sexta-feira, 17 de abril de 2026

A CHANCE DO PAPA. NOTA - Romero Venâncio (UFS)

 Ao Papa Leão XIV vem se oferecendo uma chance rara neste mundo atual. Talvez por sorte ou acaso. Obviamente, um desses mais católicos que o Papa (tipo: o vice-presidente dos EUA, por exemplo) pode objetar dizendo que Papa não pode acreditar em acaso porque tem a “providência divina” a seu favor. Mas pode não ser essa providência que o mundo de não-católicos espera. Discussão inútil diante das urgências do mundo contemporâneo. No campo da geopolítica mundial, percebemos que “homens sem qualidades mas com poder” se destacam e mandam… E lideram. Figuras depravadas em todos os sentidos ou sem grandeza alguma (mas com imenso poder!) se destacam e se tornam “exemplo” para o mundo. E nem precisa insistir que isto é um desastre e que coloca quase que diariamente o mundo em risco.

Digo isto pensando no filme: “Papa Francisco: um homem de palavra”. Um documentário que demonstra a grandeza de um Papa numa quadra histórica em que a própria figura de Papa estava em grande desgaste devido aos predecessores de Francisco. Nesse filme podemos ver como uma liderança religiosa conseguiu ser em um determinado momento da história, o único estadista de uma velha Europa devastada por suas contradições e pela desqualificação total de suas lideranças políticas e laicas. A secular Europa da revolução francesa e de seus grandes filósofos, estava perdida e totalmente refém da política dos EUA quando pontificava no Vaticano o Papa Francisco. Vejo que o Francisco de Roma aproveitou o momento e se tornou uma grande liderança. Pena que num curto papado de 12 anos.

Leão XIV tem sua chance(s). Ainda mais com esse nome nada humilde de “Leão” (animal conhecido vulgarmente como “rei da selva” e nada mais atual do que selva para pensarmos neste mundo). Penso cá com meus botões, este Papa leonino tem três chances de se colocar perante o mundo como uma liderança diferente dos modelos de plantão.

Primeiro. Recuperar humildemente algumas “intuições” de seu predecessor na condição de estadista. Leão XIV não precisa deixar de ser ele, de ter sua personalidade. Aprender com Francisco apenas e seguir. Aprender o que? se diferenciar dessa forma de ser e fazer dos políticos de plantão que mandam no mundo e que Trump é o ponto alto. Há um nítido fracasso triunfante em políticos como Trump e seus apoiadores. O mundo inteiro vive um vazio de “Grande Ser” em termos geopolíticos (pode ser homem ou mulher!). Uma figura que possa empunhar uma bandeira que traga sentido às existências vulneráveis diante de tanto horror e iniquidade que assola os mundos. Tudo isto em seu conjunto pode ser uma grande chance para um Papa que afirma não fazer política como a que já temos. Leão XIV disse não fazer política como Trump e disse mais: não ter medo dele. Foi um bom sinal. Mas só, por enquanto.

Segundo. Leão XIV tem chance de olhar com mais cuidado e se deter mais nos vulneráveis deste mundo cansado de guerras, fome e abandono total. Se o Papa fizer destas questões a razão de sua missão neste mundo, já se tornará um homem necessário e um aliado aos que restam nesta empreitada no mundo e que não têm o mesmo poder e liderança religiosa do pontífice. No vazio deixado pelos discursos protocolares ou cansativos destes políticos de plantão do mundinho apequenado deles, Leão XIV tem a grande chance de se destacar e liderar. Agora com uma ressalva: Leão XIV não é Lênin e nem se quisesse, seria. Papa não é revolucionário. Papa é Papa e a história tem demonstrado (em tempo. Vale a leitura de: “Santos e pecadores: história dos Papas” de Eamon Duffy).

Terceiro. Aproveitar a bandeira da paz para desmoralizar mundialmente Donald Trump. O presidente/empresário que vem desse esgoto de uma burguesia decadente e poderosa. Essa burguesia está devastando o mundo. Leão XIV tem a chance de transformar a luta pela paz numa luta contra a cultura trumpista que vem se tornando modelo para gerações. Em termos teológicos, Trump encarna uma triste “teologia do domínio”. O Papa deveria se colocar diametralmente oposto a essa “teologia”. Uma teologia do humanismo radical contra uma teologia do domínio. Uma paz que não se limite a palavras protocolares e sem engajamento. Uma paz nítida e com profundo sentido. Toda guerra é devastação e morte. Nada mais. 

Estaria Leão XIV a altura de um grande projeto num mundo como o que estamos vivendo? não saberia responder. Apenas sei disto: a chance ele tem… 

Do editor do blog, abaixo

 Quando vi pela primeira vez a imagem do novo Papa , tive um sentimento de paz e tranquilidade. O porquê eu não sei dizer, mas fiquei com a confiança de que não seria como Francisco, mas tampouco decepcionaria. Para quem almejou reformas mais profundas , como as que Francisco desejou e até buscou, mas sem conseguir realizar, Robert Prevost poderia ser menos do que o esperado, mas como acredito no tempo como campo de presença do espírito santo, não me abalei, e nem me abalo. Ao final estamos aqui nessa quadra histórica tão bem desenhada pelo professor Romero Venâncio, um papa Leão que não esperava rugir com a força moral  que tem. Deus Pai/Mãe, como afirmou o papa sorriso, João Paulo I, continue abençoando o Papa Leo e todos àqueles que carregam a bandeira da paz e da justiça.. Até porque são indissociáveis...



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