sábado, 5 de setembro de 2026

O Rap do Silva ganha os corpos e as culturas de cada lugar

 Nos comícios de Lula pelo país, a dança de rua virou protagonista. De SP a MG, do RJ a São José do Rio Preto, jovens de coletivos locais reinventam o "Rap do Silva" com seus corpos, ritmos e identidades — e transformam o jingle em expressão da cultura periférica. A cena emociona quem vê e carrega uma história de luta pelo direito da juventude ocupar palcos, ser reconhecida e produzir cultura. A comunicação da campanha ainda parece não ter percebido a potência desses momentos. Não há matéria especifica e nem cortes desse momento para as redes digitais. 


Um dos momentos mais lindos dos comícios realizados pelo Presidente Lula em alguns estados do país é a apresentação de dança de rua, com grupos locais fazendo a releitura do Rap do Silva como jingle presidencial.

Uma das melhores sacadas da campanha é a canção. E, no caso dos comícios, a ideia fica ainda mais bonita quando ela é acompanhada por grupos de dança locais, de cada região, que colocam seus corpos, seus ritmos e sua identidade nessa releitura. O mesmo Rap do Silva vai ganhando outras formas, outros movimentos, outros sotaques, sem perder a sua força e a sua origem popular.

E a sacada é tão boa que o Flávio Bolsonaro pediu censura e André Mendonça aprovou. A tentativa de retirar o jingle da propaganda eleitoral acabou, de certa forma, revelando ainda mais a força e a repercussão que a música alcançou.

Quando assisti este momento no primeiro comício de lançamento, em São Bernardo do Campo, na histórica Vila Euclides, me apressei em escrever e publicar uma postagem no Blog da Cultura sobre a alegria e a emoção que senti. E quem conhece a minha história sabe o porquê.

Talvez seja difícil explicar em poucas palavras por que aquela cena me tocou tanto. Mas quem conhece a minha trajetória sabe que não estou olhando para esses meninos e meninas apenas como espectador de um espetáculo. Há muitos anos venho acompanhando, trabalhando e aprendendo com a cultura produzida nas periferias, especialmente com as culturas juvenis,  a dança, o hip-hop, o teatro, o audiovisual e tantas outras formas de expressão que nasceram e cresceram longe dos grandes centros e dos holofotes.

A Ação Cultural nasceu justamente desse compromisso: acreditar que os jovens da periferia não são apenas público ou beneficiários de projetos culturais, mas produtores de cultura, criadores, artistas e sujeitos de sua própria história. Desde as experiências com grupos de dança e iniciativas culturais no Conjunto Jardim e em outras comunidades, inclusive como assessor/produtor do Ponto de Cultura Juventude e Cidadania, tenho visto de perto o que acontece quando a juventude encontra espaço, reconhecimento e oportunidade para expressar aquilo que carrega dentro de si.

Por isso, quando vejo hoje esses jovens ocupando o palco de um comício presidencial, levando o street dance, o passinho e suas linguagens para dentro de um acontecimento político dessa dimensão, eu não consigo assistir apenas como quem vê uma bonita apresentação. Eu reconheço ali uma história que também é parte da minha história, uma luta antiga pelo direito de a periferia produzir, ocupar espaços e ser reconhecida pela sua cultura.

Naquele primeiro momento, talvez eu ainda não tivesse a dimensão de que aquela cena que tanto me emocionou se repetiria em outros lugares do país.

Em São Bernardo do Campo, o Rap do Silva ganhou a dança de rua e o street dance do Street Breakers Crew.

Em Belo Horizonte, na Praça da Estação, foram os dançarinos e coletivos representantes do Passinho de BH que fizeram a sua releitura coreografada.

No Rio de Janeiro, em Bangu, no Estádio Moça Bonita, foi a vez do Passinho Carioca. E ali havia algo ainda mais emocionante: 13 crianças do Complexo da Penha levando para o palco a linguagem do passinho carioca, ao som do Rap do Silva.

E agora, no dia de hoje, 05/09/2026, , em São José do Rio Preto, assisto novamente a uma apresentação nos mesmos moldes, com a dança urbana ocupando o espaço do comício e dando ao jingle uma nova dimensão.

