quinta-feira, 18 de junho de 2026

7ª Capital Cultural do mundo, SP ataca suas próprias cenas criativas Com claro preconceito ideológico contra trabalhadores da cultura, cidade joga contra sua vocação Por Alê Youssef

 Um dos maiores desafios da cultura paulistana é a manutenção e o apoio aos pequenos ecossistemas culturais da cidade.

São Paulo vive um momento de intensa atividade artística, mas....

Bar Sirigoela, no Bixiga, emparedado pela prefeitura (Tom Sampaio/Arquivo pessoal/Divulgação) 
A coluna escrita por Alê Youssef na VEJA SÃO PAULO argumenta que, embora a cidade figure como a 7ª capital cultural do mundo segundo a revista Time Out, a gestão municipal adota políticas repressivas. Ele aponta um "claro preconceito ideológico" que asfixia pequenos ecossistemas criativos e penaliza trabalhadores da cultura. 
Os principais pontos levantados pelo autor incluem:
  • Potencial Subaproveitado: A cidade possui vocação cultural única e abriga a única representante da América Latina no top 10 global, mas caminha na direção oposta ao que poderia ser sua principal força econômica criativa. 
  • Ataques à Economia Criativa: Há um enfraquecimento contínuo dos pequenos ecossistemas culturais, refletido no fechamento de espaços históricos e na pressão sobre bares e casas de show.
  • Rigidez Institucional: O autor critica a aplicação rígida de normas urbanas sem mediação cultural, o que gera conflitos desnecessários com artistas e produtores.
  • Falta de Políticas Públicas: Denuncia-se uma escassez de apoio institucional e orçamentário, que sufoca os trabalhadores do setor e contraria a própria vocação cosmopolita de São Paulo. 

Leia o texto completo Veja SP.   AQUI   

Nota do editor do blog.

Lembrando Eduardo Dusek na canção barrados no baile. "Isso é o que  dá, votar na direita fisiológica e/ou extremista."



Esquerda segundo Lula na última reunião do G7 (gravação vazada), Noberto Bobbio, o saudoso PC Siqueira em junho de 2013 e Lenin, criticando o esquerdismo..

  A Esquerda em Questão — de Lula a Lênin

A recente fala do presidente Lula durante a reunião do G7, captada por microfones e rapidamente viralizada, trouxe à tona uma questão que parece atravessar a história recente da política brasileira — e mundial: afinal, o que significa ser "de esquerda"? Em conversa com líderes europeus, Lula afirmou que "nunca foi esquerdista" e defendeu que "o mundo é do caminho do meio". A declaração, surpreendente vinda de um ícone da esquerda latino-americana, reabre um debate que vai muito além da autodefinição de um político.


Entrevista coletiva concedida por Lula sobre a sua participação da reunião do G7. AQUI

Esta é uma discussão que Norberto Bobbio, um dos mais lúcidos pensadores da ciência política, já enfrentava ao afirmar que a distinção entre direita e esquerda, longe de ter perdido relevância, continua sendo uma bússola fundamental para a democracia — ainda que seus critérios sejam historicamente móveis e atravessados por juízos de valor. Para Bobbio, o que opõe fundamentalmente os dois campos é a posição diante da igualdade: a esquerda tende a favorecer políticas que reduzam as desigualdades; a direita, a considerá-las naturais ou mesmo desejáveis.




A complexidade dessa distinção ganhou contornos dramáticos no Brasil durante os protestos de junho de 2013. Naquele momento, o youtuber PC Siqueira e Diego Quinteiro publicaram um vídeo — "Globo e os Protestos" — que buscava definir o movimento como "de esquerda", orientando os manifestantes a rejeitar a cobertura da grande mídia e a aceitar a participação de partidos alinhados a esse espectro. A tentativa de fixar uma identidade política gerou enorme controvérsia entre os comentaristas, que reivindicavam para si um caráter apartidário ou, quando muito, "político sem ser partidário". O episódio revelou o quanto a definição de "esquerda" pode ser objeto de disputa, negociação e rejeição, mesmo — ou especialmente — em momentos de intensa mobilização popular.


