quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Lançamento da Pesquisa de Impacto Econômico da Lei Rouanet

 

Para cada R$ 1 investido por meio da Lei Rouanet, R$ 7,59 retornam para a economia e para a sociedade. Este e outros dados estão na Pesquisa Impacto Econômico da Lei Rouanet, realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e encomendada pelo Ministério da Cultura (MinC) e pela Organização de Estados Ibero-americanos (OEI).

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A Lei Rouanet movimentou R$ 25,7 bilhões na economia brasileira em 2024 e foi responsável pela geração e manutenção de 228 mil postos de trabalho, segundo a Pesquisa de Impacto Econômico da Lei Rouanet elaborada pela FGV. O estudo mostra que, para cada R$ 1 investido via renúncia fiscal, R$ 7,59 retornaram à economia e à sociedade, além de R$ 1,39 em arrecadação tributária. 

O ano marcou o primeiro aumento real de recursos desde 2011, com R$ 3 bilhões em renúncia fiscal e 4.939 projetos executados, impactando 89,3 milhões de pessoas. A cadeia produtiva associada aos projetos gerou 152,7 mil empregos diretos e 75,3 mil indiretos. 

A pesquisa também destaca a ampliação regional dos investimentos, com forte crescimento no Nordeste e no Norte, maior capilaridade dos recursos, fortalecimento de micro e pequenas empresas e elevado efeito multiplicador em áreas como Museus, Artes Visuais e Audiovisual. 



Teia dos Pontos de Cultura no Pará

 


As fases do cinema recifense até o êxito internacional

Lucas Zacari - 12 de janeiro de 2026 - (atualizado 12/01/2026 às 17h20)

‘O agente secreto’, de Kleber Mendonça Filho, tornou-se o primeiro filme brasileiro a ganhar dois Globos de Ouro. Produção audiovisual pernambucana acontece há um século.

O cinema brasileiro segue em alta. Na noite de domingo (11), “O agente secreto” conquistou dois Globos de Ouro: Melhor Filme Falado em Língua Não-Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, conquistado por Wagner Moura. O longa também concorria como Melhor Filme de Drama, categoria vencida por “Hamnet”.  

A edição de 2026 do Globo de Ouro marcou a primeira vez em que uma produção brasileira conquistou duas estatuetas na premiação. No ano anterior, Fernanda Torres levou o prêmio de Melhor Atriz em Filme de Drama, por sua interpretação como Eunice Paiva em “Ainda estou aqui” (2024). Já em 1999, “Central do Brasil” (1998) conquistou a categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

O diretor recifense Kleber Mendonça Filho é um dos principais nomes do cinema nacional da atualidade. As produções audiovisuais locais, no entanto, remontam a mais de um século, sendo uma dos polos cinematográficos pioneiros no país. 

Neste texto, o Nexo apresenta a trajetória do cinema recifense e suas características e explica como a produção local pode ser impactada pelas conquistas de “O agente secreto”. 

O início do cinema de Recife 

A primeira exibição cinematográfica no país aconteceu em 8 de julho de 1896. A iniciativa foi do exibidor itinerante belga Henri Paillie, que tornou uma sala alugada no Jornal do Commercio, no centro do Rio de Janeiro, um marco cultural. 

No Recife, a primeira exibição aconteceu em 1902, na Rua da Imperatriz. O Cine Pathé, na atual Rua Nova, foi a primeira sala de cinema fixa inaugurada na capital pernambucana, em 1909. 

A década de 1920 marcou o início da produção audiovisual recifense. Os italianos Ugo Falangola e J. Cambière se mudaram para Recife em 1922, com a intenção de filmar obras do governo estadual. Eles usaram as imagens para fazer filmes, sendo o mais conhecido “Veneza americana” (1925), documentário que mostra a modernização da cidade. Ele está disponível no site da Cinemateca Pernambucana. 

Em paralelo, o ourives Edison Chagas, o gravador Gentil Roiz e o estudante de engenharia Luís de França Rosa – sob o nome artístico de Ary Severo – se juntaram para fundar a produtora Aurora Films. Chagas participou de produções no Rio de Janeiro e queria reproduzir a experiência no Recife. 

A iniciativa deu origem ao Ciclo de Recife, que durou entre 1922 e 1931. Ao todo, foram 13 filmes ficcionais mudos e diversas produções não ficcionais. Como destaques do período, há “Retribuição” (1924) e “Aitaré da praia” (1925), de Gentil Roiz, e “A filha do advogado” (1926), de Jota Soares.  

A chegada do som síncrono aos cinemas fez com que a produção local fosse escanteada, pela dificuldade de produzir filmes sonoros e pela falta de dinheiro.  

O uso da Super 8

Os filmes de Hollywood dominaram as exibições nas décadas seguintes. Produções locais como “Coelho sai” (1942), de Newton Paiva e Firmo Neto, e “Terra sem Deus” (1962), de José Carlos Burle, foram lançadas, mas sem grande apelo e continuidade. 

A retomada da produção recifense veio a partir dos anos 1970, com o uso da filmadora analógica amadora Super 8, da Kodak. A câmera se caracterizava pela facilidade de manuseio e o baixo custo em relação às bitolas (larguras das fitas) profissionais. Jovens de classe média alta a obtinham em viagens ao exterior.  

Mais de 200 filmes foram produzidos a partir da filmadora analógica, com o caráter experimental e a análise da sociedade urbana como uma das suas principais marcas. Documentários e filmes ficcionais também foram produzidos. 

Nomes como Geneton Moraes Neto e Celso Marconi foram alguns dos representantes do Ciclo da Super 8, como o movimento cinematográfico ficou conhecido, que durou até o início da década de 1980. A queda da produção foi influenciada pelo encarecimento da revelação das bitolas pela Kodak e a inclusão do modelo de câmeras na lista de proibições de importação pela ditadura militar, em 1977.  

A retomada do cinema local

Em 1985, um grupo de estudantes da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) criou o Vanretrô (Vanguarda Retrógrada), um coletivo para a produção de um filme. Eram 10 integrantes: Lírio Ferreira, Adelina Pontual, Valéria Ferro, Cláudia Silveira, Patrícia Luna, Andréa Paula, André Machado, Samuel Paiva, Solange Rocha e Cláudio Assis.

O Vanretrô acompanhava mostras de filmes em Recife e discussões sobre cinema. O grupo fez parte do curta-metragem “Henrique”, que contou a história real do padre recifense sequestrado e assassinado pela ditadura militar, em 1969. 

Após a extinção da estatal Embrafilme pelo governo Fernando Collor de Mello, em 1990, a produção cinematográfica brasileira se tornou quase nula. O fomento posterior ao audiovisual possibilitou o movimento de Cinema de Retomada, com novos filmes nacionais a partir de 1995. 

Um deles foi “Baile perfumado” (1996), com direção de Lírio Ferreira e Paulo Caldas – que participava de reuniões do Vanretrô. Foi o primeiro longa produzido em Pernambuco em quase 20 anos. 

O enredo do filme remonta o projeto do fotógrafo libanês Benjamin Abrahão (interpretado por Duda Mamberti) de fazer um filme com Lampião (Luiz Cláudio Vasconcelos) e seus cangaceiros. O episódio aconteceu em 1936, e deu origem ao único registro filmado do bando. 

A trilha sonora de “Baile perfumado” é composta de nomes da música pernambucana como Chico Science e Nação Zumbi, Fred Zero Quatro e Mestre Ambrósio. 

76ª foi a colocação de “Baile perfumado” na lista dos 100 melhores filmes da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), divulgada em 2015

De acordo com Sandra Bertini, diretora do festival Cine PE, “Baile perfumado” mudou o senso comum do cinema sobre a região. “É uma estética de um filme completamente diferente, que era um sertão verde”, afirmou ao Nexo.

As produções contemporâneas

O século 21 apresentou uma série de cineastas recifenses, indo desde Guel Arraes, com títulos como “O auto da compadecida” (2000) e “Lisbela e o prisioneiro” (2003), à Kleber Mendonça Filho com “Aquarius” (2016) e “Bacurau” (2019). Além deles, filmes como “O último azul” (2025), de Gabriel Mascaro, também se destacaram. 

De acordo com Mariana Jacob, diretora de produção de “O agente secreto”, o audiovisual recifense teve um processo de maturação nos últimos 15 anos. “É um cinema humano, é um cinema que acredita na sua voz, no seu sotaque, na sua potência. Isso acaba se vendo em tela”, disse ao Nexo. 