É bonito perceber que não se trata apenas de uma música tocando em um comício. O Rap do Silva está sendo apropriado pela juventude, pelos grupos de dança, pelas culturas urbanas de cada território. A música é a mesma, mas os corpos que a interpretam são diferentes.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das melhores sacadas dessa iniciativa.

Porque quando uma campanha consegue fazer uma música chegar às periferias e, ao invés de apenas pedir que os jovens a escutem, oferece espaço para que eles dancem, criem, recriem e ocupem o palco com a sua própria linguagem, alguma coisa diferente está acontecendo.

Foi exatamente isso que enxerguei naquele primeiro comício e que me provocou tanta alegria e emoção. Talvez por isso tenha sentido a necessidade de correr para o Blog da Cultura e registrar o que estava vendo, no primeiro comício e hoje,  enquanto grande parte da cobertura política continua enxergando apenas o palanque, os discursos, as alianças e a disputa eleitoral.

E por isso continuo achando que essa iniciativa merece uma atenção especial da comunicação da campanha.

Produzir cortes desses momentos, valorizar os grupos locais, identificar os dançarinos, contar suas histórias e colocar esses vídeos nas redes seria uma forma muito mais potente de mostrar ao Brasil aquilo que está acontecendo nos palcos dos comícios.

Porque talvez a comunicação da campanha ainda não tenha percebido completamente a dimensão dessa iniciativa.

Não são apenas alguns minutos de dança.

São jovens de diferentes lugares do Brasil dizendo, através dos seus corpos, que também fazem parte dessa história.

E talvez seja essa a imagem que mais me emociona: o Rap do Silva deixando de ser apenas ouvido para ser dançado.





quinta-feira, 13 de agosto de 2026




Dois tesouros do cinema nacional chegam ao streaming pela primeira vez na Retrospectiva Helena Ignez

 Luísa Pécora

Jornalista e criadora do site Mulher no Cinema

Diante dos 22 filmes que integram a Retrospectiva Helena Ignez na Itaú Cultural Play, é natural que o espectador busque algum tipo de guia – recomendações do que ver para conhecer as mais de seis décadas de carreira de uma artista única que, aos 87 anos, segue trabalhando como atriz, diretora, roteirista e produtora.

Tal guia certamente incluirá marcos do cinema brasileiro, como O assalto ao trem pagador (1962); clássicos do Cinema Novo, como O padre e a moça (1966); obras realizadas em parceria com Rogério Sganzerla (1946-2004), como A mulher de todos (1969); e as obras que a própria Helena dirigiu, como A moça do calendário (2017).

Aproveito, então, para destacar dois filmes menos conhecidos que chegam ao streaming pela primeira vez graças à iniciativa da IC Play.

O primeiro é O grito da terra, de Olney São Paulo (1936-1978), lançado em 1964, ano do golpe militar no Brasil. A trama contrasta a história de duas jovens mulheres que vivem no sertão da Bahia, filhas de agricultores pobres. Mariá, personagem de Helena, quer ajudar sua comunidade a enfrentar a seca e a exploração de comerciantes e latifundiários. Já Loli, interpretada por Lucy Carvalho, vê a batalha como perdida e busca uma forma de ir embora.

Na época de seu lançamento, O grito da terra foi alvo de censura e teve sua trajetória limitada. Mais recentemente, o acesso à obra era restrito, pela falta de uma cópia digitalizada, que agora, com o suporte da IC Play, foi realizada a partir de matrizes em película guardadas pela Cinemateca Brasileira.

Outro filme da Retrospectiva Helena Ignez era não apenas raro, mas, de fato, inédito. América do sol, de Léo Duarte, foi rodado em 2000, de forma independente, numa parceria entre a produtora Plus Ultra e a Universidade Federal Fluminense (UFF). Os recursos cobriram as filmagens, mas não a finalização, realizada só agora, 26 anos depois, também com o apoio da IC Play.

A obra parte da descoberta de uma estranha criatura em águas brasileiras para brincar com a ficção científica e fazer crítica social. Numa participação breve, mas marcante, Helena reaparece como Sônia Silk, a protagonista de Copacabana, mon amour (1970), antológica até no nome.

