terça-feira, 2 de junho de 2026

Sessão Especial no Cine Realidade em 06 de junho: Curtas da 2ª Oficina Cinema na Palma da Mão e da 15ª Mostra Cinema e Direitos Humanos

 



Sinopse:
Lourdes — uma agente de inteligência artificial calculista, fruto do avanço tecnológico mundial — nos mostra que, quando o lucro se torna mais importante que as pessoas, cidades crescem e a humanidade é consumida.

Um retrato cru sobre ambição, excesso e o colapso da sociedade moderna. Uma entrevista que ninguém deveria ter concedido. Uma verdade que ninguém pode mais ignorar.



Sinopse

Leal torcedor e mordomo do Confiança, ele nos mostra como dedicar a vida inteira a algo que o mundo considera pequeno revela que a verdadeira grandeza nasce da permanência silenciosa.

Camisas penduradas, chuteiras alinhadas, vestiários iluminados antes do jogo — cada gesto é um ato de amor. Este é o retrato íntimo de quem vive o futebol além das quatro linhas.


Sinopse
Em ruas pouco iluminadas, sob postes solitários, uma panela quente vira ato político e espiritual. A Fé que Alimenta acompanha Raimundo e Elide — um casal resiliente — e a equipe da Sopa Solidária, que há mais de uma década transforma a fome coletiva em responsabilidade partilhada.

É um filme sobre o gesto mínimo que carrega o máximo: olhar nos olhos, servir, e devolver a dignidade tanto para quem recebe quanto para quem serve.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O planeta perdeu Edgar Morin neste sábado, 30/06, um dos maiores intelectuais do sécuio XX ainda vivo até este dia..

 

‘Um exemplo nunca morre’ 🖤
O filósofo, sociólogo e historiador francês Edgar Morin faleceu nesta sexta-feira (29) aos 104 anos. Foi autor de mais de 80 livros e criou o conceito de “pensamento complexo”, que parte do princípio de que, para lidar com os problemas da contemporaneidade, é preciso superar a fragmentação do conhecimento. Assim, ele propôs a integração de disciplinas como biologia, história e filosofia.
Pensador à frente do seu tempo, Morin alertou em uma conferência em 1982, quando a revolução da informática ainda estava engatinhando, que “se esse processo se tornasse dominante, pela primeira vez, o saber seria produzido não para ser pensado, refletido, discutido entre os seres humanos, mas essencialmente para ser armazenado e manipulado por instâncias anônimas”.
O intelectual se manteve ativo até o fim da vida. Jean-Luc Mélenchon, liderança do partido de esquerda radical França Insubmissa, postou homenagens na rede social X e lembrou que, aos 102 anos, Morin participou de protesto contra o genocídio de palestinos em Gaza. “Um exemplo nunca morre”, escreveu.
No Brasil, o teólogo e colunista do #BrasildeFato Leonardo Boff repercutiu a notícia da morte: “Sou profundamente grato a Edgar Morin, que marcou muito minha visão do mundo, por aquilo que ele deu como fator fundamental — a complexidade — para entender o processo da evolução, a sociedade humana e cada pessoa”.

Abaixo, conteúdo da Revista IHU

Autor de “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, Edgar Morin influenciou debates educacionais em diversos países, incluindo o Brasil.

A reportagem é de Marcelo Moreira, publicada por Agenda do Poder, 29-05-2026.

O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin morreu nesta sexta-feira (29), aos 104 anos, em Paris. Considerado um dos mais influentes intelectuais do século XX e um dos principais nomes do pensamento contemporâneo, Morin estava sob cuidados paliativos após enfrentar uma dupla infecção. Ele completaria 105 anos em julho.

A morte foi anunciada por seu secretário pessoal, Nelson Vallejo Gomez, em uma publicação nas redes sociais. Na mensagem, Gomez destacou a trajetória do pensador e afirmou que sua obra continuará inspirando gerações em todo o mundo.

Referência mundial

Nascido em Paris em 8 de julho de 1921, com o nome Edgar Nahoum, Morin construiu uma carreira marcada pela produção intelectual intensa e pela defesa de uma visão integrada do conhecimento.

Formado em Direito, História e Geografia, também estudou Filosofia, Sociologia e Epistemologia. Ao longo de mais de oito décadas de atividade intelectual, tornou-se pesquisador emérito do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), uma das mais importantes instituições científicas da França.

Mesmo após completar 100 anos, manteve uma produção ativa. Aos 102 anos, publicou um romance de inspiração autobiográfica originalmente escrito em 1946, demonstrando a vitalidade intelectual que o acompanhou até os últimos anos de vida.

Resistência ao nazismo

Judeu de origem sefaradita, Morin participou da Resistência Francesa durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial. Foi nesse período que adotou o sobrenome Morin, pelo qual se tornaria conhecido internacionalmente.

Em 1941, ingressou no Partido Comunista Francês, mas se afastou gradualmente da legenda após divergências ideológicas. Suas críticas ao regime soviético e ao ditador Joseph Stálin levaram à sua expulsão definitiva do partido em 1951.

Ao longo da vida, também se destacou pelo engajamento em causas políticas e humanitárias, incluindo a oposição à Guerra da Argélia e a defesa de movimentos anticoloniais.

A teoria da complexidade

O principal legado de Edgar Morin está associado à chamada teoria da complexidade, que questiona a fragmentação do conhecimento em áreas isoladas.

Para o pensador francês, os fenômenos humanos, sociais, culturais e naturais não poderiam ser compreendidos de forma separada. Sua proposta defendia uma abordagem interdisciplinar capaz de conectar diferentes campos do saber.

Essa visão influenciou universidades, centros de pesquisa e sistemas educacionais em diversos países, tornando Morin uma referência global para educadores e pesquisadores.

Forte ligação com o Brasil

O Brasil ocupou um espaço importante na trajetória do filósofo. Morin visitou o país em diversas ocasiões para participar de debates sobre educação, cidadania e democracia.

Uma de suas obras mais conhecidas, “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, elaborada em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), tornou-se leitura obrigatória em cursos de formação de professores e em discussões sobre políticas educacionais.

Ao longo dos anos, suas ideias influenciaram pesquisadores, gestores públicos e educadores brasileiros interessados em construir modelos de ensino mais conectados com os desafios do século XXI.

Um legado que atravessa gerações

Autor de mais de 30 livros, Edgar Morin deixa uma obra reconhecida internacionalmente por abordar temas como conhecimento, democracia, cultura, ética e educação.

Sua defesa da compreensão humana, do respeito às diferenças e da preparação para lidar com as incertezas do mundo contemporâneo ajudou a moldar debates acadêmicos e educacionais em diferentes continentes.

Com sua morte, encerra-se uma das trajetórias intelectuais mais relevantes da França e do pensamento contemporâneo. Seu legado, no entanto, permanece vivo nas universidades, escolas e centros de pesquisa que continuam discutindo suas ideias sobre a complexidade da vida e da sociedade.

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Cine Realidade no SAME – Lar de Idosos: arte, memória e emoção em uma tarde inesquecível

Mais de 35 pessoas prestigiaram a sessão especial com documentários sergipanos e rodas de conversa que emocionaram público interno e externo

Por Equipe Cine Realidade

Na última segunda-feira, 01 de junho de 2026, o SAME – Lar de Idosos foi palco de mais uma sessão de sucesso do Cine Realidade. A partir das 15h, no espaço de eventos da instituição, mais de 35 pessoas — entre residentes, familiares, amigos, parceiros da Ação Cultural e comunidade externa — vivenciaram uma tarde de cinema, memória e afeto.

A organização e a receptividade da instituição foram impecáveis, assim como a participação calorosa do público interno e externo. O evento reafirmou o compromisso do cineclube em levar arte e cultura a espaços de acolhimento, promovendo o cinema como ferramenta de cuidado, cura e salvação — palavras que ecoaram na fala de Zezito de Oliveira, curador do Cine Realidade e do  querido Antônio Vieira, personagem do filme "Brasinha: o som que não envelhece."