Além da crítica social, Bertini elencou características da produção cinematográfica atual do Recife, como o regionalismo e o cuidado técnico. “Se tem um cuidado, um primor, uma riqueza na estética do filme, ditado pela fotografia do filme, pelo cuidado que envolve a direção de arte, os figurinos e as locações”, afirmou a diretora do Cine PE. 

“É um cinema que faz a gente se sentir representado naquelas histórias, que sempre tem algo a dizer de inovador. A gente precisa assistir ao filme várias vezes para entender, porque ficamos tão emocionados com a musicalidade, com a estética, com a cor, com a posição da câmera, com os atores”

Sandra Bertini diretora do festival Cine PE

As duas especialistas disseram ao Nexo que a distância para os principais polos do país (eixo Rio-São Paulo) ajudou a construir uma grande mobilização cinematográfica. “Hoje a gente tem o Funcultura e outras formas de financiamento dessas obras. Mas, independente disso, as pessoas daqui fazem o filme por amor ao cinema”, disse Bertini. 

O trabalho coletivo é um dos principais destaques da produção recifense, segundo Jacob. “A gente tem um modelo de produção criativa em que, na falta de quem faça ou de um objeto específico, a gente vai e aprende. Acho que isso faz com que o processo seja muito prazeroso e que a repercussão seja enorme”, disse a diretora de produção. 

Recife em ‘O agente secreto’ 

Ambientado em Recife, em 1977, durante a ditadura militar, “O agente secreto” acompanha Wagner Moura como Marcelo. O professor universitário e especialista em tecnologia sai de São Paulo em busca de paz. Na capital pernambucana, no entanto, ele descobre que está sendo espionado. 

Não é o primeiro filme de Kleber Mendonça Filho com a capital pernambucana como cenário. Em entrevista ao Nexo em novembro, o diretor afirmou que a sua intimidade com Recife facilita o trabalho de filmagem, fotografando a cidade desde a adolescência. A preservação da região central, mesmo que pela falta de interesse da especulação imobiliária, também facilitou a ambientação. 

“Os prédios e a arquitetura são do início do século, dos anos 1940. A [avenida] Guararapes e as pontes fazem parte de um circuito urbano, afetivo, e muito poético, porque esses lugares já foram muito destacados na literatura e no próprio cinema”

Kleber Mendonça Filho diretor, em entrevista ao Nexo em novembro de 2025

“O agente secreto” se tornou o primeiro filme fora do eixo Sul-Sudeste a ultrapassar a marca de um milhão de espectadores no cinema. Ele também foi a produção nacional mais vista de 2025 e a sétima entre todas as exibições do país, atrás de blockbusters como “Zootopia 2” e “Avatar: Fogo e Cinzas”. 

1.098.431 foi o número de espectadores de “O agente secreto” em salas de cinema brasileiras até 9 de janeiro, segundo a Ancine (Agência Nacional de Cinema)

Com as duas estatuetas do Globo de Ouro, “O agente secreto” acumula 56 prêmios desde a sua estreia no Festival de Cannes, em maio de 2025. A expectativa é que a temporada de premiações – as indicações ao Oscar de 2026 serão divulgadas no dia 22 de janeiro – possa gerar políticas públicas para o setor. 

“A gente pode ter mais verbas para cá, mais empresas apostando em filmes. Isso ajuda não só o cinema de Pernambuco, mas todo o cinema nacional, que a gente luta há muito tempo para conquistar o que estamos conseguindo hoje”, afirmou Bertini. Para Jacob, as vitórias podem significar um aumento da credibilidade da produção local: “Que as pessoas comecem a entender que o nosso cinema é de qualidade e universal”.

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2026/01/12/cinema-recife-historia-agente-secreto-globo-de-ouro

Como os investimentos em financiamento público a cultura do audiovisual no Estado de Pernambuco durante os últimos 30 anos contribuíram para o sucesso do cinema pernambucano na cena nacional e internacional? Quais foram as politicas de fomento estadual, municipal e federal que contribuíram para isto?  (resposta IA deepseek)

A trajetória do cinema pernambucano, marcada pelo "Ciclo do Recife" (anos 1950-60) e por seu renascimento explosivo a partir dos anos 1990, é um caso paradigmático de como o financiamento público, articulado em diferentes esferas, pode fomentar uma potente indústria criativa regional. A seguir, uma análise detalhada:

A Contribuição Fundamental do Financiamento Público (últimos 30 anos)

Os investimentos públicos foram o alicerce estrutural que permitiu que o cinema pernambucano superasse a precariedade histórica e se consolidasse como uma das vozes mais originais e premiadas do Brasil. Sua contribuição se deu em várias frentes:

Formação de uma Geração de "Autor-Realizadores": Ao contrário de apenas financiar projetos pontuais, as políticas sustentadas permitiram que uma geração (Kleber Mendonça Filho, Gabriel Mascaro, Cláudio Assis, Marcelo Gomes, Hilton Lacerda, Camila de Moraes, entre outros) desenvolvesse uma linguagem autoral consistente, do curta ao longa, sem precisar migrar para os centros tradicionais (Rio/São Paulo).

Criação de um Ecossistema Produtivo: O financiamento recorrente estimulou o surgimento e a profissionalização de produtoras locais (Deck, Carnaval, Carvão, etc.), técnicos especializados, empresas de pós-produção e uma cadeia produtiva que atrai e realiza projetos de outras regiões.

Estímulo à Diversidade Narrativa e Estética: O fomento público, especialmente via editais de curta-metragem e projetos autorais, permitiu experimentações que resultaram numa estética única – muitas vezes ligada ao realismo cru, ao som ambiente potente, à fotografia de luz natural e às narrativas que tensionam a modernidade com tradições locais.

Ponte para o Mercado Internacional: A chancela e o financiamento de agências públicas (especialmente a ANCINE) conferiram credibilidade aos projetos, facilitando coproduções internacionais e a participação em festivais de prestígio (Cannes, Berlim, Veneza, Sundance), onde o cinema pernambucano se tornou presença constante.

Fortalecimento da Identidade Cultural: O cinema tornou-se um vetor poderoso para a projeção nacional e internacional da cultura pernambucana, sua música, seu sotaque, suas paisagens e suas contradições sociais.

Políticas de Fomento que Alavancaram o Movimento

A sinergia entre os três níveis de governo foi crucial. O Estado de Pernambuco agiu como agente catalisador e estabilizador, criando uma base segura para que os realizadores pudessem acessar também recursos federais.

1. Estadual (Pernambuco): O Papel da FUNDARPE e do SECULT-PE

Lei de Incentivo à Cultura (Estatuto do Artista): Implementada ainda nos anos 1980 e aprimorada posteriormente, é o principal instrumento. Permite que empresas destinem parte do ICMS devido ao estado para projetos culturais aprovados. Foi vital para a primeira leva de longas do revival nos anos 1990/2000.

Editais Setoriais da FUNDARPE: A Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, ligada à Secretaria Estadual de Cultura (SECULT-PE), passou a lançar editais específicos para desenvolvimento de roteiro, produção de curtas e longas-metragens, finalização e distribuição. Oferecem subsídio direto (não-incentivado), essencial para projetos menos comerciais.

Apoio à Formação: Parcerias com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e cursos livres, além do apoio ao Festival de Cinema de Recife e ao Janela Internacional de Cinema, que se tornaram importantes vitrines e espaços de formação de público e networking.

2. Municipal (Recife): A Importância da Prefeitura e do FUNDO PERNAMBUCANO DE CULTURA

Lei Municipal de Incentivo à Cultura (Recife): Similar à estadual, permite o uso de parte do ISS para projetos culturais na cidade. Apoiou produções com locações no Recife e atividades de formação.

Fundo Pernambucano de Cultura (FPC): Embora de nomenclatura estadual, é um instrumento importante que conta com gestão compartilhada. Oferece financiamento via editais para diversas etapas da cadeia audiovisual.

Apoio a Festivais e Mostras: A prefeitura historicamente apoia eventos como o Cine PE e o Aruanda do Audiovisual Brasileiro, fundamentais para a circulação e o debate.

