Isac Machado de Moura
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1. A honestidade intelectual de ler para criticar
Já li uns três ou quatro livros de Augusto Cury, assim como li a mesma quantidade de Paulo Coelho. Não gosto de um nem de outro. Li porque considero extremamente desonesto criticar aquilo que não se leu, não se assistiu.
Considero muito grave a desonestidade cristã (evangélica e católica), que critica Marx sem jamais ter lido uma linha do que ele escreveu; que demoniza Freud sem nunca ter posto a mão em um escrito dele; que vomita dessaberes sobre o Manifesto Comunista sem jamais ter tocado nele.
Então li o rei da autoajuda e o rei do esoterismo para, na época, ter o direito, concedido pelas minhas leituras, de criticar a produção deles. E tudo bem gostar deles. Só estou emitindo uma opinião baseada na produção deles e no meu desgosto literário em relação aos estilos.
2. Autoajuda: um gênero que só ajuda quem escreve
Já repeti, em muitas aulas e palestras, que um livro de autoajuda só ajuda quem o escreve. E como ajuda!
Depois das leituras, não queimei os livros deles. Estão aqui, na minha biblioteca. Aqui, no meu espaço literário, tenho livros dos mais amados e dos mais odiados, porque a vida não é somente sobre o que a gente ama.
3. A conexão com o presente: drones, IA e o "devocionismo" da tecnologia
Dito isso, vamos falar de drones.
Não desista ainda, leitora/leitor. Logo você entenderá que drones têm tudo a ver, afinal de contas: "o mundo está se transformando numa velocidade tão grande que, daqui a quatro anos, talvez já nem sejam vocês me entrevistando nessa mesa, e sim um robô, uma IA."
Essa fala de Augusto Cury — médico, psiquiatra, um sujeito bem formado — mostra que a autoajuda, quando entra na corrente sanguínea de quem escreve e de quem só lê isso, é capaz de corroer neurônios. Não que eu discorde sobre a velocidade em que o mundo muda, mas que correria é essa que, em um mandato presidencial, já pode nem ter apresentadores humanos?
4. Jesus Cristo como produto
Já na autoapresentação, o escritor renomado — de quase 80 livros publicados e muito bem vendidos — resolve fazer uma conexão com o público evangélico e católico, dedicando a sua presença ali a Jesus Cristo, que ele descreve, mas não compreende na prática.
O Jesus Cristo, para ele, representa a mesma coisa que para evangélicos e católicos: um produto que vende fácil, que enriquece.
5. O orgulho de ser "comunista dos infernos"
Pouco depois, se apresenta como um capitalista, e o faz com orgulho.
Tudo bem alguém ser capitalista. "Somos todos", de alguma forma, até os que têm ideias socialistas ou comunistas, porque nascemos e vivemos num sistema capitalista. Não dá para ser hipócrita.
O que nos diferencia é que, mesmo vivendo nesse sistema capitalista, acreditamos e defendemos que as pessoas não podem ser vistas como coisas, produtos ou máquinas de produzir. Elas precisam comer, beber, se vestir, ter acesso a médicos, exames, cirurgias, remédios; precisam ter o direito de viver com dignidade.
E isso faz de nós, nesse sistema capitalista monstruoso, comunistas extremados. Os declarados capitalistas, com orgulho, chegam a pensar que queremos tomar as propriedades deles, quando na verdade só queremos que todas as pessoas tenham trabalho, salário, escolas, hospitais, liberdade de viver aquilo que são, comida...
E isso faz de nós uns "comunistas do inferno". E eu sou um comunista dos infernos com orgulho.
6. A candidatura de Cury: marketing eleitoral
Cury não se candidatou para ganhar. Ele sabe que não tem chance. Ele se candidatou para vender mais livros, divulgar ideias, métodos — essas coisas. Possivelmente, na próxima, se candidate a deputado e ganhe com facilidade. É um direito dele.
Ele sacou essa forma perfeita de divulgação, e ainda recebe dinheiro nosso — do desgraçado fundo eleitoral — para divulgar suas ideias. Divulgação em rede nacional sem custos de propaganda.
7. O drone como metáfora do absurdo
Mas e os drones, do que seria um parágrafo anterior se eu não escrevesse em monobloco?
Pois bem, os drones.
