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A proximidade entre os dois também aparece em reclamações do banqueiro sobre a cobertura jornalística de sua instituição financeira
Laís Gouveia
Publicado em 15 de outubro de 2026 às 07:26 - Do portal 247
247 – Mensagens extraídas do celular do empresário e ex-banqueiro Daniel Vorcaro revelam que Frederic Kachar, diretor-geral da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio, fazia comentários de cunho sexual sobre a atriz Deborah Secco e conversava sobre festas privadas organizadas pelo ex-controlador do Banco Master. Em um dos diálogos, o executivo afirmou que a artista “tava pra jogo” e declarou: “Eu só olhava pra bunda dela”. A proximidade entre os dois também aparece em reclamações do banqueiro sobre a cobertura jornalística de sua instituição financeira.
Os comentários sobre Deborah Secco ocorreram em uma conversa relacionada ao Baile da Vogue, evento para o qual Kachar havia negociado convites com Vorcaro. Ao recordar a festa, o executivo reclamou que a presença de sua ex-companheira havia impedido uma aproximação com outras mulheres.
“Me f0di. Minha ex foi e marcou em cima. E tava bom ontem”, escreveu Kachar.
Na sequência, o diretor mencionou Sabrina Sato e fez insinuações sobre a apresentadora. “A Sabrina tava pra jogo. Aniversário dela, soltinha”, afirmou.
Kachar também incluiu Deborah Secco em seus comentários. Vorcaro, por sua vez, criticou a aparência da atriz, afirmando que ela “tava muito feia kkk”. O executivo respondeu: “Mas concordo q a fantasia era broxante”.
“Ta doido, mulher não pode fazer isso”, acrescentou o banqueiro.
Em outra mensagem, Kachar comentou que Deborah seria madrinha de um camarote de Carnaval e atribuiu à atriz a intenção de aproveitar a condição de solteira. Os registros mostram avaliações sobre o corpo, a aparência e a suposta disponibilidade sexual das artistas, sem qualquer indicação de que elas tenham participado da conversa ou correspondido às insinuações.
Festas chamadas de “guerra na Ucrânia” e investigação sobre recrutamento de mulheres
As conversas sobre festas privadas também incluem referências à guerra na Ucrânia, expressão que, segundo as informações relatadas sobre os encontros, era utilizada por Kachar para se referir às comemorações. A expressão aparece em um contexto de eventos com a presença de mulheres estrangeiras, embora os registros divulgados não permitam estabelecer que todas as referências tivessem o mesmo significado.
Em uma das mensagens, Vorcaro mencionou uma noitada com modelos ucranianas e escreveu: “Hoje o plano é o ataque soviético”.
O conteúdo está relacionado a revelações mais amplas sobre as festas promovidas pelo ex-banqueiro. Reportagem publicada pelo UOL em 13 de outubro, assinada pelos jornalistas Natália Portinari, Cézar Feitoza e Fabio Serapião, apontou que Vorcaro teria financiado uma estrutura internacional de recrutamento de mulheres para encontros privados com empresários, autoridades e pessoas de seu círculo social.
Segundo a apuração, baseada em mensagens obtidas no âmbito das investigações da Polícia Federal, a estrutura envolvia mulheres estrangeiras, incluindo refugiadas da Ucrânia e mulheres da Rússia, Venezuela e Argentina, além de referências a participantes de outras nacionalidades, como a polonesa.
O esquema descrito nas mensagens incluía agenciadores responsáveis por selecionar participantes, organizar deslocamentos internacionais, reservar hotéis e providenciar pagamentos. As atividades teriam ocorrido a partir de 2023, com eventos em cidades brasileiras e destinos internacionais como Londres, Paris, Roma e Dubai.
Vorcaro teria destinado pelo menos R$ 4,3 milhões à operação e mantido participação oculta em uma agência utilizada na organização dos encontros. A reportagem identificou Diogo Batista e Leonardo Serrano entre os intermediários envolvidos na estrutura.
As investigações também examinam possíveis indícios de exploração sexual e tráfico internacional de pessoas. A existência de mulheres estrangeiras ou refugiadas nesses encontros, isoladamente, não comprova a ocorrência desses crimes, que dependem da apuração das circunstâncias de recrutamento, transporte e eventual exploração.
Vorcaro negou envolvimento em exploração sexual e contestou a divulgação das mensagens, alegando que os registros foram apresentados fora de contexto. O caso permanece sob apuração.
Vorcaro convidou executivo da Globo para festa “sem risco e sem celular”
Os diálogos entre Vorcaro e Kachar mostram que a relação entre os dois incluía convites frequentes para encontros privados.
Em uma conversa do início de 2024, após mencionar uma festa com modelos estrangeiras, o banqueiro solicitou ao diretor o contato de Roberto Marinho Neto, CEO da Globo Ventures, divisão de investimentos do Grupo Globo.
“Depois me passa o contato do Roberto”, escreveu Vorcaro.
Três dias depois, o ex-banqueiro voltou a procurar Kachar para convidá-lo a uma nova comemoração, desta vez com a promessa de privacidade.
“Se você animar, hoje tem. Fechei um lugar sem risco e sem celular para a verdadeira festa”, afirmou.
O executivo aceitou o convite: “É nessa que eu vou”.
“Você é meu convidado de honra”, respondeu Vorcaro.
A referência a um ambiente sem celulares chama a atenção diante das revelações sobre a organização dos encontros do banqueiro. Mensagens de outros integrantes da rede também mencionavam medidas para impedir que participantes utilizassem aparelhos telefônicos durante as festas.
Os registros, entretanto, não comprovam que Kachar tenha participado de atividades ilegais nem esclarecem o significado exato da expressão “sem risco” utilizada por Vorcaro.
No dia seguinte ao encontro, o diretor agradeceu ao banqueiro e fez uma brincadeira sobre o desgaste provocado pela festa.
“Será que alguém anotou a placa do caminhão que me atropelou? Obrigado pelo convite ontem”, escreveu.
Vorcaro respondeu que havia dormido apenas três horas e lamentou que o executivo tivesse permanecido pouco tempo no evento.
“Ídolo. Se eu faço isso, saio de ambulância do quarto”, reagiu Kachar.
O banqueiro também contou que participou da comemoração enquanto sua então esposa o aguardava em um quarto próximo. A revelação provocou outra manifestação de admiração do diretor: “Ídolo máximo, então. Isso eu jamais consegui”.
Executivo prometeu falar com Malu Gaspar após críticas ao Banco Master
Além dos encontros sociais, as mensagens revelam que Vorcaro recorria ao diretor da Globo para manifestar descontentamento com reportagens sobre o Banco Master.