O debate, no entanto, não é novo. Já em 1918 e 1920, Lênin dedicava textos como "Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo" e "Criançada Esquerdista" a criticar o que considerava um desvio infantil e pequeno-burguês dentro do próprio movimento revolucionário: a recusa intransigente a participar de instituições burguesas como parlamentos ou a incapacidade de calcular realisticamente a correlação de forças. Para Lênin, o "esquerdismo" era uma postura que, sob a aparência de radicalidade, servia objetivamente aos interesses da reação — uma advertência que ecoa com força quando observamos os movimentos contemporâneos que se recusam a qualquer mediação institucional.


É a partir desse mosaico — a pragmática autodefinição de Lula, a teoria crítica de Bobbio, a tentativa polêmica de PC Siqueira em junho de 2013, e a advertência leniniana contra os desvios do próprio campo progressista — que nos situamos e por isso buscamos trazer as diversas vozes do debate para cá. 

Sobre a fala de Lula, o que penso a respeito...

Lula ´é um humanista e social democrata. Neste caso de  centro-esquerda. Penso que ele gostaria de ser  um social democrata forte., o que significa dizer: A defesa da  conciliação entre o capitalismo e o forte papel do Estado, garantindo que o livre mercado seja regulado para promover igualdade social, serviços públicos universais (como saúde e educação) e forte proteção ao trabalhador.  Historicamente, esse modelo é a base de partidos e governos de centro-esquerda, sendo o "modelo nórdico" (países como Suécia, Noruega e Dinamarca) o exemplo mais clássico de social-democracia consolidada. Em entrevistas internacionais (como à rede norueguesa NRK), Lula já elogiou o sistema de bem-estar social dos países nórdicos, considerando-o um modelo de desenvolvimento e qualidade de vida que concilia crescimento econômico com forte amparo à população.

Zezito de Oliveira - Editor do blog da cultura

A Praça é Nossa: Entre o Sagrado e o Lazer Popular. Por Emanuel Rocha (*)

 8 de outubro de 2025  

Emanuel Rocha*

No coração urbano de Aracaju, a antiga Praça Tancredo Neves não é apenas um espaço de lazer; é memória viva, resistência silenciosa e testemunho de transformação. Sua história, marcada por camadas de barro, fé e convivência, reflete a própria cidade, unindo o sagrado, o cívico e o popular em um mesmo espaço.

Antes de se tornar praça, era uma colina de barro vermelho, vestida de matagais, na antiga elevação conhecida como “Alto da Boneca”. A comunidade, com seu esforço diário, retirava o barro para erguer casas de taipa, moldando o terreno e transformando-o em penhasco abrupto e de difícil acesso. Nesse ponto, elevado não apenas na geografia, mas na simbologia, consolidou-se o caráter religioso do espaço. No início da década de 1960, após negociações entre os frades capuchinhos e a Prefeitura, ergueram-se a Igreja e o Convento de São Judas, imprimindo à colina uma aura de fé que atravessa o tempo, silenciosa testemunha da devoção e da história.

Anos se passaram, e o espaço permaneceu adormecido, quase esquecido. Somente em 1985, durante a gestão do prefeito José Carlos Teixeira, o terreno acidentado recebeu urbanização e se transformou finalmente em praça. O nome escolhido, Tancredo Neves, ressoava esperança: homenagem ao primeiro presidente civil eleito após a ditadura militar, símbolo vivo da redemocratização brasileira.

Como tantas obras públicas da época, a praça logo mergulhou no esquecimento. A falta de cuidados apagou aos poucos o brilho conquistado. Somente em 1994, na administração do prefeito José Almeida Lima, uma ampla reforma trouxe fôlego ao espaço: o anfiteatro ganhou grades de ferro reaproveitadas da Praça Olímpio Campos. Ainda assim, o descuido retornou, e a praça, antes viva, permaneceu silenciosa, sob o peso do abandono que ameaçava sua história e a lembrança da comunidade.

Na gestão do ex-prefeito Edvaldo Nogueira, deu-se início, em 25 de abril de 2024, a uma grande reforma, prevista para ser concluída em 19 de fevereiro de 2025, com custo de R$ 1.944.054,29 (um milhão, novecentos e quarenta e quatro mil, cinquenta e quatro reais e vinte e nove centavos). A obra, fruto de indicação do então vereador Fabiano Oliveira, prometia devolver à comunidade um espaço digno, moderno e seguro. Anos antes, o ex-vereador Dr. Emerson havia apresentado a indicação para a mudança do nome da praça, que deixava de ser Tancredo Neves para se tornar Praça Frei Miguelangelo Serafine (Frei Miguel), em homenagem ao franciscano que dedicou sua vida à fé, à solidariedade e à comunidade.

