sábado, 11 de abril de 2026

ANTES TARDE DO QUE SEM. NOTA SOBRE UMA DERROTA. Para onde caminha a humanidade que se diz cristã, ou uma boa parte... Por Romero Venãncio (UFS)

Não se trata de pessimismo ou niilismo, mas de olhar para dentro do problema com sinceridade de quem vive um momento histórico percebendo uma onda avassaladora que arrasta quase tudo que tem pela frente. Saindo da aparente abstração inicial, falamos de como um movimento criado de carismáticos a tradicionalistas calibrados por uma leitura neoliberal de mundo, dentro e fora da Igreja, ganhou as bases da Igreja Católica e solapou todo um projeto que nasceu do impulso do Concílio Vaticanos II, das conferências episcopais dos anos 60 e 70 e que gestou um caldo cultural progressista que atingiu o tecido social católico latino-americano. Como explicar o que estamos vendo diariamente nas redes digitais e na realidade eclesial?


Não acredito que exista explicação única para fenômenos sociais e religiosos. Mas acredito naquilo que prepondera em determinado momento histórico e vai se tornando hegemônico na estrutura social da organização. Nenhum fenômeno social é natural, nome já diz. Foi construído numa determinada conjuntura oportunizada por uma série de fatores. Por exemplo, do movimento carismático (com seu louvor exacerbado, a ênfase no indivíduo e seus problemas, o culto da família ideal católica e toda uma série de espiritualismos que supostamente combatia os pentecostais protestantes) aos vários tradicionalismos dentro desse catolicismo atual (que jogaram e jogam todo peso no liturgismo e no culto a tradição), chegamos em 2026 num momento oportuno para compreendermos onde estamos. 

Mais objetivamente, em apenas um exemplo: vi e revi o encontro do Pe. Paulo Ricardo com algumas irmãs do Instituto Hesed criado pelas freiras Maria Kelly Patrícia e Maria Jane Madeleine. Estavam numa mesa de cozinha tomando um café descontraídos e conversando de maneira simples sobre coisas graves na Igreja atual, mas mediado por câmeras de última geração, com imagem cinematográfica e som perfeito. Nas imagens, um palavreado relambido, tolo, espiritualista e completamente alheio ao mundo real de pessoas reais. Falas que definimos como conservadoras, mas mediadas por câmeras de última geração, lembremos. Falando para o mundo que as redes digitais podem atingir. As irmãs com aquela vozes suaves, passivo-agressivas, pieguistas e subservientes. O padre falando como uma espécie de “vigário de um Brasil da cabeça dele” pontificando sobre rosário, sobre uma ideia de Deus e a unidade da Igreja Católica no Mundo. “Somos um batalhão”, dizia o pe. Paulo Ricardo com ar triunfalista e sorumbático. Se juntarmos Frei Gilson, Canção nova, padres cantores, celebridades religiosas de plantão e uma legião de “youtubers” diariamente bombardeando “identidade católica”, rosário dia e noite, comunhão na boca, missa tradicional e ataques às conquistas do Concílio Vaticano II, temos um grande caldo cultural do que é o catolicismo hoje, independemente do que pensa ou faz a CNBB (sabendo que boa parte da CNBB faz parte de tudo isto!).

Para não dizer que não falei de flores, uma confissão pessoal: nunca acreditei em morte da Teologia da Libertação. O que ocorreu de fato foi um sufocamento, uma criminalização e total emparedamento de teólogos, freiras, leigos/leigas e parte considerável episcopado latino-americano e tudo tramado dentro própria Igreja Católica. E sabemos os nomes de quem tramou: a Cúria romana nas gestões de João paulo II e Bento XVI, Núncios apostólicos espalhados pelo mundo católico e toda uma mentalidade de classe média que odeia o mundo dos pobres. Essa gente turbinada com os mais avançados meios de comunicação  e um discurso conservador, tratoraram todos os espaços progressistas na Igreja. E o trator aqui não é apenas metáfora. Não sobrou nada? É evidente que não. Temos ainda uma “minoria abraâmica” lutando desesperadamente nas comunidades e timidamente nas redes digitais. Nessas redes está uma derrota real da Teologia da Libertação. O conservadorismo tecnológico da esquerda católica é de uma cegueira olímpica. O que restou foram raros bispos, poucos “padres da caminhada”, um laicato desorientado e sem capacidade crítica diante de “messianismos políticos” sem futuro. Desde o Concílio Vaticano II e o que veio dele, uma coisa é certa para o laicato; sem formação bíblico-teológica, não sobrevive nesse catolicismo rolo-compressor de massas e de cunho autoritário e ostentatório.

Uma coisa parece ser o horizonte de toda essa “euforia católica” triunfalista e vencedora advinda desses eventos massivos e pirotécnicos. Não vence a Igreja de Cristo, mas a Igreja do ego deles/delas. A realidade é implacável. Todo esse triunfalismo e moralismo com uma Igreja abarrotada de escândalos morais e sacrifícios inúteis. De número alarmante de suicídios de padres aos inúmeros abusos sexuais que solapam a teologia moral propalada pela Igreja. Uma Igreja modernosa tecnologicamente, mas homofóbica cheia de homossexuais reprimidos em seu seio, misógina e desamparada diante dos sofrimentos psíquicos promovidos pelo neoliberalismo avassalador. Figura deprimentes como pe. Fábio de Melo agoniza em praça pública chafurdando em sua formação tola de padre vítima desses seminários que perderam o rumo teológico e de “culto a panos” e tradicionalismo autoritário e vazio. Uma pena, mas é real.



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