Você, mulher, aqui de Tamoios, onde os índices de violência doméstica são altíssimos (lembrando que a maioria da nossa população é de crentes), sofre uma violência doméstica ou se sente prestes a sofrer. Então você pega o celular, aperta um botão de pânico que aciona a delegacia que nos atende — no caso, a de Cabo Frio, a quarenta quilômetros de nós. Imediatamente, um drone é acionado por inteligência artificial e parte para cá para atender seu S.O.S.
Esse drone não vem com a solução definitiva. Ele é somente um drone-sirene, cuja missão é fazer barulho perto de você, tipo alarme de carro. Enquanto isso, uma equipe policial se desloca para fazer o atendimento.
No caso, nesse percurso do drone, torça para uma outra mulher não acionar o drone em Botafogo ou no Jardim Esperança, porque se isso acontecer, sinto muito: ele vai fazer barulho lá perto dela primeiro antes de chegar a Tamoios.
Ninguém que apresente isso como uma proposta de redução da violência contra as mulheres está querendo ganhar eleição.
8. O exército de Kelmons
Cury é o padre Kelmon da vez — com função de dividir votos.
Aliás, dessa vez a fábrica de padres Kelmon exagerou na produção: Augusto Cury, o sepulcro Caiado, o BoZema, o BozoRenan. E todos estão focados em cumprir a missão Kelmosa: um cita o outro, faz brincadeira com o outro. A diferença é que os Kelmons da vez não usam batina.
Todos guiarão seus rebanhos para o Jairzinho num provável segundo turno.
9. O eleitor isentão: o mais perigoso de todos
Para mim, o eleitor mais hipócrita não é o do rachadinho, dos quais já sabemos o comportamento e do que são capazes.
Me assustam os eleitores "isentões", que vão votar num Kelmon porque não querem saber desse "negoço" de esquerda ou direita, mesmo sabendo que o seu voto favorece o capirotinho.
O eleitor isentão, murista, que depois vai passar quatro anos repetindo que não votou no L nem no B, é, para mim, o mais perigoso, o mais hipócrita, o mais asqueroso, o mais Pilatos — que lava as mãos e passa quatro anos dormindo um sono tranquilo.
10. Civilização contra barbárie
Assim como a anterior, essa eleição não é sobre direita e esquerda. É sobre civilização e barbárie.
É como se você tivesse que decidir, numa cédula, entre:
o direito de todos continuarem comendo ou sobre garantir o SEU direito de comer;
direitos do trabalhador e fechamento do Ministério do Trabalho, do Ministério Público do Trabalho;
a continuidade do programa de cisternas no sertão nordestino ou "vai procurar água na casa da tua mãe".
11. Conclusão: quem come todo dia não se preocupa com quem não come
O partido de Cury vai levar a sua parte, mas a editora dos livros dele — essa sim — vai ficar muito "mais bem" ainda depois dessa eleição.
São muitos Kelmons contra um Lula, e um Lula só pelo nosso povo mais vulnerável.
Fato é, parafraseando Carolina Maria de Jesus, que quem come todo dia se preocupa muito pouco com quem não come, com quem precisa de alguma política pública para garantir a comida mínima.
Isac Machado de Moura é um escritor e cronista brasileiro, com uma obra publicada que transita entre crônicas de viagem, poesia e romance . Ele se descobriu escritor ainda na adolescência, numa aula de português no Rio de Janeiro, e seguiu com a escrita como uma parte central de sua identidade .
Abaixo, a questão que é o pano de fundo.
Cerimedo e os rearranjos da guerra digital na América Latina
Ao final dessa transmissão longa e necessária, o que posso dizer? É provocadora, profundamente formativa em política digital e assustadora. E aqui o assustador não são apenas as estratégias das bigtechs e da extrema direita, mas também a incapacidade e a falta de humildade da maioria das lideranças de esquerda com poder de decisão.
"Será que vamos conseguir vencer? Será que nos perderemos entre monstros da nossa própria criação ou da nossa inação?"
E continuemos a luta também — com música, com arte — para buscar manter a sanidade. Vale assistir e valorizar o tema da cultura digital, da política digital e da soberania digital, sem desconsiderar também o papel da atuação orgânica, corpo a corpo, tete a tete — o digital e o orgânico, junto e misturado.












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