3. Federal: A Âncora Financeira e de Regulação (ANCINE e Lei do Audiovisual)

Lei do Audiovisual (Lei nº 8.685/93): O instrumento mais importante em nível nacional. Permite que empresas e pessoas físicas invistam em projetos audiovisuais com isenção fiscal (IR). A grande maioria dos longas-metragens pernambucanos de sucesso contou com este mecanismo. Foi fundamental para atrair investimentos de grandes empresas para projetos locais.

Agência Nacional do Cinema (ANCINE): Além de gerir a Lei do Audiovisual, a ANCINE opera:

Fundo Setorial do Audiovisual (FSA): Concede financiamento reembolsável e não-reembolsável para desenvolvimento, produção, distribuição e modernização de salas.

Editais Públicos: A ANCINE lança editais temáticos (como "Brasil de Todas as Telas") que sempre tiveram forte participação de produtoras pernambucanas.

Regulamentação e Dados: Criou um ambiente profissional e previsível para o setor.

Programa Brasil de Todas as Telas (Ministério da Cultura): Em suas várias edições, injetou recursos diretos em produções regionais, fortalecendo polos como o de Pernambuco.

Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES): Ofereceu linhas de crédito para projetos audiovisuais, acessadas por algumas produções de maior orçamento.

Exemplos Práticos do Sucesso Alavancado por Essas Políticas

"O Som ao Redor" (2012, Kleber Mendonça Filho): Financiado via Lei do Audiovisual (federal), Fundo Setorial da ANCINE e Fundarpe (estadual). Estreou em Toronto e foi um marco, chamando a atenção internacional para a nova geração.

"Aquarius" (2016, Kleber Mendonça Filho): Selecionado para Cannes (Competição Oficial). Coprodução internacional com forte base no financiamento público federal e estadual.

"Boi Neon" (2015, Gabriel Mascaro): Premiadíssimo internacionalmente (Venice, Sundance). Utilizou Lei do Audiovisual, edital da ANCINE e recursos do estado.

"O Baile Perfumado" (1997, Paulo Caldas e Lírio Ferreira): Um dos filmes que reacendeu o cinema pernambucano, usou a Lei Estadual de Incentivo.

"A Febre do Rato" (2011, Cláudio Assis) e "Tatuagem" (2013, Hilton Lacerda): Outros exemplos da estética forte e autoral, viabilizados por essa mescla de financiamento.

Conclusão

O sucesso do cinema pernambucano é fruto de um projeto de Estado de longo prazo, iniciado ainda na redemocratização e consolidado nos últimos 30 anos. O modelo pernambucano demonstra que a combinação de uma política estadual ativa e estável (via FUNDARPE e lei de incentivo estadual) com os robustos mecanismos federais (Lei do Audiovisual e ANCINE) cria um ambiente fértil.

O estado atuou como um "primeiro investidor" e um amortecedor de riscos, dando confiança para que os criadores desenvolvessem suas vozes e, a partir daí, conquistassem o mercado nacional e internacional. É um caso de estudo sobre como o financiamento público, bem direcionado e com continuidade, pode gerar não apenas arte de qualidade, mas também desenvolvimento econômico, identidade cultural e soft power para uma região.




terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Uma nova era: Construído sobre as ruínas do neoliberalismo, assemelha-se ao imperialismo do século XIX.

Construída sobre as ruínas do neoliberalismo, assemelha-se ao imperialismo do século XIX. A extrema-direita é o principal ator, os tecnoligarcas estão assumindo o controle do Estado e a religião está sendo usada mais uma vez como arma política.

O artigo é de Steven Forti, professor de História Contemporânea na Universidade Autônoma de Barcelona. Membro do Conselho Editorial do CTXT, é autor de 'Extrema derecha 2.0. Qué es y cómo combatirla' (Siglo XXI de España, 2021), publicado por Ctxt, 12-01-2026.

https://www.ihu.unisinos.br/661928-dez-teses-sobre-a-nova-era-artigo-de-steven-forti

Eis o artigo.

O retorno de Trump à Casa Branca em janeiro de 2025 marcou o início de uma nova era. Nosso "mundo de ontem", para usar as palavras de Stefan Zweig, acabou. Kaputt. Precisamos perceber isso o mais rápido possível. Entramos em uma nova fase histórica, cujas características são, naturalmente, ainda incertas. Tentarei delinear seus contornos com base em dez teses.

1. O neoimperialismo substitui a ordem liberal global

A ordem liberal global criada no final da Segunda Guerra Mundial — frágil, imperfeita e frequentemente desconsiderada — está sendo substituída por uma lógica imperial governada por uma mistura da lei da selva — a força faz o direito — e pela divisão de esferas de influência — a nova doutrina trumpista foi definida como “geopolítica hemisférica” — e uma abordagem transacional. Ucrânia, Venezuela, Taiwan e Gaza demonstram isso. E provavelmente são apenas o começo. A abordagem diplomática e o multilateralismo são coisas do passado: organizações supranacionais como as Nações Unidas não são mais reconhecidas como detentoras de qualquer autoridade, nem mesmo formal. “Chegou a hora dos predadores”, para citar Giuliano Da Empoli.

Se quisermos traçar um paralelo histórico, a nova era assemelha-se à época do imperialismo do final do século XIX: não é coincidência que "Make Colonialism Great Again" seja um slogan que circula nos círculos MAGA. No caso dos Estados Unidos, porém, trata-se de um hiperimperialismo, ou seja, um novo tipo caracterizado por uma hegemonia militarizada, coercitiva e tecnologicamente imposta sobre o Sul Global devido ao declínio do Norte Global. Portanto, não se trata de um retorno à era imperialista clássica ou à antiga ordem de Vestfália, mas sim do estabelecimento de um sistema internacional "neomonárquico" estruturado por um pequeno grupo de elites hiperprivilegiadas que buscam legitimar-se apelando ao seu excepcionalismo para criar novas hierarquias materiais e de status.

 2. O neoliberalismo abriu caminho para o novo autoritarismo

Os alicerces da nova era estão sendo construídos sobre as ruínas do neoliberalismo. Chegamos a este ponto após três décadas de hegemonia neoliberal que, com a força de picaretas e motosserras, demoliu as paredes de sustentação do edifício tão meticulosamente construído após 1945. Primeiro, as políticas neoliberais — privatizações, insegurança no emprego, cortes nos gastos sociais, etc. — enfraqueceram o modelo do Estado de bem-estar social, aumentando as desigualdades e fragmentando a coesão social. Segundo, tudo isso foi reforçado pelo fato de que, como ideologia, por mais “invisível” que seja, o neoliberalismo incutiu uma série de valores, como o individualismo desenfreado e a competitividade extrema, a ponto de forjar uma aliança com os setores etnonacionalistas e identitários da direita. Terceiro, o próprio conceito de democracia foi esvaziado de sua componente social: a democracia formal — o respeito a (algumas) regras e procedimentos — substituiu a democracia substantiva, cujo objetivo é a igualdade.

"O poder efetivo deslocou-se para as elites econômicas, resultando na configuração de um sistema pós-democrático" - Steven Forti

Em quarto lugar, num contexto marcado pela globalização neoliberal, o poder efetivo deslocou-se para as elites económicas, com a consequente configuração de um sistema pós-democrático, no qual os organismos intermediários – partidos, sindicatos, associações da sociedade civil – se desfizeram gradualmente, a participação evaporou-se e a personalização da política, também facilitada pela transformação dos meios de comunicação social, favoreceu o surgimento de fenómenos “populistas” [3]. Por fim, as políticas neoconservadoras após o 11 de setembro – a guerra contra o terror, as invasões do Afeganistão, do Iraque e da Líbia – corroeram a ordem internacional, falhando espetacularmente na sua tentativa de exportar a democracia liberal.

Como alertou Mark Lilla, de uma perspectiva puramente americana, o modelo rooseveltiano foi sucedido no final da década de setenta pelo modelo reaganiano, que, embora tenha começado a declinar com a Grande Recessão de 2008, ainda não havia encontrado um substituto até recentemente [4]. Em retrospectiva, o Obamaísmo foi a última tentativa de manter à tona um paradigma em declínio, renovando apenas sua fachada, mas sem alterar sua essência.