Em uma das conversas, o banqueiro encaminhou uma reportagem da jornalista Malu Gaspar sobre processos envolvendo gestores da instituição financeira e reclamou do conteúdo.
“Isso é sacanagem demais fred, numa boa”, escreveu.
Vorcaro também classificou a sequência de publicações como uma “chuva de ataques” e criticou a atuação jornalística do Grupo Globo.
Kachar respondeu que tentava conversar com a jornalista e afirmou que a maneira de trabalhar de Malu Gaspar não era direcionada exclusivamente ao ex-banqueiro.
Ainda assim, o executivo demonstrou insatisfação com o conteúdo das publicações.
“Eu acho cansativo e desnecessário”, escreveu.
Em seguida, diante das reclamações de Vorcaro, prometeu: “Vou falar com ela”.
O diálogo mostra que o banqueiro tinha acesso direto a um integrante do alto escalão do conglomerado de comunicação para questionar reportagens sobre seus negócios. As mensagens, entretanto, não demonstram que a conversa prometida tenha ocorrido ou que tenha provocado alguma alteração na cobetura jornalística.
Banco Master patrocinou evento da Globo em Nova York
A proximidade entre Vorcaro e Kachar também se manifestava em relações comerciais. Em maio de 2024, o Banco Master patrocinou o Summit Valor Econômico Brazil-USA, encontro realizado em Nova York, nos Estados Unidos, com a participação de representantes do mercado financeiro e do setor empresarial.
Durante o evento, Kachar apresentou Vorcaro como “amigo”. O banqueiro participou da programação como um dos principais convidados.
O encontro também contou com a participação do colunista de O Globo Lauro Jardim, que apresentou um dos painéis. Outras mensagens divulgadas pelo DCM apontaram a existência de uma relação pessoal próxima entre o jornalista e o ex-controlador do Banco Master.
O conjunto de conversas documenta uma relação que combinava encontros sociais, convites para festas e interlocução profissional entre Vorcaro e integrantes do Grupo Globo.
As revelações surgem em meio ao avanço das investigações sobre os negócios do Banco Master e sobre a organização de eventos privados financiados pelo ex-banqueiro. Embora as mensagens exponham a proximidade entre os envolvidos, a eventual ocorrência de crimes relacionados ao recrutamento de mulheres e a existência de interferência na atividade jornalística são questões distintas que dependem de comprovação específica.
Festa no Apê - Latino
Cazuza - Brasil
Que país é este? - Legião Urbana
Perfeição - Legião Urbana
Escândalo Master
Mensagens apontam que Vorcaro aprovava e alterava reportagens do site Metrópoles antes de publicação.
Fontes - UOL e Brasil de Fato
Mensagens interceptadas pela Polícia Federal (PF) no aparelho celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro revelam que a direção do portal de notícias Metrópoles submetia reportagens à leitura prévia do empresário antes da publicação, atendia a pedidos diretos de alteração e exclusão de trechos e consultava o ex-controlador do Banco Master sobre pautas de seu interesse corporativo. As informações foram reveladas nesta quinta-feira (15) pelo UOL.
De acordo com o levantamento feito pelo portal a partir dos dados periciais da PF, ao menos 14 reportagens do Metrópoles foram enviadas a Vorcaro com antecedência entre 2024 e 2025. Desse total, 11 textos foram modificados para atender às exigências apresentadas pelo então banqueiro, além do registro de duas matérias produzidas e publicadas a pedido direto do empresário.
O canal direto entre o ex-controlador do Master e a diretora-executiva do Metrópoles, Lilian Tahan, foi consolidado em 2024, ano em que o conglomerado financeiro fechou um contrato de publicidade no valor de R$ 20 milhões com a empresa de comunicação.
O portal pertence ao ex-senador Luiz Estevão, que foi condenado a 31 anos de prisão por desvio de verbas públicas nas obras do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT-SP) e cumpre pena em regime aberto desde 2021.
Contrato milionário
Conforme os registros obtidos pelos investigadores, a aproximação começou em maio de 2024, articulada pelo consultor Guilherme Barros, que levou Tahan para um encontro com Vorcaro.
No mês seguinte, o banco efetuou o pagamento inicial de R$ 1 milhão ao site, seguido de outro repasse de R$ 900 mil em julho, formalizado sob a justificativa de projetos de educação financeira para empresas do grupo, como a seguradora Kovr e o banco digital Will.
Em novembro de 2024, a direção do site apresentou uma nova proposta comercial. Mensagens trocadas entre Vorcaro e a diretora de marketing do Master, Ana Matos, mostram que a executiva comentou: “Tá caro esse Metrópoles”. O banqueiro respondeu: “Coisa mais importante da nossa vida é esse Metrópoles”.
A contratação de R$ 20 milhões foi autorizada e quitada em 2025 por meio de quatro parcelas de R$ 5 milhões.
Ingerência sobre pautas
A troca de mensagens documenta intervenções pontuais na cobertura jornalística. Em 2 de abril de 2025, após o anúncio da tentativa de compra de 58% do capital do Master pelo Banco de Brasília (BRB), Vorcaro contestou uma menção publicada sobre uma suposta oferta de R$ 1 por ativos da instituição: “Proposta de 1 real nunca existiu”. Tahan respondeu de imediato: “Tiramos”.
Dias depois, a diretora do portal procurou o banqueiro para sugerir uma matéria: “Me diga o que acha: um comparativo entre o balanço dos bancos. Ajuda ou atrapalha?”. O empresário afirmou que seria positivo e pediu para analisar o material com antecedência para checar os dados, solicitação autorizada por Tahan. O texto foi veiculado no mesmo dia após a anuência do banqueiro.
A ingerência estendeu-se também a autoridades regulatórias e adversários políticos. Em agosto de 2025, Tahan submeteu a Vorcaro o rascunho de uma entrevista com o ex-presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, que mencionava o diretor Renato Gomes, responsável técnico por analisar a aquisição do Master pelo BRB e que se posicionava contrariamente à operação. A pedido de Vorcaro, as referências a Gomes foram retiradas da entrevista para serem guardadas para uma matéria própria.
Em seguida, a executiva encaminhou o perfil elaborado sobre o diretor do BC, intitulado “Técnico ou político? Quem é Renato Gomes”. Vorcaro solicitou a exclusão de menções à falência do banco, a inserção de especulações sobre um suposto “racha” no Bacen e a inclusão de rumores de que o diretor estaria negociando ida para grandes instituições financeiras privadas. Todas as alterações foram acatadas pela direção do portal.
As mensagens registram ainda pedido para desacelerar a cobertura sobre Ricardo Cappelli, então pré-candidato de oposição ao governo do Distrito Federal, que denunciava a operação envolvendo o BRB.
