Lucas Zacari - 12 de janeiro de 2026 - (atualizado 12/01/2026 às 17h20)
‘O agente secreto’, de Kleber Mendonça Filho, tornou-se o primeiro filme brasileiro a ganhar dois Globos de Ouro. Produção audiovisual pernambucana acontece há um século.
O cinema brasileiro segue em alta. Na noite de domingo (11), “O agente secreto” conquistou dois Globos de Ouro: Melhor Filme Falado em Língua Não-Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, conquistado por Wagner Moura. O longa também concorria como Melhor Filme de Drama, categoria vencida por “Hamnet”.
A edição de 2026 do Globo de Ouro marcou a primeira vez em que uma produção brasileira conquistou duas estatuetas na premiação. No ano anterior, Fernanda Torres levou o prêmio de Melhor Atriz em Filme de Drama, por sua interpretação como Eunice Paiva em “Ainda estou aqui” (2024). Já em 1999, “Central do Brasil” (1998) conquistou a categoria de Melhor Filme Estrangeiro.
O diretor recifense Kleber Mendonça Filho é um dos principais nomes do cinema nacional da atualidade. As produções audiovisuais locais, no entanto, remontam a mais de um século, sendo uma dos polos cinematográficos pioneiros no país.
Neste texto, o Nexo apresenta a trajetória do cinema recifense e suas características e explica como a produção local pode ser impactada pelas conquistas de “O agente secreto”.
O início do cinema de Recife
A primeira exibição cinematográfica no país aconteceu em 8 de julho de 1896. A iniciativa foi do exibidor itinerante belga Henri Paillie, que tornou uma sala alugada no Jornal do Commercio, no centro do Rio de Janeiro, um marco cultural.
No Recife, a primeira exibição aconteceu em 1902, na Rua da Imperatriz. O Cine Pathé, na atual Rua Nova, foi a primeira sala de cinema fixa inaugurada na capital pernambucana, em 1909.
A década de 1920 marcou o início da produção audiovisual recifense. Os italianos Ugo Falangola e J. Cambière se mudaram para Recife em 1922, com a intenção de filmar obras do governo estadual. Eles usaram as imagens para fazer filmes, sendo o mais conhecido “Veneza americana” (1925), documentário que mostra a modernização da cidade. Ele está disponível no site da Cinemateca Pernambucana.
Em paralelo, o ourives Edison Chagas, o gravador Gentil Roiz e o estudante de engenharia Luís de França Rosa – sob o nome artístico de Ary Severo – se juntaram para fundar a produtora Aurora Films. Chagas participou de produções no Rio de Janeiro e queria reproduzir a experiência no Recife.
A iniciativa deu origem ao Ciclo de Recife, que durou entre 1922 e 1931. Ao todo, foram 13 filmes ficcionais mudos e diversas produções não ficcionais. Como destaques do período, há “Retribuição” (1924) e “Aitaré da praia” (1925), de Gentil Roiz, e “A filha do advogado” (1926), de Jota Soares.
A chegada do som síncrono aos cinemas fez com que a produção local fosse escanteada, pela dificuldade de produzir filmes sonoros e pela falta de dinheiro.
O uso da Super 8
Os filmes de Hollywood dominaram as exibições nas décadas seguintes. Produções locais como “Coelho sai” (1942), de Newton Paiva e Firmo Neto, e “Terra sem Deus” (1962), de José Carlos Burle, foram lançadas, mas sem grande apelo e continuidade.
A retomada da produção recifense veio a partir dos anos 1970, com o uso da filmadora analógica amadora Super 8, da Kodak. A câmera se caracterizava pela facilidade de manuseio e o baixo custo em relação às bitolas (larguras das fitas) profissionais. Jovens de classe média alta a obtinham em viagens ao exterior.
Mais de 200 filmes foram produzidos a partir da filmadora analógica, com o caráter experimental e a análise da sociedade urbana como uma das suas principais marcas. Documentários e filmes ficcionais também foram produzidos.
Nomes como Geneton Moraes Neto e Celso Marconi foram alguns dos representantes do Ciclo da Super 8, como o movimento cinematográfico ficou conhecido, que durou até o início da década de 1980. A queda da produção foi influenciada pelo encarecimento da revelação das bitolas pela Kodak e a inclusão do modelo de câmeras na lista de proibições de importação pela ditadura militar, em 1977.
A retomada do cinema local
Em 1985, um grupo de estudantes da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) criou o Vanretrô (Vanguarda Retrógrada), um coletivo para a produção de um filme. Eram 10 integrantes: Lírio Ferreira, Adelina Pontual, Valéria Ferro, Cláudia Silveira, Patrícia Luna, Andréa Paula, André Machado, Samuel Paiva, Solange Rocha e Cláudio Assis.
