domingo, 1 de março de 2026

A astúcia lulista: sobrevivência molecular que mantém o campo popular vivo onde a ruptura seria aniquilação. Por Sérgio Alarcon

"A astúcia do lulismo não é uma ideologia, mas uma inteligência prática de sobrevivência e transformação molecular que, ao navegar pelas restrições estruturais do Brasil, reconfigura o sensível e mantém vivo o campo popular onde a ruptura frontal seria aniquilação".

Eu não conheço ninguém que tenha conseguido reverter uma Lei Magnitsky” - Eduardo Bolsonaro

Agora é só Maduro dedurar o Lula” - Nikolas Ferreira

Se o Lula não tivesse ganhado a eleição em 2022 o Brasil teria virado uma Venezuela.” - Pedro Ronchi, pós sequestro de Maduro.

Superar o lulismo é um debate inadiável” - Jonas Manoel. 

Há um modo recorrente de interpretar a política brasileira, especialmente a partir de setores da esquerda, que oscila entre duas leituras igualmente paralisantes. De um lado, a narrativa da derrota histórica da esquerda dita “revolucionária”: a guerrilha fracassada, a institucionalização sem ruptura, a degeneração pragmática do projeto dos anos 1970-1980. De outro, a crença resignada de que, diante do fascismo social e do cinismo organizado do Centrão, resta apenas apoiar Lula como último dique possível - ainda que esse dique pareça fazer parte do próprio sistema que produz o desastre.

Nessa leitura, a esquerda teria se entrincheirado num dogma defensivo (“é isso ou o pior”); o PT teria se tornado o oposto do que nasceu para ser; e Lula apareceria ora como vítima da correlação de forças, ora como seu engenheiro perverso - ao entregar rádios aos evangélicos, ministérios aos fisiológicos, espaço ao orçamento secreto, teria capitulado integralmente. O resultado seria um circuito fechado: Lula enfraquece a esquerda ao governar; ao enfraquecer a esquerda, torna-se a única alternativa; e assim se perpetua como gestor inevitável de uma ordem que não transforma.

Essa crítica é intelectualmente sofisticada, mas opera num único regime de inteligibilidade: o da macropolítica, da estratégia transparente, do programa coerente, do sujeito histórico reconhecível e da transformação como evento legível. É uma política pensada como se o Brasil fosse um espaço iluminista, no qual a razão pública se expressa por meio do debate racional, da disputa ideológica clara e de instituições minimamente estáveis.

É precisamente contra esse pressuposto que, mobilizando autores como Jacques Rancière, William James (e algo de John Dewey, seguindo certa tradição do pragmatismo) - e a noção de métis, tal como elaborada por Detienne e Vernant e reconectada por Deleuze e Guattari ao campo da micropolítica, tentarei demonstrar como, sob outra perspectiva, funcionam Lula e o lulismo. 

Acho que todos esse autores, a seu modo, deslocam a política do plano da norma para o da prática, da experiência e da invenção situada. Mas alguns dirão que se trata de uma verdadeira colcha de retalhos conceitual - e podem estar certos -, mas a gente tem que exercitar às vezes aquele procedimento que Deleuze ensinou: permitir nos guiar pelos “intersessores”; deixar-se conduzir por encontros heterogêneos, mesmo quando entre eles não se ofereça, à primeira vista, qualquer promessa de conciliação sistemática.

Rancière nos lembra que o ódio à democracia raramente se dirige, em primeiro lugar, às instituições formais. Ele se volta, sobretudo, contra aquilo que essas instituições são incapazes de controlar: a irrupção da igualdade em lugares onde ela não foi previamente autorizada. Para Rancière, democracia não designa um regime político estável, nem um arranjo institucional consolidado, mas o nome do escândalo que emerge quando aqueles que, segundo a ordem dominante, “não deveriam governar” passam a contar, a falar e a interferir no comum, no coletivo.

A política democrática, nesse sentido, não se apresenta como uma epopeia racional guiada por consensos ou procedimentos técnicos. Ela se manifesta como um deslocamento do sensível: uma perturbação daquilo que pode ser visto, dito e pensado. Ao romper a chamada “ordem policial” - isto é, a distribuição hierárquica dos lugares, das vozes e das competências - a democracia introduz um ruído, um excesso, um desacordo que desestabiliza as fronteiras do possível.

Já Deleuze e Guattari, ao retomarem a métis grega (uma retomada implícita, não literal), descrevem uma racionalidade “menor”, astuciosa, que opera nos interstícios e nas turbulências dionisíacas - não o logos soberano apolíneo, mas a inteligência dos que não controlam o jogo e sobrevivem criando desvios, atalhos, acomodações táticas. É a sabedoria da mãe que estica o orçamento familiar, do sindicato que arranca ganhos sem romper o pacto, do favelado que dribla o Estado policial e o mercado predatório ao mesmo tempo. Certamente não visa algo grandioso como uma teoria da emancipação última e grandiosa; mas é ciência da sobrevivência criativa, in acto, na realidade, pois in potentia, em potência, no porvir que se sonha, não há o pão que mata a fome aqui e agora…

Aplicada ao lulismo, essa dupla chave - rancieriana e deleuzo-guattariana - permite uma leitura materialista menos, digamos, “moralizante”. O lulismo não é, em primeiro lugar, uma ideologia nem um programa coerente: é um modo de operar que emerge de experiências concretas da classe trabalhadora brasileira ou, em outras palavras, um modo de produção desejante imediato, maquínico, molecular que  emerge a partir das fábricas do ABC, das comunidades eclesiais de base, dos sindicatos, e das periferias racializadas. Trata-se de uma política que aprendeu, na prática, que no Brasil a ruptura frontal quase sempre termina em aniquilação - política ou literal.

Nesse sentido, o lulismo não representa a derrota da geração fundadora, mas sua metamorfose num terreno em que a revolução clássica se tornou estruturalmente inviável. A vontade de transformação não desapareceu; ela se molecularizou, como diria Guattari. Ela se deu sob a forma de crédito popular, valorização real do salário mínimo, formalização do trabalho doméstico, expansão universitária massiva, isenção do imposto de renda para milhões, políticas de transferência de renda e a entrada concreta de dezenas de milhões de pessoas na vida econômica, simbólica e cidadã do país. Não são apenas reformas administrativas: são, no sentido deleuzo-guattariano, produção de subjetividade (ou, em termos rancierianos, é uma reconfiguração do sensível). Diria, para horror de alguns, um “Marx menor”, cartográfico, situacional, sensível às forças reais do campo onde efetivamente a luta é ao mesmo tempo real e possível - in actu e potentia.

Aqui o diálogo com o pragmatismo deweyano parece-me oportuno e direto: a democracia não é aplicação de princípios universais, mas aprendizagem coletiva experimental sob condições imperfeitas. O lulismo, nesse registro, é política experimental em contexto de restrição estrutural.