Abertura com afeto e história

A sessão foi aberta por Antônio Vieira (o Brasinha) e pela jovem aprendiz de audiovisual Iasmin Feitosa, que realizaram uma breve entrevista ao vivo sobre o processo de construção do minidocumentário Brasinha – O som que não envelhece. Eles introduziram os trabalhos que seriam exibidos, explicando a importância da Oficina de Audiovisual e as experiências e impressões de Iasmin ao entrevistar Antônio, além do direcionamento sensível dado por Marcel Magalhães durante todo o processo.

1ª Exibição – "Han"

O curta-metragem Han, direção de Janaina Aurem e André Aragão, abriu a programação com uma narrativa silenciosa e visual sobre três gerações no interior nordestino.

Durante a exibição, o público demonstrou total atenção à tela. Foram observadas risadas leves durante cenas naturalmente humorísticas e expressões reflexivas na cena final, que retratou de forma poética e contundente a dura realidade de muitas famílias brasileiras.

Ao final, o filme foi recebido com muitos aplausos.

2ª Exibição – "A Menina Que Tocou o Arco-Íris"

O episódio especial sobre a trajetória de Maria Feliciana – sergipana conhecida como a mulher mais alta do Brasil – contou com a presença ilustre de dois filhos da homenageada: Shirlei e Cleverton.

Ambos se emocionaram profundamente ao rever a resiliente trajetória da mãe. Muitos presentes que ainda não conheciam Maria Feliciana passaram a conhecê-la por meio do filme, criando uma ponte afetiva entre passado e presente.

✨ "Ganhou o mundo, carregou o mundo, abraçou. E deu continuidade até seu último momento. Ela sempre teve orgulho de ser sergipana..."

— Shirlei  filha de Maria Feliciana

A exibição foi finalizada com muitos aplausos e forte emoção em todo o ambiente.

3ª Exibição – "Brasinha: O som que não envelhece"

Antes da última exibição, foi feito um discurso inicial reforçando a importância da Oficina de Audiovisual e o valor de registrar histórias de vida como a do senhor Antônio Vieira.

Durante o filme, observaram-se:

muitos sorrisos

comentários discretos e afetuosos

expressões positivas e olhares reflexivos

momentos de comoção ao final

Alguns convidados demonstraram concordância e identificação com falas do entrevistado, reconhecendo suas próprias histórias nas palavras do músico sergipano.

Roda de conversa: emoção em cada palavra

Após as exibições, o espaço se transformou em um círculo de memórias e afetos.

Shirlei, filha de Maria Feliciana, tomou a palavra e emocionou os presentes. Ela compartilhou que sua mãe, em vida, chegou a expressar mais de uma vez o desejo de morar no SAME. Ao concluir, afirmou ter orgulho de dar continuidade à família e agradeceu emocionada a Marcel Magalhães por acolher a história de Maria Feliciana com tanto carinho.

Antônio Vieira (Brasinha) falou em seguida. Ele explicou que o apelido "Brasinha" surgiu por conta de sua paixão em um período de sua vida, por cantar muitas músicas de Roberto Carlos, tendo sido batizado assim por Luiz Trindade. Depois foi enveredou pela composição e interpretação de músicas para  festivais, interpretação de músicas do tropicalismo, da bossa nova, clube da esquina... "E lá se vai, mais um dia..."

Agradeceu a todos os presentes — incluindo amigas e amigos — e à OSC Ação Cultural, finalizando com uma declaração que ficará guardada na memória de quem estava ali:

🎵 "A arte é fonte de redenção."

— Antônio Vieira (Brasinha)

Um cineclube de impacto social que segue investindo na arte

O evento foi marcado por grande envolvimento emocional do público, com destaque para as homenagens às trajetórias de vida de Maria Feliciana e Antônio Vieira — dois símbolos  da cultura sergipana. O Cine Realidade segue firme em sua missão de exibir filmes de impacto social, promover a valorização do público 60+ e fortalecer a identidade cultural sergipana por meio do cinema.

📸 Galeria 

]Registros da sessão especial no SAME – Lar de Idosos, com a participação emocionada de familiares, residentes e equipe organizadora.




RESPOSTA A UM AMIGO QUE NÃO VAI VOTAR EM LULA. Por Renato Janine Ribeiro

Do perfil do Professor Renato Janine Ribeiro no facebook em 01/06/2026

 Renato Caporali é um amigo querido, sendo que discordamos em várias coisas e concordamos em outras. Ele postou o texto que ora compartilho, a partir de conversas que tivemos no WhatsApp. 

Escrevi-lhe uma longa resposta, que segue aqui (e já aviso que qualquer ofensa que façam, a ele ou a mim, será deletada e o autor, bloqueado. Críticas eu aceito bem, ofensas NUNCA):

Meu amigo, fico contente que nossa conversa, que começou no privado, se torne agora pública e ainda mais que você tenha elaborado um pouco mais os seus argumentos para não votar em Lula em função justamente da nossa discussão prévia. Mas até por isso quero responder aqui a suas questões. Eu numero minhas respostas:

1. PROBLEMA INSTITUCIONAL E O PAPEL DA PRESIDÊNCIA

Em primeiro lugar, penso que temos um grande problema institucional: desde a debacle do governo Dilma, a presidência da República perdeu o papel que teve no nosso presidencialismo brasileiro e que foi seu até pelo menos o primeiro mandato de Dilma – que é o de garantir a sustentabilidade do país. Em outras palavras, lembro o que Fernando Henrique certa vez teria dito (não sei se disse mesmo ou não): depois de um julgamento no Supremo Tribunal Federal dando ganho de causa a aposentados ou pensionistas, ele teria dito: "Eles, os ministros do Supremo, não pensam no Brasil". 

A frase é dura, mas na verdade o nosso sistema faz com que quem pensa no Brasil – isto é, quem pensa em fazer o orçamento fechar, o orçamento equilibrado – é a presidência da República (não o indivíduo necessariamente, mas o cargo, a função). O Legislativo e o Judiciário decidem por conta própria: eles mais criam gastos do que receitas – com frequência retiram receitas e aumentam as despesas. 

O problema disso tudo é que resta ao chefe do Poder Executivo fazer o equilíbrio. Isso foi feito com razoável eficácia por Fernando Henrique Cardoso a partir do Plano Real, quando as contas se tornaram mais transparentes (porque no tempo da grande inflação era praticamente uma brincadeira lidar com elas). Lula e Dilma fizeram isso no primeiro mandato, mas quando ela perdeu o apoio político – e não vou entrar aqui na discussão de quem foi culpado – a coisa desandou. É significativo que, tão logo ela tenha sido reeleita, já em fevereiro de 2015, Eduardo Cunha aprovou a emenda constitucional que cria as emendas parlamentares de execução obrigatória. Isto é, uma parte crescente do orçamento da União é retalhada entre os 513 deputados e 81 senadores, e nenhum dos colegas – muito menos o presidente da República – pode deixar de pagar esse dinheiro deliberado em absoluta soberania por cada indivíduo. 

A meu ver, essa divisão de uma parte grande do orçamento em 594 feudos rompe com os princípios republicanos e democráticos. Até agora o Supremo não se pronunciou a respeito; espero que ele declare em algum momento inconstitucional isso, que criou um problema muito grande, enfraqueceu a presidência da República e, pior, o País. A gente teve isso ainda mais naquele período do impeachment, em que Eduardo Cunha se tornou todo-poderoso, e depois, dado o fato de que ele não era um santo de se rezar, o Supremo pegou esse papel. Temos hoje uma situação em que o Legislativo e o Judiciário pegaram muito do poder presidencial. 

Esta aliás é já uma resposta ao que você diz sobre a incapacidade do Lula para segurar esse retalhamento das emendas. Não podemos esquecer que isso foi introduzido pelo Eduardo Cunha para derrubar Dilma, foi mantido por Temer quando tentou segurar (e conseguiu segurar seu mandato a qualquer custo depois das denúncias sobre a Odebrecht), e finalmente foi levado ao caos por Jair Bolsonaro, que não tinha nenhum projeto para o país, a não ser as vantagens de sua família. Então esse é o primeiro ponto. 

