sábado, 15 de agosto de 2026

Rosalía, Santo Agostinho e Leonardo Boff: entre o desejo, o corpo e Deus

 “Sexo, Violencia y Llantas”, primeira faixa de LUX, coloca o ouvinte diante de uma pergunta antiga em uma linguagem absolutamente contemporânea: é possível amar o mundo sem deixar de desejar Deus? A canção abre uma conversa com a mística cristã, a teologia da encarnação e a Teologia da Libertação — mas também com os dilemas do corpo, do desejo e da cultura contemporânea.

Há músicas que contam uma história. Outras constroem uma atmosfera. E há aquelas que parecem formular uma pergunta para a qual não oferecem resposta.

Sexo, Violencia y Llantas”, de Rosalía, pertence a esse terceiro grupo.

A faixa abre LUX, quarto álbum de estúdio da cantora catalã, lançado em novembro de 2025. A própria documentação oficial do trabalho confirma que a canção é a primeira do álbum e que sua gravação envolve a London Symphony Orchestra e um coro feminino de flamenco.

Mais importante ainda: a dimensão espiritual de LUX não é apenas uma interpretação posterior dos críticos. Rosalía afirmou que o projeto nasceu de anos de leitura de hagiografias e biografias de santas e que o álbum foi inspirado pela chamada mística feminina.

Isso não significa que “Sexo, Violencia y Llantas” seja uma canção teológica no sentido acadêmico.

Mas significa que podemos levar a sério sua dimensão espiritual.

E, a partir daí, uma pergunta se impõe:

o que acontece quando uma das maiores artistas da música pop contemporânea coloca sexo, violência, sangue, dinheiro, santas, graça, céu e Deus dentro da mesma canção?

A pergunta que abre LUX

A letra começa desejando uma existência “entre os dois”: entre o mundo e Deus.

Depois estabelece duas paisagens.

De um lado:

sexo, violência, pneus, esportes de sangue, moedas e gargantas.

Do outro:

clarões, pombas, santas, graça, fruto e balança.

A oposição é evidente. Mundo e céu. Corpo e transcendência. Violência e graça.

Mas a canção não termina escolhendo um dos lados.

Ao contrário.

Ela repete o desejo de viver entre os dois.

É nesse “entre” que está boa parte da força teológica da música.

Santo Agostinho: o problema dos amores

Uma primeira chave de leitura está em Santo Agostinho.

Para a tradição agostiniana, o problema não é simplesmente amar as coisas do mundo. O problema está na maneira como ordenamos nossos amores.

É possível amar as criaturas, a beleza, as pessoas e a própria vida. O problema surge quando aquilo que é criatura passa a ocupar o lugar do Criador.

Essa questão aparece de forma provocadora na canção de Rosalía.

“Primeiro amar o mundo e depois amar a Deus.”

A ordem das palavras produz a tensão.

O mundo vem primeiro.

Deus vem depois.

A tradição cristã poderia perguntar: é possível ordenar esses amores sem negar nenhum deles?

Rosalía parece preferir não resolver a questão.

Ela permanece no conflito.

E talvez seja justamente aí que a arte se distancia da teologia sistemática.

A teologia procura organizar a experiência.

A arte, muitas vezes, prefere deixar a experiência aberta.

Teresa de Ávila e João da Cruz: quando o desejo encontra Deus

A aproximação com a mística espanhola é ainda mais interessante.

Teresa de Ávila e João da Cruz escreveram sobre a experiência de Deus utilizando uma linguagem marcada pelo desejo, pela ausência, pela presença, pela união e pela transformação.

O desejo, portanto, não aparece simplesmente como inimigo da espiritualidade.

Ele pode ser o próprio caminho da busca.

Essa tradição ajuda a compreender uma questão central de “Sexo, Violencia y Llantas”:

o que fazer com o desejo humano?

Negá-lo?

Reprimi-lo?

Considerá-lo pecado?

Ou transformá-lo?

A mística cristã oferece uma resposta muito mais complexa do que a simples condenação do corpo.

E essa complexidade é particularmente importante quando a primeira palavra do título de uma canção é justamente “Sexo”.

A encarnação: Deus entrou na matéria

Há uma questão ainda mais profunda.

O cristianismo afirma que Deus se fez carne.

A doutrina da encarnação impede que a matéria seja simplesmente descartada como inimiga do espírito.

O corpo passa a ocupar uma posição central na própria compreensão cristã de Deus.

Por isso, a canção pode ser lida como uma provocação encarnacionista.

Não porque Rosalía esteja escrevendo um tratado sobre a encarnação.