A crítica à suposta despolitização lulista falha em perceber que, nas periferias, a política não se realiza prioritariamente na linguagem do debate público ilustrado, mas na linguagem da vida que tenta se organizar. Quando a filha da faxineira entra na universidade, quando a doméstica tem carteira assinada, quando o jovem negro acessa um instituto federal, não se trata apenas de distribuição de benefícios: trata-se de reconfiguração do campo do possível, do sensível - exatamente o tipo de deslocamento que Rancière identifica como político, ainda que não se anuncie como tal.

Acusar Lula de “fabricar” a correlação de forças que o limita é atribuir-lhe um poder quase soberano que ele nunca teve. A estrutura brasileira - neopentecostalismo de massa, patrimonialismo, rentismo, violência policial, oligopólio midiático - precede e excede qualquer liderança individual. Lula não cria esse diagrama; ele navega nele. E navegar não é endossar: é praticar a métis necessária para que o campo popular não seja simplesmente esmagado.

Para a leitura que chamei de “moralista”, isso é acomodação. Para a leitura genealógica, pragmática e micropolítica, é lucidez trágica sobre o terreno real da luta. No Brasil, o herói que tenta romper frontalmente a correlação de forças é rapidamente triturado - os exemplos últimos de Jango, Marighella, ou mesmo Brizola e Dilma, são lembranças incômodas disso. A astúcia que desloca gradualmente a estrutura permanece viva, e com ela a própria possibilidade de conflito futuro.

A política brasileira nunca coube na narrativa da vanguarda heróica nem na da derrota total. Ela opera num regime híbrido, mestiço, micropolítico, experimental, ensaístico. Como sugerem Rancière, Dewey e Deleuze-Guattari, a democracia real não se apresenta como ordem estável nem como redenção final, mas como processo instável de abertura do campo do comum. No Brasil, essa abertura raramente vem como épico; surge como infiltração, rearranjo, invenção cotidiana.

Obviamente a métis não substitui a crítica - ela a torna, talvez, mais precisa. Sim, o lulismo está longe de ser revolucionário no sentido clássico. Sim, a esquerda institucional perdeu capacidade organizativa. Mas também é verdade que, sem a astúcia lulista, o campo popular teria sido devastado pela ofensiva fascista-oligárquica recente. Risco que, aliás, ainda existe.

"Este artigo acima reforça uma opinião que costumo expressar: se o nosso olhar do campo popular focar apenas na macropolítica, o pessimismo e o derrotismo prevalecem. Por outro lado, ao priorizarmos a micropolítica — o trabalho cotidiano e prático, sem perder a conexão com o todo — percebemos o quanto se pode avançar 'por baixo' das grandes estruturas. Isso nos livra da paralisia dos debates puramente intelectuais e elitistas, que criam uma perfeição virtual sem aderência à realidade complexa e contraditória em que o povo vive. É dessa base que retiro o combustível para continuar acreditando em transformações possíveis, mesmo que não tenham o alcance totalizante que desejaríamos."

Zezito de Oliveira


 Abaixo, via IA Deepseek 

Com base na leitura atenta do artigo fornecido, os autores citados e suas respectivas ideias ou conceitos (presentes de forma implícita ou explícita) são:

Autores Citados e Conceitos Associados

Jacques Rancière:

Ideia/Conceito: O "ódio à democracia" e a definição de política como "irrupção da igualdade".

Explicitação no texto: O autor usa Rancière para argumentar que a democracia não é um regime estável, mas o "escândalo" que ocorre quando aqueles que "não deveriam governar" passam a contar e a interferir no comum. Isso se conecta à análise do lulismo como uma "reconfiguração do sensível" — quando a filha da faxineira entra na universidade ou a doméstica tem carteira assinada, ocorre uma "perturbação daquilo que pode ser visto, dito e pensado", rompendo com a "ordem policial" (a distribuição hierárquica dos lugares).

William James:

Ideia/Conceito: Filiação ao Pragmatismo (ênfase na experiência e na prática).

Explicitação no texto: O autor menciona James ao situar seu argumento dentro de uma tradição que desloca "a política do plano da norma para o da prática, da experiência e da invenção situada". Serve como base para a crítica à visão "iluminista" da política.

John Dewey:

Ideia/Conceito: Democracia como "aprendizagem coletiva experimental".

Explicitação no texto: O autor conecta Dewey diretamente à sua tese, afirmando que "a democracia não é aplicação de princípios universais, mas aprendizagem coletiva experimental sob condições imperfeitas". Isso é usado para interpretar o lulismo como uma "política experimental em contexto de restrição estrutural".

Marcel Detienne e Jean-Pierre Vernant:

Ideia/Conceito: A noção de métis (a inteligência astuciosa, a sabedoria prática e adaptativa).

Explicitação no texto: Os autores são citados como a fonte original do conceito de métis, que é central para a argumentação. A métis é descrita como a "racionalidade 'menor', astuciosa, que opera nos interstícios" — a sabedoria da sobrevivência criativa, do desvio e da acomodação tática em situações adversas.

Gilles Deleuze e Félix Guattari:

Ideia/Conceito: Micropolítica, produção de subjetividade, "intercessores" e a retomada da métis.

Explicitação no texto:

Retomada da métis: Eles são mencionados por terem "reconectado" a métis "ao campo da micropolítica".

Intercessores: O autor utiliza o procedimento ensinado por Deleuze de se deixar guiar por "intercessores" (encontros heterogêneos) para construir seu argumento, mesmo que pareçam uma "colcha de retalhos conceitual".

Micropolítica e Produção de Subjetividade: O lulismo é interpretado como um "modo de produção desejante imediato, maquínico, molecular". A vontade de transformação, no lulismo, não desapareceu, mas se "molecularizou" (conceito de Guattari). As políticas sociais são vistas como "produção de subjetividade", transformando a vida concreta das pessoas.

Ideias e Conceitos Presentes sem Autoria Específica (ou como síntese do argumento)

Além dos autores citados, o texto mobiliza e contrapõe conceitos implícitos que são fundamentais para a argumentação:

Macropolítica vs. Micropolítica: Esta é a oposição central do texto. A crítica que o autor combate opera no regime da "macropolítica" (estratégia, programa coerente, sujeito histórico). A análise proposta opera no campo da "micropolítica" (práticas cotidianas, invenção situada, produção de subjetividade).

"Marx menor": O autor cunha essa expressão para descrever uma análise "cartográfica, situacional, sensível às forças reais do campo", em oposição a uma teoria da emancipação grandiosa e última.

Moralismo vs. Materialismo / Genealogia: O texto distingue a crítica "moralizante" (que vê o lulismo como traição ou derrota) de uma leitura "materialista", "genealógica" e "micropolítica" (que o vê como adaptação e luta pela sobrevivência em um terreno hostil).

Experiência histórica brasileira (Jango, Marighella, Brizola, Dilma): O autor usa esses exemplos históricos (de forma implícita) para defender sua tese: no Brasil, a "ruptura frontal" (tentativa de confrontar diretamente a correlação de forças) leva à aniquilação, validando assim a métis lulista como uma estratégia de sobrevivência e deslocamento gradual.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O que a politica nacional de cultura viva tem a ver com a afirmação do deputado Marcos Pereira "´ócio demais faz mal" em defesa da manutenção da escala 6X1 ?