Isso torna muito difícil recuperar o sistema político brasileiro. Alguns chamam de semiparlamentarismo, mas eu creio que não é: na verdade é um parlamentarismo sem responsabilidade e um presidencialismo sem autoridade. Juntamos, assim, o pior de dois mundos. Para atender à tendência dos brasileiros de votar em indivíduos e não em partidos, o melhor para nós é o presidencialismo. A longo prazo poderemos construir um parlamentarismo, mas isso exigiria que os nossos parlamentares se tornassem responsáveis – o que, por sua vez, exigiria que os eleitores votassem para o parlamento com a mesma convicção com que votam para o executivo. 

Por ora, o melhor é a gente tentar recuperar o presidencialismo, e não vejo no atual quadro político ninguém mais apto do que Lula para segurar isso, até pelo seu carisma, pela sua liderança. Ele não é o culpado do fraturamento do orçamento, e também não vejo ninguém mais capacitado para essa tarefa ingrata de tentar recompor um sistema político funcional no Brasil – que só vejo como sendo o presidencialismo de coalizão (não temos alternativa, porque a sociedade quer um sistema pluripartidário). Mas, se o presidente tiver autoridade (o que não quer dizer despotismo), ele consegue tocar a coisa, como conseguiram Fernando Henrique, Lula e Dilma no primeiro mandato.

2. SITUAÇÃO ECONÔMICA E DISTRIBUIÇÃO DE RENDA

Quanto à descrição da situação econômica que você efetua, ela parece correta. Lembrar que temos pleno emprego – que é um êxito do atual governo – mas também uma elevada inflação. Segundo você, isso se deve às críticas de Lula ao presidente do Banco Central, etc. Não entrarei nesse ponto porque não sou economista, mas diria apenas que acho pertinente a sua colocação final nesse parágrafo sobre economia: quando você diz que o governo Lula está efetuando uma distribuição de renda sem tirar dos ricos, e que isso de fato é um erro. 

Uma crítica – de esquerda, aliás – ao governo Lula: ele deveria ter a capacidade, a coragem e apoio político suficiente para efetuar uma efetiva redistribuição de renda – não apenas, segundo você, endividar-se para melhorar a condição dos mais pobres, mas realmente efetivar uma política de cobrar de quem tem rendimentos mais elevados, patrimônio mais elevado, para que esse dinheiro vá para os pobres. 

E eu penso que aí você concordaria comigo que a melhor destinação não seria no bolso, direto para ir para consumo, e sim na educação e na saúde pública. Na verdade, os governos do PT foram muito fortes nestes dois aspectos – acho que esse mérito existe. Eu gostava muito, sobretudo quando foi ministro da Educação, do Pronatec: um programa que visa formar em educação técnica pessoas que então possam aumentar seu salário, sua remuneração no próprio mercado, e ao mesmo tempo capacitar as nossas empresas a serem mais desenvolvidas, mais avançadas, mais competitivas não só nacional mas internacionalmente. 

Na saúde pública, o governo Lula também foi muito bom. Outro programa que estava no MEC de que eu gosto muito é o Mais Médicos, que conseguiu atender multidões, sobretudo no que você chama de Sertão, nos lugares afastados que antes eram totalmente desprovidos de atendimento médico. Finalmente, quando você fala que não vota em Lula nem em Flávio Bolsonaro, mas que no caso de ter que escolher entre os dois vota em Lula, eu só posso te cumprimentar por isso – porque significa que, no caso extremo de a família querer voltar a mandar no Brasil, você estaria do lado democrático. Eu não esperava outra coisa de você. Você sabe que eu não aplaudo o seu voto em Kalil e Zema, mas eu respeito pelas suas convicções democráticas – apenas não acho que os dois representem uma diferença significativa em relação ao Bolsonaro.

3. ÉTICA DEMOCRÁTICA E PRIORIDADE NA JUSTIÇA SOCIAL

Quanto à educação moral e cívica de que você fala, ou ética republicana – eu prefiro a ética democrática republicana. Sei que esse é um ponto que você sempre insiste, e eu acho que de fato faz sentido. A gente se conheceu aliás e trabalhou juntos quando você me convidou pelo SESI para elaborarmos um programa de curso de ética para as escolas de ensino médio do SESI. A gente elaborou, trabalhou juntos com outras pessoas também, e que infelizmente não teve a difusão que teria sido possível e necessária. Mas creio que a questão ética é muito importante. 

O que eu frisaria: primeiro, não entendo ética apenas como "não furtarás, não matarás, não falarás mal do próximo", etc. Entendo ética como "sim": eu lutarei para melhorar a vida de todos, para a vida dos meus próximos. Quer dizer: não estou apenas deixando de fazer coisas erradas; estou procurando fazer as coisas boas. 

No Brasil, a questão prioritária na ética divide um pouco as opiniões. Diria que, de modo geral, a direita tem tendência a resumir a questão ética na crítica à corrupção. Eu entendo que a prioridade num país como o Brasil, marcado pela injustiça social, é acabar com a injustiça social. A corrupção também precisa ser coibida, mas eu não diria que ela é a prioridade zero. Haja vista que o grupo da Lava Jato tanto instrumentalizou politicamente o combate à corrupção – tentou pegar o dinheiro da Petrobras para fazer uma fundação em benefício de ações políticas do seu grupo – e que depois, quando tiraram as máscaras, foram em massa para a extrema-direita, que no Brasil faz questão de recusar toda e qualquer proposta de justiça social. 

Esta é outra semiconvergência – ou divergência – entre a gente.

Grande abraço. 

Renato Caporali

Um muito estimado amigo de ideias, meu Xará, me convoca a explicitar as razões da minha terminante recusa em votar em Lula nestas eleições - à exceção de uma única situação, trágica, que exporei ao final.

A primeira e importantíssima razão para não votar em Lula é que ele hoje vive, se alimenta da polarização política brasileira.  Foi o  fundador dela, nos tempos heroicos do nós contra eles, alimentou-a até surgir Bolsonaro, e hoje ainda se nutre dos restos apodrecidos dela. Se nós queremos devolver um pouco de harmonia à política na sociedade brasileira, temos de encontrar outras lideranças que não Lula e Bolsonaro.

A segunda razão em ordem de importância para mim, economista de profissão, é que Lula - e de resto o PT quase todo - é negacionista em termos de ciência econômica.  Negacionismo não é ruim só em saúde pública não. Lula prejudicou todo seu mandato quando, em vez de se beneficiar da tendência à desinflação provocada pela desvalorização do dólar, se lançou numa cruzada anti-Banco Central, com alvo no então presidente, que, junto com o exagero da PEC da transição, lançou o país nessa combinação de gasto fiscal crescente e taxa de juros nas nuvens.  Lula quer colocar a fórceps os pobres no orçamento sem mexer no quinhão dos ricos, mas aí fica caro e o setor privado, já apertado por um longo ciclo de internalização de custos sociais, tem dificuldade para bancar.

Como resultado desse processo, temos essa situação esdrúxula de economia em pleno emprego, gasto fiscal crescente e taxas de juros altíssimas, bem acima do patamar de dois dígitos.  Aí você endivida cronicamente a população por essa taxa de juros, e gasta outro caminhão de dinheiro público para salvar a população endividada nessa taxa de juros escorchante. E retroalimenta os juros. Sem coragem para manejar mais ativamente a assistência social, faz política pública de estímulo a vício em jogatinas. Não voto em Lula porque, ainda mais do que Bolsonaro fez, está politizando a política econômica para vencer as eleições, e isso não é bom para a república.

Finalmente, não quero votar em Lula porque o PT hoje é um partido conservador em ideias, que só assume temas em que fica ideologicamente confortável.  Me refiro a alguns temas que o partido simplesmente não consegue endereçar reflexão séria: na segurança pública, que demorou vinte anos pelo menos a decidir titubeantemente enfrentar; na educação, por exemplo, em que o partido não consegue reconhecer uma necessidade que três quartos da população já reconhecem, de que a educação pública  enfrente o desafio da educação moral e cívica da nossa juventude - e se põem a bloquear soluções que a população, em estado de angústia com a educação dos filhos, se propõe experimentar para transmitir um pouco de ordem disciplinar a uma geração difícil.  