Mas porque sua música pergunta, por meio de imagens corporais e materiais:

onde está o transcendente quando a vida é feita de corpos, desejo, violência, dinheiro e contradição?

Se Deus entra na história, a história não pode ser simplesmente abandonada.

Se Deus assume um corpo, o corpo não pode ser reduzido a um obstáculo à espiritualidade.

Leonardo Boff: Deus no interior da realidade

É aqui que a aproximação com Leonardo Boff se torna especialmente produtiva.

Em Jesus Cristo Libertador, Boff constrói uma cristologia profundamente relacionada à realidade histórica, social e humana. O próprio resumo acadêmico da obra destaca a relação entre fé, contexto sócio-histórico, dominação, opressão e transformação.

Isso permite uma pergunta interessante diante de Rosalía:

é possível procurar Deus sem fugir da realidade?

A questão é importante porque a música não apresenta um mundo ideal.

Ela apresenta violência.

Apresenta sangue.

Apresenta dinheiro.

Apresenta desejo.

O mundo é ferido.

A espiritualidade, portanto, não aparece em um lugar completamente separado da experiência humana.

É justamente nesse ponto que a leitura de Boff pode ajudar a ampliar o debate.

Não porque Rosalía esteja fazendo Teologia da Libertação.

Mas porque a teologia de Boff oferece instrumentos para pensar uma espiritualidade que não abandona a história.

Teologia da Libertação: o céu não pode apagar a terra

A Teologia da Libertação acrescenta outra camada.

A tradição latino-americana insistiu que a experiência cristã precisa levar a sério as condições concretas da existência: pobreza, violência, exploração, injustiça e exclusão.

A pergunta religiosa não pode ser separada da pergunta social.

Em “Sexo, Violencia y Llantas”, não encontramos uma sociedade idealizada.

Encontramos um mundo atravessado por violência e materialidade.

Isso permite uma aproximação interpretativa com a Teologia da Libertação:

onde está Deus no meio de um mundo ferido?

A pergunta não é pequena.

Ela desloca a espiritualidade do céu abstrato para a realidade histórica.

E talvez seja exatamente isso que torna tão interessante a insistência da música em voltar à terra depois de entrar no céu.

Não basta subir.

É preciso voltar.

Paul Tillich: quando a cultura se torna lugar do religioso

Para o Blog da Cultura, entretanto, talvez exista uma referência ainda mais importante: Paul Tillich.

Em Teologia da Cultura, Tillich procura justamente compreender a dimensão religiosa presente nas criações culturais, inclusive quando elas não são explicitamente religiosas. A obra discute a relação entre religião, arte, existência e cultura secular.

Essa perspectiva oferece uma chave preciosa para ler Rosalía.

Não precisamos perguntar:

“Essa música é religiosa?”

Podemos perguntar:

“Que questões religiosas aparecem dentro dessa música?”

A diferença é enorme.

Uma obra não precisa falar explicitamente de Igreja, doutrina ou liturgia para lidar com questões de transcendência, finitude, culpa, desejo, redenção ou sentido.

A cultura pode ser religiosa sem ser confessional.

E essa talvez seja uma das melhores maneiras de compreender LUX.

Rosalía não precisa ser transformada em teóloga

Existe, porém, um cuidado necessário.

O fato de LUX ter sido conscientemente construído em diálogo com a mística feminina não significa que possamos atribuir à artista uma adesão a Santo Agostinho, Teresa de Ávila, João da Cruz, Leonardo Boff ou à Teologia da Libertação.

São coisas diferentes.

Rosalía declarou ter estudado a vida de santas e afirmou que o álbum foi inspirado pela mística feminina. Isso permite afirmar que a dimensão espiritual é parte consciente do projeto artístico.

Mas isso não autoriza concluir que sua teologia pessoal corresponda a determinada corrente.

Aliás, talvez seja mais interessante não tentar enquadrá-la.

A obra é suficientemente complexa para permitir diferentes diálogos.

O “entre” como lugar da experiência humana

Talvez a palavra mais importante da canção seja justamente “entre”.

Entre a terra e o céu.

Entre o corpo e o espírito.

Entre o desejo e a transcendência.

Entre o mundo e Deus.

Entre aquilo que somos e aquilo que desejamos ser.

Essa posição intermediária pode ser entendida como uma imagem da própria condição humana.

Não vivemos exclusivamente no mundo material.

Mas também não vivemos permanentemente em uma experiência de transcendência.

Somos seres de fronteira.

Desejamos e nos arrependemos.

Amamos e ferimos.

Buscamos Deus e continuamos presos à terra.

A música não resolve essa contradição.

