sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Por que devemos lotar a sala Walmir Almeida / Cinema do Centro para assistir Gonzaguinha – Da maior liberdade? Por Zezito de Oliveira

1. Gonzaguinha é um dos mais importantes artistas da geração dos festivais.

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha, nasceu no Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1945 e iniciou sua trajetória artística no circuito dos festivais universitários. Em 1969, venceu o II Festival Universitário da Canção Popular com "O Trem", canção de protesto que retratava o sofrimento dos trabalhadores rurais e urbanos. Naquele mesmo período, integrou o Movimento Artístico Universitário (MAU), ao lado de Ivan Lins, Aldir Blanc e César Costa Filho — um núcleo que se tornaria berço de algumas das vozes mais relevantes da MPB. Sua estreia em disco veio em 1973, com o álbum Luiz Gonzaga Jr., que já trazia a mordaz "Comportamento Geral" e críticas diretas à ditadura militar.



2. Gonzaguinha foi capaz de focalizar com maestria os sentimentos que se revelavam na forma de angústias, sofrimento, alegrias e anseios de quem vivia no Brasil dos anos 1960, 1970 e 1980 — e mesmo assim ainda é capaz de falar para as novas gerações.

Sua obra é um retrato vivo do Brasil da segunda metade do século XX. Criado pelos padrinhos no Morro de São Carlos, no Estácio, e órfão de mãe aos dois anos de idade, Gonzaguinha transformou a própria trajetória em música. Suas canções capturaram as contradições de um país que vivia sob censura, perseguição política e desigualdade social, mas também souberam celebrar a beleza, o amor e a esperança. Como observou o produtor Renato Costa, que trabalhou com ele entre 1987 e 1991, Gonzaguinha era "um ícone" cuja obra continua sendo lembrada décadas após sua morte.

3. Gonzaguinha foi um verdadeiro cronista do seu tempo, como também soube como poucos compositores abordar em suas canções questões filosóficas e existenciais que são atemporais.

Sua produção transitou com rara habilidade entre o protesto político e a reflexão íntima. Canções como "Comportamento Geral" (1973) criticavam o sistema capitalista que reduzia as pessoas a meros executores de tarefas repetitivas, enquanto "Pequena Memória para um Tempo sem Memória" (1975) mergulhava na memória coletiva de um país marcado pela repressão. Ao mesmo tempo, faixas como "O Que É, o Que É" (1982) se tornaram hinos de celebração da simplicidade e da resistência cotidiana, com uma mensagem que atravessa gerações. Essa capacidade de unir o conjuntural ao universal é uma das marcas mais distintivas de sua obra.


4. Gonzaguinha soube como poucos compositores homens escrever letras com alma de mulher — é como se o espírito de mulheres que viveram em outros tempos descesse sobre a terra e utilizasse Gonzaguinha como canal para transmitir suas histórias.

Sua sensibilidade ímpar para dar voz a experiências femininas se revela em canções como "Explode Coração" e "Sangrando", que ganharam interpretações memoráveis nas vozes de Maria Bethânia e Gal Costa. A parceria artística com essas intérpretes não foi casual: Gonzaguinha escrevia com uma empatia profunda, capaz de traduzir dores e amores que muitos compositores homens de sua geração não alcançavam. Além de Bethânia e Gal, suas músicas foram gravadas por Elis Regina, Simone, Zizi Possi, Alcione, Joanna e Maria Rita, entre muitas outras.

5. Gonzaguinha, caso estivesse vivo, seria um dos baluartes da luta contra a extrema direita, somando fileiras com Chico, Caetano, Gil e tantos outros artistas que não arredam o pé da luta.

Sua postura política nunca foi ambígua. Durante a ditadura militar, teve 54 composições vetadas pela censura, foi chamado de "terrorista" em programas de TV e ficou visado pelo DOPS, a polícia política do regime. O apelido de "cantor-rancor", cunhado pela mídia, foi uma tentativa de desqualificar sua agressividade contestadora — mas Gonzaguinha sabia que essa imagem era, em grande parte, uma criação do próprio sistema para vendê-lo. Sua coragem em denunciar as injustiças e sua recusa em se calar diante do autoritarismo o colocam, hoje, como uma referência natural para todos aqueles que defendem a democracia e os direitos sociais.

6. Gonzaguinha foi autor de inesquecíveis canções de protesto, como também de canções românticas, além de canções de utopia — canções que falam de memória e de futuro, com forte lirismo, alta dosagem de esperança e bastante leveza.

Sua discografia é um testemunho dessa diversidade. Entre os álbuns que marcaram época estão Luiz Gonzaga Jr. (1973), Plano de Voo (1975), Começaria Tudo Outra Vez (1976), Gonzaguinha da Vida (1979) e Caminhos do Coração (1982). De "Grito de Alerta" a "Lindo Lago do Amor", de "E Vamos à Luta" a "Começaria Tudo Outra Vez", sua obra oferece um panorama completo das possibilidades da canção popular brasileira. Como definiu o produtor Renato Costa, "um dia de convivência com ele já era uma eternidade" — e essa intensidade transparece em cada faixa.

E você, caso queira, acrescente outras razões para assistir ao filme e ouvir canções de Gonzaguinha nestes tempos que rugem.

Nestes tempos em que a democracia volta a ser desafiada e a cultura enfrenta ataques constantes, revisitar Gonzaguinha não é apenas um exercício de memória — é um ato de resistência. Sua obra nos lembra que a arte pode ser, ao mesmo tempo, denúncia e celebração, grito e carinho, memória e futuro.

E para ajudar mais pessoas a descobrir ou redescobrir Gonzaguinha, que tal oferecer carona, presentear com um ingresso ou colaborar com passagens de ônibus ou de aplicativo?