Depois de cinco meses de atraso, a praça foi finalmente inaugurada, reunindo gestores, vereadores e comunidade para celebrar a conclusão da obra. O espaço ganhou nova vida, tornando-se ponto de encontro vibrante, memória viva e símbolo da história e identidade de Aracaju. Cada detalhe refletia cuidado, tornando a Praça Frei Miguel um local de lazer, convívio e cultura, pronto para abraçar gerações.

Mas o que muitos moradores testemunharam na inauguração foi um desfile de autoridades, algumas mais blogueirinhas que legisladores, disputando câmeras e sorrisos efêmeros. Raros conhecem o chão que pisam; tropeçam até no nome da praça e do santuário, revelando total falta de intimidade com a história e com o povo do bairro. Muitos desses legisladores e gestores, sem GPS, talvez jamais chegassem ao bairro América, na zona oeste de Aracaju, onde a vida pulsa longe dos holofotes, e onde a verdadeira história da comunidade se escreve a cada dia.

Quando a praça desperta plenamente, sua essência se revela em cada gesto e em cada som. Que a FUNCAJU conduza grupos teatrais, músicos e artistas populares, transformando a Praça Frei Miguel em um coração pulsante de lazer, arte e memória. Que a concha acústica ressoe com risos, canções e histórias, e que cada canto do espaço celebre encontros, sonhos e afetos, devolvendo à zona oeste a vitalidade de um tempo em que o bairro inteiro fazia da rua palco de vida e poesia.

Que a FUNCAJU dê vida e movimento à nossa praça, pois um espaço público não é apenas lugar de passagem ou comida: é ponto de convivência comunitária, de encontro, de troca e de expressão. A praça deve pulsar com arte, cultura, diversão e interação, oferecendo ao morador não só sustento, mas alegria, aprendizado e vivência coletiva. Afinal, uma praça sem vida é só concreto e chão, mas com cultura e movimento ela se transforma em território de sonhos, afeto e pertencimento.

E que cada morador compreenda seu papel. Preservar a praça, cuidar dos bancos, da iluminação e da concha acústica é gesto de cidadania e amor pelo bairro. Não basta esperar pelo poder público: é preciso zelar, proteger e manter viva a beleza conquistada com esforço. Afinal, a praça é nossa, e pertence a todos que acreditam que o espaço público é reflexo da comunidade que o habita.

*É historiador, coautor dos livros Bacias Hidrográficas de Sergipe, Unidades de Conservação de Sergipe e Bairro América: A saga de uma comunidade. Também atua como repórter fotográfico e poeta popular.

 Um problema anunciado desde a inauguração. A sugestão foi ter a guarda municipal fazendo rondas intensivas, assim também como um programa municipal contratando  fiscais da comunidade recebendo salário mensal para fiscalização, pode ser agentes jovens comunitários. Lembrando: Sem identificação, com papel de ser os olhos e ouvidos da gestão municipal.. 

Junto a isso o trabalho de educação patrimonial para e com os estudantes, mas isso para o médio e longo prazo..


Arte, fé e arquitetura: como a Emurb transformou a Praça dos Capuchinhos em referência para Aracaju

Obras e Urbanização
02/10/2025 11h38

Leia AQUI

Como na canção de Cazuza pode-se afirmar sobre Aracaju "O teu futuro é duvidoso, eu vejo grana, eu vejo dor". O que pode fazer os cidadãos e a sociedade civil para isso não se tornar plenamente realidade?

 Durante muito tempo, Aracaju foi reconhecida como uma capital de escala humana. Uma cidade relativamente tranquila, com deslocamentos curtos, boa qualidade de vida, custo de vida mais acessível que o das grandes capitais e uma relação urbana menos sufocante. Essa imagem ainda existe, mas começa a conviver com outra realidade: trânsito mais pesado, aluguel mais caro, maior disputa por localização, expansão imobiliária visível e uma sensação cada vez mais comum de que a cidade “encheu”.

O ponto central é que essa mudança não pode ser entendida olhando apenas para a população de Aracaju. Os dados mostram que o município-sede não teve uma explosão demográfica. Entre 2010 e 2025, Aracaju cresceu de forma moderada. O que está mudando, de maneira mais profunda, é a dinâmica da Região Metropolitana de Aracaju. 

