sexta-feira, 3 de julho de 2026

"Super El Niño" à vista: O que Sergipe e Aracaju planejam para a crise climática e os graves vazios ignorados? EDITORIAL

JUSTIÇA CLIMÁTICA E CULTURA: UM ALERTA DE SERGIPE PARA O SUPER EL NIÑO DE 2026/2027

A seca não será apenas natural; será também política. E a cultura não pode ficar de fora dessa trincheira.

Se os noticiários e os boletins do INMET já acenderam o sinal vermelho, nós, agentes culturais de Sergipe, acendemos um alerta ainda mais profundo: a crise climática que se avança sobre Aracaju e todo o estado é, antes de tudo, uma crise de direitos, de território e de planejamento. E, sim, é uma crise cultural.

Enquanto o Governo do Estado e a Prefeitura de Aracaju correm para montar uma "Sala de Situação" para monitorar o temido fenômeno El Niño 2026/2027 — que ameaça se consolidar como um "Super El Niño" com secas severas e ondas de calor extremo a partir de agosto — nós que atuamos no chão das periferias, das escolas e dos territórios criativos sabemos que a preparação oficial ainda é uma armadura furada.

E por que este é um assunto para o blog da Cultura? Porque não há cultura sem corpo, sem território e sem água. Porque o artista que faz sua roda de capoeira no asfalto quente, o mestre que realiza suas festas tradicionais nas comunidades e o educador que conduz oficinas nas salas de aula sentirão na pele o peso deste fenômeno. A cultura não é um acessório da vida; ela é a expressão viva da vida. Sendo assim, defender a vida diante da emergência climática é também defender a cultura.

Abertura de canalização na Zona de Expansão (Foto José Firmo)

O QUE OS GOVERNOS ESTÃO FAZENDO (E ONDE ELES FALHAM)

Reconhecemos os esforços iniciais: a criação da Sala de Situação na Seplan, unindo Semac, Adema, Sedurbi, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros, é um passo técnico importante. A elaboração de um Plano Estadual de Mitigação e a articulação para a Operação Carro-Pipa são medidas reativas que podem salvar vidas no curto prazo.

Contudo, o que se anuncia nos corredores do poder ainda é insuficiente e profundamente injusto. Embora a Prefeitura de Aracaju tente ensaiar uma reação com a abertura da revisão de seu Plano Diretor e a Câmara Municipal tenha iniciado em julho de 2026 a votação da Política de Emergências Climáticas (PL 150/2026), a capital corre contra o tempo. Enquanto os novos textos legais arrastam-se pela burocracia, a cidade é regida por diretrizes de ocupação urbana que completam 26 anos de defasagem, baseadas em dados de 1995.O reflexo mais agudo desse atraso está na Zona de Expansão. Transformada em um canteiro de obras sem a infraestrutura correspondente, a região virou alvo de uma intervenção drástica do Ministério Público Federal, que em maio de 2026 recomendou o embargo de prédios acima de quatro andares até que estudos ecológicos e obras de macrodrenagem saiam do papel. Somado a isso, o imbróglio jurídico que redesenha os limites territoriais com São Cristóvão pulveriza as responsabilidades de fiscalização.Para especialistas locais, frear esse caos exige que o novo Plano Diretor adote soluções urbanísticas focadas no clima. Urbanistas defendem a transformação das margens dos canais em parques lineares, a exigência de afastamentos maiores entre prédios para liberar os ventos do litoral e a blindagem total das dunas. Sem a implementação de pavimentos permeáveis e o estímulo a telhados verdes, as áreas de preservação — escudos térmicos vitais contra os extremos climáticos — continuarão sendo substituídas por um asfalto que apenas aprisiona o calor e amplifica as enchentes.

A ausência de um orçamento claro no Plano Estadual de Mudanças Climáticas (PEAC) e a falta de políticas agressivas de arborização e infraestrutura verde nos bairros periféricos revelam uma triste verdade: a população mais pobre e vulnerável de Aracaju será a primeira a sucumbir ao estresse térmico e à falta d'água, enquanto o poder público trata a natureza e a periferia como meros obstáculos ao progresso imobiliário.

A VOZ DA TEIA NACIONAL ECOA NO TERRITÓRIO SERGIPANO

Nós, da Ação Cultural, estivemos presentes nas discussões da Teia Estadual e da 6ª Teia Nacional sobre Justiça Climática. Lá, ouvimos com clareza o que deve nortear nossas ações: a Justiça Climática não se resume a satélites, termômetros ou decretos emitidos em gabinetes refrigerados. Ela exige participação popular, escuta ativa das comunidades, preservação da memória biocultural e a garantia de que os ecossistemas — como nossas dunas e reservas hídricas — sejam tratados como patrimônios imateriais da nossa gente.

O que vemos hoje em Aracaju é a negação prática de tudo isso. O poder público planeja a "gestão do desastre", mas se recusa a planejar a prevenção estrutural. Falta vontade política para atualizar o Plano Diretor, falta verba para o saneamento básico que amplifica os efeitos da estiagem e falta coragem para frear o avanço do concreto sobre a natureza.

Ao publicarmos este editorial, estamos fazendo a ponte que a Teia Nacional nos ensinou: trazer o debate macro para a realidade micro do nosso quintal. Não podemos aceitar que a preparação para o El Niño se limite a mapas e reuniões técnicas que excluem os movimentos sociais, os urbanistas populares e os fazedores de cultura que conhecem as dores e as potências de cada bairro.

UM CHAMADO AOS FAZEDORES DE CULTURA  E À SOCIEDADE

Este não é um texto sobre meteorologia. É um texto sobre sobrevivência cultural. O calendário de festejos, as oficinas comunitárias, as rodas de cultura e a agricultura familiar que abastece a cozinha dos nossos artistas serão diretamente impactados pelo calor extremo e pela seca. Se não nos anteciparmos, seremos engolidos pela lógica reativa que o governo parece adotar.

Por isso, conclamamos:

A classe artística e os Pontos de Cultura a incluírem a pauta climática em seus projetos e planejamentos para 2026 e 2027 e doravante. A arte salva vidas, e precisa estar preparada para o cenário adverso.