O cinema, como espaço de encontro e fruição coletiva, é um lugar privilegiado para essa redescoberta. Mas o acesso ainda é um obstáculo para muitos. Pequenos gestos — uma carona, um ingresso a mais, uma passagem — podem fazer toda a diferença para que mais pessoas tenham contato com a obra de um dos artistas mais importantes da música brasileira. Gonzaguinha viveu intensamente, morreu cedo demais, aos 45 anos, vítima de um acidente automobilístico no Paraná em 1991. Mas sua voz, sua indignação e sua esperança continuam mais necessárias do que nunca. Loter a sala é, também, uma forma de dizer: a liberdade — a maior liberdade — segue sendo um direito pelo qual vale a pena lutar.

Onde assistir em outras cidades

CidadeCinemaDatas confirmadas entre 19 e 30/9Horário
Aracaju/SECine Walmir Almeida – Cinema do Centro19 e 20/916h30 / 16h
Vitória/ESCine Jardins19, 20, 21, 22 e 23/916h55
Rio de Janeiro/RJCine Carioca José Wilker19, 20, 21, 22 e 23/920h20
Rio de Janeiro/RJCine Santa21, 22 e 23/916h30
Londrina/PRCine Teatro Universitário Ouro Verde21, 22 e 23/9programação própria
Salvador/BACine Glauber Rochasessões confirmadas na semana corrente; programação seguinte ainda não liberada
Porto Alegre/RSCineBancárioshá registros de sessões em setembro; a grade de 19–30/9 ainda não está integralmente publicada

1. Vitória — Cine Jardins

O Cine Jardins publicou sessões de Gonzaguinha, da Maior Liberdade de 17 a 23 de setembro, sempre às 16h55. Assim, estão confirmadas no intervalo solicitado:

19, 20, 21, 22 e 23 de setembro — 16h55.

A programação de 24 em diante ainda não aparece na grade oficial consultada.

2. Rio de Janeiro — Cine Carioca José Wilker

O Grupo Casal confirma sessões:

  • 19/9 — 20h20
  • 20/9 — 20h20
  • 21/9 — 20h20
  • 22/9 — 20h20
  • 23/9 — 20h20

A página permite inclusive a compra antecipada dos ingressos para essas sessões.

3. Rio de Janeiro — Cine Santa

No Cine Santa, a programação publicada confirma:

  • 21/9 — 16h30
  • 22/9 — 16h30
  • 23/9 — 16h30

4. Londrina — Cine Teatro Universitário Ouro Verde

O Cine Teatro Universitário Ouro Verde, da UEL, anunciou Gonzaguinha, da Maior Liberdade em cartaz de 21 a 23 de setembro.

Com o título Presente-Duetos, o disco que comemorou os 70 anos do artista em 2016, foi idealizado e produzido por Miguel Plopschi que utilizou da tecnologia digital para criar os duetos póstumos entre  o artista e grandes nomes da atualidade musical como Ivete Sangalo, Maria Rita, Alcione, Zeca Pagodinho, Alexandre Pires, Ana Carolina, Zeca Baleiro, Victor e Leo, Martinho da Vila, Lenine, Luiza Possi e Fagner.


Naturalidade dos duetos valoriza projeto que festeja 70 anos de Gonzaguinha



quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Dicas do blog da cultura para este sábado e domingo em Aracaju, 19 e 20 de Setembro, Feira de Agroecologia e o doc. Gonzaguinha no Cinema do Centro

 A Feira Agroecológica tem um lugar especial nos nossos corações. Ela é a vitrine de tudo de lindo que somos capazes de produzir juntes. Ela estará durante todo o dia 19 no Festival da Agroecologia Sergipana (FAS), com a diversidade, a beleza e os sabores do nosso estado. 💚

Serão mais de 30 bancas recheadas de alimentos in natura (frutas, hortaliças e raízes, grãos), alimentos beneficiados (farinha, tapioca, beiju, cuscuz crioulo, geleias, conservas, bolos, pães), bebidas, artesanatos, costura criativa e insumos agroecológicos vindas dos territórios de Sergipe.

A Feira Agroecológica do FAS será o espaço para a gente conhecer e dialogar com quem produz, provar novos sabores, descobrir produtos que talvez ainda não conhecemos, trocar experiências e nos encantar com a riqueza da Agroecologia Sergipana. 🌱✨

Consumir o alimento agroecológico é valorizar guardiãs e guardiões da terra, das águas, das sementes, da biodiversidade e da vida. É reconhecer e incentivar quem carrega nossa história e nossa cultura nas mãos.🥰

Então já chama quem gosta de comida de verdade, quem quer conhecer os sabores dos territórios sergipanos, quem valoriza a agricultura familiar e quem quer fortalecer a Agroecologia.

📅 19 de setembro

⏰ Das 10h às 21h

📍 Comunidade Bom Pastor, Rua Efrem Fernandes Fontes, 65 — Bairro Dom Luciano, Aracaju/SE 

🌱 Vem viver a feira agroecológica do FAS e se encantar com a força da nossa gente! 💚✊🏽

"É só se juntar pro mundo nos escutar e a gente reverberar a voz da Agroecologia" ✊🏽🌱

Arte: Alma Rô

#FAS #FestivalDaAgroecologiaSergipana #AgroecologiaNasEleições

               https://www.instagram.com/p/DdHG6GcjkDu/?stkn=MTI4djBrZ3FsZWRiZQ==



Gonzaguinha, Da Maior Liberdade | Trailer Oficial




Mais um filme premiado sobre a história recente do nosso país chega às telas de cinema. "Gonzaguinha: Da Maior Liberdade", que ganhou o Kikito de Melhor Longa-Metragem Documentário no 54º Festival de Gramado, em premiação realizada na noite deste sábado, 22 de agosto, estreia nacionalmente em 3 de setembro .

E quem não foi assistir a "Anistia 79" no Cinema do Centro, ou nos cinemas de rua e de arte que exibem filmes do circuito independente, não deixe de ir e convidar mais um — o filme de Anita Leandro, que resgata imagens inéditas da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, em Roma, 1979, já venceu os prêmios do Júri Oficial e do Júri Popular na Mostra de Tiradentes deste ano .