Aracaju já não pode ser pensada como uma cidade isolada. Ela funciona como o coração de uma área urbana formada também por Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão. Muitas pessoas moram nesses municípios, mas trabalham, estudam, consomem, buscam atendimento médico, frequentam espaços de lazer e utilizam serviços em Aracaju. Ou seja: mesmo quando a população não mora oficialmente na capital, ela pressiona diariamente a estrutura urbana da capital.

Esse é um ponto que precisa entrar com mais força na agenda pública. O planejamento urbano não pode considerar apenas quem reside formalmente em Aracaju, mas também a população que utiliza a capital todos os dias. A cidade administrativa tem limites definidos no mapa; a cidade real, vivida no cotidiano, já ultrapassou essas fronteiras.

Essa mudança altera completamente a forma de planejar o futuro urbano de Sergipe. Se Aracaju continuar sendo administrada apenas a partir dos seus limites municipais, corre o risco de repetir, em escala menor, alguns problemas já conhecidos das grandes metrópoles brasileiras: congestionamentos crônicos, encarecimento da moradia, ocupação desordenada, desigualdade territorial, pressão sobre serviços públicos, perda de qualidade de vida e crescimento urbano sem coordenação.

A Região Metropolitana de Aracaju já se aproxima da marca de um milhão de habitantes. Somando Aracaju, Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão, as estimativas oficiais de 2025 chegam a 981 mil habitantes. Esse número, por si só, deveria acender um alerta. Não se trata de alarmismo, mas de planejamento. Entre 2010 e 2022, Aracaju cresceu de forma moderada, mas a Região Metropolitana cresceu mais que o município-sede. Uma metrópole não nasce de um dia para o outro. Ela se forma aos poucos, quase silenciosamente, até que seus problemas se tornam visíveis demais para serem ignorados. Quando isso acontece, o custo de corrigir é muito maior do que o custo de prevenir.

Barra dos Coqueiros é talvez o exemplo mais claro dessa nova fase. O município cresceu 66% entre 2010 e 2022 e mais de 80% quando se observa o período de 2010 a 2025. Passou a representar uma frente importante da expansão residencial da Grande Aracaju. Mas esse crescimento não ocorre separado da capital. Ao contrário: ele está fortemente relacionado à proximidade com Aracaju e reforça os fluxos diários em direção ao município-sede. O mesmo raciocínio vale, em diferentes medidas, para Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão, que também cresceram proporcionalmente mais que a capital no período recente.

O mercado imobiliário também revela sinais dessa pressão. No caso da locação residencial, os dados de preços anunciados indicam alta expressiva em Aracaju nos últimos anos. Entre 2022 e abril de 2026, a alta acumulada dos aluguéis chegou a cerca de 92%, acima da média nacional acompanhada pelo FipeZAP no mesmo período. Esse dado não explica tudo sozinho, mas reforça a percepção de que a disputa por moradia e localização está mais intensa. Isso afeta diretamente a vida das famílias, especialmente das de renda média e baixa, que passam a ter mais dificuldade para morar perto do trabalho, dos serviços e das áreas mais estruturadas da cidade.

O trânsito é outro sintoma evidente. A frota registrada em Aracaju passou de cerca de 206 mil veículos em 2010 para mais de 356 mil em 2024. Em termos simples, a capital saiu de aproximadamente 36 para 56 veículos a cada 100 habitantes. Esse aumento não prova, sozinho, a origem dos congestionamentos, mas mostra que a pressão viária cresceu. E a mobilidade urbana já não pode ser tratada como um problema apenas de Aracaju. Quem atravessa pontes, avenidas de ligação e corredores de entrada e saída da capital sabe que o deslocamento cotidiano é metropolitano. O cidadão pode morar em um município, trabalhar em outro, estudar em um terceiro e consumir serviços na capital. A cidade real já ultrapassou a cidade administrativa.

Por isso, o planejamento precisa mudar de escala. Aracaju, Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão precisam ser pensadas conjuntamente. Mobilidade, habitação, saneamento, drenagem, uso do solo, transporte público, saúde, educação, turismo e desenvolvimento econômico não respeitam fronteiras municipais. O problema de um município rapidamente se transforma em problema de todos.