Em seu icônico vestido vermelho, Sônia evoca tanto o Brasil que resiste quanto o espírito da Belair, produtora que Helena fundou com Júlio Bressane e Rogério Sganzerla nos anos 1970. América do sol não está no mesmo nível dos filmes do trio, mas reflete o impacto de um cinema feito com poucos recursos e liberdade total.

https://www.itauculturalplay.com.br/content/collections/retrospectiva-helena-ignez

| Veja mais

Site da Ocupação Helena Ignez

O cinema livre de Helena Ignez”

 “Helena Ignez – série +70”

Helena fala sobre Rogério Sganzerla

 Dica Cultural: Cinema Brasileiro de Graça na Sua Tela! 🎬

Você já conhece o IC Play? A plataforma de streaming do Itaú Cultural é 100% gratuita e dedicada exclusivamente a valorizar o audiovisual brasileiro.
Lá você encontra um catálogo diverso e descentralizado que é a cara da nossa cultura:
  • Filmes e séries de ficção
  • Documentários marcantes
  • Curtas-metragens e produções independentes
  • Mostras especiais de grandes festivais nacionais
O acesso é totalmente livre, sem pegadinhas ou assinaturas. Basta criar a sua conta e dar o play em produções de todas as regiões do país.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A ESQUERDA EM FRANGALHOS: PERDEU A ESTRELA OU AINDA PODE REENCONTRAR O CAMINHO?

Mais um artigo da série: Reflexão politica com música.

PARTE I — A ESTRELA CADENTE

Zezito de Oliveira

A letra de Bete Balanço, de Cazuza, que canta sobre uma mulher que segue sua própria estrela e não se curva às expectativas alheias, serve como uma metáfora poderosa para a crise de identidade que assola a esquerda contemporânea, tanto na Europa quanto no Brasil. A utopia da transformação social, que um dia foi a estrela-guia da esquerda, cedeu lugar a um "paraíso perigoso" onde se misturam dinheiro e dor, resultado da adesão ao neoliberalismo e da perda de contato com suas bases populares.

Na Europa, esse processo se manifestou de forma emblemática na adoção da "Terceira Via" pelos partidos social-democratas nos anos 1990, que, ao abraçar a desregulamentação financeira e a flexibilização trabalhista, apagaram suas diferenças em relação à centro-direita. Essa guinada fragmentou a tradicional coalizão que unia classe trabalhadora e classes médias progressistas, além da ascensão de pautas identitárias, e sem oferecer respostas concretas para a estagnação salarial e a precarização do trabalho, afastou o eleitorado popular, que se sentiu invisível e migrou para a extrema-direita.

A ilusão de que a nova esquerda radical poderia superar essas limitações foi duramente testada com o colapso de partidos como o Syriza, na Grécia, e o Podemos, na Espanha. O Syriza, que ascendeu prometendo romper com a austeridade da União Europeia, entrou em implosão após seu líder, Alexis Tsipras, convocar um referendo contra as medidas de austeridade, vencê-lo com 61% dos votos, e logo em seguida aceitar o resgate financeiro, o que foi sentido por sua base como uma traição, resultando em fragmentação interna e queda livre nas intenções de voto. Da mesma forma, o Podemos, nascido do movimento 15-M, que chegou a ter 69 deputados no Congresso, viu-se consumido por disputas internas e uma grave crise financeira, tornando-se irrelevante em diversas regiões da Espanha.

No Brasil, o reflexo dessa crise se manifesta de maneira particular, mas com consequências igualmente profundas. A despolitização promovida pelo consumo, que reduz a cidadania à capacidade de adquirir bens e substitui o "Cidadão Político" pelo "Cidadão Consumidor", corroeu os laços coletivos e o sentido de transformação pela via da organização e da participação social. A vitória de Jair Bolsonaro em 2018 é a evidência mais clara de uma crise de representação que a esquerda não soube ou não quis enfrentar, pois enquanto os partidos de esquerda se enredavam em debates em suas "salas", a população da periferia sentia-se abandonada.