A sociedade civil a cobrar da Prefeitura de Aracaju a urgente atualização do Plano Diretor e a criação de um Plano Municipal de Enfrentamento às Mudanças Climáticas com participação popular efetiva.

O Governo do Estado a destinar orçamento claro e transparente para o PEAC, integrando dados e, principalmente, integrando as comunidades nas decisões sobre os recursos hídricos e a infraestrutura verde.

NOSSO COMPROMISSO

A Ação Cultural, enquanto Ponto de Cultura, reafirma seu papel de formadora de opinião, articuladora de redes e defensora da vida integral. Estivemos na Teia para ouvir, debater e aprender. Voltamos ao nosso território para agir, denunciar e propor.

Não se trata apenas de pedir água quando o açude secar. Trata-se de exigir que nossas cidades sejam planejadas com alma, com sombra, com saneamento e com justiça. A cultura tem a força de aquecer corações, mas hoje precisamos que ela também esfrie o asfalto e regue a esperança.

O clima está mudando, e a cultura não pode ser apenas espectadora. Ela deve ser a voz da resistência e a mão que constrói o amanhã. Que a 6ª Teia Nacional não seja apenas um evento, mas um marco que nos impulsione a ocupar as salas de situação e as câmaras municipais com a mesma paixão que ocupamos os palcos e as ruas.

POR QUE ESTE EDITORIAL FOCA EM ARACAJU E NO GOVERNO DO ESTADO? UMA JUSTIFICATIVA METODOLÓGICA

A concentração do nosso olhar crítico sobre o Governo do Estado e a Prefeitura de Aracaju não é um capricho editorial, mas uma decorrência direta da primazia legal, orçamentária e territorial que cada um desses entes exerce sobre os fatores que agravam ou mitigam a crise climática em Sergipe. A pesquisa que embasa este alerta nos impõe três recortes inegociáveis:

A primazia do Governo do Estado sobre a água e a emergência em larga escala: Cabe ao Executivo Estadual a gestão das bacias hídricas, a coordenação da Defesa Civil e a execução do Plano Estadual de Mudanças Climáticas (PEAC). É o Estado quem comanda a "Sala de Situação" e quem acionará a Operação Carro-Pipa. Portanto, é ele o guardião das respostas macros à estiagem. Sem um orçamento claro e transparente no PEAC, todo o discurso de preparação se esvazia — e é nosso dever cobrar isso de quem tem o poder de alocar verbas estruturantes.

A primazia da Prefeitura de Aracaju sobre o caos urbanístico e o direito ao território: Se o Estado lida com a seca no interior, é na capital que o modelo de ocupação do solo definirá quem vai sufocar com o calor extremo. Os dados que levantamos são inequívocos:

O Plano Diretor de Aracaju está defasado há 26 anos (baseado em dados de 1995), tornando a cidade refém de um planejamento obsoleto.

Em maio de 2026, o Ministério Público Federal precisou intervir diretamente na Zona de Expansão, recomendando o embargo de prédios acima de quatro andares — uma intervenção que escancara a falência da fiscalização municipal.

A Câmara Municipal iniciou a votação do PL 150/2026 apenas em julho de 2026, ou seja, às vésperas do pico do El Niño, o que revela uma reatividade burocrática que não condiz com a urgência da crise.

O imbróglio territorial com São Cristóvão pulveriza responsabilidades, mas é em Aracaju que os ventos do litoral estão sendo barrados por paredões de concreto e onde as dunas — escudos térmicos naturais — são tratadas como meros entraves ao mercado imobiliário.

O encontro dos dois poderes no coração da desigualdade: É na confluência entre a gestão hídrica do Estado e o zoneamento urbano da capital que a população periférica fica desprotegida. Enquanto o Estado não integra as comunidades nas decisões do PEAC e a Prefeitura não impõe infraestrutura verde (pavimentos permeáveis, telhados verdes, parques lineares) nos bairros mais densos, a Justiça Climática permanece uma abstração teórica.

Por que isso é relevante para a Cultura? Porque a Ação Cultural está enraizada nesse território. Nossas oficinas, cineclubes, rodas de conversa  e mostras culturais  acontecem sob o impacto direto do asfalto queimando e das torneiras secando. Focar nesses dois entes é uma estratégia de eficácia política: mirar onde o poder de decidir — e o poder de falhar — é mais concentrado. Não se trata de ignorar os outros municípios, mas de partir do centro nervoso do planejamento estadual e da maior mancha urbana de Sergipe para, a partir daí, irradiar a cobrança para todo o território.

Sergipe, julho de 2026.

Este é um editorial institucional do blog da Cultura, em conformidade com os princípios do Programa Cultura Viva (Lei 13.018/14) e em eco às deliberações da 6ª Teia Nacional sobre Justiça Climática.




quinta-feira, 2 de julho de 2026

Papo reto com Neri Silvestre - "Cultura é direito, não privilégio. E a técnica sozinha não salva ninguém – uma reflexão urgente sobre o Sistema Nacional de Cultura."

O Sistema Nacional de Cultura (SNC) ainda está distante da realidade de milhões de trabalhadores, trabalhadoras e da população que cultura que vivem e vêem as condições precárias do povo dentro desse campo.

Vou escrever mais uma reflexão, talvez sem muito sentido para alguns. Estava lendo uma fala de Milton Santos em uma conferência sobre saúde.



Sua reflexão mostra que os meramente técnicos tendem a colocar a técnica acima dos seres humanos. Produzem números, estatísticas e indicadores. Dizem quem fala, quem come, quem bebe, quantos são, onde moram e o que consomem. Mas, muitas vezes, deixam de enfrentar os problemas reais das pessoas. O ser humano passa a ser tratado como um dado estático.

Não quero dizer, com isso, que sou contra a ciência contra a pesquisa na cultura. Pelo contrário. Acredito na ciência e defendo a consolidação do Sistema Nacional de Cultura. O problema é imaginar que a solução esteja apenas na técnica, como se toda a salvação dependesse exclusivamente dos especialistas.