Chamo essa tendência ideológica de acomodamento no campo das ideias de progressismo conservador.

[(outro dia o Ministro Flávio Dino, agredido verbalmente num aeroporto por funcionária da empresa, conclamou as empresas a promoverem a educação cívica para seus funcionários.  Ok.  Mas se torna escandaloso o Ministro do STF não conclamar a educação nacional a introduzir na base curricular do país um eixo pedagógico de educação cívica republicana. É impressionante o bloqueio da esquerda brasileira em reconhecer que o nome desse tema escolar é educação moral e cívica, sim. Que inventem outro nome, chamem de ética republicana, mas assumam que isso precisa ser feito. E reconheçam que a outra metade da população tem o direito de definir temas que ela acha que devem ser tratados.  Educação moral não pode ser a difusão de uma moral nova para a sociedade toda; pode e deve ser também, mas não só. O fato de termos tido que desmontar uma educação moral e cívica reacionária e meio idiotizada pela defesa da ditadura militar não nos autorizava deixar um vazio pedagógico nesse campo da formação dos jovens que os clássicos chamavam sem titubear de "educação moral")]

Lula teve chance, mas não soube aproveitar a chance de reconhecer que havia um problema de legitimidade no seu mandato na forma como a Lavajato foi desmontada, um processo jurídico desastroso que nos colocou na iminência ter de devolver, possivelmente em bancos suíços, dinheiro roubado de empresas brasileiras. Sem reconhecer essa contradição política, Lula governou em estado de denegação - a negação de sua própria responsabilidade. E com isso não teve condições de segurar o parlamento que, através de emendas impositivas, tomou diretamente um naco do orçamento nacional, para alimentar carreiras políticas com dinheiro público, numa manifesta ruptura da igualdade republicana em direitos políticos. E torna a política um negócio muito rentável.

Lula perdeu o controle do processo legislativo no Congresso Nacional - e mais um mandato tende a ser um desastre histórico, pois a oposição vai sair fortalecida e não enfraquecida destas eleições.  O tempo da hegemonia ideológica e política da esquerda brasileira e do PT em particular se exauriu.  Pode até retornar no futuro, tende a voltar porque o partido tem base social ideológica, mas agora precisa se recompor na oposição. Tivesse Lula preparado a dupla Haddad-Tebet, talvez desse para chegar renovado em 2030, mas ele não teve a lucidez de reconhecer que três mandatos eram suficientes para sua glória política.

Finalmente, não voto em Lula desta vez porque acho que, em algumas circunstâncias históricas, a alternância é valor em si.  Alternância é, em si e por si, democrática e republicana.  Quando uma força política esgota o que pode produzir de positivo para um país, ela precisa ser substituída - e, na oposição, rever suas ideias, renovar suas propostas.  Lula hoje colhe suas forças no que de pior surgiu na política brasileira nestes últimos vinte anos: uma direita  capaz de trair interesses manifestos do país para manter-se com chance de alcançar o poder.  Uma direita que vai a outros países pedindo que aja, que atue, até militarmente, contra o próprio país. 

Por isso, no primeiro turno, proponho votar no Caiado para presidente, torcendo para que tenha Zema como vice, numa grande aliança (sertaneja) para superar esse momento histórico alimentado e realimentado por ódios mútuos.  A se manterem Lula e Flávio Bolsonaro nos dois primeiros lugares, voto em qualquer um que estiver em terceiro. 

E se de todo não tiver jeito e Lula for contra Flávio para o segundo turno, aí voto em Lula. Porque, não sei votar nulo, não consigo votar nulo.  Nunca votei nulo porque acho que sempre existe o menos pior - e nossa responsabilidade perante a nação nos cobra tentar discernir o menos pior. 

Com todos os defeitos políticos que assinalei acima, Lula é um estadista respeitado no mundo, enquanto os Bolsonaro são uma família que coloca seu domínio do processo político acima dos interesse do país e isso é um comportamento político, mais que reprovável, execrável.  E faz isso com um grau de imprudência e irracionalidade nunca visto na história do país. O PT também tem isso de colocar o partido acima dos interesses do país, mas pelo menos é um partido político republicano e não uma famiglia em busca de poder total.  

Centrista contumaz, pelo que andam dizendo os cientistas políticos vou ser um dos que vai decidir essa eleição.  Por isso achei que era meu dever deixar meu voto claro desde logo, pois o processo eleitoral já começou, está pegando fogo e quem tem opinião tem de se expor às chamas do embate político. 



sábado, 30 de maio de 2026

“Filho da escola pública”: quem é o cordelista de 13 anos que emocionou Lula em Sergipe

Pedro Gustavo, de Amparo do São Francisco, já era conhecido como poeta mirim em Sergipe antes de viralizar ao declamar versos para o presidente Lula. Assista ao vídeo.

Por: Diego Feijó de Abreu

Publicado: 30/05/2026 - às 13h18

 O vídeo em que Lula aparece emocionado com o cordelista Pedro Gustavo, de Amparo do São Francisco, em Sergipe, viralizou nas redes e passou de 4,8 milhões de visualizações. Mas o detalhe que dá força à cena é outro: o jovem que se apresenta como “filho da escola pública brasileira” já era conhecido no estado como poeta mirim, escritor e representante da cultura popular nordestina.

https://www.instagram.com/reels/DY9WtN-OvDB/

Pedro Gustavo tem 13 anos e é natural de um dos menores municípios de Sergipe. Antes do encontro com Lula, ele já aparecia em registros locais como cordelista de Amparo do São Francisco, cidade ligada à região do rio São Francisco e à tradição oral nordestina.

No vídeo publicado pelo presidente, Pedro diz que sempre sonhou em conhecer Lula. O petista pergunta se ele é cordelista e pede que recite seus versos. A resposta vem em forma de homenagem, com referências ao Nordeste, à educação pública e à cultura popular.

Lula, Pedro Gustavo e escola pública

A cena ocorreu durante a agenda oficial de Lula em Sergipe na sexta-feira, 29. Segundo o Governo de Sergipe, a programação incluiu compromissos em Aracaju e Lagarto, com anúncio de investimentos da Petrobras e visitas a hospitais.

A repercussão do encontro reforça a conexão histórica do presidente com a pauta da educação e a cultura nordestina. A força das imagens não está apenas na figura de Lula, mas no fato de Pedro Gustavo não ser apenas um fã na plateia, e sim um representante ativo e real da arte popular sergipana.

A viagem de Lula a Sergipe também teve peso político. Como mostrou a Revista Fórum, o presidente usou a agenda no estado para voltar a defender Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal.

"A importância do investimento na educação pública e nas políticas de fomento à cultura de base comunitária é para multiplicar e potencializar talentos assim. O presidente Lula é um dos poucos políticos brasileiros que melhor compreendeu isso. Agora colhe os frutos. Sigamos o líder...Tem muito mais aqui em Sergipe e país afora."

Zezito de Oliveira




sexta-feira, 29 de maio de 2026

Cuba, na encruzilhada de um multilateralismo hipócrita. Josué Veloz Serrade

 18 de março de 2026

O cerco perfeito: quando a asfixia é a política

A atual crise energética que Cuba atravessa não é um acidente da natureza nem uma mera falha de infraestrutura. É o ponto alto de um cerco geopolítico desenhado com precisão cirúrgica ao longo de seis décadas. O que a ilha vive hoje é a convergência letal da guerra económica tradicional — o bloqueio — e um novo contexto internacional onde os atores que deveriam equilibrar a balança optaram pelo que poderíamos denominar uma geopolítica de mínimos.

Cuba não enfrenta apenas a hostilidade do império, mas o abandono silencioso daqueles que, em teoria, deveriam disputar a ordem unipolar.