Afinal, a resposta à nossa crônica falta de memória como nação pode ser o grande número de obras cinematográficas abordando personagens e fatos recentes da nossa história — o que pode resultar em um antídoto contra o retrocesso político e cultural que estamos atravessando desde junho de 2013.

Gonzaguinha é enfocado como um ser político e libertário em documentário conduzido pela ideologia do artista

Atração do 54º Festival de Gramado, filme de Susanna Lira estreia nos cinemas em 3 de setembro.


♫ CRÍTICA DE DOCUMENTÁRIO MUSICAL

Título: Gonzaguinha – Da maior liberdade

Direção: Susanna Lira

Roteiro: Rodrigo Alzuguir

Cotação: ★ ★ ★ ★

Publicado no portal G1

♬ Quando, ao som do samba “É” (1988), rolam os créditos finais de “Gonzaguinha – Da maior liberdade”, documentário de Susanna Lira apresentado na 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado na noite de ontem, 20 de agosto, é difícil conter a emoção e a admiração por Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (22 de setembro de 1945 – 29 de abril de 1991), cidadão brasileiro, um carioca nascido e criado no Morro do São Carlos, no Estácio, celeiro de bambas.

Ali, naquele momento final, o filme deixa evidente que o moleque que “vivia correndo da polícia com a bola debaixo do braço”, como ele mesmo se perfila em fala inserida no início do roteiro, se tornou um homem coerente com os princípios que defendeu na música e na vida.

Previsto para ter debutado no festival In-Edit Brasil, mas efetivamente apresentado no Festival Gramado, duas semanas antes da estreia nos cinemas em 3 de setembro, “Gonzaguinha – Da maior liberdade” é documentário que se nutre da ideologia do cantor, compositor e músico que levantou a voz contra a ditadura.

No filme, a diretora Susanna Lira dá voz quase que somente a Gonzaguinha, abrindo exceções para a mãe de criação do artista, Leopoldina de Castro Xavier, a Dona Dina, e para Luiz Gonzaga (1912 – 1989), o pai biológico, com quem Gonzaguinha bateu de frente ao longo da vida, mas com quem se afinou, respeitando as diferenças ideológicas entre pai e filho, no fim dessa vida encerrada abruptamente há 35 anos em um acidente de carro em estrada do Paraná.

Sem a preocupação de salpicar informações biográficas e dados da trajetória artística de Gonzaguinha, Lira segue um roteiro – assinado por Rodrigo Alzuguir – em que o pensamento do artista é a matéria-prima, o fio condutor, o combustível que transporta o espectador para um tempo de luta.


Entre reproduções de músicas, imagens e falas do cantor, a cineasta encena entrevista concedida por Gonzaguinha ao jornal “O pasquim” em maio de 1981, no auge da popularidade, época em era gravado cotidianamente pelas maiores cantoras do Brasil.

Na encenação da entrevista, Gonzaguinha é personificado de forma convincente pelo ator André Dale. Contudo, o recurso soa até dispensável porque as falas mais densas são ouvidas no filme na voz do próprio Gonzaguinha.

O take em que fala com emoção (in)contida sobre mãe biológica – Odaléa Guedes dos Santos (29 de maio de 1927 – 17 de junho de 1950), falecida aos 23 anos, vítima de tuberculose (doença também enfrentada duas vezes por Gonzaguinha) – diz muito sobre o turbilhão que agitava a alma de um artista indomado, inquieto e por vezes agressivo na defesa das ideias. Sim, a vida de Gonzaguinha foi cheia de som e fúria.

A edição de Ítalo Rocha contribui para dar densidade ao filme. “Gonzaguinha – Da maior liberdade” capta a tensão da época repressiva em que Gonzaguinha nasceu e cresceu como artista. “Se me der um grito, não calo / Se me mandar calar, mais eu falo”, alertou o cantor por meio dos versos de “Recado” (1978), música presente no roteiro através da reprodução de número de show feito por Gonzaguinha em 1979.

A propósito, o documentário “Gonzaguinha – Da maior liberdade” se justifica e se sustenta porque as falas de Gonzaguinha são corroboradas pelas letras de músicas como “Pequena memória para um tempo sem memória” (1980), espécie de réquiem de Gonzaguinha para a legião dos esquecidos na luta contra a ditadura de 1964.

Enfim, o cidadão Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior foi coerente com a ideologia libertária da música do cantor Gonzaguinha. É por isso que o filme “Gonzaguinha – Da maior liberdade” se engrandece quando rolam os créditos ao som do samba “É”. O documentário de Susanna Lira é, também ele, uma pequena memória para um tempo sem memória.


Prof. Romero Venâncio apresenta Gonzaguinha

O MinC disse que veio para reconstruir a cultura . Mas reconstruir também é organizar redes em defesa da nossa democracia. Por Zezito de Oliveira

 

O texto a seguir aborda os  aplausos em um aeroporto de São Paulo de uma parte da classe média a  André Mendonça,  para refletir sobre a falta de uma rede organizada da sociedade civil capaz de defender a democracia. Reconhece os avanços do MinC — Lei Paulo Gustavo, Aldir Blanc, Cultura Viva, Comitês e Agentes Territoriais —, mas critica que o financiamento, sozinho, não forma consciência política, autonomia e mobilização popular. Defende transformar a política cultural em política de cidadania cultural, com educação popular, comunicação comunitária e organização de base. A pergunta central é: “onde está a nossa rede?”. Conclui que não precisamos de heróis, principalmente de falsos heróis, mas de gente organizada e de sujeitos coletivos capazes de sustentar a democracia.

 


 O efeito da vitimização

Na manhã desta quinta-feira (17), o ministro André Mendonça foi aplaudido em um voo de Brasília para São Paulo aos gritos de "nosso herói". O episódio reflete o tensionamento no STF, onde o magistrado trava um embate direto com Alexandre de Moraes. Diante disso, vale lembrar a célebre frase de Bertolt Brecht na peça Vida de Galileu (1938): "Infeliz a terra que precisa de heróis". O cenário se mostra ainda pior quando os supostos "heróis" são figuras mequetrefes como Moro, Bolsonaro e essa nova liderança de ocasião. A crise brasileira, afinal, vai muito além das instituições. 