Ao ser questionada por Vorcaro se conseguiria “dar uma freada essa semana” na cobertura de Cappelli, Tahan respondeu: “Deixa comigo”. Em 17 de novembro de 2025, data em que Vorcaro foi preso pela PF na Operação Carbono Oculto, a diretora do site enviou textos sobre a negociação do Master com a empresa Fictor e publicou após aplicar revisões solicitadas.
Troca de mensagens mostra que Vorcaro aprovava textos e pautas do Metrópoles
O que diz a direção do Metrópoles
Ao UOL, Lilian Tahan afirmou que checar previamente com a fonte se o texto reflete o contexto concedido é uma prática que adota com personalidades dos setores empresarial, político e do Poder Judiciário.
A jornalista declarou que o contrato publicitário de R$ 20 milhões não possuía vinculação editorial e sustentou que o veículo publicou ampla cobertura sobre as dificuldades financeiras das empresas de Vorcaro, incluindo o Banco Master, a Ambipar, a Fictor e a Oncoclínicas.
Sobre a pauta referente a Renato Gomes, Tahan afirmou que o diretor do BC era figura relevante por seu posicionamento na compra do Master pelo banco estatal do DF. A respeito da menção a Ricardo Cappelli, a diretora pontuou que Luiz Estevão era crítico ferrenho da operação entre Master e BRB e que repassou ao próprio político análises que apontavam a inviabilidade financeira do negócio.
Deixo com vocês "Certa ideia de Brasil", já publiquei aqui várias vezes, com quase 15.000 acessos. Desculpem a repetição. É o registro de uma época em que o nosso país debatia sua identidade, seu potencial e seus destinos em alto nível, olhando o futuro com otimismo sincero.
Hoje, estamos em voo cego. Não temos nenhum político ou intelectual com a estatura daquela geração. Se não recuperarmos alguma ideia de Brasil, transformando-a em uma cultura de massas, o país acabará, e a pujante experiência humana que aqui se desenvolveu será perdida.
César Benjamin - Texto produzido para o livro Enciclopédia de Brasilidade, organizado por Carlos Lessa
“Os discursos de que não viu, são discursos. Os discursos de quem viu, são profecias.”
Antônio Vieira, Sermão da Terceira Dominga do Advento, 1669
1.Muitos motivos se somaram, ao longo da nossa história, para dificultar a tarefa de decifrar, mesmo imperfeitamente, o enigma brasileiro. Já independentes, continuamos a ser um animal muito estranho no zoológico das nações: sociedade recente, produto da expansão européia, concebida desde o início para servir ao mercado mundial, organizada em torno de um escravismo prolongado e tardio, única monarquia em um continente republicano, assentada em uma extensa base territorial situada nos trópicos, com um povo em processo de formação, sem um passado profundo onde pudesse ancorar sua identidade. Que futuro estaria reservado para uma nação assim?
Durante muito tempo, as tentativas feitas para compreender esse enigma e constituir uma teoria do Brasil foram, em larga medida, infrutíferas. Não sabíamos fazer outra coisa senão copiar saberes da Europa, onde predominavam os determinismos geográfico (“a civilização é uma conquista dos países frios, pois é a vitória das sociedades contra as dificuldades impostas pelo ambiente”) e racial (“a civilização expressa o potencial de alguns subgrupos humanos mais aptos”) que irremediavelmente nos condenavam. Enquanto o Brasil se olhou no espelho europeu só pôde construir uma imagem negativa e pessimista de si mesmo, ao constatar sua óbvia condição não-européia.
2.Houve muitos esforços meritórios para superar esse impasse. Porém, só na década de 1930, depois de mais de cem anos de vida independente, começamos a puxar consistentemente o fio da nossa própria meada. Devemos ao conservador Gilberto Freyre, em 1934, com Casa-grande & senzala, uma revolucionária releitura do Brasil, visto a partir do complexo do açúcar e à luz da moderna antropologia cultural, disciplina que então apenas engatinhava. Abandonando os enfoques da geografia e da raça, Freyre revirou tudo de ponta-cabeça, realizando um tremendo resgate do papel civilizatório de negros e índios dentro da formação social brasileira. Dos portugueses, elogiou a miscibilidade, a plasticidade e a mobilidade, características que os distinguiam dos colonizadores de origem anglo -saxã.
A colonização do Brasil, ele diz, não foi obra do Estado ou das demais instituições
formais, todas aqui muito fracas. Foi obra da família patriarcal, em torno da qual constituiu-se um modo de vida completo e específico. O latifúndio monocultor e o regime escravista de produzir afastavam, separavam, machucavam, mas a família extensa, cheia de agregados, a poligamia num contexto de escassez de mulheres brancas e a presença de considerável escravaria doméstica constituíam espaços de intercâmbio, nos quais negros e negras, índios e índias – especialmente, negras e índias –, muito mais adaptados aos trópicos, colonizaram o colonizador, ensinando-o a viver aqui. Mulatos, cafusos e mamelucos se multiplicaram, criando fissuras na dualidade radical que opunha senhores e escravos.
Nada escapa ao abrangente olhar investigativo do antropólogo: comidas, lendas,
roupas, cores, odores, festas, canções, arquitetura, sexualidade, superstições, costumes, ferramentas e técnicas, palavras e expressões de linguagem. Cartas de bisavós saem de velhos baús. Escabrosos relatórios da Inquisição são expostos com fina ironia por esse bisbilhoteiro que estava interessado, antes de tudo, em desvelar a singularidade da experiência brasileira. Ela não se encontrava na política nem na economia, muito menos nos feitos dos grandes homens. Encontrava-se na cultura, obra coletiva de gerações anônimas. Uma cultura de síntese, que afrouxou e diluiu a tensão entre os códigos morais e o mundo-da-vida, tensão constitutiva das sociedades de tradição judaico-cristã. Nossa alegria, diz Freyre, a devemos a índios e negros nunca completamente moralizados pelo cristianismo do colonizador. Um cristianismo, aliás, que também precisou misturar-se.
3.Devemos a Sérgio Buarque , em 1936, com Raízes do Brasil, um instigante ensaio – “clássico de nascença”, nas palavras de Antônio Candido – que tentava compreender como uma sociedade rural, de raízes ibéricas, experimentaria o inevitável trânsito para a modernidade urbana e “americana” do século XX. Ao contrário do pernambucano Gilberto Freyre, o paulista Sérgio Buarque não sentia nostalgia pelo Brasil agrário que estava se desfazendo, mas tampouco acreditava na eficácia das vias autoritárias, em voga na década de 1930, que prometiam acelerar a modernização pelo alto. Observa o tempo secular da história. Considera a modernização um processo. Também busca a singularidade do processo brasileiro, mas com olhar sociológico: somos uma sociedade transplantada, mas nacional, com características próprias. A dimensão privada e afetiva da vida sempre se sobrepôs – para o bem e para o mal – à impessoalidade burocrática, não raro descambando para o passionalismo e a impulsividade típicos do homem cordial, num quadro geral de ausência de direitos formais.