Radicalizando essa reflexão para o campo da cultura, encontramos um cenário marcado pela alta informalidade, pela intermitência dos projetos e pelas jornadas fragmentadas de trabalho, fatores que contribuem para o adoecimento físico e mental dos trabalhadores da cultura. Soma-se a isso a baixa institucionalidade das políticas culturais, o autoritarismo, a ausência ou fragilidade do controle social, a política do compadrio, o racismo, o preconceito e a moradia precária etc... São problemas estruturais que fazem parte da nossa cultura política.

A classe média quer privilégios.

Aprendemos a enxergar o outro como concorrente, e isso agrava ainda mais a situação. A cultura passa a ser dominada por pequenos grupos interessados na manutenção do poder, enquanto a maioria permanece à margem das decisões.

Por isso, é necessário colocar a população no centro da política cultural.

Os recursos e valores como a solidariedade de fazer parte da nossa cultura política.

O Ministério da Cultura, por sua vocação e capacidade de articulação, poderia liderar uma estratégia nacional, fortalecendo o Sistema Nacional de Cultura, ampliando o orçamento, aperfeiçoando a legislação, fortalecendo os fundos de cultura e promovendo uma ampla campanha em defesa da economia da cultura.

Os governos estaduais deveriam criar e fortalecer leis, fundos e orçamentos voltados ao apoio dos municípios. Já os municípios precisam atuar diretamente nos territórios e bairros, desenvolvendo políticas de fomento, fortalecendo as economias da cultura, promovendo a arte e a cultura, em todos os locais e ampliando os mecanismos de participação social.

Não podemos continuar fingindo que o problema é apenas técnico. A política cultural não pode permanecer desumanizada, desconectada das questões sociais e socioambientais. O neoliberalismo nos ensina que devemos entregar nossas esperanças ao mercado e às empresas. Mas cultura é um direito, não um privilégio. Ela precisa estar comprometida, antes de tudo, com a dignidade humana e com a transformação da sociedade.

Cineclube Realidade: Uma Viagem pelo Brasil Profundo em Quatro Sessões Memoráveis

A 15ª Mostra Difusão reafirma seu papel como ponte entre o cinema de resistência e o público, e o Cineclube Realidade foi um dos protagonistas dessa jornada. Entre os dias 6 e 20 de junho, realizamos quatro sessões presenciais que percorreram diferentes espaços da cidade de Aracaju e além fronteiras (Rosário do Catete) , levando um mosaico de vozes e olhares do cinema indígena, negro e periférico a mais de 160 espectadores.


Uma Programação Diversa e Impactante

A seleção de filmes foi o coração da experiência. Obras como "Òsányìn: O segredo das folhas" (Pâmela Peregrino), "No início do Mundo" (Camila Osório), "Amazônia sem garimpo" (Tiago Carvalho e Julia Bernstein), "Eu sou Raiz" (Cíntia Lima e Lílian de Alcântara), "Pau D´Arco" (Ana Aranha), "As Lavadeiras do Rio Acaraú transformam a embarcação em nave de condução" (Kulumym-Açu) e "SUKANDE KASÁKÁ | Terra Doente" (Kamikia Kisedje, Fred Rahal) foram exibidas e geraram grande comoção e interesse do público.

O Percurso das Sessões

A itinerância foi a marca registrada da nossa exibição. Levamos o cinema para além das salas convencionais, ocupando espaços comunitários e educacionais:

06/06, 16h30 | Paróquia São Pedro Pescador (Bairro Industrial, Aracaju): A comunidade se conectou com a dor e a resistência dos seres que habitam a Amazônia, refletindo sobre a urgência socioambiental.

08/06, 14h30 | Escola Estadual Senador Leite Neto (Grageru, Aracaju): Jovens estudantes tiveram contato com a realidade do preconceito, das plantas medicinais, da religiosidade afro-indigena, do desmatamento, expandindo seus horizontes através da tela.

11/06 (07h30, 09h e 10h) | Escola Municipal Des. José Sotero Vieira Melo (Rosário do Catete): Uma manhã inteira dedicada à comunidade escolar, com três sessões seguidas que envolveram crianças e adolescentes em narrativas potentes envolvendo racismo ambiental , agrotóxicos, e conflitos fundiários.

20/06 (09h e 14h) | Casa da Doméstica (Centro, Aracaju): Um encontro emocionante onde mulheres trabalhadoras reencontraram suas próprias histórias e ancestrais, celebrando a força feminina e a memória.


Diálogo e Acessibilidade

Todas as sessões foram seguidas de debates com os presentes, enriquecendo a troca de experiências e percepções sobre os filmes. Para garantir a inclusão de todos, as exibições contaram com recursos de acessibilidade, como Closed Caption (LSE) e Audiodescrição, assegurando que pessoas com deficiência visual e auditiva pudessem desfrutar plenamente da programação.

Um Público Plural e Engajado

O público total contabilizado foi de 166 pessoas, com perfis diversos que incluíram estudantes, professores, famílias, adolescentes, trabalhadoras domésticas  e pessoas com deficiência. Essa pluralidade demonstra a força do cinema como ferramenta de encontro e transformação social.

Estrutura e Apoio

As exibições foram realizadas de forma off-line, com equipamentos próprios de projeção e som, garantindo a qualidade técnica das sessões. Contamos com o apoio fundamental de parceiros que cederam equipamentos complementares, espaços, recursos humanos, insumos e mobilização de público, tornando possível a concretização deste projeto.

Olhando para o Futuro

A experiência nos deixou aprendizados valiosos. Para as próximas edições, sugerimos:

Disponibilizar os filmes mais exibidos e/ou repercutidos na plataforma Tela Brasil.

Disponibilizar conteúdos extras (reportagens, artigos, podcasts) sobre os filmes selecionados.

Criar uma plataforma em software livre para funcionar como acervo da memória das exibições, onde os relatórios de cada ponto de exibição fiquem acessíveis publicamente.