A verdadeira saída passa pela educação popular, pela ação cultural e pelo fortalecimento da comunicação alternativa/independente. Esse trabalho de base e de educação política, defendido por Frei Betto e tantos outros intelectuais, já existe em pequena escala. No entanto, ou expandimos essas iniciativas, ou reviveremos o retrocesso que enfrentamos a partir do golpe de 2016 contra Dilma Rousseff.

A curto prazo, para essas eleições, nossa esperança reside na resistência ativa de milhares de militantes e na força dos veículos progressistas de comunicação digital. Precisamos desse fôlego para conter mais uma tentativa de empurrar o país para o precipício. A luta continua, e ouvir quem propõe soluções reais na base, a começar por Frei Betto, é fundamental.

Escrevi o texto acima a partir de uma postagem publicada pelo Pe. Manuel, do clero de Londrina, em um grupo de mensagens. Em seguida, compartilhei o mesmo texto nesse grupo e em outros grupos, e de forma individual,  além de publicá-lo no Facebook.

Em uma das respostas individuais, recebi uma resposta bastante provocadora e, ao mesmo tempo, necessária, de um companheiro, amigo de fé e irmão camarada. A reflexão dele foi direta: “O MinC não disse pra que veio e, assim, perdemos uma imensa rede que poderia estar na rua neste momento.”

Foi essa provocação que me levou a aprofundar a reflexão e produzir o artigo abaixo, com o apoio da inteligência artificial (IA), procurando transformar aquela inquietação em uma questão mais ampla sobre o papel das políticas culturais na formação, organização e mobilização da sociedade civil.

Vamos ao texto....

Bem se sabe que os aplausos recebidos por André Mendonça dentro de um avião não representam o conjunto da sociedade brasileira. Mas também não acho que devamos simplesmente rir ou desprezar o episódio. A política tem dessas coisas. Às vezes começa dentro de um avião, passa pelas redes sociais e termina ocupando as ruas. E quando percebemos, uma narrativa que parecia pequena já ganhou corpo. É aí que entra uma pergunta que me acompanha há algum tempo e que agora parece ainda mais necessária: onde está a nossa rede?

Não estou falando apenas da rede de militantes partidários. Falo de uma rede muito maior, construída durante décadas por educadores populares, artistas, Pontos de Cultura, organizações comunitárias, coletivos juvenis, comunicadores, produtores culturais, cineclubistas, grupos de teatro, quadrilhas juninas, mestres da cultura popular e tantas outras experiências que existem nos bairros, nas periferias e nos pequenos municípios brasileiros. Essa rede existe e recebeu, nos últimos anos, recursos e políticas públicas como há muito tempo não recebia. Por isso mesmo, a pergunta precisa ser feita: o que fizemos com essa oportunidade?

O Ministério da Cultura foi recriado depois de um período em que a própria existência do Ministério chegou a ser colocada em questão. Vieram a Lei Paulo Gustavo, a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, a retomada da Política Nacional Cultura Viva, os Comitês de Cultura e os Agentes Territoriais de Cultura. Não é pouca coisa. A Lei Paulo Gustavo mobilizou bilhões de reais, a Política Nacional Aldir Blanc criou uma política continuada de financiamento e a Cultura Viva voltou a ocupar um lugar importante na política cultural brasileira. Mas é justamente por reconhecer a dimensão desse investimento que a pergunta se torna ainda mais necessária: dinheiro para a cultura é fundamental, mas dinheiro, sozinho, não constrói consciência política, organização popular ou capacidade de mobilização.

Talvez aqui esteja uma das maiores contradições do atual ciclo das políticas culturais. O próprio Ministério da Cultura afirma que os Comitês de Cultura foram criados para promover mobilização social, formação em direitos e políticas culturais, comunicação social, educação popular, formação cidadã sobre democracia e fortalecimento da participação social. Não sou eu que estou inventando essa finalidade; está escrito nos documentos do próprio MinC. Em 2024, o Ministério informou ainda que havia selecionado 601 Agentes Territoriais de Cultura para atuar justamente com mapeamento, mobilização social e comunicação comunitária.

Então a pergunta fica ainda mais incômoda: se a gente sabia que cultura também é democracia, por que essa dimensão não ganhou a mesma força que a dimensão do financiamento? Não estou dizendo que os artistas deveriam sair às ruas para defender um governo, muito menos que o Ministério da Cultura deveria transformar Pontos de Cultura em comitês partidários. Seria um equívoco, porque a cultura brasileira é plural demais para caber dentro de um partido, de um governo ou de uma corrente ideológica. O que estou dizendo é outra coisa: uma política cultural democrática deveria formar sujeitos capazes de compreender o seu tempo e participar da vida pública, e isso é muito diferente de transformar cultura em instrumento de propaganda.

Aprendi isso muito antes de existir a Lei Paulo Gustavo ou a Política Nacional Aldir Blanc. Quem veio da educação popular sabe que o mais importante de um projeto não é apenas aquilo que acontece durante a oficina, o espetáculo ou a atividade, mas aquilo que fica depois. O jovem que participou da oficina começa a participar da associação; a comunidade que organizou um sarau passa a discutir a praça; o grupo cultural começa a reivindicar políticas públicas; o cineclube passa a discutir o bairro; o Ponto de Cultura deixa de ser apenas um lugar onde acontece uma atividade e se transforma em referência para a comunidade. É aí que a cultura deixa de ser somente programação e passa a ser organização social.