Ela a transforma em linguagem.

A cultura como lugar onde Deus reaparece

É aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre Rosalía.

Ela passa a ser sobre cultura.

Em uma sociedade na qual muitos acreditam que a religião perdeu espaço, os símbolos religiosos continuam reaparecendo na música, no cinema, na literatura, na moda e nas artes visuais.

Santas continuam sendo representadas.

O céu continua sendo imaginado.

O pecado continua sendo discutido.

A graça continua aparecendo.

A redenção continua sendo procurada.

Talvez a religião não tenha desaparecido da cultura.

Talvez tenha mudado de lugar.

Saiu, em muitos casos, dos espaços institucionais e passou a circular por linguagens artísticas.

É justamente isso que torna LUX culturalmente interessante.

Rosalía não precisa falar como uma teóloga.

Ela pode fazer aquilo que a arte faz melhor:

formular perguntas que a sociedade ainda não conseguiu resolver.

Não é preciso escolher entre o mundo e Deus

“Sexo, Violencia y Llantas” começa com uma oposição.

Mundo de um lado.

Deus do outro.

Mas termina desejando viver entre os dois.

Talvez essa seja a sua provocação mais poderosa.

O mundo não desaparece quando encontramos Deus.

O corpo não desaparece quando aparece a espiritualidade.

O desejo não desaparece quando surge a transcendência.

A pergunta talvez seja outra:

o que fazemos com tudo isso?

Como transformamos o desejo?

Como enfrentamos a violência?

Como convivemos com o corpo?

Como lidamos com o dinheiro?

Como procuramos graça em uma realidade que não é pura?

Essas perguntas pertencem tanto à teologia quanto à cultura.

E é justamente nesse território compartilhado que Rosalía pode ser lida.


FONTES SOBRE ROSALÍA E LUX

ROSALÍA. LUX. Columbia Records, 2025. A documentação oficial do álbum apresenta “Sexo, Violencia y Llantas” como sua primeira faixa e registra a participação da London Symphony Orchestra e do Flamenco Ladies Choir.

ROSALÍA. “Sexo, Violencia y Llantas”. LUX. 2025. A faixa foi lançada em novembro de 2025 e integra o primeiro movimento do álbum.

ROSALÍA. LUX — Official Lyric Video: Sexo, Violencia y Llantas. Canal oficial da artista. 2025.

EL PAÍS. “Rosalía desvela los secretos de ‘Lux’: ‘Está inspirado en la mística femenina’”. 3 nov. 2025. Reportagem baseada em declarações da própria artista sobre o processo de criação do álbum e suas leituras de hagiografias e biografias de santas.


BIBLIOGRAFIA TEOLÓGICA

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Petrópolis: Vozes.

Leitura fundamental para compreender desejo, interioridade, pecado, graça e busca de Deus.

AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. Petrópolis: Vozes.

Importante para discutir a tensão entre a cidade terrena, a cidade de Deus e as diferentes formas de amor.

ÁVILA, Teresa de. Livro da Vida. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras.

Referência essencial para compreender a mística cristã espanhola e sua linguagem sobre desejo e experiência de Deus.

CRUZ, João da. Cântico Espiritual. Petrópolis: Vozes.

Uma das obras fundamentais da mística cristã, especialmente importante para pensar a relação entre linguagem amorosa e experiência espiritual.

BOFF, Leonardo. Jesus Cristo Libertador: ensaio de cristologia crítica para o nosso tempo. Petrópolis: Vozes.

Obra fundamental para compreender a cristologia de Boff e sua relação com a realidade histórica e social. A obra é considerada um dos textos fundadores da Teologia da Libertação.

GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da Libertação: perspectivas. São Paulo: Loyola.

Uma das referências fundamentais para compreender a formação da Teologia da Libertação latino-americana.

TILLICH, Paul. Teologia da Cultura. São Paulo: Paulus.

Especialmente recomendada para este artigo porque permite pensar a dimensão religiosa presente nas manifestações culturais e artísticas, inclusive fora das instituições religiosas.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes.

Obra de referência para compreender as relações entre espaço, tempo, símbolos e experiência do sagrado.


LEITURA COMPLEMENTAR: UMA CHAVE PARA O BLOG DA CULTURA

A discussão proposta aqui pode ser ampliada para além de Rosalía.

Se a cultura contemporânea continua utilizando símbolos de santidade, pecado, graça, corpo, redenção, céu e inferno, talvez seja necessário perguntar:

a secularização eliminou a religião ou apenas mudou a maneira como a religião aparece na cultura?

É uma pergunta que pode ser investigada em músicas, filmes, séries, literatura, artes visuais e cultura digital.

