quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Tempo livre sem estrutura aumenta risco de adolescentes se envolverem em violência Desafio não é simplesmente preencher o tempo dos jovens, mas garantir que esse tempo seja vivido em contextos que favoreçam desenvolvimento, senso de pertencimento e participação social

 Por Camila Bezerra

04/08/26 • 14:07

Crédito: Antônio Cruz/ Agência Brasil

Resumo da notícia ​

Uma pesquisa internacional que ouviu mais de 58 mil adolescentes em 21 países identificou um fator até então pouco explorado no debate sobre violência juvenil: o tempo livre sem supervisão de adultos e sem atividades com propósito educativo, esportivo ou cultural. Segundo o levantamento, publicado em maio na revista científica PLOS One, esse tipo de tempo livre, quando o jovem fica por conta própria, sem rotina definida, tem forte relação com a participação em atos infracionais e episódios de violência.

Crédito: Antônio Cruz/ Agência Brasil

O trabalho integra o International Self-Report Delinquency Study (ISRD), rede de pesquisadores que, há mais de três décadas, aplica questionários anônimos a adolescentes para mapear tanto a prática de delitos quanto a condição de vítima de violência.

À frente da equipe brasileira está a psicóloga Marina Rezende Bazon, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP). Para ela, esse tempo desestruturado ajuda a explicar por que alguns jovens se envolvem mais em situações de risco: trata-se do período em que o adolescente decide sozinho o que fazer, muitas vezes circulando sem destino em contextos onde as chances de contato com atividades ilícitas são maiores.

Tempo livre desestruturado

O estudo diferenciou duas situações: o tempo passado dentro de casa, geralmente ligado ao uso da internet sem acompanhamento; e o tempo passado fora do ambiente doméstico, em ruas e espaços públicos, também sem monitoramento.

Ainda que o principal fator associado a delitos continue sendo a convivência com colegas que também cometem infrações, o tempo livre desestruturado surgiu logo depois como uma variável relevante, e essa relação se repetiu em todos os países analisados. Bazon chama atenção para o efeito somado dessas duas condições: a combinação entre grupos de pares infratores e ausência de estrutura no tempo livre é particularmente preocupante.

A quarta edição do ISRD reuniu dados entre janeiro de 2021 e maio de 2024. No Brasil, a coleta ocorreu em Ribeirão Preto e Sertãozinho, no interior de São Paulo, com cerca de 1,9 mil estudantes de 13 a 17 anos, de escolas públicas e privadas, seguindo um protocolo padronizado internacionalmente.

Os adolescentes responderam a questionários anônimos em tablets, usando a técnica da “delinquência autorrevelada”, perguntas indiretas sobre comportamentos específicos, como ter furtado algo de um estabelecimento, em vez de perguntar diretamente se o jovem já cometeu um crime.

Segundo Bazon, esse método tende a gerar respostas mais sinceras justamente por garantir o anonimato, revelando dinâmicas que as estatísticas oficiais não captam, já que estas refletem mais a atuação dos órgãos de controle do que a real extensão da violência entre jovens.

A pesquisa também investigou episódios de vitimização, perguntando aos participantes se já haviam sofrido ofensas ligadas a cor da pele, religião, orientação sexual ou aparência, tanto pessoalmente quanto pela internet.

Meninas

Um dos achados que mais chamou atenção foi o aumento da participação de meninas em condutas ofensivas on-line, sobretudo ataques relacionados à aparência física de outras pessoas. Bazon associa essa mudança à forma como a supervisão familiar se organiza: historicamente mais rígida com as meninas no mundo físico, essa vigilância se equilibra menos no ambiente digital.

As pesquisadoras também notaram que meninas aparecem mais entre os casos de sobreposição entre vítima e agressora: jovens que ao mesmo tempo sofrem e praticam violência. Esse grupo específico costuma apresentar quadros mais graves de sofrimento psicológico, conflitos familiares e dificuldades na escola.