Talvez esse seja o ponto em que precisamos avançar. Durante muitos anos, nós aprendemos a disputar edital, preencher formulário, fazer plano de trabalho e prestar contas. Tudo isso é necessário, mas será que aprendemos, na mesma proporção, a construir redes? Será que conseguimos formar uma geração de agentes culturais capazes de conversar com a comunidade sobre democracia, direitos, comunicação, desinformação, participação popular e projeto de sociedade? Será que os Pontos de Cultura estão conversando entre si para além dos editais? Será que os Comitês de Cultura conseguiram se tornar uma presença permanente nos territórios? Será que os Agentes Territoriais de Cultura estão construindo vínculos que permanecerão depois do programa?

São perguntas que não diminuem o que foi feito. Ao contrário, só podem ser feitas porque muita coisa foi reconstruída. O próprio MinC reconhece que sua política precisa atuar para além do financiamento e apresenta os Comitês como uma rede voltada à educação popular, mobilização social e comunicação. O Ministério também vem desenvolvendo ações relacionadas à comunicação popular. Portanto, talvez o problema não seja a inexistência da rede, mas o fato de que essa rede ainda não adquiriu a densidade política, territorial e comunicacional necessária para funcionar como uma força social autônoma.

E isso não se resolve apenas com mais um edital. Precisa de tempo, formação, confiança, autonomia e comunicação, mas, sobretudo, precisa de gente encontrando gente. Foi assim que muitas experiências de organização popular nasceram no Brasil. Não nasceram de cima para baixo; nasceram da conversa na comunidade, da reunião na associação, da pastoral, do sindicato, do movimento de bairro, do grupo cultural, da escola, da igreja, do terreiro, do teatro, da música e da comunicação comunitária. Eu venho de uma geração que aprendeu alguma coisa com isso: uma sociedade organizada não se convoca pelo WhatsApp na véspera de uma manifestação; ela é construída antes, muito antes.

Talvez essa seja uma das diferenças entre uma política cultural que financia a sociedade civil e uma política cultural que fortalece a sociedade civil. A primeira transfere recursos; a segunda deixa capacidade instalada. E é essa segunda dimensão que precisamos discutir, porque não basta dizer que o Brasil possui milhares de Pontos de Cultura. Precisamos perguntar quantos deles possuem capacidade de articulação territorial. Não basta dizer que existem Comitês de Cultura em praticamente todos os estados; precisamos perguntar se eles conseguiram criar vínculos permanentes com as organizações de base. Não basta dizer que existem Agentes Territoriais; precisamos saber o que esses agentes conseguiram construir nos territórios e o que permanecerá quando o programa terminar. Não basta comemorar bilhões destinados à cultura; precisamos saber quantos novos sujeitos sociais foram formados com esses bilhões.

Essa talvez seja uma pergunta mais importante do que a quantidade de recursos executados, porque cultura não é apenas economia criativa, emprego e renda ou entretenimento. Cultura também é memória, identidade, pertencimento, comunicação, educação, disputa de narrativa e capacidade de imaginar outro futuro. Por isso mesmo, é também uma dimensão da democracia.

Talvez tenhamos demorado demais para compreender isso. Enquanto uma parte da sociedade aprendeu a ocupar as redes, produzir vídeos, construir narrativas e transformar ressentimentos em mobilização política, nós continuamos muitas vezes presos à velha lógica de que basta organizar uma boa atividade cultural. Não basta. Precisamos contar a história do que fazemos, disputar a narrativa, conversar com quem está fora dos nossos círculos, formar jovens, recuperar a memória, fortalecer a comunicação comunitária e aprender novamente a fazer educação popular. E precisamos fazer isso sem transformar a cultura em aparelho de governo ou de partido.

Essa é a parte mais difícil, porque uma rede cultural forte precisa ter autonomia suficiente para cobrar o governo que a financia. Precisa poder dizer “sim” quando concorda e “não” quando discorda. Precisa defender a democracia sem depender de nenhum governo para existir. Talvez seja justamente essa autonomia que possa produzir uma rede mais resistente. Quando a crise chega, não adianta procurar uma sociedade civil organizada se passamos anos tratando organizações culturais apenas como executoras de projetos.

É aqui que volto ao episódio dos aplausos. Enquanto alguns conseguem transformar uma figura pública mequetrefe como André Mendonça em símbolo de resistência, nós ainda estamos tentando descobrir como transformar milhares de experiências culturais dispersas em uma narrativa comum de defesa da democracia. Não precisamos de heróis; precisamos de gente organizada. Bertolt Brecht já havia percebido isso quando escreveu: “Infeliz a terra que precisa de heróis.” Talvez o nosso problema seja ainda mais profundo: estamos construindo uma democracia que, de tempos em tempos, sofre abalos de alta intensidade e  ainda não conseguiu construir suficientemente os sujeitos coletivos capazes de defendê-la.

É por isso que não consigo olhar para a política cultural apenas pelo tamanho dos recursos investidos. Reconheço a importância deles, mas quero saber o que ficou depois: que rede ficou, que consciência ficou, que organização ficou, que comunicação ficou e que capacidade de mobilização ficou? Se a resposta for que temos mais projetos, mais equipamentos, mais artistas contemplados e mais recursos chegando aos territórios, já teremos avançado bastante, mas ainda não será suficiente.

Precisamos dar o próximo passo: transformar política cultural em política de cidadania cultural, transformar Pontos de Cultura em pontos de encontro, transformar comunicação cultural em comunicação popular, transformar formação técnica também em formação cidadã e transformar a enorme diversidade cultural brasileira em uma rede de organizações autônomas, conectadas e capazes de dialogar com a sociedade. Não para defender Lula, o PT ou o Ministério da Cultura, mas para defender algo maior: a democracia, a liberdade, os direitos culturais e a possibilidade de uma sociedade organizada construir seu próprio futuro. Mas isso se o golpe engendrado por dentro do STF desta vez,  não produzir os efeitos esperados pelos seus idealizadores e operadores. 