O paradoxo da esquerda brasileira é sua centralidade em torno da figura de Lula, o que não é um sinal de força, mas de fragilidade estrutural, evidenciada pela falta de renovação de quadros, pelo descolamento dos programas sociais, que passaram a ser vistos como políticas de Estado, e pelo enfraquecimento no Nordeste, onde a projeção para 2026 é que a esquerda possa governar apenas 23% do eleitorado. Um dos exemplos mais eloquentes dessa desconexão com a realidade é a dificuldade crônica da esquerda em apresentar respostas para a segurança pública, enquanto estados governados pelo PT apresentam altas taxas de homicídio, e a direita ocupa o debate com discursos de "providências duras" que ressoam com o medo e a insegurança da população.

Esse cenário se agrava com a transformação da ordem global. A era da hiperglobalização, marcada pela rápida expansão do comércio, das cadeias produtivas internacionais e da integração dos mercados, parece ter chegado ao seu limite. Em seu lugar, emerge uma globalização mais lenta, regionalizada e fragmentada, marcada pela disputa entre grandes potências, pela reorganização das cadeias produtivas e pela busca de maior segurança energética, alimentar e tecnológica.

As lições da Europa para o Brasil são contundentes: a esquerda que não renova, morre; sem respostas concretas para questões como segurança, emprego e custo de vida, a direita ocupa o espaço; e o "efeito Lula" é finito. 





"Crème de la crème" (2): Minha Experiência no primeiro curso do Plano de Formação Artístico e Cultural de Aracaju

A professora Gisele Jordão abriu os trabalhos em 08/08/2026 na Universidade Tiradentes, e eu saí de lá com aprendizados muito importantes para toda a minha trajetória cultural.

A professora, pesquisadora e gestora cultural Gisele Jordão Costa ministrou a oficina de abertura do Plano de Formação Artístico e Cultural da Prefeitura de Aracaju, promovido pela Secretaria Municipal da Cultura (Secult Aju), no dia 8 de agosto de 2026, na Universidade Tiradentes. Com uma abordagem que combinou conceitos de trabalho em rede e território criativo a desafios práticos da gestão cultural, a atividade reuniu agentes e produtores culturais da capital sergipana e foi avaliada com nota máxima pelos participantes, que já aguardam os próximos encontros do programa de formação.

Foto: Divulgação

"Crème de la crème" é uma expressão francesa que significa "o creme do creme". É usada para indicar o melhor de um grupo, o topo da qualidade ou a nata de alguma coisa.

A professora, pesquisadora e produtora cultural Gisele Jordão é "crème de la crème" — e dificilmente alguém que participou do primeiro curso do Plano de Formação Artístico e Cultural da Prefeitura de Aracaju, promovido pela Secretaria Municipal da Cultura (Secult Aju), haverá de negar isso.

Gisele Jordão Costa é doutora em comunicação, gestora cultural e coordenadora do bacharelado em Cinema e Audiovisual da ESPM São Paulo. Desde 1993, atua como sócia-diretora da 3D3 Comunicação e Cultura, liderando grandes projetos e prestando consultoria em investimentos culturais. Suas pesquisas focam em consumo cultural e no poder de transformação social das artes.

E foi com ela — e com uma plateia de agentes culturais igualmente motivados — que vivi uma  experiência formativa bastante marcante em minha trajetória.


O Aprendizado Que Levo Comigo

O ponto alto da oficina, para mim, foi a discussão sobre trabalho em rede e território criativo. São conceitos que, no papel, soam bonitos e promissores. E, de fato, são. Mas foi justamente aí que veio o meu principal aprendizado — e também o meu maior alerta.

Percebi que falar sobre redes é uma coisa; construí-las, de fato, é outra bem diferente. O trabalho coletivo e em rede exige um aprendizado demorado, e confesso que não vejo tanta gente assim com essa prática consolidada por aqui. Já vimos iniciativas semelhantes em nosso estado que partiram apenas de boas intenções e não deram certo. Por isso, aprendi que o primeiro passo — e talvez o mais importante — é fazer um diagnóstico sério e aprofundado de quem são os agentes culturais da nossa cidade, quais são suas iniciativas e em que territórios eles estão inseridos. Sem esse mapeamento, qualquer tentativa de articulação corre o risco de se perder no caminho.