Nossa história, diz Sérgio Buarque, girou em torno do “complexo ibérico”. Mas o êxito da colonização portuguesa não decorreu de um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica; buscou a riqueza que custa ousadia, não a riqueza que custa trabalho. A ética da aventura prevaleceu sobre a ética do trabalho. É uma herança atrasada, em via de superação, mas foi a base da nacionalidade, constituiu as “raízes do Brasil”. Não se pode nem se deve, simplesmente, recusá-la e negá- la, mas sim transformá - la.
“Precisamos ousar inaugurar, de forma inédita, o que nunca se fez nessas latitudes” – eis uma frase cheia de significados: devíamos encontrar o caminho para superar o nosso atraso e, ao mesmo tempo, afirmar a nossa identidade, potencializando as nossas virtudes. Teria de ser, necessariamente, um caminho cheio de especificidades, como são cheios de especificidades, quando autênticos, os caminhos de todos os povos. Tremendo desafio, numa sociedade, ele diz, em que a inteligência sempre foi um ornamento, um beletrismo ávido por importar as últimas modas, incapaz de produzir conhecimento e impulsionar qualquer mudança real.
Mesmo assim, Sérgio Buarque é otimista. Anuncia que “a nossa revolução” está em marcha, com a dissolução do complexo ibérico de base rural e a emergência de um novo
ator decisivo, as massas urbanas. Crescentemente numerosas, libertadas da tutela dos senhores locais, elas não mais seriam demandantes de favores, mas de direitos. No lugar da comunidade doméstica, patriarcal e privada, seríamos enfim levados a fundar a comunidade política, de modo a transformar, ao nosso modo, o homem cordial em cidadão.
4.Apenas seis anos depois, em seqüência vertiginosa, Caio Prado Jr. publica Formação do Brasil contemporâneo, a primeira grande síntese historiográfica brasileira em quase cem anos, se contarmos desde Varnhagen. Realiza nesse texto o definitivo desvendamento das nossas origens como uma empresa colonial, acompanhado da hipótese forte de que a história do Brasil tem um sentido profundo, o da transformação dessa empresa, que fomos, em uma nação, que seremos.
Caio Prado percebe que a colonização do Brasil representou um problema novo, pois os padrões mais conhecidos de dominação ao longo da História humana – a pilhagem de riquezas acumuladas, a cobrança de tributos e o estabelecimento de comércio desigual – não se aplicavam nestas terras sem metais preciosos (no século XVI) e habitadas por tribos dispersas, que viviam no Neolítico. A solução do problema demandou mais de trinta anos. Organizou-se finalmente uma empresa territorial de grande dimensão, com administração portuguesa, capitais holandeses e venezianos, mão-de-obra indígena e africana, tecnologia desenvolvida em Chipre e matéria-prima dos Açores e da ilha da Madeira – a cana. Esses elementos foram articulados em uma holding multinacional movida por força de trabalho escrava, mas regida pelo cálculo econômico e pela busca do lucro. Tudo o que existia aqui – a paisagem, a fauna, a flora e as gentes – teve de ser decomposto e desfeito, depois recomposto e refeito, de outras maneiras, para que o empreendimento mercantil prosperasse.
Na origem, diz Caio Prado, não fomos uma nação, nem propriamente uma sociedade; fomos uma empresa territorial voltada para fora e controlada de fora. A empresa-Brasil sempre deu certo: propiciou bons negócios e gerou altíssimo lucro. Nos séculos XVI e XVII foi excelente o negócio do açúcar, a primeira mercadoria de consumo de massas em escala planetária, em torno da qual se formou o moderno mercado mundial. Foi depois magnífico o negócio do ouro; graças a ele, a Inglaterra – que nunca teve minas de ouro – constituiu as enormes reservas que lhe permitiram criar, no século XIX, o primeiro padrão monetário mund ial (o padrão libra-ouro), símbolo e suporte de sua hegemonia. A partir de 1840, até bem entrado o século XX, foi maravilhoso o negócio do café, estimulante de baixo custo e fácil distribuição, ofertado à classe trabalhadora da Europa e dos Estados Unidos que precisava ser disciplinada para o trabalho fabril. Além disso, permeando toda a nossa história, foi sempre estupendo o negócio do endividamento perpétuo dessa empresa-Brasil, induzido pelos seus controladores de fora.
Porém, a existência multi-secular da gigantesca e diversificada empresa territorial criou paulatinamente os elementos constitutivos de uma nova nação: “Povoou-se um território semideserto; organizou-se nele uma vida humana que diverge tanto daquela que havia aqui, dos indígenas e suas nações, como também da dos portugueses que empreenderam a ocupação. Criou-se no plano das realizações humanas algo novo (...): uma população bem diferenciada e caracterizada, até etnicamente, habitando determinado território; uma estrutura material particular, constituída na base de elementos próprios; uma organização social definida por relações específicas; finalmente, uma consciência, mais precisamente uma certa ‘atitude’ mental coletiva particular. (...) Esse novo processo histórico se dilatou e se arrasta. Ainda não chegou ao seu termo.”
Eis aí uma importante chave de leitura para compreendermos as tensões que experimentamos até hoje: elas refletem o choque entre o Brasil empresa-para-os-outros, que ainda somos, e o Brasil nação-para-si, que desejamos ser. Completar esse processo, “fazê-lo chegar ao seu termo” – ou, ainda na linguagem de Caio Prado, realizar a Revolução Brasileira – é fazer desabrochar a última grande nacionalidade do Ocidente moderno, uma nacionalidade tardia, cujos potenciais permanecem em grande medida incubados.
5.Devemos em seguida a Celso Furtado uma brilhante síntese da Formação econômica do Brasil, um texto que também falava de História para mostrar os desafios fundamentais da modernização brasileira no século XX. Como os demais, Furtado escreve um ensaio de interpretação, uma “história pensada”, a partir do ponto de vista de um economista com sólida formação humanista. Descarta a idéia de que o Brasil teria reproduzido tardiamente uma sociedade de tipo feudal. Descreve as características dos ciclos econômicos baseados na produção de bens primários e impulsionados pela demanda externa, e aponta as insuficiências e os desequilíbrios que deles decorrem. Olha as regiões, estuda os casos de
decadência sem transformação. Mostra que em no ssa história, recorrentemente, a fonte de demanda autônoma foram as exportações de alimentos, matérias-primas e minérios; que o mercado interno se atrofiou, induzindo a um baixo efeito multiplicador da renda gerada; que houve permanente vazamento de riqueza, em grande escala, para o exterior. Permanecemos na periferia do sistema-mundo que nos deu à luz. Como poderíamos sair dessa posição?