 O presidente nacional do Republicanos, deputado federal Marcos Pereira, afirmou que vê com preocupação a proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da jornada 6x1. Em entrevista, o parlamentar declarou acreditar que o trabalho está diretamente ligado à prosperidade e fez críticas ao que considera excesso de tempo ocioso.  “Eu acho que quanto mais trabalho, mais prosperidade. Claro, tem que ter lazer, mas ócio demais faz mal”, afirmou. Ele ainda argumentou que a redução da jornada poderia expor pessoas a riscos sociais. “Vai ficar mais exposto a drogas, a jogo de azar. Pode ser o contrário, ao invés de lazer, pode ser o mal. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade? Ou no sertão lá do Nordeste?”, questionou.

A Política Nacional Cultura Viva (PNCV) e a afirmação do deputado Marcos Pereira sobre a jornada 6x1 representam visões opostas sobre o papel do tempo livre, do lazer e da cidadania nas populações vulneráveis. Enquanto o parlamentar argumenta que o tempo livre ("ócio") pode expor os pobres a riscos sociais por falta de opções de lazer, a Cultura Viva foi criada justamente para garantir que essas mesmas comunidades sejam protagonistas de sua própria produção cultural e tenham acesso pleno a seus direitos.

Abaixo, detalho as conexões e os contrastes entre a política pública e a declaração citada:

1. Garantia de Direitos Culturais vs. Riscos do "Ócio"

O deputado afirma que a redução da jornada poderia expor pessoas a "drogas e jogos de azar" por falta de opções de lazer em comunidades ou no sertão. Em contraste, a Política Nacional Cultura Viva tem como objetivo central garantir o pleno exercício dos direitos culturais aos cidadãos, especialmente para grupos em situação de vulnerabilidade social. 

PNCV: Foca em fornecer meios e insumos para que as próprias comunidades produzam, registrem e difundam sua cultura.

Contradição: A afirmação do parlamentar sugere uma carência de opções que a PNCV busca suprir ao reconhecer e apoiar as atividades culturais já existentes nesses territórios.

2. Protagonismo Social vs. Vulnerabilidade no Lazer

Marcos Pereira questiona: "Qual é o lazer de um pobre numa comunidade?". A Política Cultura Viva responde a essa pergunta através dos Pontos de Cultura, que são o eixo central da política.

Os Pontos de Cultura não são apenas espaços de recepção de lazer, mas centros de fomento a grupos e ações culturais com experiência comprovada em suas localidades.

A política visa estimular o protagonismo social, transformando o que o deputado chama de "ócio" em tempo de criação, formação e convivência comunitária. 

3. Lazer como Direito e Qualidade de Vida

A afirmação associa o tempo fora do trabalho ao "mal", enquanto as políticas públicas de lazer e a PNCV o veem como essencial para a saúde, bem-estar e coesão social. 

Políticas de lazer visam facilitar o acesso à arte e entretenimento para todos, independentemente da situação socioeconômica.

Atividades culturais e de lazer são comprovadamente eficazes na redução do estresse e ansiedade, promovendo a inclusão social e a equidade. 

Comparativo de Perspectivas

Ponto de Análise Visão da Afirmação (Marcos Pereira) Visão da Política Cultura Viva

Tempo Livre Visto como "ócio demais", potencialmente perigoso ("pode ser o mal"). Visto como tempo para o exercício da cidadania e direitos culturais.

Pessoas Pobres Consideradas vulneráveis a riscos sociais se tiverem tempo livre. Consideradas protagonistas e beneficiárias prioritárias de fomento cultural.

Comunidades/Sertão Descritos como locais com falta de opções de lazer legítimo. Reconhecidos como polos de diversidade e riqueza cultural que devem ser apoiados.

Papel do Estado Insinua que o trabalho contínuo protege o indivíduo. Garante recursos para que a comunidade desenvolva sua própria vida cultural.

Leia também: 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O ócio criativo, segundo o sociólogo italiano Domenico De Masié a união harmoniosa entre trabalho, estudo e lazer. Diferente da preguiçaé um estado ativo onde o tempo livre é usado para gerar conhecimento e criatividade, resultando em inovação e maior qualidade de vida, ao invés de apenas exaustão. 

Este vídeo explica o conceito de ócio criativo de Domenico De Masi:





quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

"Ócio demais faz mal", diz presidente do Republicanos contra o fim da escala 6x1 - O povo não tem dinheiro. Vai ficar mais exposto. Ao invés de lazer, pode ser o mal. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade?',

Fonte: Página Anarcomiguxos no Facebook

] Essa fala é interessante porque expõe claramente três pensamentos intrínsecos da classe dominante (e que infelizmente o pobre de direita não vai entender:

1) para a classe dominante, o pobres não podem ter tempo pra pensar. Daí sempre fazerem o possível para que os pobres descansem apenas o mínimo possível pra não colapsarem ou mesmo que trabalhem até a exaustão. Daí os ataques a qualquer feriado que exista no Brasil.

2) para a classe dominante os pobres não têm direito a festejar (vejam os ataques ao Carnaval). É uma ideia de que festejar seria uma "recompensa" ao "mérito"... e no capitalismo só tem mérito quem tem fortuna, logo, "permitir" que os pobres festejem seria como premiar quem "não merece". 

Embora eles sejam contra o Carnaval (por motivos religiosos) de uma forma geral, não teriam nenhuma problema se este fosse restrito aos "bailes de máscaras" de clubes privados ou aos camarotes do sambódromo. O "problema" é o Carnaval de rua onde qualquer pessoa pode simplesmente improvisar uma fantasia com o que tiver em casa e ir se divertir com amigos e vizinhos sem pagar nada por isso.


Eles abominam a ideia de pobres, com tempo livre, se divertindo.

3) para a classe dominante, principalmente a classe dominante dos países com histórico escravagista, essa história de "Deus, Pátria e Família" é um lema para os ricos, para eles pobres não têm família, eles produzem mão de obra. Até porque eles não pensam que os mais  pobres possuam sentimentos familiares. A continuação da fala desse cidadão é afirmando que os pobres não ficariam com a família se tivessem tempo livre, porque "os brasileiros não são assim".

Qualquer unidade de brasileiro que já tenha convivido com estrangeiros do Norte vai ter ouvido em algum momento sobre como povos do Sul têm uma vida girando em torno da família (tudo é feito em família e todos estão sempre juntos) enquanto no Norte saem de casa com 18 anos e às vezes passam anos sem falar com parentes (mesmo os pais).