O Vanretrô acompanhava mostras de filmes em Recife e discussões sobre cinema. O grupo fez parte do curta-metragem “Henrique”, que contou a história real do padre recifense sequestrado e assassinado pela ditadura militar, em 1969.
Após a extinção da estatal Embrafilme pelo governo Fernando Collor de Mello, em 1990, a produção cinematográfica brasileira se tornou quase nula. O fomento posterior ao audiovisual possibilitou o movimento de Cinema de Retomada, com novos filmes nacionais a partir de 1995.
Um deles foi “Baile perfumado” (1996), com direção de Lírio Ferreira e Paulo Caldas – que participava de reuniões do Vanretrô. Foi o primeiro longa produzido em Pernambuco em quase 20 anos.
O enredo do filme remonta o projeto do fotógrafo libanês Benjamin Abrahão (interpretado por Duda Mamberti) de fazer um filme com Lampião (Luiz Cláudio Vasconcelos) e seus cangaceiros. O episódio aconteceu em 1936, e deu origem ao único registro filmado do bando.
A trilha sonora de “Baile perfumado” é composta de nomes da música pernambucana como Chico Science e Nação Zumbi, Fred Zero Quatro e Mestre Ambrósio.
76ª foi a colocação de “Baile perfumado” na lista dos 100 melhores filmes da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), divulgada em 2015
De acordo com Sandra Bertini, diretora do festival Cine PE, “Baile perfumado” mudou o senso comum do cinema sobre a região. “É uma estética de um filme completamente diferente, que era um sertão verde”, afirmou ao Nexo.
As produções contemporâneas
O século 21 apresentou uma série de cineastas recifenses, indo desde Guel Arraes, com títulos como “O auto da compadecida” (2000) e “Lisbela e o prisioneiro” (2003), à Kleber Mendonça Filho com “Aquarius” (2016) e “Bacurau” (2019). Além deles, filmes como “O último azul” (2025), de Gabriel Mascaro, também se destacaram.
De acordo com Mariana Jacob, diretora de produção de “O agente secreto”, o audiovisual recifense teve um processo de maturação nos últimos 15 anos. “É um cinema humano, é um cinema que acredita na sua voz, no seu sotaque, na sua potência. Isso acaba se vendo em tela”, disse ao Nexo.
Além da crítica social, Bertini elencou características da produção cinematográfica atual do Recife, como o regionalismo e o cuidado técnico. “Se tem um cuidado, um primor, uma riqueza na estética do filme, ditado pela fotografia do filme, pelo cuidado que envolve a direção de arte, os figurinos e as locações”, afirmou a diretora do Cine PE.
“É um cinema que faz a gente se sentir representado naquelas histórias, que sempre tem algo a dizer de inovador. A gente precisa assistir ao filme várias vezes para entender, porque ficamos tão emocionados com a musicalidade, com a estética, com a cor, com a posição da câmera, com os atores”
Sandra Bertini diretora do festival Cine PE
As duas especialistas disseram ao Nexo que a distância para os principais polos do país (eixo Rio-São Paulo) ajudou a construir uma grande mobilização cinematográfica. “Hoje a gente tem o Funcultura e outras formas de financiamento dessas obras. Mas, independente disso, as pessoas daqui fazem o filme por amor ao cinema”, disse Bertini.
O trabalho coletivo é um dos principais destaques da produção recifense, segundo Jacob. “A gente tem um modelo de produção criativa em que, na falta de quem faça ou de um objeto específico, a gente vai e aprende. Acho que isso faz com que o processo seja muito prazeroso e que a repercussão seja enorme”, disse a diretora de produção.
Recife em ‘O agente secreto’
Ambientado em Recife, em 1977, durante a ditadura militar, “O agente secreto” acompanha Wagner Moura como Marcelo. O professor universitário e especialista em tecnologia sai de São Paulo em busca de paz. Na capital pernambucana, no entanto, ele descobre que está sendo espionado.
Não é o primeiro filme de Kleber Mendonça Filho com a capital pernambucana como cenário. Em entrevista ao Nexo em novembro, o diretor afirmou que a sua intimidade com Recife facilita o trabalho de filmagem, fotografando a cidade desde a adolescência. A preservação da região central, mesmo que pela falta de interesse da especulação imobiliária, também facilitou a ambientação.