Mas antes de analisar as coordenadas geopolíticas, é necessário interrogar o mapa psíquico que subjaz a esta situação. Porque o que acontece com Cuba não é só um problema de correlação de forças; é também um problema de desejo, de fantasma político, daquilo que Freud chamou de Verneinung, a negação como forma de reconhecimento encoberto. Os que abandonam Cuba negam-na, mas ao negá-la, confirmam-na, e sobretudo confirmam o que negam de si mesmos. O bloqueio existe porque Cuba ainda interpela, continua sendo um sintoma incómodo dentro do sistema capitalista global. Se Cuba não representasse nenhuma ameaça real, bastaria ignorá-la. O fato de que seja necessário destruí-la demonstra que a sua mera existência continua sendo intolerável para a ordem do Amo.

A pergunta que paira sobre este texto pode irritar mais de um, mas é necessária: o que resta da solidariedade internacional quando os gestos simbólicos substituem as ações concretas? O que significa realmente apoiar Cuba quando o cerco se estreita e a asfixia se torna material? E sobretudo: o que diz do conjunto de forças geopolíticas que declaram querer um outro mundo, o fato de serem capazes de olhar para esse afogamento sem mover uma mão?

O abandono não declarado dos sócios estratégicos

Nestes dias de tensões mundiais, desempóe-se também a teoria das relações internacionais, na qual se aborda o realismo periférico que descreve a tendência dos Estados a priorizarem os seus interesses imediatos — comércio, estabilidade fronteiriça, não incomodar o hegemón — sobre alianças ideológicas ou históricas quando a pressão do império aumenta. Mas o realismo periférico não alcança para explicar totalmente a conduta atual da Rússia e da China em relação a Cuba. Aqui opera algo mais profundo. Opera a renúncia ao próprio desejo como condição para sobreviver no sistema que, supostamente, desejam transformar.

Lacan distingue entre a demanda e o desejo. A demanda é o que se pede explicitamente; o desejo é o que subjaz e que muitas vezes não pode ser articulado sem custo. Rússia e China demandam, nos seus discursos, um mundo multipolar, o fim da unipolaridade, o respeito à soberania. Mas o seu desejo, revelado pelos seus atos e não pelas suas palavras, é a integração progressiva nas regras do mesmo sistema que dizem impugnar.

Por mais amargo que seja ouvi-lo, ao abandonarem Cuba, não estão sendo simplesmente pragmáticos; estão confessando que o seu horizonte real não é a transformação da ordem mundial, mas a negociação de um lugar mais confortável dentro dela.

Presas nos seus próprios conflitos de desgaste — Ucrânia para a Rússia, Taiwan e o mar da China Meridional para Pequim — , ambas as potências consolidaram uma postura defensiva. O seu apoio a Cuba tem-se reduzido ao discurso nos fóruns multilaterais e ao fornecimento de determinados recursos, sem desafiar estruturalmente o bloqueio. Não enviam o petróleo necessário, não habilitam linhas de crédito que evitem as sanções secundárias, não escoltam com os seus navios os abastecimentos para a ilha. Se lhes perguntassem porquê, a resposta talvez fosse a mesma do grande conformista: o momento não é oportuno, os custos são demasiado altos, é preciso ser realista.

Mas o realismo, neste contexto, é outra forma de avançar para uma capitulação antecipada. Talvez no seu íntimo acreditem que estão a abandonar os que podem cair primeiro, não os que cairão últimos, que poderiam ser eles próprios. Encontraram o seu limite histórico e, em vez de o empurrarem e quebrarem, normalizaram-no. Ao fazê-lo, cometem um erro de cálculo estratégico que a história já castigou antes. Sempre que uma potência permite que a ordem hegemónica destrua um elo sem custo, essa ordem sai fortalecida e aproxima-se um passo mais da subjugação daqueles que acreditaram estar a salvo. Ao permitirem que um projeto soberano seja destruído pelo império sem consequências, enviam uma mensagem às suas próprias populações e a outros atores secundários: a solidariedade é um luxo que não podemos permitir; quando chegar a tua vez, estarás sozinho.

América Latina e Caribe: a diplomacia dos abraços vazios

A postura do Brasil e da Colômbia é, talvez, a mais paradigmática da falência contemporânea do progressismo. Lula da Silva e Gustavo Petro, dois líderes que devem o seu capital político à narrativa da transformação social e da soberania regional, optaram pelo que poderíamos chamar de um simbolismo de baixo custo com declarações de apoio moral, apelos ao diálogo, presença discursiva nos fóruns internacionais. Mas enquanto as palavras circulam, as condições estruturais de asfixia — o bloqueio, as listas de países patrocinadores do terrorismo, as sanções financeiras — permanecem intactas.

Tudo se passa como se operasse uma espécie de identificação com o agressor, como um mecanismo pelo qual o sujeito submetido a uma força superior assimila, inconscientemente, os valores e as lógicas desse poder para sobreviver. Não se trata de uma traição consciente, mas de uma adaptação que, com o tempo, se torna constitutiva da própria identidade. Algo disso acontece com certos governos progressistas latino-americanos: incorporaram tanto a lógica do campo de jogo imperial — as suas instituições, os seus mercados, as suas regras — que já não conseguem imaginar uma ação política que rompa com esse campo, embora no discurso a proclamem necessária.

Brasil e Colômbia esquecem que, se fossem hoje uma verdadeira retaguarda estratégica, não seria um favor que fariam a Cuba, seria uma necessidade própria. Se os Estados Unidos continuam a inclinar a balança a seu favor na região — como fazem com a sua política de sanções, o seu domínio do FMI, o seu controlo da OEA e a sua influência sobre as direitas locais — , com quem contarão Lula e Petro quando a maré reacionária os atingir? Terão queimado, com a sua prudência, a retaguarda de que desesperadamente necessitarão. Em dias recentes, Lula afirmou que poderiam ser invadidos «qualquer dia»; poderíamos responder-lhe: «E quanto mais sozinho ficares, mais possibilidades reais há de isso acontecer».

O caso da Venezuela é o mais doloroso porque representa a mutilação de um projeto que outrora foi o pilar da solidariedade regional. Hoje, a Venezuela está de facto submetida às decisões geopolíticas dos Estados Unidos.

O regime de sanções extremo, o sequestro de Maduro e Cilia Flores, conseguiu o seu objetivo: condicionar o Estado venezuelano, obrigá-lo a negociar em condições de inferioridade e reduzir a sua capacidade de projeção internacional. A Venezuela já não pode ajudar Cuba porque mal pode ajudar-se a si mesma. Se o império pôde com a Venezuela, com as maiores reservas de petróleo do mundo, que esperança tem um país mais pequeno sem esse recurso? Mas os governos da região não extraem a conclusão correta. Em vez de se unirem para romper o cerco, dispersam-se, negociam separadamente e caem um após o outro.

Alguns dos pequenos países que receberam solidariedade cubana — médicos nas suas aldeias, professores nas suas escolas, brigadas no meio das suas catástrofes — apertam hoje o nariz e viram as costas. Nas relações internacionais, é o que se denomina bandwagoning: a tendência dos atores fracos de se alinharem com o mais forte quando percebem que o benfeitor histórico está em retirada. É uma lógica cruel mas previsível.

O que não entendem é que a sua sobrevivência a longo prazo não depende de agradar ao Amo, mas da existência de um ecossistema regional soberano. Ao virarem as costas a Cuba, estão a contribuir para desmantelar o único tecido de solidariedade que os poderia proteger quando eles forem os próximos na lista. É a lógica do «eu salvo-me» que conduz inevitavelmente ao «todos nos afogamos». Quem escolhe salvar-se a si mesmo acaba isolado e depois subjugado. No final, a morte espera-o na mesma, mas uma morte solitária, sem a dignidade de ter lutado junto dos outros.

O mito da autossuficiência é uma armadilha discursiva

Perante esse panorama, a objeção liberal, e às vezes até a de certa esquerda, soa previsível: porquê apelar aos outros? Acaso Cuba não deveria valer-se por si mesma? Essa pergunta merece ser demolida com rigor, porque opera como uma armadilha retórica que naturaliza a violência do bloqueio e culpabiliza a vítima.