E eu tenho certeza que ele só disse isso porque o que ele realmente pensa seria impublicável, sabendo que esse nível de pensamento elitista é aceitável para uma parte dos pobres e mesmo reproduzido por eles, eu tenho certeza que o que ele realmente gostaria de ter dito é muito pior


"Ócio demais faz mal", diz presidente do Republicanos contra o fim da escala 6x1
'O povo não tem dinheiro. Vai ficar mais exposto. Ao invés de lazer, pode ser o mal. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade?', questiona Pereira
26 de fevereiro de 2026, 06:57 h

Portal 247 - O presidente nacional do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP), afirmou ter levado ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), preocupações sobre a Proposta de Emenda à Constituição que prevê o fim da jornada de trabalho 6x1. Em entrevista à Folha de São Paulo, o parlamentar declarou ser contrário à votação do tema em ano eleitoral e apontou possíveis impactos negativos para a economia brasileira.

Pereira relatou que externou sua posição diretamente a Motta e ouviu do presidente da Câmara que a tramitação da PEC buscaria assegurar protagonismo ao Legislativo diante da possibilidade de o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apresentar um projeto de lei sobre o assunto.

Ao comentar a proposta, Pereira afirmou: “Estou muito preocupado. Eu já demonstrei ao Hugo Motta a minha contrariedade ao tema. Não é o momento para se debater. Poderia se debater em outro momento, mas em ano eleitoral é muito sensível, porque expõe a Casa [Câmara]. Às vezes até tem que votar [favorável] por conta de ser um ano eleitoral, porque o eleitor pode não entender bem se você votar contra, por exemplo. Eu estou preocupado”.

Ele argumentou que, conforme notas técnicas do setor produtivo, a mudança pode elevar custos. “Pelas notas técnicas do setor produtivo, vai encarecer mais ainda. Pode ficar ruim para todos, porque vai tirar mais ainda a competitividade do setor produtivo brasileiro”, declarou.

Sobre a decisão de pautar a matéria, Pereira relatou a justificativa apresentada por Motta: “Ele falou ‘vamos fazer um debate’. No momento que ele despachou para a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), ele me disse: ‘Eu estou fazendo isso porque se eu não fizer, o governo vai fazer, então é melhor que a Casa tome o protagonismo’”.

Questionado sobre a comparação feita por Motta entre a PEC e marcos históricos como a criação da CLT e o fim da escravidão, o dirigente partidário afirmou: “Me surpreendeu um pouco. A CLT, com todos os méritos, tem muitos problemas. É só você comparar com os países com pleno emprego e economia mais pujante. A gente tem um abismo”. Ele também citou diferenças de custo trabalhista e tributário em relação a países europeus e à China.

Ao abordar a demanda por mais tempo de lazer, Pereira declarou: “Eu acho que quanto mais trabalho, mais prosperidade. Claro, a pessoa tem que ter lazer, mas lazer demais também, o ócio demais faz mal”. Ele acrescentou que a população enfrenta limitações econômicas: “O povo não tem dinheiro, infelizmente. Vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar. Pode ser o contrário. Ao invés de lazer, pode ser o mal. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade? Ou num sertão lá do Nordeste?”.

Banco Master e investigações
Sobre o caso envolvendo o Banco Master, o deputado afirmou que as investigações devem seguir seu curso. “Isso é um negócio que você vê como ele começa, mas não sabe como termina. Está a cargo da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário”. Ele ressaltou que recursos públicos precisam ser apurados: “É dinheiro público. Tem que ser investigado e, se comprovadas fraudes e crimes, serão penalizados, não tenho dúvidas”

Pereira também destacou que o Fundo Garantidor de Crédito envolve recursos privados e que o sistema financeiro deve se organizar sob regulação do Banco Central

Disputa política e cenário eleitoral
No campo político, o presidente do Republicanos avaliou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ocupou espaço na direita após a prisão de Jair Bolsonaro (PL). “Não tem vácuo. Acho que foi ocupado por ele [Flávio]. Se o Bolsonaro apoiar você, você já sai com 20%. E tem 15% de antipetismo, aí já vai a 35%. Ele já está no segundo turno. São os números que estão aí”, afirmou

Ao comentar decisões tomadas pelo PL sem diálogo com outras legendas, declarou: “Não é uma coisa que ajuda no debate, na aproximação. [...] Isso distancia”. Sobre eventual apoio em 2026, disse que a discussão interna começará após o prazo da janela partidária

Questionado se considera que Jair Bolsonaro tentou um golpe de Estado, respondeu: “Eu acho que golpe de Estado você só dá se você tiver o apoio das Forças Armadas. Se tentou, não teve o apoio. Mas eu não sei. Não participei, não conheço, não me debrucei nos autos do processo que o julgou, então prefiro não dar essa opinião”

Pereira também afirmou não se incomodar com críticas ao Congresso e reiterou posições liberais na economia, defendendo privatizações amplas, com exceção de Banco do Brasil, BNDES, Caixa Econômica Federal e Petrobras

Aos 53 anos, Marcos Pereira é advogado, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, está em seu segundo mandato como deputado federal e já ocupou o cargo de ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços no governo Michel Temer (MDB)


Ao atacar o fim da escala 6x1, o deputado federal Marcos Pereira acabou fortalecendo justamente a campanha por mais descanso. Ao sugerir que trabalhadores pobres não saberiam o que fazer com um dia livre a mais — associando de forma preconceituosa lazer a vícios e desordem — o presidente do Republicanos, partido de Tarcísio de Freitas, transformou um debate trabalhista em julgamento moral. O argumento mistura fé com política pública, confundindo Teologia da Prosperidade com Filosofia da Exaustão, e levanta uma questão central: cabe ao Estado decidir qual é o caminho da virtude de cada trabalhador?

Descanso não é sinônimo de desvio. Direitos trabalhistas não são ameaça moral. A história mostra que avanços como a jornada de oito horas enfrentaram resistência, mas se consolidaram porque equilibrar trabalho e vida fortalece a sociedade. A pergunta não é o que o pobre fará com mais tempo livre. É por que alguém precisa trabalhar seis dias seguidos para provar seu valor. O debate sobre a 6x1 precisa de dados e respeito, não de estigmas. Trabalhadores não precisam de tutela. Precisam de dignidade.






quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Acompanhe por aqui as novidades do Ponto Ação Cultural 2025/2026

 



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O que é a Politica Nacional Cultura Viva? O que são Pontos de Cultura?


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Ponto de Cultura Ação Cultural inicia período de inscrição da oficina "Cinema na Palma da Mão" direcionada para integrantes de grupos culturais do Bairro Industrial e Adjacências

    O Ponto de Cultura Ação Cultural inicia, na segunda quinzena de março, a primeira turma da oficina de audiovisual com celular: "Cinema na Palma da Mão". As inscrições estão abertas para integrantes de iniciativas culturais localizadas no Bairro Industrial e arredores.

     sábado, 21 de fevereiro de 2026 

    Cineclube Realidade e Fratelli Tutti em ação

     sábado, 21 de fevereiro de 2026 - Já estamos no tempo de organizar o calendário e outras questões de logistica para o  início das oficinas de audiovisual e de teatro, bem como a continuidade do Cineclube Realidade. Crianças, adolescentes e jovens ligados à Paróquia São Pedro Pescador — e a comunidade em geral do Bairro Industrial e arredores — receberão um presente muito caro a quem é comprometido com a formação humana integral, na linha do que propôs o Papa Francisco na Encíclica Fratelli Tutti (Todos Irmãos) e por outras palavras e gestos de seu pontificado, endossados e continuados por seu sucessor, Leão XIV.