Ao longo de toda sua obra, Furtado diz que o subdesenvolvimento é um processo específico, que tende a reproduzir-se no tempo, e não uma etapa transitória, que conteria em si, mais ou menos naturalmente, as condições de sua superação. O fortalecimento do mercado interno, o desenvolvimento da indústria e a formação de um núcleo endógeno de criação e difusão de progresso técnico – necessários para a superação da nossa condição – não poderiam resultar de forças espontâneas. Exigiam uma intervenção consciente, voltada para produzir mutações. Tornou-se clássica a sua análise sobre a adoção pelo Brasil, de maneira inovadora e pragmática, de eficazes políticas anticíclicas em plena crise de 1929-1933, antes mesmo que essas políticas tivessem sido claramente modeladas pela moderna teoria econômica. Elas criaram uma situação nova, que lançou as bases do nosso processo de industrialização. Levá- lo às últimas conseqüências era o desafio a vencer.
Furtado nunca dissociou conhecimento e valores, economia e sociedade: “O processo de reprodução das desigualdades sociais exerce uma influência decisiva sobre as formas de utilização do excedente. Portanto, a composição do excedente é em grande parte um reflexo do sistema de dominação social, o que significa que sem um conhecimento das estruturas de poder é impossível avançar no estudo do desenvolvimento das forças produtivas.” Poucos são os econo mistas atuais capazes de conduzir análises desse tipo.
6.Tributárias de diferentes influências – notadamente Franz Boas, Max Weber, Karl Marx e John M. Keynes, nessa ordem –, essas quatro obras seminais lançaram as bases da moderna ciência social brasile ira e permitiram o início de uma fecunda reinterpretação do Brasil. Como pano de fundo estava em marcha o ciclo desenvolvimentista, com a força de processos estruturais (e estruturantes) que nos conduziam, acreditava-se, do passado (população rural, economia agrícola, território fragmentado) ao futuro (população urbana, economia industrial, território integrado). Sabendo falar sobre nós mesmos, com a nossa própria linguagem, tínhamos finalmente uma identidade em construção. Sabendo diferenciar passado e futuro, vivíamos agora em um tempo orientado, condição primeira para se constituir um projeto. Os impasses do Império escravista e a pasmaceira da República Velha haviam ficado para trás.
Tivemos muitos outros intelectuais visionários e homens de ação. Entre eles, Darcy Ribeiro talvez tenha sido o maior profeta da civilização brasileira. Inverteu radicalmente os velhos argumentos europeus contra nós, afirmando as vantagens da mestiçagem tropical diante de uma pretensa pureza temperada e fria. Mostrou como, aos trancos e barrancos, conseguimos fazer um povo-novo a partir dos grupos humanos que o capitalismo mercantil encontrou neste território ou transplantou para cá – na origem, índios destribalizados, brancos deseuropeizados e negros desafricanizados, depois gente do mundo inteiro. Estudou as características fundamentais desse contingente humano filho da modernidade, o maior povo-novo do mundo moderno. Viu que ele é também um povo-nação, reconhecendo-se como tal, falando uma mesma língua, habitando um território bem-definido e tendo criado o seu próprio Estado. Debruçado em ampla visão da aventura humana, falou de um povo que ainda está no começo de sua própria história, e cuja identidade – por sua gênese e sua trajetória – não pode basear-se em raça, religião, vocação imperial, xenofobias ou vontade de isolar-se. Um povo que tem na cultura a sua única razão de existir.
A composição ficava quase completa: éramos um país miscigenado, sentimental e alegre, moderno, culturalmente antropofágico, aberto ao outro e ao novo, desejoso de desenvolver-se, cheio de oportunidades diante de si. O passado nos condenava, mas o futuro nos redimiria. A figura mítica de Macunaíma e a figura real de Garrincha – figuras fora dos padrões, que faziam tudo errado, para no fim dar tudo certo – nos divertiam e nos encorajavam.
7.Produzimos assim, entre as décadas de 1930 e 1960, contornos nítidos de uma certa idéia de Brasil. Não importa discutir se essa idéia estava cem por cento correta ou errada, do ponto de vista de uma pretensa ciência positiva, se era precisa em minúcias, se tudo podia explicar, pois a representação ideológica de uma sociedade sobre si mesma cumpre a função de sinalizar valores, despertar esperanças e mobilizar energias, e não de retratar fielmente “o que existe”. Em certo momento de sua história, depois de quatro séculos em um labirinto, o Brasil reconheceu-se assim e percebeu-se portador de potencialidades insuspeitadas. É impossível exagerar a importância desse passo. Justo por isso, é também impossível exagerar o devastador impacto de sua desconstrução, realizada em troca de nada.
Ao contrário do que se pensa, nossa crise atual não é, simplesmente, uma crise econômica. Resulta, em primeiro lugar e antes de tudo, da progressiva perda da idéia de Brasil, substituída pelos chavões daquela mesma inteligência ornamental, inútil, farsesca, adepta da moda, a que Sérgio Buarque se referia. A moda hoje é globalização, e a única diferença é que os saberes – hélas! – não são mais importados da Europa, mas dos Estados Unidos. O efeito é o mesmo: como pano de fundo, negatividade e desqualificação do que somos e podemos vir a ser, compensadas agora com doses cavalares de marketing.
O sofisticado debate sobre a nossa especificidade e os nossos caminhos foi deslegitimado. A mediocridade voltou a mover-se em cena com altivez espantosa, cada vez mais arrogante e orgulhosa de si. Ela não gosta de imaginação, qualidades, invenção de caminhos; gosta de rótulos, pede mesmice. Na década de 1990, pela boca das nossas maiores autoridades e de alguns dos nossos mais influentes intelectuais – sobretudo os economistas –, jogamos fora todo o esforço intelectual anterior e passamos a nos reconhecer como... um mercado emergente. Profunda mudança de ponto de vista. Até então, mesmo que fôssemos uma nação incompleta e muito imperfeita, ainda vivíamos num universo ideológico em que completá- la e aperfeiçoá-la, de uma forma ou de outra, eram as nossas referências comuns. Quando passamos a nos reconhecer apenas como mercado, tudo mudou. Mercado não é lugar de cidadania, solidariedade, soberania, identidade. É espaço de fluxos, dominado pela concorrência, onde sobrevivem os mais fortes, e ponto final.