3. Os tecnoligarcas assumem o controle do Estado

Na era do neoliberalismo triunfante, a conivência entre o poder político e o econômico era evidente. Houve resistência, com intensidade variável de país para país. Uma aparência de respeito pelas regras do jogo foi mantida (embora nem sempre, é preciso dizer): a influência das elites econômicas era visível, mas houve tentativas (pelo menos em certa medida) de ocultá-la. Na nova era, porém, o que se quer fazer, faz-se e diz-se, sem esconder. Isso se aplica tanto à geopolítica quanto às relações com as potências econômicas.

Por um lado, Trump bombardeia Caracas e prende Maduro para controlar diretamente os poços de petróleo venezuelanos: a palavra “democracia” não aparece em seus discursos e está longe de ser um de seus objetivos, mesmo que apenas superficialmente. Por outro lado, os barões ladrões do terceiro milênio estabeleceram explicitamente uma aliança estratégica com os novos líderes autoritários: os tecnoligarcas do Vale do Silício não querem apenas encher os bolsos, mas, em primeiro lugar, defendem abertamente projetos autoritários e antidemocráticos — novas monarquias absolutas, movidas pela eficiência e governadas por CEOs-reis, seguindo o modelo do Catar ou de Singapura, segundo as teorias de um de seus principais cortesãos intelectuais, Curtis Yarvin — e, em segundo lugar, querem ser “legisladores intelectuais”, como afirma Evgeny Morozov.

Resumindo, com Peter Thiel, Elon Musk, Marc Andreessen e Alex Karp, passamos da união entre política e economia do tipo neoliberal "clássico" para a vontade explícita de capturar o Estado através da criação de um "complexo tecnológico autoritário" que visa controlar as infraestruturas de governança.

"A palavra 'democracia' não aparece nos discursos de Trump, e está longe de ser um de seus objetivos" - Steven Forti

4. Autocracias eleitorais substituem democracias

Na nova era, a democracia, mesmo em sua forma formal, é considerada um mero ornamento. De fato, foi reduzida a uma sombra do que já foi. Já na era do declínio do neoliberalismo, ou seja, a partir de 2008, a porcentagem da população mundial vivendo em democracias vem diminuindo constantemente, atingindo um modesto e preocupante patamar de 28% em 2024. A tendência é clara. Há cerca de vinte anos, vivenciamos a primeira grande onda de autocratização desde a Segunda Guerra Mundial; isto é, cada vez mais países se tornam autocracias eleitorais. Mantêm uma aparência de respeito às regras democráticas — até mesmo na Rússia de Putin, eleições são realizadas —, mas a democracia é, na melhor das hipóteses, uma casca vazia. Quer queiramos ou não, a era que se iniciou está destinada a ser a era das autocracias [5].

5. A extrema-direita é o principal ator da nova era

Juntamente com os líderes autoritários — leia-se: homens fortes — no poder em grande parte do mundo — Putin, Xi Jinping, Erdogan, Modi, os petro-monarcas do Golfo, e assim por diante — no Ocidente, é a extrema-direita que melhor representa esta nova era. De fato, ela está ganhando terreno eleitoral em todos os lugares e chegou ao poder em diversos países: dos Estados Unidos à Argentina, de Israel à Itália, da Hungria a El Salvador e ao Chile. Assim que tem a oportunidade, estabelece sistemas eleitorais autocráticos: a separação de poderes é corroída, o pluralismo midiático é atacado e os direitos de grandes segmentos da população desaparecem. O homem forte se apresenta como representante do povo, despreza os controles democráticos e coloca em movimento um projeto etnonacionalista reacionário.

Embora existam diferenças e peculiaridades nacionais — afinal, cada partido é produto da cultura política de seu próprio país —, a extrema-direita deve ser entendida como uma grande família global. As referências ideológicas e as estratégias políticas e de comunicação utilizadas são, na verdade, as mesmas. Além disso, participam das mesmas redes transnacionais formadas por fundações, institutos e think tanks que, nos últimos anos, têm trabalhado incansavelmente para desenvolver uma agenda comum, exportável e adaptável a diferentes contextos: veja-se a Heritage Foundation ou a rede Conservadorismo Nacional. Ademais, Trump, Milei, Bukele, Orbán, Netanyahu, Meloni, Abascal, Ventura, Weidel, Le Pen, Farage, Wilders, Bolsonaro, Kast e companhia acreditam estar travando a mesma batalha contra inimigos comuns: a esquerda, o liberalismo, o globalismo, o movimento Woke e o politicamente correto. Suas coalizões parecem frágeis porque são frequentemente compostas por setores com interesses distintos — pense-se no trumpismo —, mas, por ora, a esperança de que se desfaçam não passa de um desejo inatingível.

6. Mais do que fascismo, é uma renovação do pensamento anti-iluminista

Costuma-se dizer que estamos vivenciando o retorno do fascismo, mais ou menos disfarçado. Embora existam elementos de continuidade entre o fascismo histórico e a extrema-direita do terceiro milênio — mais em alguns países do que em outros —, o conceito de “fascismo eterno”, proposto há mais de trinta anos por Umberto Eco, nos leva a conclusões equivocadas. Como aponta Santiago Gerchunoff, o uso compulsivo do termo — em suas diversas formas: fascismo tardio, fascismo fóssil, tecnofascismo etc. — revela, antes, “o desejo de encontrar uma palavra mágica que afaste o perigo da abstração do nosso mundo e, ao mesmo tempo, silencie qualquer discussão” [6]. É reconfortante, por assim dizer, chamar a nova extrema-direita de fascista porque, em certo sentido, isso nos dá a falsa certeza de saber o que estamos enfrentando.

"Trump, Milei, Bukele, Orbán, Netanyahu, Meloni, Abascal, Ventura, Weidel, Le Pen, Farage, Wilders, Bolsonaro, Kast e companhia acreditam que estão travando a mesma batalha contra a esquerda" - Steven Forti

Contudo, as características desta nova era não são as mesmas do período entre guerras: passou-se um século desde os regimes de Hitler e Mussolini. O mundo mudou profundamente e as nossas sociedades mudaram em conformidade: a política de massas já não existe; a atomização é a marca distintiva desta nova era. Além disso, mesmo no passado, naquele “mundo de ontem” morto e enterrado, nem todos os regimes autoritários eram fascistas. Digamos o seguinte: pode-se ser reacionário, nacionalista, autoritário e antidemocrático sem necessariamente ser fascista. Mas isso não torna a situação menos grave. O que temos diante de nós é uma nova extrema-direita que defende um autoritarismo pós-liberal, anti-igualitário e orientado para a eficiência. As suas raízes encontram-se no pensamento anti-Iluminismo e no reacionarismo antiliberal do final do século XVIII. Em última análise, trata-se de uma cultura política pluralista, heterogênea e de longa data, que bebeu de diversas fontes.

7. O extremismo é a nova corrente dominante 

Nas últimas décadas, ideias extremistas se normalizaram. A Janela de Overton deslocou-se radicalmente para a extrema-direita: ideias antes consideradas inaceitáveis tornaram-se senso comum e, como último recurso, foram consagradas em lei. Na Rússia e na Hungria, a homossexualidade é legalmente equiparada à pedofilia. Nos Estados Unidos, declarar-se antifascista implica ser considerado membro de um grupo terrorista. Já não choca ninguém quando influenciadores proeminentes do movimento MAGA afirmam publicamente que as mulheres não deveriam ter o direito ao voto, quando o presidente argentino Javier Milei considera a justiça social um câncer que deve ser erradicado, ou quando membros do governo israelense definem os palestinos como “animais” e defendem o genocídio no cenário mundial.

Teorias da conspiração abundam, a começar pela Grande Substituição, segundo a qual as elites globalistas estariam executando um plano para substituir a população europeia por imigrantes muçulmanos. O presidente da maior potência mundial pode declarar repetidamente sua intenção de anexar outros territórios, mesmo os de países aliados como a Groenlândia ou o Canadá, desconsiderando o direito internacional. Os líderes intelectuais da nova extrema-direita, como Curtis Yarvin, encontram seguidores afirmando que as democracias devem ser substituídas por novas monarquias absolutas e que os pobres devem ser confinados a um quarto e conectados à realidade virtual dia e noite.