Evasão escolar

Como a pesquisa foi feita com estudantes matriculados, os autores reconhecem que adolescentes em situação de maior vulnerabilidade — fora da escola ou em unidades socioeducativas — não foram incluídos, o que sugere que os números podem estar subestimando o problema entre os jovens mais expostos a risco.

Bazon reforça que a evasão escolar prolongada é hoje um dos principais indicadores de vulnerabilidade, com casos de adolescentes que passam anos afastados da escola sem que a rede de proteção atue de forma efetiva para reintegrá-los.

A pesquisadora também destaca que a delinquência autorrevelada aparece em todas as classes sociais, e não apenas entre os mais pobres. O que muda é a intensidade da vigilância policial e institucional, que recai desproporcionalmente sobre esse grupo.

Estresse tóxico

O ISRD já prepara sua quinta onda de pesquisas, que deve aprofundar temas como misoginia, crimes de ódio on-line e experiências adversas na infância — abuso, negligência, violência doméstica e convivência com adultos com dependência química ou transtornos mentais. Esse conjunto de vivências está ligado ao que os pesquisadores chamam de “estresse tóxico”, associado depois a problemas de saúde mental, dificuldades escolares e reincidência infracional.

No entanto, vale ressaltar que os dados reforçam a importância de investir em programas comunitários de lazer, esporte e cultura capazes de atrair os jovens, absorvendo parte do tempo livre com atividades estruturadas e supervisionadas.

De acordo com o estudo, uma redução de 20% no tempo livre desestruturado fora de casa esteve associada, em média, a quedas de 9,6% na prevalência de delitos e 7,4% na incidência de delitos na amostra total.

Isso não significa, porém, que a relação seja puramente linear. Bazon pondera que o efeito dessas políticas depende da qualidade das alternativas oferecidas e das condições sociais que estruturam o cotidiano dos adolescentes. No caso do tempo livre on-line, o desafio é ainda mais complexo: a exposição prolongada à internet sem mediação pode aumentar o contato com conteúdos e grupos de risco, mas também representa uma forma legítima de sociabilidade juvenil contemporânea. Por isso, a pesquisadora defende políticas de educação digital, proteção on-line e maior responsabilização das plataformas, além do apoio a famílias para o acompanhamento do uso da internet pelos filhos.

No fim, o estudo sugere que o desafio não é simplesmente preencher o tempo dos jovens, mas garantir que esse tempo seja vivido em contextos que favoreçam desenvolvimento, senso de pertencimento e participação social.

*Com informações da Agência Fapesp.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Para escolher representantes que diminuam a quantidade de eleitos inimigos do povo. A bola agora está na sua área cidadão-eleitor?

 

A Igreja das Periferias: Fé e Direitos Humanos Pulsam no Coração de Itaquera
As portas abertas da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, no Largo da Matriz de Itaquera, guardam mais do que o silêncio propício às preces cotidianas. Na Zona Leste de São Paulo, o templo católico consolida-se como um vibrante centro de articulação política, social e humana. Sob a liderança do pároco Paulo Sérgio Bezerra, a comunidade eclesial traduz o Evangelho em ações concretas de cidadania, transformando as dores e carências da periferia em mobilização popular organizada