Sergipe tem uma vantagem: ainda há tempo. Aracaju ainda não enfrenta, na mesma intensidade, os dramas urbanos de capitais maiores. Ainda preserva qualidades que fazem dela uma cidade desejada. Mas justamente por isso é preciso agir agora. O maior erro seria esperar que os problemas se consolidem para só então buscar soluções.

A experiência das grandes metrópoles brasileiras ensina que crescimento urbano sem governança cobra um preço alto. Quando o planejamento chega atrasado, a cidade já está mais cara, mais desigual, mais congestionada e mais difícil de organizar. Aracaju não precisa seguir esse caminho.

O desafio é antecipar o futuro. Isso exige fortalecimento da governança metropolitana, planejamento de transporte de massa, corredores metropolitanos, política habitacional articulada, controle da expansão urbana, fortalecimento dos dados públicos e decisões baseadas em evidências.

Mais do que discutir se Aracaju “cresceu muito” ou não, é preciso reconhecer que Aracaju mudou de função. Ela deixou de ser apenas uma capital administrativa de porte médio e passou a funcionar como núcleo de uma região metropolitana em intensificação. Essa mudança já aparece no cotidiano das pessoas, nos preços, nos deslocamentos e na ocupação do território.

O nosso futuro urbano será decidido pela capacidade de enxergar essa transformação a tempo. Aracaju ainda pode crescer com qualidade, equilíbrio e planejamento.

Ignorar esse processo seria permitir que Aracaju perca justamente aquilo que sempre foi uma de suas maiores virtudes: a qualidade de vida. Planejar agora é a melhor forma de evitar que a capital sergipana sofra amanhã os mesmos problemas que hoje castigam as grandes metrópoles brasileiras.

Por Lucas Pedrosa

Especialista em Gestão Pública


terça-feira, 16 de junho de 2026

MAGNIFICA HUMANITAS de LEÃO XIV: o processo histórico e a Doutrina Social da Igreja (I) -Por Padre José Soares - Arquidiocese de Aracaju

NO CAMINHO histórico da Doutrina Social da Igreja ou Ensino Social, deixamos a poeira baixar – é um ditado popular muito forte – para nos manifestar sobre a primeira encíclica do Papa Leão XIV. Vamos elaborar dois ou três textos que possam nos ajudar a debater pontos da história entre Leão XIII (1878-1903) e o atual pontificado de Leão XIV, destacando mais os traços que são importantes para a compreensão e discussão da encíclica no campo da Doutrina Social, com relevo para a política social. São pontos fundamentais para o atual contexto em que vivemos de desmonte da democracia e pouca leitura eclesial por parte da maioria das pessoas, incluindo o clero e fiéis que seguem a Igreja.

Fotografia de Gianni Novelli, publicada  na revista Mosaico di pace (julho-agosto de 1993), promovida pela Pax Christi.