A nova era não é apenas a era da pós-verdade, da desinformação e das notícias falsas, mas também uma era em que o extremismo se tornou comum. Além das consequências da hegemonia neoliberal, essa mudança não pode ser compreendida sem considerar o impacto das novas tecnologias, que possibilitaram a disseminação viral de ideias e narrativas extremistas e, consequentemente, a normalização da extrema-direita e do autoritarismo. Não é coincidência que as duas últimas palavras do ano, segundo o Dicionário Oxford, tenham sido, em 2024, "brain rot" (apodrecimento cerebral), referindo-se à deterioração mental causada pelo consumo excessivo de conteúdo online de baixa qualidade, e, em 2025, "rage bait" (isca de raiva), referindo-se a conteúdo online criado para provocar indignação e gerar fortes reações emocionais, explorando a polarização e o funcionamento dos algoritmos das redes sociais.

8. Os partidos e as instituições democráticas estão passando por uma paralisia debilitante

Apesar de algumas vitórias eleitorais e algumas decisões acertadas, a maioria dos partidos e instituições democráticas não conseguiu compreender que tudo mudou. Raciocinam com base em paradigmas ultrapassados e propõem soluções antiquadas que, além de serem irrealistas neste século XXI, já não despertam qualquer interesse, nem mesmo entre aqueles que as defendem.

O establishment liberal assistiu ao chão desmoronar sob seus pés, mas em vez de dar um salto para a frente — ou ao menos tentar, como Mario Draghi, uma das poucas vozes lúcidas das antigas elites, tem repetidamente instado — está se agarrando ao último pedaço de rocha, o que, na melhor das hipóteses, só prolongará sua agonia. O exemplo mais claro é a resposta da Comissão Europeia às ameaças de Trump, com Ursula von der Leyen ajoelhada em um campo de golfe escocês diante dos ditames do autoproclamado imperador de Mar-a-Lago, e Kaja Kallas fingindo que nada mudou nas relações entre Bruxelas e Washington.

Na pior das hipóteses, demonstrando uma incrível falta de visão, o establishment liberal tenta copiar a extrema-direita para evitar ser canibalizado e sobreviver ao que acredita ser uma tempestade passageira, pavimentando, em última análise, o caminho para o autoritarismo pós-liberal. Assim, vemos uma direita democrática em claro declínio e em profunda crise de identidade — de Merz a Macron, de Tusk a Von der Leyen — e até mesmo um segmento da esquerda social-democrata que se perdeu completamente — de Starmer a Frederiksen — aprovando políticas conservadoras e reacionárias em matéria de imigração, defesa, segurança, direitos e meio ambiente. Apesar de seus erros e deficiências, poucos — Lula, Sánchez, Sheinbaum, Petro, Mamdami — parecem compreender o cerne da questão: nada será como antes.

9. A religião está sendo usada mais uma vez como arma política

A nova era é caracterizada pela renovada centralidade do uso político da religião em todo o mundo. Embora esse não seja um fenômeno novo nos mundos muçulmano ou hindu, certamente é novo no Ocidente, onde, após décadas de secularização, considerávamos a religião algo do passado. Apesar do aumento no número de ateus e agnósticos, novos líderes autoritários estão utilizando a religião mais do que nunca, invocando a suposta proteção de Deus, como se fossem novos monarcas absolutos por graça divina.

Encontramos suas variações mais díspares nos mundos católico, protestante, evangélico e ortodoxo, mas também no judaísmo, hinduísmo e islamismo: a bênção do Patriarca Kirill à invasão da Ucrânia; as referências de Netanyahu ao Antigo Testamento para justificar o genocídio em Gaza ou a ocupação da Cisjordânia; o uso do hinduísmo por Modi; Trump, que se considera salvo por Deus por ter escapado da tentativa de assassinato em Boulder; Milei citando compulsivamente a Torá; Bolsonaro sendo batizado no Rio Jordão; a defesa da identidade cristã da Hungria e da Itália por Orbán e Meloni; As referências à Reconquista feitas por Abascal e Ventura... Mas, sem sequer sair dos Estados Unidos, basta considerar o funeral do supremacista branco Charlie Kirk, as tatuagens do Secretário de Guerra Pete Hegseth — a inscrição “Deus Vult” e a cruz de Jerusalém, um símbolo da supremacia branca e uma referência às Cruzadas medievais — ou as reflexões pseudoteológicas de Peter Thiel sobre o apocalipse e o Anticristo. Um novo tipo de nacionalismo cristão, que caminha lado a lado com o sionismo judaico, está cada vez mais presente em pensadores como Yoram Hazony e Rod Dreher, e também cada vez mais ativo nas fileiras da extrema-direita. É uma religião que se manifesta de forma agressiva, excludente e baseada na identidade.

10. A resposta para "O que fazer?" só pode ser coletiva

A resposta à antiga questão leninista não cairá do céu, nem será formulada por nenhum intelectual. Ela só pode emergir da sociedade; ou seja, só pode ser coletiva. Temo que levará tempo — certamente anos, provavelmente uma geração — porque o que precisa ser reconstruído, tanto do ponto de vista material quanto moral, aumenta a cada dia que passa. Iludir-se pensando que a derrota da extrema-direita em uma eleição específica significa uma virada é pura ilusão. Enquanto isso, pelo menos podemos evitar cair no abismo.

Os partidos democráticos devem evitar sucumbir ao canto de sereia da extrema-direita e defender as instituições e os direitos arduamente conquistados. As instituições europeias devem opor-se veementemente ao neoimperialismo autoritário dos EUA, evitando a insolução do apaziguamento — um suicídio lento — e emergindo da letargia da “vassalagem feliz”. Neste momento, é necessário desvincular-se do que se tornou o vínculo atlântico, construir uma autonomia estratégica genuína — que não pode ser meramente militar e, muito menos, baseada em fundamentos nacionais — e defender o que resta do multilateralismo, abrindo-se aos atores democráticos do Sul Global. No mínimo, devem ser envidados esforços para governar a economia — redistribuindo a riqueza e reduzindo as desigualdades — e colocar a questão ambiental — que agora foi relegada a segundo plano — e a questão tecnológica, com tudo o que isso implica — pondo fim à dependência das grandes empresas de tecnologia dos EUA, cujos projetos autoritários devem ser combatidos sem hesitação, e reduzindo a distância com a China, no centro da ação política.

No entanto, é necessário repensar completamente os paradigmas existentes: os antigos já não funcionam nesta nova era. Portanto, devemos começar do zero: reconstruir a sociedade — agora fragmentada e atomizada —, criar um senso de comunidade — que não seja do tipo identitário e etnonacionalista da extrema-direita —, reacender a batalha de ideias — a extrema-direita vem fazendo isso há anos e agora colhe os frutos — e forjar alianças e redes transnacionais — porque a solução não pode ser meramente local. Todos devemos nos sentir envolvidos.

Retomando as três categorias de Hirschman, "saída" não é uma opção, pois significaria deixar o campo aberto para a imposição definitiva da nova ordem autoritária, e "lealdade" faz pouco sentido, pois o establishment atual ou carece de ideias ou sofre de uma paralisia debilitante. A única possibilidade é "voz", ou seja, participação e protesto. Este deve ser o ponto de partida.


VITÓRIA DE TRUMP E O FUTURO DA ESQUERDA. Frei Betto

   A Grande Mão e o Salão de Atos (Memorial da América Latina/SP) 

13 de novembro de 2024 

Como outrora se dizia à luz de categorias marxistas, a correlação de forças mudou. Após a Segunda Grande Guerra, o avanço da União Soviética e o êxito da Revolução Chinesa (1948) estabeleceram um equilíbrio pendular no mundo conhecido como Guerra Fria. 

      Os países capitalistas metropolitanos, em especial da Europa Ocidental, adotaram políticas social-democratas que beneficiaram a classe trabalhadora. O objetivo do Estado de bem-estar social era evitar que fosse atraída pela agenda comunista. A elite entregou os anéis para não perder os dedos.

      Antonio Candido dizia que a maior conquista do socialismo não tinha ocorrido nos países que o adotaram, e sim na Europa Ocidental que, por temê-lo, concedeu direitos aos trabalhadores. Derrubado o Muro de Berlim (1989), os direitos também vieram abaixo.

      Como Hitler e Mussolini encarnavam o que se considerava direita, se assumir como tal era tido como politicamente incorreto. No Brasil, após a redemocratização (1985), na polarização partidária o PT representava a esquerda e o PSDB, a direita, embora este partido traga em sua sigla a marca de social-democracia. 