“Os prédios e a arquitetura são do início do século, dos anos 1940. A [avenida] Guararapes e as pontes fazem parte de um circuito urbano, afetivo, e muito poético, porque esses lugares já foram muito destacados na literatura e no próprio cinema”
Kleber Mendonça Filho diretor, em entrevista ao Nexo em novembro de 2025
“O agente secreto” se tornou o primeiro filme fora do eixo Sul-Sudeste a ultrapassar a marca de um milhão de espectadores no cinema. Ele também foi a produção nacional mais vista de 2025 e a sétima entre todas as exibições do país, atrás de blockbusters como “Zootopia 2” e “Avatar: Fogo e Cinzas”.
1.098.431 foi o número de espectadores de “O agente secreto” em salas de cinema brasileiras até 9 de janeiro, segundo a Ancine (Agência Nacional de Cinema)
Com as duas estatuetas do Globo de Ouro, “O agente secreto” acumula 56 prêmios desde a sua estreia no Festival de Cannes, em maio de 2025. A expectativa é que a temporada de premiações – as indicações ao Oscar de 2026 serão divulgadas no dia 22 de janeiro – possa gerar políticas públicas para o setor.
“A gente pode ter mais verbas para cá, mais empresas apostando em filmes. Isso ajuda não só o cinema de Pernambuco, mas todo o cinema nacional, que a gente luta há muito tempo para conquistar o que estamos conseguindo hoje”, afirmou Bertini. Para Jacob, as vitórias podem significar um aumento da credibilidade da produção local: “Que as pessoas comecem a entender que o nosso cinema é de qualidade e universal”.
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2026/01/12/cinema-recife-historia-agente-secreto-globo-de-ouro
Como os investimentos em financiamento público a cultura do audiovisual no Estado de Pernambuco durante os últimos 30 anos contribuíram para o sucesso do cinema pernambucano na cena nacional e internacional? Quais foram as politicas de fomento estadual, municipal e federal que contribuíram para isto? (resposta IA deepseek)
A trajetória do cinema pernambucano, marcada pelo "Ciclo do Recife" (anos 1950-60) e por seu renascimento explosivo a partir dos anos 1990, é um caso paradigmático de como o financiamento público, articulado em diferentes esferas, pode fomentar uma potente indústria criativa regional. A seguir, uma análise detalhada:
A Contribuição Fundamental do Financiamento Público (últimos 30 anos)
Os investimentos públicos foram o alicerce estrutural que permitiu que o cinema pernambucano superasse a precariedade histórica e se consolidasse como uma das vozes mais originais e premiadas do Brasil. Sua contribuição se deu em várias frentes:
Formação de uma Geração de "Autor-Realizadores": Ao contrário de apenas financiar projetos pontuais, as políticas sustentadas permitiram que uma geração (Kleber Mendonça Filho, Gabriel Mascaro, Cláudio Assis, Marcelo Gomes, Hilton Lacerda, Camila de Moraes, entre outros) desenvolvesse uma linguagem autoral consistente, do curta ao longa, sem precisar migrar para os centros tradicionais (Rio/São Paulo).
Criação de um Ecossistema Produtivo: O financiamento recorrente estimulou o surgimento e a profissionalização de produtoras locais (Deck, Carnaval, Carvão, etc.), técnicos especializados, empresas de pós-produção e uma cadeia produtiva que atrai e realiza projetos de outras regiões.
Estímulo à Diversidade Narrativa e Estética: O fomento público, especialmente via editais de curta-metragem e projetos autorais, permitiu experimentações que resultaram numa estética única – muitas vezes ligada ao realismo cru, ao som ambiente potente, à fotografia de luz natural e às narrativas que tensionam a modernidade com tradições locais.
Ponte para o Mercado Internacional: A chancela e o financiamento de agências públicas (especialmente a ANCINE) conferiram credibilidade aos projetos, facilitando coproduções internacionais e a participação em festivais de prestígio (Cannes, Berlim, Veneza, Sundance), onde o cinema pernambucano se tornou presença constante.
Fortalecimento da Identidade Cultural: O cinema tornou-se um vetor poderoso para a projeção nacional e internacional da cultura pernambucana, sua música, seu sotaque, suas paisagens e suas contradições sociais.
Políticas de Fomento que Alavancaram o Movimento
A sinergia entre os três níveis de governo foi crucial. O Estado de Pernambuco agiu como agente catalisador e estabilizador, criando uma base segura para que os realizadores pudessem acessar também recursos federais.
1. Estadual (Pernambuco): O Papel da FUNDARPE e do SECULT-PE
Lei de Incentivo à Cultura (Estatuto do Artista): Implementada ainda nos anos 1980 e aprimorada posteriormente, é o principal instrumento. Permite que empresas destinem parte do ICMS devido ao estado para projetos culturais aprovados. Foi vital para a primeira leva de longas do revival nos anos 1990/2000.