O Que Eu Gostaria de Ver na Próxima Formação

Tenho algumas ideias do que poderia tornar as próximas oficinas ainda mais ricas. Divido minhas sugestões em duas frentes: uma mais conceitual e outra mais prática.

No campo dos conceitos

Acredito que seria muito produtivo aprofundar a discussão sobre formação de redes e investimento em territórios criativos. Além disso, gostaria de explorar os conceitos de incubação e mentoria de iniciativas culturais. Para isso, tenho algumas sugestões de nomes que poderiam enriquecer o debate:

  • Alemberg Quindins, da Fundação Casa Grande, no Vale do Araripe (CE). Ele tem uma trajetória inspiradora em gestão comunitária e formação de jovens no sertão.

  • Pedro Jatobá, mestre em Gestão e Desenvolvimento Social pela UFBA e bacharel em Ciência da Computação, é pesquisador na área de cultura digital e um dos principais articuladores da Rede iTEIA de Cultura, Arte e Informação . Sua atuação no fortalecimento de pontos de cultura e na implementação de plataformas colaborativas — como a Rede Cultura Viva na Chapada Diamantina — o torna uma referência fundamental para pensar a integração entre tecnologia, economia solidária e gestão cultural comunitária

  • A própria Gisele Jordão, que já nos brindou com sua presença na abertura, poderia voltar para compartilhar sua experiência prática em São Luiz do Paraitinga (SP), onde desenvolveu projetos de forte impacto territorial. Sua fala na abertura já foi um aperitivo do que ela tem a oferecer.

No campo da gestão prática

Sinto que ainda precisamos de mais suporte em temas que são o "chão de fábrica" da produção cultural. Em uma próxima formação, adoraria ver módulos dedicados a:

  • Elaboração de planilhas orçamentárias;

  • Prestação de contas de projetos;

  • Processos de compras e contratação de pessoal.

São assuntos menos glamourosos, mas que fazem toda a diferença na hora de colocar um projeto no papel e, principalmente, de executá-lo com excelência.


O Que Pode Melhorar na Metodologia

Mesmo tendo avaliado a oficina de forma muito positiva — com nota máxima em organização, comunicação e duração — vejo dois pontos que poderiam ser ajustados para torná-la ainda melhor.

Teoria e prática de mãos dadas

Gostei bastante do formato de conferência dialogada, que Gisele conduziu com maestria. É dinâmico e instigante. Mas acredito que poderíamos ganhar muito com a inclusão de trabalhos em grupos menores, com o acompanhamento de um monitor qualificado. Essa dinâmica permitiria aplicar os conceitos na prática, trocar experiências de forma mais intensa e sair com resultados mais concretos.

Material de apoio

Um ponto que senti falta foi a entrega de um material didático. Um caderno, um guia ou mesmo um arquivo digital com os principais tópicos abordados seria de grande ajuda para consultar depois e consolidar o aprendizado.


Temas Novos que Eu Gostaria de Ver

Para os próximos ciclos formativos, tenho uma sugestão que considero muito valiosa: seria incrível que a Gisele Jordão apresentasse e discutisse conosco a pesquisa que ela realizou sobre o Panorama Setorial da Cultura Brasileira. Poderíamos fazer isso até de forma virtual. E, quem sabe, a partir desse exemplo, aplicar uma pesquisa semelhante com agentes e produtores culturais de Aracaju.

Essa ideia, aliás, se conecta diretamente com a necessidade de diagnóstico que eu mencionei antes. Conhecer o nosso próprio ecossistema cultural é o primeiro passo para fortalecê-lo.


Como Esta Oficina Me Ajudou na Prática

Em poucas palavras, posso dizer que a oficina foi importante porque me trouxe novas referências para a construção de sínteses relacionadas aos itens principais de um projeto cultural. Sempre é bom aprender outras maneiras de roteirizar e formatar a base dos nossos argumentos na hora de escrever. Esse é um aprendizado que vou levar para todos os meus projetos daqui para frente.