Essa, para mim, é a pergunta que o atual ciclo do Ministério da Cultura ainda precisa responder. Não apenas quanto conseguimos reconstruir da política cultural, mas quanto conseguimos reconstruir da sociedade civil que deveria dar sentido a essa política. Porque, no final das contas, o desafio não é colocar mais gente para receber recursos públicos. É fazer com que mais gente se reconheça como sujeito da cultura, da cidadania e da democracia. E isso não se resolve com um novo edital. Resolve-se com visão estratégica, visão de futuro e com o aprendizado pelo que sofremos desde 1964, sobre porquê e como resistimos e avançamos durante todos estes anos, e também com as nossas derrotas. 

Duas canções  que dialogam com o que escrevi acima... 

Onde Estava Você - Guilherme Arantes (Video Clipe Oficial)






O interlocutor do texto abaixo  de 2006, é o mesmo que dialogou comigo no dia de hoje

OUTRO BRASIL? SOMENTE COM PARTICIPAÇÃO E ARTE.

1
Zezito de Oliveira · Aracaju, SE
27/10/2006 · 67 · 4

Certa feita, conversando com um amigo educador/artista, que reside na cidade de Olinda, em Pernambuco, sobre o modo de a esquerda governar, ele externou para mim algumas preocupações referentes ao modelo de gestão de muitas administrações progressistas que ele conheceu e que se moldam facilmente à cultura política das oligarquias locais e realizam, mesmo que de forma mais eficiente, uma gestão cuja prioridade são apenas as grandes obras, os programas assistenciais e os shows com grandes artistas ligados à cultura de massa, o que acaba lembrando uma canção do Cazuza: “Um museu de grandes novidades” ou parafraseando Belchior: “Minha dor é perceber que apesar de tudo que fizemos, ainda somos os mesmos, “pensamos” e administramos a coisa pública como os velhos coronéis.”

http://www.overmundo.com.br/overblog/outro-brasil-somente-com-participacao-e-arte-1

Caso não abra o link acima pode abrir o link abaixo> 

sábado, 18 de junho de 2022






Fábio Mitidieri e a cultura sergipana: entre a agenda cultural e a política de Estado

 o artigo analisa a política cultural do governo Fábio Mitidieri e as perspectivas apresentadas para um possível segundo governo, com base no seguinte mote: a diferença entre agenda cultural de governo e política cultural de Estado.

Por Zezito de Oliveira

Toda vez que chega uma grande festa, uma parte da política parece ganhar luz própria. Os palcos são montados, as bandas anunciadas, as autoridades aparecem, as redes sociais se enchem de imagens e os discursos falam em valorização da cultura, geração de renda, turismo e economia criativa. Por alguns dias, parece que a cultura finalmente ocupa o lugar que merece. Mas existe uma pergunta que costuma aparecer depois que o último caminhão deixa a praça, o último artista desmonta seus equipamentos e as luzes se apagam: o que ficou?

Não estou falando apenas da memória da festa ou do dinheiro movimentado, que também importam. Estou falando daquilo que deveria permanecer como política pública depois que termina o espetáculo. Essa questão me acompanha há algum tempo, talvez porque venho de uma geração que aprendeu a olhar para a cultura não apenas como entretenimento, mas como espaço de organização social, formação, memória, identidade e disputa por direitos. Antes de existir a expressão “economia criativa”, muita gente já fazia cultura nos bairros, nas comunidades, nas escolas, nas associações, nos grupos de teatro, nas quadrilhas, nos terreiros, nas rodas de capoeira, nas bandas, nos grupos de dança e nos coletivos juvenis. O Estado chegou depois, e talvez uma boa política cultural seja justamente aquela que não esquece disso.

É por esse caminho que venho olhando para a política cultural do governo Fábio Mitidieri e para aquilo que está sendo colocado no horizonte de um possível segundo governo. Não para fazer torcida, porque cultura pública não deveria ser campeonato de torcida, mas para tentar entender que concepção de política cultural está se formando em Sergipe. No fundo, permanece uma questão central: estamos construindo uma política cultural de Estado ou apenas ampliando uma agenda cultural de governo?

O problema não está na festa

É preciso dizer logo de saída que o problema não são os grandes eventos. Seria uma simplificação transformar Arraiá do Povo, Verão Sergipe, festivais, shows e grandes programações em vilões da política cultural. Um evento pode gerar trabalho, renda, circulação artística, ocupação do espaço público, turismo e acesso à cultura, além de criar oportunidades para artistas que dificilmente teriam espaço em outros circuitos.

A questão começa quando a programação de eventos passa a ocupar quase todo o campo de visão e deixamos de enxergar aquilo que acontece durante os outros onze meses do ano. Porque cultura não começa quando o governo anuncia uma programação: ela já estava lá, no grupo que ensaiou durante meses, na quadrilha junina que sobreviveu mais um ano, no mestre que continua ensinando, no jovem que descobriu o audiovisual, na mulher que mantém uma tradição familiar, no artista que paga do próprio bolso o transporte para uma apresentação, no Ponto de Cultura que funciona quase sem dinheiro, na associação que abre suas portas para uma oficina e no professor que transforma a sala de aula em espaço de criação.

É aí que a política cultural deveria chegar, não para substituir o que a sociedade já faz, mas para criar condições para que isso possa continuar existindo, se desenvolver e alcançar novos públicos.

Quando o Estado começa a enxergar quem já fazia cultura

Talvez uma das mudanças mais importantes dos últimos anos tenha vindo de fora dos governos estaduais. A pandemia mostrou de maneira brutal aquilo que muitos agentes culturais já sabiam: a cultura movimenta trabalho, mas uma enorme parcela dos trabalhadores da cultura vive em condições precárias. A Lei Aldir Blanc e, depois, a Lei Paulo Gustavo produziram uma espécie de choque de realidade, porque, de repente, o Estado precisou perguntar quem eram essas pessoas e descobriu uma multidão formada por artistas, técnicos, produtores, grupos, coletivos, espaços culturais, mestres e organizações comunitárias.