Exibições:

Paróquia São Pedro Pescador (https://acaoculturalse.blogspot.com/2026/06/sessao-especial-no-cine-realidade.html

Escola Estadual Senador Leite Neto, Grageru, Aracaju/SE (https://acaoculturalse.blogspot.com/2026/06/osanyin-na-escola-o-segredo-das-folhas.html) 

Escola Municipal Des. José Sotero Vieira Melo – Rosário do Catete/SE (https://acaoculturalse.blogspot.com/2026/06/cineclube-realidade-em-rosario-do.html

Casa da Doméstica, Rua Siriri, nº 684, Centro – Aracaju/SE (https://acaoculturalse.blogspot.com/2026/06/pilao-rio-e-reza-quando-o-cinema-fez.html)


Memória e Transparência

Toda a documentação visual e gráfica da nossa jornada está disponível para consulta pública:

Peças gráficas e divulgações: https://drive.google.com/drive/folders/17Gs-ZNn-jYR-5tE9Twe2RB5nuPIXJM8S?usp=drive_link

Fotos e vídeos das sessões: https://drive.google.com/drive/folders/1REJmMTzXHyME4Zy8i5DzK2Ngvk2eVD1S?usp=drive_link

O Cineclube Realidade agradece a todos que participaram e contribuíram para que o cinema brasileiro, com toda a sua diversidade e potência, chegasse a cada vez mais pessoas. Até a próxima!


quarta-feira, 1 de julho de 2026

Governo de Sergipe anuncia o serviço de reforma do Teatro Lourival Baptista. Entrega que responde a demanda antiga e recorrente dos fazedores de cultura sergipanos desde 2020.

 


  • 2014–2015: primeira grande reforma, concluída com a reabertura em 2015.
  • 2018: novo fechamento para uma reforma estrutural mais ampla.
  • 2018–2026: teatro permanece sem funcionamento, tornando-se um dos mais longos períodos de interdição de um equipamento cultural público em Sergipe.
  • 2026: assinatura da ordem de serviço para reforma e ampliação, marcando o reinício oficial da intervenção
  • 🎭 Um novo capítulo para a cultura sergipana começa hoje!

    Nesta quarta-feira, 1º de julho, às 14h30, o Governo de Sergipe realiza a assinatura da Ordem de Serviço para a reforma e ampliação do Teatro Lourival Baptista, um dos mais importantes equipamentos culturais do estado.

    A iniciativa, conduzida pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap) em parceria com a Secretaria de Estado da Educação (Seed), representa mais um importante investimento na valorização da cultura sergipana e no fortalecimento da infraestrutura cultural.

    Com a obra, o teatro será modernizado, oferecendo mais acessibilidade, segurança, conforto e melhores condições para receber artistas, produções e o público.

    Esperamos por você para acompanhar este momento histórico, que reafirma o compromisso do Governo de Sergipe com a preservação, o fortalecimento e o futuro da nossa cultura.

    📍 Hoje | 1º de julho

    🕝 14h30

    📍 Teatro Lourival Baptista

    https://www.instagram.com/p/DaPvPkOR3wV/

    sexta-feira, 27 de março de 2026

    27 de março – Dia Internacional do Teatro – Cadê o teatro pujante que se fazia em Aracaju em priscas eras?


    Por que ninguém fala nada sobre a reforma do Teatro Lourival Baptista? Nem o governo e nem a oposição. Por que não há manifestação do curso de Teatro da UFS a esse respeito? E o Teatro Juca Barreto, do Cultart? E a imprensa: qual o órgão que destacou ou irá destacar a data de hoje, inclusive tratando do fechamento do Teatro Lourival Baptista com reformas que foram prometidas há cerca de dez anos?

    sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

    Teatro Lourival Baptista vai fazer aniversário de seis anos de descaso e abandono. Governo do Estado renova a promessa de reforma do prédio para 2024


    No Blog da Cultura encontram-se referências importantes sobre a reforma do Teatro Lourival Baptista e temas relacionados.

    Os principais conteúdos são:

    1. Cobrança pela reforma do Teatro Lourival Baptista

      Em um artigo sobre a atuação do deputado estadual Iran Barbosa, o blog registra que foi apresentada a Indicação nº 00168/2020, solicitando ao Governo de Sergipe e à então direção da Funcap a realização de uma reforma geral do Teatro Estadual Lourival Baptista, localizado na Rua Laranjeiras, em Aracaju.

    2. Entrevista com Antônia Amorosa sobre a paralisação das obras

      Em entrevista reproduzida pelo blog, a então presidente da Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe, Antônia Amorosa, afirma que:

      • havia interesse da gestão em entregar o teatro "com a maior brevidade possível";
      • a pandemia contribuiu para a paralisação da recuperação;
      • os técnicos estavam reavaliando os relatórios para retomada e conclusão das obras;
      • o governo não havia desistido do equipamento cultural.
    3. Histórico de funcionamento antes da reforma

      O blog também registra diversas programações realizadas no Teatro Lourival Baptista antes de seu fechamento, como a realização do IV Festival Sergipano de Teatro, em 2014, demonstrando a importância do espaço para as artes cênicas sergipanas.

    4. Memória do teatro

      Em outro texto, o diretor teatral Raimundo Venâncio relembra sua trajetória artística e afirma ter sido diretor do Teatro Lourival Baptista por sete anos, além de destacar o papel histórico do equipamento na formação de artistas e grupos teatrais de Sergipe.

    Esses textos permitem reconstruir uma linha do tempo da reforma:

    • 2020 – surgem cobranças formais por uma reforma geral do teatro;
    • 2020–2022 – as obras ficam paralisadas, em parte devido aos impactos da pandemia;
    • 2023 – a direção da Funcap informa que pretende concluir a recuperação após nova avaliação técnica;
    • O Blog da Cultura acompanha o tema sempre relacionando a reforma à necessidade de devolver à população um dos mais importantes equipamentos culturais de Sergipe.

    Outras fontes:

    Portal das produções laboratoriais do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe (2019). 
    Cenário teatral de Aracaju sobrevive em incertezas

    TV SERGIPE (2019) 
     Bom Dia Sergipe

    Situação do Teatro Lourival Batista é tema entrevista


    Dep. Cristiano Cavalcante (2023)

    Apresentou nova indicação ao Governo do Estado solicitando a revitalização do teatro.

    Sua justificativa amplia o debate, relacionando o equipamento não apenas às artes, mas também à educação e ao desenvolvimento urbano:

    "Defendo a reforma para que possamos devolver o espaço para o uso da população, como forma de estimular atividades culturais e até mesmo projetos educacionais na região."

    O parlamentar também destacou que:

    • o teatro atende a região Norte e Oeste de Aracaju;
    • é um dos principais equipamentos culturais de Sergipe;
    • chegou a receber cerca de 127 espetáculos em um único ano antes do fechamento.