E talvez seja justamente essa uma das tarefas de um Blog da Cultura: observar aquilo que está acontecendo diante de nós antes que os velhos conceitos consigam classificá-lo.


BOX | NOTA METODOLÓGICA

Rosalía não é “teóloga”. E não precisamos transformá-la em uma.

Esta análise utiliza Santo Agostinho, Teresa de Ávila, João da Cruz, Leonardo Boff, Gustavo Gutiérrez, Paul Tillich e outras referências como chaves de leitura, não como provas de que Rosalía pertença a essas correntes.

Há, entretanto, uma diferença importante em relação a uma simples especulação.

A própria artista afirmou que LUX foi construído a partir de uma intensa aproximação com a mística feminina, incluindo leituras de hagiografias e biografias de santas.

Portanto, é legítimo afirmar que a espiritualidade é uma dimensão consciente do projeto artístico de LUX.

O que não devemos fazer é dar o passo seguinte sem evidências e afirmar que Rosalía adota esta ou aquela teologia.

A melhor pergunta não é:

“Qual teologia Rosalía está defendendo?”

Mas:

“Com quais grandes questões teológicas a música de Rosalía nos coloca em diálogo?”

Essa mudança de pergunta é fundamental.

Porque a crítica cultural não precisa descobrir a intenção definitiva do artista.

Ela pode fazer algo mais interessante:

abrir a obra para novas perguntas.

No caso de “Sexo, Violencia y Llantas”, a pergunta permanece aberta:

É possível amar o mundo — com seu corpo, desejo, violência e contradições — e ainda assim procurar Deus?

Talvez seja justamente nesse espaço entre a terra e o céu que a cultura contemporânea continue procurando aquilo que a religião, a filosofia e a arte procuram há séculos:

um sentido para estar vivo.


Fora de Plano #111 | Lux: A Salvação de Rosalía Para o Mundo

Uma jornada sobre a vida, a morte, o material e o divino

https://www.planocritico.com/fora-de-plano-111-lux-a-salvacao-de-rosalia-para-o-mundo/#google_vignette


Artigo produzido com Inteligência Artificial 



Todo apoio a Gisele Bleggi, a procuradora que enfrenta o descaso ambiental em Sergipe: Com coragem e competência, ela desafia pressões de construtoras e órgãos públicos para proteger a Zona de Expansão de Aracaju e os manguezais.

 

“Não me submeto à pressão de construtoras nem de órgãos ambientais”. Gisele Bleggi, procuradora no MPF/SE, enfrenta o descaso com o meio ambiente em Aracaju. 

Faz pouco mais de um ano que o Ministério Público Federal em Sergipe (MPF/SE) conta com mais uma procuradora da República que busca enfrentar os graves problemas ambientais em Aracaju e no estado. Trata-se da catarinense Gisele Bleggi que também é mestra em Direitos Humanos e Desenvolvimento da Justiça.

Antes de Sergipe, Bleggi passou pelo Amazonas e por Rondônia. Ela atua em processos que envolvem o meio ambiente e grandes empreendimentos, urbanismo, patrimônio histórico e cultural, direitos indígenas, comunidades tradicionais e minorias.

Gisele Bleggi recebeu a Mangue Jornalismo para uma entrevista logo depois de reforçar o pedido de suspensão de licenças ambientais de empreendimentos na Zona de Expansão em Aracaju.

Em recente inspeção do MPF/SE e do MP/SE, foram nitidamente identificadas edificações em área de preservação permanente, como destruição de manguezais e às margens de rios na Zona de Expansão. A Mangue já fez reportagem sobre isso. Leia “Ninguém comprou o rio”.

Além disso, entre as preocupações da procuradora está uma obra que a Prefeitura de Aracaju está realizando na região do Mosqueiro, onde se registra forte supressão de manguezais. A Mangue Jornalismo também já fez reportagem sobre a questão. Leia: Prefeitura de Aracaju aterra mangue e ameaça o Rio Vaza-Barris.

A procuradora se assustou com o grande volume de licenças ambientais emitidas pela Prefeitura de Aracaju e pelo Governo do Estado para edificações na Zona de Expansão. Ela disse que algumas licenças serão revistas.

leia reportagem completa em: 


Tatuagens, piercings e dreads no cabelo: quem é a procuradora federal atacada na internet pelo visual

Em entrevista a Marie Claire, Gisele Bleggi revela que é a terceira vez que recebe comentários misóginos sobre a sua aparência enquanto exerce a profissão.