Foi uma experiência dolorosa, mas também reveladora. A cultura deixou de ser apenas uma rubrica para contratar artistas para uma festa e passou a ser tratada, em muitos momentos, como uma política de proteção e fomento ao trabalho. É nesse ambiente que precisamos compreender o que aconteceu em Sergipe durante o governo Mitidieri. O Estado recebeu e executou recursos importantes da Lei Paulo Gustavo e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, ampliando o número de editais e ações de fomento. Mas talvez o dado mais interessante não esteja apenas no dinheiro, e sim na tentativa de aproximar a política dos municípios e das comunidades culturais.

O interior não é uma extensão de Aracaju

Quando aparecem palavras como “interiorização” nos programas de governo, sempre fico com uma certa desconfiança, não porque interiorizar seja ruim, muito pelo contrário, mas porque já vimos muitas vezes a chamada interiorização se resumir a colocar uma programação em uma praça distante da capital. Isso é circulação de evento, mas não necessariamente é descentralização da política pública.

A diferença parece pequena, mas não é. Interiorizar uma política significa que o artista de Poço Redondo, Porto da Folha, Lagarto, Itabaiana, Propriá, Laranjeiras, Nossa Senhora da Glória ou Estância precisa ter condições de acessar informação, formação, financiamento, equipamentos, circulação e participação sem precisar descobrir sozinho como funciona a burocracia cultural de Aracaju.

Foi nesse sentido que chamou minha atenção a criação dos agentes territoriais vinculados à Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. Dois agentes em cada um dos oito territórios de planejamento podem parecer uma pequena engrenagem administrativa, mas podem se transformar em uma das experiências mais importantes se conseguirem construir uma ponte permanente entre o Estado e aqueles que normalmente ficam do lado de fora dos editais. Porque o problema muitas vezes não é falta de talento, mas falta de informação, de acesso, de formação, de documentação ou de alguém para explicar; e, às vezes, falta sobretudo alguém no Estado disposto a escutar.

Cultura Viva é outra conversa

Aqui chegamos a um ponto que considero ainda mais importante. Existe uma diferença entre o Estado perguntar “quem tem um projeto para receber recurso?” e reconhecer quem já faz cultura em determinado território e precisa ser fortalecido. Essa segunda perspectiva está muito mais próxima da lógica da Cultura Viva.

Os Pontos de Cultura não nasceram porque algum governo resolveu inventar cultura nos territórios. Eles existem porque a sociedade já produz cultura e encontrou formas próprias de organização. Por isso, fortalecer Pontos e Pontões de Cultura é mais do que executar um edital: é reconhecer que o Estado não é dono da cultura.

Talvez essa seja uma das mudanças de mentalidade que mais precisamos consolidar em Sergipe. Não precisamos de um Estado que diga às comunidades o que é cultura, mas de um Estado que ajude as comunidades a continuar fazendo cultura. Essa diferença é enorme.

E os mestres?

A mesma lógica aparece quando falamos dos mestres da cultura popular. A criação e implementação do Patrimônio Vivo da Cultura Sergipana é uma iniciativa importante porque desloca o olhar. Durante muito tempo, o poder público teve mais facilidade para preservar prédios do que pessoas; era mais fácil restaurar uma fachada do que garantir que determinado saber continuasse sendo transmitido.

Mas o patrimônio também está no corpo, na voz, na memória, na maneira de tocar um instrumento, de fazer uma comida, de dançar, de contar uma história, de rezar e de manter uma tradição. Quando o Estado reconhece um mestre enquanto ele está vivo, existe ali uma compreensão diferente da política cultural: não estamos apenas preservando o passado, mas tentando garantir que o passado possa conversar com o futuro.

O concreto também faz falta

É claro que precisamos de equipamentos. Quem vive a cultura sabe disso e não adianta romantizar a precariedade. Precisamos de teatros funcionando, museus estruturados, bibliotecas atualizadas, salas de cinema, espaços para ensaio, centros culturais, arquivos, espaços de formação e equipamentos descentralizados.

Por isso, os investimentos anunciados por meio do Viva-SE e os projetos envolvendo a Pinacoteca, o Museu do Forró, a Biblioteca Epiphânio Dória, o Palácio-Museu Olímpio Campos e outros equipamentos merecem ser acompanhados. Mas existe uma armadilha: um prédio bonito não é uma política cultural, uma inauguração não é uma política cultural. Um teatro reformado que permanece sem programação continua sendo um problema; uma biblioteca sem política de leitura é apenas uma biblioteca; um museu sem pesquisa e educação patrimonial pode virar uma sala silenciosa cheia de objetos.

O equipamento é importante, mas precisa estar integrado a uma política de programação, formação, acesso, preservação, pesquisa e participação social.

O segundo programa volta a bater na mesma tecla

É interessante observar o programa apresentado para 2026. Ele retoma várias ideias que já estavam presentes no programa de 2022: Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, fortalecimento dos mecanismos de financiamento, economia criativa, audiovisual, interiorização, patrimônio, culturas populares e afro-brasileiras, Cinema na Praça, Cultura sobre Rodas, Circuito de Eventos Regionais, equipamentos culturais e outros projetos.

Isso pode ser lido como continuidade, algo relevante numa área em que resultados estruturantes raramente aparecem em apenas quatro anos. Ao mesmo tempo, quando uma proposta retorna em um novo programa de governo, torna-se necessário confrontá-la com o que aconteceu no primeiro ciclo.

Foi realizada? Foi parcialmente realizada? Mudou de formato? Foi incorporada por outra política? Continua pendente?

Essa prestação de contas é necessária justamente porque uma política de Estado não pode depender da memória seletiva dos governos. O programa novo deveria dialogar não apenas com aquilo que se pretende fazer, mas também com aquilo que foi efetivamente realizado, com os resultados alcançados e com aquilo que não avançou.

Secretaria nova, velha questão

A proposta de uma Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa também merece atenção. Uma secretaria pode melhorar a coordenação, fortalecer o orçamento e aproximar cultura, economia criativa, turismo, patrimônio e desenvolvimento. Mas existe algo que aprendi acompanhando política pública: muitas vezes, o problema não está no nome da secretaria, mas naquilo que existe — ou não existe — dentro dela.