Editais Setoriais da FUNDARPE: A Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, ligada à Secretaria Estadual de Cultura (SECULT-PE), passou a lançar editais específicos para desenvolvimento de roteiro, produção de curtas e longas-metragens, finalização e distribuição. Oferecem subsídio direto (não-incentivado), essencial para projetos menos comerciais.
Apoio à Formação: Parcerias com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e cursos livres, além do apoio ao Festival de Cinema de Recife e ao Janela Internacional de Cinema, que se tornaram importantes vitrines e espaços de formação de público e networking.
2. Municipal (Recife): A Importância da Prefeitura e do FUNDO PERNAMBUCANO DE CULTURA
Lei Municipal de Incentivo à Cultura (Recife): Similar à estadual, permite o uso de parte do ISS para projetos culturais na cidade. Apoiou produções com locações no Recife e atividades de formação.
Fundo Pernambucano de Cultura (FPC): Embora de nomenclatura estadual, é um instrumento importante que conta com gestão compartilhada. Oferece financiamento via editais para diversas etapas da cadeia audiovisual.
Apoio a Festivais e Mostras: A prefeitura historicamente apoia eventos como o Cine PE e o Aruanda do Audiovisual Brasileiro, fundamentais para a circulação e o debate.
3. Federal: A Âncora Financeira e de Regulação (ANCINE e Lei do Audiovisual)
Lei do Audiovisual (Lei nº 8.685/93): O instrumento mais importante em nível nacional. Permite que empresas e pessoas físicas invistam em projetos audiovisuais com isenção fiscal (IR). A grande maioria dos longas-metragens pernambucanos de sucesso contou com este mecanismo. Foi fundamental para atrair investimentos de grandes empresas para projetos locais.
Agência Nacional do Cinema (ANCINE): Além de gerir a Lei do Audiovisual, a ANCINE opera:
Fundo Setorial do Audiovisual (FSA): Concede financiamento reembolsável e não-reembolsável para desenvolvimento, produção, distribuição e modernização de salas.
Editais Públicos: A ANCINE lança editais temáticos (como "Brasil de Todas as Telas") que sempre tiveram forte participação de produtoras pernambucanas.
Regulamentação e Dados: Criou um ambiente profissional e previsível para o setor.
Programa Brasil de Todas as Telas (Ministério da Cultura): Em suas várias edições, injetou recursos diretos em produções regionais, fortalecendo polos como o de Pernambuco.
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES): Ofereceu linhas de crédito para projetos audiovisuais, acessadas por algumas produções de maior orçamento.
Exemplos Práticos do Sucesso Alavancado por Essas Políticas
"O Som ao Redor" (2012, Kleber Mendonça Filho): Financiado via Lei do Audiovisual (federal), Fundo Setorial da ANCINE e Fundarpe (estadual). Estreou em Toronto e foi um marco, chamando a atenção internacional para a nova geração.
"Aquarius" (2016, Kleber Mendonça Filho): Selecionado para Cannes (Competição Oficial). Coprodução internacional com forte base no financiamento público federal e estadual.
"Boi Neon" (2015, Gabriel Mascaro): Premiadíssimo internacionalmente (Venice, Sundance). Utilizou Lei do Audiovisual, edital da ANCINE e recursos do estado.
"O Baile Perfumado" (1997, Paulo Caldas e Lírio Ferreira): Um dos filmes que reacendeu o cinema pernambucano, usou a Lei Estadual de Incentivo.
"A Febre do Rato" (2011, Cláudio Assis) e "Tatuagem" (2013, Hilton Lacerda): Outros exemplos da estética forte e autoral, viabilizados por essa mescla de financiamento.
Conclusão
O sucesso do cinema pernambucano é fruto de um projeto de Estado de longo prazo, iniciado ainda na redemocratização e consolidado nos últimos 30 anos. O modelo pernambucano demonstra que a combinação de uma política estadual ativa e estável (via FUNDARPE e lei de incentivo estadual) com os robustos mecanismos federais (Lei do Audiovisual e ANCINE) cria um ambiente fértil.
O estado atuou como um "primeiro investidor" e um amortecedor de riscos, dando confiança para que os criadores desenvolvessem suas vozes e, a partir daí, conquistassem o mercado nacional e internacional. É um caso de estudo sobre como o financiamento público, bem direcionado e com continuidade, pode gerar não apenas arte de qualidade, mas também desenvolvimento econômico, identidade cultural e soft power para uma região.