    TV Atalaia (2025)    
    População denuncia abandono do teatro Lourival Baptista, um dos mais tradicionais de Sergipe - BGT


    Quem desejar enviar links com registros de contribuições de outros agentes públicos, instituições ou representantes da sociedade civil – feitas desde 2018 em defesa da demanda acima – pode utilizar o e-mail oscacaocultural@gmail.com.

    As contribuições de Euler Lopes e da Mangue Jornalismo já constam nos links do blog indicados anteriormente. É fundamental preservar essa memória para manter viva a chama da participação da sociedade civil, fortalecendo o exercício da cidadania cultural como expressão e afirmação de direitos – e também a chama do coração civil.




    "Artigo sobre a 'Farra dos Shows' no blog da cultura reacende debate: existe lei que obrigue rádios a tocarem música brasileira?"

     O artigo sobre a Farra dos Shows no Brasil e em Sergipe, publicado no blog da cultura, vem tendo boa repercussão e algumas manifestações nos despertaram interesse para pesquisar mais a fundo o tema.

    Uma dessas manifestações trouxe o questionamento sobre a existência de uma lei que garanta uma cota mínima de música nacional na programação das rádios, a exemplo do que ocorre com o cinema nacional, que possui a chamada Cota de Tela. Diante dessa provocação, realizamos uma pesquisa com a ferramenta de IA DeepSeek, que nos conduziu aos seguintes resultados:

    1. Sobre a Cota de Tela no Cinema

    A Cota de Tela é uma política pública que garante espaço para o cinema brasileiro no circuito comercial. Atualmente, ela foi reinstituída pela Lei 14.814/2024 e está em vigor até 2033. Os dados mostram sua eficácia: em 2023, antes da vigência da cota, os filmes brasileiros representavam apenas 7,5% das sessões e 3,3% do público. Com a cota, em 2024 e 2025, a participação em sessões subiu para 15,7%, com público de cerca de 10%. Esse mecanismo é um exemplo de como o Estado pode atuar como indutor para garantir a diversidade cultural em um mercado dominado por grandes produções estrangeiras.

    2. Sobre a Cota para Música Brasileira nas Rádios

    Diferentemente do cinema, não existe, atualmente, uma lei federal que obrigue as rádios a tocar um percentual mínimo de música brasileira — muito menos de forró especificamente. O que existe são propostas em tramitação, como o Projeto de Lei 1.414/2003, que determina que 50% da programação musical diária seja de música nacional (composta ou interpretada por artista brasileiro e cantada em língua portuguesa). No entanto, esse projeto está parado no Congresso Nacional desde 2004.

    3. A Exceção Municipal: Lei Evandro Correia

    A única legislação em vigor que estabelece uma cota para a execução de música local e regional nas rádios é a Lei nº 3.049/2025, de Vitória da Conquista (BA), conhecida como "Lei Evandro Correia". Ela obriga as emissoras do município a destinarem, no mínimo, 10% de sua programação musical diária para artistas locais e regionais, com distribuição equitativa entre os turnos matutino, vespertino e noturno.

    A fiscalização, que caberia à Secretaria Municipal de Cultura, se daria por meio do envio de relatórios mensais pelas rádios, com penalidades que incluem advertência e multa de até R$ 5.000,00 em caso de reincidência. No entanto, apesar de a lei ter entrado em vigor em outubro de 2025, sua aplicação prática ainda depende de regulamentação pelo Poder Executivo, que até o momento não foi publicada. Além disso, há uma controvérsia jurídica sobre a competência do município para legislar sobre radiodifusão, matéria que a Constituição Federal atribui exclusivamente à União.

    4. O que isso significa para o forró e a cultura sergipana?

    A ausência de uma lei federal específica para a música brasileira nas rádios reforça a compreensão que apresentamos no artigo sobre a Farra dos Shows quando consolidamos  como diretor do Complexo Cultural Gonzagão (2007 a 2009) a seguinte opinão: não é suficiente contratar artistas do forró de matriz tradicional, mesmo necessário,  é preciso investir de forma concomitante, continuada e abrangente em educação e comunicação para garantir e ampliar o público.

    Enquanto não houver uma política nacional que assegure espaço para a diversidade musical brasileira nas rádios — a exemplo do que já existe para o cinema —, o fortalecimento do forró e de outras manifestações culturais dependerá de iniciativas isoladas, como leis municipais (que enfrentam desafios de constitucionalidade e regulamentação) ou de um trabalho persistente de formação de público, cujos resultados são mais visíveis no médio e longo prazo.


    segunda-feira, 29 de junho de 2026

    Festa no Arraial - Novo musical brasileiro transforma clássico de Shakespeare em uma grande festa junina

    24 de Julho de 2026 a 16 de Agosto de 2026

    Múltiplas Sessões

    Ingressos a partir de R$ 25,00 em até 12x

    Teatro Sabesp Frei Caneca

    São Paulo/SP

    Livremente inspirado em “Sonho de uma Noite de Verão”, de William Shakespeare, espetáculo ambientado nas festas juninas celebra a cultura brasileira ao misturar romance, comédia e fantasia

    Em uma vila tomada pelo céu estrelado e pela magia das festas juninas, nasce uma história de amor que vai conquistar o seu coração. Com direção de Thereza Falcão, que assina o texto com Mariana Mesquita, “Festa no Arraial, O Musical” estreia no Teatro Sabesp Frei Caneca, no Shopping Frei Caneca, na Consolação, temporada de 24 de julho a 16 de agosto, com sessões de sexta a domingo em diferentes horários. No palco, um grande elenco com Claudia Ohana, Lorena Tucci, Cadu Libonati, Bernardo Mesquita, Erika Affonso, Danilo Dal Farra, Sofie Orleans, Rafa Canedo, Júlia Perré, Nestor Fonseca, Caio Padilha, Benji Iuler, Jude Fontenelle e Mariana Braga.

    Livremente inspirado em “Sonho de uma Noite de Verão”, de William Shakespeare, o espetáculo transporta para o universo das festas juninas uma trama envolvente sobre desejos, escolhas e os caminhos inesperados do amor. Vibrante, emocionante e divertido, mistura romance, comédia e fantasia para celebrar a cultura brasileira em uma experiência única para toda a família.