      Dissolvida a União Soviética (sem que se disparasse um único tiro) e derrubado o Muro de Berlim, a direita decidiu “sair do armário”. Hoje, a polarização ideológica não é entre esquerda e direita, é entre direita e extrema-direita, como Kamala e Trump. Em nosso país, diante do avanço da extrema-direita, boa parte da direita tenta se disfarçar de “centro”. É o caso do PDT, do MDB e de outros, que não advogam uma sociedade pós-capitalista.

      A eleição de Trump é a cereja do bolo que faltava à ascensão da direita no mundo. Sem dúvida, ela haverá de anabolizar a extrema-direita no Brasil. A diferença entre direita e extrema-direita é que a primeira respeita as regras da democracia burguesa; a segunda, as ignora e adota medidas autocráticas. O tema tem sido exaustivamente tratado por autores como Roger Eatwell, Matthew Goodwin e Cas Mudde.

      Como ficam os partidos progressistas como PT, PSOL, PcdoB, UP e outros? Pelo andar da carruagem (eleição de Trump e resultados das eleições municipais) dificilmente haverão de amealhar um número significativo de votos nas eleições de 2026. 

      O próximo Congresso, a ser eleito em 2026, será tão ou mais conservador que o atual. Quem garante isso? O orçamento secreto, agora apelido de emendas parlamentares. Nenhum cacique municipal ou estadual correrá o risco de perder a boquinha na próxima legislatura federal. Quem vai querer abrir mão dessa cornucópia da qual jorram, a cada ano, bilhões de reais a serem embolsados por 81 senadores e 513 deputados federais?

      Quais as alternativas para a esquerda e os partidos progressistas? Um dos desafios é lidar política e profissionalmente com as redes digitais. Não se pode depender de iniciativas pessoais ou grupais. Se um partido quer emitir mensagens (análises de conjuntura; dados do governo progressista; contrapontos às fake news da direita etc.), deverá contar com equipes de profissionais especializados em mídias digitais e politicamente identificados com as propostas de esquerda. Não repetir o erro de certas campanhas eleitorais de candidatos de esquerda, cujos marqueteiros são de direita... Há que se ter equipes que se revezem de 8 em 8 horas de modo a atuar 24h por dia, de domingo a domingo. E cujos conteúdos emitidos tenham linguagem popular e sejam de forte impacto visual.

      O que levou Lula três vezes à presidência da República? Não foi a perícia dos marqueteiros nem as alianças partidárias, e sim o trabalho de base, de educação política, que acumulou em torno dele vultoso capital eleitoral. Trabalho desenvolvido em todo o Brasil a partir da década de 1970, através das comunidades de base das Igrejas cristãs, dos movimentos populares, do sindicalismo combativo, da militância remanescente da luta contra a ditadura. Trabalho conduzido pela pedagogia de Paulo Freire. 

      Por que agora as classes populares dos EUA votaram em Trump? Por que há “pobres de direita”? Por que só a direita consegue promover, hoje no Brasil, manifestações de rua com número significativo de pessoas? 

      Tomemos o exemplo de dona Maria. Diarista, sentia-se excluída, oprimida, condenada à invisibilidade. Ansiava, como é natural, sair do círculo do inferno. Sonhava em ser socialmente reconhecida e respeitada, como todo ser humano. Não lhe bastava ter um nome, documentos de identidade e uma atividade para sustentar, mal, a sobrevivência dela e dos filhos. Desejava “algo mais” que lhe imprimisse identidade social, sejam bens materiais (moradia, escola para os filhos, renda maior), sejam bens simbólicos (cultura, qualificação profissional, aprimoramento de seus dons artísticos). 

      Maria se sentia humilhada pela árdua jornada diária. Abandonada pelo marido, buscava conciliar seu trabalho de faxina com o cuidado dos filhos. Além de trabalhar muito, passava horas do dia no transporte coletivo e se sabia socialmente invisível. O filho adolescente queria ao menos um tênis de marca para ser socialmente reconhecido. Os sonhos de consumo podiam torná-lo vulnerável aos tentáculos da criminalidade. 

      Tudo mudou no dia em que Maria ingressou em uma comunidade religiosa que a trata como “irmã”, se interessa por sua vida, ajuda-a a transpor dificuldades. Para consolidar esse reconhecimento, ela abraçou a ideologia da comunidade. O pastor ou o padre a convenceu de que essa sociedade - capitalista - oferece oportunidades a todos, basta abandonar os vícios. Assim, deixou de gastar seu minguado salário em apostas e cigarros. Agora mira as famílias abastadas, em cujas casas faz faxina, como abençoadas por Deus, graças à prosperidade alcançada. Ainda que as pessoas continuem considerando-a uma “ninguém”, Maria aprendeu na Igreja que Deus a ama como filha e isso alimenta sua autoestima.

      Mesmo que o governo dê a Maria moradia própria graças ao “Minha casa, minha vida” e uma renda adicional através do Bolsa Família; e mesmo que seus filhos tenham escolas e empregos, ela não dará o salto epistêmico da ideologia da direita para a esquerda. 

      Maria se inocula da naturalização do sistema capitalista por todos os meios que a cercam: a cultura que respira, as famílias que a contratam, a TV, o rádio, as redes digitais em seu celular. Como analisa o sociólogo estadunidense Seymour Martin Lipset em sua obra “Political man”, Maria admira pessoas ricas e poderosas, vota em políticos que prometem combater a politicagem, a corrupção, e tratar com mão de ferro bandidos e traficantes de drogas. 

      Maria só dará o salto epistêmico quando participar de uma comunidade que a convença de que Deus não criou o mundo para que a humanidade se dividisse em pobres e ricos, nem uma sociedade onde uns poucos esbanjam muito e muitos clamam por um prato de comida. Ou quando se integrar a um movimento popular que, além da organização para adquirir casa própria ou uma área no campo onde possa produzir, ofereça a ela uma educação política que a faça entender as causas das desigualdades sociais, da criminalidade, da dependência de drogas. 

       Na cabeça de Maria, homens como Trump e Bolsonaro merecem sua admiração porque são duros com a bandidagem e, por isso, os “frouxos” tratam de acusá-los injustamente de toda sorte de mentiras. Maria não sonha em ter a vida das madames para as quais trabalha. Sonha em andar pelas ruas sem medo de lhe roubarem a bolsa ou o celular; em ver os filhos empregados; em ter seu bairro com saneamento e ruas asfaltadas. Jamais imaginou que se na sociedade houvesse menos ricos, haveria também menos pobres. Ela nunca teve oportunidade de receber educação política. Por isso, vota confiante na direita, como nos EUA eleitores votaram majoritariamente em Trump, convencidos de que ele fará a roda da história girar ao contrário e o sonho americano se fará realidade para todos. 

      Se a esquerda brasileira não tirar Paulo Freire das prateleiras, reabrir equipes e escolas de educação popular, capacitar militantes para atuar junto às classes populares, assumir a ética como princípio inegociável, trocar o projeto de poder pelo projeto de Brasil, ela haverá de sofrer, em 2026, sua pior derrota desde o fim da ditadura em 1985.

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A Cultura de Mitidieri. Por Pascoal Maynard.

publicado pelo autor em sua página no facebook em  9/12/2025

Imagem: Instagram do governador

A gestão do governador Fábio Mitidieri tem sinalizado uma mudança importante no lugar que a Cultura ocupa dentro das políticas públicas de Sergipe. A criação da Secretaria Especial de Cultura, a Lei dos Mestres – Patrimônio Vivo da Nossa Cultura, e a integração com o Turismo e a Economia Criativa, demonstram que a Cultura deixou de ser acessório e passou a ser tratada como vetor estratégico de desenvolvimento.

Importante nesse movimento o nosso alinhamento ao ‘Sistema Nacional de Cultura” (SNC), que estabelece diretrizes para a institucionalização das políticas culturais em todo o país, fundamental para garantir continuidade e participação social. 

Já a Politica Nacional Aldir Blanc (PNAB), é um divisor de águas. Ele assegura recursos federais permanentes para estados e municípios, permitindo que a Cultura seja tratada como política pública de Estado. Em Sergipe, esses recursos estão sendo operacionalizados pela Funcap (Fundação de Cultura e Arte Aperipê), em lançamentos de chamamentos públicos, garantindo cotas afirmativas para negros, indígenas e pessoas com deficiência

Neste ponto a gestão abre caminho para que a Cultura deixe de ser apenas expressão simbólica e tem potencial para reposicionar Sergipe como referência nacional em gestão cultural, mostrando que investir em Cultura é investir em identidade, cidadania e desenvolvimento sustentável.

