Fonte: Revista digital IHU da Unisinos.
Quando os estudiosos escreverem sobre a história do envolvimento da Igreja Católica com a tecnologia da informação moderna, dedicarão uma seção ao mês de março de 2026, quando o Vaticano publicou dois documentos importantes sobre o mundo digital emergente.
O artigo é de Massimo Faggioli, professor de Eclesiologia Histórica e Contemporânea no Instituto Loyola da Trinity College Dublin. É coeditor do Manual Oxford do Vaticano II e seu livro mais recente é Teologia e educação superior católica: além da nossa crise de identidade (Orbis Books), publicado por Sapientia, 16-03-2026.
Eis o artigo.
O primeiro é o relatório do Grupo de Estudos nº 3 sobre a fase de implementação do Sínodo sobre a Sinodalidade (2021-2024), intitulado A Missão no Ambiente Digital, que aborda a questão de como a Igreja pode aprender com, adaptar-se a e levar adiante a sua missão num universo virtual. Foi publicado em 3 de março e parte de uma constatação: “A cultura digital já é um lugar onde as pessoas vivem, pesquisam e formam comunidade, e deve ser tratada como um verdadeiro lugar de missão.”
O segundo documento é Quo vadis, humanitas? (“Para onde vais, humanidade?”). Foi divulgado um dia depois, em 4 de março, pela Comissão Teológica Internacional e centra-se nas implicações da tecnologia para a antropologia cristã. O argumento central pode ser resumido na abertura do parágrafo 108: “Os desafios decorrentes do progresso da biotecnologia, da robótica e da inteligência artificial, mas também da imaginação cultural generalizada, põem em causa a experiência elementar que os seres humanos têm de si mesmos em termos concretos, isto é, a experiência na qual moldam a sua identidade.”
O fato de esses desenvolvimentos na tradição católica em torno da tecnologia da informação estarem ocorrendo durante o sexagésimo aniversário do Concílio Vaticano II tem um efeito potencialmente alienante. O decreto conciliar Inter mirifica, “sobre os meios de comunicação social”, é um dos primeiros documentos aprovados pelos padres conciliares, em 1963. Sua visão da relação da Igreja com os meios de comunicação pressupunha um mundo onde existiam guardiões encarregados de filtrar, selecionar e controlar o fluxo de informações disseminadas ao público: de fato, a Igreja era um desses guardiões, e não apenas nos meios de comunicação católicos, mas também com certa influência nos meios de comunicação seculares.
As reflexões do magistério sobre os meios de comunicação de massa no período pós-Vaticano II compreenderam os desafios que a Igreja enfrentava na crescente sociedade midiática. As implicações da eclesiologia do Concílio foram observadas na transição do eclesiocentrismo para o cristocentrismo, explicitada em um documento do Vaticano de 1971 que destacava “Cristo como o Comunicador Perfeito” (Communio et Progressio, Instrução Pastoral sobre os Meios de Comunicação Social, emitida pelo Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais).
Poucos anos depois, em 1975, Paulo VI já notava o problema de que “o cansaço produzido hoje em dia por tanta conversa fiada e a relevância de muitas outras formas de comunicação não devem, contudo, diminuir o poder permanente da palavra nem causar uma perda de confiança nela” (Evangelii Nuntiandi, 1975, par. 42).
Contudo, mesmo em 2013, no primeiro documento programático do Papa Francisco, Evangelii Gaudium, a palavra “digital” nunca é usada. Dois anos depois, em 2015, o Vale do Silício entrou em contato com o Vaticano para iniciar um diálogo sobre o futuro da tecnologia da informação e como torná-la “boa”.
Mas esse era o Vale do Silício de 2015. Nesta última década, muita coisa mudou na cultura moral, antropológica e (para)religiosa dos novos senhores do universo. O que também mudou foi um certo sensus technologiae, a sensação de confiança que temos neste novo mundo. O fácil acesso à mais recente tecnologia da informação e um ambiente digital sem regras nos fizeram acreditar que não havia mais intermediários, que cada um era seu próprio autor, editor, publicador e assessor de imprensa. Acontece que existem intermediários — apenas novos, menos visíveis e menos responsáveis. A igreja claramente não é um desses intermediários.