8.O fato mais notável dos últimos 25 anos, na História do Brasil, é a radical alteração das categorias que organizam e delimitam o nosso imaginário. Recuemos um pouco. No início do século XX, sob influência do positivismo, o Brasil dizia buscar, antes de tudo, civilização e progresso, conceitos que hoje podem soar equivocados ou ingênuos, mas que estavam explicitamente ligados a um futuro humano: a idéia de que progressos materiais pudessem sustentar-se em um vasto retrocesso social ou moral era então inimaginável, pois os avanços nessas várias esferas eram concebidos como paralelos e complementares. Depois, como vimos, o Brasil passou a falar em modernização, formulada como uma resposta ao atraso e à pobreza; o esforço modernizador só era necessário e legítimo porque eliminaria essas mazelas. As pessoas, os grupos sociais e a comunidade nacional, com sua diversidade e complexidade, permaneciam sendo a referência fundamental de um debate que nunca se dissociava de fins e destinos.
Estamos agora esmagados pelo discurso da competitividade. Nem mesmo no plano das intenções ele expressa alguma grandeza. O pensa mento das elites dominantes comporta-se como se elas não mais devessem explicações a ninguém. A competitividade segue a mesma lógica da guerra – conquistar supremacia sobre o outro – e exige apenas um tipo de progresso, de natureza tecnológica. Um progresso dos meios, de alguns meios manejados por poucos, que nada diz sobre fins. Esse conceito vazio de conteúdos humanos e avesso a juízos sociais abrangentes foi alçado à posição de articulador do nosso discurso e legitimador do modelo de sociedade que se deseja implantar. Com o agravante de que, agora, predomina a acumulação financeira – volátil, esperta, sempre de olho no curto prazo, em grande medida fictícia, de natureza intrinsecamente especulativa, com enorme potencial destrutivo.
O grande capital – pois ele é que é “competitivo” – apresenta-se como portador de uma racionalidade que seria generalizável, sem mediações, para a sociedade como um todo. Inversamente, todas as outras lógicas – a dos pobres, a dos agentes econômicos não capitalistas ou simplesme nte não competitivos, a da cidadania, a da soberania, a da cultura, a dos interesses nacionais de longo prazo – são consideradas irracionais ou desimportantes. Devem ser denunciadas, humilhadas e, progressivamente, silenciadas. Não articulam linguagens, mas ruídos; não expressam direitos, mas custos; não apontam para outras maneiras de organizar a sociedade, mas para a desordem e o caos na economia, acenados pelos poderosos como permanente ameaça.
9.Além de vasta cultura e honradez intelectual, Gilberto, Sérgio, Caio, Celso, Darcy e tantos outros, mesmo alinhando-se a correntes teóricas e políticas muito diferentes, mesmo propondo interpretações diversas, tinham uma coisa fundamental em comum: gostavam do Brasil. Desejavam do fundo da alma que o país desse certo e a isso dedicaram suas vidas e
seus melhores esforços. Tal sentimento transparece em cada linha que escreveram, em cada gesto que fizeram, em cada palavra que disseram. Havia generosidade neles. Eis aí outra mudança importante: evidentemente, manifestamente, cinicamente, quase explicitamente, os formuladores e divulgadores do novo discurso hegemônico não gostam do Brasil. Gostam de business. O que estamos ouvindo deles, todo o tempo, é que o Brasil, como sociedade, nação e projeto, não tem sentido nenhum. Atrapalha. A esperança-Brasil deu lugar ao risco-Brasil.
Conferindo aos mais ricos riqueza cada vez maior, associada a padrões culturais e de consumo cada vez mais distantes da realidade local, e condenando a maioria a um padrão de vida em declínio, essa opção alimenta forças centrífugas que apontam para o rompimento dos vínculos históricos e socioculturais que até aqui mantiveram, em algum nível, juntos os cidadãos. Os grupos mais bem-posicionados para participar do mercado mundial ficam cada vez mais tentados a desfazer quaisquer laços de solidariedade nacional, desligando completamente seu padrão de vida, seus valores, a forma de denominar e investir sua riqueza – e, portanto, o seu próprio destino – dos padrões, valores e destino do país como um todo.
Os fatos do cotidiano mostram como se debilitam rapidamente, entre nós, as bases de uma sociabilidade civilizada: um regime comum de valores, caminhos de mobilidade social ascendente, a idéia de um futuro em construção. As conseqüências disso, no longo prazo, são imprevisíveis. Os segmentos que têm pressa de ser modernos a todo preço pedem a criação de instituições blindadas e de áreas de circulação restringida, onde a competitividade, a lucratividade, a velocidade e o pragmatismo, bem como o estilo de vida a eles associado, possam ostentar-se sem empecilhos. Mas essas instituições e áreas permanecem imersas em um território físico e social muito maior, que contém população diferenciada, necessidades várias, comportamentos múltiplos, problemas outros. É uma ilusão achar que elas possam desatar os laços que as ligam ao contexto em que estão.
10.Darcy Ribeiro mostrou como o primeiro passo no processo de submissão e destruição dos indivíduos indígenas era a transformação do índio específico – o gavião, o urubu-kaapor, o xavante, o bororo, portador de uma história, integrante de uma comunidade, habitante de um espaço cheio de significados – naquilo que chamou de “índio genérico”, um sem- lugar, cuja indianidade, inscrita no seu corpo mas não mais na sua cultura, passava a ser um signo negativo no mundo dos brancos, no qual ele se inseria sempre por baixo. Acredito que muito da angústia de Darcy, no fim da vida, tenha vindo da percepção de que o povo brasileiro, como um todo, corria o risco de transformar-se em um povo genérico e inespecífico, ao qual também restaria eternizar uma inserção por baixo e tendencialmente declinante no sistema internacional.
É este o nosso maior desafio, que pode ser visto de vários ângulos. Para retomar a terminologia de Caio Prado, estamos assistindo à vitória – temporária, porque a-histórica – da perspectiva do Brasil empresa-para-os-outros sobre o Brasil nação-para-si. Impõe-se, pois, uma dura luta política e cultural. As alternativas são radicais para ambos os lados. Há uma bifurcação no caminho. O país terá de decidir: ou aceita tornar-se apenas um espaço de fluxos do capital internacional, o que significa ser expulso da História, ou retoma seu processo de construção em novas bases.
Se quisermos a segunda opção, temos de reencontrar uma idéia de Brasil. Por trás do poderio dos Estados Unidos há uma idéia de Estados Unidos. Por trás da reconstrução do Japão há uma idéia de Japão. Por trás da União Européia há uma idéia de Europa. Por trás da ascensão da China há uma idéia de China. Se não reconstruirmos uma idéia de Brasil, nenhum passo consistente poderemos dar. (O título deste artigo, aliás, é retirado das Memórias do general De Gaulle. Oficial do estado- maior do Exército francês, recusou-se a render-se aos alemães, que naquela fase da guerra pareciam invencíveis, e protagonizou uma fuga espetacular para a Inglaterra, de onde liderou a Resistência. Segundo escreveu, fez isso, afrontando naquele momento todas as probabilidades de êxito, porque tinha na cabeça “uma certa idéia de França”, e a vida sob ocupação não cabia nela.)