No final do século XIX os desdobramentos da Revolução Industrial se espalharam por todo mundo e a Europa fervilhava de debates e protestos que apontavam para um novo tempo. É salutar recordar que Karl Marx já tinha elaborado o Manifesto Comunista em 1848 e a pergunta era: a Igreja não vai se manifestar? Com todo o fervilhar das teorias modernas, a Igreja tem algo a dizer? A Rerum Novarum - vejam a tradução, Coisas Novas – no ano de 1891, colocou a Igreja dentro dos embates na época e o Papa Leão XIII trouxe para o debate com essa encíclica um tema central: a questão operária. Vejamos o que acena Leão XIV: “Se, na sua época, Leão XIII falava de «novas questões» (rerum novarum), hoje não podemos simplesmente repetir os seus preciosos ensinamentos, mas devemos pedir a Deus a sabedoria para interpretar as grandes tendências do nosso tempo, em particular os progressos da técnica” (Magnifica Humanitas, n. 4).
NAS PEGADAS de Jesus e do seu evangelho, a Igreja não só pode, como deve debater questões de ordem social, cultural e política, pois ela está mergulhada no mundo e deve ser luz que ilumina e aponta caminhos, absorvendo as angústias e dores do tempo em que vivemos (Gaudium et Spes, n. 1). Uma Igreja com fisionomia querigmática, hospitaleira, samaritana, amorosa e profética. Talvez para alguns esses traços ficaram no passado, mas para os papas atuais eles são condizentes e merecem todo aprofundamento que faça ressoar a voz de uma Igreja saudável.
NAS PEGADAS do Papa Leão XIV, temos que abraçar as provocações da Rerum Novarum e perceber que existe um eixo – normalmente costumamos chamar de ‘continuidade’ no pensamento do magistério da Igreja – forte que une a D.S.I. a todo o pensamento teológico e que podemos sempre nos perguntar: o que trouxe de contundente (herança) a Rerum Novarum, para nosso tempo do séc. XXI? E o Papa Leão descreve na Magnifica Humanitas: “Com esse espírito, Leão XIII publicou, em 1891, a Encíclica Rerum novarum, cujo 135º aniversário celebramos este ano com viva gratidão. O meu amado Predecessor deu impulso, com este documento, àquela reflexão sobre a sociedade, a economia e a política a que hoje chamamos “Doutrina social da Igreja”. E quando alguns contestavam que a Igreja não devia desperdiçar energias em questões mundanas, mas preocupar-se em comunicar uma mensagem de vida eterna, ele respondia com realismo e sabedoria que o anúncio do Evangelho não pode esquecer a vida concreta dos povos” (n. 3).
QUEREMOS TAMBÉM dialogar com todos e todas sobre uma metáfora que utilizamos em algumas aulas e é fruto de nossas pesquisas e leituras. Trata-se das ‘janelas’ da Doutrina Social da Igreja’. Elas são os lugares de muita poesia, beleza e observação social, quando a realidade nos interpela e nos deixa atônitos; elas formam o quadro ideal para que a humanidade seja vista com realismo que apaixona; elas também mostram a dureza dos fatos e nos convidam a interferir na realidade para tentar melhorar. Foi assim que a sociedade e o mundo tornaram-se foco de observação para os papas, para uma legitima crítica social e política e para que a Doutrina Social se estabelecesse. Por isso, nesse primeiro momento podemos acenar para três ‘janelas’ muito importantes – nos próximos textos veremos outras com detalhes – e que são as seguintes:
1ª Janela: o pontificado de João XXIII com suas encíclicas Mater et Magistra (1961) e Pacem in Terris (1963). No caminho da compreensão da nova encíclica de Leão XIII, temos que resgatar as bases colocadas por S. João XXIII, o Papa Bom. O que nos interessa nessa janela não é tanto os detalhes das encíclicas, mas o fato de saber que o pontificado corajoso de Roncalli, representou um tempo de transição entre o pré-Concílio e a própria recepção do Concílio. No momento gritante da guerra fria entre EUA e URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), as palavras, a atuação corajosa e os documentos desse papa, foram fundamentais para minorar a possibilidade de uma terceira guerra. Cada época e cada tempo, como diz o Papa Leão XIV (Magnifica Humanitas, n. 1), mostra a pertinente atuação da Igreja e de sua Doutrina Social. A janela de João XXIII foi capaz de retomar a D.S.I e abrir caminhos de diálogo num mundo fraturado e marcado pelo ódio.
2ª. Janela: o próprio Concílio Ecumênico Vaticano II foi uma janela fundamental que ajudou a consolidar no séc. XX a Doutrina Social da Igreja. O Concílio deu a entender a todos e todas, que a base de atuação para a Igreja seria o diálogo e não a imposição de sua doutrina. Colocou no ecumenismo – Decreto Unitatis Redintegratio – e na Gaudium et Spes – a Igreja no Mundo de Hoje – boas colunas que provocaram na sociedade da época e depois do Concílio, a noção de que a Igreja jamais poderia se afastar das demandas sociais e políticas num mundo marcado pela tensão das guerras e pela fome. Doutrina Social é resposta contundente da Igreja que se preocupa com os últimos e os sofredores.
3ª Janela: a Constituição Gaudium et Spes. Fecharemos esse texto provando que a G.S. pode ser compreendida a parte na discussão da Doutrina Social. Encontramos em alguns números da constituição as respostas que a Igreja já deveria ter dado antes a sociedade; como os números 1, 6, e 22. E para concluir, vamos a uma bela relação com a encíclica Magnifica Humanitas que é a seguinte: as duas primeiras citações do Papa no documento, colocam de modo extraordinário a Gaudium et Spes. Diz o Papa, os cristãos devem olhar para o verbo encarnado e mudar a história sabendo que “o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente” (M.H., n. 1, citando a G.S., n. 22). E destaca no n. 2: “Desejamos entrar em diálogo com todos os homens e mulheres do nosso tempo, com os quais partilhamos os acontecimentos, as questões e as aspirações da humanidade”. Ele põe no documento a citação da G.S. n. 11, que põe as aspirações e as lutas atuais da humanidade, dentro da vontade de Deus e a Igreja deve enxergar esses desafios.
No próximo texto veremos mais duas janelas e o capítulo primeiro da nova encíclica.
P. José Soares de Jesus – CEBs de Aracaju e pároco na S. Pedro Pescador.
- G.S. (Gaudium et Spes. Constituição do Vaticano II).
- M.H. Magnifica Humanitas, Papa Leão XIV.