     

    O que é a Politica Nacional Cultura Viva? O que são Pontos de Cultura?

     Fonte: Instagram do Pontão de Territórios Rurais e Culturas Alinentares








    Ponto de Cultura Ação Cultural inicia período de inscrição da oficina "Cinema na Palma da Mão" direcionada para integrantes de grupos culturais do Bairro Industrial e Adjacências

      O Ponto de Cultura Ação Cultural inicia, na segunda quinzena de março, a primeira turma da oficina de audiovisual com celular: "Cinema na Palma da Mão". As inscrições estão abertas para integrantes de iniciativas culturais localizadas no Bairro Industrial e arredores.


       Para quem corresponde ao critério de participação em uma iniciativa cultural no Bairro Industrial e adjacências e tem interesse/tempo disponível, pode se inscrever aqui


      Ter um integrante capacitado em audiovisual com celular é um diferencial estratégico para grupos de cultura de base comunitária (como capoeira, hip-hop, quadrilha junina, teatro, dança e etc.), pois transforma o celular  em uma ferramenta potente de resistência, registro e sustentabilidade cultural.

      As principais vantagens para o grupo incluem:

      1. Preservação da Memória e Identidade

      Registro Autêntico: O audiovisual permite imortalizar narrativas, ritmos e movimentos que poderiam se perder com o tempo, criando um acervo de "memória viva" do grupo.

      Documentação de Mestres e Trajetórias: Facilita o registro de mestres de capoeira, coreografias de quadrilhas e a evolução do hip-hop local, garantindo que o conhecimento ancestral e contemporâneo seja transmitido fielmente.

      2. Visibilidade e Difusão Cultural

      Alcance Digital: O grupo passa a produzir conteúdos (videoclipes, minidocumentários, teasers) que podem ser compartilhados em redes sociais, rompendo barreiras geográficas e alcançando novos públicos.

      Combate a Estereótipos: Ao dominar a própria imagem, o grupo deixa de ser apenas "objeto" de estudo e passa a ser narrador da sua própria história, combatendo preconceitos através de uma perspectiva interna e autêntica.

      3. Sustentabilidade e Captação de Recursos

      Acesso a Editais: Muitas leis de incentivo, como a Lei Paulo Gustavo, exigem ou valorizam registros audiovisuais (como portfólios em vídeo e videoclipes) para a aprovação de projetos e recebimento de recursos.

      Profissionalização: A capacidade de produzir fotos e vídeos com qualidade técnica (foco, iluminação e edição) melhora a imagem do grupo para contratantes de festivais e eventos.

      4. Fortalecimento da Cidadania e Protagonismo

      Letramento Digital: A oficina promove a inclusão produtiva e o protagonismo juvenil, integrando a tradição cultural com as novas tecnologias.

      Ferramenta de Denúncia e Reflexão: O audiovisual pode ser usado para evidenciar problemas da comunidade e mobilizar discussões sobre direitos e políticas públicas. 

      AÇÃO CULTURAL JUVENTUDE E CIDADANIA

      Projeto contemplado no Edital de Chamamento Público nº 11/2024 – Rede Municipal de Pontos de Cultura de Aracaju, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Nacional Cultura Viva. Ministério da Cultura e Governo Federal, com participação da Funcaju, Prefeitura de Aracaju.

      Cineclube Realidade

      Reunir pessoas em uma sessão de obra audiovisual seguida de uma roda de conversa entre o público para compartilhar suas percepções sobre a obra. De novembro de 2025 a novembro de 2026, uma vez por mês no espaço de convivência da Igreja São Pedro Pescador e de forma itinerante em escolas e sede de grupos culturais e associações.

      Oficina de Audiovisual com Celular - Cinema na palma da mão.

      Capacitar os participantes a criar, filmar e editar vídeos de alta qualidade utilizando dispositivos móveis. Para adolescentes/jovens e professores de escolas públicas. Em março e abril de 2026 na Igreja São Pedro Pescador e em escolas do bairro industrial.

      Oficina de Teatro

      Estimular a expressão artística e a reflexão cidadã dos participantes. Em março e abril de 2026 na Igreja São Pedro Pescador e em escolas do Bairro Industrial, voltado à adolescentes e jovens residentes no bairro industrial e adjacências

      Mostra Arte e Cidadania,

      Promover a valorização e divulgação das diversas expressões culturais e artísticas do Bairro Industrial e de outras comunidades da periferia, proporcionando um espaço de interação entre artistas e público e fomentando o acesso à cultura. Em Maio de 2026 no Bairro Industrial

      Seminário introdutório de Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social.

      Promover um espaço de reflexão e diálogo sobre Educação Popular, Ação Cultural e Participação Social visando potencializar iniciativas culturais com viés emancipador, solidário e participativo. Em Junho de 2026 no auditório da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Sergipe voltada a agente culturais com atuação em escolas e comunidades periféricas de Aracaju.

      Transmissões de lives de formação cultural

      Promover a formação cultural em geral por meio de quatro transmissões ao vivo de noventa minutos, abordando temas diversos do setor cultural, ampliando o acesso à informação e incentivando o debate. A transmissão será realizada pelo canal da Ação Cultural nos meses de agosto e setembro, destinada prioritariamente a agentes culturais que atuam com populações marginalizadas e periféricas


      Professores (oficineiros)  
      Marcel Magalhães –  Roteirista, produtor, diretor cinematográfico (DRT 0637), e coordenador de tecnologias sociais, na área da cultura digital. Em sua trajetória já participou de importantes festivais de cinema, como a Mostra de Cinema de São Paulo, In-Edit, Curta-SE, Festival Internacional del Cine Latino Americano de Havana, dentre outros. Foi produtor executivo e curador, do festival Fantasnor, da Mostra de Cinema Infanto-Juvenil “Curtinha”, e da Mostra de Cinema do Crasto. Também foi produtor e montador do documentário “Morena dos Olhos Pretos”, longa-metragem sobre a vida e obra da cantora Clemilda, considerada a rainha do forró, que hoje integra o catálogo da In-Edit TV, sendo distribuído pela O2 play. Além disso, desde 2017, integra iniciativas de economia criativa através do The Human Project, com os projetos LuCA e PLOC, onde auxilia jovens de comunidades do interior de Sergipe a se desenvolverem e ingressar no setor de audiovisual.