    - Festa no Arraial é um convite para que o público volte a acreditar na força dos encontros, dos sonhos e do amor. É uma história que celebra nossas raízes, nossa cultura e tudo aquilo que faz o coração bater mais forte. Queremos que cada pessoa saia do teatro com a sensação de ter vivido uma noite mágica – conta Thereza Falcão, diretora e autora do espetáculo.

    O elenco, formado por 14 atores, cantores e instrumentistas, dão vida a personagens apaixonantes em uma história cheia de reviravoltas, encontros e desencontros, na qual o amor precisa enfrentar tradições, interesses e até forças encantadas da natureza.

    Com músicas que vão fazer você se divertir, se emocionar e cantar junto do início ao fim, o espetáculo convida o público a mergulhar em um universo onde o amor é desafiado, os sonhos ganham voz e a magia pode transformar destinos.

    Entre fogueiras acesas, quadrilhas animadas e criaturas encantadas da mata, “Festa no Arraial” nos lembra que o amor verdadeiro não se impõe, e sim floresce. Um musical inédito, brasileiro e feito para emocionar todas as idades. Venha se apaixonar, se divertir e celebrar. Porque nessa festa, o coração também entra na dança. Apresentado pelo Ministério da Cultura e Brasilprev, com patrocínio do Laboratório Cristália, produção e marketing da Inova Brand e realização da Everybody Entretenimento, Ministério da Cultura e Governo do Brasil – Ao lado do povo brasileiro.

    - Patrocinar um musical original e autoral como “Festa no Arraial” reafirma nosso compromisso com a cultura nacional e a valorização de histórias que conectam gerações. Celebrar tradições como as festas juninas e suas múltiplas expressões, em um espetáculo que reúne música, dramaturgia e elementos da arte popular brasileira, é um estímulo para que mais pessoas vivenciem essa experiência e um meio de democratizar o acesso cultural - diz Laura Beltran, gerente de Comunicação da Brasilprev. 

    Sinopse

    Em uma pequena vila nordestina, tomada pela magia das festas juninas, na noite mais brilhante do ano, quando o céu se ilumina para celebrar, nasce uma história de amor guiada pelas forças da natureza encantada. Hérmia e Lisandro são dois jovens apaixonados que sonham em se casar durante a grande noite do arraial. Mas, quando algo inesperado surge em seus caminhos, seus planos tomam rumos imprevisíveis, o amor dos dois é colocado à prova e o destino de todos ao seu redor começa a se transformar. Entre fogueiras acesas, quadrilhas animadas e canções que embalam a festa, a trama ganha novos contornos quando a floresta revela seus mistérios e o mundo dos encantados atravessa o caminho dos personagens. Em meio a encontros e desencontros, cada um será levado a entender o que realmente significa amar. Livremente inspirado em Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare, “Festa no Arraial, O Musical” é um espetáculo vibrante, emocionante e divertido, que mistura romance, comédia e fantasia em uma grande celebração da cultura brasileira, para toda a família.

    Mais informações:  https://www.instagram.com/festanoarraial/

    "Sonho de uma Noite de Verão" é uma famosa comédia de William Shakespeare que mistura romance, fantasia e magia. A história se passa em uma floresta encantada e acompanha quatro tramas principais que se cruzam: o casamento de nobres atenienses, as confusões amorosas de quatro jovens, uma trupe de teatro amador e o reino das fadas. [1, 2]
    Para entender melhor essa divertida obra de Shakespeare, a narrativa se divide em três núcleos centrais:
    • O drama amoroso: Hérmia ama Lisandro, mas seu pai quer obrigá-la a casar com Demétrio. Para fugir dessa imposição, os dois apaixonados fogem para uma floresta próxima. Eles são perseguidos por Demétrio (que ama Hérmia) e por Helena (que é apaixonada por Demétrio, mas não é correspondida). [1, 2, 3, 4]
    • A confusão das fadas: Na mesma floresta, Oberon, o rei das fadas, e seu servo Puck (um duende brincalhão) usam uma poção mágica para pregar peças. O feitiço dá errado, fazendo com que os dois rapazes atenienses se apaixonem por Helena, gerando uma série de mal-entendidos e perseguições cômicas. [1, 2, 3]
    • A trupe de teatro: Um grupo de artesãos locais, liderados por Pedro Marmelo, entra na floresta para ensaiar uma peça que será apresentada no casamento do Duque de Atenas. Puck transforma magicamente a cabeça de um dos atores (o hilário Bottom) na cabeça de um burro, causando cenas cômicas. [1, 2, 3, 4, 5]

    O conflito é resolvido quando Puck desfaz a magia, fazendo com que todos retornem a Atenas perfeitamente apaixonados por suas respectivas pessoas. A obra termina com um casamento triplo e a apresentação da peça cômica dos artesãos. [1, 2, 3, 4]

    A Farra dos Shows no Brasil e em Sergipe e o Futuro da nossa Cultura.


    E  se uma parte expressiva desse dinheiro fosse investido em ações culturais nas escolas, em iniciativas culturais de base comunitária, em programas de comunicação  e midia digital voltadas para difusão das culturas locais e seus artistas? 

    1. O Espetáculo do Desperdício

    Quando um show de um único artista consome R$ 1,3 milhão dos  cofres públicos e ainda assim há   indícios de superfaturamento de mais de R$ 900 mil — não estamos falando de cultura. Estamos falando de um sistema perverso que transforma dinheiro público em moeda de troca eleitoral, em vitrine de promoção pessoal e em entretenimento de uma noite que se dissolve no dia seguinte, sem deixar rastro.

    Não é exagero. Os números estão aí, escancarados pela investigação do portal "De olho nos ruralistas": só no ano passado, 131 emendas "Pix" destinaram R$ 61 milhões para shows em todo o país. Um "sistema paralelo de financiamento de campanha", como definem os especialistas, onde a transparência é a primeira vítima e a cultura, coadjuvante de luxo, assiste ao show passar.