A fotografia é da grande manifestação contra os Euromísseis,   que ocorreu em Roma em 22 de outubro de 1983 e contou com a presença de um milhão de pessoas. Prevost, que havia sido ordenado sacerdote pouco mais de um ano antes (junho de 1982) e estudava Direito Canônico em Roma, estava na praça protestando pela paz junto com seus companheiros agostinianos, outros religiosos e diversos grupos cristãos. 

A fotografia, que também inclui Prevost, foi tirada por Gianni Novelli, um padre estigmatino, um “padre dissidente”, editor da revista Com-Nuovi Tempi , envolvido em comunidades cristãs de base (particularmente a Comunidade de São Paulo em Roma), fundador e por muitos anos presidente do Cipax (Centro Interconfessional para a Paz) e um incansável ativista pela paz que faleceu em novembro de 2023. Foi publicada pela primeira vez há mais de trinta anos na revista Mosaico di pace (julho-agosto de 1993), promovida pela Pax Christi, acompanhando uma entrevista sobre questões de paz com o padre agostiniano americano Robert Dodaro, professor de teologia no Instituto Patrístico “Augustinianum” em Roma. 

No final de novembro de 2025, Monsenhor Giovanni Ricchiuti, presidente nacional da Pax Christi, presenteou o Papa Leão XIV com a fotografia durante um encontro com o pontífice. Ele já se manifestava, portanto, pela paz e contra a guerra e o rearme no início da década de 1980.   Fonte: https://ilmanifesto.it/prevost-pacifista-in-piazza-storia-di-una-foto


Abaixo uma boa canção para introduzir a discussão da Enciclica "Magnifica Humanidade" em grupos de estudo, de formação, de debate e etc.. 



Reflexão sobre ciência e poder em “Queremos Saber”
Em “Queremos Saber”, Gilberto Gil utiliza referências à ciência moderna, como "antimatéria" e "raio laser", para levantar questões sobre quem realmente se beneficia dos avanços tecnológicos. No verso “Queremos notícia mais séria / Sobre a descoberta da antimatéria / E suas implicações / Na emancipação do homem / Das grandes populações”, Gil deixa claro que seu interesse está em como essas descobertas podem contribuir para a liberdade e o bem-estar das pessoas, especialmente das camadas mais pobres da sociedade. Ele critica a possibilidade de que o conhecimento científico seja usado apenas para reforçar desigualdades ou atender a interesses restritos.
A música adota um tom questionador ao exigir transparência e responsabilidade no uso das novas invenções, como em “Queremos saber o que vão fazer / Com as novas invenções”. O trecho “Prever qual o itinerário da ilusão / A ilusão do poder” serve de alerta para os perigos de se buscar poder por meio do conhecimento sem considerar as consequências éticas e sociais. Ao citar o “mistério da luz” e a “luz do disco voador”, Gil sugere que ainda há muito a ser compreendido, inclusive sobre fenômenos que fogem à explicação racional. Dessa forma, a canção se transforma em um apelo coletivo por acesso ao conhecimento, ética e reflexão, defendendo que o saber deve ser compartilhado e usado para o bem comum. Fonte:  https://www.letras.mus.br/gilberto-gil/335546/significado.html


A encíclica de Leão XIV “Magnifica humanitas”: áudio e texto

No 135º aniversário da “Rerum novarum”, o Pontífice reflete, em sua primeira encíclica, “Magnifica humanitas”, sobre a Doutrina Social da Igreja na era da inteligência artificial.


serça-feira, 26 de maio de 2026