      Raoni Smith - É filmaker e comunicador em Aracaju, SE. Apaixonado por contar histórias visuais, atua na captura de momentos únicos, sempre valorizando a autenticidade. Iniciou o caminho no audiovisual através de oficina de audiovisual no Ponto Ação Cultural (2016). Técnico  em Rádio e TV, participou como assistente de direção de fotografia da série documental América: Reconstruindo Aracaju. Atualmente, é bolsista Agente Jovem Cultura Viva do Pontão Cultura Digital e Midia Livre   Durante a pandemia, atuou no suporte técnico de lives da Ação Cultural. Trabalhou nas Rádios Cultura e Fan FM, operando programas ao vivo e realizando cinegrafia. Em 2023, ministrou o curso virtual Uso das Novas Tecnologias para membros do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), abrangendo participantes de diversos estados brasileiros.




















      segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

      TRÊS RIOS - Diário de navegação sobre águas ameaçadas. Célio Turino

      Madeira, Tapajós e Tocantins são artérias de água e vida. Nutrem a biodiversidade e os povos da Amazônia. A privatização pode reduzi-los a rotas mortas, para escoar soja e minérios. Os indígenas resistem. Está na hora de derrubar o Decreto 12.600



      Escrevo navegando contra a corrente. 

      Antes de partir convido quem queira navegar comigo. Começo pelo Rio Madeira, partindo de Porto Velho até Nazaré, comunidade ribeirinha situada a mais de 100 quilômetros da sede do município. Foi antes da pandemia de Covid, quando fui para participar de um encontro de Museologia Social. Ali, o rio é parente, água que cozinha, que banha, que alimenta. São festas, memórias do tempo da borracha, identidade cultural amazônica, resistência. No caminho, dragas de mineração. Muitas, alocadas lado a lado a quase perder a conta. O barulho do motor, os garimpeiros separando ouro de cascalho, o mercúrio ficando no leito. 

      Vi aquelas cenas com tristeza, horas a fio. Um mês antes o rio Madeira havia subido dezessete metros sobre o seu leito normal. Uma devastação que deixou marcas, plantações arrasadas, casas com marca d’água até o teto, ribanceiras assoladas, encostas desabadas, troncos flutuando às margens. Uma enchente provocada. Daí pensei em um proverbio antigo, que ouvi de ribeirinhos de outro rio, o Tietê de São Paulo, cantadores do cururu: “Deus criou a cheia dos rios, o homem, a enchente.”. Como tantos desastres, aquela cheia dantesca não havia sido natural. Rio acima, as Usinas Hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau haviam mudado o fluxo das águas. Por conta das fortes chuvas rio acima, as águas represadas foram liberadas de uma única vez.

      O rio havia inundado tudo em questão de horas, mal dando tempo para os ribeirinhos se protegerem, muitos perderam móveis, a criação. Nos dias de permanência no encontro, banho no igarapé, troca de ideias e o imaginário amazônico. Na volta, antes de entrar no barco, desequilibrei-me e caí no rio barrento em que foi transformado o Madeira. Tripulação e passageiros ficaram preocupados, mas foi bom, eu tinha que mergulhar naquele rio. Foi susto e batizado.

      Voltei atento, contando novamente as dragas, imaginando o ouro extraído e o mercúrio a empestear o leito. Também pude avistar alguns botos acompanhando a embarcação. Um momento de alegria, assim como a visão das melancias transportadas nos pequenos barcos ribeirinhos. 

      Passados dez anos, sei que as dragas para extração de ouro continuam lá; dizem que em menor quantidade, felizmente, mas ainda assim seguem derramando mercúrio no leito do rio. E há outras dragas, mais industriais, agora o objetivo é para aprofundar o leito para agilizar o escoamento de mercadorias. Quais? Soja, milho, carnes... Não há melancias nem frutas da mata, nem mandioca, essas continuam com baixo valor e seguem transportadas em canoas. Mas os grãos que vem das imensas plantações do Centro-Oeste precisam de barcaças enormes e calado profundo. É preciso aumentar o lucro até que alcancem aos portos do Amazônia e os destinos além-mar. 

      Mais soja, mais milho, mais carnes... 

      Mais dinheiro, mais ganâncias e desigualdades.

      E o rio a virar estrada da ambição. Dragagem parece engenharia neutra. Não é. O fundo do Madeira, como o do rio Tapajós, carrega mercúrio acumulado por décadas de garimpo. Garimpo que nada mais deixou a não ser exploração e intoxicação. Revolver o leito significa reintroduzir esse metal pesado no fio d’água, contaminando flora e fauna aquática. O mercúrio, no contato com as bactérias, é transformado em metilmercúrio, uma potente neurotoxina ingerida pelos peixes e depois acumulada no tecido desses. E quanto maior o peixe, mais toxina é acumulada. A neurotoxina atinge sangue e cérebro, também a placenta, esse organismo temporário que se forma no útero para sustentar o feto. Pela placenta o feto recebe oxigênio e nutrientes. Com o mercúrio dentro do corpo, no lugar de filtrar resíduos, a placenta irá infiltra-los com veneno. Ë uma bioacumulação em toda cadeia alimentar, dos peixes pequenos aos grandes e desses aos humanos, aos que estão a nascer também.

      Toda cadeia alimentar é contaminada, ouro que vira morte e desolação. Diversas pesquisas em saúde pública já identificaram elevados níveis de mercúrio entre as muitas comunidades amazônicas, sobretudo ribeirinhas e indígenas. Impactos neurológicos a atingirem pessoas, ainda mais as crianças. Os frios dados estatísticos se transformam em tremor na mão de indígenas e ribeirinhos. Isso as planilhas jamais serão capazes de descrever. Comprometido o feto, o bebê nasce com dificuldades sensoriais e de locomoção. O andar cambaleante, a fala arrastada, os tremores, a perda de audição ou visão, tudo isso acontece em quem é contaminado por mercúrio. É preciso separar ouro de cascalho. E o que sobra é jogado fora.

      Mas, quem se importa? 

      São ribeirinhos perdidos na floresta perdida. 

      As águas, as matas, tem que dar passagem ao lucro descomunal.

      Crianças que jamais iremos ver, quando adultos, se um dia forem vistos, talvez alguém diga: “- que gente atrasada, nem sabem andar, mal falam, sequer olham nos olhos do interlocutor. Falta-lhes progresso!” Esse alguém irá virar o rosto e seguir em marcha ao que ele julga progresso.   

      Enquanto navego em texto os números do agronegócio também me acompanham. O Brasil exporta aproximadamente US$ 170 bilhões por ano em produtos agropecuários. Para ordem de grandeza o número aproximado já é o suficiente. Diferente dos números da cobiça, quando falamos de gente é necessário ser preciso, por isso descrevo o dano descrito acima. É o que o dinheiro provoca.