A procuradora da República titular do 5° Ofício Ambiental do MPF (Ministério Público Federal), Gisele Bleggi, foi alvo de críticas machistas após um vídeo institucional viralizar nas redes sociais. O motivo: sua aparência física, que se destaca pelas tatuagens, pelos piercings e pelo cabelo com dreads. Esta não é a primeira vez. Ela já recebeu ondas de ofensas direcionadas ao visual em duas ocasiões anteriores, ambas relacionadas ao exercício de sua profissão.

A primeira – e mais violenta – ocorreu em 2022, enquanto mediava conflitos nas rodovias bloqueadas em Rondônia. A segunda aconteceu após participar de uma reunião com a prefeita de Aracaju, no início do ano passado.

No evento mais recente, diversas manifestações nas redes sociais tiveram caráter misógino e sexista, questionando ou desqualificando sua atuação por ser mulher. O conteúdo original foi publicado pelo prefeito de Propriá (SE), José Luciano Nascimento Lima, no dia 6 de março. Ele falava sobre um encontro com a procuradora para “fortalecer as práticas de gestão ambiental”. O post teve os comentários desativados após repercussão.

Eram pessoas do Brasil inteiro falando, muitas nem sabem quem eu sou nem o que faço”, comenta a procuradora. “Existe um ordenamento jurídico que garante a liberdade de expressão. Mas, se você diz o que não deve, há penalidades — e elas são altas. Contra a mulher, podem ser duplicadas; nas redes sociais, até triplicadas. Já não se trata de uma injúria simples. Além disso, há responsabilização tanto na esfera penal quanto na civil”, define ela.



Dentre várias maneiras de apoiar o trabalho da procuradora Giseli Bleggi, uma delas é votar em candidatos comprometidos com a pauta ambiental. Em São Paulo um nome simbolo é Marina Silva.  E em Sergipe? E em outros estados? 






sexta-feira, 14 de agosto de 2026

22º Enecult debate cultura, educação e diversidade na UFBA

22º Enecult reúne especialistas na UFBA para debater cultura, diversidade e democracia em meio ao avanço de autoritarismos

O 22º Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (Enecult) ocorre entre os dias 6 e 14 de agosto, na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e de forma virtual, ampliando sua programação para discutir os enlaces entre cultura e diversidade, com mesas que vão desde o reconhecimento de saberes tradicionais até a análise da Política Nacional Aldir Blanc, contando com a presença de pesquisadores do Brasil, México e Argentina.

O Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (Enecult), um dos principais fóruns acadêmicos sobre políticas culturais do Brasil, chega à sua 22ª edição. O evento acontece entre os dias 06 e 14 de agosto com atividades na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e de forma virtual. 


A edição 2026 marca a discussão dos enlaces entre cultura e diversidade, e propõe questões que mobilizam as perspectivas em torno das políticas culturais e democracias no Brasil e no mundo. Neste ano, o evento aumentou o número de Grupos de Trabalhos (GTs) e dias de programação, motivado pelo crescente interesse de pesquisadores, gestores, produtores e artistas de diversas partes do mundo no maior e mais importante encontro acadêmico-cultural do Brasil.

A discussão coloca em perspectiva o papel da universidade perante os desafios políticos que se desenham no horizonte. O evento levanta questões em torno das transformações do ambiente universitário para além dos critérios tradicionais de legitimação do conhecimento acadêmico. Assim, são convocados debates em torno do notório saber que reconhece mestres e mestras de saberes tradicionais; a afirmação das universidades como instituições eminentemente culturais; e o reconhecimento de valores em saberes, modos de vida e vínculos afetivos.  

Entre as presenças confirmadas desta edição estão Ana Rosas Mantecón (México), Mãe Diana de Oxum (Ilê Axé Ewá Omin Nirê), Nádia Akawã Tupinambá (Ponto de Cultura Aldeia Tukum), Rubens Bayardo (Argentina), Eneida Leal Cunha (UFRJ), Matías Zarlenga (Argentina) e Albino Rubim (UFBA).

Ao conectar diversos atores da Cultura em um só lugar - trabalhadores, agentes, gestores, pesquisadores e representantes de instituições do setor -, o Enecult possibilita aprofundar temas necessários para o desenvolvimento da Cultura no Brasil”, explica Sophia Rocha, coordenadora do 22º Enecult.

A vice-coordenadora do 22º Enecult, Gleise Oliveira, destaca que “nestes 22 anos, o Enecult se consolidou como um evento fundamental de reflexão e difusão do conhecimento. Sua relevância está em promover esse diálogo mais direto entre o meio acadêmico e os diferentes agentes do setor para pautar temas contemporâneos e fortalecer as políticas públicas da área".