11.O esforço dos pensadores que nos antecederam deixou pontos de partida muito valiosos. Mas devemos reconhecer que eles nos falaram de um país que, pelo menos em parte, deixou de existir. O Brasil de Gilberto Freyre girava em torno da família extensa da casa-grande, um espaço integrador dentro da monumental desigualdade; o de Sérgio Buarque apenas iniciava a aventura de uma urbanização que prometia associar-se a modernidade e cidadania; o de Caio Prado mantinha a perspectiva da libertação nacional e do socialismo; o de Celso Furtado era uma economia dinâmica, que experimentava uma acelerada modernização industrial; o de Darcy Ribeiro – cujos ídolos, como sempre dizia, eram Anísio Teixeira e Cândido Rondon – ampliava a escola pública de boa qualidade e recusava o genocídio de suas populações mais fragilizadas.
Os elementos centrais com que todos eles trabalharam foram profundamente alterados nas últimas décadas. A economia mais dinâmica do mundo, que dobrou seu produto cinco vezes seguidas em cinqüenta anos, caminha para experimentar a terceira década rastejante. Todos os mecanismos que garantiram mobilidade social na maior parte do século XX foram impiedosamente desmontados, a começar da escola pública. A urbanização acelerada concentrou multidões desenraizadas, enquanto a desorganização do mercado de trabalho multiplicava excluídos. Tornado refém do sistema financeiro, o Estado nacional deixou de cumprir funções estruturantes essenciais. A fronteira agrícola foi fechada, estabelecendo-se nas áreas de ocupação recente uma estrutura fundiária ainda mais concentrada que a das áreas de ocupação secular. Nesta sociedade urbanizada e estagnada, os meios eletrônicos de comunicação de massas tornaram-se, de longe, a principal instituição difusora de desejos, comportamentos e valores, inoculando diariamente, maciçamente, irresponsavelmente uma necessidade de consumo desagregadora, pois inacessível. “Nunca foi tão grande a distância entre o que somos e o que poderíamos ser”, disse recentemente Celso Furtado, antes de nos deixar.
Todos esses processos estão aí, a nos desafiar, exigindo de nós um esforço de análise
talvez mais árduo do que aquele realizado pelas gerações dos nossos mestres. Ainda não sabemos bem até que ponto tais processos alteraram definitivamente as condições sociológicas da nossa existência, e em que direção. Não temos uma teoria do Brasil contemporâneo. Estamos em vôo cego, imersos em uma crise de destino, a maior da nossa existência. A História está nos olhando nos olhos, perguntando: “Afinal, o que vocês são? O que querem ser? Tem sentido existir Brasil? Qual Brasil?”
Temos hesitado em enfrentar questões tão difíceis, tão radicais. Preferimos brincar de macroeconomia. Mas a disjunção está posta: ou o povo brasileiro, movido por uma idéia de si mesmo, assume pela primeira vez o comando de sua nação, para resgatá- la, reinventá- la e desenvolvê- la, ou assistiremos neste século ao desfazimento do Brasil. Se ocorrer, este último desfecho representará um duríssimo golpe nas melhores promessas da modernidade ocidental e será um retrocesso no processo civilizatório de toda a humanidade. A invenção do futuro se tornará muito mais penosa, para todos.
“Os discursos de quem viu”, dizia Vieira, “são profecias”.
* * *
César Benjamin é autor, entre outros livros, de A opção brasileira (Contraponto, 1998, nona edição) e de Bom combate (Contraponto, 2004). Integra a coordenação nacional do Movimento Consulta Popular.
Meu País - Ivan Lins
Aquarela Do Brasil (feat. Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caetano Veloso)
Laura Catarina ft. Mariene de Castro - Do Brasil (Clipe Oficial)
Martinho Da Vila - Aquarela Brasileira (Áudio Oficial)
Khrystal | A Cara do Brasil
Vicente Barreto 13. A cara do Brasil (Vicente Barreto / Celso Viáfora)
Elis Regina - Querelas do Brasil
Noticias Do Brasil Os Pássaros Trazem - Quinteto Violado [ SERTÃO
Quando discutimos o fim da escala 6x1 e a transição para um modelo com dois dias de folga semanais (como a jornada 5x2), os argumentos costumam se concentrar legitimamente na saúde mental e nos direitos trabalhistas. No entanto, existe um setor econômico e social invisibilizado nessa engrenagem que aguarda essa mudança como um verdadeiro divisor de águas: a cultura e a economia criativa.
Hoje, a produção e o consumo de arte no Brasil competem diariamente com o maior inimigo da sociedade moderna: a exaustão da classe trabalhadora. Libertar o trabalhador de um modelo analógico de produção é, acima de tudo, oxigenar a identidade cultural do país.
A Explosão na Formação de Público e Consumo Cultural
Com apenas uma folga na semana, o trabalhador é obrigado a usar seu único dia livre para o descanso físico básico, tarefas domésticas atrasadas e obrigações familiares. O "tempo de respiro" é engolido pela sobrevivência. Ter um segundo dia de folga garantido altera profundamente essa dinâmica social.
Ganha-se tempo útil. Mais tempo livre se traduz diretamente em mais pessoas com disposição para frequentar cinemas, teatros, shows, museus, feiras de livros e centros culturais. Além disso, esse movimento provoca uma descentralização crucial: o consumo cultural deixa de ficar restrito aos eixos centrais das grandes cidades. Os espaços culturais de bairros e periferias ganham fôlego, impulsionados por moradores locais que finalmente têm tempo para vivenciar seus próprios territórios.
Estímulo Econômico Direto e o Efeito Multiplicador
A economia criativa não funciona de forma isolada; ela é um motor potente que puxa diversos outros setores da economia. Ao garantir o descanso de dois dias, estimula-se o chamado turismo de fim de semana. Viagens curtas de "bate-volta" ganham força, movimentando o artesanato local, a gastronomia regional, festivais de música e a hotelaria de pequenas cidades.
Com mais público consumindo cultura ativamente de sexta-feira a domingo, o próprio setor criativo é forçado a se expandir. Para dar conta da nova demanda, teatros, produtoras, casas de shows e museus precisarão contratar mais profissionais. Isso gera novos postos de trabalho para técnicos de som e luz, atores, músicos, designers, cenógrafos e prestadores de serviços de eventos, criando um ciclo virtuoso de geração de renda.