O desafio agora é garantir que essas políticas não se percam no tempo, mas se tornem políticas de Estado. Nesse sentido, é necessária a revisão do Plano Estadual de Cultura (Lei nº 9.117, de 14 de dezembro de 2022) em alinhamento ao novo Plano Nacional de Cultura, enviado este ano ao Congresso Nacional, bem como a legislação patrimonial, hoje estruturada pela Lei nº 2.069/1976, considerada antiga e que precisa ser atualizada para dialogar com os novos conceitos de patrimônio (material e imaterial).

Se isso acontecer, Sergipe terá dado um passo histórico: transformar sua riqueza cultural em motor de futuro.

*Pascoal Maynard é jornalista, documentarista e produtor cultural. Atualmente exerce o cargo de Assessor Especial da Funcap e Presidente do Conselho Estadual de Cultura.

E nosso conselho estadual de cultura. Não carece também de reforma, de atualização.? Nos marcos das normas que regulam o Conselho Nacional de Politica Cultural? Um conselho eletivo e com a incorporação de novas linguagens e ampliação da participação social cidadã com representação por territórios...

O questionamento acima foi feito na seção de comentários da publicação no facebook. Não houve resposta e ninguém curtiu o que está escrito acima.

O que isso nos diz sobre o silêncio acerca do que é essencial, do que é estruturante, do que é interditado no debate cultural em nosso estado?

E se não fosse os recursos públicos federais para a cultura?

O ator , técnico e gestor cultural Isaac Galvão também perguntou:

Pascoal, como anda o nosso Fundo Estadual de Fomento à Cultura? Abraço!

Porque os governos de Sergipe, os do passado e o atual, não conseguiram ter ou não tem uma visão mais ampliada e de longo prazo para investir nas potencialidades culturais do estado com orçamento e com governança sistêmica e eficaz, o que poderia ou poderá nos colocar em um estágio como o de Pernambuco por exemplo, que brilha nas telas do cinema nacional e internacional com o filme "Agente Secreto", sem contar inúmeros produtos culturais de outras linguagens e de qualidade tipo exportação.

Wagner Moura que é o ganhador de diversos prêmios como protagonista do "Agente Secreto" afirmou em entrevista que ele também é fruto de politicas públicas focadas no desenvolvimento cultural, social e econômico. AQUI

Quais estudos acadêmicos foram ou estão sendo realizados pela UFS apresentando dados e a reflexão necessária sobre as questões apontadas nessa postagem, seja através do texto do Pascoal Maynard, seja pelas perguntas e afirmações formuladas acima. Quem pode responder? Ou se não tiver respostas, que essa pergunta sirva ao menos para refletir sobre a contribuição dos professores e estudantes da UFS ao superação do atraso de Sergipe com relação aos outros estados da região em matéria de politica cultural, aliás uma espécie de consórcio universitário para estudos e pesquisas sobre politica e gestão cultural na região nordeste não seria uma boa ideia?


🎬 Wagner Moura fala sobre a importância das políticas públicas no cinema: 🗣️ “Eu sou fruto das leis de incentivo à cultura.” Não existe desenvolvimento sem incentivo. Políticas públicas voltadas à cultura, ao lazer e à educação são portas abertas para um desenvolvimento mais justo, democrático e igualitário. Investir em cultura é investir em gente, em identidade, em futuro.


sábado, 18 de fevereiro de 2023

Memórias esquecidas de Sergipe (1) A memória seletiva sergipana que desconhece Zé da Velha e Luiz Americano músicos de prima reconhecidos nacionalmente. Por Emanuel Rocha



Zé da Velha: Um Mestre que Sergipe Pouco Ouviu

 4 de janeiro de 2026  

A trajetória silenciosa de um mestre do choro brasileiro

Zé da Velha, José Alberto Rodrigues Matos, não foi apenas um trombonista. Foi o eco vivo de Aracaju correndo nas veias do choro carioca, um grave profundo que ligou o litoral sergipano ao asfalto pulsante do Rio de Janeiro. Seu som desenhava mapas invisíveis de saudade, pertencimento e comunhão, sustentando rodas inteiras com a firmeza de quem entende que a música nasce do coletivo.

Nascido em 1º de junho de 1941, em Aracaju, Sergipe, Zé cresceu em uma casa onde o ofício e a arte dividiam o mesmo espaço. Filho de um alfaiate que costurava tecidos e sonhos, teve no saxofone amador do pai a primeira presença musical do cotidiano. A música não era espetáculo, era convivência. Era som misturado ao trabalho, ao tempo lento, às conversas e aos silêncios.

Nas ruas quentes de Aracaju, embaladas pelo vento do rio Sergipe e pelo murmúrio das praças antigas, aprendeu os primeiros compassos da vida. Ouvia o pai entre linhas, agulhas e melodias improvisadas, entendendo cedo que a música nasce do chão comum e do encontro entre trabalho e sensibilidade. Ainda menino mudou-se para o Rio de Janeiro, mas jamais rompeu com as raízes. Elas seguiram pulsando em cada respiração harmônica, como rios que sempre encontram o mar.

No Rio, adolescente, encontrou no trombone de vara sua voz definitiva. Não buscava o brilho do solista, mas o chão firme que sustenta a roda. Foi assim que se integrou às rodas de samba e choro, convivendo com mestres da Velha Guarda, tocando com nomes fundamentais do gênero como Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Waldir Azevedo. A tradição o reconheceu como guardião do grave, conferindo-lhe o apelido que atravessaria toda a sua trajetória, Zé da Velha, não como rótulo, mas como reconhecimento de uma sonoridade ancestral.

Durante o dia, trabalhou como telegrafista no aeroporto, lidando com sinais elétricos que cruzavam continentes. À noite, entregava-se às gafieiras, aos clubes e às rodas escondidas da cidade, onde o trombone sustentava danças, encontros e afetos. Servia à música como quem cuida de um jardim coletivo, sem vaidade, sabendo que o florescer depende do conjunto. Seu som não disputava espaço, criava espaço.

Passou por grupos como Sambalândia, Orquestra Gentil Guedes, Chapéu de Palha e Suvaco de Cobra, deixando marcas profundas em cada formação. Seu trombone combinava leveza e firmeza, antecipando caminhos que só seriam plenamente reconhecidos pelas gerações seguintes. Em 1986, ao lado do trompetista fluminense Silvério Pontes, formou uma dupla que ficaria conhecida como “a menor big band do mundo”. Dessa parceria nasceram seis álbuns fundamentais do choro instrumental, entre eles Só Gafieira! (1995), obra seminal em que o trombone deixa de ser apenas base harmônica e passa a narrar, dialogar e emocionar, com sete choros que se tornariam referência musical e acadêmica.

Zé da Velha tornou-se decano das rodas de choro, mestre pelo exemplo, pai musical de muitos. Ensinava sem impor, transmitia sem discursos, oferecendo o fôlego de quem compreende a música como serviço. Seu saber fluía como rio generoso, nutrindo sem exigir retorno.

Esse legado ganhou contornos acadêmicos na tese de doutorado O estilo de Zé da Velha no CD Só Gafieira!: práticas de performance do trombone no choro, defendida em 16 de dezembro de 2017 na Universidade Federal de Minas Gerais, sob orientação de Fausto Borém de Oliveira. A pesquisa analisa minuciosamente sete choros do álbum, revelando uma linguagem performática própria, marcada por precisão expressiva, contrapontos sutis, diálogo constante com o silêncio e ornamentos que dialogam com a expressividade do cavaquinho e do pandeiro. O trombone, em suas mãos, deixa de ser coadjuvante e se transforma em narrador sensível do choro brasileiro.

Desse estudo nasceu o livro O Trombone no Choro: A História e o Legado de Zé da Velha, publicado pela Editora Appris em 2025, que aprofunda a análise histórica e estética do instrumento no choro e reafirma que seu toque não é apenas estilo ou sotaque, mas uma linguagem musical completa, capaz de unir tradição nordestina e sofisticação urbana carioca.

Zé da Velha faleceu em 26 de dezembro de 2025, no Rio de Janeiro, aos 84 anos, em decorrência de infecção bacteriana. Sua morte provocou comoção entre músicos, pesquisadores e amantes do choro, que o celebraram como mestre, referência e guardião do coletivo. Mas sua ausência nunca foi silêncio. Seu trombone segue ecoando nas rodas, nas gravações, nas partituras e nas pesquisas que eternizam sua contribuição.