O 22º Enecult é realizado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), por meio do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (CULT), Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (Pós-Cultura) do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (IHAC), Faculdade de Comunicação (Facom), e pelo Ministério da Cultura. O evento conta com a parceria da Edufba - Editora da UFBA, Núcleo de Apoio à Inclusão do Aluno com Necessidades Educacionais Especiais (NAPE), Agenda Arte e Cultura da UFBA, Escola de Dança da UFBA, Serviço Social da Indústria (SESI) e Universidade Federal do Pampa (Unipampa).

Programação virtual destaca o poder transformador da cultura – As primeiras mesas de discussão acontecem de forma on-line. Na quinta-feira (06), às 10h, a professora Lourivania Soares e o professor Matías Zarlenga (UNTREF/Argentina/Universidad de Barcelona) formam a mesa “Valoração de Práticas Culturais”. Inspirada nas discussões do Mondiacult 2025, a mesa debate o reconhecimento dos aspectos intangíveis da cultura - saberes, modos de vida e vínculos afetivos - nas políticas públicas e defende ferramentas capazes de captar essa pluralidade em prol de sociedades mais justas e sustentáveis. A coordenação é realizada pelo professor Beto Severino (UFBA).

Na sexta-feira (07), às 10h, acontece a mesa "20 Anos da Carta Cultural Ibero-Americana", com a participação dos professores Daniel Gonzalez (Universidad de Granada/ Argentina) e Ana Rosas Mantecón (Universidade Autônoma Metropolitana/México). O debate revisita o documento aprovado em 2006, em Montevidéu, pelos chefes de Estado e de Governo ibero-americanos durante a XVI Cimeira Ibero-Americana, para avaliar como a diversidade cultural tem sido tratada na região duas décadas depois. A mesa é coordenada pelo professor Rubens Bayardo (Universidade de Buenos Aires/Argentina).

Durante as tardes, a partir das 14h, a programação virtual recebe também sessões de apresentação de artigos, divididas em 24 grupos de trabalho, onde pesquisadores apresentam suas produções em torno de temas importantes para o campo cultural, como: culturas digitais, América Latina, juventudes, identidades, dentre outros.

Diversidade cultural e democracia estão na pauta dos encontros presenciais – Na terça-feira (11), às 9h, o auditório da Faculdade de Comunicação (FACOM) da UFBA recebe a primeira programação presencial. Após a fala de boas-vindas de Sophia Rocha, acontece, na sequência, a mesa-redonda "Democracias contra barbáries", com coordenação de Albino Rubim (UFBA) e participação confirmada de Celi Regina Jardim Pinto (UFRGS),  Zulu Araújo (UFBA) e Luis Felipe Miguel (UnB). O debate reflete sobre o avanço de autoritarismos e movimentos de extrema-direita no mundo, os efeitos das desigualdades do neoliberalismo e a crise da democracia liberal-representativa.

Com o objetivo de discutir a afirmação recente das universidades como instituições eminentemente culturais, a programação da quarta-feira (12), às 9h, promove a mesa "Culturas e Universidades", com coordenação de Gleise Oliveira (Unipampa) e participação de Paulo Miguez (UFBA), Fernando Mencarelli (UFMG) e Flavia Cruvinel (UFG). O debate discute a questão para além da tradicional prioridade dada à formação profissional e à pesquisa científica, destacando a institucionalização da cultura nas universidades brasileiras.

Já na quinta-feira (13), às 9h, a mesa "Contribuições de Lélia Gonzalez, Milton Santos e Darcy Ribeiro para pensar cultura na Améfrica Ladina" reúne Ângelo Serpa (UFBA), Raquel Barreto (UFF) e Eneida Leal Cunha (UFRJ), sob coordenação de Ohana Boy (UFBA). A mesa propõe uma discussão transdisciplinar sobre o legado teórico e político desses três intelectuais para pensar a cultura brasileira a partir das dimensões de raça, classe e gênero.

Na sexta-feira (14), encerram-se os ciclos de discussões com três mesas. Às 9h, o evento promove "Ciclos de saberes e notório saber para mestres e mestras da cultura", mediada por Alexandre Falcão (SEFLI/MinC) e com a participação de Mãe Diana de Oxum, Tião Soares (SCDC/MinC), Fabiano Piúba (SEFLI/MinC) e Guilherme Bertissolo (UFBA). O debate examina os desafios de articular a política cultural de reconhecimento dos mestres de saberes tradicionais com a política de educação superior, questionando que arquitetura institucional permite traduzir o reconhecimento cultural em reconhecimento acadêmico sem capturar ou reduzir os saberes que se pretende honrar.