A autarcia é um mito no sistema mundial contemporâneo. Nenhum país é uma ilha, nem mesmo as ilhas. Os Estados Unidos não se valem por si mesmos, dependem de uma rede global de bases militares, do dólar como moeda de reserva imposta ao mundo mediante os acordos de Bretton Woods e a pressão dos seus porta-aviões, e de cadeias de abastecimento que exploram sistematicamente. A China não se vale por si mesma, depende de matérias-primas africanas e latino-americanas e de mercados globais para a sua superprodução industrial. A Rússia não se vale por si mesma, o seu poder energético é nulo sem os gasodutos e sem compradores dispostos a pagar pela sua tecnologia militar.

A dependência não é a exceção no sistema internacional, é uma regra estrutural. O que varia é o tipo de dependência e a margem de autonomia que se pode construir dentro dela. Um país como o Luxemburgo desfruta de altos padrões de vida porque está incrustado no coração do bloco imperial. Um país como Cuba tem que sobreviver apesar de estar bloqueado pelo imperialismo. A pergunta correta, então, não é por que Cuba não é autossuficiente, mas por que se exige a Cuba um nível de autossuficiência que não se exige a mais ninguém. Essa exigência assimétrica não é inocente, é uma armadilha discursiva e cobarde que coloca a ilha numa posição ontologicamente impossível, para depois apresentar a sua impossibilidade como evidência do seu fracasso.

Impõe-se a Cuba uma espécie de duplo vínculo: submete-se o sujeito a uma condição que não pode cumprir, e culpa-se o sujeito do incumprimento. O neurótico produzido pelo duplo vínculo não pode escapar porque a armadilha está inscrita na própria linguagem com que se lhe fala. Cuba está presa nessa linguagem: se resiste, é uma ditadura que faz sofrer o seu povo; se negocia, está a ceder ao chantageio imperial; se pede ajuda, é um Estado falido que não consegue sustentar-se sozinho. Não há saída dentro do discurso do Amo, porque o discurso do Amo não está desenhado para ter uma saída, mas para prender.

A metodologia do império: negociar, afogar, culpar

O que descrevemos não ocorre no vazio. Responde a uma metodologia do imperialismo estadunidense nas suas negociações com atores soberanos que se recusam a capitular. O libreto histórico é invariável e tem sido executado com mínimas variações.

Primeiro, a mesa do diálogo como armadilha. Sentam-se para negociar não para chegar a acordos, mas para ganhar tempo. Enquanto a contraparte deposita esperanças na via diplomática — enquanto o sujeito acredita que o Outro é suscetível de ser convencido — , o império continua a aplicar sanções, a fortalecer a oposição interna, a preparar o terreno. É o gesto que Lacan identificaria como perverso, a promessa que estrutura o vínculo só para perpetuar a dependência.

Segundo, a exigência de concessões unilaterais. O império nunca negocia de boa-fé; negocia desde a posição de força absoluta. Exige que a outra parte ceda primeiro, que demonstre vontade de mudança, que desmonte as suas estruturas defensivas como gesto de boa vontade. Cada concessão que a parte fraca faz é interpretada como sinal de fraqueza ulterior e é respondida com mais pressão. O mecanismo é sinistro na sua lógica: quanto mais se cede, mais se tem de ceder. A negociação torna-se um processo de esvaziamento progressivo da soberania.

Terceiro, se não obtêm o que querem, invadem ou destroem. Quando o diálogo não produz a rendição completa, passam à fase seguinte: invasão direta — Panamá, Granada, Iraque — , golpe de Estado — Honduras, 2009; Bolívia, 2019 — , guerra de baixa intensidade — Nicarágua nos anos 80 — , ou destruição económica sistemática — Cuba, Venezuela, Irão — . A diplomacia é apenas a antesala da agressão.

Aqueles que, de boa-fé, instam Cuba a negociar com Washington ignoram essa estrutura. Cuba não é empurrada para a mesa para dialogar; é empurrada para a mesa para se render nas condições mais desfavoráveis possíveis.

A crise humanitária como arma de guerra

A ajuda humanitária que chega a Cuba hoje — os envios de alimentos, medicamentos, geradores — é vital para aliviar o sofrimento imediato. Mas em termos políticos, funciona como um paliativo que corre o risco de despolitizar a crise. É o respirador que se coloca num paciente em coma: mantém o doente vivo, mas não repara a lesão que o levou ao coma. O paciente precisa de uma operação estrutural, não da perpetuação da emergência.

O bloqueio não é uma sanção, é um mecanismo de desgaste desenhado para provocar uma implosão desde dentro. Oferecer ajuda humanitária, por mais valiosa que seja, sem romper o cerco financeiro e energético é como bombear água de um navio que continua com um rombo aberto pelo ataque inimigo.

O rombo é permanente; e a bombagem, exaustiva. O objetivo estratégico do bloqueio — o que na terminologia militar se chama guerra de quarta geração ou mudança de regime por asfixia — é negar ao Estado a capacidade de satisfazer as necessidades básicas da sua população, para que seja a própria população a acabar por derrubar o seu governo. Não há nada de acidental nessa estratégia: é deliberada, está documentada e tem sido aplicada com diferentes graus de intensidade durante mais de seis décadas.

O apagão não é só ausência de luz, é uma pedagogia do medo, uma lição que o Amo imparte dia após dia. Cada hora sem eletricidade, cada fila para conseguir alimentos, cada médico que não tem insumos é um lembrete do que custa resistir. É o gozo do poder na sua forma mais cruel, não o gozo de destruir o inimigo de um golpe, mas o gozo de vê-lo degradar-se lentamente, de transformar a sua vida numa demonstração permanente de que a resistência conduz ao sofrimento. Dói constatá-lo, mas a maior crueldade do bloqueio não é a sua força, é a sua lentidão.

A narrativa do Estado falido ou a culpa é sempre da vítima

E aqui chegamos ao ponto mais perverso de toda a operação: a construção do relato que inverte a causalidade.

O império não só destrói; além disso, constrói o dispositivo discursivo para que a destruição pareça merecida ou inevitável.

Um Estado ao qual se nega a possibilidade de importar alimentos, medicamentos, combustível e peças sobressalentes; ao qual se bloqueiam as suas finanças internacionais; ao qual se impede o acesso a créditos; ao qual se submete a uma guerra mediática; ao qual se castiga por comerciar com quem quer que seja: esse Estado terá, por definição, enormes dificuldades para funcionar com normalidade. Depois, quando essas dificuldades se manifestam — apagões, desabastecimento, migração — , o coro imperial e os seus porta-vozes locais dizem: olhem, é um Estado falido, o socialismo não funciona.

Apresenta-se como fracasso interno o que é resultado de uma agressão externa.

A causalidade inverte-se: o bloqueio não é a causa da crise; a crise é a prova de que o regime é incompetente. É a mesma lógica do abuso: amarram-se as mãos ao sujeito, bate-se-lhe durante horas, e depois acusa-se-o de não se saber defender. Esse mecanismo tem nome: projeção. O agressor projeta sobre a vítima a responsabilidade daquilo que lhe faz; assim externaliza a sua própria culpa e mantém intacta a sua imagem de ordem e civilização.

A categoria de Estado falido não é descritiva, é performativa. Nomear Cuba como Estado falido não constata uma realidade; constrói uma realidade que justifica o abandono e eventualmente a intervenção. É o conceito que torna possível o que vem depois, a haitianização como disse Claudio Katz em dias recentes. Reduzir a ilha a um estado de degradação tal que se torne montra do horror, demonstração permanente do que acontece àqueles que se atrevem a escolher um caminho soberano.

A mensagem é perversa na sua transparência: olhem o que acontece se se atrevem a ser livres.

Mas um Estado falido a sério não resiste 65 anos de bloqueio. Um Estado falido a sério não tem uma taxa de mortalidade infantil mais baixa do que a dos Estados Unidos. Não forma médicos que salvam vidas em todo o mundo. Não mantém um sistema educativo universal, uma ciência própria — vacinas incluídas — e uma cultura vibrante. O que o império chama de Estado falido é, na realidade, um Estado agredido que se recusa a morrer. Essa é a verdade incómoda. E essa é, precisamente, a razão da fúria imperial. Cuba na realidade não fracassa. Cuba insiste. E essa insistência é intolerável.