Conclusão: Uma Experiência que Valeu Cada Minuto

No fim das contas, saio da oficina com a sensação de que valeu muito a pena. Aprendi, questionei, sugeri e, acima de tudo, me senti parte de um movimento maior. A formação cumpriu seu papel de inspirar e oferecer novas ferramentas, mas também me mostrou que ainda há muito a ser feito.

E quando penso na qualidade do que vivenciamos, não há outra expressão que caiba melhor: foi, de fato, o "crème de la crème" da formação cultural em Aracaju.

Agora, fico no aguardo das próximas edições — e contem comigo para continuar participando, contribuindo e ajudando a fortalecer a cultura da nossa cidade. Que venham as próximas formações!    

NOTA EXPLICATIVA

Incubação e Mentoria de Iniciativas Culturais

A proposta de Incubação e Mentoria de Iniciativas Culturais fundamenta-se na concepção de ação cultural desenvolvida por Teixeira Coelho, nas experiências registradas pela Ação Cultural em seu Blog da Cultura e nos princípios da Política Nacional de Cultura Viva (PNCV).

Embora o termo “incubação cultural” não constitua uma categoria formal da Lei nº 13.018/2014, sua utilização pode ser compreendida como uma estratégia metodológica de fortalecimento das iniciativas culturais, coerente com os princípios de autonomia, protagonismo, formação, participação e articulação em rede presentes na Cultura Viva.

1. Ação cultural como criação de condições

No texto “Refundação da Ação Cultural”, publicado em 24 de agosto de 2023, o Blog da Cultura recupera a concepção de ação cultural de Teixeira Coelho, segundo a qual ela corresponde ao:

“processo de criação ou organização das condições necessárias para que as pessoas e grupos inventem seus próprios fins no universo da cultura.”

A referência é atribuída a Teixeira Coelho (1999, p. 33).

Essa concepção é fundamental para compreender a proposta de incubação. O papel da ação cultural não seria simplesmente oferecer atividades ou transmitir conhecimentos aos grupos, mas criar condições para que os próprios sujeitos culturais possam formular seus objetivos, desenvolver suas capacidades e construir seus caminhos.

Dessa perspectiva, a incubação deve evitar uma relação tutelar ou assistencialista. Seu propósito é fortalecer as capacidades já existentes nos grupos e coletivos, reconhecendo seus saberes, experiências, repertórios e vínculos territoriais.

O próprio Blog da Cultura retoma essa perspectiva ao discutir a importância de superar uma visão na qual poucos produzem cultura e a maioria apenas a consome. Em publicação relacionada à oficina “Cinema na Palma da Mão”, a Ação Cultural enfatiza a necessidade de ampliar não apenas o acesso à cultura, mas o “poder de fazer cultura”.

2. Incubação cultural

Nesse contexto, entende-se por incubação cultural um processo continuado de criação e organização de condições para que agentes, grupos, coletivos e organizações culturais possam estruturar, desenvolver, fortalecer e sustentar suas próprias iniciativas.

A incubação pode envolver:

diagnóstico das potencialidades, necessidades e desafios da iniciativa;

planejamento e organização das ações;

formação em produção e gestão cultural;

elaboração e aperfeiçoamento de projetos;

organização de portfólio;

comunicação e divulgação;

orientação para editais e mecanismos de financiamento;

acompanhamento e avaliação das ações;

sistematização das experiências;

formação e fortalecimento de redes;

construção de parcerias;

desenvolvimento de estratégias de sustentabilidade;

fortalecimento da autonomia dos agentes e grupos.

A diferença em relação a uma capacitação pontual está no caráter continuado do acompanhamento. Enquanto uma formação pode oferecer conhecimentos e ferramentas, a incubação procura acompanhar sua aplicação concreta e contribuir para que a própria iniciativa desenvolva capacidade de utilizá-los de maneira autônoma.

3. Mentoria cultural

A mentoria cultural pode ser compreendida como uma estratégia de acompanhamento e orientação, individual ou coletiva, voltada para desafios concretos enfrentados pelos agentes e grupos culturais.

O Blog da Cultura registra uma experiência particularmente relevante na publicação de 2018 sobre empreendedorismo cultural, na qual aparece a expressão “Mentoria (consultoria coletiva)”. A atividade incluía orientação sobre enquadramento de projetos culturais, marketing e formatação de portfólio.