      Navegando tortuosamente, volto ao Agro. Cerca de metade da pauta exportadora nacional tem origem na grande plantação. Em meus tempos de colégio aprendi que o modelo colonial de exploração era baseado nas Plantation; passados séculos, o nome mudou para Agro, mas sob o mesmo modelo. A soja é campeã. Mais de 50% das exportações do grão passam por grandes tradings globais. Entre elas, a Cargill (logo vou chegar no porto dela), gigante do agronegócio multinacional, propriedade de trinta e cinco bilionários. Sim, trinta e cinco pessoas que nem sabemos o nome, que nunca pisaram nessa terra nem navegaram em seus rios, acumulando mais de um bilhão de dólares cada uma. Exemplifico pela Cargill, mas outras, como Bunge ou chinesas, não são diferentes dela. Apenas essa empresa responde por aproximadamente 16% das operações de exportação do agronegócio brasileiro. Coisa de R$ 126 bilhões em 2023, e lucro anunciado de R$ 2,4 bilhões. Anunciado e declarado foi isso, mas suspeito que o lucro é maior. Enfim... 

      Navegando um pouco mais nas informações fui procurar o investimento anunciado pela empresa para 2024 no Brasil: R$ 1,7 bilhão. Anunciado com pompa, como se fosse grande coisa, grande auxílio à nação brasileira. Investimento comemorado por empresários, governo e imprensa, ao menos pela imprensa que anuncia que o Agro é Pop. R$ 1,7 bilhão mal ultrapassa 1% do faturamento da empresa em um ano. Investimento em logística, porque para tecnologia e inovação o aporte é quase zero. Afinal, o modelo vigente é o mesmo que garante o lucro há quinhentos anos de exploração, desde o tempo da Plantação. O lucro da Cargill (e de outras como ela) concentra-se na logística e na intermediação comercial global, como no tempo do Mercantilismo colonial. 

      O dano ambiental dispersa-se nas margens. E com forte subsídio do Estado. Quem paga é povo com seus tremores neurológicos e vidas devastadas. Na safra  de 2024 o Agronegócio recebeu mais de R$ 400 bilhões em crédito, além de estimados R$ 158 bilhões as renúncias fiscais. Parte considerável desse crédito e renúncias fiscais foi aplicada na compra de venenos e agrotóxicos (opa! “defensivos agrícolas”) proibidos em outras partes do mundo. 

      Só para comparar, sem desviar da navegação. Enquanto isso a agricultura familiar, que representa a maioria dos estabelecimentos rurais e 70% da produção dos alimentos consumidos no país, recebeu cerca de R$ 76 bilhões. Para os grandes, e os mais grandes, que nem vivem no Brasil, exportações desoneradas e cadeia de valor favorecida; para o povo, uns trocados e custos ambientais socializados (e com muita doença junto). 

      Toda essa vastidão de renúncias fiscais e crédito subsidiado sequer vem acompanhada de condicionantes ecológicas estruturantes. Ao contrário, não contentes, querem devastar mais. Para o avarento só a acumulação imediata importa. Expansão da fronteira até o último palmo de terra, a última árvore derrubada, a última gota d’água. Expandir a fronteira agrícola, particularmente na Amazônia, significa floresta derrubada, rios envenenados e gente arruinada.

      Há um ciclo na devastação. Primeiro o comércio ilegal de madeira, depois o pasto para pecuária, depois a agricultura. Assim a terra se transforma em reserva de valor e a floresta torna-se etapa transitória da commodity. O solo exposto carrega sedimentos e agrotóxicos para os rios. Com menos árvores na floresta o ciclo hidrológico se altera. Diminuindo a evaporação produzida pelas árvores dissipam-se os milagrosos rios voadores. Esses que regulam as chuvas no estado de São Paulo e parte de Minas Gerais, Mato grosso do Sul e oeste do Paraná. Não fosse a evaporação gerada pela floresta Amazônia esse canto do mundo na faixa do trópico de Capricórnio seria um imenso deserto, como acontece com os demais territórios situados na mesma linha, o Atacama, Kalahari e Outback, também situados na mesma linha. NO sudeste do Brasil é diferente unicamente porque há os rios e florestas amazônicos, os ventos do leste e os Andes a rebater as nuvens. Mas agora, o que começa na floresta derrubada e no rio envenenado termina na água contaminada e na seca programada. 

      Do Madeira desemboco no Tocantins. 

      Navegar de memória e imaginação permite esses pulos. Saio de Marabá até alcançar as margens do Tocantins em frente ao Pedral do Lourenção. Que berçário! Imensas pedras feito ilhas, por quilômetros de rio. Navego em um pequeno barco, atraco entre as pedras e caminho sobre o pedral. Pedras imensas, vivas. Que lugar de abundância! A pedra ali não é obstáculo, é arquivo geológico, berçário de peixes, saber acumulado na relação entre água e tempo.

      Com amigos, estendemos uma faixa em defesa do Pedral. Eu estava com Silvana, amada companheira de viagens, a convite de Dan Baron e Manoela; foi um rio de encontros. Éramos poucos, foi há mais de uma década, navegamos em defesa daquelas rochas que são ventre, ameaçadas desde antes. 

      A cobiça não tem limites nem dá sossego para a vida, e insiste: quer implodir o Pedral! 

      A todo custo, não importa o que vão destruir. Querem o projeto de derrocamento explodindo as formações rochosas. Pela morte vão fazer passar gigantescos comboios de grãos. A questão não é a hidrovia, que existe nos três rios, barcos passam por lá desde há muito tempo, circulam mercadorias, há conexão de comunidades. O ponto é a ganância. Querem mais. Sempre querem mais. Barcaças enormes a atravessarem o rio até o dia em que não haverá mais rio. Só leito seco. Mas aí já haverão ganhado muito dinheiro e partirão para destruir outro lugar.

      A palavra é técnica. O impacto, não. Alterar o Pedral do Lourenço significa modificar a hidrodinâmica do Tocantins, interferindo nos ciclos reprodutivos da ictiofauna (quem sabe escrevendo em palavra técnica eu serei melhor escutado). Isso vai reconfigurar os modos de vida dos ribeirinhos. Sem peixe não há vida ribeirinha, nem cultura da abundância. 

      Recordo da volta. No caminho por estrada avistei uma imensa gleba de moradia popular sendo construída com recursos do “Minha Casa, Minha Viva”. Centenas de casinhas apertadas, janelas mais ainda, dessas de alumínio, que abrem apenas uma aba, para entrar luz e ar uns 30 centímetros de largura por cinquenta de altura. Aquele calor na periferia de Marabá, casinhas com janelas minúsculas, sem luz natural, sem vento, sem árvores, sem quintal. No meio da floresta derrubada. Para lá iriam os ribeirinhos amputados do sistema ecológico complexo e abundante em que viviam. Tiveram o rio roubado. Foi assim também em Altamira após Belo Monte. Hoje a cidade é assolada por três epidemias: violência, pobreza e depressão.

      Discursos oficiais, de todos os lados, havendo passado governos de diferentes matizes, alegam que é preciso explodir o Pedral para promover “destravamento logístico” e promover o desenvolvimento. Só se for (des)envolver, sair do envolvimento. Assassinato da natureza para gerar riqueza para uns poucos, os de sempre. Sempre os de sempre. Assassinando a natureza entulha-se as pessoas. Quando o Estado/Mercado dinamita a pedra, não está apenas abrindo caminho para barcaças, está escolhendo quem vai ganhar (poucos) e quem vai perder (muitos).