Em seguida, às 14h, Guilherme Varella (UFBA) medeia a mesa "Cultura Viva para o futuro" com a participação de Luana Vilutis (UFBA), Márcia Rollemberg (SCDC/MinC), Leonardo Lessa (Funarte), Alexandre Santini (FCRB) e Nádia Akawã Tupinambá (Ponto de Cultura Aldeia Tukum). O debate discute os rumos da Política Nacional de Cultura Viva a partir da pesquisa "Diagnóstico econômico dos Pontos de Cultura", realizada pelo Consórcio Universitário Cultura Viva (UFBA-UFF-UFPR) em parceria com a Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC.

Por fim, às 16h30, a mesa "A Política Nacional Aldir Blanc em análise" reúne Sophia Rocha (UFBA), Giuliana Kauark e Juliana Almeida (SGE/MinC), Roberta Martins (SAFCC/MinC) e Luiza Hardman (Funarte), sob mediação de Adriano Sampaio (UFBA). A discussão parte de pesquisas produzidas sobre o Ciclo 1 da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) para avaliar seus limites e desdobramentos.

Durante os três dias de programação presencial, haverá sessões presenciais de apresentação de artigos acadêmicos, relatos de experiência e realização de mesas coordenadas.

Lançamento de livros, teatro e música marcam a programação cultural – O início da noite, a partir das 19h, está reservado às atrações culturais do Enecult 2026. Na terça-feira (08), o Teatro Experimental do Movimento da Faculdade de Dança recebe o espetáculo “Solo da Cana”. A montagem provocadora apresenta ao público o depoimento ficcional de uma cana-de-açúcar, símbolo máximo da monocultura no Brasil, que ganha voz e protagonismo para refletir sobre os vínculos coloniais e o racismo ambiental que configurou nossa relação com a terra e os corpos que nela vivem.

O lançamento coletivo de livros já é uma tradição do evento, que acontece na quarta-feira (12), no auditório da Facom/UFBA. Ao todo são 14 livros que serão apresentados e seus respectivos autores estarão presentes para conversar com o público presente. Entre as obras estão títulos como "O avesso da festa: relações interseccionais entre trabalho e gênero no Recôncavo", de Mariella Pitombo Vieira e Regiane Miranda de Oliveira Nakagawa; "Universidades e Cultura" e "Avanços e dilemas do Ministério da Cultura em seus 40 anos", ambos organizados por Antonio Albino Canelas Rubim em parceria com outros pesquisadores; além de publicações como "Trajetórias das políticas culturais: uma década de leituras a partir do Ipea", "ABC Cultura Viva" e "Mediatização e circulação: reflexões e práticas de pesquisa", entre outras. As vendas acontecem no local a cargo da Edufba.

Na quinta-feira (13), acontece a confraternização do evento, na Varanda do SESI Rio Vermelho, com a cantora Claudya Costta, num show em homenagem a Gilberto Gil.

SERVIÇO

O quê: 22º Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (Enecult)

Quando: dias 6, 7, 11, 12, 13 e 14 de agosto de 2026

Onde: Presencial – Salvador (Faculdade de Comunicação/UFBA – Ondina | Virtual – YouTube (youtube.com/enecult)

Quanto: Sem certificação, o evento é gratuito e aberto ao público. 

Confira a programação completa em www.cult.ufba.br/enecult/programacao








22º ENECULT - Mesa “Contribuições de Lélia Gonzalez, Milton Santos e Darcy Ribeiro para pensar...





A Música e a IA - Roberto Malvezzi (Gogó)

"Em depoimento, o músico Roberto Malvezzi (Gogó) denuncia a inteligência artificial como a "mais poderosa pirataria de saberes e talentos" já criada, ecoando fala do neurocientista Miguel Nicolelis. Ele alerta que, enquanto 90 mil canções geradas por algoritmos inundam o streaming diariamente, a arte humana corre o risco de ser engolida por máquinas que recriam talentos existentes sem criar nada original."

 A primeira vez que gravei um disco (Cristificação do Universo – Hosana Hey) era um estúdio analógico. Entrava uma banda no estúdio e fazia a base. Depois alguns instrumentos. Depois os vocais. Finalmente a voz principal. Tudo era gravado num gravador de rolo, canal por canal. O produto era um LP e o som era muito bom.