    2. O Rebaixamento do Debate em Sergipe

    Mas em Sergipe, essa discussão assume um contorno ainda mais delicado. Enquanto a imprensa nacional escancara a farra dos grandes cachês, aqui o debate foi rebaixado a uma falsa dicotomia: ou se faz uma festa com artistas locais, ou se traz grandes nomes de fora. (saiba mais aqui )

    O mais grave é que esse pensamento não é restrito às lideranças políticas. Ele está impregnado na mentalidade de muita gente. Há uma crença tácita de que valorizar a produção local é sinônimo de "festa menor", de evento provinciano, como se o talento sergipano fosse, por si só, insuficiente para atrair público e gerar fruição cultural.

    Esse engano é duplamente perverso.

    Primeiro, porque desqualifica a cena local. Ao tratar o artista sergipano como "opção de segunda linha", a própria classe política e parte do público desestimulam o fortalecimento das carreiras locais, mantendo um ciclo vicioso de dependência de atrações externas. O artista da terra fica sem palco, sem visibilidade, sem renda — e depois se espantam quando ele precisa migrar para outros estados em busca de oportunidades, exercer outros oficios e até desistir da vida de artista.

    Segundo, porque escamoteia a verdadeira questão. O problema nunca foi "artista local versus artista de fora". O problema é o critério de gasto. Um show de um artista sergipano pode ter cachê justo e ainda sobrar verba para estrutura, som, iluminação e contratação de outros talentos locais. Um show de um artista nacional pode consumir 90% do orçamento e deixar a cidade apenas com o lucro político de quem o contratou.

    Não somos nem oito nem oitenta. E essa é a chave da discussão.

    3. A Pergunta que Incomoda

    E se uma parte expressiva desse dinheiro — que hoje vai para um show de uma única noite — fosse investido em ações culturais nas escolas, em iniciativas culturais de base comunitária, em programas de comunicação e mídia digital voltados para a difusão das culturas locais e seus artistas?

    A pergunta parece simples, mas ela incomoda. Porque mexe com interesses. Porque exige planejamento. Porque exige que o gestor público pense no longo prazo, e não apenas no próximo fim de semana de campanha.

    Se o temor é que "com artistas locais a presença do público diminui de forma expressiva", a resposta não é trazer um artista de fora para "salvar" a festa. A resposta é construir público ao longo do ano inteiro.

    4. O que Significa Construir Público?

    Construir público é um trabalho paciente, cotidiano e estruturante. É entender que a plateia de um show não nasce no dia do evento. Ela se forma na escola, nos projetos comunitários, nas rádios comunitárias, nos canais digitais que divulgam a produção local.

    Um show de um grande nome nacional atrai 50 mil pessoas em uma noite. Mas um programa contínuo de:

    Oficinas de música, teatro e dança nas escolas, que formem novas plateias e novos artistas;

    Editais de fomento para bandas, grupos teatrais, cineastas e poetas sergipanos, que garantam renda e produção artística estável;

    Programas de rádio, televisão e redes sociais dedicados a divulgar a produção cultural do estado;

    Festivais descentralizados que levem arte para os bairros e municípios do interior;

    ... pode atrair, em 12 meses, centenas de milhares de pessoas para eventos culturais espalhados por todo o território sergipano. E mais do que isso: pode gerar pertencimento, identidade e valorização do que se produz aqui.

    5. Modelos que Dão Certo

    Não estamos inventando a roda. O governo federal já reconhece essa necessidade, com iniciativas como o programa Arte e Cultura nas Escolas de Tempo Integral, uma parceria entre os Ministérios da Educação e da Cultura. A ideia é que a cultura seja parte do currículo e do desenvolvimento integral do aluno — algo que um show de um final de semana não pode proporcionar.

    O Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura, já atua há anos nessa direção, apoiando os Pontos de Cultura — entidades que desenvolvem atividades culturais de forma contínua em territórios e comunidades. Esse modelo garante que a cultura seja feita pela e para a comunidade, e não apenas para o público de um evento isolado.

    Em Sergipe, temos exemplos inspiradores. Projetos como o Prata de Casa, similar sergipano do Projeto Pixinguinha e o Palco Giratório, em suas melhores fases, mostraram que é possível circular a produção local com qualidade e capilaridade. O que falta é continuidade, planejamento e, principalmente, orçamento compatível com a importância dessas iniciativas.

    6. A Armadilha da Descentralização sem Capacidade

    Mas é preciso cuidado. A experiência com a Lei Aldir Blanc — um dos maiores avanços na política cultural brasileira — mostrou que a descentralização de recursos para estados e municípios encontra um grande obstáculo: a falta de capacidades institucionais locais.

    Cidades com conselhos de cultura ativos, planos municipais de cultura elaborados e estruturas administrativas consolidadas tiveram melhor desempenho na execução dos recursos. Já aquelas que receberam o dinheiro sem ter equipe técnica ou planejamento viram o recurso ser   mal aplicado.

    Portanto, o debate não é apenas sobre "o que" financiar, mas também sobre "como" financiar. É necessário:

    Mais transparência — controle rigoroso e prestação de contas clara sobre a destinação de emendas, com dados abertos e acessíveis ao cidadão;

    Fortalecimento institucional — apoio técnico para que prefeituras e estados possam gerir projetos culturais de fomento com qualidade;

    Planejamento participativo — substituir a lógica do "evento isolado" pela lógica do "programa estruturante", construído com a participação da sociedade civil e dos fazedores de cultura.

    7. O show de um ou alguns poucos dias ou o direito à Cultura?

    Em Sergipe, como no resto do país, o que está em jogo não é a qualidade dos artistas que sobem ao palco, mas a qualidade do planejamento cultural que antecede e sucede aquele palco.

    O "rebaixamento" do debate sergipano é sintoma de uma mentalidade que confunde fruição cultural com consumo de entretenimento. O entretenimento de um show de final de semana é válido, legítimo e pode até ser desejável. Mas não pode consumir quase todo o orçamento público destinado à cultura, deixando a produção local definhar no esquecimento.

    A cultura não é um adereço. Não é o "foguinho de artifício" que se acende numa festa e se apaga na manhã seguinte. A cultura é o que nos define como povo. É a língua que falamos, as histórias que contamos, as músicas que cantamos, as danças que dançamos, os sabores que saboreamos, as crenças que professamos.