Democratização da Produção: Do Consumidor ao Criador
No Brasil, uma parcela massiva de artistas, escritores, realizadores audiovisuais e criadores de conteúdo não vive exclusivamente da sua arte. Para pagar as contas, a esmagadora maioria mantém empregos formais na base do comércio ou do setor de serviços — os setores mais atingidos pela jornada 6x1.
A escala de seis dias de trabalho sufoca o ócio criativo, o tempo de ensaio, a pesquisa e a escrita. O segundo dia de folga atua como um resgate da dignidade artística. Ele permite que o trabalhador-artista atue em seus projetos autorais, gerando um aumento substancial na diversidade cultural brasileira e gerando novas propriedades intelectuais, como livros, músicas, roteiros e jogos eletrônicos. É também a oportunidade de qualificação profissional, dando tempo para que esses trabalhadores participem de cursos, oficinas e laboratórios de inovação.
O Despertar das Cidades e da Convivência Urbana
Uma cidade viva é uma cidade que ocupa suas ruas. A economia criativa engloba feiras de economia solidária, festivais de rua e bares com música ao vivo. Sem o peso exaustivo de ter que acordar cedo no sábado ou no domingo para jornadas extenuantes, o cidadão se sente encorajado a frequentar e investir na vida noturna e diurna de sua região.
O fim da escala 6x1 não é apenas uma reforma nas horas registradas no relógio de ponto. É uma política pública indireta de fomento à cultura. Ao devolver o tempo ao trabalhador, devolve-se a ele o direito de sonhar, criar e consumir a própria identidade do seu país. A cultura precisa de público vivo, desperto e com tempo para pulsar.
A rotina de trabalhar seis dias na semana para folgar apenas um está no centro do debate político, econômico e social do Brasil. Para milhões de trabalhadores, especialmente nos setores de comércio e serviços, o modelo se tornou sinônimo de exaustão e apagamento da vida pessoal. Mas de onde vem essa estrutura de trabalho e como ela se transformou no principal estopim de desgaste da atualidade?
Nada foi dado. Tudo foi conquistado.
A Verdadeira Origem: Uma Herança de 1943
Ao contrário do que o senso comum aponta, a escala 6x1 não surgiu recentemente e nem foi fruto das flexibilizações recentes do mercado. Ela se consolidou historicamente na legislação brasileira a partir da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), assinada em 1943 pelo presidente Getúlio Vargas.
O marco legal original da CLT estabelecia uma jornada máxima de 48 horas semanais — que mais tarde, com a Constituição Federal de 1988, foi reduzida para 44 horas semanais. Embora as leis garantissem o direito a um repouso semanal remunerado, elas nunca determinaram uma divisão rígida dos dias de trabalho. Foi essa brecha jurídica que permitiu que as empresas distribuíssem as horas ao longo de seis dias consecutivos, dando origem ao modelo que impera até hoje.
Da Hegemonia Industrial ao Afunilamento no Comércio: A Evolução dos Números
A presença da escala 6x1 no cotidiano do brasileiro passou por profundas transformações geográficas e estatísticas ao longo das décadas:
Anos 1940 a 1970 (A era industrial): Logo após a criação da CLT, o percentual de trabalhadores formais nesse regime era massivo e majoritário. Cumpria-se o padrão das fábricas têxteis, metalúrgicas e de base, operando rigidamente de segunda a sábado. O modelo de dois dias de folga (5x2) era uma raridade restrita a cargos administrativos de multinacionais ou ao setor público.
Anos 1980 e 1990 (A transição de 1988): Com a redução da jornada máxima para 44 horas semanais na Nova Constituição, a indústria e os escritórios começaram a migrar para a escala 5x2 (compensando as horas de segunda a sexta). No entanto, o modelo 6x1 encontrou uma nova força de expansão no setor de serviços, que começava a explodir com a chegada de grandes shoppings, redes de supermercados e o varejo de massa.
O cenário atual (Dados Oficiais): De acordo com dados do eSocial levantados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, a escala 6x1 deixou de ser a realidade de "todo mundo" para se concentrar na base da pirâmide salarial. Hoje, ela atinge 33,2% da força de trabalho formal do país. Isso significa que um terço do país (cerca de 14,8 milhões de pessoas) ainda atua sob esse regime exaustivo. A desigualdade setorial é gritante: o modelo atinge 52% do setor de hotelaria, 47,1% dos serviços de alimentação e 42,2% do comércio varejista.
O Mito da Reforma Trabalhista
Quando o debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força, muitos apontaram erroneamente a Reforma Trabalhista de 2017, sancionada por Michel Temer, como a criadora desse regime. A verdade é que a escala 6x1 já existia e era a regra padrão há décadas.
A reforma de 2017 alterou profundamente as relações laborais, mas focou em trazer novas flexibilizações de jornada, como o banco de horas individual e a regulamentação da jornada 12x36. A estrutura 6x1 permaneceu intocada, herdada da lógica industrial de meados do século passado.
Quando o Modelo se Tornou Insuportável?
Se a escala opera desde a década de 1940, por que a insatisfação explodiu agora? A resposta está nas profundas transformações da vida urbana e da saúde pública no século XXI.
Nas últimas décadas, o Brasil se tornou o segundo país com mais casos de Síndrome de Burnout no mundo. O ritmo de vida contemporâneo — marcado por cidades congestionadas, deslocamentos de horas no transporte público e a pressão constante de metas profissionais — tornou o descanso de um único dia por semana absolutamente insuficiente. A folga única deixou de ser um momento de lazer e virou o "dia de cumprir obrigações domésticas", anulando o tempo para a família, os estudos, o descanso real e o cuidado com a saúde mental.
O Estopim nas Redes e a Mobilização Nacional
O sentimento generalizado de esgotamento ganhou voz e organização política a partir de setembro de 2023. O grande catalisador foi um vídeo de desabafo publicado no TikTok por Rick Azevedo, então balconista de uma farmácia no Rio de Janeiro. Sua indignação contra a falta de perspectiva de vida sob a jornada 6x1 viralizou, ecoando a realidade de milhões de brasileiros.
A partir desse desabafo, nasceu o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT). Uma petição pública online coletou rapidamente mais de 2 milhões de assinaturas, canalizando a insatisfação popular e pressionando as estruturas institucionais. Rick Azevedo ganhou projeção nacional e o debate furou a bolha da internet, chegando ao Congresso Nacional pela autoria da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP).
Hoje, as discussões avançam de forma histórica no Legislativo. O debate não é mais sobre se a escala 6x1 é exaustiva, mas sim sobre quando o país fará a transição definitiva para um modelo que respeite a dignidade e o tempo de vida do trabalhador.