A revolução digital pode vir a ser tão consequente quanto a Reforma Protestante (por exemplo, a relação pessoal com as Escrituras graças à imprensa) ou a Revolução Francesa (o fim do antigo regime da cristandade). Essa revolução digital amplia uma cultura midiática que demonstra, a cada dia, menos interesse pelo passado como algo a ser aprendido e valorizado, e não simplesmente monetizado. Como já argumentei em outro lugar, o cristianismo, e o catolicismo em particular, não podem prescindir de um forte senso de passado.
Para os indivíduos e corporações responsáveis por essas tecnologias, o melhor mundo é aquele abandonado à completa anomia e fragmentação. É um caos planejado, mas não é o “nada”. Há uma ideia “pararreligiosa” de uma nova gênese, “e então houve luz”, originada numa concepção semidivina da IA como Deus “na máquina”, um “Deus in machina” em vez do artifício teatral grego do “ Deus ex machina”. Certas concepções de história, tradição, pessoa humana, natureza, cosmos e Deus estão sendo desafiadas de maneiras que fazem o Iluminismo, o Marxismo, Darwin e a psicanálise parecerem insignificantes em comparação.
Mas, em meio a toda essa turbulência, a igreja ainda ocupa um lugar especial. Podemos constatar isso pelo investimento ideológico feito pelos magnatas da tecnologia do Vale do Silício e seus seguidores políticos em uma forma particular de “cristianismo”, um ativo no mercado de visões de mundo que ainda possui algum valor. Nessa abordagem “cristã”, persiste a antiga tentação neoconservadora de conquistar Roma e o catolicismo romano como um passaporte ideológico que confere o direito de ultrapassar as barreiras da modernidade política, especialmente a democracia liberal – como disse recentemente Alberto Melloni, de enxergar o catolicismo como uma “Groenlândia moral”.
Mas existe outra tentação, dentro da Igreja, que é transformá-la em apenas mais um centro de dados — para fins de marketing, para apropriação ideológica, não importa. Isso representa, em todos os sentidos, uma diminuição do catolicismo, pois significaria, na prática, o uso dos textos da tradição católica como matéria-prima — dados gratuitos — para conteúdo de inteligência artificial “que as pessoas compram de nós por metro”, como disse Sam Altman, CEO da OpenAI, em março de 2026.
Trata-se, na prática, da comercialização de vozes teológicas digitais geradas por inteligência artificial, que visam competir com a verdade viva, sacramental e encarnada do cristianismo. A heresia, no sentido de desvio formal do ensinamento ortodoxo, seria, nesse ponto, um problema quase menor.
Do ponto de vista empresarial e político, fez todo o sentido que Peter Thiel fosse a Roma para suas palestras secretas sobre o Anticristo em março de 2026. Essas palestras coincidiram com os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, o que alguns chamaram de "a primeira guerra da IA". Aconteceu também enquanto a primeira encíclica do Papa Leão XIV passava por revisões finais, um documento programático para o papado que muitos acreditam que dedicará muita atenção à IA e à revolução tecnológica.
Em breve veremos qual é a posição do ensinamento do Vaticano, embora a tradição católica até o Papa Leão XIV já tenha dado algumas indicações claras.
Uma questão ainda maior é como o catolicismo nos EUA lidará com este “admirável mundo novo”. Após a Revolução Francesa, houve uma tentativa de forçar os líderes da Igreja a jurarem lealdade ao novo poder secular, considerado superior ao Papa. Essa tentativa fracassou. Sob o recente pontificado do Papa Francisco, forças internas da Igreja tentaram um golpe semelhante. Agora, o desafio à Igreja vem de um espírito digital global e incorpóreo, que tem aliados tanto nos poderes deste mundo quanto na Igreja atual. A Igreja certamente sobreviverá, mas qual será o custo para nossas almas e nossa humanidade?
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