Quando o vento ainda hoje atravessa o rio Sergipe, em Aracaju, parece carregar um grave distante, firme e acolhedor. É Zé da Velha lembrando que o choro não se constrói com estrelas solitárias, mas com o chão fértil de quem sustenta, escuta e serve. Seu som permanece como ponte viva entre Sergipe e o coração musical do Brasil, unindo passado, presente e porvir em uma mesma respiração sonora.

Zé da Velha partiu longe de sua terra natal, no Rio de Janeiro que o acolheu e que ele ajudou a moldar sonoramente. Ainda assim, muitos sergipanos nunca souberam quem ele foi. Outros tantos não se interessaram em saber. Sua ausência física passou quase silenciosa em sua própria origem, como tantas vezes acontece com aqueles que servem à cultura sem buscar holofotes. Enquanto seu nome ecoa em rodas de choro, pesquisas acadêmicas, gravações históricas e salas de musica pelo Brasil, em Sergipe sua memória ainda aguarda reconhecimento mais amplo. Mas o tempo, que sabe separar ruído de permanência, há de fazer justiça. Porque Zé da Velha não pertence apenas à história do choro ou do Rio de Janeiro. Ele é patrimônio sensível de Aracaju, do litoral sergipano e da música brasileira, um mestre do grave que ensinou, com humildade e som, que sustentar também é criar


Coleção do Zuza
22.6.2023
Choro na praça

Toda e qualquer enciclopédia que pretenda elencar os grandes solistas não apenas do choro, mas da música popular brasileira como um todo, não tem como ignorar os nomes reunidos pelo produtor Albino Pinheiro entre os meses de março e junho de 1977 no palco do teatro João Caetano.

Paulo Moura (sax soprano), Waldir Azevedo (cavaquinho), Copinha (flauta), Joel Nascimento (bandolim), Abel Ferreira (clarinete) e Zé da Velha (trombone) gravaram juntos o antológico álbum duplo “Choro na praça” (em referência à localização do teatro, situado na praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro), nas noites de 23, 24 e 25 de junho daquele ano.

Acompanhados pelos jovens do conjunto A Fina Flor do Samba, os solistas executam composições próprias e clássicos de Pixinguinha, Benedito Lacerda, Ernesto Nazareth e K-Ximbinho. A interpretação solo, sem acompanhamento, de Paulo Moura para “Leninha (Valsa para Lena)”, composta pelo violonista Codó, é um capítulo à parte.

Ainda que deixe um pouco a desejar na qualidade da captação do som, o disco compensa pela espontaneidade do registro ao vivo de uma roda de choro e, claro, pelo talento dos intérpretes.
Ouça AQUI 

* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor  e Repórter fotográfico

 Luiz Americano, o Clarinetista que o Brasil Consagrou e Aracaju Ignorou

 11 de janeiro de 2026  

A história do músico sergipano que ajudou a moldar o choro nacional e segue fora da memória local

Aracaju ainda aprendia a ser cidade, abrindo ruas sob o sol firme do Nordeste, quando nasceu Luiz Americano Rego, em 27 de fevereiro de 1900. Era uma capital jovem, desenhada em linhas retas sobre areias claras, onde o vento vinha do rio e do mar misturando sal, poeira e promessa. Entre mangueiras frondosas, quintais largos e ruas de chão batido, surgia um menino de olhar atento, destinado a dialogar com o vento por meio do clarinete. A cidade tinha poucos anos, mas já pulsava com bandas em coretos, procissões sonoras, dobrados ecoando nas festas cívicas e religiosas. Aracaju crescia devagar, e Luiz crescia com ela, ouvindo a música como quem aprende a ler o mundo.

Filho do mestre de banda Jorge Americano, recebeu cedo não apenas as primeiras lições musicais, mas uma herança inteira de rigor, sensibilidade e afeto. Aos treze anos, o pai lhe ensinou os primeiros sopros e lhe compôs um dobrado em homenagem, gesto que selou um destino. Luiz cresceu entre dobrados militares, serestas discretas, ensaios à sombra das árvores e o rumor das ruas ainda em formação. Iniciou-se na Sociedade Filarmônica Santa Cecília de Brejo Grande e tocou em bandas de Aracaju e Maceió, quando a música já deixava de ser passatempo para se afirmar como caminho inevitável.

Em 1921, partiu para o Rio de Janeiro, como tantos nordestinos movidos pela esperança e pela necessidade. A travessia significava mais que distância geográfica, era um salto de mundo. Na então capital cultural do país, Luiz Americano encontrou uma cidade em permanente estado de som. O Rio acordava com música, atravessava o dia em ensaios improvisados e adormecia em serenatas, gafieiras e rodas que varavam a madrugada. Nos quintais, nos bares, nos estúdios de gravação ainda rudimentares e nas emissoras de rádio que começavam a ganhar força, o choro se refinava como linguagem urbana. Luiz viveu esse cotidiano intenso, tocando noites seguidas, aprendendo com os pares, disputando espaço pelo ouvido atento do público e lapidando um estilo que unia disciplina técnica e liberdade expressiva.

Nesse ambiente efervescente, firmou-se como um dos grandes nomes do choro, convivendo com Pixinguinha, Donga e João da Baiana. Seu clarinete e seu saxofone ajudaram a consolidar a escola brasileira de sopro, marcada por fraseado elegante, precisão rítmica e um timbre imediatamente reconhecível. Na Lapa em ebulição, integrou formações ligadas aos Oito Batutas, participou dos Diabos do Céu, da Velha Guarda e de conjuntos como a American Jazz Band, circulando entre o popular e o sofisticado com naturalidade rara.

Gravou com Carmen Miranda, dialogou musicalmente com Radamés Gnattali e acompanhou grandes vozes da Era de Ouro do rádio, como Orlando Silva, Francisco Alves e Nelson Gonçalves. Seu som leve e preciso atravessou fronteiras, levando o sotaque nordestino à Argentina em 1928 e alcançando Nova York em 1939, na Feira Mundial, onde seu saxofone fez ecoar, em palcos distantes, uma saudade profundamente brasileira. Era o menino de Aracaju dialogando com o mundo, sem jamais perder a cadência da origem.

Como compositor, deixou valsas de lirismo intenso, a exemplo de “Lágrimas de Virgem”, sucesso imediato em 1931, e “Sorriso de Cristal”, além de choros marcantes como “É do que há”, “Numa Seresta”, “Intrigas no Boteco do Padilha”, “Tigre da Lapa” e “Assim Mesmo”. Suas melodias combinam melancolia, refinamento harmônico e ritmos que transitam entre o maxixe, a polca e o samba. A extensa discografia em 78 rotações registra um artista versátil, regravado por diferentes gerações e ainda vivo nas rodas de choro espalhadas pelo país.

Luiz Americano faleceu em 29 de março de 1960, aos 60 anos, no Rio de Janeiro que o consagrou. Em Sergipe, porém, sua memória não recebeu o mesmo cuidado. É mais um grande artista nascido em Aracaju que muitos aracajuanos não ouviram tocar, não aprenderam a reconhecer pelo nome ou simplesmente não lembram. Sua ausência na memória coletiva não é silêncio do acaso, mas resultado de um descuido histórico com aqueles que partiram e fizeram grandeza longe de casa.

Seu sopro permanece vivo na história da música brasileira, registrado em discos, estudado por músicos, respeitado nas rodas de choro. Ainda assim, segue pedindo reencontro com a cidade onde tudo começou. Como se o clarinete chamasse, do outro lado do tempo, pela escuta que lhe foi negada em casa. E talvez lembrar Luiz Americano seja também lembrar que Aracaju, além de ruas e prédios, é feita de sons, de artistas e de vozes que merecem voltar a ecoar no lugar onde nasceram.

Luiz Americano-Tigre da Lapa (Luiz Americano)



Tocando pra você | Sopros

Música "Tocando pra você", de Luiz Americano, é interpretada no programa por Rafael Toledo, Douglas Alonso, Léo Rodrigues, Teco Cardoso, Enrique Menezes, Henrique Araújo e Gian Correa. A série teve direção e produção musical de Marquinho Mendonça e Swami Jr e mixagens de Alberto Ranellucci.

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