Orçamento, equipe, planejamento, participação social, conselho, fundo, transparência, avaliação, continuidade, diálogo com os municípios e relação permanente com os Pontos de Cultura são elementos que dão conteúdo à estrutura administrativa.

Podemos mudar o organograma e continuar fazendo a mesma política. Também podemos construir uma política consistente mesmo quando a estrutura administrativa não é perfeita. O nome importa, mas o conteúdo importa muito mais.

A cultura não pode ser apenas economia

Existe uma coisa boa no fato de a cultura ter entrado definitivamente na conversa sobre economia criativa: finalmente o poder público começa a reconhecer que cultura gera trabalho e renda. Mas precisamos tomar cuidado para não transformar esse reconhecimento em uma nova forma de reduzir a cultura, porque nem tudo precisa dar lucro para ter valor.

Uma roda de capoeira pode formar uma criança. Uma oficina de teatro pode recuperar a autoestima de um adolescente. Uma biblioteca pode mudar uma trajetória. Um grupo de tradição popular pode manter viva uma memória coletiva. Uma roda de conversa pode reconstruir vínculos. Um Ponto de Cultura pode ser mais importante para uma comunidade do que qualquer grande evento.

O valor da cultura não cabe inteiro numa planilha. Ela tem dimensão econômica, mas também tem dimensão simbólica e cidadã. Talvez seja justamente aí que esteja o equilíbrio que precisamos buscar.

E a juventude?

O programa de 2026 fala em integrar segurança, educação, assistência social, cultura, esporte e cidadania em uma política voltada para a juventude. É uma ideia que merece ser discutida, mas eu acrescentaria uma coisa: o jovem não é apenas alguém que precisa ser protegido, é alguém que produz cultura.

O jovem da batalha de rima, do audiovisual, do grafite, da dança, da música produzida no quarto, dos conteúdos criados pelo celular, do coletivo organizado no bairro, da quadrilha junina ou do teatro encontra na cultura uma maneira de dizer “eu existo”. Se a política cultural não conseguir conversar com essa juventude, continuará falando muito sobre futuro sem ouvir quem vai viver esse futuro.

A questão do orçamento

Todo discurso cultural costuma encontrar sua prova de realidade no orçamento. É fácil falar em valorização da cultura; mais difícil é reservar dinheiro para ela e garantir que esse dinheiro chegue aos municípios, aos artistas, aos grupos, às organizações e aos trabalhadores que sustentam a cultura durante o ano inteiro.

Para qualquer próximo governo, uma questão central deveria ser o volume de recursos próprios destinado permanentemente à cultura. Não apenas quanto virá de Brasília, quanto será captado ou quanto será anunciado para determinadas programações, mas quanto o próprio Estado considera necessário para manter sua política cultural funcionando.

Orçamento também é discurso. Só que é um discurso escrito em números.

De quem é a cultura?

Talvez essa seja uma questão que atravesse todas as outras. A cultura pertence ao governo, ao secretário, ao artista contratado, ao equipamento cultural, à empresa patrocinadora? Ou pertence à sociedade?

Minha experiência em educação popular, organização comunitária e cultura me ensinou que a resposta não pode ser outra senão a sociedade. O governo passa, a sociedade fica; o secretário muda, o grupo cultural continua; o mandato acaba, a cultura segue.

Por isso, uma política cultural verdadeiramente democrática não pode ser construída apenas de cima para baixo. Ela precisa ouvir, reconhecer, financiar, descentralizar, prestar contas e criar condições para que aqueles que historicamente fizeram cultura sem o Estado possam contar com o Estado sem deixar de ser protagonistas.

O que fica?

É nesse ponto que a discussão sobre a política cultural de Sergipe ganha maior importância. O governo Fábio Mitidieri apresenta elementos concretos que precisam ser acompanhados: a execução de recursos da Lei Paulo Gustavo e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, a ampliação dos editais, os agentes territoriais, o fortalecimento da rede de Pontos e Pontões de Cultura, o reconhecimento dos mestres da cultura popular e os investimentos em equipamentos culturais.

Ao mesmo tempo, permanecem questões que não podem ser resolvidas apenas com anúncios: o tamanho do orçamento próprio da cultura, a continuidade dos mecanismos de financiamento, o funcionamento dos espaços culturais, a participação social, a relação entre Estado e municípios, a descentralização das oportunidades e a capacidade de transformar ações isoladas em políticas permanentes.

É justamente aí que a discussão sobre um possível segundo governo ganha importância. O programa de 2026 retoma propostas anteriores e acrescenta outras, mas o desafio agora não é apenas anunciar mais iniciativas. É consolidar aquilo que já começou, explicar aquilo que não avançou e criar condições para que a política cultural não dependa da capacidade de cada governo produzir novidades.

Não precisamos descobrir se Sergipe tem cultura. Isso seria perder tempo. Sergipe tem cultura de sobra, tem memória, artistas, mestres, grupos, territórios culturais e uma juventude que continua inventando novas formas de expressão. O desafio está em construir uma política pública à altura dessa riqueza.

E isso não depende apenas de quem estiver no governo. Depende também da capacidade da sociedade civil, dos artistas, dos produtores, dos pesquisadores, dos Pontos de Cultura, dos conselhos, dos municípios e dos próprios cidadãos de cobrar, participar e propor. Uma política de Estado não nasce apenas dentro de um gabinete. Ela se consolida quando a sociedade consegue afirmar que a cultura não é favor, não é enfeite e não é apenas espetáculo: cultura é direito.

Talvez seja essa a questão que deveria acompanhar qualquer programa de governo daqui para frente: depois que a programação termina, o que terá ficado para a cultura sergipana?

É na resposta a essa questão que poderemos começar a distinguir uma política cultural de Estado de uma agenda cultural de governo.

Fontes para pesquisa — Fábio Mitidieri e a política cultural de Sergipe