    Quando investimos em cultura de forma estruturante, estamos investindo em cidadania. Em autoestima. Em desenvolvimento econômico — porque a cultura gera emprego, renda e turismo. Em educação — porque a cultura forma pessoas mais críticas, mais sensíveis, mais preparadas para a vida.

    8. Um Chamado à Mudança

    Este artigo não é um manifesto contra os artistas de fora. Pelo contrário: a circulação de artistas nacionais e internacionais é saudável, enriquece o debate cultural e pode, sim, ser um motor para o turismo e a economia local. O que se critica aqui é a desproporção — o fato de que o dinheiro que poderia fomentar uma cena cultural inteira é gasto em uma única apresentação.

    A pergunta que fica é: qual Sergipe queremos construir?

    O Sergipe que se contenta com o brilho efêmero de um show de final de semana, ou o Sergipe que investe na formação de plateias, na valorização de seus artistas e na construção de uma identidade cultural forte e orgulhosa de suas raízes?

    Não se constrói plateia com um show. Constrói-se plateia com educação, com presença, com valorização cotidiana do que se produz aqui.

    Que a próxima vez que um gestor público pensar em gastar milhões em um único show, ele se pergunte: e se uma parte desse dinheiro fosse para as escolas? E se fosse para os Pontos de Cultura? E se fosse para criar um canal de comunicação que divulgasse a produção sergipana o ano inteiro?

    A resposta a essas perguntas pode ser o divisor de águas entre a cultura como espetáculo e a cultura como direito.

    Zezito de Oliveira  — historiador, professor, educador popular,  pesquisador cultural e cidadão  engajado. Escreve sobre políticas culturais e valorização da produção local em Sergipe.

    Compartilhe este artigo. A discussão sobre o uso do dinheiro público em cultura não pode ficar restrita a artistas,  produtores, especialistas e saudosistas.

    P.S.: 1 -  Quando o autor do artigo acima foi diretor do Complexo Cultural Gonzagão (2007 a 2009), no Conjunto Augusto Franco, deparou-se com esse tipo de situação: duas semanas de programação com trios pé de serra e a pista de dança esvaziada, que só enchia com as quadrilhas juninas durante o concurso. Nem mesmo a abertura dos festejos juninos de 2007, com o Trio Juriti — cuja composição, na época, contava com a presença de Mestrinho, um jovem sanfoneiro pouco conhecido, ao contrário de hoje — conseguiu mobilizar muitas pessoas. Na verdade, a casa em 2007 só lotou com o show de Genival Lacerda.

    Essa situação foi uma das razões que consolidaram a compreensão de como é necessário investir em educação e comunicação para garantir e ampliar o público do forró de matriz tradicional. 

    O que significa dizer: não basta contratar artistas desse tipo de forró; é preciso fazê-lo de modo concomitante ao investimento em educação e comunicação, de forma continuada e abrangente, com resultados evidentemente mais visíveis no médio e longo prazo.

    Isso porque a formação de público não acontece por acaso nem se sustenta apenas com a oferta esporádica de shows. É necessário construir, dia após dia, uma relação de pertencimento e conhecimento entre a comunidade e a cultura local. A educação entra aí como ferramenta para despertar o interesse pelas raízes do forró, ensinando sua história, seus ritmos, seus instrumentos e seus mestres. Já a comunicação atua como ponte, divulgando não apenas os eventos, mas também os valores e significados que atravessam cada música tocada.

    Sem esse trabalho de base, o público tende a ser flutuante, atraído apenas por grandes nomes ou por ocasiões festivas pontuais — como ocorreu na experiência relatada, em que a casa só lotou com Genival Lacerda, afora no momento em que acontecia o concurso de quadrilhas juninas. Com educação e comunicação permanentes, ao contrário, cria-se uma audiência consciente, crítica e afetiva, capaz de valorizar o forró tradicional não por modismo, mas por reconhecimento genuíno. E esse processo, embora demande tempo e paciência, é o único caminho sustentável para que a tradição não apenas sobreviva, mas floresça entre as novas gerações.

    P.S.: 2 - Uma boa noticia nos foi enviada por estes dias. Vale a pena acompanhar o desenrolar.. Protocolado o Projeto de Lei nº 148/2026 da Assembleia Legislativa de Sergipe.

    *Ementa* Dispõe sobre a inclusão do forró, do xote, do xaxado e do baião como temas transversais obrigatórios no currículo da rede estadual de ensino de Sergipe

    *Autor* Paulo Júnior

    *Processo Nº* 3705/2026

    *Protocolo Nº* 3704

    *Data* 25/06/2026 10:43:31

    *Situação* Tramitando

    *Atividade Atual* Aguardar andamento

    O que isso significa na prática:

    1. Tema transversal: Não criaria uma disciplina nova. A ideia é que forró, xote, xaxado e baião atravessem matérias já existentes: História, Geografia, Artes, Dança, Ed. Física, Português, etc. 

    2. Obrigatório: Se aprovado, a rede estadual de SE terá que incluir esses conteúdos no planejamento pedagógico.

    3. Tramitando: Ainda não é lei. Foi protocolado no dia 25/06/2026. Agora passa por comissões, pode sofrer alterações, ir a plenário, ser vetado ou sancionado.

    P.S.: 3 - Outra boa noticia nos chega de Poço Redondo, alto sertão sergipano.  

    Maria Florzinha vai chegar trazendo muita alegria, música e tradição para o nosso Arraiá! ✨🌽

    O Teatro Raízes Nordestinas convida você e sua família para a estreia do espetáculo “Maria Florzinha no Arraiá Raízes Nordestinas”, uma encantadora viagem pela história do forró, contada em canto, prosa e muita animação junina.

    🎭 Espetáculo infantil e para toda a família

    🎶 Cultura popular nordestina

    🌻 Muito forró, cores e diversão

    📅 25 de junho

    🕖 19h

    📍 Teatro Raízes Nordestinas

    Venha celebrar conosco a riqueza da nossa cultura e viver uma noite especial de São João!

    Esperamos você no nosso arraiá! 💃🕺

    Leia também:

    O que estão dizendo os frequentadores da programação de São João sob a batuta da prefeitura de Aracaju e do Governo do Estado?