A mentoria, portanto, pode apoiar os participantes na análise de seus projetos, identificação de oportunidades, resolução de problemas, tomada de decisões e aprimoramento de suas estratégias de atuação.

Nesse sentido, a mentoria pode constituir uma ferramenta dentro de um processo mais amplo de incubação.

Enquanto a incubação acompanha o desenvolvimento da iniciativa como um todo, a mentoria oferece orientação mais focalizada diante das questões e desafios que surgem ao longo desse percurso.

4. Relação com a Política Nacional de Cultura Viva

A proposta encontra correspondência direta com os princípios da Política Nacional de Cultura Viva, instituída pela Lei nº 13.018, de 22 de julho de 2014.

A legislação estabelece, entre os objetivos dos Pontos de Cultura, a necessidade de potencializar iniciativas culturais já desenvolvidas por comunidades, grupos e redes de colaboração, fortalecer a autonomia social das comunidades e estimular a articulação das redes sociais e culturais.

Esse princípio é fundamental para a concepção de incubação.

Incubar não significa criar uma iniciativa cultural de fora para dentro. Significa reconhecer uma experiência existente, identificar suas potencialidades e criar condições para que ela possa se desenvolver e ampliar sua capacidade de atuação.

A Cultura Viva, ao reconhecer e fortalecer iniciativas culturais existentes nos territórios, oferece um importante marco político-institucional para essa abordagem.

5. Pontos e Pontões de Cultura

A proposta também se relaciona com as funções atribuídas aos Pontos e Pontões de Cultura.

De acordo com o Ministério da Cultura, os Pontões de Cultura desenvolvem ações de mobilização, formação, mediação e articulação em rede, além de promover a articulação entre Pontos de Cultura e contribuir para processos de capacitação e mobilização.

Nesse contexto, uma metodologia de incubação e mentoria pode ser compreendida como uma ação estruturante de fortalecimento das redes culturais, articulando formação, acompanhamento, orientação, troca de experiências e desenvolvimento de capacidades.

As próprias experiências registradas pela Ação Cultural no Blog da Cultura, incluindo ações relacionadas à Rede Sergipe de Pontos de Cultura e ao Pontão Gestão Viva 3.0, demonstram a importância atribuída à qualificação da gestão, à formação e ao fortalecimento das iniciativas integrantes da Cultura Viva.

6. Autonomia como princípio orientador

Um dos princípios centrais da proposta é o desenvolvimento da autonomia.

A incubação não deve produzir dependência permanente dos grupos em relação aos especialistas ou à instituição responsável pelo acompanhamento. Ao contrário, deve contribuir para que os participantes desenvolvam progressivamente condições para:

elaborar seus próprios projetos;

planejar e executar suas ações;

administrar recursos;

comunicar suas atividades;

acessar políticas públicas;

estabelecer parcerias;

participar de redes;

avaliar seus resultados;

identificar oportunidades;

construir estratégias de sustentabilidade.

Nesse sentido, o resultado de uma incubação não deve ser medido apenas pela quantidade de atividades realizadas durante o processo, mas também pelo aumento da capacidade dos grupos de continuar atuando de forma autônoma após o encerramento do acompanhamento.

Essa perspectiva dialoga diretamente com Teixeira Coelho e com a definição de ação cultural como criação das condições para que pessoas e grupos possam “inventar seus próprios fins” no universo da cultura.

7. Síntese conceitual

A partir das referências apresentadas, propõe-se compreender:

Incubação cultural como um processo continuado de criação e organização de condições para que agentes, grupos, coletivos e organizações culturais desenvolvam seus próprios objetivos, fortaleçam suas capacidades de gestão e produção, ampliem suas redes e conquistem maior autonomia para sustentar e desenvolver suas iniciativas.

Mentoria cultural como uma estratégia de acompanhamento e orientação, individual ou coletiva, que mobiliza conhecimentos, experiências e ferramentas para apoiar agentes e grupos culturais na análise de desafios, no aprimoramento de projetos e na tomada autônoma de decisões.