Anos mais tarde, ao procurar um estúdio para gravar outro trabalho já aqui no Nordeste, fui apresentado aos estúdios digitais. Já era uma técnica muito avançada e muitos instrumentos eram extraídos de um sintetizador, o instrumento que se quisesse. Então, o disco era uma mescla de sons de instrumentos reais e outros de instrumentos sintetizados.
Nesse tempo passamos do LP para o CD, ou para a fita cassete. Também surgiram os DVDs. Tínhamos aparelhos de som em casa e podíamos ouvir uma obra completa com um som muito qualificado.
Agora surgiu o streaming e ele acabou com aparelhos específicos para se ouvir música. A maioria ouve música em smartphone, com um fone de ouvido, ou numa caixa de som. Não vejo mais ninguém parando para ouvir uma canção preferida, sentado numa sala confortável, assim como fazíamos par ouvir uma obra de Chico Buarque, Clube da Esquina ou Sagração da Primavera de Stravinsky.
Agora chegou a Inteligência Artificial na música. Um amigo colocou uma letra numa IA, pediu bossa-nova. Ela criou o ritmo, a melodia, os arranjos e uma intérprete. Sinceramente, ficou lindo! E aí entra o problema.
Fui interlocutor do neurocientista Miguel Nicolelis numa live sobre IA no espaço digital organizado pelo Instituto Humanitas da Unisinos (IHU). Entre muitas questões levantadas, eu fiz duas perguntas: a IA é a mais poderosa pirataria de saberes e talentos já inventada pela humanidade? Ele disse que sim.
Voltei a perguntar: há lugar ainda no cérebro humano para a arte, para a música, para a poesia? Ele respondeu que no cérebro humano tudo cabe. Sim, ainda há lugar para a arte no cérebro humano. E ela ajuda modelar o cérebro.
Uma informação de internet diz que a IA está colocando 90 mil canções por dia no streaming. Acionada por robôs e algoritmos, simulam ser mais ouvidas que as músicas criadas por seres humanos. Resultado, levam grande parte dos direitos autorais. E qual é o pulo do gato? A IA é “educada” a incorporar ritmos, arranjos, melodias, interpretações já existentes no mundo da arte e recriá-los como se fossem uma nova criação. Confirma a pirataria de saberes e talentos.
Agora se quer criar regras para ao menos diminuir essa pirataria. Vamos conseguir? Ou será como me disse outro amigo da música: não sabemos mais onde isso vai dar.

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BOX | ROBERTO MALVEZZI: QUEM É GOGÓ?

Roberto Malvezzi, conhecido como Gogó, é uma das vozes que ajudaram a aproximar a defesa do meio ambiente, a realidade do semiárido, a espiritualidade e a cultura popular no Brasil.

Nascido em Machado, Minas Gerais, em 1953, Malvezzi construiu grande parte de sua trajetória no sertão nordestino, onde passou a atuar junto às comunidades populares e aos movimentos sociais. Sua experiência está particularmente relacionada à Convivência com o Semiárido, à defesa do direito à água e às lutas das populações do campo.

Durante muitos anos, esteve ligado à Comissão Pastoral da Terra (CPT), desenvolvendo trabalhos de educação popular, formação e mobilização social. Sua atuação também esteve relacionada às discussões sobre a questão hídrica, os impactos dos grandes projetos de desenvolvimento e a defesa dos direitos das comunidades atingidas por conflitos socioambientais.

Mas Gogó não se tornou conhecido apenas pelo trabalho pastoral e político.

Músico, compositor, poeta e escritor, utiliza a arte como uma das formas de interpretar e comunicar a realidade brasileira. Suas canções dialogam com a cultura sertaneja, a religiosidade popular, a defesa da natureza e as lutas sociais.

Essa combinação entre militância social, espiritualidade, educação popular e expressão artística ajuda a compreender por que sua participação nas Jornadas Ecologia e Espiritualidade encontrou tanta sintonia com a proposta da Ação Cultural.

Para Malvezzi, falar de ecologia significa falar também de justiça, território, água, alimentação, dignidade e direitos humanos. A defesa da natureza não pode ser dissociada da defesa das pessoas que vivem nos territórios ameaçados.

É essa visão de ecologia integral, construída a partir da experiência concreta das comunidades, que marcou sua contribuição às Jornadas realizadas pela Ação Cultural.

Gogó e a Ação Cultural

A aproximação entre Roberto Malvezzi e a Ação Cultural ganhou expressão pública especialmente em 2011, quando ele participou como assessor da I Jornada Ecologia e Espiritualidade, em Aracaju.

Anos depois, em 2017, voltou a Sergipe para atuar como assessor e animador da III Jornada Ecologia e Espiritualidade.

Sua contribuição permanece, entretanto, como parte importante da memória das Jornadas e da trajetória da Ação Cultural na construção de ações que aproximam cultura, espiritualidade, educação popular, meio ambiente e transformação social.

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