Que opções deixaram a Cuba?

Analisadas as coordenadas do cerco, a pergunta torna-se inelutável: que opções tem verdadeiramente a condução política cubana? Ou para ser mais preciso: que opções lhe deixaram?

A primeira é a negociação em condições de asfixia.

É a que recomendam os bem-intencionados, os que querem que Cuba dialogue e negocie com os Estados Unidos. Mas negociar com um império que tem o pé no teu pescoço não é diálogo, pode ser rendição condicionada. Cuba tem demonstrado vontade de diálogo histórico em múltiplos momentos, mas sempre desde posições de dignidade. Sentar-se hoje a negociar sem ter antes rompido o cerco energético e financeiro é aceitar a negociação do afogado, aceitar qualquer cláusula por uma golfada de ar. O resultado seria uma normalização que equivaleria à liquidação do projeto revolucionário por gotejamento, como aconteceu na Europa de Leste após a queda do muro, mas com o agravante de ter o império a 90 milhas.

A segunda opção é a resistência heroica mas solitária.

É a que Cuba tem praticado durante décadas: inovar, resistir, procurar brechas, diversificar relações. Mas essa opção, que foi viável quando existia um campo socialista disposto a sustentar o fluxo de recursos, hoje enfrenta um limite material concreto. A resistência heroica sem retaguarda torna-se, com o tempo, resistência agónica. Não porque o povo cubano tenha perdido a vontade, mas porque a vontade sozinha não move turbinas nem enche prateleiras.

A terceira opção é a que o império desenha como cenário desejado: a implosão.

O estoiro induzido pela acumulação de sofrimento, amplificado pelas redes de oposição financiadas desde o exterior, que permita uma intervenção humanitária ou uma transição pactuada. Esta não é uma opção para Cuba; é a armadilha que lhe é montada.

A quarta, a única que verdadeiramente mudaria o tabuleiro, não depende de Cuba.

Depende de que aqueles que dizem apoiá-la passem das palavras aos atos. Depende de que enviem o petróleo necessário, de que ponham os navios, de que escoltem os abastecimentos, de que rompam o cerco financeiro com mecanismos concretos. Depende de que perguntem a Cuba o que há a fazer e o façam.

Não há mais metáforas. É o petróleo ou a asfixia. São os navios ou o bloqueio. É a ação ou a cumplicidade.

As lições da história que o mundo prefere esquecer

O esquecimento não é passivo. O esquecimento é um ato: a repressão ativa daquilo que, se fosse recordado, obrigaria a agir de outra maneira. A comunidade internacional esquece por conveniência os paralelismos históricos, porque recordá-los tornaria insustentável a postura atual.

Em 1941, os tanques alemães estavam às portas de Moscovo. Quanto tempo estiveram sem reagir? Como sabem que não irão depois para vocês? Hoje, ninguém parece entender que a retaguarda cubana é a retaguarda do mundo inteiro. Alguns talvez a vejam como um cadáver político adiantado e comportam-se em conformidade.

Durante décadas, os Estados Unidos sustentaram o regime de Chiang Kai-shek em Taiwan com dinheiro, armas e frota naval, mesmo quando era evidente a sua derrota na guerra civil chinesa. Fizeram-no porque Taiwan era um porta-aviões estratégico contra a China popular. Ou seja, o império sustenta os seus aliados até ao fim, porque entende que a fidelidade aos seus é uma condição do seu próprio poder. Mas os aliados de Cuba fazem o contrário: abandonam-na quando o custo político de a sustentar supera o benefício de não o fazer.

A República espanhola é a lembrança mais exata da situação que Cuba vive hoje. Lutava contra o fascismo, mas as democracias ocidentais — França e Reino Unido, principalmente — assinaram o Comité de Não Intervenção enquanto a Alemanha e a Itália enviavam tropas, aviões e artilharia para as forças de Franco. Os Estados Unidos, por seu lado, promoveram o embargo de armas. A não intervenção foi o nome elegante para a cumplicidade. A República foi abandonada, asfixiada e finalmente derrotada.

O resultado? Quarenta anos de ditadura franquista. Mas o mundo pagou ainda um preço maior: a impunidade com que o fascismo triunfou em Espanha encorajou o nazismo, na medida em que reforçou a impunidade fascista e contribuiu para o início da Segunda Guerra Mundial. O abandono da República não foi não intencional; foi uma decisão com consequências históricas catastróficas. Hoje, alguns governos progressistas praticam a mesma não intervenção em relação a Cuba, enquanto o império exerce a sua intervenção permanente através do bloqueio. Não há lição aprendida. O esquecimento é produtivo e permite repetir.

O que o império esquece: os povos não se rendem

E no entanto, perante este panorama desolador, existe um contraponto que a análise geopolítica clássica tende a subestimar. Cuba conta com algo que nenhum bloqueio pode estrangular totalmente: conta com os povos do mundo mais do que com os Estados. Com os movimentos de solidariedade que em cada país se reúnem, organizam e preparam envios de ajuda. Com a memória viva de milhões de pessoas que sabem o que Cuba deu ao mundo e não estão dispostas a permitir que seja reduzida a escombros em silêncio.

Os Estados calculam, medem custos, avaliam riscos, pesam sanções. Os povos, quando estão organizados e conscientes, agem por convicção.

A solidariedade interestatal é frágil porque depende de governos, de ciclos eleitorais, de alianças mutáveis, alianças que hoje estão mortas. A solidariedade dos povos é mais lenta, mais difícil de articular, mas quando se ativa é diferente: não pode ser sancionada pelo FMI nem coagida pela NATO.

Não há outro país no mundo que tenha uma rede de movimentos de solidariedade tão extensa, persistente e enraizada em múltiplas gerações como Cuba. Esse tecido humano é um ativo estratégico que não aparece em nenhum balanço convencional.

A diáspora como quinta coluna inversa

Há um fator que o Pentágono parece ignorar, talvez porque não entre nos seus modelos de análise: a composição demográfica da emigração cubana nos Estados Unidos mudou muito nas últimas décadas. Os cubanos de Miami nos anos sessenta eram a elite branca que fugiu da revolução, proprietários expropriados, profissionais de classe alta, figuras do antigo regime batistiano. Eram o lobby mais feroz contra a revolução, o motor do bloqueio, a base social do exílio duro.

Hoje, a maioria dos cubanos nos Estados Unidos são emigrantes económicos das últimas décadas, chegados em balsas ou por terceiros países, com família na ilha, com vínculos afetivos e culturais intactos, com uma visão muito mais matizada da realidade cubana.

Se o império ousasse invadir, as bombas cairiam sobre as suas aldeias, sobre as suas avós, sobre os seus irmãos. Alguém acredita verdadeiramente que os milhares de cubano-americanos — os seus filhos e netos — receberiam essa guerra com entusiasmo?

O cálculo político é o inverso: o que o império teria não é uma retaguarda em Miami, mas uma quinta coluna dentro das suas próprias fronteiras, uma comunidade disposta a rebelar-se desde dentro do Amo.

Isto é o que a análise puramente institucional não pode ver, porque trabalha com categorias frias, alianças, interesses e recursos. O que escapa a essas categorias é a dimensão libidinal da política: o amor, o luto, a pertença. Um povo não é uma variável geopolítica. Um povo tem mãe. E quando as bombas caem sobre a mãe, o cálculo racional dissolve-se em algo mais antigo e poderoso.

Irão e Vietname: lições da resistência assimétrica

A heroica resistência do Irão face ao imperialismo mostrou-nos o caminho: onde caia alguém, aparecerão cem dispostos a empunhar as armas e a defender a pátria. Não é retórica, é a descrição de uma sociedade que interiorizou a defesa da nação como valor irrenunciável, que fez da resistência uma identidade coletiva mais forte que o medo.

Cuba tem esse mesmo ADN: é uma nação em armas não por conscrição forçada, mas pela consciência histórica acumulada em sessenta e cinco anos de cerco.

O Vietname ensinou que uma guerra não se decide unicamente no plano militar.