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O trabalho sociocomunitário que marca a gestão do Padre Paulo não é um fenômeno isolado, mas herdeiro direto de uma longa linhagem de compromisso social dentro da Igreja Católica. A principal referência histórica dessa atuação vem de Dom Paulo Evaristo Arns, o "Cardeal da Esperança", que liderou a Arquidiocese de São Paulo com foco voltado aos direitos humanos e à proteção dos mais vulneráveis. Assim como Dom Paulo deu guarita aos perseguidos políticos e caminhou ao lado dos trabalhadores das periferias paulistanas durante os anos de chumbo, a paróquia de Itaquera mantém as portas abertas para os movimentos de moradia urbana e frentes populares, servindo de quartel-general para a conquista do direito básico à habitação e à infraestrutura.
Esse modelo de "Igreja em Saída" encontra total sintonia com legado do pontificado do Papa Francisco. O apelo dele  por uma comunidade que não se feche em si mesma, mas que vá ao encontro das "periferias existenciais e geográficas", ganha vida nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) de Itaquera. Onde o Estado muitas vezes falha em prover o básico, a paróquia cria espaços de conscientização. Por meio do coletivo Igreja Povo de Deus em Movimento (IPDM), o debate crítico proposto pelo Padre Paulo reflete o legado de Francisco por uma fé que atue ativamente no combate à desigualdade econômica e social.
A sustentação teológica para que a religião intervenha na esfera pública em defesa da dignidade do trabalhador remonta ao final do século XIX, com os ensinamentos pioneiros do Papa Leão XIII (e continuados recentemente pelas diretrizes sociais de Leão XIV em sua primeira encíclica). Ao promulgar a histórica Rerum Novarum (1891), Leão XIII inaugurou a Doutrina Social da Igreja ao denunciar veementemente as injustiças sofridas pela classe operária, defendendo salários justos, o direito de associação e o dever do Estado de proteger os mais pobres. No cenário atual de Itaquera, essa "folha de rosto" da justiça social cristã ganha roupagem contemporânea: a dignidade defendida no passado pelos pontífices é a mesma que move a paróquia a exigir transporte, saúde e voz política para o povo periférico.
Ao conectar o pioneirismo social do século XIX, a coragem profética de Dom Paulo Arns na ditadura e a ternura pastoral do Papa Francisco e de Leão XIV, a Paróquia Nossa Senhora do Carmo prova que a atuação do Padre Paulo Sérgio Bezerra não se resume ao assistencialismo paroquial. Trata-se de um projeto contínuo de emancipação humana, onde a mesa do altar e a mesa do debate democrático compartilham do mesmo objetivo fundamental: a construção de um mundo mais justo e fraterno.



Conheça o Padre Paulo Sérgio Bezerra ou conheça mais. AQUI

Ciclo Mutações, em 2026, trazendo o tema “Sem Retorno”. Por que é importante?

 

O Ciclo Mutações, em 2026, traz o tema “Sem Retorno” apresentando 12 conferências na FCRB e 5 na FGV Arte com renomados estudiosos e pensadores das ciências humanas. Há dezenove anos o ciclo estabelece reflexões sobre o funcionamento da sociedade e do pensamento filosófico. Desde 2023, a FCRB vem realizando anualmente a etapa carioca do Ciclo, que procura destacar a importância do pensamento conceitual na reflexão sobre os problemas do nosso tempo.



O Ciclo Mutações de 2026 é de extrema importância porque propõe uma reflexão crítica e urgente sobre o esgotamento dos modelos sociais, políticos e tecnológicos atuais, reunindo 25 conferências com intelectuais de renome para debater um ponto de inflexão na história humana. Sob o tema “Sem Retorno” e com a tradicional curadoria de Adauto Novaes, o ciclo se destaca pelos seguintes eixos fundamentais: [1, 2, 3, 4]
  • Necessidade de novos conceitos: Diante de uma realidade em que as estruturas sociais parecem desmoronar, o ciclo indaga sobre a urgência de abandonar pensamentos ingênuos e repetitivos sem abrir mão do legado histórico da filosofia para formular novas formas de sustentação coletiva. [1, 2]
  • Controle tecnológico e subjetividade: O evento analisa as profundas transformações provocadas pelos novos regimes de controle algorítmico, discutindo os impactos da inteligência artificial, da espetacularização da política e de como as tecnologias moldam os consensos e a experiência democrática. [1, 2]
  • Ascensão e crise psíquica do fascismo: Aborda a relação direta entre o neoliberalismo, o colonialismo e a gestão fascista do corpo social, destacando como essa ideologia responde a uma crise psíquica coletiva nas sociedades contemporâneas. [1]
Organizado entre julho e setembro de 2026, o ciclo traz intelectuais como Marilena Chauí, Vladimir Safatle e Luiz Alberto Oliveira para investigar o que resta à experiência humana quando o passado já não pode mais ser restaurado. [1, 2]