mecanismos de impulsionamento e direcionamento – muitas vezes com a cumplicidade das plataformas corporativas na internet (por exemplo: “posts” de um deputado do mesmo partido, Nicolas Ferreira, chegam a um número de internautas maior que a própria população do Brasil, que é de mais de 200 milhões de pessoas) –, sem qualquer vínculo material ou social com os eleitores e, menos ainda, com interesses e necessidades concretas das comunidades que, em princípio, constituem os fundamentos dos votos e cargos eletivos organizados institucionalmente sobre bases territoriais e representações determinadas – municípios ou estados.

Em outras palavras, com poucas exceções nos âmbitos municipais, estaduais e federal, entre as muitas dezenas de deputados estaduais, os mais de 500 deputados  federais e os 81 senadores, a quase totalidade dos representantes políticos não tem vínculos de representação com seus eleitores: dedica-se exclusivamente ao “trabalho” de perpetuar seus cargos, salários, “prestígio” e outras vantagens (inclusive de venda  de seus próprios votos para financiadores, incluindo, às vezes, o próprio crime organizado), além de uma eventual prática de defesa e difusão de valores morais, sociais e econômicos reacionários, misóginos, racistas, homofóbicos e impopulares. Poucos, em um contexto extremamente desfavorável, valorosamente mantêm compromissos e vias de diálogo e representação com seus eleitores, comunidades e setores sociais.

Continua em   no blog  felipemacedocineclubes.blogspot.com.  Importante que chegue a quem já  tem mandato ou que está se candidatando e aos eleitores.  

Felipe Macedo é um dos principais nomes do movimento cineclubista no Brasil e na América Latina, tendo dedicado décadas à resistência cultural, à organização do setor e à pesquisa acadêmica sobre a formação de público. Ao longo de sua trajetória, presidiu entidades de grande relevância como o Conselho Nacional de Cineclubes (CNC) e a Federação Paulista de Cineclubes (FEPEC), além de ter atuado como Secretário Latino-Americano da Federação Internacional de Cineclubes (FICC) entre 1978 e 1984. Fundador de diversos cineclubes históricos e autor de obras de referência como Movimento Cineclubista Brasileiro e Cineclube, Cinema & Educação, Macedo consolidou-se como uma liderança fundamental na defesa do cinema como ferramenta democrática, comunitária e educacional sem fins lucrativos.