A Ofensiva do Tet de 1968 foi uma derrota tática para o Viet Cong e o exército do Vietname do Norte, que sofreram enormes perdas e não conseguiram sustentar as posições tomadas. Mas foi uma vitória política estratégica: demonstrou que podiam atacar em qualquer ponto do país, mesmo nos centros do poder sul-vietnamita, e quebrou a narrativa de Washington de que a guerra estava perto de ser ganha. A partir daí, a confiança da sociedade estadunidense na guerra começou a desmoronar-se. A guerra não se ganha ocupando território; ganha-se desgastando a vontade política do invasor. E essa vontade, nas democracias liberais com opinião pública e eleições periódicas, tem um limite mensurável em caixões e em pontos de aprovação presidencial. Cuba, com a sua geografia complexa, com a sua população preparada durante décadas de defesa territorial, poderia reproduzir esse cenário.

Uma invasão a Cuba não seria a operação cirúrgica de Granada nem o passeio do Panamá. Seria um atoleiro sangrento e prolongado, que duraria anos e custaria milhares de vidas estadunidenses.

A paradoxo do isolamento preventivo: morrer sozinho para não morrer juntos

Chegados a este ponto, devemos interrogar o mecanismo profundo que leva as potências que deveriam disputar a ordem unipolar a abandonar Cuba. A resposta superficial é o cálculo de custos: sustentar Cuba tem um preço em termos de sanções secundárias, de tensão com Washington, de risco comercial. Mas essa explicação é insuficiente, porque o abandono não é só racional; tem uma dimensão de satisfação, de alívio, que talvez só a psicanálise possa iluminar.

Existe na política internacional algo análogo ao que Freud descreveu como pulsão de morte no indivíduo: a tendência à autodestruição, ao regresso a um estado de quietude que se alcança à custa da própria vida.

Os atores que abandonam Cuba não estão apenas a calcular os seus interesses; estão também, de alguma forma, a renunciar ao seu próprio desejo de transformação. O abandono de Cuba é a renúncia à possibilidade de um outro mundo. É a aceitação, no fundo, de que a ordem do Amo é a única ordem possível, de que o capitalismo global é o horizonte insuperável da história.

Há nessa renúncia algo do que Marcuse chamou de dessublimação repressiva, que é a integração do sujeito no sistema através da promessa de pequenas satisfações que neutralizam o impulso radical. Os governos progressistas latino-americanos, as potências do BRICS, os partidos de esquerda europeus, as organizações solidárias que hoje olham para outro lado: todos encontraram, de uma maneira ou de outra, o seu nicho dentro da ordem. Obtiveram a sua quota de reconhecimento, o seu espaço de cômoda dissidência, os seus gestos permitidos. E nesse processo, deixaram de ver Cuba como um espelho do que poderiam ser, para vê-la então como um lembrete incómodo do que deixaram de ser.

Porque Cuba interpela: isso é o insuportável. Não que seja um fracasso, mas que seja uma pergunta permanente, dirigida a todos aqueles que, em algum momento, acreditaram que outro mundo era possível e depois decidiram que era demasiado custoso. Cuba pergunta-lhes: em que momento exato decidiste que a normalidade capitalista era preferível à luta? Em que momento exato entregaste o desejo? Essa pergunta é a razão profunda do bloqueio e do abandono.

Ao abandonarem Cuba, não estão a evitar o seu próprio fim; estão apenas a adiá-lo e a garantir que, quando chegar, se encontrem na mais absoluta solidão. Estão a cavar a sua própria sepultura com a desculpa de não sujarem as mãos com a terra da sepultura de Cuba. Porque aquele que escolhe salvar-se a si mesmo numa tempestade coletiva acaba isolado e depois subjugado. O Amo, uma vez que acaba com o irmão, não assina a paz com os que olharam; incorpora-os na lista dos próximos. Precisa sempre de novas vítimas para legitimar a sua existência.

A solidariedade como necessidade estratégica e ato de dignidade

O que testemunhamos nesta análise não é uma série de erros táticos isolados, mas uma profunda crise de consciência geopolítica e moral no progressismo global. Perdeu-se a noção de que a solidariedade não é um luxo moral reservado para os bons tempos, é uma necessidade estratégica e, ao mesmo tempo, a própria definição do que significa pertencer a um projeto político que aspira a algo mais do que a administração da ordem existente.

Cuba não é só Cuba: é a demonstração viva de que é possível resistir durante décadas ao cerco do poder mais grande do mundo e manter de pé um sistema de saúde universal, uma educação gratuita, uma cultura própria, uma dignidade irrenunciável.

Isso não prova que o modelo cubano seja perfeito: prova que a alternativa ao capitalismo global não é o caos nem o fracasso automático, mas que é possível e vale a pena construir algo diferente e até belo. Ao destruir Cuba, o império não está a eliminar uma ameaça militar, está a eliminar uma prova, está a apagar um exemplo. Pretende demonstrar que fora da normalidade capitalista não há vida possível.

Aqueles que entregam Cuba entregam-se a si mesmos. Não como metáfora, mas na ordem estratégica. Uma ordem mundial que diz chamar-se multipolar, mas não protege os seus membros mais vulneráveis quando o Amo aperta, não é uma ordem alternativa, é uma extensão descentralizada do mesmo domínio, um sistema onde a multipolaridade é a forma decorativa da unipolaridade efetiva. Ao traírem Cuba, dizem ao Sul Global: «se não tens petróleo ou uma posição geográfica vital para nós, não esperes nada». Isso, a longo prazo, priva-os de aliados autênticos e deixa-os num mundo onde só importa a força bruta: um mundo onde eles também, embora grandes, são vulneráveis.

Quando o império olha para Cuba, vê uma ilha pequena que pode bloquear e asfixiar quase sem consequências. O que não vê — ou o que não quer ver — é que essa ilha é um vulcão adormecido sobre uma falha tectónica global.

Cuba não é só a sua geografia, é a sua história, é o seu exemplo, é o sonho de milhões de pessoas que em algum recanto do mundo ainda acreditam que outro mundo é possível. E enquanto esse sonho existir, enquanto houver um povo que o encarne com a sua resistência quotidiana, a ordem do Amo não estará completa. Haverá sempre uma fenda. Haverá sempre uma pergunta sem resposta.

Se algum dia o império esquecer o Vietname, esquecer o Irão, esquecer que os povos não se rendem e se atrever a invadir a ilha, descobrirá que a guerra não se ganha com porta-aviões. Ganha-se com a capacidade de um povo para dizer «não» mesmo que lhe custe a vida. E esse «não» de Cuba, multiplicado por milhões dentro e fora da ilha, será a sua sepultura.

Entretanto, a batalha é outra. É a batalha pela vida quotidiana, pela luz, pela comida, pela esperança. E nessa batalha, os povos do mundo têm a palavra. Não para substituir os Estados, mas para os obrigar a agir. Para lhes lembrar que a história julga. Que o julgamento sobre aqueles que abandonaram a República espanhola foi severo e permanente.

Que o silêncio, quando pode ser rompido, é uma decisão. E que as decisões têm consequências.

Cuba pede ações concretas: o petróleo necessário, os navios, a custódia, a rutura do cerco financeiro, a proteção do espaço marítimo, a pressão real nos organismos internacionais. Pede que aqueles que dizem apoiá-la perguntem o que há a fazer e o façam. Não é um pedido de caridade, é uma exigência de coerência. Basta de declarações. Basta de mensagens de apoio que funcionam como álibi para a inação.

A pergunta final não é para Cuba. Cuba já deu a sua resposta com 67 anos de Revolução. A pergunta é para o mundo. Para aqueles que dizem querer uma outra ordem.

Para os que assinaram declarações e enviaram mensagens. Para os que têm petróleo e navios, mas não os enviam, ou votos relevantes na ONU que só empregam para se abster.

De que lado estás? Do lado dos que esperam que os Estados se decidam, ou do lado dos que já estão a agir? Do lado dos que enviam mensagens de apoio, ou do lado dos que enviam os navios e decidem enfrentar de uma vez os desígnios do Imperialismo?

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