Assim, a incubação constitui o processo mais amplo de desenvolvimento da iniciativa, enquanto a mentoria constitui uma das ferramentas de acompanhamento desse processo.

A proposta articula, portanto, três dimensões complementares:

Teixeira Coelho → ação cultural como criação de condições para que os sujeitos construam seus próprios objetivos;

Cultura Viva → reconhecimento, fortalecimento, autonomia e articulação em rede das iniciativas culturais;

Incubação e Mentoria → metodologia prática de formação, acompanhamento, orientação e desenvolvimento de capacidades.

8. Consideração final

A Incubação e Mentoria de Iniciativas Culturais pode, dessa forma, ser compreendida como uma metodologia de ação cultural comprometida com a autonomia, o protagonismo, a participação, a democracia cultural e o fortalecimento das redes.

Seu propósito não é substituir os sujeitos culturais, mas criar condições para que eles possam ampliar sua capacidade de fazer cultura, organizar suas iniciativas, acessar políticas públicas, construir redes e transformar seus próprios territórios.

Essa abordagem aproxima a prática da Ação Cultural da concepção de ação cultural de Teixeira Coelho e dos princípios estruturantes da Política Nacional de Cultura Viva.


  1. Referências

  2. AÇÃO CULTURAL. Refundação da Ação Cultural. Blog da Cultura, 24 ago. 2023. Disponível em:

    Acesso em: 4 set. 2026.

    AÇÃO CULTURAL. Como investir em empreendedorismo juvenil? Mormente no campo das iniciativas culturais, comunicação e tecnologia. Blog da Cultura, jun. 2018. Disponível em:

    Acesso em: 4 set. 2026.

    AÇÃO CULTURAL. “Rapadura é doce, mas não é mole!” resume bem o que foi o segundo dia da oficina “Cinema na palma da mão”. Blog da Cultura, mar. 2026. Disponível em:
    https://acaoculturalse.blogspot.com/2026/03/rapadura-e-doce-mas-nao-e-mole-resume.html

    Acesso em: 4 set. 2026.

    AÇÃO CULTURAL. Papo reto com Neri Silvestre — Falência do Coletivo: Reflexões sobre o Colapso Social, Cultural e Político no Brasil Neoliberal. Blog da Cultura, 18 mar. 2026. Disponível em:

    Acesso em: 4 set. 2026.

    AÇÃO CULTURAL. Compilado de postagens sobre a Rede Sergipe de Pontos e Teia de Cultura da fase 2 ou segunda geração (2001 a 2016) da Política Nacional Cultura Viva em Sergipe. Blog da Cultura, 2025. Disponível em:

    Acesso em: 4 set. 2026.

    AÇÃO CULTURAL. As cartilhas do Pontão Gestão Viva 3.0 estão no ar!!! Blog da Cultura, 26 maio 2026. Disponível em:

    Acesso em: 4 set. 2026.

    COELHO, Teixeira. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. 2. ed. São Paulo: Iluminuras, 1999.

    BRASIL. Lei nº 13.018, de 22 de julho de 2014. Institui a Política Nacional de Cultura Viva e dá outras providências. Brasília, DF, 2014. Disponível em:

    Acesso em: 4 set. 2026.

    BRASIL. Ministério da Cultura. Cultura Viva — Perguntas frequentes. Disponível em:

    Acesso em: 4 set. 2026.

    BRASIL. Ministério da Cultura. Portal Cultura Viva. Disponível em:

    Acesso em: 4 set. 2026.

    Nota metodológica

    As definições de “incubação cultural” e “mentoria cultural” apresentadas na nota constituem uma sistematização conceitual elaborada a partir das referências teóricas, legais e das experiências registradas pela Ação Cultural. Não se afirma que “incubação cultural” seja uma categoria formal prevista na Lei nº 13.018/2014.

    A proposta procura articular a concepção de ação cultural de Teixeira Coelho, as experiências de formação e acompanhamento desenvolvidas pela Ação Cultural e os princípios da Política Nacional de Cultura Viva, especialmente autonomia, protagonismo, participação, formação, fortalecimento das iniciativas existentes e articulação em rede.