      Do Tocantins navego ao Tapajós. 

      O sol incide oblíquo sobre a superfície verde-dourada. Alter do Chão, o Caribe amazônico e suas águas translúcidas entre a areia branca. Agora a tensão é presente. 

      Dessa vez navego de longe, alucinadamente procurando notícias em redes sociais, relatos de amigos. O governo federal editou o Decreto nº 12.600/2025 no mês de agosto do ano passado. O decreto qualifica trechos dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no âmbito do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), autorizando estudos e procedimentos para concessão dos rios à iniciativa privada, que poderá utilizá-los como hidrovias e outras fontes de negócio. Concessão, o novo nome para privatização. 

      Com o decreto do governo empresas privadas poderão estruturar, manter e explorar economicamente esses “corredores logísticos” para transporte de cargas, especialmente grãos e minérios. Rios vivos, comunidades de seres, reduzidos a corredores logísticos, modelagens de concessão, administração privada, dragagem revolvendo o leito dos rios, operação de trechos fluviais integrados ao “sistema nacional de exportação”. Nem se esconde a intenção: cobrança de passagem. 

      Tudo resumido em um ato administrativo, como se não existisse vida por lá. O Decreto nº 12.600/2025 precisa ser revogado imediatamente!

      É ilegal. Descumpre a Convenção 169/1989 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Povos Indígenas e Tradicionais, do qual o Brasil é signatário. Pela Convenção da OIT é exigida “Consulta Livre, Prévia e Informada pelas populações afetadas por grandes empreendimentos. Para os que gostam de siglas: CLPI. Governos são obrigados a consultarem povos afetados por medidas e obras de impacto ambiental, a consulta tem que ser livre de manipulações, prévia a qualquer medida de impacto, e as comunidades precisam ser bem informadas sobre todos os efeitos resultantes do empreendimento. Revogar o decreto é um imperativo ético, civilizatório e legal. 

      Com essas três hidrovias abertas a grandes embarcações, haverá impactos cumulativos irreversíveis. A dragagem libera contaminação, o mercúrio, e não só, depositado no leito dos rios Madeira e Tapajós vai contaminar toda a comunidade de seres que habita aquele rio. O transporte de grande porte irá gerar pressão territorial, violência fundiária. Pensem nos “Parentinhos”, como os pequenos indígenas de vários povos se chamam. É tão lindo vê-los sorrindo, pulando n’água, brincando, se divertindo.

      Revogar o Decreto nº 12.600/2025 não é favor, é obrigação do Estado.

      Navego sob a lembrança de um outro Ato de governo, assinado há mais de vinte anos. Portaria nº 156 de 6 de julho de 2004, que constituiu o Programa Cultura Viva. Através dessa Portaria o Estado brasileiro chegou aos pontos mais afastados, esquecidos e silenciados do país, incluindo esses três rios. No Tapajós chegou com um Ponto de Cultura instalado em um barco, “Saúde e Alegria”; creio que ainda é Ponto de Cultura, mas, mesmo que não receba mais o reconhecimento oficial, o é na prática. Com “Saúde e Alegia” navega-se levando atendimento médico, cultura, palhaçaria, livros e leitura, comunicação comunitária. 

      No Tapajós, como em outros cantos e barrancos, Pontos de Cultura florescem como faróis ribeirinhos. O Estado chegou dispondo, não impondo. Cultura Viva não é ornamento; é infraestrutura social que fortalece autonomia e protagonismo sociocultural. Com ela o rio não é via de escoamento, é eixo de comunidade.

      Dois decretos, dois programas de governo, dois tempos diferentes. Um mede sucesso por tonelada (de grão ou minério) exportada; outro, media o êxito por Saúde e Alegria no território. 

      Minha navegação vai chegando ao fim. 

      Não sem antes reafirmar, esse ato administrativo que privatiza rios (podem usar o eufemismo de concessão, mas é privatização) é um gesto político profundo de desprezo à dignidade da natureza e suas gentes. Rios são comunidades de seres, cheios de histórias, de vida, encontros, transformá-los em infraestrutura concedível e mercantilizada é de uma violência inominável. 

      Chego a Santarém. Um dia talvez escreva sobre a cerâmica ancestral e a confluência de vidas por essas bandas da abundância. Mas com esse ensaio navegante finalizo falando dos indígenas e ambientalistas que ocupam, neste momento, o porto da Cargill. É o povo em levante. São milhares, combativos e firmes. Como firmes e combativos foram seus ancestrais, que o colonizador só conseguiu derrotar no século XVIII. Protestam contra o decreto. Mas não é só contra o Decreto, lutam pela vida, deles e de todos nós. 

      A resistência indígena que acontece agora em Santarém, sobre a qual busco migalhas de informação, uma vez que a chamada grande imprensa impõe censura sobre os fatos, é, neste momento, o fato mais relevante de luta popular em 2026. 

      Distante. Como navegante de memória e imaginação, vejo rostos, ouço cantos e quero empunhar faixas lado a lado a eles. Gritar ao coração do mundo até fazer as pessoas escutarem o rio. Nesse momento meu grito é escrita silenciosa, mas expressa a mesma agonia dos parentes indígenas, da gente de consciência, que sabem que o rio sendo ferido. Escrevo como lamento e grito to para que outros escutem e se juntem a essa luta. Onde quer que estejam, na forma que puderem.

      A resistência indígena representa a defesa de outra concepção de mundo. É Bem Viver. Não é acumulação, é distribuição. Para os povos do Tapajós, e todos os povos de raiz em todas as partes do planeta, o rio é sujeito de relação, comunidade de seres. E o Bem Viver que não cabe na planilha de exportação. 

      Entre o decreto governamental, a ganância empresarial e o canto indígena, há uma escolha civilizatória. Se transformarem o rio em ativo logístico, concedido, aprofundado, retificado, mercantilizado, o território vivo deixará de ser respeitado em seus limites ecológicos e culturais. Será via morta. E morreremos todos, até os que não vivem lá.

      Os três rios contam a mesma história sob perspectivas distintas. No Madeira, o sedimento carregando mercúrio da avidez (que acontece também no Tapajós); no Tocantins, o pedral ameaçado pela explosão; no Tapajós, o povo em união, oferecendo os corpos como barragem ética para toda a nação. 

      Três rios. 

      Três advertências. 

      E uma pergunta que corre junto com a correnteza:

      Que país queremos ser quando decidimos coisificar o destino das águas que nos mantêm vivos?




      Olhando Belém 





      Segue link para quem quiser conhecer mais sobre a campanha do protocolo da cultura viva.

      Em editorial vergonhoso, Globo diz que indígenas “chantagearam” Lula: O texto atribui aos povos originários “invasão de propriedade privada”; o Estadão fez um editorial na mesma linha #revistafórum